09 abril 2010

íntima cicatriz

(ao sr. joaquim manuel magalhães)

lembrava-se,
como se à brutal oficina do tempo
correspondesse
a infinitude delicada da memória.

tomava por seus os céus da catalunha,
emprestadas testemunhas
da sua história trágico-marítima
mais íntima.

a noite caía na temperatura, gelada agora.
trombetas emudecidas
que ninguém esperava, que ninguém escutava,
um som-silêncio-cimento universal.

'a arte de perder não é difícil de dominar',
tudo isto lhe passava agora à frente, rente aos olhos,
uma visão futura indesejada
fazendo-se passar por outra coisa.

obscenidades.
como este poema terrível:
escrito a partir do tempo futuro,
mas vívido, vivo, no presente mais doloroso,
que é sempre o tempo-mal-passado.

como as
legiões romanas de outrora,
e as senhoras de meia idade agora,
as palavras são enviadas para a morte,

estrelas nos céus de amanhã,
indiferentes à triste sina
ou só má-sorte
dos que ficaram para trás.

dói o céu que ontem foi derrotado,
esse último céu sobre a batalha mais sangrenta,
a da metafísica cruel.

palavras, outra vez:
assassinos a soldo do monstro
a que chamam devir.

tudo o resto:
um rosto amachucado,
um homem de rastos,
o cadáver esquisito do futuro decomposto,
amargo travo de açúcar que é já fel.

resta-nos rir.

nós, os que vamos morrer
despedaçados pela ponta das palavras,
saudamos-te, césar.

gi.

08 abril 2010

Deixa-me rir...

Hoje trago-vos KD Lang. Intérprete-autora pop, folk e country, é canadiana, tem 49 anos, vários Grammy’s e uma personalidade engagée em questões polémicas como os direitos humanos no Tibete, os direitos dos gays e dos animais. “Descobri-a” há relativamente pouco tempo e fiquei fã da sua voz rica, encorpada, sensual e cheia de sensibilidade.
E gosto muito da mensagem intensa, vital e profundamente humana, desta canção. Dedico-a por isso a todos os que padecem desta espécie de sede interior chamada “human condition”…
…. if you should leave here tonight feeling not quite sated... feeling unfulfilled …. please remember that this is a human condition ...

….

Even through the darkest phase
Be it thick or thin
Always someone marches brave
Here beneath my skin

And constant craving
Has always been
Maybe a great magnet pulls
All souls towards truth
Or maybe it is life itself
Leads wisdom
To its youth

Constant craving
Has always been
Craving
Ah ha

Constant craving
Has always been
Has always been
………..

pcp

07 abril 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Se há altura do ano boa para falar de Van Gogh é, com toda a certeza, na Páscoa! Não só por calhar na Primavera, quando a luz do sol é mais radiosa e alegre, como a pintou VG. Não só por a natureza ganhar os tons do amarelo vivo e do verde luzidio que povoam as suas telas. Não só por o céu ter o azul que encontramos na sua paleta cromática. Não só por ser a época das flores, um dos leit-motivs do pintor, que não conseguiu vender um único quadro em vida!!! E nem preciso de lembrar que hoje é dos mais cotados no mercado leiloeiro mundial !

É, sobretudo, por esta tela, talvez menos conhecida do seu badalado repertório e que é das minhas preferidas, por revelar tanto e tão bem a sua forma de olhar a vida, incrivelmente positiva, apesar do sofrimento avassalador e de um dia-a-dia crivado de dissabores:



Vincent Van Gogh (1853-1890), Ramos de amendoeiras em flor, Fevereiro de 1890, Rijksmuseum, Amsterdam.

Pasmo como um homem marcado pelo insucesso, a quase todos os níveis – afectivo e familiar, financeiro, profissional, ignorado artisticamente, torturado pela dor física, além de sofrer de perturbações psicossomáticas graves – tenha passado tanta luz, tanto horizonte para as suas telas! É das coisas que me toca.

E esta é das telas mais impactantes. Porque
nada na biografia que se lhe conhece, justifica celebrar tão gloriosamente a vida!

Quanto mais a olho e
tudo nela vibra como um verdadeiro hino à alegria – daquela profunda, que nasce na alma e permanece turquesa e luminosa apesar de todas as chuvas torrenciais – mais fico siderada. Há nela uma grandeza indizível. Os ramos de linhas curvas, que se entrelaçam harmoniosamente uns nos outros, ponteados a flores brancas e de rosa suave, transmitem uma vitalidade contagiante! São uma explosão de vida nova, revigorada, que me lembram o que se conta dos concertos finais, regidos, tentativamente, por Beethoven. Não apenas esta tela mas toda a obra do pintor holandês, que não conseguiu sair do atelier, se assemelham ao fiasco das últimas audições públicas de um compositor surdo, totalmente desencontrado da orquestra, à deriva. A própria estreia mundial, absoluta da Nona Sinfonia escapou, com muita peripécia e alguma balbúrdia, ao caos que tinham sido os ensaios da ópera “Fidelio”. Mesmo assim, a 7 de Maio de 1824, a Nona conheceu a luz do dia, com dois maestros em palco, um real (Michael Umlauf) e outro a reger virtualmente, entretido numa mímica entusiasmada, q.b. risível ! E se tudo correu, apesar de tudo, bastante bem, deveu-se ao mérito dos músicos, com ordens estritas para ignorar as indicações desfasadas de Beethoven. Terminado o concerto, reza a história que a soprano, Henriette Sontag, teve de lhe interromper a mímica e virá-lo para o público, que o aplaudia animadamente, enquanto o compositor continuava a dirigir músicos imaginários! É bem irónico que o autor da que ficou conhecida por Sinfonia da Alegria, pelo coro apoteótico do final triunfante, musicando a Ode à Alegria de Schiller, não a tenha podido ouvir, nem apreciar, nem sequer reger a orquestra, naquele Dia D, sob pena de tudo ter redundado num flop!

De facto, a vida tem destas surpresas, muito misteriosas, aparentemente paradoxais, que nos ultrapassam. Mas nem tudo o que começa mal, em termos públicos (porque a pauta composta por Beethoven é irrepreensível), está votado ao fracasso. Há uma consideração muito antiga, das orações judaicas, que reza assim: «
Quem semeia em lágrimas, recolhe com alegria.»

Parece-me curioso observar que nas encruzilhadas imprevistas da história, em que as gerações dos homens se entrelaçam como os ramos da amendoeira de Van Gogh, descobrimos flores novas e surpreendentes, que nos chegam de épocas muito recuadas. É fantástica esta amálgama enriquecedora de tempos. É extraordinária esta possibilidade de comunicação entre épocas distantes, esta fortuna imensa de herdar legados de gente de eras distantes, em que chegamos ao cúmulo de descobrir uma imensidão de fãs de VG (e de tantos outros! serão a maioria?) uns bons anos depois da sua morte! Do mesmo modo, também muitas das figuras de referência e de sucesso, em dado momento, são exclusivas da sua época, pertencem apenas à sua contemporaneidade, sem conseguirem entrar na memória das novas gerações. Falham o teste do tempo!

Não haverá aqui um eco daquela reflexão radical da história dos homens, em que a realização plena não se esgota no presente, devendo abrir-se ao futuro? Refiro-me ao célebre Sermão da Montanha, onde se nomeiam os que hoje choram e os que hoje são elogiados e assim já receberam, esgotaram, a sua consolação. Uma das chaves de leitura são os
diferentes tempos dos verbos, com variações muito significativas, em cada uma das proposições das Bem-Aventuranças: entre um presente de horizonte rasgado a projectar-se no futuro e uma actualidade que não descola do imediatismo, acabando amortalhada no passado (Lc. 6, 20-26). É que o tempo é sempre implacável com as aparências…

Retomando Van Gogh, há uns anos, num voo da KLM, a revista de bordo tinha um artigo empolgante sobre uma doença ligada ao ouvido médio e que afecta a capacidade de socialização dos pacientes, além de outras consequências nefastas. E os investigadores eram unânimes em diagnosticá-la, postumamente, em VG, pelos inúmeros comportamentos que estão registados, a começar pelo corte da orelha, considerando-o inteiramente explicável, para aliviar a pressão insuportável provocada pelo tal síndrome! O local preciso do golpe, pouco comum, coincide com a zona atingida pela doença. Mais uma achega para a biografia tão dorida e incompreendida do artista.

Partilho ainda a impressão que me causou, diante de uma colecção assombrosa de óleos, que pude ver em Amsterdam, há uns anos, uma pintura lindíssima pintada no verso! A indigência do pintor não lhe permitia desperdiçar o avesso das telas, mesmo correndo o risco de manchar a parte da frente e de atrapalhar a visibilidade das telas geminadas! A exposição abarrotava de visitantes e bem vi mais lágrimas a correr, teimosamente. Mas silenciosamente – é impossível fazer barulho junto às suas paisagens radiosas. Compensamo-lo hoje pelo esquecimento dos seus contemporâneos. E isso tem graça!

Boa Páscoa,

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


06 abril 2010

Para sempre

Sentaram-me aqui para sempre, agora que estou velho.


Entretenho-me muito a pensar. Aliás, não sei se é a pensar, que não percebo nada das engrenagens da cabeça, o que faço é passar lembranças como quem projecta, numa parede qualquer, fitas estragadas pela humidade e pelo pó, ando para a frente e para trás e tento ordenar o que se aproveita, adivinhar o que dizem as vozes que se vão desfocando, recordar o tom dos risos. Sustenho a respiração no sussurro dos segredos e nos soluços abafados das lágrimas e paro nas caras das pessoas. Vamos chamar a isso pensar no tempo, para ser mais fácil.


Entretenho-me muito a pensar no tempo em que as pessoas não eram mais que pares de pernas, mais ou menos bem calçadas, mais ou menos familiares, no tempo em que a sanita era um mistério que engolia tudo, candidata improvável a conquistar o lugar do bacio azul, que parecia um carrinho com uns olhos de bambi autocolantes, no tempo em que as nossas mãos eram pequenas de mais para a sede e, nas tardes de sol, só o avô, com as suas mãos escuras de gigante, a cheirar a sabão azul e branco, conseguia segurar água suficiente para a saciar, no tempo em que as horas estavam a mando do sol e a rua a mando da chuva.


Entretenho-me muito a pensar no nosso tempo, das mãos sempre agarradas, como se não se vissem há anos demais, no tempo dos cheiros novos, nossos, que souberam guardar-se na memória, no tempo em que todos os bancos de jardim eram uma boa desculpa para parar e em que redescobrimos o prazer de rebolar na relva, no tempo em que aprendemos a saborear as imperfeições, nos apaixonámos irremediavelmente por elas, no tempo em que deixámos de ter frio de noite.


Entretenho-me muito a pensar no tempo dos nosso pequenos, que ganiam baixinho nas primeiras noites connosco, no tempo em que aproveitavas para chorar com eles as notícias do médico, de que os nossos corpos não iam funcionar nunca, só porque pensavas que eu não podia ouvir, no tempo em que percebeste que enrolar-me em ti com mais força era a minha maneira de chorar, no tempo em que as palavras deixaram de ser necessárias para nos entendermos nos assuntos da alma.


Entretenho-me muito a pensar no tempo em que os nossos pequenos morreram, e os filhotes deles também, em que choravas enquanto semeavas flores para eles, no tempo em que a preguiça já não tinha responsabilidade nenhuma na dificuldade que tinhas em levantar-te de manhã, no tempo em que eu alisei o caminho até à entrada, só porque ia ficar muito mais bonito, apesar de saberes desde o início que era para a cadeira, no tempo em que usaram esse caminho para te levar para sempre, e em que eu fui contigo, mãos agarradas como se não se vissem há anos demais, a apertar com tanta força que me esqueci de olhar para trás.


Depois sentaram-me aqui. Para sempre.



ZdT


05 abril 2010

Inveja

A militância politica de Vitória tinha começado cedo, por alturas da instrução primária. Habituara-se a ver o pai, comunista convicto e militante, com um discurso entusiasmado, a bramar contra os fascistas, contra as injustiças, contra a falta de solidariedade - contra aquilo a que ele chamava a canalha. O combatente chegava a casa aos fins-de-semana depois de mais uma ocupação de terra, de uma campanha política numa fábrica de gestão capitalista selvagem, de uma campanha de alfabetização de populações que desconheciam como alinhar as letras para compor poemas sofridos.

Nos antípodas desta realidade estava Manuel Maria, filho de uma sociedade que identificava o mundo de Vitória porque numa contenda os oponentes sempre se reconhecem. Ainda que numa visão metafórica, os seus pais eram os donos das terras que o militante político ocupava, administravam as fábricas onde os operários eram supostamente explorados, tinha um tratamento respeitoso junto das populações que não sabiam redigir textos simples. Manuel Maria usava expressões como os Pais foram ou as férias na quinta. Incongruências linguísticas de uma gente que preservava acima de tudo a propriedade privada, mas que não usava pronomes possessivos na sua sintaxe própria.

Vitória e Manuel Maria descobriram-se mutuamente para satisfazer aquela frase desinteressante e vagamente verdadeira que afiança que os extremos se tocam. Cruzaram-se ambos na improbabilidade de amigos comuns, mas os seus olhos encontraram-se num instante certo, porque se tivesse havido um minuto de atraso – ou de avanço - a sua atenção teria focado outros aspectos do mundo em redor, e algo se perderia no encaixe possível de almas desconhecidas.

Uma semana depois, aquele que não tinha por hábito usar pronomes possessivos no seu fraseado, entrava em casa da filha do comunista militante cheio de uma curiosidade levemente enervada. Munido de uma discrição que era filha de uma educação cheia de regras, o seu olhar prendeu-se na profusão de biografias de Marx e Engels, nas visões elogiosas do comunismo mundial, nos relatos sofridos das vítimas das prepotências, nas encadernações diversas dos pensamentos de Mao ou de Ernesto Guevara. A música era conforme – porque na verdadeira militância política não pode haver aspectos discordantes, não se pode abrir uma brecha na solidez revolucionária que abra caminho à incoerência burguesa.

Sentaram-se e, ao fim de 10 minutos de uma conversa neutra – confortavelmente neutra – houve algo entre eles que levou os olhos a tocaram-se, as mãos a tocaram-se, as bocas a tocaram-se. Tudo se tocou num furor erótico que era fruto de um desejo irresistível, de uma atracção quase fatal. Quando deram por isso encaminhavam-se na direcção do quarto, impelido pela vontade de ambos.

Quando entraram no quarto, a boca de Manuel Maria encheu-se de espanto – era um quarto clássico, onde ardiam várias velas de cores diferentes e aromas diferentes. Numa aparelhagem estereofónica, Tony Bennett, o homem que se chamou Anthony Dominick Benedetto, cantava, na sua voz sensual

I left my heart / in San Francisco

enquanto ao lado da cama um tabuleiro com caviar, meio limão, dois copos e uma garrafa de champanhe – e não espumante – rematavam o cenário.

O sexo entre ambos (teria havido amor?) seria bom – clássico, arrojado, criativo, lento, brutal, acelerado, respeitador dos tempos alheios, preocupado por fetiches próprios.

Nas semanas seguintes as noites repetiram-se: em primeiro lugar os livros da esquerda revolucionária, do elogio do marxismo, dos amanhãs que cantam. Em seguida o sexo ao som de Tony Bennett, do caviar, das ostras, dos vinhos a condizer.

Um dia, Manuel Maria disse-lhe:

És muito contraditória, companheira! Não sei se consigo voltar cá mais...

Sabe qual é o seu problema, senhor doutor Manuel Maria?

Diz lá, camarada Vitória. Qual é?

É a tua relação com a minha incoerência. Sabes, no fundo, o que tu tens é inveja desta minha dupla faceta, da facilidade com que vivo com o Tony Bennett e a Brigada Victor Jara, com os tremoços e com o caviar. Inveja, é o que tu tens. E isso é um pecado, ou não?

JdB

04 abril 2010

Música para o dia de hoje

Domingo de Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

03 abril 2010

Fotografias dos dias que correm...

Fotógrafa de alma e profissão, Rita Burmester foi co-autora do livro “Splendid Garage” a que pertence o conto “A Esperança de Margarida”, publicado ao longo dos últimos 6 sábados neste blogue. Amiga do coração do autor deste conto, com ele viveu momentos inesquecíveis e mutuamente enriquecedores. Um era o “anjo”, o outro a “rocha”, na poesia das palavras de Bernardo Pinto de Almeida, que escreveu o prefácio do livro.

Apresentamos hoje (e no próximo sábado) parte das fotografias que fazem parte, também, deste livro. Fotografias fortíssimas, riquíssimas nos seus contrastes de luz e sombra, cor e nitidez. Fotografias desoladas que nos remetem para um universo de despojos, de um consumismo rápido, esbanjado e esquecido. São carcaças de carros… mas poderiam ser frigoríficos, micro-ondas, máquinas de lavar, sofás esventrados, armários de cozinha …

E para quem quiser ficar a saber mais sobre a Rita e o seu trabalho: www.ritaburmester.com

pcp


02 abril 2010

Música para o dia de hoje

polaroids de figuras extintas

#5 - rogério

rogério,

a partir da prisão a que o mundo - e a falta de amor? - te condenou,
essa doença dos trópicos que te lançou
uma rede de malha fina e terrível eficácia,
a partir dessa espécie de não-lugar,
para sermos modernos e exactos na geografia descoordenada que nos resta,
peço-te que nos desculpes a distopia.

aos miúdos que te crismaram com cruel nome de fruto;
aos graúdos que não foram capazes, adivinho à légua;
aos médicos que não terão ido mais além do que atenuar
o que só tem redenção cósmica se invertido aqui na terra;
ao mundo que te negou oportunidades devidas,
abalando, até hoje, para parte incerta;
a mim, que não sou ninguém, nem mereço mais do que
qualquer outro homem que vira costas ao seu semelhante,
(mesmo que este 'virar costas' seja metafórico
e não corresponda à tradicional equação de um espaço num tempo);
e a ____.
(ia escrever quatro letras, mas não fui capaz.)

vês, rogério, a matéria de que somos feitos? cobardia e siga a vida,
raio de gente esta em que nos transformámos.

no dia em que te vi, já lá vão uns anos valentes,
tinhas um carro com tuning - uma coisa que me repele, devo dizer-te,
e um corpo ainda jovem com umas muletas já velhas,
numa estranha rima desengonçada,
como o teu andar doente,
espasmódico (como o ritmo quebrado desta porcaria de poema).

achei, nesse dia, que as jantes douradas do teu carro eram afinal lindas,
contra o azul eléctrico do capot - e ambos recortados contra o céu da beira alta.
até dos apliques - ailerons, ponteiras de escape, eu sei lá que mais - gostei.
emprestavam uma estranha dignidade ,
ao carro e ao rogério que conheci em menino, transformado ele próprio,
num homem-maquinizado.

pensando bem,
talvez não seja beleza a palavra certa,
talvez a palavra certa seja ironia
- a única resposta possível que te deixámos,
eles e eu, todos nós, aqui em baixo,
mais aquelas quatro letrinhas que não ouso dizer,
ali mais em cima.

um homem kitado, conduzindo, em dificuldade,
um carro dourado, feérico, eléctrico,
jantes douradas e agonia movida a gasolina sem chumbo,
uma anedota motorizada largada ao vento,
como aquelas piadas de mau-gosto
que alguém sempre sopra em jantares sociais
(e todos tentamos evitar escutar, apesar de estarmos lá).

o que eu agora gosto do tuning, rogério,
dessa metáfora feita de horsepower,
como se fosse um puro sangue no asfalto,
brincando com a identidade automobilística
e a possibilidade humana.

é assim, rogério.
ser duro não chega. ser mole não alivia. ser justo, talvez.. o quê?
é assim, rogério.

é assim.
mas não devia ter sido.

gi.

01 abril 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this Easter week I have chosen some extracts from the film musical Jesus Christ Superstar from 1973.
Considered controversial by some Christian and Jewish religious groups for suggesting, they believed, that Jesus may not be divine and that the Jews were responsible for Jesus' death, and perhaps partly because of its 'rock opera' artistic medium, I believe instead that it successfully tries to humanize Jesus, to "strip away the myth from the man", similar to the more recent films The Last Temptation of Christ and The Passion. I do not believe it denies necessarily his divinity. Through the eyes in particular of Judas Iscariot - who sees the human-ness of Jesus and the desire among his fellow people for a new spiritual messiah, but who also fears retribution from Rome - and of Pontius Pilate who also sees Jesus as a political victim, JCS tries also to observe the events in its social/political context and also comments on how perhaps Jesus might have been regarded if He had lived in today's world of mass communication and PR marketing. Would Jesus be revered if He appeared on earth today as the Son of God?
JCS has become one of the most popular and loved musicals ever. Not just because it contains brilliant music and lyrics (based on the text of St John's Gospel) but because also it has helped to make the story of Jesus more approachable, understandable and relevant for the modern world.
I managed to find only one video extract which contains Portuguese subtitles but I hope that most of you will be familiar already.

Heaven On Their Minds - observations from Judas:



Pilate's Dream - premonitions:



Pilate and Christ - the first meeting:

Herod's Song -

Trial Before Pilate/39 Lashes/Superstar -

I wish you all a spiritually fulfilling Easter holiday.

A proxima,
PO

31 março 2010

Good Morning Sunshine


So I’m not allowed to wear skinny jeans because I have hips? No!
Shakira was right, hips don't lie!

“As long as you know men are like children, you know everything!"
Coco Chanel


3rd Must Have:
A pair of skinny jeans


TdB

Pensamentos impensados

Atendendo a que todos os meses têm um signo, qual será o signo do 13º mês?

Lesseps, após o extraordinário trabalho que teve com a abertura do canal, teria exclamado: que grande canudo! Na altura foi considerado um dito soez.

Se se chocarem ovos de perdiz, já pôdres, será que nascem perdizes "faisandés"?

Tentaram promover uma exposição pornográfica mas foi vetada; foi uma espécie de veto de castidade.

Todos aqueles que não se conformam com a maneira de viver da actual civilização, vão buscar ideias ao famosa manual Cem Maneiras de Viver Sem Maneiras.

30 março 2010

Jardim das Oliveiras

Foi chamado ao templo pelos doutores da lei. Pediram-lhe que entregasse aquele a quem chamava de Mestre. Em troca, receberia trinta moedas de prata. Era esse o preço da traição. Uma bolsa cheia em troca de uma vida.

Deram-lhe três dias para dar uma resposta. Era o tempo que faltava até à madrugada antes da Páscoa. Tinham medo que o povo se revoltasse quando o prendessem, por isso preferiam fazê-lo de noite, quando todos dormissem.

Por um lado pesava-lhe o facto de entregar um homem justo. Sabia o que o esperava, e não via nele razão para uma morte tão demorada e dolorosa.

Por outro lado, já há algum tempo que certas dúvidas o preocupavam. De que outro modo poderiam ter a terra prometida, de que ele tanto lhes falara, se não derrotando os romanos que estavam no poder? Se ele se intitulava rei, onde estavam as suas riquezas? Onde estavam os exércitos prontos a combater e a recuperar a terra que lhes pertencia? Porque perdia tanto tempo a pregar, quando poderia estar a preparar a batalha?

Chegou, por fim, à conclusão de que este não era o profeta que tanto esperava. E sentiu-se desiludido. Mais que isso, sentiu-se traído. Tinha depositado todas as suas esperanças neste homem a quem chamavam messias. Todas em vão. Isto, juntamente com as trinta moedas, era suficiente para o entregar.

Levou os doutores da lei até ao Jardim das Oliveiras. Sabia que o encontraria aí, a rezar. Quando lá chegou viu-o de pé, no meio de alguns discípulos que, tal como o povo, também dormiam. Parecia ter envelhecido vários anos desde a última vez que o tinha visto, na ceia dessa noite. Tinha os olhos inchados e os traços do rosto vincados pela angústia. Dirigiu-se a ele para cumprir o que tinha sido acordado.

'Judas, é com um beijo que entregas o filho do homem?'

SdB (III)

28 março 2010

Músicas dos dias que correm

Domingo de Ramos

Hoje é Domingo de Ramos e eu, ainda que não repetindo a fórmula com a frequência de outros dias, não me esqueço da minha condição de católico. Dada a extensão do Evangelho, optei por escolher apenas um trecho que, ano após ano, não deixa de me tocar.
A semana que agora começa é para nós, crentes, a liturgicamente mais importante do ano. Que a saibamos viver com um coração renovado. Uma Boa e Santa Páscoa para todos.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

N Levavam ainda dois malfeitores
para serem executados com Jesus.
Quando chegaram ao lugar chamado Calvário,
crucificaram-n’O a Ele e aos malfeitores,
um à direita e outro à esquerda.
Jesus dizia:
J «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem».
N Depois deitaram sortes,
para repartirem entre si as vestes de Jesus.
O povo permanecia ali a observar.
Por sua vez, os chefes zombavam e diziam:
R «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo,
se é o Messias de Deus, o Eleito».
N Também os soldados troçavam d’Ele;
aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
R «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».
N Por cima d’Ele havia um letreiro:
«Este é o rei dos judeus».
Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
insultava-O, dizendo:
R «Não és Tu o Messias?
Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
N Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:
R «Não temes a Deus,
tu que sofres o mesmo suplício?
Quanto a nós, fez-se justiça,
pois recebemos o castigo das nossas más acções.
Mas Ele nada praticou de condenável».
N E acrescentou:
R «Jesus, lembra-Te de mim,
quando vieres com a tua realeza».
N Jesus respondeu-lhe:
J «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

N Era já quase meio-dia,
quando as trevas cobriram toda a terra,
até às três horas da tarde,
porque o sol se tinha eclipsado.
O véu do templo rasgou-se ao meio.
E Jesus exclamou com voz forte:
J «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito».
N Dito isto, expirou.

27 março 2010

A esperança de Margarida (fim)

Todos os dias levantava-se e sentia um prazer ingénuo, quase infantil, em ir de t-shirt branca com as mãos nos bolsos, ao Café Central do Aníbal ler o jornal e ouvir os velhos dizer que o Salazar é que era bom e que deviam pôr uma bomba em tudo o que não funcionasse, como a Caixa de Previdência ou o Notário! Rapidamente se tornou no “aí Jesus” das solteiras todas, claro! Um dia chegou ao café como sempre por volta das dez, dez e qualquer coisa, pegou no jornal e ia sentar-se quando sentiu uma mão forte a bater-lhe no ombro.

Torcato Pereira mantinha-se o cromo de serviço na Cabreira, o seu amigo com quem tinha subido aos muros, com quem se ria do Abade e com quem enganava pelas noites a irmã para irem correr todos os bares próximos possíveis de Simca enquanto era novo e ambos bêbados, claro! Torcato tinha-se conseguido manter exactamente o mesmo depois daqueles anos confusos na vida dos dois: sempre grande e corado a rir e com as mangas arregaçadas, a camisa aberta até ao umbigo e disponível para beber copos onde fosse e com quem fosse. Tinha-se tornado agente imobiliário naquela terra que não parava de crescer e toda a Cabreira tinha-se habituado a falar-lhe sempre que alguém queria comprar ou vender alguma coisa. Tinha ganho muito dinheiro com os lotes da quinta da Condessa e achava que os sobrinhos dela eram uns selvagens. Conhecia toda a gente e ria-se à grande facilmente.

Não pediram contas um ao outro quando se encontraram, apenas trocaram um olhar terno que apenas o tempo explica, no meio de palavrões, janelas fechadas, madeiras de mesas e de bancos sempre com oleados de morangos e melancias com quadradinhos, calendários de mulheres nuas a venderem pneus pelas paredes e pelas portas; tudo entre gritos, abraços e gargalhadas! Aquele palerma tinha voltado! Torcato tinha um Mitsubishi Colt já fora de moda, mas que ele achava que funcionava imenso com as pequenas, era estiloso, dizia! Mas na sua vida não tinha pequenas nenhumas, apenas uma namorada persistente: a Ilda Carrelhas que levava tudo à sua frente com berros e palavrões e que era dona do primeiríssimo supermercado da Cabreira. Fazia um esforço daqui à China para ir às terças a casa do Abade Afonso, que era o que a tornava respeitável como mulher tardiamente solteira e o seu contributo para o lanche resumia-se a passar a mão pela prateleira das bolachas e levar um pacote de Marias ou de Água e Sal ou o que tivesse mais por ali, o que fosse! Irritava-se sempre no momento em que se tinha de se arranjar, vestir coisas que lhe caiam mal com flores ou folhos e sapatos apertados que lhe deviam dar o ar que era necessário naquelas terças tormentosas em que o Torcato a levava, a zelar pela dignidade de todos, a casa do Abade para aturar aquele mulherame cada semana. Mas Ilda tinha sempre muito presente no seu peito que a grandeza e o respeito que lhe eram devidos se devia a outros mundos e a outras entidades.

Mas era certo que chegada lá via-se no meio das amigas que sempre conhecera desde que nasceu com sangues e idades confusas e eram com quem contava no fundo. Sentia-se bem e todas gostavam daquela querida que tinha uma atitude de mulher divorciada sem o ser, porque não tinha vergonha de se deixar amar, mesmo por um atolambado que todos também adoravam como o Torcato. Respeitava o calote de todas, fosse porque precisassem ou porque deixavam andar. Era a única entre as confrades das terças que não tinha vergonha de gritar que lhe doíam os calos e que estava farta da vida, porque sabia que todas a compreendiam e se sentiam por perto, mas não diziam. Afinal a querida Ilda era apenas dona do supermercado, por isso identificavam-se, mas não se acusavam!

A propósito, A Esperança da Margarida ou Margareth’s Hope é um chá de sabor delicado, muito caro e famoso mundo dentro e também atractivo, dizem os rótulos para quem percebe; de folha verde acastanhada a que se juntam outras folhas quaisquer colhidas no princípio do Verão. É feito na Primavera entre Abril e Maio, por isso. Foi sempre de longe o chá favorito do Abade Afonso Bento, que esperava pelas terças-feiras em que todas se matavam para o conseguirem nas mercearias chiques de Lisboa ou do Porto, menos a Ilda, claro, que achava que os pacotes coloridos que tinha no seu super chegavam, sobravam e recomendavam-se.

Fim

(para a semana são apresentadas fotografias que, à semelhança deste conto, fazem também parte do "Splendid Garage")

26 março 2010

polaroids de figuras extintas

#4 - luís

'estás aqui estás a levar, rais'parta este diabo!'
deve ter sido o lindo cartão de visita que te ofereci,
enquanto as pernas ganhavam balanço para
o massacre que se seguiria - botas de caçador, minhas,
contra pernas de sedutor em formação, tuas.
há amizades assim, nascidas de um duelo.

das amizades mais fortes, a nossa não foi a mais
improvável, mas talvez a mais estranha, naquele
sentido em que se a amizade tem algo de amor,
bem posso dizer que te odiei por te amar, sem o saber,
amei-te enquanto e porque te tive, como nos livros de psicologia,
e de novo te odiei, quando enfim te perdi - coisas da vida.

mas não vamos ficar por aqui, só memória e tristeza,
quando tanto houve de primavera nesses invernos juvenis,
tanta lenha e tanto verão, dias lentos e lânguidos,
mesmo quando chuvosos - que a juventude tudo embala,
brasa que incendeia palha, água, tudo o que passa,
matéria transitória que contudo, e contra tudo, permanece.

la dolce vita, filmada com os meios que havia, poderia
bem ser o guião desses dias esplêndidos, noites de folia
e rapina, embriagados de nós próprios e de imaginação,
todo um filme que só nós - e mais um ou outro - víamos,
alheios à suave despressurização dos bosques em volta,
ausentes da corrosão do tempo, essa gangrena em combustão.

éramos felizes, e imaginávamos mil aventuras, que eram
na realidade trinta e duas (mas quantas são, hoje em dia?),
éramos alegres, e beberricávamos cem gê-tê-is, que eram
na verdade quatro ou cinco (quantos são, hoje em dia?),
éramos jovens, e namoriscávamos vinte miúdas, que eram,
há que dizer, uma ou duas (são quantas, hoje em dia?).

felizes, alegres, jovens - com saúde, e era mais do que
a santíssima trindade (que me desculpem os leitores).
assim eram os dias, sublimes, envoltos em perfeição,
mergulhados em possibilidades, abertos ao mundo,
sem traumas, passados, mágoas, revoltas, náuseas,
- dois felizes rapazes, segurando a mão dos seus amores.

hoje, perdi-te. hoje, perdeste-me. complicadíssima operação
esta, que não se ensina em universidade nenhuma da vida,
por ciência ou arte - um nada gentil mecanismo de subtracção.
ambos navegamos agora em mar alto picado, coisa suicida,
deixando para trás juventude, beleza e um naco de coração,
resta a memória rasgada na ardósia e na pele, a traço de giz.

(ai, luís, luís. que foi isso que tu me fizeste? que foi isto que eu te fiz?)

gi.

25 março 2010

Deixa-me rir...

Uplifting!! É a palavra que me ocorre quando ouço esta música e vejo o George Michael (e outros) em palco. ADORO – em tamanho 72 - estas multidões em delírio, em perfeito uníssono musical e de sensibilidade. Adoro o palco, os efeitos de luz, as imagens projectadas, a encenação, o exagero. Adoro a sensação de que o “meu” tempo parou numa outra dimensão onde tudo e todos se diluem numa espécie de irmandade que comunga dum mesmo gosto, dum mesmo intenso prazer … não há como um bom concerto ao vivo! Não há espectáculo que se lhe iguale. Para mim, claro. Acho que ainda guardo este traço da minha já longínqua adolescência. E estou em crer que nunca o perderei… o que se pode vir a revelar patético no futuro…. Enfim, logo se vê…

Aqui fica o George Michael Live, em Earls Court, Londres, 2008, cantando I’m Your Man. Gosto de n músicas dele, acho-o fantástico em palco, mas confesso que tenho um fraquinho pelo I’m Your Man. Não pela mensagem (sei que não faço parte do público a quem esta música se destina….) mas pelo ritmo, sempre o ritmo. O elemento mais importante na música. Para mim, evidentemente.

Por isso, dancem, cantem e, como repetidamente diz o dono deste estabelecimento, “façam o favor de ser felizes” (quem dizia isto originariamente: o Raul Solnado?).


pcp

PS: talking about rhythm, ouçam “Faith”, também no contexto deste concerto.

24 março 2010

Vai um gin do Peter's?

Quem diria que pintura do séc. XVII-XVIII podia acumular sentido de humor e sedução? Ainda por cima em naturezas-mortas? Mas vou mais longe, assumindo que é, precisamente, por serem naturezas-mortas!
Experimentem dar um salto até à Gulbenkian para ver «A Perspectiva das Coisas. A Natureza Morta na Europa. Primeira Parte: séc.s XVII e XVIII»(*), e assim obterem a vossa perspectiva… Deixo também o título, em inglês, por corresponder, na perfeição, ao embate real do visitante com as pinturas ali expostas: «In the presence of things»!
O que se pode dizer de uma exposição que junta telas assinadas por Rembrandt, Goya, Meléndez, Oudry, Abraham Brueghel (o da 3ª geração), Chardin ou Josefa de Óbidos (ou Ayala), vindas do Louvre, Prado, The National Gallery, Rijksmuseum de Amesterdão, Museu de Pintura de Berlim, Museu Nacional de Arte Antiga, entre outras colecções? A forma expositiva tem a excelência a que a Gulbenkian nos habituou, com óptimas legendas e grupos temáticos bem sugestivos, para se explorarem: os arranjos florais, as mesas de festa, os troféus de caça, os objectos de valor com ostentação de raridades, além dos espantosos “Gabinetes de Curiosidades”, muito em voga na época, para terminar na reflexão mais filosófica: Questões de Vida e de Morte e na incontornável “Vanitas”, evocando um dos livros mais poéticos da Bíblia, o Eclesiastes.
Em números, são 71 pinturas, provenientes de 34 Museus e de 11 colecções privadas, em que apenas uma é património da Gulbenkian. Dos artistas expostos, outra raridade é o facto de haver quatro pintoras: Josefa de Óbidos, Clara Peeters, Louise Moillon e Fede Galizia!
Numa definição à letra, as naturezas-mortas excluiriam a presença explícita do ser humano, dando-se preferência ao mundo inanimado, o que levou à subalternização desta temática, em muitas épocas da história. Mas o virtuosismo de pintores adeptos do tema, assim como o enriquecimento da sua simbologia, a par dos novos gostos sociais, com a descoberta de terras longínquas e de preciosidades exóticas, ou ainda a moda dos inventários e de estudos de ciências naturais nos primórdios do enciclopedismo, parecem ter favorecido as naturezas-mortas, sobretudo a partir do séc. XVI. Aliás, a beleza dos brilhos de muitas delas é hipnótica. São verdadeiros diamantes...

Willem Kalf (1619-1693), Natureza-Morta com Armadura, Armas de Guerra e Objectos de Aparato, 1643-45.

É curioso observar que os pintores de objectos incluem, com mais frequência do que se esperaria, a presença de seres vivos, através de paisagens luxuriantes, animais atentíssimos a cobiçar uma apetitosa presa já morta e até mesmo figuras humanas, de forma mais ou menos velada, em estilo de charada. Ao lado de troféus de caça, que fariam as delícias de qualquer chefe de cozinha, pousa um garboso pavão, ou espreita um gato a assumir a tentação do próprio espectador, além de borboletas, gulosamente, a esvoaçar por entre as flores frescas do jarrão. Ainda assim, a presença humana é a excepção. E nas excepções, Rembrandt destaca-se, com a acutilância que lhe conhecemos a observar a realidade. O tema é forte e contrastante: num primeiro plano, duas pavoas recém-mortas, sob o olhar prazenteiro de uma menina pequena, mais curiosa que intimidada pelo sangue fresco, ainda a escorrer. As pavoas são, assim, duplamente, observadas, de dentro e de fora do quadro, nós em contraponto à menina. Outras excepções, muitíssimo dissimuladas, são as telas de Abraham van Beijeren e de Clara Peeters, com os reflexos dos pintores espelhados nas superfícies curvas de jarros de prata lustrosa, num efeito de dupla assinatura da obra. Há depois mais excepções, por exemplo, nos retratos de pessoas, como se em pintura o retratar de um retrato (um quadro dentro do próprio quadro) pudesse distar do registo “directo” de uma figura na tela? Digamos que resulta numa certa ironia em cadeia!


Abraham van Beijeren (1620-1690), Natureza-Morta de Aparato, 1655.

O humor nas várias gradações, da graça subtil de uma mesa suculenta… menos alcançável do que gostaríamos, à observação mordaz e crua sobre o tempo de vida a esfumar-se, é um ingrediente expectável numa temática que, frequentemente, intercepta a linha de fronteira entre a vida e a morte, exprimindo a precariedade da existência. Mas não se imagine que a tristeza ou a frustração pela fugacidade da vida impera, porque o tom festivo – ainda que em vários casos haja um misto de sabor agridoce, pelo fim-à-vista – é dos leit-motivs do acervo exposto, como o evidenciam os temas propostos na exposição: Deleite para os Sentidos, Festim para os Olhos, Momentos preciosos, Doçarias, que nos oferecem fantásticos menus degustação, reveladores das diferenças entre o Norte e o Sul da Europa.
No gosto mediterrânico, abundam as frutas, os legumes frescos, o pão, a doçaria caseira a fazer juz a uma ementa saudável, light, de cores suaves. A sobriedade prevalece. Na Flandres e arredores privilegia-se a ementa farta, de aparato, com boas peças de caça, variedades infinitas de queijos e fumados. A superabundância parece ser a mensagem de bom acolhimento aos visitantes da casa onde a tela se exibe.
O simbolismo riquíssimo e quase encriptado(**) dos objectos representados nas telas, acentua-se também com a própria mise-en-scène e com a escolha criteriosa dos elementos retratados. Nada é inocente! O pavão de cores ricas em contraponto ao cisne branco de cabeça pendente, num jardim luxurioso, não se reduz ao virtuosismo do pintor a trabalhar minuciosamente as penas das diferentes aves, numa a opulência dos tons e na outra a textura macia mas monocromática; também os reflexos da luz refractada e multiplicada entre a transparência dos cálices de cristal e o ouro reluzente dos metálicos na «Natureza Morta com um Cesto de Copos» (Sébastien Stoskopf) não se cingem ao mero tecnicismo do jogo de luzes e caracterização dos materiais luminosos, como se depreende do copo partido do lado esquerdo e da tampa de um cálice dourado, triunfal, à nossa direita; o contraste entre a beleza fulgurante da natureza, de um outro nível de criação, a submergir a fragilidade das criações humanas, também possui uma metáfora explícita… Os exemplos são infindáveis. Num dos expoentes da ironia, e também da lucidez, é a própria arte que aparece, não apenas no seu esplendor, mas igualmente no crepúsculo a que está sujeita toda a existência. São disso expressão os instrumentos musicais virados para baixo ou abandonados no chão, os livros em avançado estado de degradação, a escultura de um espinho que atormenta um pobre rapaz. Também as armaduras ou os elmos jazem abandonados, porque todo o poder terreno é de curta longevidade… Enquanto a areia na ampulheta se vai escapando, sem possibilidade de recuo.
Na mesma linha de demonstração clara da efemeridade, várias jarras aparecem tombadas, apesar de lindas, as toalhas arrepanhadas em molho (naturalmente, onde o seu colorido e volumetria surtem melhor efeito cénico), os copos virados ou quebrados ou quase vazios. Parecem a versão pictórica da afirmação de Oscar Wilde sobre o facto de a beleza durar… uns minutos! É claro que o sentido decorativo da disposição das peças parece justificar os objectos caídos e as tapeçarias enroladas assimetricamente num dos cantos, conferindo movimento ao todo, em geral, realçado sob fundo escuro. Estamos em pleno barroco e a gestão muito cuidada da luz e dos reflexos, a exuberância das texturas e das cores, estão na ordem do dia.
Mas vale a pena voltar ao início: numa outra perspectiva, há também a exaltação da intensidade do instante. Da força do presente. Do gozo do prazer imediato. Há uma tela de Meléndez que exprime, espantosamente, a instantaneidade, com a chávena do chocolate quente virada, mas ainda sem o conteúdo ter desabado… apesar da sua liquidez ser evidente nos pingos que sujam a chocolateira prateada. Quase meio século antes da invenção da fotografia, o registo em tela destes instantâneos, que imobilizam centésimos de segundo, é hiper ousado!

José López Enguídanos (1760-1812), Natureza-Morta com Serviço de Chocolate, 1807.

Outra das ironias das naturezas-mortas – ainda que nem sempre intencional – é o suposto realismo, a camuflar, afinal, um artificialismo notável e até um estilo onírico, de forte carga simbólica, que só pelo hábil jogo de verosimilhança com a realidade se confundem com a sua representação directa. Puro ilusionismo! Quantas das flores que posam, lado-a-lado, nas jarras, são de épocas do ano incompatíveis e distâncias geográficas inconciliáveis, à época! A exuberância das raridades e de jóias exibidas em Gabinetes de Curiosidades não passam de realidades virtuais… só acessíveis em tela! Mas seria a peça do ourives mais preciosa que o seu duplo, na tela? Goethe considerou que não, formulando o expoente máximo que a pintura pode atingir, ao comentar uma natureza-morta atribuída a Willem Kalf (com obras em exposição): «Se tivesse de escolher entre os vasos dourados e a imagem, escolheria a imagem.»


Willem Kalf (1619-1693), Natureza-Morta com Náutilo, Taça Chinesa e Outros Objectos, 1662.

Bom, não sei se resultará numa boa ou numa má notícia dizer que cada quadro conta uma história, transmite uma mensagem, pressupõe uma mundividência própria. Diria que se avançarem para o estilo de investigação Poirot ainda se divertem mais… com cada tela. Boas descobertas!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
__________________
(*) Patente ao público até 2 de Maio, na Galeria de Exposições Temporárias da Sede. Horário de Terça a Domingo:
10h00 às 18h00. Preço: 5€. Óptima documentação: folheto gratuito e catálogo a 40€, na livraria.
(**) O significado simbólico difere conforme o nível de leitura a privilegiar, entre o político, moral, religioso ou
social. Dois exemplos muito comuns: a
rosa evoca as duas principais famílias inglesas: Lancaster (púrpura) e York (branca), ou o amor e a paixão com conotações diversas dependendo da cor, além de ser um símbolo mariano; a flor-de-lis representa a monarquia francesa, estando ainda associada à nobreza de carácter e , simbolicamente, indica o Norte, além de estar associada à pureza de espírito , à virtude e de ser a principal insígnia do escutismo mundial. Não só as flores, como os frutos, os animais e as próprias cores estão associados a uma simbologia complexa.

23 março 2010

Se não fossem eles, não chegava ao chão...

Os meus pés não têm lugar definitivo. É regra. Eventualmente, acabo por os arrecadar da melhor forma que me ocorre, convencido que é perfeita e definitiva, mas dois minutos bastam para me provar o quão enganado eu posso estar em relação aos ângulos certos. São grandes demais, as certezas e os pés.
Vezes há em que são pontadas irracionais e persistentes que me perturbam o conforto, outras é um formigueiro fininho que se impõe, meio dormente meio latejante, e me obriga a rever prioridades de arrumação que antes me tinham parecido irrefutáveis. Podias dormir em pé.
Ninguém consegue dormir aqui, independentemente da verticalidade adoptada.
O segundo dedo é magro e comprido como o indicador de uma mão de gente, ou pelo menos de uma que, nascida inteira, se tenha aguentado assim até ser usada para qualquer comparação. É maior que o primeiro, uma raridade anatómica que exibo com orgulho sempre que o calor pede uns chinelos de enfiar. Segundo não me lembro quem, é sinal que sou bom a tomar decisões, parvoíce, portanto, que eu nem sequer acerto no assentar dos pés. Ao menos é engraçado.
Ao menos que sirva para alegrar alguém.
Gosto de estar sossegado, não me apoquento facilmente e até sei esperar as demoras sem impaciência, mas nunca sei onde meter os pés. Escolho sempre mal e acabo invariavelmente por ter de aguentar um qualquer desconforto, por vezes durante pequenas eternidades, o que resulta em protestos físicos visíveis, vermelhidões e suores estranhos, rapidamente atendidos ou firmemente ignorados, dependendo da evolução das circunstâncias. Pára quieto com os pés! Tens de ir fazer xixi?
Desde pequenino que é assim.
É costume, como se sabe, arranjar às regras uma ou outra excepção, e neste meu caso podológico não é diferente. Se foi ou não o acaso que os fez encontrarem-se, isso é matéria para outra noite qualquer, a verdade é que o descanso do guerreiro está no enrolar instintivo, numa fuga ao desamparo e num anúncio certo do fim da jornada, dos teus pés nos meus. Aquece-me os pezinhos.
São tão bonitos os diminutivos, assim ao ouvido.

ZdT

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