08 dezembro 2013

2º Domingo do Advento - Solenidade da Imaculada Conceição

EVANGELHO – Lc 1, 26-38
 
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
 
Naquele tempo,
o Anjo Gabriel foi enviado por Deus
a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,
a uma Virgem desposada com um homem chamado José.
O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo:
«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».
Ela ficou perturbada com estas palavras
e pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o Anjo:
«Não temas, Maria,
porque encontraste graça diante de Deus.
Conceberás e darás à luz um Filho,
a quem porás o nome de Jesus.
Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo.
O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David;
reinará eternamente sobre a casa de Jacob
e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo:
«Como será isto, se eu não conheço homem?».
O Anjo respondeu-lhe:
«O Espírito Santo virá sobre ti
e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.
Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.
E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice
e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril;
porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então:
«Eis a escrava do Senhor;
faça-se em mim segundo a tua palavra».
 

07 dezembro 2013

Pensamentos impensados

Lema dos casinos
No melhor pano cai a nota.
 
Privilegiados
Os primeiros e os segundos estão sempre safos; só se causam prejuízos a terceiros.
 
Politiquinhos
Os jotinhas, dos partidos, são implícita geração ou explícita geração?
 
Politiquês
O que é que ele disse?
Apenas nada.
 
Aluados
Não percebo por que é que os astronautas desceram na Lua tão agasalhados.
Lá não há correntes de ar.
 
Fedores
Mário Soares decano; de esgoto.

SdB (I)

06 dezembro 2013

Rostos dos dias que correm


Moleskine

Luz. Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Fulano diz-me de Beltrano: está a vestir uma pele que não é a dele. Esqueço o caso em apreço, que a particularidade não é para aqui chamada. O que significa, na realidade, vestir uma espécie de pele alheia? Será claro, para cada um, qual é exactamente a sua pele? É aquela com que viemos ao mundo, fruto da genética, do alinhamento dos astros ou de outro factor qualquer, ou é aquela que a educação e a circunstância foram colocando com diligência? Se eu tenho uma característica forte com que nasci e acho que devo mudá-la, significa que tento vestir uma pele que não é a minha? E isso é bom ou mau? E devemos ajudar a pessoa em questão a vestir outra pele, ou devemos alertá-la para o facto de que, na realidade, está a vestir outra pele?  

***

Apanho, num livro que terminei de ler, um conceito  (porque a frase já se esvaiu): quando um homem está incomodado (ou fragilizado, ou diminuído, ou magoado…) refugia-se nas suas memórias de infância. Dei por mim a pensar no que eram as minhas memórias de infância: quais são os locais, quem está lá, o que sinto, o que vejo ou oiço. Até onde recuo para sentir o conforto dos dias negros? Talvez algumas das minhas nostalgias estejam relacionadas com esse desejo de infância, e não sejam apenas um feitio de velho carregado de um saudosimo pateta e neurasténico. 

***

Numa das aulas da pós-graduação, o Gonçalo M Tavares propôs aos seus alunos o seguinte exercício: caracterizar, em dez palavras, o que para nós era uma bicicleta. O meu espírito algo quadrado simplificou mentalmente o esquema: cinco palavras referiam-se a componentes do objecto (raios, travões, etc.) e as outras cinco a sensações (aventura, rua, etc.). Houve quem apresentasse dez palavras 'mecânicas', houve quem não apresentasse nenhuma, só revelando 'sensações', como por exemplo 'vento', 'pai', 'liberdade'. O exercício é curioso e prende-se, de alguma forma, com o que referi anteriormente. O que são as nossas memórias de infância onde nos enroscamos quando a caminhada é mais agreste? Que dez palavras usaríamos para descrever a 'nossa' bicicleta? E o que diz isso de nós?

JdB  

05 dezembro 2013

Crónicas de um mestrando tardio*



Vale a pena começar por referir o que Strawson diz de MacIntyre:
“Alasdair MacIntyre é talvez a figura fundadora no campo da moderna Narratividade... ‘A unidade de uma vida individual’, diz ele, ‘é a unidade de uma narrativa incorporada numa vida única. Perguntar “o que é o bem para mim?” é perguntar quão melhor eu poderia ter vivido essa unidade e tê-la levado até ao fim... ‘A unidade de uma vida humana’, continua ele, ‘é a unidade de uma demanda narrativa... [e] o único critério de sucesso ou de falhanço numa vida humana como um todo é o critério de sucesso ou de falhanço numa demanda narrada ou narrável... Uma demanda de quê? ... uma demanda do bem ... a vida boa para o homem é uma vida despendida na procura de uma vida boa para o homem”.
***
Retomemos então o enunciado do problema – a observação de um rebanho de gado a pastar (na apreciação de Nietzsche) e a sua relação com a “tese da narratividade ética”. Apesar do simplismo da frase, como conseguimos relacionar uma ovelha que rumina num campo com a demanda de um homem por uma vida boa?
Segundo o filósofo alemão, a ovelha esquece-se (ou não tem capacidade de memorizar?), não leva nada consigo quando regressa ao aprisco. Vive sem passado, totalmente contido no presente. Vive a-historicamente. Além disso, não tem qualquer capacidade de dissimular ou de esconder o que quer que seja – é honesta. Aqui, nesta incapacidade de lembrança e de fingimento, reside aquilo que no animal provoca inveja ao homem, aquilo que parece ser a felicidade cobiçável de uma vida vivida momento a momento.
Como se relaciona esta ideia com a “tese da narratividade ética”? Relaciona-se, porventura, pelo contraste. A ideia subjacente à existência de uma ovelha está mais próxima do conceito de vida Episódica defendida por Strawson. Os Episódicos não se consideram como algo que existiu num [outro] passado e que existirá num [outro] futuro.  De uma forma radical, poderíamos dizer que a ovelha é o Episódico irracional.
Ora, MacIntyre defende exactamente o oposto. “E a unidade de uma virtude na vida de alguém só é inteligível como característica de uma vida unitária, uma vida que pode ser concebida e avaliada como um todo”. MacIntyre é o Diacrónico ético. Não o diacrónico que sabe que existiu no passado e que existirá no futuro, mas o diacrónico que entende que “a unidade de uma vida humana é a unidade de uma  demanda narrativa”.  Demanda de quê? Uma demanda do bem.  
Para MacIntyre, uma vida mal vivida, isto é, sem narrativa, como episódios desligados, não vale a pena ser vivida. Não comparamos esta ideia com a de um rebanho, porque seria perda de tempo, mas comparamo-la com uma espécie de ideal de felicidade de que a ovelha é detentora, porque é desprovida de lembranças, de aborrecimento e de dor.
MacIntyre, pelo contrário, não fala de felicidade no capítulo 15 do seu livro After Virtue. Em momento algum é referido o que faz um homem feliz. Mas, mesmo correndo o risco do despropósito, poderia fazer-se aqui um jogo de palavras com uma expressão usada várias vezes por MacIntyre: good life, que poderia ser traduzida como vida boa, mas também como boa vida. As mesmas duas palavras, invertidas, transmitem conceitos completamente diferentes.
O que goza a ovelha, desprovida da tal lembrança, aborrecimento e dor? Em havendo pasto e um aprisco decente, goza uma boa vida, na sua existência feita de momentos presentes - “como um número sem resto” - sem dissimulações e detentora de uma aparente e louvável honestidade. Ora, a narratividade ética que MacIntyre defende é a que garante ao homem uma vida boa, porque despendida na procura do bem.  
A ovelha tem uma existência passada. Mas o homem nasce com passado. Além disso, o que distingue ambos, no sentido deste ensaio, é a capacidade de o homem perceber que, antes de perguntar: “o que devo fazer?”, se deve questionar: “de que história faço parte?” E esta história tem de ser composta, não por episódios soltos, mas por uma coerência unitária que lhe confira um sentido. A ovelha não a tem. Assim como não tem quem quiser viver como a ovelha – sem memória, sem aborrecimento, sem dissimulação ou fingimento. A ovelha não vive feliz, porque a ovelha, em bom rigor não vive. A ovelha existe.
Quanto à demanda, diz MacIntyre: “é no decurso da demanda, e pelo facto, apenas, de encontrarmos e lidarmos com os vários males, perigos, tentações e distracções que proporcionam a qualquer demanda os seus episódios e incidentes, que o objectivo da demanda é finalmente entendido. “
A demanda encerra em si duas vertentes: um telos, isto é, uma finalidade, um propósito, e aquilo que refere MacIntyre: “... uma educação, quer quanto à natureza do que é procurado, quer em termos de autoconhecimento”.
Uma ovelha não procura nada, para além de um pasto que lhe satisfaça a necessidade básica. Não existe nela a dimensão de demanda, no sentido medieval do termo, com todas as suas vantagens e desafios. Invejarmos a ovelha na sua a-historicidade é invejarmos uma espécie de ser humano episódico levado ao extremo, concebendo um dia vivido de cada vez, sem noção de antes nem depois. Por outro lado, um homem semelhante ao animal de Nietzsche não deve ser invejado por uma pretensa honestidade,  porque nele não há valores morais ou éticos, apenas abulia. 
Não chega sermos diacrónicos, num certo sentido de Strawson. Temos de acrescentar-lhe o ético, para que tudo na nossa vida possa ser ligado por um fio onde estão os dias da nossa existência, mesmo que esse fio incorpore as fraquezas, os desvios, as memórias, os aborrecimentos, as dores ou as falhas. Um fio, para que a nossa vida seja uma unidade, na procura da vida boa. A ovelha – ou aquilo que ela representa - não tem esse fio. Falta-lhe o passado e o futuro éticos.

JdB

* Quinto e último ensaio deste seminário

04 dezembro 2013

Diário de uma astróloga - [66] - 4 de Dezembro de 2013

O longo trânsito de Marte em Balança – Parte I - Saúde

Marte é o planeta da força vital; representa a capacidade e a vontade de sobreviver, assim como o princípio da acção, da afirmação e agressividade. Competição, desporto e sexo são assuntos ligados a Marte. É o planeta da força, da conquista, da luta. O metal que lhe está associado é o ferro. O planeta vermelho, com o nome do deus da guerra, está arquetipalmente relacionado à cor vermelha e ao sangue. Marte representa também o que nos faz ficar zangados, o que nos irrita. 

Marte por trânsito passa normalmente dois meses em cada signo. De dois em dois anos tem um movimento retrógrado e nessas épocas permanece durante um período mas longo no signo em que ficou retrógrado. Quando o início do movimento retrógrado acontece no fim de um signo, a estadia de Marte nesse signo prolonga-se. E é exactamente isto que acontece agora. No dia 7 de Dezembro às 20.42 GMT Marte entra em Balança, signo onde fica até 26 de Julho.


Marte em Balança … durante 7+ meses!



É um acontecimento relativamente raro: no século passado, Marte esteve em Balança durante períodos comparáveis só em 1934/1935 e em 1981/1982.

O ciclo de Marte (23 meses) é o grande regulador de energia e, por isso, os seus trânsitos têm implicações na forma como sentimos o corpo, isto é, na nossa saúde.

Quando Marte em trânsito está perto do Marte natal, a força vital está no seu máximo, a energia é maior do que o habitual, há vontade de fazer desporto, de estar activo, nada nos cansa. Quando Marte em trânsito está por signo em oposição ao Marte natal, a energia está no seu mínimo. É como se os dois lutadores estivessem a puxar uma corda para lados opostos. Durante esse período, que varia entre 45 a 60 dias, sentimo-nos mais moles, precisamos de descansar, e notamos que as constipações não se curam facilmente, que aquela tosse chata não se vai embora.

Nesta próxima conjuntura, Marte por trânsito passa 231 dias em Balança, e as pessoas com o Marte natal em Balança vão sentir esse fluxo extra de energia. Fico satisfeita pelo Papa Francisco e  pelo Dalai Lama, dois grandes homens que lutam (Marte) pela paz e equidade entre os seres humanos (Balança). Creio que esta dose extra de força vai ser benéfica também para a humanidade.

Atenção a quem tem Marte natal em Carneiro, pois vão sentir durante mais de 7 meses a oposição por signo de Marte em trânsito. A vossa energia vai estar enfraquecida. DEVEM DESCANSAR. Normalmente possuidores de um alto nível de energia, são mais susceptíveis do que todos os outros a não ligar nenhuma aos sinais de cansaço. “Cansaço não conheço”. Sem consciência desta falta de energia, a sua habitual atitude “just do it” impede-as de se concederem uma pausa para recarregar baterias, o corpo fica mais débil e as doenças oportunísticas aparecem. O sistema imunitário fica mais fraco e ficam mais susceptíveis a contágios. 

Estou absolutamente segura dos efeitos debilitantes do trânsito de Marte em oposição ao Marte natal por já os ter comprovado “n” vezes comigo própria e com clientes.  

A explicação médica dos efeitos da oposição de Marte em trânsito ao Marte natal é uma mera hipótese. Não tenho forma de a comprovar cientificamente, mas não posso deixar de fazer uma analogia com o metal regido por Marte. O ferro, apesar de estar presente no corpo humano numa percentagem mínima, é um elemento chave do nosso organismo e necessário para o bom funcionamento do sistema imunitário. 65% do ferro do nosso corpo está presente na hemoglobina que faz parte dos glóbulos vermelhos, os quais são essenciais no transporte do oxigénio dos pulmões, via sangue, para os tecidos. Níveis baixos de hemoglobina indicam anemia cuja causa mais frequente é a falta de ferro. 

Que fique bem claro que não considero que Marte provoque doenças!

Amigos, clientes, leitores com Marte em Carneiro: nestes próximos 7 meses, se quiserem, controlem o vosso nível de ferro mas, sobretudo, ouçam o vosso corpo para não ficarem doentes. Evidentemente que não podem parar de fazer a vossa vida mas, quando sentirem sensações de fadiga ,DESCANSEM. Uma sesta não mata ninguém. Não minimizem as informações que o vosso corpo vos dá. 

A mecânica celeste concede-vos este período de menos actividade para recarregarem as vossas energias e não para despenderem energias. Poupem-se agora e retirarão os benefícios com força para dar e vender quando Marte entrar em Carneiro a 20 de Fevereiro de 2015.

Na Parte II falarei sobre o impacto de Marte em Balança nos relacionamentos.

Luiza Azancot

03 dezembro 2013

Duas Últimas

Quase no final de 2013, um ano muito difícil para tanta e tanta gente, mas em que também muita gente desconhecida, muito português, ajudou e ajuda o outro numa dimensão que ela própria desconhecia, apetece perguntar como foi possível Portugal deixar-se chegar até aqui.

Naturalmente que a resposta não é fácil nem óbvia. Mas uma coisa é certa, a crise nacional vem de longe, muito longe. Diria que desde finais do século XVIII, desde a célebre tríade igualdade, liberdade, fraternidade importada da revolucionarite regicida francesa, foi sempre a piorar. Fomos jogando cada vez mais o jogo dos fracos, dos direitos com poucos deveres, das pequenas e grandes traições, das negações das raízes da nossa Nação milenar, até à situação actual em que nos colocámos, de total dependência e subserviência daqueles que pouco se importam connosco, excepto quando o nosso mal estar os puder de alguma forma afectar.

Só por má fé se pode porém dizer que os actuais governantes deveriam ser, eles especificamente, julgados pelos seus actos. Se revisitássemos a história, não sendo preciso ir muito longe, e se semelhante regra aplicássemos, rapidamente verificaríamos que a justiça ainda mais entupida ficaria se chamasse a prestar contas tantas incompetências e traições de que essa mesma história mais ou menos recente sobejamente dá provas.

Períodos houve de algum bem-estar, designadamente após a adesão à então CEE, todavia fruto sobretudo de bens e riquezas não gerados por nós. Emprestados, portanto, com hipoteca da soberania nacional. Sendo certo que por definição os empréstimos são para pagar, assim alguns aprendem logo desde pequeninos, o momento inevitável da reversão haveria de chegar. Apressado pela crise de contornos mais ou menos idênticos que alguns próximos também não evitaram.

A culpa da “medonha situação”, essa é dos outros, sobretudo dos que fizeram o que tinham de fazer e trataram de se acautelar, nossa é que não.

Pena que pouco se tenha aprendido de grandes escritores como Herculano, Eça, ou Torga, para só referir alguns, que descreveram e impiedosamente malharam nos enormes vícios endémicos das governações, pois os mesmos perduram e nalguns casos até se agravaram.     

Aqui vos deixo com uma música de Sérgio Godinho, compositor e intérprete de referência a nível nacional, de finais dos anos 60 do século passado para cá (autor de vasta obra, o nosso Bob Dylan), para tentar demonstrar que, em áreas diferentes, sou no mínimo tão multifacetado como ele……

Espero que apreciem.

fq




02 dezembro 2013

Fórmula para o caos

A Europa e a Realidade*
Em meados de 2005, que para o assunto em questão, foi há muito tempo atrás, Mark Leonard, especialista inglês em política internacional, publicou um livro chamado Século XXI – A Europa em Mudança. Livro esse que, ironicamente, previa a liderança do mundo por parte da Europa nos tempos vindouros. Leonard, imprimindo um evidente idealismo, considerava que o Modus Vivendi do velho continente, com destaque para o seu património cultural e intelectual, bem como pela relativa coesão social, seria adoptado, num futuro não muito longínquo, pela maioria dos países do mundo.
Contudo, apesar das benignas previsões do jovem inglês, nada se concretizou. Com o despertar da crise financeira de 2008, fortemente induzidos pelas diretrizes de Bruxelas, os governos europeus incorreram em doses maciças de despesa pública para fazer face ao ciclo económico recessivo. Porém, os gastos governamentais em muito superaram a receita fiscal, tendo como consequência a criação de elevados défices e inevitável incremento da dívida pública. No caso português, de 2005 a 2011, a dívida duplicou. Refira-se que, já muito antes do apogeu da crise, a despesa estatal era considerada elevada relativamente ao produzido pela economia.
No começo do ano de 2010, os investidores entraram numa espiral de desconfiança quanto às reais capacidades de estados como Grécia, Irlanda e Portugal em pagarem a dívida acumulada. A partir desse período, sempre que os tesouros nacionais emitam dívida no mercado, apenas em troca de incomportáveis taxas de juro a mesma era colocada. A situação tornou-se insustentável e os demais países que integram a união monetária, fazendo as vezes dos mercados, contribuíram para um plano de resgate aos estados em apuros. Em troca do auxilio, os governos de Grécia, Portugal e Irlanda comprometeram-se a aplicar exigentes programas de equilíbrio das contas públicas. Como seria expectável, dado a suspensão do sonho europeu em matéria de criação de emprego e estímulos ao investimento e consumo, o palco para o surgimento de partidos populistas, de esquerda e de direita, estava montado. Por um lado, nos países onde foi aplicado a inevitável austeridade, os movimentos políticos de esquerda reclamam medidas que favoreçam o crescimento e combate ao desemprego. Já nos países a cujos cofres públicos foram retiradas consideráveis somas para ajudar os estados endividados, pularam para a ribalta partidos euro-cépticos que, num tenebroso desvario demagógico, aliciam as populações com discursos nacionalistas.
Por tudo o que a realidade demonstra, o auspicioso futuro da humanidade, com centro na Europa, previsto por Mark Leonard, não passa de uma valente utopia.
Pedro Castelo Branco

* artigo inicialmente publicado no site portugueseindependetnews.com

Textos dos dias que correm

Peregrinação de Advento
Primeira semana do Advento, segunda-feira: O que levar
Um presente para pedir a Deus

Peço pelo dom de ser capaz de distinguir entre o que posso querer e o que realmente preciso, pela graça de ser capaz de viajar com pouco peso na minha viagem ao longo da vida.

Uma reflexão para o caminho
Já alguma vez se sentou em cima de uma mala a abarrotar, para a tentar fechar? Ou já alguma vez voltou de férias e só então percebeu que não usou metade do que levou consigo? Tenho sempre a tentação, quando preparo uma viagem, de levar muito mais do que preciso, numa tentativa de ser capaz de responder a qualquer eventualidade. É uma das maneiras de lidar com algum do stress causado por sair de casa, abandonando (mesmo que temporariamente) tudo o que é familiar e confortável.
Porém, especialmente quando se faz uma peregrinação a pé, levar muitas coisas vai tornar-me mais lento e cansar-me mais rapidamente. Por isso é importante verificar cada coisa que me proponho levar. Preciso realmente disto ou passo sem ela? Poderei encontrar ao longo do caminho muito do que vou precisar? Viajar com esta disposição exige uma certa confiança. Mas se eu conseguir essa confiança, a viagem será provavelmente mais fácil e mais aprazível.
Pense na sua viagem entre hoje e o Natal, ou, de maneira mais abrangente, no momento da sua vida em que se encontra neste momento. Do que é que verdadeiramente precisa de transportar consigo? Haverá coisas, pessoas, situações que será melhor deixar para trás? Haverá alguma coisa a ser dita para viajar um pouco mais leve?

Uma passagem bíblica para o caminho
No capítulo 9 do Evangelho segundo Lucas, vemos como Jesus envia alguns dos seus seguidores mais próximos na sua primeira viagem missionária. Ele instrui-os a levar poucas coisas, assegurando-lhes que tudo o que precisarem lhes será providenciado:
«Nada leveis para o caminho: nem cajado, nem alforge, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas. Em qualquer casa em que entrardes, ficai lá até ao vosso regresso.» (Lucas 9, 3-4).
Parece algo impraticável, idealista? É. No entanto, quando pensa na sua própria viagem, como é que esta passagem o pode ajudar a conter a muito humana tendência de tentar levar demasiadas coisas consigo?

Palavras para a viagem
Bom Deus,
pediste aos teus seguidores para viajarem com poucas coisas,
confiando que o que precisassem ser-lhes-ia dado no caminho.
Ajuda-me a pousar alguns dos pesos a que me agarro,
confiando que nada me faltará
na minha viagem para ti e contigo.

P. Paul Nicholson
In An Advent pilgrimage, KM Publishing
Trad.: SNPC

01 dezembro 2013

1º Domingo do Advento

EVANGELHO – Mt 24,37-44
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Como aconteceu nos dias de Noé,
assim sucederá na vinda do Filho do homem.
Nos dias que precederam o dilúvio,
comiam e bebiam, casavam e davam em casamento,
até ao dia em que Noé entrou na arca;
e não deram por nada,
até que veio o dilúvio, que a todos levou.
Assim será também na vinda do Filho do homem.
Então, de dois que estiverem no campo,
um será tomado e outro deixado;
de duas mulheres que estiverem a moer com a mó,
uma será tomada e outra deixada.
Portanto, vigiai,
porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.
Compreendei isto:
se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão,
estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa.
Por isso, estai vós também preparados,
porque na hora em que menos pensais,
virá o Filho do homem.

30 novembro 2013

Pensamentos impensados

7 Maravilhas
Há muita gente que gostava de ver o jardim suspenso; na Madeira.
 
Discurso político
… eu não queria dizer nada, antes pelo contrário.
 
Rais parta
Os trabalhadores da Antena 1 podem ser perigosos; têm rádio-actividade.
 
Anexim
Quem tem pressa não vai divagar.
 
Nascimentos vs. nada
Tem que fazer-se alguma coisa em prole da natalidade.
 
Novo acordo êsse aborto
Vou escrever segundo o novo acordo, mas será uma xéssão.
 
Prebendas
Mário Soares e os outros comparsas que estiveram na Aula Magna deveriam ser agraciados com a Ordem dos Jarretas.

SdB (I)

29 novembro 2013

Textos dos dias que correm*

Pedir
É um verbo humaníssimo, este verbo pedir. Pedimos coisas diferentes e de formas absolutamente variáveis. Quando nascemos, começamos por pedir aos gritos que partam em nosso socorro, antes de termos as palavras. Quando aprendemos a usá-las, ganhamos talvez maior tranquilidade no pedir, mas nem sempre. Pedimos porque não nos bastamos a nós próprios. E isso, que seguramente é um elemento que nos redime, não deixa de ser igualmente uma ferida. O léxico do pedir é prolífero, mas também inconstante. Pedimos com simplicidade e com inúmeros rodeios. Mantemo-nos fluentes ou gaguejamos, mergulhados numa insegurança que nos tolhe.
Pedimos oralmente, por escrito, por entreposta pessoa, de forma ostensiva ou subtil, ou, até, com maior ou menor consciência de que um pedido está a ser formulado. Há mesmo momentos da vida (e não são poucos) em que faríamos tudo para não ter de pedir. Esta dificuldade nem sempre é má Precisamos de autonomia para maturarmos o nosso caminho pessoal, e todas as dependências de que a vida se tece só ganham em ser sacudidas e purificadas por um espírito de liberdade que se afirma. Pedir pode tornar-se um obstáculo a aprendizagens que estão perfeitamente ao nosso alcance. Mas o contrário também é verdade, pois crescemos no reconhecimento de que sem os outros nós não somos. De entre todos os pedidos, os que nos custam mais são os mais simples, aqueles imateriais, e que se prendem com a arquitetura (ou arquitextura, como ensinou Derrída) das relações: pedir amor, pedir desculpas, pedir presença, conversa, calor, compaixão. Aí é tão fácil ficar enredado em engulhos, coisas não-ditas ou mal-entendidas.
Penso muitas vezes num pedinte que conheci em Roma. Era (e é) impossível não dar com ele quando se visita a cidade. Eu estava sempre a esbarrar com uma das suas passagens: à saída da universidade, da biblioteca, do cinema, no Campo das Flores, em São Pedro, por todo o lado. De dia ou de noite. Um homem que andará hoje pelos sessenta anos de idade, com um porte discreto, delicado até. Abeira-se dos passantes com duas perguntas. «Fala italiano?» - atira primeiro. E, qualquer que seja a resposta, dá o passo seguinte. Pegando cuidadosamente numa moeda entre os dois dedos e colocando-a perto dos nossos olhos, roga: «Tem 100 liras?». Conheci-o assim, ainda antes do euro. Com a integração na moeda única, ele também se ajustou, passando a pedir 10 cêntimos.
A primeira vez que a sua interpelação nos é dirigida pensamos que se trata de alguém que precisa de completar a quantia necessária para um bilhete de metro ou para uma fatia de pizza. Depois de o encontrarmos centenas de vezes, ficamos sem saber exatamente o que pensar. Assisti, porém, a uma cena que porventura pode esclarecer parte do enigma.
Numa rua, à volta do Panteão, estava sentado um outro mendigo. Melhor seria dizer que estava prostrado. Com um vestuário andrajoso, um braço deformado por caroços, um ar que trazia misturado tudo: dor e exclusão. À distância, vejo o pedinte aproximar-se dele. E, para meu espanto, percebo que repete ao mendigo a cantilena que faz a todos os outros, mostrando-lhe insistentemente uma moeda. Talvez para afastá-lo, talvez vencido pela compaixão, vejo que o mendigo tira do seu prato uma moeda que lhe entrega. E foi neste momento que a cena se tornou inesquecível. O pedinte ajoelha-se ali diante de todos, agarra as mãos do mendigo e beija-as repetidamente, turbado pela emoção. Penso que finalmente o percebi. Ele não pedia moedas. Pedia um bem mais raro e vital: pedia o dom.


* José Tolentino Mendonça
 In Expresso, 23.11.2013

Contos dos dias que correm*

José

José adormeceu. À sua volta, mesmo antes de fechar os olhos, viu um ror de gente: a mulher, a filha e o genro, o neto Ismael com dezoito mesinhos; viu os óculos grossos do seu chefe, momentos antes de o ver a ele. Curiosamente, vislumbrou também os seios generosos de D. Márcia, a empregada do supermercado, antes de a ver a ela, como se nestas duas pessoas os adereços fossem mais importantes que o personagem. Depois não se lembra de mais nada. Caiu num torpor incerto, com tempo ainda para perceber um fio de saliva que lhe escorria pela comissura dos lábios.
Durante um tempo que lhe foi indeterminado sonhou, sentindo que o seu rosto revelaria a natureza das sensações: sorriu a pensar nos seios fartos e ofegantes da empregada do supermercado; comoveu-se com a ideia do netinho, a quem ele levaria à pesca do achigã; franziu o sobrolho ao genro, um mecânico de automóveis com uma relação difícil com a honestidade; fechou as mãos numa violência contida ao recordar o chefe, e os seus horrorosos aros grossos, a impedir-lhe a promoção. Estendeu uma mão metafórica à filha e uma indiferença real à mulher. O seu mundo era este.
José acordou. À sua volta, inexplicavelmente, um ror de gente: uma criança que chorava, um homem com uns óculos feios, uma velha de cabelos mal pintados e seios deficientemente tapados numa alegria que comovia a própria, uma rapariga bonita de mão dada com um rapaz com cara de gatuno, uma mulher que segurava uma imagem de Santa Senhorinha e uma estátua de Nossa Senhora de Fátima numa fluorescência plástica. Mas quem é este gente?, pensava o Sr. José. O que estão aqui a fazer?
Antes ainda de cair numa espécie de catalepsia, ouviu o médico dizer com a voz forte que caracteriza a superioridade científica: 
Correu tudo bem; removemos do cérebro a causa da eructação persistente do Sr. José. Temos, no entanto, um efeito secundário, já estudado internacionalmente. Durante alguns meses o Sr. José sofrerá de amnésia absoluta, não se lembrando de nada, tendo que reaprender a conviver convosco. Durante esses meses será uma pessoa diferente. 
Nesse preciso momento, todo aquele grupo (menos a criança, que persistia no choro) irrompeu numa alegria esfusiante, sorrindo e abraçando-o, como se toda a informação clínica fosse motivo de júbilo, e os efeitos secundários tivessem, só inexplicavelmente para alguns, o mesmo sinal.

JdB

*enviado para um concurso de escrita criativa em que decidi participar. É-nos apresentado, semanalmente, um tema/ideia, para desenvolver em menos de 400 palavras.

28 novembro 2013

Textos dos dias que correm

reflexA, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Éramos inseparáveis. Eu, o Hubert, o Karim. Jogávamos futebol durante o dia, tomávamos banho no rio no Verão. À noite saíamos para o cinema ou para os bares para jogar bilhar, envoltos em fumo e ruído. Bebíamos mais do que devíamos, naquele desequilíbrio adolescente cujo futuro é incerto. O que seria de nós, o que seria do mundo, se em jovens prevíssemos o preço que pagaríamos em adulto pelos nossos excessos? 

Bebíamos muito. Ao fim da noite o Hubert já ria quase descontroladamente, com os cabelos num desalinho de louco e metade da camisa fora das calças, aproximando-se ousadamente das raparigas locais que, gargalhando com gosto, fugiam dele. Foi para ele uma época que durou pouco, quase como se cumprisse um calendário ou fizesse um intervalo na sua verdadeira natureza. Encontrou-se na sobriedade da vida e vive feliz. O Karim mantinha-se sempre sossegado, encostado ao balcão ou a uma mesa de bilhar, de garrafa constante na mão. Era um sossego enervante, pois não emitia sinais do seu estado. Atravessou a vida assim: casou, separou-se; casou, separou-se. Vai voltar a casar e a separar-se, sempre silenciosamente, um pouco como se a vida não fosse mais do que um sucessão de cervejas bebidas no estabelecimento local.

E eu? Eu colava-me aos outros quando o corpo acusava excesso de álcool. Uns riam, outros contavam piadas, outros ainda mantinham uma calma quase incomodativa. Eu colava-me nos bancos, encostava-me a uma parede, e maçava quem ali estava com uma conversa desajustada. Era assim que eu me dava ao fim da noite. Não voltei a embebedar-me desde que fui para Paris estudar veterinária. Mais do que dos excessos, quem sabe não fugia de uma natureza que não entretinha ninguém. Talvez continue a ser assim, a viver um desajuste momentâneo como se estivesse ébrio. Às vezes parece que fujo dos outros, que me afasto dos outros. É possível que só queira, com falta de jeito, reconheço, proteger os outros de mim. Como se a vida fosse um bar forrado de mesas de bilhar e as minhas conversas não fossem as conversas de mais ninguém. Como se as minhas conversas não fossem mais do que as minhas conversas.

Marcel Larque (Lettres aux amies disparus,  Éditions Maison Jaune, 2010, tradução minha deste excerto)         

27 novembro 2013

Duas últimas

Quisera ser passarinho, mas Deus fez-me apenas imperador.

Esta frase, cuja sintaxe me oferece dúvidas e cujo autor não descobri (parece ser de um imperador romano) acompanha-me há décadas, porque a minha memória percorre caminhos bizarros. Na frase leio um desejo de liberdade, talvez de simplicidade, mas, e sobretudo, uma clara noção da importância relativa das coisas. O advérbio apenas é uma prova determinante, não fosse eu ter-me explicado mal.  

A simplicidade é uma conquista muito difícil, eventualmente superior à conquista do Annapurna. Talvez seja mesmo - e ironicamente - algo de muito complexo. Quando falamos de simplicidade falamos exactamente de quê? De ausência de requinte ou de luxo? De despojamento ou de frugalidade? De ascetismo? De sem-cerimónia? E o que é a simplicidade nas relações entre as pessoas, na aproximação aos outros? 

Cada um de nós terá ideias próprias sobre o tema em apreço. Uns apreciarão o assunto, outros terão sérias e fundadas dúvidas sobre a universalidade da definição, muitos terão ideias próprias relativamente ao conceito. O que é para uns não é para outros. Aí, nessa heterogeneidade de concepções, reside o encanto, e tantas vezes o seu inverso. Mas a vida é o que é.

***

Deixo-vos com os Dead Can Dance em duas músicas improváveis na minhas discografia, com as quais me cruzei derivado às tropelias do destino.

JdB  



26 novembro 2013

Dos fragmentos

Era 1981, talvez, e eu fumava Português Suave sem filtro. 
Por duas vezes, em fins de semana com amigos, partilhei um exercício com quem estava ao meu lado, que podia ser companhia certa ou ocasional de restaurantes modestos: escrever na toalha de papel - nos interstícios dos cigarros, das nódoas de vinho tinto ou de gordura das viandas - palavras soltas, excertos de frases igualmente soltas que se iam proferindo durante aquela refeição. No fim, dividida a conta, levantada a loiça e sacudidos os despojos, dobrava-se a toalha escrevinhada e fazia-se a oferta, como se fosse um recuerdo, um agradecimento, um rendilhado em forma de nada para memória futura. 

***

Mencionam-me uma dissertação filosófica sobre um álbum de fotografias. Pós-segunda guerra mundial, talvez; nos Alpes, parece. Uma fotografia de um homem parcialmente de costas, outra de uma mulher a sorrir. Depois, tudo o resto é paisagem - a neve, os montes, um carro ao longe, uma casa bucólica, uma vaca sem passado nem futuro. Invento eu, que só as duas primeiras fotos, a data e o local foram citados. O resto fica em aberto, ao devaneio de cada um. Paisagem, sempre. O homem não aparece mais, a mulher, se sorri, já não é para a câmara. 

***

O que distingue os dois "acontecimentos"? Nada. Falo de duas coisas talvez iguais, e contudo diferentes. Uma toalha de mesa ornada com semi-frases soltas e anónimas é igual a um álbum de fotografias onde não se identifica mais do que uma época, um local, um retalho de costas ou um sorriso quiçá ingénuo. São fragmentos de vida que dizem tudo ou não dizem nada, consoante os olhos de quem os vê. Para os mais afortunados talvez digam o suficiente, e esse "suficiente" seja uma infinidade de hipóteses, um centro vital pejado de saídas para a interrogação. 

Não saber é o caminho mais feliz, porque é o caminho de todas as hipóteses. O que distingue o personagem fictício mais fascinante do ser humano mais baço? A vida do primeiro resume-se ao conteúdo do livro - fora dele não existe. Tudo o que há para saber está vertido nas duzentas páginas do romance. A vida do segundo, pelo contrário, é um jogo de cartas que pode deduzir-se, adivinhar-se, supor-se. É uma toalha de papel para onde se transcreveram frases soltas e incompletas; é um álbum onde se vêem um pedaço de costas e um sorriso quiçá ingénuo. Parece pouco, mas esse aparente pouco é quase tudo.

JdB    

25 novembro 2013

Vai um gin do Peter’s?

Num gin anterior (9.Set.), houve oportunidade de falar do mais polémico e talvez carismático líder britânico dos últimos dois séculos, a propósito de uma biografia de Churchill, informativa e sintética.

Winston C. soma tantas facetas interessantes, que até as suas tiradas antológicas, carregadas de humor, entraram para a história. Se há dom que lhe assistia – quantas vezes para compensar os interlocutores pelos seus caprichos e exageros – era o da resposta rápida e certeira. As trocas de galhardetes com Bernard Shaw ou com a célebre deputada da oposição (a primeira mulher deputada, no Reino Unido), na Câmara dos Comuns, são das mais conhecidas. Mas tantas outras se poderiam citar, algumas ocorridas nos bastidores da política. Outras ditas em entrevistas públicas e discursos. Aqui vão um par delas, para animar o início da semana: 

«Sucesso é ir de fracasso em fracasso, sem perder entusiasmo.»

Diálogo com De Gaulle, durante a Guerra, quando o General reagiu mal à falta de apoio de Churchill a uma operação sugerida pelo francês, invocando restrições de orçamento: «Os ingleses lutam por dinheiro. Deveriam seguir o exemplo dos franceses, que lutam pela honra e por dignidade.» Réplica mordaz do britânico: «General, cada um luta pelo que não tem!» 


Palavras de Montgomery ao ser homenageado pelo Governo britânico, depois de uma vitória retumbante contra Rommel, na frente africana, durante a Segunda Guerra: «Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói». Reacção de Churchill, provavelmente sentindo-se atingido, até porque se davam bastante mal: «Bom, eu fumo, bebo, prevarico e sou o chefe dele.»

Sobre um dos líderes da oposição (Strafford Crips), que também não foi poupado: «Tem as virtudes que desaprecio e nenhum dos vícios que gosto.»

O que a democracia ensina, mesmo a homens difíceis e q.b. autoritários como Churchill: «A maior lição, na vida, é perceber que até os ‘parvos’ e os loucos, por vezes, têm razão.»




«Tacto (político) é ter a habilidade de mandar alguém para o inferno com tal jeito que o outro fica jeito de vontade de partir.»

«Tenho gostos simples: contento-me com o melhor.»

«A história será benévola comigo, porque faço tenção de a escrever.»


«Não basta darmos o nosso melhor. Por vezes, também temos de fazer o que é suposto.»

«Coragem é o que o faz levantar-se e falar abertamente; mas também pode ser aquilo que o faz sentar-se e ouvir.»

Típicas expressões da sua coragem e combatividade: «Tem inimigos? Ainda bem. Significa que, alguma vez na vida, se bateu por alguma coisa.»


Equivalentes a um auto-retrato: «Atitude é aquela pequena parcela que faz toda a diferença (na vida).» Ou: «O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o optimista vê oportunidade em cada dificuldade.»

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

24 novembro 2013

34º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO Lc 23, 35-43
«Lembra-Te de mim, Senhor, quando estiveres no teu reino»

@ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo:
«Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo,
se é o Messias de Deus, o Eleito».
Também os soldados troçavam d’Ele;
aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».
Por cima d’Ele havia um letreiro:
«Este é o Rei dos judeus».
Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
insultava-O, dizendo:
«Não és Tu o Messias?
Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:
«Não temes a Deus,
tu que sofres o mesmo suplício?
Quanto a nós, fez-se justiça,
pois recebemos o castigo das nossas más acções.
Mas Ele nada praticou de condenável».
E acrescentou:
«Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza».
Jesus respondeu-lhe:

«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

23 novembro 2013

Conferências dos dias que correm


Pensamentos impensados

Santidade
S. Nuno de Santa Maria é fruto do "incontestável" Álvares Pereira.

Jogos
Play-off, quer dizer jogar fora.
Se fôr jogar "em casa", será play-in ou play-on? 

Receitas extraordinárias
O Estado não paga aos grevistas.
O Estado devia fomentar as greves.

Mezinhas
Se eu precisar de uma pastilha para deixar de sofrer, dás-ma?

Dietas
Os judeus não podem comer caldo verde com tora.

Filosofias
Não penso no Sócrates, logo existo.

Esquerdas
Os canhotos são descriminados; só podem exercer um direito nunca um esquerdo.

Saúde
Eu não inspiro cuidados, expiro preocupações.


SdB (I)

22 novembro 2013

Do perdão


Red Series Purple 1, de JMAC, o homem de Azeitão

De entre os vários temas que me vêm requerendo labor nos últimos dez ou doze anos - o silêncio, a morte, o despojamento, a santidade, a sabedoria -, o perdão ombreia com os demais. Não me motivam interesses intelectuais ou apenas de concepção. Afinal, o perdão ocupa um lugar importante em todas as nossas relações humanas.

O que é perdoar? Perdoamos quando esquecemos ou perdoamos detentores ainda da lembrança? Depois da ofensa recebida, é-nos lícito exigir um período de tempo para digerir o ataque imerecido? Onde entra a compreensão das circunstâncias, a generosidade afectiva, o desejo de seguir em frente? O que nos é mais custoso: perdoar ou pedir perdão? A magnanimidade ou a humildade (amiúde confundida com humilhação)? Que sinceridade pomos num e noutro acto, para que neles não haja vulgarização? Como discernimos amor-próprio de orgulho? Que vontade temos para responder à radicalidade de Cristo que nos desafia a perdoar quem nos ofendeu, mesmo que não tenhamos sido beneficiários de nenhum pedido? Achamos nós que faz sentido esse perdão incondicional, ou descortinamos necessidades 'pedagógicas' cuja oportunidade não deve perder-se?

Poucas dúvidas me restam sobre os malefícios do orgulho numa relação, seja ela conjugal, entre amigos, profissional ou familiar. Mas não estou certo onde, como, e em que medida entra uma espécie de dignidade própria que nos faz assumir uma posição de ponto de exclamação e exigir um tempo interno para  reparação da pretensa dor infligida. Será então que quem pede perdão tem de aceitar esse tempo e atrasar o pedido, submetendo-se a um período de carência cuja duração desconhece? Que sinais damos nós de que esse tempo decorreu e é tempo de armistício?

Pedir perdão será muito raramente (não direi nunca) a assunção exclusiva de uma culpa, porque o trabalho de equipa até nos males se vê. Às vezes é uma contribuição de um dos lados para a paz. O que faz sentido fazermos, se nos pedem perdão? Manifestamos uma superioridade, aceitando o pedido com uma magnanimidade que apouca o próximo, ou estendemos uma mão para que nos levantemos ambos do fosso para onde nos atirámos? Com que cara avançamos para pedir a paz?

O perdão que se pede ou que se dá é mais do que uma humildade ou uma magnanimidade, para usar a ideia cristã. O perdão é deixar a luz vencer a escuridão; o perdão é libertador, pressupondo uma transparência e um acolhimento; o perdão é o passo seguinte à inevitabilidade do atrito; o perdão é a certeza da fragilidade humana, dos desencontros, das palavras irreflectidas, das escolhas incertas. O perdão é o reconhecimento elevado de um erro que pede misericórdia. O perdão é uma nudez que não se compadece de vaidades, que ambiciona aquilo que verdadeiramente nos salva: o Amor.

JdB       

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