As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
07 julho 2010
Twilight
06 julho 2010
Carta a um anjo
Foi hoje, mas há dezasseis anos...
E eu rezava, baixinho: “é minha! É minha! É minha!”
Quanta vez, quanta vez, cansados de brincar,
Ficávamos a olhar um para o outro, a olhar,
Todos cheios de sol, ofegantes ainda...
Era feia, talvez, mas Deus achou-a linda...
E, numa noite, a minha alma, a minha luz morreu!
Deus, se ma quis tirar, p’ra que foi que ma deu?
Para quê? Para quê? *
Este pequeno texto fez-me companhia enquanto a minha alma ia escrevendo esta carta. Fala de perda, seguramente. Algo que é comum a tanta gente a quem as circunstâncias da vida amputaram um pouco de si próprio – um filho, um marido, um projecto de vida, uma carreira, um sonho, uma dignidade.
Sabes, desde há muito que acredito, com aquela convicção de que se revestem as ideias intangíveis, que a essência das coisas não está, verdadeiramente, naquilo que nos acontece. A alegria com que celebrámos o teu surgimento, hoje mas há dezasseis anos, não se pode quedar na satisfação universal com que sempre festejamos o nascimento de uma filha; na mesma ordem de ideias, a tristeza com que lembramos a tua partida não se pode limitar ao sentimento de uma dor maior que todos nós.
Por mais irónico que possa parecer, de ambos os acontecimentos pode nascer um milagre, se bem que ambos sejam explicáveis à luz de uma ciência disponível à compreensão de todos. Onde está, então, o acontecimento que espanta? Está, tão somente, na forma como agarramos os eventos e os colocamos no nosso coração. É por isso que creio, com uma força superior à de muitos medicamentos, que o assombro não está em ver o acontecimento - o nascimento ou a morte - mas em ver além dele. O milagre está no modo como vislumbramos o que os outros não conseguem ver, porque estão presos a uma obsessão pelos factos que desfoca o encanto da imaginação.
O pouco tempo que estiveste connosco ensinou-nos isso. Não vieste para ser, mas para revelar; não vieste para mostrar, mas para inspirar; não vieste como uma certeza, mas como um ensejo. E, no dia em que partiste, ninguém te levou, porque o teu destino não era ficar: seguiste de mão dada com o mesmo Deus que te trouxe até nós num dia quente de há dezasseis anos.
O nascimento e a morte dos outros, início e fim de uma caminhada sobre a terra, não são episódios sobre os quais devamos olhar com a distância da normalidade. São, isso sim, oportunidades. E, no entanto, muitos de nós repetem a pergunta angustiada do personagem. Mesmo que as palavras sejam diferentes, a raiva e o desalento são os mesmos. Porque razão mo deram, se era para mo tirarem? E Deus, que não é senão Amor, transforma-se em algo afastado, como um Amigo que nos traiu com o seu silêncio, a sua distância, a sua ausência. Muitos de nós olham-se ao espelho e, para além dos olhos cavados e húmidos, de umas mãos que tremem de fraqueza e saudade, não têm um vislumbre de esperança, algo que se perfile no horizonte como a aurora de um novo dia. A hipótese do milagre está lá mas atravessa-nos, como se não fosse mais do que uma aragem indiferente ao nosso vazio.
Tal como há um ano, a história do nosso passado vai sendo escrita, em doses nem sempre justas, com letras de dor e alegria, inspiração e cegueira. Continuamos a perseguir o milagre, aquele ponto no infinito que é igual para todos, se bem que uns lhe chamem felicidade e outros o Céu. Continuamos, talvez, a não identificar o caminho. Resta-nos saber que estás lá, paciente e amorosamente à espera, segura de que é o Amor que tudo cura, mesmo que seja nas palavras metafóricas de um personagem.
Afinal,
Foi esse anjo, ao morrer, que me fez Cardeal!
E eu hoje sirvo a Deus – a Deus, que ma levou. *
Foi hoje, mas há dezasseis anos...
JdB
* A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas
05 julho 2010
O dia em que morreu Sebastião
Sebastião sublinhava sempre o significado das soberbas subtilezas da vida que, sabia ele, servia sobretudo para ser saboreada. Defendia democraticamente as delicadas delícias diárias, deixando demorar os doces e desprezando as durezas. Conversava com a calma dos centenários e cultivava, comedido, controvérsias curiosas. Alegrava-o algaraviar alto, entre amigos, e andar ao acaso pelas aleias de árvores da aldeia. Escutava encolhido, escultural, estranhamente entretido e de esgar estreito. Versátil no verbo e vivo de visão, era virtuoso, veemente e vincado de valores e virtudes.
Sebastião segredou, num sopro, os seu derradeiros dizeres, contando que chegassem para acalmar as angústias de quem esperava estarrecido a morte do mais verdadeiro velho da vida. No dia em que morreu.
ZdT
04 julho 2010
14º Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Lc 10,1-12.17-20
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
designou o Senhor setenta e dois discípulos
e enviou-os dois a dois à sua frente,
a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.
E dizia-lhes:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao dono da seara
que mande trabalhadores para a sua seara.
Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos.
Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias,
nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho.
Quando entrardes nalguma casa,
dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’.
E se lá houver gente de paz,
a vossa paz repousará sobre eles:
senão, ficará convosco.
Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem,
que o trabalhador merece o seu salário.
Não andeis de casa em casa.
Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem,
comei do que vos servirem,
curai os enfermos que nela houver
e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’.
Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem,
saí à praça pública e dizei:
‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés
sacudimos para vós.
No entanto, ficai sabendo:
Está perto o reino de Deus’.
Eu vos digo:
Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma
do que para essa cidade».
Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo:
«Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago.
Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões
e dominar toda a força do inimigo;
nada poderá causar-vos dano.
Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem;
alegrai-vos antes
porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».
03 julho 2010
Pensamentos impensados
02 julho 2010
desculpa-me as palavras
eu digo:
sou um coração partido,
uma canção perdida,
uma luz à beira do ocaso,
uma palavra sem asa,
uma formidável léxico novo,
uma ruína e uma casa.
eu minto:
sou uma árvore futura,
uma sede insana,
uma vertigem,
o deserto e a sua miragem,
um fome desumana,
uma centelha esculpida em filigrana.
eu creio:
sou nem coisa nem loisa,
um caso perdido,
um desmando,
um rio seco,
um fado em desalinho,
um completo desvario.
uma anomalia estatística,
um teorema insolúvel,
uma equação impossível,
um reino de cristal,
gelo em pleno verão,
o inverno mais austral.
eu sinto. e sinto tanto.
eu sinto-me. e sinto-me tonto.
eu sinto-te.
e sinto muito.
gi.
01 julho 2010
Deixa-me rir...
And, at least here in Britain, we still have our Scottish man Andy Murray to cheer at the Wimbledon tennis.
Dreams made me think of a fantastic old song by the New Zealand group Crowded House. Don't Dream It's Over , like most of their songs, has a mysterious poetic lyric not easy to explain, rather like life itself, but essentially it sounds a bell of optimism, of carrying on whatever the obstacles.
Don't Dream It's Over
There is freedom within, there is freedom without
Try to catch the deluge in a paper cup
There's a battle ahead, many battles are lost
But you'll never see the end of the road
While you're traveling with me
Hey now, hey now
Don't dream it's over
Hey now, hey now
When the world comes in
They come, they come
To build a wall between us
We know they won't win
Now I'm towing my car, there's a hole in the roof
My possessions are causing me suspicion but there's no proof
In the paper today, tales of war and of waste
But you turn right over to the TV page
Now I'm walking again to the beat of a drum
And I'm counting the steps to the door of your heart
Only shadows ahead, barely clearing the roof
Get to know the feeling of liberation and release
Despite the World Cup disappointment, I had a lovely weekend in London: the sun was shining, and with a good friend visited Portobello Market with its clothes and antique stalls,
and strolled through Hyde Park, where Stevie Wonder was playing in concert, and drank caipirinhas... a perfect sort of day.
Which leads easily to this uncharacteristically romantic song by Lou Reed. I have chosen a version in which he collaborated with the BBC
using a full orchestra and many famous singers from different musical backgrounds - pop, rock, jazz, blues, country, and opera. It was so well received that it was then
used to raise funds for childrens' charities and sold a million copies.
Perfect Day
Just a perfect day,
Drink Sangria in the park,
And then later, when it gets dark,
We go home.
Just a perfect day,
Feed animals in the zoo
Then later, a movie, too,
And then home.
Oh it's such a perfect day,
I'm glad I spent it with you.
Oh such a perfect day,
You just keep me hanging on,
You just keep me hanging on.
Just a perfect day,
Problems all left alone,
Weekenders on our own.
It's such fun.
Just a perfect day,
You made me forget myself.
I thought I was someone else,
Someone good.
You're going to reap just what you sow...
Oh what a perfect day,
Wishing you all many perfect days,
A proxima,
PO
30 junho 2010
Vai um gin do Peter’s ?
É um filme pesado (até pelo jargon bastante boémio e hiperbólico mas com partes muito cómicas), apesar do sentido de humor hiper lúcido e refrescante ou não estivesse a concorrer com outros candidatos à mesma estatueta, ainda mais pesados… Refiro-me ao do realizador austríaco, «O Laço Branco», também interessante mas em espiral de ódio, onde a soberba e a crueldade se mascaram de um moralismo repugnante, com uma rigidez desumana. Não por acaso, «O Laço…» decorre em vésperas da I Guerra Mundial, que parece ser urdida pelas mentes castigadoras daquele povoado remoto. Mais dantesco ainda é antever os adultos da II Guerra… Diria que não alcança o horizonte arejado do filme vencedor, apesar do esforço muito louvável da voz off, devidamente demarcada de todo aquele horror clandestino e indomável. Um registo cansativo, acantonado num microcosmo psicológico demasiado retorcido e monolítico.
Voltando ao thriller argentino, «O SEGREDO…» baseia-se no romance de outro argentino, Eduardo Sacheri, com um título ainda mais revelador: «A PERGUNTA DOS SEUS OLHOS».
Num esforço para expor os pontos fortes do filme sem quebrar, minimamente, o suspense – crucial ao desenrolar da narrativa – avançarei com pinças...
Todo o fluir da trama é marcadamente latino, quer pela forte carga afectiva, quer por todo o enquadramento social, quer pelo perfil das personagens, definidas sobretudo pela teia dos relacionamentos humanos.
Os diálogos de tragicomédia vão do burlesco à tirada filosófica ou ao desabafo intimista, passando pela dialéctica tribunícia, em segundos. O espectro de comunicação é incrivelmente amplo, enriquecido por uma mímica magistral, zooms geniais a olhares que dizem tudo, ou a nesgas de planos captados por frinchas de luz que nos desvendam os mistérios mais intrincados. Inimagináveis. Curiosamente, a viagem ao interior das mentes é bem mais empolgante que a exploração dos meandros de um crime hediondo. Abreviando, poderíamos dizer que o filme traça não só os mapas mentais, como mergulha no código das motivações psicológicas, desenhando a matriz irrepetível de cada personalidade. E aqui, a descoberta da chave de leitura do homicídio, pela personagem superior que é o contraditório Sandoval, lança-nos na chave de leitura do próprio ser humano: «Uma pessoa pode mudar de nome, de morada, de aspecto… mas há uma coisa que não pode mudar… não pode mudar de paixão». Corresponde à tradução em linguagem judicial de «Onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração.» Adensa-se a trama para vir a revelar, no final, o “tesouro” – mais ou menos assumido, mais ou menos consciente – de cada personagem. Um tesouro que, embora de fórmula simples como é apanágio das opções afectivas, pode numa fase da vida assumir a forma de um amor fortíssimo e, escassos segundos depois, sustentado pelo mesmo amor (quando frustrado…), assumir os contornos da pura vingança que se vai tingindo de ódio. No fim, fica-nos a dúvida sobre a identidade do condenado à pena maior: não será o que se deixou aprisionar no ciclo vingativo, sempre insaciável?
Os perfis psicológicos são apaixonantes. Todos, diria. O realizador conduz-nos por círculos concêntricos, partindo do epicentro dos 3 companheiros do tribunal. Um triângulo unido por uma cumplicidade densíssima, de vida e de morte, onde há lugar para a amizade e para a paixão, dispensando-me de mais caracterizações para não interferir no efeito surpresa. O pequeno círculo alarga-se, progressivamente, a mais pessoas envolvidas no homicídio, que é o pretexto da narrativa, até abranger toda a sociedade.
As variações entre o presente e os múltiplos flashbacks são de mestre. Assim como a alternância de perspectivas entre o olhar individual e o plural, entre as vivências pessoais e os episódios “colectivos”, entre os grandes planos de uma personagem, isoladamente, e os efeitos da constante interferência dos outros, conforme os laços e as circunstâncias de vida que os interligam.

- Tu tens o presente, mas a mim só me resta o passado. – Esposito a Irene
- Vivi sempre virada para o futuro. O passado não é a minha jurisdição. (Para o rever) declaro-me incompetente. – resposta de Irene
- Se não se esquece (do homicídio de há 25 anos), vai acabar com mil passados e nenhum futuro... Vai acabar só com lembranças. – Morales
- Já não sei se é a lembrança ou se apenas me resta a lembrança de uma lembrança, percebe? – Morales
O argumento é desfiado numa escalada de deixas extraordinárias, que não se perdem no exibicionismo verbal, inconsequente, ao jeito do discurso puramente demagógico e oco. Aqui, sente-se a força de cada palavra, até pelo valor que assume no desenrolar da acção:
- Os olhos falam … e é melhor que se calem. – Esposito a Sandoval, embriagado
- Não. Que (o assassino) viva muitos anos! Assim, acabará com uma vida cheia de nada. – a fórmula da justiça, segundo Morales
- Diz-lhe, ao menos, que fale comigo. – Gomez, o homicida.
- Estou cansado de ser feliz. – Esposito, em resposta ao cumprimento do inspector
Nada é óbvio enquanto não for visto até ao âmago da alma, embora se deixe adivinhar num esgar involuntário, num desabafo extemporâneo. Mas nada fica por desvendar se se toma o pulso da vida! Poderá soar estranha esta associação de ideias entre o sucesso de uma investigação criminal e a postura de vida do investigador. Indo mais longe – propõe-se aqui uma relação causa-efeito. Vale a pena transcrever dois ditos de Esposito, para avaliarmos a ousadia da proposta:
- Parecia-me que tudo se tinha passado noutra vida… mas foi nesta… Porque esta é a vida.
- Como se faz para viver uma vida vazia? Uma vida cheia de nada?
Talvez a personagem que melhor ilustre o olhar profundo que todo o ser humano merece, para superarmos a falácia das aparências, seja o copofónico e irascível Sandoval, afinal um sábio sem pose nem estatuto, antes autêntico druida. Auto-define-se assim: «O que se passa, Benjamin (Esposito), é que vocês me vêem assim, vestido de sapo. Mas, na realidade, sou um príncipe encantado.» Cabe-lhe uma função decisiva, oscilando entre o coro das tragédias gregas e o bobo das peças de Shakespeare, a pontificar ao longo do curso da história. Será o mais paradoxal do variado panorama humano em cena. Se dúvidas houvesse, a sua última aparição na tela faz jus à grandeza do seu carácter, encoberta por um dia-a-dia de vícios e desleixo. Aliás, o final torna-se o momento supremo de cada personagem, a manifestação mais límpida do respectivo “tesouro”.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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FICHA TÉCNICA
Título original: El secreto de sus ojos Título traducido: O Segredo dos seus olhos
Realizador: Juan José Campanella
Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino, Guillermo Francella, José Luis Gioia, Carla Quevedo, Bárbara Palladino.
Produção (argentino-espanhola): Mariela Besuievski
Argumento: Juan José Campanella, baseado no romance La pregunta de sus ojos de Eduardo Sacheri
Fotografia: Félix Monti Banda sonora: Federico Jusid e Emilio Kauderer
Duração: 127 min. Ano: 2009 País: Argentina /Espanha
29 junho 2010
Chegou a Maria Clementina
28 junho 2010
Histórias para o dia de hoje...
Muito começou em Smir, no Club Med, no ano de 2000. A vida era fagueira e as preocupações relativamente poucas. Os anos que se seguiram foram intensos, e eu devo muito à família da RJ, a quem dedico este post. Quando dei por mim escrevíamos um livro a meias. Um dia, em 2006 talvez, ofereci-lhe um pequenino conto de que publico parte. Era uma altura em que a alma mística que punha nos textos era superior à qualidade com que o fazia. Eu sei porque o publico, e a RJ sabe porque o lê. Há muitas formas de dizer obrigado.
JdB
(...)
- Aonde ides, Senhora?
Deus Nosso Senhor perguntava com ar ligeiro, um leve rodopiar de corpo, um breve trinado na voz, um discreto menear de braços.
- Hoje é dia de Escola dos Anjos, Senhor. Vamos na letra R e prometi que falaria sobre Santa Rita de Cássia.
- Pois muito bem. Cá vos espero. Sinto que hoje acontecerá alguma coisa. SERÁ PORQUE É VÉSPERA DE DIA DE S. PEDRO?
O Pai voltou as costas, um riso reprimido a custo, a bondade toda reflectida naquela graçola.
Maria dirigiu-se para a sala de aula onde a esperava uma infinidade de anjos. À medida que se aproximava sentia o ruído a crescer, um ruído todo feito de alegria e satisfação, inundado de amor e bem-estar.
- Boooooom diiiiiiiiiiaaaaaaa, Mãe!
Maria começou a contar, para ver se faltaria alguém: 1, 2, 3, ,... 280660..., 12325908..., 917290366,... ∞.
- Estão cá todos – disse com um ar satisfeito.
- Mãe, Mãe, que dia é hoje?
- Porque queres saber, meu anjo?
Madalena não respondeu, mostrando um sorriso tão doce que enterneceria qualquer um, encolhendo os ombros como que a dizer que não tinha uma resposta muito certa – ou se calhar não a queria partilhar. Ainda...
- O Nosso Pai diz que é véspera do dia de S. Pedro, mas eu acho que há mais... Vamos falar de Santa Rita de Cássia, e vou ler-vos a história dela.
Como sabeis, meus anjinhos, ‘Santa Rita nasceu em 1381, em Itália. Foi baptizada com o nome Margherita, o que originou a abreviatura de Rita pela qual é conhecida em todo mundo católico. Abalada pela morte do marido e dos filhos, quis recolher-se ao convento das agostinianas de Cássia, mas não foi aceite. Rezou, então, fervorosamente aos santos de sua devoção: São João Baptista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino. Contam os biógrafos que estes santos arrombaram as portas do convento e a fizeram entrar. Por 14 anos, até à sua morte, trouxe na testa um estigma, associando-se assim à paixão de Cristo. Morreu no mosteiro de Cássia em 1457 e foi canonizada em 1900. São-lhe atribuídos tantos e tão extraordinários milagres que é tida por advogada das causas perdidas e a santa do impossível’.
Como sempre, os anjos não perdiam uma palavra do que Maria contava, absorvidas pela sua entoação, pelo texto mágico, pela mensagem.
- Mãe, Mãe, que dia é hoje?
Nossa Senhora preparava-se para responder quando um choro de criança pequena a interrompeu. Numa fracção de segundo todos os anjos estavam debruçados do Alto, deleitados com aquela rapariga que acabara de nascer. Como se chamaria, teria um bom coração, seria amiga dos outros, estaria sempre pronta para ajudar, iria conseguir adivinhar quando os outros precisassem dela, será que alguém lhe escreveria coisas com alma – versos ou contos? Tantas perguntas, tantas dúvidas – será que alguém tinha certezas?
A um canto, Madalena sorria, já não de doçura, mas de alegria quase incontida. Agora sim, a pergunta dela tinha resposta e o seu mundo na terra estaria mais protegido, teria outra felicidade. Viu aquilo que mais ninguém via, com uns olhos – como alguém diria num ano difícil – ‘profundos como a noite mas brilhantes como estrelas’. Sentiu, na suavidade da sua infantilidade, mas no predestinação do seu percurso, que no Céu não havia Ontem nem Amanhã, Nunca ou Sempre. No Céu o tempo fluía com uma leveza tal que a Eternidade estava ali à mão de cada um, o Infinito era já agora, Passado e Futuro coincidiam no tempo presente. Madalena olhou para a Frente, a vista absorta na Distância, o coração inundado de uma Confiança só acessível a quem tem um íntimo puro, uma alma sossegada, um caminho de Fé.
Viu a sua vida e a daqueles que lhe povoavam os sentimentos, que lhe tinham dado o amor de que ela se lembrava, lhe tinham segurado a mão quando ela partia. Viu, lado a lado, o Sofrimento e a Alegria, a Solidão e a Companhia, a Pergunta e a Resposta. Viu pessoas que surgiam, outras que desapareciam, outras ainda que permaneciam. Viu pessoas muito especiais, daquelas que estavam sempre presentes – mais em espírito do que em corpo -, e que diziam palavras bonitas mesmo que nem todos as ouvissem. Viu ainda duas pessoas, por quem ela nutria um afecto especial, que conversavam muito sem nunca se verem.
Ao pé de si, os outros anjos continuavam as perguntas: quem é, como se chama, que profissão vai ter, com quem vai casar, quantos filhos vai ter. Ao seu lado, numa presença que nunca faltava mesmo que nem sempre se sentisse, Maria e o Pai Eterno davam as mãos a Madalena. Todos sabiam já que dia era aquele, porque se tinha falado de Santo Irineu, de Santa Rita de Cássia, de 1960. Era dia 28 de Junho, dia de todas as alegrias, momento de todas as esperanças. Madalena levantou-se, debruçou-se do Alto e, perante a surpresa de todos, sorriu-se com o bebé como se se conhecessem de toda a vida. Acenou, atirou-lhe um beijo e uma rosa (será que alguém saberia porquê?) e disse com um ar de profundo agradecimento: Olá Quatro Letras!
Tudo estava bem.
27 junho 2010
Textos dos dias que correm...
A felicidade não cai do céu, é luta e dá trabalho. É Graça, também!
A felicidade cristã tem três "efes": fé, fidelidade e fecundidade!
Se alguma destas coisas não existe, não podemos encontrar a felicidade.
Feliz equivale a ser pessoa de fé, confiante, fiel aos seus propósitos, fecunda, aberta aos outros e à vida.
Vasco P. Magalhães, sj (pensamento enviado por mão amiga)
13º Domingo do Tempo Comum
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?»
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».
26 junho 2010
Pensamentos impensados
25 junho 2010
pequena canção
não as desejo nem dadas ao melhor amigo do meu pior inimigo.
eu, que inimigos não tenho, melhor fora que os tivesse deveras,
em vez espadas e balas, desembainharia de vez estas saudades,
arrancadas a ferros e erros e braços a este meu coração tão dorido.
(ou então: riscar, reescrever, apontar à palavra: meu coração tão florido.)
gi.
24 junho 2010
Deixa-me rir...
pcp
22 junho 2010
As pessoas que comem hortaliças de manhã

Sossego traiçoeiro
Fazes poupanças da alma
Com as manias da razão
E pedes sempre mais calma
Custa-te largar a mão.
Sobre as coisas que assustam
Não demoras a pensar
Imitas aqueles que escutam
E vais-te deixando andar.
Sobra-te tempo pra tudo
Sobretudo pra gastar
E deixas-te andar mais que mudo
Não gostas de atrapalhar.
O sossego é traiçoeiro
Surpreende quem quiser
A verdade é que és um estrangeiro
Até prá tua mulher.
E a certeza esmorece
Enquanto avanças na canção
A vida é sempre diferente
E precisa de um refrão.
Agora contas plos dedos
O que sabias de cór
A tabuada dos medos
Não tem lugar no amor.
E há-de chegar o dia
Em que tu vais perceber
Só te deram esta vida
E foi feita pra viver.
Zdt (cancioneiro dos improvisos)
21 junho 2010
Bem-aventurados os mansos...
Neste pequeno texto há dois personagens, Vítor e Rafael, ambos gémeos. São tão gémeos que, para efeitos de narrativa, não só não se distinguem um do outro como dizem exactamente o mesmo, e encontram-se nos mesmos locais com uma simultaneidade sem explicação científica. O que diz um diz o outro – sendo que a inversa também é verdadeira. Onde está Rafael pode ler-se Vítor. Diria ainda, correndo o risco da repetição, que a inversa também é verdadeira.
***
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Rafael – como poderia ser Vítor – de há muito que sorria ao ouvir esta frase do sermão da montanha. Apanhara o hábito de seu pai, um homem sério, austero e grave que se vira precocemente viúvo quando a esposa tombara no chão, silenciosa e discreta, num desgraçado e chuvoso domingo de Ramos.
Vítor – como poderia ser Rafael – voltara a ouvir o texto sagrado, já sem sorriso. Franzira-se-lhe um sobrolho e correra-lhe uma lágrima furtiva derivada de uma orfandade paterna recente. De facto, o pai dos gémeos – entre si, e inversamente falando – finara-se com um sorriso segurando entre as mãos fortes e grandes um diário. Foram encontrá-lo com os olhos abertos, um fio de saliva a escorrer-lhe pelo canto da boca fina e séria e um estetoscópio – totalmente desenquadrado da decoração envolvente – numa banqueta ao lado.
Rafael – como poderia ser Vítor – fechara-lhe os olhos, arrumara o instrumento médico com um misto de espanto e temor de que sempre se reveste o inexplicável, e sentara-se a ler o diário. Um dos gémeos – ou seria o outro? – sugerira que se começasse pela página aberta, que talvez se derramasse uma luz sobre o funesto evento.
17 de Fevereiro. Voltei a casa de AT. Recebeu-me linda e deslumbrante, com um sorriso convidativo e pecaminoso. Estava vestida de enfermeira, o meu fetiche mais recorrente. A farda justa realçava-lhe as formas volumosas e, junto a um peito que a cirurgia estética tinha retocado, um relógio pequeno marcava as 15 horas. Estendeu-me uma mão forte e profissional, lamentando o meu ar macilento. Instou-me à posição horizontal na marquesa, alegando a necessidade de um exame completo. Na hora que se seguiu observou-me de norte a sul, de nascente a poente, de A a Z. Usou todos os seus sentidos, justificando a necessidade de um diagnóstico perfeito. Quando a possuí – e foi ela, AT, quem explicitamente me pôs o verbo nos lábios – revesti-me de uma felicidade imensa, como o doente a quem o médico transmite palavras de cura. A enfermeira levou-me à porta, solícita, confiante, amável – e desnuda. Mantivera sempre um estetoscópio ao pescoço, como quem mostra ao paciente que todos somos serviço e prazer. Estendeu-me a mão profissional e forte e pediu que lhe devolvesse o instrumento médico aquando da próxima visita. Detectou-me um corpo pouco ginasticado, mencionando que talvez fosse bom convidar uma acrobata da vez seguinte. Amo-te, AT, e não vejo o dia de te possuir de novo.
Vítor – como poderia ser Rafael – interrompera a leitura do diário para aplicar de novo o verbo abrir – já abrira a boca, faltava abrir a porta. Na soleira da dita encontrava-se uma senhora muito bonita, fardada de enfermeira, com um relógio pequeno a compor um decote displicente onde saltitava um peito retocado pela cirurgia.
Muito boa tarde. Estou a falar com os donos da empresa Irmãos Mansos e Herdeiros? Talvez tenham ouvido falar na minhas iniciais – AT... O meu nome é Andreia Terra, e conheci bem o vosso pai...
JdB
20 junho 2010
Domingo ... se fores à Missa!
“Pega na tua cruz, nega-te a ti mesmo e segue-me …” que palavras tão duras. Quem é que, no seu perfeito juízo, se nega a si mesmo? Talvez os mártires, as freiras de convento, os monges budistas, os verdadeiros santos, mas não nós, comuns mortais. E que quer isto dizer, negar-se a si mesmo? É anular-se? Ser low profile, não dar nas vistas, não ter opinião nem intervenção? É ouvir e calar? É ver e desviar? Sentir e desdenhar? Não, não e não. Deus fez-nos à sua imagem e semelhança e essa semelhança deve, pelo contrário, ser bradada aos 7 ventos. Deve ser o nosso cartão de visita, a nossa projecção no mundo e nos outros. Um verdadeiro Cristão não deve anular-se, muito pelo contrário, deve mostrar-se. Então, o que é isto de negar-se a si mesmo? Gostava de ouvir a v/ opinião, o vosso ponto de vista.
O que me ocorre como possivel explicação ou interpretação, como lhe queiram chamar, será talvez a consciência de que cada um de nós não é o fim, em si próprio, mas um simples instrumento ao serviço de Deus. O nosso corpo serve para armazenar a alma, não é nosso e a alma serve para servir a Deus, não é nossa. Somos pincéis nas mãos do artista.
Domingo se fores à Missa... Nega-te a ti mesmo
Maf
Evangelho segundo S. Lucas 9,18-24.
Um dia, quando orava em particular, estando com Ele apenas os discípulos, perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?»
Responderam-lhe: «João Baptista; outros, Elias; outros, um dos antigos profetas ressuscitado.»
Disse-lhes Ele: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Pedro tomou a palavra e respondeu: «O Messias de Deus.»
Ele proibiu-lhes formalmente de o dizerem fosse a quem fosse;
e acrescentou: «O Filho do Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, tem de ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.»
Depois, dirigindo-se a todos, disse: «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me.
Pois, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la.
19 junho 2010
Pensamentos impensados
1 - Onde está sepultado o Rei D. Sebastião?
2 - Onde está, em Lisboa, uma estátua do Rei D. Sebastião?
3 - Em Lisboa, o Marquês de Pombal, está representado em pelo menos, 3 sítios. Onde?
4 - O que têm em comum Van Gogh, os toureiros e Mike Tyson?
5 - Em Lisboa, há um sítio, cujo nome é... apenas o nome; não é rua, travessa, largo, beco, nada.
Como se chama?
Pensamentos dos outros
Eça de Queiroz odiava os políticos porque lhes adivinhava caspa.
Penso que este pensamento é de Ramalho Ortigão referindo-se ao futebol: jogo de canelão e encontrão propício à tuberculose.
18 junho 2010
amor & etc.
uma hipótese entre tantas outras de seres feliz
pela linguagem.
aqui, neste bairro que só nós dois habitamos,
nenhum linguista ousará desfazer
os nós entrelaçados dos nossos dedos;
nenhum filologista romperá jamais
os elos, os laços, os traços
que nos unem
e reúnem
à volta da enorme árvore frondosa da praça maior:
a linguagem.
de alexandre dito o grande, restam os livros.
de roma, outro tanto.
alexandria, sião, constantinopla?
poeiras
varridas pelo tempo.
já as palavras teimam, insistem, resistem.
como esta minha ideia louca, laura,
de te fazer feliz
por pura osmose semântica.
um dia, alguém lerá: foram felizes, tão felizes, aqueles dois.
e sabes que mais, laura?
no espaço destas exactas 28 linhas mal escanhoadas,
descontando já as linhas brancas,
sei que
fomos fomos fomos fomos
- isto é: sei que somos.
17 junho 2010
Deixa-me rir...
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