22 novembro 2008

Amores de Perdição

Não há bairro que as não tenha. Airosas ou atabalhoadas, as tascas são a segunda casa do genuíno alfacinha. A boa vida das gentes.

Aqui na capital, onde cada vez se come pior, se é mais enganado e desarmado perante a coragem para tanta trapacice culinária, é difícil encontrar casas que vivam mais pela vocação e menos para o negócio. Falo dos restaurantes vulgares que proliferam por toda a Lisboa, exímios no croquete que sabe a tudo menos a carne, que se nos cola à dentadura, embrulha na goela, e não há meio de ir para baixo se não ao empurrão de qualquer coisa líquida de paladar acentuado... é uma bofetada que, caramba, não merece quem vem, de boa vontade, com fastio ou apetite, comer. É o come e cala. O paga e siga, andor, há mais quem queira. Amanhã torna a vir, e tudo se repete com o rissol de camarão, em massa grossa como parede mestra, recheio minado a caules de salsa e cascas do bicho, enchumbado em óleo, e é se quer... “Olhe que é fresquinho.” O “fresquinho” mata qualquer um, cala o atrevido, embrulha o esquisito e regala as donzelas.

Falando nelas, antigamente, Deus as livrasse de entrarem nas tabernas que ganhavam famas. A tasca estava para os homens como o lugar para as mulheres. E que faziam afinal estes homens que não queriam lá as suas damas? Jogavam, gastavam o sustento, bebiam até cair, nas alegrias, nas tristezas, nas horas mortas, nas horas vagas, sem ninguém a atazanar. E conseguiam fazer exactamente o mesmo que elas, penduradas às janelas. Teciam a vida alheia, mandavam brasa, opinião, levantavam falsos testemunhos, arranjavam confusão, intrigalhada da pior. Com muito saber, muita categoria, sim, que dali nada saía. Era a diferença. Ouviam em casa para contar nesse “escritório”. Ouviam no “escritório” para satisfazer o túmulo, o poço sem fundo de homens que eram, com letra grande, aquele H que jamais suscita engano, nem ao mais ignorante magano.

Hoje gosta-se da tasquinha. De uma tasquinha asseada. Gabarolas na ementa, no jarro de tinto, na factura generosa. É tudo bom. Tasca que é tasca deve ter comida simples mas apurada, vinho avulso de uma qualquer região – Aveiras no topo dos fornecedores, para azar dos alfacinhas – pão de lenha, sem manteiga, e azeitona, que tanto calha de ser verde como preta. Quem manda na tasca é a tasca. É o dono, é a mulher do dono, é a filha, é o rapaz, anafado e velado na camisola Ronaldo, que leva a tarde a empanturrar-se de Bollycaos e declina todo o petisco da mãe. Aqui não há patrão e as regras não se discutem, assim como os lucros, que nem dão azo a comentários, muito menos a invejas. Aqui entra de tudo, não há discriminação, selecção de freguesia. Quem quer fica, quem não quer vai andando. Numa tasca o jogo é limpo. Prognósticos ou reclamações só no fim da patuscada, longe da porta ou entre dentes.

E nesta cidade de oitos e oitentas, com cada vez mais restaurantes de luxo e cozinha de autor, andam as tascas desanuviadas. Ao contrário dos congéneres ricos, que tanto se nos dá onde fiquem, a tasca tem que ter enquadramento. Tasca é coisa de rebuliço, é do povo morador, é do munícipe. Há-de ter balcão que ampare os cotovelos de quem não se dá sentado. Há-de estar num largo, na mais linda artéria da freguesia, há-de ter vista para muitos lados e portas escancaradas, há-de ter próxima a paragem, a passadeira, as escadinhas. Há-de ter varandas por cima, roupa a secar, e no mínimo, uma velha a coscuvilhar. Se é ribeirinha, tem de ver o rio ou sentir-lhe o cheiro. Lisboa tem muitas tabernas, algumas famosas, outras só do bairro, para o bairro, com as suas horas de ponta, imperdíveis. Ao fim da tarde, desagua tudo ali. Tratam-se por tu, viram-se crescer, sabem quem morreu, quem não paga a renda e em Junho marcham juntos na Avenida. Sem o saberem, são uma família.

Era uma sexta estrelada ali na Praça da Armada. Os magalas da Marinha, em serviço no fim-de-semana, até se roíam de inveja. Só que os grumetes não podem largar a porta, nem que ao fundo vejam nítida a sua aldeia. No Beirão, entra-se e tanto se pode estar na Beira, como em Trás-os-Montes, como em qualquer bairro de Lisboa. O tecto baixo não perdoa e dissemina as pronúncias portuguesas. O avô diz come o caldo, o neto diz que antes prefere a chicha. Tás com a mosca? Tu-és-mes-mo-da-ha… Venham os carapaus, o arroz solto à moda de Bragança e o tal de Aveiras, tinto. O Sporting diz adeus à Taça. Agarra-te à cabeça, agarra. O balcão à cunha. Entra um tipo de roupão. Turco, raso, sem cor. Um boné verde e vermelho, as quinas de Portugal na testa. Os chinelos de fazenda, herdou-os – tem os calcanhares de fora. Vem ao tabaco. Isso pensava ele. Que magnético balcão… Atracou. Perdido por cem... olha o Júlio! No Beirão, as janelas dão à Praça, à calçada inclinada, à buganvília do 31 da Armada, ao chafariz, ao parquinho dos miúdos, dos graúdos, altas noitadas, grandes futeboladas debaixo dos jacarandás.

Já ia no segundo, quando o “puto” meteu a cabeça. Paaiii. Pra casa Ruben! Dá mais um pires e outra imperial. Paaiii. Arregalou os olhos e a sua versão em estado puro deu sebo às canelas. Apertou o cinto ao roupão, atravessou a sala e certificou-se. O miúdo já se tinha esgueirado. Voltou ao encosto, esvaziou devagar o prato e o copo, pagou, acendeu um cigarro e despediu-se directo ao Beco dos Contrabandistas. Ninguém estranhou a farpela. Que diabo, um homem pode muito bem estar em casa e ter necessidade de vir à rua. E porque raio há-de um homem vestir as calças só para ir ao tabaco? Seguem-lhe os passos o Avô e o neto já comido, a mascar a pastilha prometida. Já vais?! Tou agarrado com este… e hoje tá bera! Quem dita o horário são os fregueses. Saem uns, entram outros. De fora, dali, mães que metem o nariz a ver quem está enquanto fervem à conta dos seus Marcos, dos seus Rubens. O teu homem saiu agora. Eu sei. Oh… se sabem.

DaLheGas

2 comentários:

Anónimo disse...

Dá-lhe tão bem, gás, escada abaixo, pela viela, até à esquina, taberna adentro, lisboeta de ginja, calça justa,(...)boina preta meia de lado, ponta de cigarro na boca, dedos e olhar atrevidos, palavra e resposta pronta, ao piropo solto às damas embevecidas à janela a vê-lo lesto passar,
dá-lhe gás e gingão, todo importante e folgazão, nada deixa escapar...

(foi assim que o "vi", a passar,
ai a mulher que espera o Marcos ou o Rúben que tarda em chegar...)

Adorei o seu "post", genuíno, sem papas na língua, só a porcaria do croquete de terceira entalada na dentadura, a desejar um bom e fumegante caldo de nabos, trazido por uma qualquer ti Maria, que vem à mesa a enxugar as mãos no avental, certificar-se que caiu bem... ai não que não caiu, escorrega que é uma beleza...

DaLheGas disse...

a.! impagável esta nossa gente. uma beleza. obrigada e volte sempre aqui ao tasco :)

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