JdB
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
19 janeiro 2011
Moleskine
JdB
18 janeiro 2011
Livro dos despautérios i)
Sombreio com precisão tudo o que fica entre mim e o chão. A minha extensa verticalidade é suficiente para anoitecer uma considerável porção de terreno num magnífico eclipse profético, aos olhos dos bichos, pelo menos. A haver sol, é o que faço melhor, não havendo, faço pouco mais que providenciar um distinto abrigo para o vento e, no caso de uma franciscana falta de melhor, para a chuva que possa vir de empurrão com ele. Tudo isto sem recorrer à notável faculdade do movimento e, melhor ainda, sem qualquer esforço intelectual. Quieto, mudo e estúpido.
Tenho tido saudades das alturas do ano em que, luxo raro, me é permitido ficar quieto, mudo e estúpido.
Zdt
17 janeiro 2011
Vai um gin do Peter’s ?

Quando em 2008/09 o maestro finlandês, Esa-Pekka Salonen, aterrou em Londres para gerir os destinos da Philharmonia, convidaram-no a arquitectar projectos de divulgação dos compositores clássicos nas Ilhas Britânicas, tentando importar a revolução que acabara de operar na Filarmónica de Los Angeles.
Assim nasceu a ideia de criar uma instalação digital, que permitisse ao público ouvir um concerto imergido no meio da orquestra, a acompanhar a regência de Salonen na perspectiva única que se tem do palco e… até mesmo agarrar na batuta e dirigir os músicos.
Explico-me melhor: depois de percorrer as salas recheadas de 29 ecrãs gigantes, em alta definição, a visita desagua num compartimento circular, com a régie à nossa disposição para fazermos experiências de som, alterando o volume dos vários instrumentos, na posição de maestros. Há também um espaço onde se podem tocar instrumentos. Nas salas iniciais, a música é ouvida junto ao naipe de músicos que aparece no ecrã. O primeiro é o dos violinos. Em frente às nossas cadeiras está a estante com a partitura que está a ser executada mesmo ao lado.
Não deve ter sido nada fácil descobrir a peça ideal para aguentar as fantasias dos espectadores, permitir desdobragens de som por naipes e proporcionar diferentes níveis de leitura, mantendo o público interessado, apesar de a maioria estar mais familiarizada com a sonoridade soft e popular das rádios. Esse terá sido o primeiro grande desafio. E a escolha recaiu sobre o repertório russo do princípio do século XX com a épica SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA (The Rite of Spring, de onde deriva o título da exposição), de Igor Stravinsky (1882-1971), de uma riqueza e densidade acústicas difíceis de igualar. Basta lembrar que há 101 músicos em palco! Um colosso.

Igor Stravinsky passou a infância em S.Petersburgo;
em 1910 mudou-se para a Europa (França e Suíça); com o
eclodir da II Guerra radicou-se nos EUA, onde morreu em 1971.
Alguns dados sobre esta peça magnífica: seguindo a boa tradição russa, também a Sagração está associada a um bailado, preparada em parceria com o empresário dos Ballets Russes, Sergei Diaghilev, e estreada em Maio de 1913, no coração de Paris: Teatro dos Campos Elísios. O ritual pagão e sacrificial em que Stravinsky se inspirou, chocou o público (houve verdadeira batalha campal no dia da estreia(2)), mas revolucionou a composição musical, inaugurando harmonias totalmente inovadoras, com inúmeras dissonâncias. E não pouca polémica, claro…
A própria coreografia – do famosíssimo bailarino Nijinsky – incorporou toda a intensidade rítmica e orquestral daqueles timbres vanguardistas, vertiginosos, exacerbados, adoptando movimentos abruptos, primitivos, selvagens, ditos «rústicos», que perturbaram a audiência, tanto mais que eram dançados pelos míticos Ballets Russes, que faziam furor na Cidade das Luzes. A parceria entre Stravinsky e Diaghilev redundou num sucesso rotundo, apesar de tudo, tendo dado origem a uma sequência de bailados lendários: «Pássaro de Fogo» (1910), «Petrushka» (1911) e «A Sagração da Primavera» (1913). Tudo o que envolvia os Ballets Russes era, só por si, um acontecimento: desde os figurinos à cenografia, passando pelos bailarinos e rematando na orquestração genial de Stravinsky. Artistas como Picasso, Matisse ou o poeta e cineasta Jean Cocteau colaboraram na concepção dos espectáculos, tornando-os memoráveis. Nunca em tão pouco tempo se fez tanto pela arte da dança.

De facto, a composição musical sublima toda e qualquer temática, envolvendo-nos em ritmos arrebatadores, vibrantes, excessivos e contagiantes, que nos franqueiam uma nova dimensão. Nas palavras de Salonen, a peça situa-se fora do tempo e toca a eternidade. Este comentário insere-se na explicação do maestro sobre o desenrolar do concerto, que pode ser visionada num dos ecrãs da exposição.
Há passos da Sagração que remetem para a criação do mundo. É como se recuássemos até ao Big Bang, até ao despertar mais ancestral da vida. Diria que Stravinsky nos convida para um concerto cósmico, onde ousa dirigir as próprias forças da natureza, indomáveis, ao rubro. Vulcânico e lindíssimo! Segundo declarações do compositor: «Sou o veículo através do qual passou A Sagração da Primavera (…) Tive uma soberba visão repleta dos mais inusitados efeitos sonoros indefiníveis...»
A Sagração revolucionou o paradigma da construção musical, anunciando uma Primavera muito fecunda na história da arte ocidental, como tinha pressentido o seu autor. Os cânones tradicionais são ignorados, o ritmo assume a primazia, a sonoridade reveste-se de timbres exóticos com os instrumentos a tocar em registos inusitados (ex: o fagote em agudíssimo) e com uma intensidade alucinante, as assimetrias e variações rítmicas sucedem-se em catadupa, as transições do fortíssimo para o pianíssimo superabundam, a reiteração de uma polifonia de tonalidades muito díspares cria uma concentração de energia acústica extrema. Até do ponto de vista físico é uma peça esgotante para os músicos. Percebe-se que tenha originado um degelo algo subversivo, que ainda hoje nos chega com uma novidade incrível. Nesse sentido é, provavelmente, das obras mais resistentes à banalidade, conservando uma frescura e uma inexpugnabilidade ao vulgar que a tornam verdadeiramente genial.
O «Re-Rite» nas palavras dos organizadores:
- O maestro Salonen: «Estar no meio de uma orquestra, experimentar a sensação de 101 músicos a tocar a Sagração, faz correr a adrenalina, e é algo que quero partilhar com o mundo.»
- O produtor Richard Slaney sobre a escolha da Sagração: «Porque é a peça definitiva de música clássica. Tem tantas camadas, tantos instrumentos e tantas coisas a acontecer! É uma peça muito dinâmica e excitante, e beneficia imenso de a desconstruirmos um pouco e entrarmos no seu íntimo, ganhando uma noção do que cada parte (dos músicos) está a fazer. (…) A Sagração foi roubada por todos os compositores para o cinema. Se não se souber muito de música clássica, há (…) acordes e atmosferas no início da segunda parte que parecem saídos d’A Guerra das Estrelas.»
Quis o Criador precisar de nós para acrescentar qualquer coisa à criação. Felizmente para a humanidade, Stravinsky deu o seu melhor e fez a diferença!
Fica ainda o convite para outra experiência única: aterrar nesta cidade azul e plena de luz que é Lisboa, desfrutando a vista soberba a partir da janela do cockpit. Uma paisagem inspiradora para o primeiro mês do Novo Ano.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) Mude - Museu do Design e da Moda - R. Augusta, nº 24. Tel. 21 8 886 117.
http://www.mude.pt/mude_site.html.
HORÁRIO: 3ª a 5ª e Dom. – 10h00-20h00. 6ª e Sáb. - 10h00-22h00.
(2) No breve espaço de um ano, os franceses conseguiram digerir o choque inicial e reconhecer a beleza assombrosa da Sagração.
Stravinsky registou este volte-face fantástico na segunda audição da peça, em Paris: «Foi uma esplêndida reabilitação. A sala estava repleta. O público, já não distraído pelo espectáculo, ouviu o meu trabalho com uma atenção concentrada e aplaudiu-o com um entusiasmo que me emocionou muito e que estava longe de esperar. Alguns críticos, que anteriormente tinham depreciado a Sagração, confessaram abertamente o seu erro» (in «Crónicas da minha vida»)
16 janeiro 2011
A mulher que se casou com ela própria
«Sabem de país mais desconhecido que um coração?». Foi o que me apeteceu perguntar estes dias ao assistir num dos telejornais a uma notícia bizarra, com a qual até os jornalistas que assinavam e apresentavam a peça gozavam. Uma mulher de Taiwan, secretária de profissão, aí entre os trinta e os quarenta anos, tinha protagonizado um casamento com ela própria: com direito a vestido branco, aliança, transporte em limousine, jantar para centenas de convidados e fogo de artifício. Não sei como é que tal possa ser, pois não imagino que exista em alguma parte um enquadramento jurídico para iniciativas do género. Penso que tudo se terá ficado por uma celebração simbólica em que aquela mulher, encenando um matrimónio, jurava fidelidade a si mesma.
Ao receber uma notícia destas podemo-nos rir, alarmar, enfurecer, encolher os ombros, interrogarmo-nos se tudo não passa de uma farsa desenhada para os tabloides e para a TV nas tréguas natalícias onde, ao que parece (sic), as notícias sérias não abundam, questionar a saúde psicológica daquela mulher e dos que a rodeiam, etc, etc. Mas, a existir um pingo de verdade nesta insólita história, somos remetidos para um nível mais profundo de compreensão: temos de tentar perceber, por de trás do ato, ainda que nos pareça destituído de qualquer racionalidade, o que conduz ou pode conduzir um Ser Humano a uma decisão destas. Sem querer ficcionar sobre uma história seguramente já saturada de ficção (e de óbvias, penosíssimas ilusões), há uma causa que ocorre imediata: uma grande, irresolúvel e mal vivida solidão.
A cultura contemporânea deixou de nos preparar para a solidão. Na maior parte das vezes é uma aprendizagem que temos de fazer em cima dos próprios acontecimentos, ou na sua dolorosa ressaca, e de forma muito desacompanhada. É como se a solidão fosse uma surpresa absolutamente improvável na nossa experiência humana e não, como ao contrário é, um modo de existência completamente comum. Há uma frase de Truman Capote, que há anos passei para um dos meus cadernos: «Todos estamos sozinhos, debaixo dos céus, com aquilo que amamos». Mas esquecemos isso. Esquecemos que todos os dias, mesmo numa vida afetivamente integrada e febrilmente ativa, a solidão nos visita. Somos sós connosco próprios e em companhia. Fomos sós em criança, fomos assim na transbordante juventude e nas décadas da vida adulta, e seremos assim na velhice. A amizade e o amor são formas de condividir, diminuir, dar serenidade ou potenciar criativamente a solidão, mas o assobio ininterrupto da solidão continuará a fazer-se ouvir no abraço redondo dos amantes ou na ronda magnífica dos amigos. Recordar-se disso é humanizar o nosso olhar e o nosso juízo sobre a realidade.
Também por este motivo, gostei muito de reencontrar no número de janeiro da revista "Ler" as palavras lúcidas da escritora brasileira Nélida Piñon, opondo o alicerçante desejo de recolhimento à atração atual por tudo o que é dispersivo: «a solidão buscada é o lugar onde melhor aprendi a encontrar-me».
Texto de José Tolentino Mendonça, tirado daqui.
2º Domingo do Tempo Comum
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água». João deu mais este testemunho: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na baptizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
15 janeiro 2011
Pensamentos impensados
Comportamento de risco - diz-se dos selvagens que riscam os carros.
Choque em cadeia - diz-se das pessoas que são electrocutadas na prisões americanas.
Porta bandeira - diz-se das portas antigas que tinham um vidro em cima chamado bandeira.
Porta voz - diz-se das portas que rangem e fazem lembrar voz a gemer.
Dito por alguém
Uma pessoa, para ter ideias limpas, deve mudar de ideias todos os dias, como muda de camisa.
Como se chama a mulher do Pai Natal? Mary; Mary Christmas.
Mais anglicismos no nosso folclore
Try (experimente) Trai, trai, olaré trai trai, era a moda do meu pai.
Vayela (tecido) Vai tu vai tu vai ela, vai tu p´ra casa dela.
Ouvido na televisão
Programa de culinária com um convidado que em pouco mais de 5 minutos disse: água desidratada, profundidade elevada e som é uma onda sonora.
História
Pouca gente sabe que o Cartaxo tem milhares de anos e era conhecida por os habitantes terem piolhos. Hoje é a civilização que os tem.
Um general romano que estivera nas guerras cartaginesas, passando revista às tropas, viu um soldado com piolhos e exclamou: de lêndea!? És do Cartaxo.
14 janeiro 2011
os teus lábios
tanto melhores
quanto mais imaginados.
ou seja:
vivos, mas de outra maneira,
eternizados e míticos.
notas de prova à lareira:
cereja com ligeiros tons cítricos,
chocolate e alfarroba,
especiarias e flor de laranjeira.
ou de como na imaginação louca eles
- e tu neles, bem vês -
são bons de qualquer maneira.
ufa, menina.
para quem não existe neste mundo,
dás cá uma trabalheira..
gi.
13 janeiro 2011
Luís
Luís era o ai-Jesus das meninas na universidade. Já o tinha sido no liceu, no colégio, até na primária… era assim. Habituara-se a isso, a ser um pouco o centro das atenções. Às vezes era cansativo, mas as mais das vezes até que era bom. Fazia bem ao ego … afinal, quem é que não gosta de ser amado e de ser o centro das atenções? pensava com os seus botões. Em parte não tinha “culpa” do sucesso que fazia: era alto, ombros largos, as feições muito correctas, um nariz aquilino, cheio de personalidade, e uns olhos azuis de cair para o lado. Sobretudo a expressão era muito bonita e verdadeira. Era fácil ver-se-lhe a alma reflectida naqueles lagos azul-piscina. Do tímido ao audaz, do profundo ao divertido, do inquieto ao sereno, tudo se lhe via estampado na limpidez dos olhos. E porque era bom de raiz, essa bondade saía-lhe dos olhos, da boca, das mãos, dos poros …. e atraía, irresistivelmente, raparigas e rapazes, velhos e novos, professores e colegas. A educação exímia que recebera também contribuíra para o seu sucesso. Assim como a sua cultura e o à-vontade de falar sobre qualquer assunto. Mas eram os olhos, o jeito muito seu de puxar o cabelo para trás e a sua graça natural, qb arreliadora mas cheia de bondade, que faziam derreter os corações do sexo oposto. Poucas ficavam imunes ao seu charme e por muito poucas ele se sentira verdadeiramente atraído. Aliás, era normalmente por aquelas que lhe “tinham dado com os pés” e que procuravam sobretudo aventura, maluquice, pouca arrumação mental e espiritual que ele se interessava. Mas as pessoas não se inventam, consolava-se ele, quando o desamor lhe batia à porta. Mas custava-lhe. E muito. Custara-lhe sobretudo quando fora recusado pela Lili, aí quando tinha 20 anos. Tinha-a conhecido numa festa de Carnaval e quando a vira pela primeira vez parecera-lhe a rapariga mais gira e cool do mundo: moderna e atrevida, um cabelo preto em turbilhão, mini-saia sobre pernas esculturais, e um sorriso de perder a cabeça. Fora tiro e queda. Até tivera uma tontura, recordava agora. Mas a Lili era rapariga para outros voos, não para um rapaz bom e bem formado, ainda que cheio de charme e predicados. Ainda saíram umas semanas. Ela fora sempre querida, meiga, ouvira as suas histórias com atenção e interesse, fizera perguntas inteligentes… E rira-se frequentemente, mostrando uns dentes e uma boca perfeitos. Ai quando ela se ria … ficava totalmente desorientado! Mas aprendera a controlar esse desgoverno interior e a contorná-lo com mais e mais histórias divertidas. Mas Lili estava noutra: queria correr mundo, achava o ambiente em Portugal sufocante, tinha começado a interessar-se pela cultura dos góticos (sempre vestira muito de preto, gostava de rock pesado e tinha um fraco por ambientes algo marginais) e o Luís, pura e simplesmente, começou a sentir que não a conseguia acompanhar. Não fora programado para tanta paixão, para tanta sofreguidão, para tanta necessidade de liberdade. Por isso um dia arranjou um óptimo emprego num banco, casou uns anos depois com uma apaixonada de sempre, uma rapariga loira e bem-feita, educada para ser mãe e dar jantares. Teve 4 filhos lindos, viajou, comprou uma casa de férias em Arraiolos, jogava golfe aos fins-de-semana e bridge às quintas. Encontrou a estabilidade, gostava muito da mulher e era apaixonado pela luz de Lisboa nos fins de tarde de Verão. Mas a Lili ficou-lhe sempre na alma. Tentava, até, não pensar muito nela, pois ainda lhe era doloroso, passados tantos anos, recordar o seu sorriso e a forma como tantas vezes dançava, alheada do mundo e perdida nos seus pensamentos. Ficara-lhe de consolo a noite em que se tinham despedido definitivamente. Estavam sentados no carro, depois de uma noite de brincadeira e copos, e ela tirou um CD da carteira e entregou-lho. Gravei-o para ti. A pensar nos momentos maravilhosos que passei ao teu lado. Parto amanhã para Londres. Não esperes por mim, não vou voltar. Tirou o CD do invólucro, colocou-o no leitor de CD’s do carro e ligou-o.
Lembrava-se hoje, tão nitidamente como naquela altura, da voz da Carole King e da mão da Lili, suave e forte, agarrada à sua. Nunca mais a vira.
PCP
12 janeiro 2011
Moleskine
Numerologia. Ontem o dia poderia ter-se escrito 11.1.11. Uma capicua. Mão amiga escreveu-me lembrando a data – em tamanho 111. Dizem que o número 11 tem significados importantes sobre os quais a minha vasta ignorância nada sabe. De facto, o que não sei encheria várias bibliotecas. Se alguém quiser iluminar-me agradeço. Lembro que ensinar os ignorantes é uma obra de misericórdia.
Texto. Várias mãos amigas mandaram-me um texto do Padre Tolentino Mendonça sobre o tempo. Retiro um excerto (bolds no original): Nós dizemos, repetindo um provérbio que os latinos já usavam, que o tempo voa (tempus fugit). De facto, tudo o que é humano é feito de tempo, mas a experiência que mais vezes nos ocorre é a de não termos tempo. «Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante para ti», explicou a raposa ao Principezinho. Há uma qualidade de relação que só se obtém no tempo partilhado. Por alguma razão, esse raro Mestre de humanidade chamado Jesus, disse: «Se alguém te pede para o acompanhares durante uma milha, anda com ele duas». Só com tempo descobrimos tanto o sentido e a relevância da nossa marcha ao lado dos outros, como o da nossa própria caminhada interior. Sem tempo tornamo-nos desconhecidos. Sem tempo falamos, mas não escutamos. Repetimos, mas não inventamos. Consumimos, mas não saboreamos. É verdade que mesmo num rápido relance se pode alcançar muita coisa, mas normalmente escapa-nos o detalhe. E Deus habita o detalhe.
Festa. Sábado à noite, num espaço do Estoril. Por trás do balcão, dois cavalheiros mascarados de gueixas, abanando um leque displicente; em cima de umas colunas, jovens esculturais, aladas de luto, oferecem aos convidados umas flutes de champanhe pretas, sem base, com um pé em forma de estilete que, nas mãos do manequim de Cantanhede, vazariam uma vista. Num âmbito diferente, desde o karaoke no Pointe de Harare que não via uma misturada tão grande de pessoas: orientais, negros, judeus, gente de calças de ganga lado a lado com smoking e vestido comprido, o ilustre desconhecido ao lado da gente chique de Cascais; Nova Iorque, Londres e, quem sabe, Atibá em alegre confraternização. O mundo social não pára de me surpreender ou, numa visão mais realista, sou pouco mais do que um saloio.
Pensamentos. Nas últimas semanas almocei com primos com quem raramente estou, mantive longas e interessantes conversas de volta de um cigarro alheio, perdi e ganhei à mesa de cartas, conheci gente nova que espero se mantenha por aí, vi outros que se transfiguraram num encontro casual e que poderia ter sido fugaz; estive com pessoas de quem me considero amigo, que fecham um ano profissional e afectivo particularmente difícil, mas que não transgridem com a ética, reforcei ligações afectivas de ontem e de hoje. Gosto de olhar para tudo isto, minúscula amostra do que me é relevante, e realizar que a vida, apesar de tudo, tem sido generosa comigo. Qual o interesse deste parágrafo? Nenhum, provavelmente, para a maioria de quem me lê. São importâncias para mim, editor e dono deste estabelecimento.
Músicas. sete minutos e trinta e um segundos de contacto com o sobrenatural. Fechem os olhos, respirem e gozem. Se isto não é Beleza não sei o que é.
10 janeiro 2011
Hiper-Espaços
Fórmula para o caos
09 janeiro 2011
Domingo .... Se Fores à Missa ! (post sui generis)
Jesus, sendo Rei, Filho Unigénito de Deus, confunde-se com os pecadores do Seu tempo e submete-se ao baptismo de penitência de João, num gesto de humildade, que enche de admiração o Seu Pai. O Pai glorifica-o, proclamando que ele é o Seu Filho muito amado.
A leitura de hoje fala-nos de uma das qualidade mais difíceis (a meu ver) de manter nos dias de hoje : a Humildade.
Estas duas linhas de texto são tudo o que sobrou de um outro texto, com 30 ou 40 linhas (que eu acabara de escrever, com todo o carinho e empenho para o Adeus) e que, por razões informáticas que nem me atrevo a tentar perceber, misteriosamente, desapareceu do meu ecrã. Podem imaginar a raiva, a irritação, a frustração. Tinha eu acabado de redigir um verdadeiro ensaio sobre a humildade, a tolerância, a arrogância, a vaidade e afins ….. e eis senão quando zasp trazp catruz zzzzt…… escafedeu-se o dito. Passei as 2 horas seguintes, feita louca, a procurar o ficheiro nos meandros mais recônditos deste bicho assassino chamado computador. Descobri-lhe caminhos, sub-caminhos, vielas e ruelas que nunca tinha visto. Buscas automáticas, pesquisas avançadas, reciclagens, caixotes de lixo, tudo passei a pente fino e nada, nicles, batatoides. Já perto da meia-noite desisti das buscas e aceitei o inaceitável: o ficheiro tinha-se perdido para sempre e se o quisesse reconstituir teria de pensar e reescrever tudo.
Acredito na máxima: “nada acontece por acaso” e também sou daqueles que acredita que a crise traz oportunidades. Por isso, passada aquela primeira fase de irritação misturada com incredibilidade, pensei que, se calhar, poderia aprender qualquer coisa com a perda do ficheiro. Com esse pensamento na mente, fui-me deitar serenamente, passei o dia de hoje sem stress embora várias vezes me tenha lembrado do (raio) do ficheiro e do facto de ter de preencher este espaço de Domingo. Mas, estranhamente, consegui lidar com isso sem ansiedade e sem irritação.
À hora que escrevo estas linhas ainda não percebi bem qual terá sido a aprendizagem, salvo o facto de ter descoberto, em mim própria, uma maior capacidade de tolerância aos contratempos. Ou então, talvez não haja nada a aprender e, ironia das ironias, este texto simples e sem grande conteúdo, que estou a escrever, expressa muito melhor o tema de hoje – humildade – do que as 300 palavras eruditas e intelectuais que compunham o ficheiro apagado.
Domingo, Se Fores à Missa …… Faz ‘Save’ da Homilia (não vá ela perder-se durante a semana)
Maf
Evangelho segundo S. Mateus 3,13-17.
08 janeiro 2011
O musical Wojtyla

O musical WOTJYLA nasceu integrado num projecto de homenagem ao Papa João Paulo II, desenvolvido pela Paróquia de Cascais, por ocasião do Ano Sacerdotal. Este grupo nasceu com o objectivo de produzir e realizar um espectáculo musical com fins beneméritos. Teve a sua estreia no dia 18 de Maio de 2010, no Estoril, e esteve em cena durante 7 dias, sendo que dois destes dias foram sessões extras a pedido do público.
Dado o enorme impacto que o musical causou, aliado ao facto de termos tido variados pedidos para repor o espectáculo, pouco hesitámos ao avançar para a reposição quando a ATT (Associação para Tratamento das Toxicodependências) nos lançou o desafio. Assim surgiu, de novo, o musical WOJTYLA.
O espectáculo é cantado e dançado ao vivo.
(Mais informações aqui)
Pensamentos impensados
07 janeiro 2011
the 2010 literary supplement - os meus livros do ano
franny e zooey, j.d. salinger
pergunta ao pó, john fante
os objectos chamam-nos, juan josé millás
um repentino pensamento libertador, kjell askildsen
correios, charles bukowski
poesia:
o mundo não acaba no frio dos teus ossos, rosa alice branco
o pajem formidável dos indícios, alberto de lacerda
riscava a palavra dor no quadro negro, luis quintais
erros individuais, josé miguel silva
mulher ao mar, margarida vale de gato
novas memórias de ansiães, a.m. pires cabral
disse e repito, antónio manuel couto viana
restos de quase nada e outras poesias, antónio manuel couto viana
a última porta (colectânea selectiva), manuel de freitas
santo súbito, miguel-manso
matriohskas, carlos contreras elvira
lo más importante es saber atravesar el fuego, charles bukowski
arder en el agua ahogar-se en en fuego, charles bukowski
um circo no nevoeiro, renata correia botelho
ensaio:
ó, nuno ramos
ágape, agonia, william gadis
aula de poesia, eduardo pitta
joão césar monteiro, as folhas da cinemateca
literatura de viagem:
morte na pérsia, annemarie schwarzenbach
paris, julien green
o japão é um lugar estranho, peter carey
disse-me um adivinho, tiziano terzani
indefinido:
des histoires vraies, sophie calle
memórias / autobiografia:
navegação ponto por ponto, gore vidal
técnico:
como recuperar empresas em dificuldades ('turnaround' em portugal), rogério ferreira do ó
desenho:
diários de viagem - desenhos do quotidiano, 35 autores contemporâneos (organização de eduardo salaviza)
..e os PRÉMIOS 2010 vão para..
título do ano
riscava a palavra dor no quadro negro, de luis quintais
ovni(s) literários do ano
ó, de nuno ramos
des histoires vraies, de sophie calle
desconforto(s) do ano
morte na pérsia, de annemaria schwarzenbach
as recensões críticas de meridiano de sangue, de cormac mccarthy (quanto mais o livro..)
personagem de ficção 'bigger than life' do ano
arturo bandini, brilhante, comovente, inesquecível criação (e alter-ego) de john fante
prémio 'perfect-as-perfect-can-be' do ano
o conto franny, de j.d. salinger, umas dezenas de páginas cujo grau de excelência pertence ao domínio do maravilhoso e do sublime..
o que não li e que gostaria de ter lido
pão com fiambre, de charles bukowski
a beleza e a tristeza, de yasunary kawabata
depois da chuva, de william trevor
uma antologia de poesia chinesa, na tradução de gil de carvalho
as aventuras de augie march, de saul bellow
e, finalmente, os GRANDES PRÉMIOS do meu 2010 literário..
livro(s) do ano (ex-aequo)
pergunta ao pó, de john fante



06 janeiro 2011
Deixa-me rir...
From the same City to City album came his beautiful gospel influenced ballad Whatever's Written In Your Heart:
Finally, a song that should touch with cold fingers the soul of anyone who procrastinates. A good resolution fot the New Year: Don't go through life waiting, act now. Better to do something than nothing. There is no such thing as "the right moment"...
PO
05 janeiro 2011
Moleskine (II)
Moleskine
Pensamentos peregrinos. Quando comecei a discernir sobre as coisas, os velórios eram cerimónias pesadas, que se arrastavam durante a noite num silêncio só vencido pela ladainha dos terços. Agora, passados tantos anos sobre esse discernimento, percebo que os velórios são curtos ao limite da legislação, as pessoas riem de volta do finado e as avé-Marias (rezadas pelas tias que sobram) são abafadas, num desrespeito quase herege, pelas conversas circundantes. No outro dia, num jantar de amigos, questionava-me: daqui por 30 ou 40 anos ainda haverá velório ou, neste horror que temos à morte, os cadáveres seguirão directamente do hospital para o crematório, passando apenas pelo facebook para condolências?
Livro. Leio Ó, de Nuno Ramos (Livros Cotovia, 2010), oferecido por mão amiga e entendida na matéria. Cito: Admiro quem responda à pergunta fatídica O que é que você tem feito? com um Não sei ou um Nada, e mais ainda quem nem sequer responda, entretido com a longa fila de formigas ou as espirais de fumaça de algum veículo.
Música. Lembro o jantar que mencionei no início. Fala-se de crooners, do seu significado, deste e daquele cantor. Menciono Tony de Matos com um dos nossos maiores, e a minha devoção patriótica é recebida com uma gargalhada alvar de desprezo vendido ao anglo-saxonismo da canção moderna. Não me rendo e defendo a minha dama (passe a expressão). O gargalhar não diminui mas eu venço, porque sou o editor e o dono do estabelecimento.
04 janeiro 2011
Janeiro
Não, não sou subversivo, revoltado ou adiado, muito menos pseudo-indie ou neo-espertalhão e, ainda que claramente lúcido sobre a surpresa que será o meu tom de hoje, não hesito em presentear os ávidos leitores com algumas declarações de soberba má vinha. Não gosto do corrente mês nem pintado de ouro e defendo firmemente que Fevereiro vem a seguir a Janeiro, não porque quer, mas porque, sendo o mais pequeno, foi obrigado pelos grandes a sentar-se ao pé dele.
Janeiro cansa-me até à exaustão, ano sim, ano também e chegar ao fim do primeiro mês de todos é, geralmente, sinónimo de férias curtas que azedaram antes de serem comidas. Prefiro não fazer uso deste espaço para, numa catarse abrutalhada, discorrer sobre o meu mau perder e a minha vontade de, nada metaforicamente, esganar um mês. Por isso, e ainda que sejam perfeitamente razoáveis, as minhas motivações não se vão tornar domínio público.
De qualquer forma, e para que ninguém se equivoque, eu, mansinho de nascença, mordo em Janeiro. E não, não é da lua.
ZdT
03 janeiro 2011
Explicação e desejos
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setembro
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