A minha vida não será muito diferente da existência da maioria das pessoas: momentos bons, em que tudo parece correr sobre rodas fruto de um alinhamento favorável dos astros, da sorte, do nosso esforço; outros haverá em que me vem à memória uma frase dita por um amigo de longa data à mesa das cartas: quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz: em cima de uma vida profissional periclitante surge um pneu furado numa estrada secundária às escuras, depois de detectada uma dor de dentes descontrolada a horas impróprias de dentista.
Algumas pessoas com quem vou conversando solidarizam-se com os meus momentos menos bons, assim como se regozijam com os que me alegram. Para os primeiros têm palavras de estímulo, de conforto, de ânimo. Não raras vezes surgem frases retiradas da alma, da sabedoria popular, dos livros de auto-ajuda: vais ver que Deus te ajudará, ou, ainda, um dia descobrirás o sentido para isto que acontece; já devo ter ouvido que não há acasos, tudo tem uma razão.
Confesso com humildade e convicção em partes iguais: tenho a certeza de que Deus não tem nada a ver com o interruptor que é a minha (nossa) vida, no sentido de não ser Ele quem o activa. Se assim fosse, qual a justiça de ver gente de um lado a quem tudo parece correr bem e, do outro, gente a quem a vida parece um permanente carreiro de silvas? De facto, o que nos acontece faz parte das leis terrenas, do acaso, da nossa atitude, também, perante alguns acontecimentos que ensombram ou iluminam os nossos passos.
Quanto ao sentido que damos aos acontecimentos, tudo fia mais fino… Há muito que me habituei a não perguntar porquê?, mas para quê?. Há uma sensação de déja vu, tantas as repetições do raciocínio. Confesso, no entanto, que nem sempre consegui obter respostas. Nalguns casos, mesmo, a minha mente tem dificuldade em formular a pergunta. Quedo-me pelos sentimentos mais negativos e que não acrescentam qualquer valor à resolução dos vários problemas com que me defronto. Quando me indicam criaturas de Deus que fizeram isto ou aquilo, que reagiram com sucesso desta ou daquela maneira, respondo silenciosamente com o encanto na diversidade da vida: nem todos resolvem todos os problemas da mesma forma, e alguns só conseguem mesmo resolver parte.
E, de facto, pergunto: será que tem de haver um sentido para aquilo que nos acontece, ou, independentemente de sabermos as causas de determinadas ocorrências, a nós não nos resta mais do que apanharmos os despojos em que nos tornámos e talharmos um fato novo à medida do que sobra ou se reconstruiu? Haverá, na realidade, um motivo para tudo o que nos sucede, ou desse mesmo tudo apenas podemos e devemos tirar um ensinamento? Será que determinados eventos na nossa caminhada fazem parte de um esquema global e misterioso, cujo sentido nem sempre temos tino para descortinar? Essa coisa de um dia mais tarde perceberás porque te aconteceu isto baralha-me o raciocínio, confunde-me, leva-me ao determinismo e ao livre arbítrio. Não te metas nisto - seria conselho amigo de um professor de Ciências Naturais às dúvidas legítimas de alunos curiosos...
Muito se fala, a propósito do que referi acima, de felicidade, do que isso é, do que queremos e de como lá chegamos. Textos há que nos surpreendem, não pelo raciocínio brilhante, mas pela oportunidade do seu surgimento. Será uma prova da tal ordenação de factos e acontecimentos à escala planetária e oculta? Texto do Pe. Vasco P Magalhães, retirado daqui:
Uma mentira, por mais que se proclame e repita, não passa a ser verdade. Uma das mais frequentes e destruidoras é esta: Tenho direito a ser feliz! E esta mentira instala-se na cabeça de imensa gente a ponto de justificar tanto abandono e sofrimento, tanto acto egoísta. Tudo por um prazer, quase sempre efémero, tornado direito. Com isto avança um mundo doente e em ruptura. Ser feliz não é direito, mas dever! Tenho o dever de procurar a felicidade e só me aproximarei dela fazendo felizes os outros! Mas, atenção, felicidade não é ausência de sofrimento.
JdB







