18 maio 2017

Mi Buenos Aires Querido (IV) - o cemitério


Não tenho o culto de cemitérios: isto é, não os frequento para visitar, rezar ou apenas conversar com os meus mais próximos - num caso específico, muito próximo. Por outro lado, gosto de visitar cemitérios, porque são espaços de silêncio e onde a arquitectura urbana (pode dizer-se assim?) diz muito das pessoas, do culto dos mortos, da importância que os vivos querem dar a si próprios enquanto futuros habitantes daquele espaço. A esse propósito, sugiro sempre, a quem vai a Salzburgo, que visite o cemitério local: jazigos escavados na rocha, árvores lindíssimas que não o já característico cupressus sempervirens que iguala os cemitérios um pouco por todo o mundo. 

O cemitério da Recolecta, em Buenos Aires, é local de visita obrigatória. Um parte substantiva das romarias destinam-se a ver o jazigo onde está Eva Perón, mas acontece que este jazigo específico está muito longe de ser um dos mais bonitos daquela profusão de últimas moradas. 



Hoje em dia muitos de nós queremos ser cremados - não sei se é uma questão de higiene mental ou da memória, de horror ao cemitério ou de dimensão prática da vida. Em minha casa havia quem tivesse horror às gavetas, havia quem tivesse horror a uma agência específica (já desaparecida) porque vira um funcionário a puxar a manga do casaco e, com ela, polir uma canto do caixão - com o finado lá dentro, é claro... Coisas calistas, no fundo. No meu entendimento a cremação não é para todos, mas esta frase requer uma explicação lógica que não existe, porque radica na emoção mais funda e mais difícil de explicar à luz de uma razão.

Na morte somos todos iguais. No caixão somos todos iguais, apesar de todas as diferenças que nos caracterizaram em vida. Lázaro vale tanto como o Rei David; o poderoso Salazar, sobre cuja boca inerte assentou uma mosca desrespeitosa, tem o mesmo peso específico que o indigente encontrado sem vida por baixo de uma camada ingrata de cartão canelado. Na eternidade para os crentes, ou no vazio para os que o não são, todos valemos o mesmo, sendo que para os primeiros há o ajuste de contas com Criador quanto ao que fizemos e fomos em vida. Mas a morada celeste é igual para os bons ricos e poderosos e para os bons pobres e sem abrigo. 


No entanto, apesar desta igualdade das cinzas ou do caixão onde jaz um cadáver, constroem-se jazigos com homenagens, com arquitectura cuidada, com requinte e estética, com pompa e circunstância. Lá dentro está um morto que, no Céu em que acredito, se reveste de uma bondade de dimensão superior, indiferente ao mármore que o rodeou. Mesmo em mortos os estatuto é importante.

JdB

      

17 maio 2017

Poemas dos dias que correm

Sabedoria

Desde que tudo me cansa, 
Comecei eu a viver. 
Comecei a viver sem esperança... 
E venha a morte quando 
Deus quiser. 

Dantes, ou muito ou pouco, 
Sempre esperara: 
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco 
Voava das estrelas à mais rara; 
Outras, tão pouco, 
Que ninguém mais com tal se conformara. 

Hoje, é que nada espero. 
Para quê, esperar? 
Sei que já nada é meu senão se o não tiver; 
Se quero, é só enquanto apenas quero; 
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . . 
E venha a morte quando Deus quiser. 

Mas, com isto, que têm as estrelas? 
Continuam brilhando, altas e belas. 

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'

***

Testamento do Poeta

Todo esse vosso esforço é vão, amigos: 
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos. 
Demais, já desisti de quaisquer portos; 
Não peço a vossa esmola de mendigos. 

O mesmo vos direi, sonhos antigos 
De amor! olhos nos meus outrora absortos! 
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos, 
Que fostes o melhor dos meus pascigos! 

E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje 
Que tudo e todos vejo reduzidos, 
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge. 

Para reaver, porém, todo o Universo, 
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!.... 
Basta-me o gesto de contar um verso. 

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'

16 maio 2017

Mi Buenos Aires Querido (III) - Corrientes 348 (só para gente com um lado nostálgico-kitsch forte)


Para o meu Pai. 

Qual a diferença entre a minha augusta pessoa e tantas outras pessoas que andam pelo mundo? Não é a minha bondade ou a deles, seguramente superior à minha, que nos separa; não é o índice de massa corporal, em mim muito superior ao que seria desejado; não é o meu beatério ou a minha tentativa de esmerada educação; não é, tão pouco, o meu jeito para as letras, apesar do curso de engenharia. O que me distingue também não são as fixações, obsessões e coisas de igual jaez que todos têm. O que me distingue da turba alucinada (vejo a turba judaica alucinada, frase pascal de autor que desconheço) é o facto de eu as revelar e os outros não, porque acham que é sinal de doença mental ou desequilíbrio dos humores internos, e o mundo é feito para os sãos, porque só os outros têm problemas sociais, de (in)estabilidade psíquica, de manias desconformes... A diferença está, tão somente, na candura com que exponho as minhas estranhezas.

Disse aos meus companheiros de viagem a Buenos Aires: quero ir a Corrientes, 348. Quero forçosamente ir a Corrientes 348. A explicação, afirmei-lhes eu perante a perplexidade evidente com que escutaram a minha fixação repetida ad nauseam, é simples: trata-se de um tango que ouvi pela primeira vez há muitas décadas (quatro? cinco?), quando o meu pai trouxe um LP de um conjunto chamado Los Cinco Latinos. Passados tantos anos - e tantos anos sem ouvir este tango específico - sabia-o quase todo de cor e cantava-o com denodo e desafinação. Depois da primeira quadra, que não se percebe o que lá está a fazer, surge a frase mágica: Corrientes, 348, segundo piso ascensor...  

O número 348 da Avenida Corrientes, uma das principais artérias de Buenos Aires, era, há 40 ou 50 anos, um local, uma pastelaria, parece-me, frequentada pela alta sociedade porteña. As senhoras e os senhores iam de chapéu, de luvas, de elegância no traje e de educação na conduta. Pela noite as senhoras recolhiam ao remanso do seu lar, talvez comendo dulce de leche e dando bife de chorizo aos filhos, enquanto os cavalheiros subiam ao segundo andar onde outras senhoras - menos elegantes, quiçá... - trocavam favores de índole sexual por pesos argentinos e entusiasmos frustrados. A história foi-me contada por um taxista apreciador de Saramago; um homem, dizia ele, comprometido com o movimento social. 

Deixo-vos com um toque nostálgico-kitsch. Para gente forte como eu, que tem fixações delicadas e de entendimento difícil fora do âmbito de um divã de psiquiatra. 

Olvidou-me dizer que estive em Corrientes 348. É, desgraçadamente, uma entrada de garagem, mas o desejo de memória manteve duas portas originais a ladear o portão moderno, portas essas conspurcadas pelo movimento poluidor de viaturas que entram e saem. No segundo piso, imagino eu, os amanuenses locais sonham com cocktail y amor que já não há, substituído pelos objectivos do mês e pelas avaliações de desempenho. O mundo não se tornou um lugar melhor.

JdB


15 maio 2017

Mi Buenos Aires Querido (II) - a máquina fotográfica




Nunca seria escolhido para fotógrafo num grupo excursionista. Não fotografo o grupo, não quero ser fotografado, a geografia humana só me interessa se for local, dificilmente, a não ser que seja através de uma selfie, quem vai comigo consegue provar que esteve naquele sítio. 

Como sempre faço nas minhas últimas viagens, tiro dezenas, talvez mesmo algumas poucas centenas de fotografias: uma praça, uma fiada de prédios, pessoas pitorescas, uma curiosidade aborígene, um contraste de cores ou algo que ilustre um futuro texto. Em Buenos Aires - e comprovei-o pelas fotografias que agora vi, fotografei quase sempre para cima, porque é ao nível dos prédios, da arquitectura urbana, que a capital argentina se distingue. As pessoas têm feições europeias, usam roupas europeias, circulam em meios de transporte europeus. Quem aterrar na cidade, e não se ativer a mais nada, está na Europa. E talvez seja isso, também, que dá ao argentino uma certa dimensão arrogante. 




Circular por Buenos Aires é circular pelo hemisfério norte ocidental: podemos estar em Paris, em Viena, em Londres ou Madrid, em Nova Iorque. As ruas são rasgadas, as esplanadas abundantes, os espaços verdes em profusão. Acima de tudo, a arquitectura é europeia, no que essa arquitectura tem de bonito. Mas, acima desse tudo, há uma misturada muito grande, mas uma misturada equilibrada, harmónica, bonita ao olhar. Na mesma correnteza de prédios vemos várias capitais europeias.



Para já, a arquitectura urbana é um dos grandes motivos para se querer regressar a Buenos Aires. É a cidade mais bonita que vi? Não, mas está entre as mais bonitas, mais globalmente bonitas. A série de fotografias que irei pondo é apenas uma pequeníssima amostra...

JdB

    

14 maio 2017

5º Domingo da Páscoa

EVANGELHO – Jo 14,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Não se perturbe o vosso coração.
Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim.
Em casa de meu Pai há muitas moradas;
se assim não fosse, Eu vo lo teria dito.
Vou preparar vos um lugar
e virei novamente para vos levar comigo,
para que, onde Eu estou, estejais vós também.
Para onde Eu vou, conheceis o caminho».
Disse Lhe Tomé:
«Senhor, não sabemos para onde vais:
como podemos conhecer o caminho?»
Respondeu lhe Jesus:
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém vai ao Pai senão por Mim.
Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai.
Mas desde agora já O conheceis e já O vistes».
Disse Lhe Filipe:
«Senhor, mostra nos o Pai e isto nos basta».
Respondeu lhe Jesus:
«Há tanto tempo que estou convosco
e não Me conheces, Filipe?
Quem Me vê, vê o Pai.
Como podes tu dizer: ‘Mostra nos o Pai’?
Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim?
As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio;
mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras.
Acreditai Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim;
acreditai ao menos pelas minhas obras.
Em verdade, em verdade vos digo:
quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço
e fará ainda maiores que estas,
porque Eu vou para o Pai».

13 maio 2017

Pensamentos Impensados

Meter os pés pelas mãos
Uma final de futebol entre centopeias resolve-se em duas mãos ou em 100 pés?

Filme
Morte em Veneza foi patrocinado pela agência funerária vai a tua vida

Anexim
Candeia que vai a frente... alumia se estiver acesa.

Previsões
Até amanhã se Deus quiser: frase atribuída a SdB na véspera do dia seguinte.

Incompletações
Deverá bater-se palmas quando se toca a sinfonia incompleta?

Pronúncia do norte
Um portuense não percebeu o nome do presidente eleito da França e só disse: "semelhánte morcon".

Desorganizações
A greve é uma organização não governamental.

Dentaduras
Aos seis meses os pastorinhos já tinham dois dentes, pelo que eram conhecidos pelos bidentes de Fátima.

SdB (I)

12 maio 2017

12 de Maio

Há algumas semanas largas (o link está aqui, para quem tiver um inexplicável interesse em revisitá-lo) escrevi sobre Fátima, sobre a canonização dos pastorinhos, sobre a minha não devoção aos santos. De lá para cá muito se tem escrito sobre o tema, com posições mais ou menos radicais de gente do clero que é apelidada de comunista ou de maçon. Não sei se são, nem isso interessa para o tema em apreço. 

A minha ideia de Fátima mantém-se igual: o milagre que ali se opera, de há 100 anos para cá, não é a aparição de Nossa Senhora ou a visão que três crianças tiveram de Nossa Senhora. O milagre é a mudança, o apelo à mudança - talvez mesmo o desejo de mudança. O milagre é o conforto que todos temos, independentemente das superstições, das fés menos esclarecidas, de uma espécie de auto-flagelo que supostamente conforta o coração ofendido de Deus, como se Alguém que não é senão amor se ofendesse com o que quer que seja... O milagre é uma espécie de irmandade universal, de compreensão pela angústia de quem está ao nosso lado e cuja vida desconhecemos, de partilha da alegria de outra pessoa, noutro lado, e cuja vida desconhecemos também.

Fui a Fátima hoje, mas há 16 anos, ano de todos os anos. Vi a imagem de Nossa Senhora a uns metros de mim, mas Nossa Senhora não estava ali. Estava no meu coração, no coração de quem, pequeno e indefeso, lutava uma luta cedo de mais. Estava no coração de todos os que me acompanharam, sobretudo os mais próximos de entre os mais próximos. Nossa Senhora não é uma imagem; a imagem é apenas a materialização para onde podemos olhar com os olhos de ver, porque os olhos que sentem estão voltados para o infinito, para a alma, para o interior dos que sofrem ou dos que se alegram. Olhamos na horizontal para podermos olhar na vertical - os olhos no andor, os olhos no céu. E dizer-lhe adeus não é dizer-lhe adeus, mas é empunhar uma vela que fica acesa sempre, porque todos os dias são dias de pedir e de agradecer discernimento e força, que com isso alcançamos o mundo. 

Por diversos motivos não irei a Fátima neste dia 12 de Maio. Talvez me comova pela televisão, porque hoje, mas há 16 anos, lá fui pela primeira vez, ano de todos os anos. Talvez me comova percebendo tudo o que ganhei, apesar de tudo o que perdi.

JdB

***

Salve Rainha,
bem-aventurada Virgem de Fátima,
Senhora do Coração Imaculado,
qual refúgio e caminho que conduz até Deus! Peregrino da Luz que das tuas mãos nos vem, dou graças a Deus Pai que,
em todo o tempo e lugar,
atua na história humana;
peregrino da Paz que neste lugar anuncias, louvo a Cristo, nossa paz,
e para o mundo peço a concórdia
entre todos os povos;
peregrino da Esperança que o Espírito alenta, quero-me profeta
e mensageiro para a todos lavar os pés,
na mesma mesa que nos une.

Ave o clemens, ave o pia! Salve regina rosarii Fatimæ. Ave o clemens, ave o pia! Ave o dulcis Virgo Maria.

Salve Mãe de Misericórdia, Senhora da veste branca! Neste lugar onde há cem anos a todos mostraste
os desígnios da misericórdia do nosso Deus, olho a tua veste de luz
e, como bispo vestido de branco,
lembro todos os que,
vestidos da alvura batismal, querem viver em Deus
e rezam os mistérios de Cristo para alcançar a paz.
Ave o clemens, ave o pia! Salve regina rosarii Fatimæ. Ave o clemens, ave o pia! Ave o dulcis Virgo Maria.
Salve, vida e doçura,
Salve, esperança nossa,
ó Virgem Peregrina, ó Rainha Universal!
No mais íntimo do teu ser,
no teu Imaculado Coração,
vê as alegrias do ser humano
quando peregrina para a Pátria Celeste.
No mais íntimo do teu ser,
no teu Imaculado Coração,
vê as dores da família humana
que geme e chora neste vale de lágrimas.
No mais íntimo do teu ser,
no teu Imaculado Coração,
adorna-nos do fulgor de todas
as joias da tua coroa
e faz-nos peregrinos como peregrina foste Tu. Com o teu sorriso virginal
robustece a alegria da Igreja de Cristo.
Com o teu olhar de doçura
fortalece a esperança dos lhos de Deus.
Com as mãos orantes que elevas ao Senhor
a todos une numa só família humana.

Ave o clemens, ave o pia! Salve regina rosarii Fatimæ. Ave o clemens, ave o pia! Ave o dulcis Virgo Maria.

Ó clemente, ó piedosa,
ó doce Virgem Maria,
Rainha do Rosário de Fátima!
Faz-nos seguir o exemplo dos Bem- aventurados Francisco e Jacinta,
e de todos os que se entregam
à mensagem do Evangelho.
Percorreremos, assim, todas as rotas, seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros
e venceremos todas as fronteiras,
saindo em direção a todas as periferias,
aí revelando a justiça e a paz de Deus. Seremos, na alegria do Evangelho,
a Igreja vestida de branco,
da alvura branqueada no sangue do Cordeiro derramado ainda em todas as guerras
que destroem o mundo em que vivemos.
E assim seremos, como Tu,
imagem da coluna luminosa
que alumia os caminhos do mundo,
a todos mostrando que Deus existe, que Deus está,
que Deus habita no meio do seu povo, ontem, hoje e por toda a eternidade.

Ave o clemens, ave o pia! Salve regina rosarii Fatimæ. Ave o clemens, ave o pia! Ave o dulcis Virgo Maria.

Salve, Mãe do Senhor,
Virgem Maria, Rainha do Rosário de Fátima! Bendita entre todas as mulheres,
és a imagem da Igreja vestida da luz pascal, és a honra do nosso povo,
és o triunfo sobre a marca do mal.
Profecia do Amor misericordioso do Pai, Mestra do Anúncio da Boa-Nova do Filho, Sinal do Fogo ardente do Espírito Santo, ensina-nos, neste vale de alegrias e dores, as verdades eternas
que o Pai revela aos pequeninos.
Mostra-nos a força do teu manto protetor. No teu Imaculado Coração,
sê o refúgio dos pecadores
e o caminho que conduz até Deus.
Unido aos meus irmãos,
na Fé, na Esperança e no Amor, a Ti me entrego.
Unido aos meus irmãos, por Ti, a Deus me consagro,
ó Virgem do Rosário de Fátima.
E, enfim, envolvido na Luz que das tuas mãos nos vem, darei glória ao Senhor pelos séculos dos séculos. Amen.

Ave o clemens, ave o pia! Salve regina rosarii Fatimæ. Ave o clemens, ave o pia! Ave o dulcis Virgo Maria.

    

11 maio 2017

Mi Buenos Aires Querido (I) - o roubo



Cheguei a Buenos Aires no sábado dia 29 de Março, após uma tirada directa e cansativa de 12 horas dentro de um avião, algo que, para uma pessoa com o meu físico, é uma prova dura e difícil. Não há filmes, almofadas, livros ou boa companhia que nos salvem. É penoso - e é aguentar!

Quando chegámos ao hotel, percebi que tinha deixado o telemóvel dentro do carro, o que seria um começo de viagem auspicioso. Fruto de uma decisão racional, rápida e eficiente de alguém que não eu, telefonou-se para o meu próprio número de telefone: uma, duas, três vezes - uma eternidade... O motorista de táxi atendeu à quarta tentativa, e prontificou-se a deixar-me o equipamento no hotel dentro de 30 minutos. Assim foi. A viagem começava bem, depois de ter começado mal.

No dia seguinte fomos para a feira de San Telmo, uma espécie de feira da Ladra, feira de Sintra, mercado de antiguidades, onde comprei, por bom preço, dois artigos para uma colecção. De mochila bem protegida, já que havíamos sido alertados para os roubos, ando por ali, vendo, observando, ziguezagueando entre a multidão compacta. Sentamo-nos no interior de um café a beber uma "tirada" (a "imperial" dos argentinos) e a comer uns amendoins. Coloco a mochila debaixo da mesa, entre as minhas pernas. Há gente que entra e sai, que o dia é de movimento. Atendo uma chamada telefónica de Portugal que me ocupa exactamente 29 segundos. É nessa altura, estou certo, que a mochila me é roubada - há alguém que viu uma rapariga nova com uma criança de 8 ou 9 anos pela mão, a deambular por ali, junto às mesas. A minha mente estava formatada para me proteger de tentativas de roubo no exterior, onde há encontrões e apertos, não no interior de um estabelecimento de restauração. 

Na esquadra da polícia, onde participo o roubo de várias coisas entre valioso e importante, mas de quase nenhum afecto, juntam-se na hora seguinte mais 6 ou 7 casais / famílias / agregados familiares vítimas de roubos semelhantes, ardilosos, em locais diversos da mesma feira. Depois, na meia hora seguinte, é a correria conjunta de pessoas disponíveis para bloquear cartões bancários, iniciar contactos para substituição do passaporte, minimizar a devassa dos meus ficheiros informáticos.

Há 40 anos que viajo e nunca fui roubado. Neste episódio não há só azar; há descuido da minha parte, excesso de confiança, pouca atenção naquilo com que se deve andar na rua. Também por isso os sentimentos que nos atravessam após um roubo desta dimensão são vários: desespero, irritação, ódio, frustração, fúria, esperança vã, sensação de impotência e de devassa da vida pessoal e profissional. Perdi coisas caras, coisas de que gostava, coisas que me fazem falta, coisas irrecuperáveis. 

Como se mantém a alegria numa viagem que, ao segundo dia, já estava tingida desta forma? A companhia ajudou, é claro, como ajudou o exercício que consiste em transformar tudo em dinheiro, o que, por mais paradoxo que possa parecer, relativiza as coisas: é como se tudo se resumisse a uma linha num orçamento. Não há desespero, tristeza, frustração sentimento de perda: é apenas dinheiro. Dramas é outro campeonato.

Como se mantém a alegria numa viagem que começou assim? Trauteando com gosto o o tango cujo título encima este post. Tudo o resto, repito, é apenas dinheiro. 

Mi Buenos Aires Querido
Cuando yo te vuelva a ver
No habrá más penas ni olvido

JdB

     

10 maio 2017

Duas Últimas

Retenho especialmente do último fim-de-semana as vitórias de Macron nas eleições presidenciais franceses e do Belenenses no derby lisboeta com o Sporting relativo à 32ª jornada da Liga de futebol. Não fazendo comparações com as importâncias relativas de cada uma delas, para não ferir pessoas mais susceptíveis.

No 1º caso ganhou o favorito, aquele que a opinião publica dominante amparava e queria como vencedor a qualquer preço. Não aprecio especialmente Le Pen, em várias questões fundamentais divirjo mesmo dela frontalmente. No entanto, o facciosismo e desonestidade intelectual, com toques de histeria, que caracterizou a forma como as eleições foram tratadas nos media, as autênticas lavagens ao cérebro com que nos fustigaram, os anjinhos (incluem a extrema esquerda) contra os diabos, contribuíram para que tenha encarado a vitória de Macron sem entusiasmo. Que a sua mulher/mãe o inspire, que bem vai precisar depois dos anos magníficos com que Hollande presenteou os franceses.

O mesmo não se diga da 2ª vitória. Aqui a opinião dominante falhou com estrondo. Mais de 60 anos e 7 derrotas consecutivas depois, o CFB ganhou finalmente em Alvalade. Gostei, é claro, desabituado como ando destas alegrias, os meus (muitos) amigos sportinguistas que me percebam e perdoem este estado transitório e episódico. No dia seguinte, nos jornais, parecia que o SCP tinha jogado sozinho, tinha perdido contra fantasmas. Nada que me espante: em Portugal só há 3 clubes, os 3 supostos grandes (ditos "eucaliptos" ou "do estado").

Trago-vos uma grande música, de um esplendido grupo, de que os mais velhos talvez se lembrem (aqueles que também ainda recordarão Matateu e os tempos em que o CFB pedia meças a qualquer rival).

Espero que apreciem e que me desculpem qualquer melindre clubístico.

fq


09 maio 2017

Vai um gin do Peter’s?

Numa sociedade altamente consumista e desenvolvida como a japonesa, percebe-se que o marketing publicitário tenha atingido níveis de excelência extraordinários. Há quem diga (para além dos próprios) que são os melhores publicitários da actualidade. 

O mundo teve um vislumbre dessa excepcionalidade na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio, quando o Brasil passou o testemunho ao Japão – país de acolhimento dos próximos JO. Levado por um túnel supersónico, a perfurar o interior da crosta terrestre, o Primeiro-Ministro japonês desencantou o atalho mais curto para chegar a horas ao outro lado do planeta. Em poucos segundos, transplantou-se das agitadas avenidas de Tóquio até ao estádio brasileiro, conduzido pelo eficientíssimo herói da banda desenhada (no vídeo, ao 2:52 min.). Ou seria ele o próprio boneco?



Com os recursos interplanetários à disposição, um imaginativo spot da companhia de seguros AIG do Japão está a tornar-se viral, mostrando que nem tudo o que parece é. O mote é expressivo: «the city if full of unexpected dangers». A câmara foca a chegada dos campeões mundiais do râguebi – os míticos All Blacks – às grandes avenidas da metrópole japonesa, como se estivessem em campo, num jogo renhido. Intimidam, claro. Mas serão as feras temíveis que aparentam? Terão inventado uma forma de terrorismo urbano selvático? Arrisquem ver até ao fim a sequência incrível de placagens, com um volte-face de fazer inveja à melhor seguradora. No momento derradeiro, há ainda uma surpresa com a entrada em cena de uma criança deliciosa, de olhos rasgados, a desafiar o capitão de equipa dos descendentes dos Maori: 



Viajando do ultra-vanguardismo ao puro classicismo, mergulhamos em latitudes onde as tradições ancestrais são elevadas a arte. Por isso, não se estranha que o folclore regional seja magistralmente reinterpretado em ballet. Assim acontece na Rússia, pela Companhia de Igor Moiseyev(1), especializada em dança popular. Segundo o fundador, visam «exprimir o carácter de um povo através da música e dança». 

À vasta diversidade etnográfica da Ásia Central, com as acrobacias dos cossacos, as coreografias dos camponeses da imensidão russa, dos ciganos, judeus, azerbis, georgianos, moldavos, ucranianos, quiseram somar "jotas aragonesas", danças gregas, argentinas, mexicanas, sérvias, egípcias, etc. para formar um mosaico interplanetário de gentes e costumes. Uma curta-metragem com o ensaio geral da Companhia de Moiseyev está a correr mundo, relevando um ballet exímio, que se torna mais evidente pela simplicidade dos fatos de ginástica monocromáticos, desprovidos dos artifícios faustosos dos trajes regionais:



Bem dizia Armstrong, se pudermos ver e mostrar o mundo pelo lado certo: «What a wonderful world»! 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

__________________
(1)   Versão resumida da actuação da companhia nos palcos do mundo:

 

06 maio 2017

Pensamentos Impensados

Comes e bebes
Coma profundo - beba com moderação.

Aplausos
Os artistas não se medem às palmas.

Novo atelier fotográfico
Marselfie Rebelo de Sousa.

Adão e Eva 
Adão terá tido aulas de educação sexual?

Músicas
Depois de ouvir o 2o andamento da 7a sinfonia de Beethoven, o surdo mudo exclamou: 'este som é divinal'. 

Gentilezas
Hospitalizado, alguém me acorda e pergunta se eu quero dormir mais.

Ventos
Os tornados nos Estados Unidos destruíram muito. É caso para dizer: 'temos o caldo em tornado'.

Coisas do além
Esteve 7 dias em que os intestinos não funcionaram. Morreu. Disse: 'ao menos morri de barriga cheia'.
 
SdB (I)

03 maio 2017

Textos dos dias que correm

Felicidade: Êxtase ou interioridade?

Êxtase ou interioridade? Relâmpago ou panela ao lume? Quando falamos de felicidade, a ideia que dela temos associa-se a dois tipos de imagem que correspondem a dois modos opostos de nos relacionarmos com o tempo.
O primeiro tipo é o da vida intensa: inesperadamente, eis-nos surpreendidos, deslumbrados, de boca aberta. O segundo é o da vida serena: estamos abrigados, na calma, num banho de doçura. Naquele é a fratura; neste a maturação. Naquele, o instante; neste, a duração.
Esta separação das nossas visões felizes entre o relâmpago e o céu azul, o acontecimento e a harmonia, o sublime e o agradável, divide também a nossa aproximação à beleza.
Uns experimentam-na como uma fratura: a aparição de uma transeunte de corpo esplêndido que passeia no nosso coração. Outros percecionam-na como uma ascensão lenta mas irresistível: a superfície do mar na Grécia, calma e cintilante, mas cuja imensidão luminosa e tremeluzente vence pouco a pouco a nossa alma.
Assim acontece para a verdade: é visão ou caminho, véu que de uma vez se levanta ou diálogo que se prolonga? Para o trabalho: é sucesso rápido ou trabalho atento, eficácia imediata ou paciente recomeçar? Para a conversão: é Paulo ou Pedro, queda abrupta do cavalo ou continuar durante anos sempre a tropeçar?
Certo é que o nosso tempo está mais do lado da fulguração. Ela confunde facilmente o veloz e o vivaz, talvez por causa da aceleração tecnológica, da banda larga e da ligação quase instantânea que desencadeia o deslocamento vertical no ecrã que um instante antes era cinzento. Requerida pelo comboio de alta velocidade mas que impede a contemplação da paisagem.
É por isso que temos tanta dificuldade em agarrar o pensamento dos Antigos que cantavam a paz. Aos nossos olhos encadeados, a paz parece um sono; a sua harmonia uma inércia; a sua duração uma insipidez. Quando Santo Agostinho a define como a «tranquilidade da ordem», pensamos quase na morte, não decerto na felicidade.
O problema com a busca do intenso é que arruína a sensibilidade. As sensações nunca são suficientemente fortes. Começa-se com o parapente para passar ao salto com o elástico, a queda livre com paraquedas, o voo em "wingsuit" e por fim a queda livre sem paraquedas. O suicídio será sempre de intensidade extrema e sem retorno.
Não dou exemplos de tipo carnal, mas, evidentemente, seria necessário neste caso lembrar a violação e o homicídio. Infelizmente, também o assassínio em série acaba por se aborrecer: cortar uma mulher em pedaços, obstinadamente, excita-o tanto quanto descascar uma batata. Dá-se conta de que alguma coisa está errada. Que poderia ter ficado pela batata, se tivesse sido mais sensível, mais capaz de espanto.
É por isso que o gosto pela intensidade faz facilmente cair a sua lógica para jogar melhor nos contrastes. Coloca-se ao ritmo do caracol para ficar desconcertado pela velocidade da tartaruga. Permanece-se dias fechados na obscuridade para abrir repentinamente as portas e perceber um dia cinzento como uma formidável fulguração. Jejua-se três dias e, logo a seguir, nada é mais intenso, mais saboroso, nada dá mais prazer do que um bocado de pão duro. O ascetismo é o único método para viver um hedonismo que não se torna aceite.
Mantendo por muito tempo uma intensidade de vida muito baixa, na solidão, até o meio sorriso de uma senhora idosa pode parecer-nos como uma experiência de um poder extraordinário.
Compreende-se porque é que a questão da intensidade não é a única. A fé seria apenas um golpe de varinha mágica se tudo se decidisse assim, numa queda do cavalo. O amor seria somente ilusão e desilusão se se reduzisse ao orgasmo. A sua vocação e a sua prova estão precisamente em passar do êxtase ao interior, do relâmpago à panela ao lume.
Os românticos volúveis não deixarão de considerar esta passagem como um aburguesamento. É por isso que não conseguem entrar na profunda poesia do quotidiano.

Título original do artigo: «Essa procura de sensações que nos tira o quotidiano».

Fabrice Hadjadj
In: "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 01.05.2017

02 maio 2017

Buenos Aires - o roubo

Devido a ter sido vítima de um roubo audacioso que me levou o computador e os documentos, o blog andará errático esta semana. Peço paciência aos meus fieis leitores.



Buenos Aires ontem, ao longe e ao fim da tarde

30 abril 2017

3º Domingo da Páscoa

EVANGELHO – Lc 24,13-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Dois dos discípulos de Emaús
iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
que ficava a sessenta estádios de Jerusalém.
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou Se deles e pôs Se com eles a caminho.
Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
Ele perguntou lhes.
«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»
Pararam entristecidos.
E um deles, chamado Cléofas, respondeu:
«Tu és o único habitante de Jerusalém
a ignorar o que lá se passou estes dias».
E Ele perguntou: «Que foi?»
Responderam Lhe:
«O que se refere a Jesus de Nazaré,
profeta poderoso em obras e palavras
diante de Deus e de todo o povo;
e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes
O entregaram para ser condenado à morte e crucificado.
Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel.
Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram:
foram de madrugada ao sepulcro,
não encontraram o corpo de Jesus
e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos
a anunciar que Ele estava vivo.
Mas a Ele não O viram».
Então Jesus disse lhes:
«Homens sem inteligência e lentos de espírito
para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram!
Não tinha o Messias de sofrer tudo isso
para entrar na Sua glória?»
Depois, começando por Moisés
e passando por todos os Profetas,
explicou lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
Ao chegarem perto da povoação para onde iam,
Jesus fez menção de ir para diante.
Mas eles convenceram n’O a ficar, dizendo:
«Ficai connosco, Senhor, porque o dia está a terminar
e vem caindo a noite».
Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção,
partiu-o e entregou-lho.
Nesse momento abriram se lhes os olhos e reconheceram n’O.
Mas Ele desapareceu da sua presença.
Disseram então um para o outro:
«Não ardia cá dentro o nosso coração,
quando Ele nos falava pelo caminho
e nos explicava as Escrituras?»
Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém
e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com ele,
que diziam:
«Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
E eles contaram o que tinha acontecido no caminho
e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

29 abril 2017

Pensamentos Impensados

Corridas
Foi promovida uma corrida de velocidade com toiros; o mais rápido foi o boi ápice.

Calotes
Diz o caloteiro: o seu pode esperar...

Escuridões
Era preto, mas tinha riso alvar.

Imagens
Há mulheres que deviam reflectir no que reflecte o espelho.

Geografias
Aqui é um sítio onde cabe a humanidade inteira; toda a gente pode dizer "estou aqui".

Explosões
Não tenho medo de estar em cima de um barril de pólvora desde que não haja uma chama ao pé.

Escutas
Oiço na TVI: "um sai em defesa do outro e vice-versa".

SdB (I)


27 abril 2017

Das fases más da vida

Valter Luís (nome próprio, nome próprio) não andava numa fase famosa da vida. Em bom rigor, não seria necessário que o cronista que agora conta a história interpretasse sinais psíquicos e os transformasse em palavras. Era ele próprio, Valter Luís, que o fazia, sentado num sofá confortável do consultório modesto da sua psiquiatra.

- não ando numa fase famosa da vida...

Dizia isto e olhava para a rua, para um parque de estacionamento de um supermercado onde as pessoas se abasteciam de inutilidades em promoções, saindo ajoujadas de sacos brancos e pagamentos diferidos.

- sabe, senhora doutora, esta semana são os verdes: brócolos, couve galega, ervilhas, favas, talvez um lombardo. Já reparou que o espinafre é o terylene dos vegetais? Chega-se-lhes um pouco de fogo e ficam em nada. Já cozinhou espinafres?

Depois, compenetrado que aquela devaneio se pagava a preço de consulta, pelo que o tempo não era de banalidades, repetiu a frase do dia, como se daí decorresse a esperança de uma benção especial, ou de uma luz redentora vinda não se sabe de onde.

- não ando numa fase famosa da vida...

E Valter Luís (nome próprio, nome próprio) queixava-se de estar sozinho no mundo, ainda que rodeado de uma mulher, de amigos, de colegas de profissão ou de canasta aos primeiros sábados do mês. Era um palrador que não tinha interlocutor, um gourmet que viva com uma vegetariana niquenta, um adulto fogoso para quem o olhar desinteressado e bocejante da mulher transformava as noites íntimas numa experiência impessoal, um ex-atleta de alta competição rodeado de sedentarismo burguês e fumador. 

- não ando numa fase famosa da vida...

E a psiquiatra, ajeitando o vinco de umas calças elegantes, olhando de soslaio para o relógio, para a fotografia da sua bebé deitada muito direita numa alcatifa felpuda e para as promoções da semana, falava-lhe na infância, no direito à felicidade, nas coincidências significativas, nas novas tendências de interpretação dos sonhos e nos químicos recentes que não provocavam náuseas. Mas Valter Luís (nome próprio, nome próprio) ouvia pouco, porque se lamentava da solidão em que viva, sem companhia na cozinha e com uma ausência na cama.

Levantou-se, despediu-se e desejou à médica uma Santa Páscoa, não porque fosse católico, mas porque a frase lhe parecia bonita, redonda, auditiva, correcta, sorridente apesar do peso que via nos crentes e do milagre da ressurreição em que descria, cepticismo esse agravado pela fase pouco famosa em que viva. O milagre é uma prerrogativa dos optimistas, porque a fé é dos optimistas, pensava ele... O milagre é uma espécie de ciência mais evoluída, não acessível ainda ao humano, apenas ao divino. É um acontecimento antes do seu tempo, no fundo.

Chegou a casa, um apartamento modesto com vista para um beco, e foi para a cozinha preparar o almoço pascal, apesar da descrença no túmulo vazio, na felicidade da vida e nas noites tumultuosas de gestos e velas com cheiro a sândalo. Dez minutos mais tarde, S. José Cristina (nome próprio, apelido) surgia-lhe estranhamente cedo, vinda do call center onde trabalhava. Vestia uma lingerie toda roxa, que os tempos impunham a cor, mesmo aos incréus. Apareceu-lhe sem pudor nem bocejo, provocante, com aquela figura longilínea de quem parecia uma libelinha a preparar um flic-flac. Sorriu-lhe provocante e carnívora, nos vários sentidos da palavra:

- queres que tempere o cabrito? Ou compraste borrego?

JdB   

26 abril 2017

Da felicidade como recompensa

Já aqui escrevi sobre isso: no casamento de alguém que me é próximo, o padre falou na felicidade como recompensa. Não como objectivo, menos ainda como direito - apenas como recompensa do esforço, da dedicação, da abnegação, da entrega, do sacrifício, talvez mesmo, ou sobretudo, do amor. O conceito é interessante e suscitou uma conversa num destes dias. 

O que é a diferença de se olhar para a felicidade como um objectivo ou como uma recompensa? Para mim, cavalheiro obeso por vezes obcecado com as palavras, os seus significados, as suas nuances, a diferença é total, embora não me ocorra uma argumentação totalmente demolidora - talvez seja do cansaço da mente, talvez seja da limitação do cérebro. 

Para um cristão, a santidade é o objectivo, o céu é a recompensa. Este raciocínio faz sentido? Recorro a outro, já que estou ligado a uma IPSS: ser-se voluntário é o objectivo, a satisfação que se recolhe do voluntariado é a recompensa. Regresso ao casamento: fazer o outro feliz é o objectivo. A felicidade é a recompensa.

Olho para os parágrafos acima e fico satisfeito. Os exemplos parecem-me esclarecedores. Vou descansar, que o 25 de Abril arrasa-me. Mas deixo-vos como Sebastião da Gama.

JdB


Viesses tu, Poesia

Viesses tu, Poesia
e o mais estava certo.
Viesses no deserto,
viesses na tristeza,
viesses com a Morte...

Que alegria mereço, ou que pomar,
se os não justificar,
Poesia,
a tua vara mágica?

Bem sei: antes de ti foi a Mulher,
foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...
Mas tu é que disseste e os apontaste:
- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.
E logo froam graça, aparição, presença,
sinal...

(Sem ti, sem ti que fora
das rosas?
Mortas, mortas pra sempre na primeira,
mortas à primeira hora.)

Ó Poesia!, viesses
na hora desolada
e regressara tudo
à graça do princípio...

Sebastião da Gama

25 abril 2017

Duas Últimas

Onde estavas no 25 de Abril?

A pergunta é humorística, não requer uma resposta exacta. Acima de tudo, dispensa uma resposta exacta. O 25 de Abril foi há 43 anos e sobre esse dia não farei análise. Nem sequer direi que falta cumprir-se Abril porque, de facto, falta: o mês acaba a 30...

O período a seguir ao 25 de Abril foi, para um rapaz urbano como eu, filho de gente católica, monárquica e conservadora, um período entusiasmante, pese embora algumas selvajarias de ponto de vista cívico, como pintar frases políticas no centro histórico de Évora. Mas eram, repito, tempos entusiasmantes: militante do CDS, confrontei-me com discussões políticas no liceu, com alguns encontrões e com ameaças; confrontei-me com a adrenalina de fazer parte do primeiro grupo que colou cartazes do partido em Évora, de pincel numa mão e matraca na outra, eu que nunca fui um homem violento, ou dado a brigas. Confrontei-me, acima de tudo, com uma luta emocional, por aquilo que entendíamos ser um combate contra o mal. Eram tempos de compromisso, de luta, de gozo, e mesmo de divertimento. Eram tempos de empenho, de causas. Nesse sentido foram tempos bons - talvez educativos e formadores de carácter.

Hoje serei revolucionário, deixando-vos com Zeca Afonso, um artista de que gosto muito, se tirarmos o pendor esquerdista sempre incómodo. 

Bom feriado, onde quer que o gozem.

JdB  



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