14 janeiro 2013

Vai um gin do Peter’s?

Até 27 de Janeiro, a exposição de pintura «AS IDADES DO MAR» estará patente na Gulbenkian(1), subdividindo-se em 6 capítulos: mitologia, registo de imagem, demonstração de poder, actividade económica, espaço de contemplação ou de tempestades e catástrofes.  

Além de o mar ser uma constante na história pátria, também para muitos artistas constituiu uma fonte de inspiração privilegiada. Às telas da Fundação (aliás, com uma boa mostra de produção nacional) juntaram-se muitas outras vindas da Tate, do Prado, do Musée d’Orsay, do Thyssen, do MNAA, e de inúmeras colecções internacionais.

Numa penumbra linda, onde apenas as obras de arte estão iluminadas, a exposição inicia-se numa ante-câmara, ladeada à esquerda por um Turner («Naufrágio de um Cargueiro», 1810) e à direita por um Guardi («Largada do Bucentauro», 1765-1780), focando Veneza – a cidade italiana que parece saída de um sonho. Ali se mescla a terra e o mar, se cruza o Oriente e o Ocidente, se funde o mundo dos homens com o reino de Neptuno, rasgado por gôndolas finíssimas como linhas arqueadas de fundo negro lustroso sob pinturas garridas, que deslizam pelas ruelas fluviais bordejadas por palacetes de pedra, hoje semi-afundados.

Guardi, «A Largada do Bucentauro», 1765-80, F.C.Gulbenkian

Para facilitar, segue-se o percurso sinalizado pela Gulbenkian, começando pelas citações de abertura e fecho da exposição, respectivamente:
- de um cosmógrafo quinhentista, Martín Cortés de Albacar (1510-1582): «Navegar não outra coisa senão caminhar sobre as águas de um lugar para outro (…) este caminho difere dos da terra em três coisas. O da terra é firme, este fluído; o da terra estável, este móvel; o da terra assinalado (i.e., mapeado), o do mar desconhecido.»
- de Sophia, numa homenagem magistral ao azul dos mares que dominam a geografia interior dos portugueses: «Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto ao mar.»

Sequência temática:
- na IDADE DOS MITOS, os deuses helénicos e os heróis mitológicos da Antiguidade Clássica protagonizam as lendas narradas através da pintura. Interessante também a tela com um pote esplendoroso em loiça de Cantão, bem em destaque para aludir ao objecto auxiliar do milagre realizado na Ásia pelo conhecido taumaturgo do Oriente, cujo título é «São Francisco Xavier aplacando a Sede dos Companheiros de Viagem» (c.1619), assinado por André Reinoso e pertencente ao acervo do Museu de S.Roque.

- A IDADE DO PODER exibe as grandes esquadras marítimas do início dos tempos modernos ou as paradas náuticas ou os principais feitos militares. A Batalha de Lepanto (a 7 de Outubro de 1571) sobressai numa tela semelhante a uma tapeçaria, com um rendilhado cromático formado pela imensidão de figuras, galeões, velame, bandeiras e estandartes imperiais, que resultam num conjunto extremamente decorativo, onde apenas o alinhamento rigoroso das embarcações e os flocos de nuvens escuras, originadas pela explosão de pólvora, contêm uma nota vagamente bélica.

Anónimo (Monogramista «H»), «A BATALHA DE LEPANTO», c.1573,
Greenwich-National Maritime Museum.

- A IDADE DO TRABALHO assinala a faina marítima, sobretudo piscatória e portuária. Aqui se reúnem vários mestres franceses oitocentistas: Monet, Paul Signac, Boudin.
A pobreza dos estivadores do século passado está bem patente na arte do século XIX e início do XX, de carácter mais intervencionista. A tela de Sadée (1901), em tons pardos e de céu enevoado, transmite uma visão da realidade marcada pela penúria e falta de esperança.
Num óleo bem diferente, iluminado pela claridade do sol mediterrânico, somos arrastados para dentro do pequeno embarcadoiro do quadro de Claude Gellée, em formato alongado, maravilhoso:

Claude Gellée (ou Claude Lorrain) «Paisagem com Embarque de
Santa Paula Romana em Óstia», 1639-40, Museo Nacional del Prado, Madrid.

Já a obra de William Bradford (1823-1892) envolve-nos na luminosidade pálida da região polar, onde parece reinar o silêncio e a serenidade: «Pescadores junto à Costa do Labrador».
 
- A IDADE DAS TORMENTAS evoca os naufrágios e a luta inglória dos marinheiros contra as águas revoltas, apanhados na fúria indomável dos temporais marítimos. Esbarra-se em cenários de tragédia, simultaneamente fascinantes e arrebatadores pela sua beleza única, onde a morte é sempre épica e a imensidão do azul suscita «assombro e pavor», segundo a legenda da exposição.
Ali temos a presença incontornável de Turner (1775-1851) com quadros pertencentes à Fundação, a ombrear com um Amadeo de Souza-Cardoso (1914-15) ou «A Onda» (1869) de Courbet.
No estilo pontilhado da escola de Signac, deparamo-nos com «Homem ao Leme» (1892), assinado por Théo van Rysselberghe e oriundo do Musée d’Orsay, precisamente por doação de Ginette Signac ao Estado francês. G.Fattori está representado por «Libecciata» (1880-85), num vendaval coreográfico de uma árvore de copa bojuda, mesmo à beira-mar.
A lembrar uma versão enfabulada e benigna do navio fantasma de Wagner há a «Vista do Cabo Stephens no Estreito de Cook com Tromba de Água» (1776), de William Hodges.
Recorrendo à palete de tintas para produzir sombreados e desenhar diferentes volumetrias em superfícies escuras, Signac e Hopper (exposto na Idade Efémera) lançam-se num jogo cromático notável:


Paul Signac, «O Pontão de Portrieux», 1888, Kröller-Müller Museum.


Edward Hopper, «Square Rock, Ogunquit», 1914, Whitney Museum of American Art, Nova Iorque.

- A IDADE EFÉMERA corresponde a um álbum de imagens com as aventuras e itinerários da aristocracia e alta burguesia do século XIX, visando registar as novidades, do pitoresco ao excêntrico, do exotismo às paisagens inexploradas do planeta, onde o mar ocupou lugar de destaque. Era a época em que as elites do Norte da Europa se entretinham no Grand Tour do Continente, desde o extremo ocidental até ao Levante.
Com os avanços tecnológicos, na viragem do século XX, assistiu-se a um novo surto turístico, mais massificado, onde a praia e as rivieras se converteram na coqueluche de uma geração com maior mobilidade.
Cenário dilecto do romantismo, os artistas plasmavam nos oceanos os movimentos da alma, afigurando-se-lhes uma extensão natural das emoções e das tribulações psicológicas. Expressão, por excelência, do infinito e das demandas mais profundas da humanidade, era o espaço primordial da descoberta interior, ou o ponto de partida para uma viagem, na ânsia de conhecer novas latitudes.
O estilo de linhas indefinidas de Noronha da Costa, cheias de carga simbólica, está patente numa obra dos anos 80:


Luís Noronha da Costa, «Do Subnaturalismo ao Sobrenaturalismo (Pintura Fria)»,
1988, F.C.Gulbenkian/C.A.M.


Nos antípodas, encontramos as perspectivas quase fotográficas dos nórdicos e dos francófonos, hiper simétricas e fotogénicas, semelhantes às folhas dos calendários antigos (Carfl Nielsen, Claude-Joseph Vernet, J.W.Schirmer).
Outro fenómeno paisagístico fabuloso aparece na tela do russo Alexandre Borisoff – «Os Glariares, no Mar de Kara» (1906).
Inúmeros outros artistas portugueses e estrangeiros enriquecem esta secção com: Hopper, Monet, Malhoa («Praia das Maçãs» -1918), António Carneiro, João Vaz,  Henrique Pousão, Arpad-Szenes, Paul Clee, Boudin ou o espanhol Sorolla, nos seus areais solarengos e paradisíacos por onde se passeiam senhoras de vestes brancas, grandes chapéus de abas e véus esvoaçantes.

- A IDADE INFINITA alude ao misticismo contemplativo a que os oceanos convidam, pois ali se vislumbram os expoentes que transcendem os limites da condição humana, abrindo-nos ao infinito, ao belo, à liberdade ou simplesmente à evasão, à grandeza de horizontes ou até à vertigem e alucinação, à serenidade ou mesmo à morte.
«Luar no Mar» (1888-91), de Henri Moore, está repleto de poesia, favorecido pela forma esguia da tela, painel do biombo polifacetado «Alma Tadema». Igual para a «Sinfonia» (1896) de Giorgio Belloni, focando o desenho sinuoso da ondulação a esvanecer-se no areal dourado. A própria musicalidade do título é auto-sugestiva. Igual ainda para a mistura de verdes e azuis aquáticos, com flocos brancos a pairar no céu, em «Nuvens de Verão» (1913), de Emil Nolde.
De Manet encontramos «A Evasão de Rochefort» (1881), retratando a fuga do cárcere do principal opositor de Napoleão III.

A muitos pintores e a muitas pessoas poderia aplicar-se a observação do biógrafo de Monet – Gustave Geffroy – caracterizando o célebre impressionista francês: «(o mar) era a tela de fundo da sua existência, com as suas vagas e as suas nuvens».


Maria Helena Vieira da Silva, «História Trágico-Marítima» ou «Naufrágio», 1944, F.C.Gulbenkian/C.A.M. Integrado na  Idade das Tormentas, ilustra a conhecida colecção de relatos de desastres marítimos nacionais, datada de 1735-36. Um colorido lindo modela uma vaga gigantesca de náufragos, qual tsunami de desespero aludindo, quer à ditadura do Estado Novo que a pintora repudiava, quer à II Guerra Mundial que mantinha um ritmo de destruição maciça exorbitante.

Revisitar a Gulbenkian e gozar as exposições espantosas que a Fundação nos oferece é das boas maneiras de entrar no Novo Ano em beleza, na mais pura acepção.


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1)   Até 27/01/2013, http://www.gulbenkian.pt/object160article_id3787langId1.html. Horário: das 10h00 às 20h00, Terça a Domingo, no Edifício da Sede.
Apresentação no site: «O mar é o tema central da exposição que o Museu Calouste Gulbenkian vai apresentar a partir do dia 26 de Outubro, na Galeria de Exposições Temporárias da Fundação. Em exposição vão estar mais de uma centena de obras, dos séculos XVI ao XX, provenientes de 51 instituições nacionais e estrangeiras, com o apoio excepcional do Museu d’Orsay. Partindo de uma sondagem histórica da representação visual do mar, a mostra procura identificar os temas fundadores que levaram à sua extensa e recorrente representação na pintura ocidental. A exposição desenvolverá o conceito que dá título ao projeto em seis secções distintas: A Idade dos Mitos; A Idade do Poder; A Idade do Trabalho; A Idade das Tormentas; A Idade Efémera; A Idade Infinita.
Van Goyen, Lorrain, Turner, Constable, Friedrich, Courbet, Boudin, Manet, Monet, Signac, Fattori, Sorolla, Klee, De Chirico, Hopper, são alguns dos 89 autores presentes na exposição com obras de superior qualidade. Também a pintura portuguesa, através de Henrique Pousão, Amadeo de Souza-Cardoso, João Vaz, Maria Helena Vieira da Silva e Menez, entre outros, contribuirá para esta abordagem exaustiva e por vezes inesperada de um motivo tão fascinante – e simultaneamente com especial significado na história e cultura portuguesas
.»

13 janeiro 2013

Festa do Baptismo do Senhor

«Ele nunca saiu de cá»

         Foi esta a resposta de um escritor português
         à pergunta : «O que diria Jesus se regressasse à Terra?»

E a resposta inquietou-me.
         Porque, sabendo eu que é esta a verdade,
         e que é esta verdade que me sustenta e dá significado à minha vida,
         não sei se teria tido a mesma clarividência de o afirmar.

O que provoca em mim uma outra pergunta
         que é a de saber o que diz a minha vida sobre esta certeza
         de acreditar num Deus que permanece meu contemporâneo.

É certo que quem me conhece sabe bem em Quem acredito,
         e que Deus é central na minha vida.
         O que me preocupa mesmo é saber se vivo como quem acredita,
         se o que digo e o que faço corresponde ao que Deus espera de mim,
para que os que comigo se cruzam O possam encontrar.

O meu desafio é assim, o de conformar a minha vontade com a Sua vontade,
         querer para mim o que Ele quer,
         desejar o que Ele deseja,
         fazer como Ele faz,
         amar como Ele ama.

Não é fácil, pode rasgar o meu coração, é um trabalho para uma vida…
mas é possível se, no uso da minha liberdade, a isso me dispuser
e Lhe pedir em cada dia a Sua força e a sua Graça!

Rui Corrêa d’Oliveira – “Oração da Manhã/Bom Dia” –RR/CanalSim 06.01.2013


(Oração enviada por mão amiga no dia 11 de Janeiro deste ano)


EVANGELHO – Lc 3,15-16.21-22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
o povo estava na expectativa
e todos pensavam em seus corações
se João não seria o Messias.
João tomou a palavra e disse-lhes:
«Eu baptizo-vos com água,
mas vai chegar quem é mais forte do que eu,
do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias.
Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo».
Quando todo o povo recebeu o baptismo,
Jesus também foi baptizado;
e, enquanto orava, o céu abriu-se
e o Espírito Santo desceu sobre Ele
em forma corporal, como uma pomba.
E do céu fez-se ouvir uma voz:
«Tu és o meu Filho muito amado:
em Ti pus toda a minha complacência».

12 janeiro 2013

Pensamentos impensados


Bom ano novo
 
Desejo que o ano de 2012 tenha sido o pior dos próximos 100 anos.
PS - desculpem qualquer anacronismo verbal.
 
Leis
 
Quando o Rei promulgou a Lei das Seis Marias, alguém lhe disse há mais Marias na Terra
 
Metades
 
... não esteve com meias palavras ...
Seria que estav a pensar em semi ... cúpio, em semi ... lha, em semi... óptico
ou em cemi ... tério?
 
Quem vê caras...
 
Em Portugal há liberdade de expressão; a prova disso são as caras de Ferro Rodrigues e de Odete Santos.
 
Contraditório
 
O contrário de errância será certância? E de dormência, acordência?
E o contrário de relevância será lisância?
E de apetência? Fastiência?

SdB (I)

11 janeiro 2013

Poema para o dia de hoje (oferecido por mão amiga)

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

Contei meus anos
E descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente
Do que já vivi até agora

Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras ele chupou displicente,
mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
Cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigam pelo
Majestoso cargo de secretário geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
Minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
Muito humana; que sabe rir de seus tropeços,
não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
não foge da sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!


Mario de Andrade (1893 - 1945)

Friday is a great day to fall in love





10 janeiro 2013

Deixa-me rir...

Caros Audiophiles, it seems to me that the start of a New Year requires an introduction to new artists who are beginning to make big waves in the musical ocean. Here are, by coincidence, two duos, one male and one female.

Firstly, First Aid Kit are two Swedish sisters who are influenced by the raw and natural lyrics of contemporary American alternative nu-folk but with tunes that to me sound more pop. I have been listening a lot recently to their new first CD The Lion's Roar.



Secondly, I discovered The Milk Carton Kids very recently on a late-night radio show. They sounded perfect for a quiet evening or around a camp fire. They play old guitars from the 1950s to help create a more nostalgic classic folk sound reminding of, for example, early Simon & Garfunkel.




Hope you enjoy.
 
A proxima.
 
PO

09 janeiro 2013

Crónicas de um universitário tardio

O primeiro semestre da pós-graduação está a chegar ao fim. É chegado o momento de entregar trabalhos finais, de receber algum feedback de trabalhos intercalares. Vou também cimentando a opinião que fui formando de tudo - organização, professores, avaliação, etc.

Se soubesse o que sei agora, e recuasse ao momento de decidir da pós-graduação, voltaria a não hesitar. Foi um desafio intelectual estimulante e enriquecedor. Das quatro cadeiras em que me inscrevi - Poéticas Contemporâneas, Arte e Ensaio, Escrita de Comédia e  Ficção Breve - às duas primeiras daria uma nota global alta. Gostei da matéria, gostei dos professores (Profs. Cabral Martins e Gustavo Rubim), aprendi muitíssimo. As outras duas merecem-me uma nota menor, por motivos diversos. Numa gostei da disciplina da leitura a que era obrigado, da oportunidade que me foi dada de conhecer novos autores, ou revisitar alguns, da interpretação menos repentista dos textos lidos. Entregue o trabalho final, recebi uma nota relativamente alta (havia algumas superiores, nomeadamente - e seguramente com justiça - da nossa colega bloguista pcp) mas nenhum feedback. Pura e simplesmente perguntaram-me se tinha gostado da nota, quando o meu interesse era saber o que tinha feito bem e feito mal. Na cadeira de Escrita de Comédia, cujas aulas apreciei menos, por vários motivos, o feedback de dois trabalhos foi profundo e revelou que quem o fez os leu com interesse. De um foi elogioso, de outro crítico. 

Até ao final do semestre - isto é, nas próximas duas semanas - terei de elaborar três trabalhos. A saber: 1) o Panoptismo e a fábrica do futuro, ou como reduzir os níveis de entropia nos sistemas produtivos; 2) a santidade, ou a perfeição dos dias quotidianos e 3) um texto humorístico. Afigura-se-me um desafio demasiado exigente para as minhas parcas capacidades... A ver vamos, como diria o ceguinho.

Abaixo ficam uma imagem e um texto que complementarão o trabalho sobre o panoptismo. Outras informações se seguirão num futuro próximo. 



Na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar. Pelo efeito da contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível.

Michel Foucault, in Vigiar e Punir (1975)


JdB

08 janeiro 2013

Duas últimas

A 17 de Abril de 2012 - há quase nove meses portanto, pouco menos que uma gestação - escrevi uma das crónicas mais gostosas (perdoe-se o brasileirismo) deste blogue. Quem for revivalista, ou simplesmente curioso, pode lê-la aqui. 

Domingo juntámo-nos de novo: o mesmo local, o mesmo grupo, a mesma liberdade, o mesmo à vontade. Não havia bolo de maçã nem fernet, mas havia anis, chá verde, bolo rei, um charuto mau, dois cães e um gato, um garrafão azul enfiado num qualquer suporte para derramar uma tonalidade sossegada, uma cadeirinha de madeira pendurada num ferro, alguém envolvido numa capa afegã comprada nos EUA e fabricada na China.  

Falou-se de (quase) tudo, desde a energia das missas ao conceito de Espírito Santo, de música iraniana e de saúde, de sufismo, de viagens e de motos, do nosso eu dominante, do que queremos desta caminhada terrena. Nunca se falou de vitor gaspar, de finanças, de impostos, de euro, de política, de sucessos profissionais ou de praias da moda. 

Perguntar-me-ão, queridos leitores, se não carrego nas tintas da criatividade para dar à matiné um pitoresco que ela não tem. Não, não carrego. Gosto de lá ir porque vejo coisas que nunca vejo, oiço coisas que nunca oiço, falo de coisas de que é raro falar. Há sempre uma espécie de imaterialidade nas conversas, como se nada daquilo tivesse a menor importância para o quotidiano das nossas vidas, mas desempenhasse um papel importante quando nos queremos afastar (corrigi a expressão elevar...) do que que é trivial e mundano. No fundo, como se de nenhuma conversa tivesse de sair uma acção, um objectivo - ou uma conclusão.

À semelhança da última crónica, deixo-vos com música iraniana. Se só tiverem disponibilidade mental para um youtube, sugiro-vos o primeiro, porque a Sussan Deyhim já por cá passou. Há uma história por trás, que tem a ver com a perseguição ao rock iraniano, mas não sei explicar bem...

JdB     


07 janeiro 2013

Fórmula para o caos


Como defensor do liberalismo, clássico e económico, considero a Constituição Portuguesa absolutamente datada e ultrapassada. É um texto que peca pela falta de isenção perante as diferentes correntes ideológicas. A Lei Suprema, na prática, impede que se execute uma governação não socialista. A Constituição deveria apenas fazer menção às funções soberanas do Estado: justiça, segurança/defesa e negócios estrangeiros. Este ponto é fundamental. No entanto, esta é a Constituição em vigor, enquanto não houver uma nova revisão. Como tal, deverá ser cumprida e respeitada. Isto a propósito da entrevista de Eduardo Catroga ao Diário Económico na passada semana. O ex-ministro das finanças afirma que " a Constituição não pode servir como entrave à governação..." Nada mais errado Dr. Catroga! Os textos constitucionais foram feitos exactamente para limitar a acção governativa. 

No último post escrevi sobre os livros de que mais tinha gostado em 2012. Para este inicio de 2013, recomendo a Eduardo Catroga uma leitura da Magna Carta do Rei João sem terra de Inglaterra de 1215, da Bill of Rights de James Madison 1789 e do Espírito das Leis de Montesquieu de 1748.

Pedro Castelo Branco

06 janeiro 2013

Domingo … Se Fores à Missa!

Fui, por curiosidade, espreitar o texto que postei no 1º Domingo do ano passado. Nele, fazia eu o propósito de trabalhar a virtude da Tolerância, durante o ano 2012.

Agora, está na altura de fazer o balanço do trabalho feito e de estabelecer novo propósito para 2013.  Quanto ao primeiro, acho que consegui, senão no todo, pelo menos em parte, ser mais tolerante não só com as pessoas que me rodeiam mas também com as situações e circunstâncias que acontecem à minha volta. Tolerante, no sentido de não me irritar logo ao primeiro sintoma de que algo ou alguém vai fazer exactamente o contrário do que eu esperava; tolerante, no sentido de aceitar, sem querer impor, pontos de vista diferentes dos meus; tolerante, no sentido de não criticar ou apontar o dedo às pessoas que falam, agem e comportam-se de maneira diferente da minha.  É verdade que a tolerância, assim como a sua irmã paciência, vão aparecendo com a idade e a maturidade, mas a capacidade de, verdadeiramente, aplicarmos e interiorizarmos essas virtudes fazendo delas parte integrante da nossa personalidade e da nossa maneira de ser, só mesmo com força de vontade e esforço diário. Ah, sim, não esquecer também a tolerância connosco próprios. Não sermos demasiado duros ou exigentes connosco próprios, pois errar é humano.

Quanto ao segundo – estabelecer novo propósito para 2013 – é sem dúvida este:  juntar à tolerância a virtude da paciência. A virtude da tolerância leva-nos à aceitação, enquanto que a virtude da paciência leva-nos à persistência. Sem paciência, nenhuma virtude se irá manter até ao fim da nossa vida. Sem paciência, facilmente caímos na irritação e no desamor. Sem paciência, fazemos as coisas à pressa, sem atenção e, portanto, com uma maior margem de erro. Sem paciência, os nossos olhos não vêem o essencial e, por conseguinte, o nosso coração não age.

Domingo, Se Fores à Missa ……. Sê Paciente!

MAF

Evangelho segundo S. Mateus 2,1-12.

Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente.
E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.»
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele.
E, reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta:
E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel.»
Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exactas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido.
E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem.»
Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou.
Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria;
e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.
Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.

05 janeiro 2013

Pensamentos impensados


Balanço rodoviário
 
No que respeita a acidentes rodoviários, o ano que findou foi francamente positivo comparado com 2011; assim:
na A277, não houve mortos; no ano anterior tinha sido o dobro;
na A766, em 2011 morreu uma pessoa; em 2012 foi metade.
 
Anatomias
 
O Benjamim tem umbigo.
É o umbigo Ben.
 
Gosão
 
Criam coisas espantosas
De zero compreensão
Mas ficam sempre famosas
Quer seja sim, seja não
 
Qual a paga do trabalho
P´ra gente de fino trato
Talvez seja o enxovalho
Duma sande de coirato
 
Um grupo de grandes sábios
Criou o bosão de Deus
Não vou beija-los nos lábios
Vou dar um blusão dos meus.

SdB (I)

03 janeiro 2013

Fotografias dos dias que correm


Old Records We Live By


Every record has its own time in the timeline of yours
Says the queen who’s whispering at the princess’ ears
Whilst the wind gently blows these silly minds of ours
And the heart rejuvenates a hundred thousand years.

Those words you read are from old Johnny Blake
Written down with half of sweat and half of tears
And a glass of pure water from a special inner lake
Which will endure even if the whole world disappears.

I wrote poetry because I am alive?
Or I am alive because I master the words?
This I guess I will never get it truly right
At least in this earthly kind of world

Maybe in the next upcoming life
When I will finally understand the flower
And the seed from which it has grown up.

gi.

02 janeiro 2013

Diário de uma astróloga – [42] – 2 de Janeiro de 2013

Skyfall e a dupla Capricórnio -Saturno

Aqui está 2013, passou mais um ano, estou um ano mais velha. Não preciso do calendário para me lembrar da minha idade porque cada vez que olho para um espelho e vejo a minha cara, penso “O que está a minha mãe a fazer aqui?”. Apropriadamente, Sol está em Capricórnio (desde 21 de Dezembro), signo regido pelo planeta Saturno, energia associada com a passagem do tempo. Nestes dias do fim-do-ano o Sol está conjunto a Plutão, também em Capricórnio, intensificando a energia saturnina e, no meu caso, pensamentos à volta da inevitabilidade da passagem do tempo. E depois fui ver Skyfall… o último James Bond, e então é que mergulhei profundamente no arquétipo de Saturno.

ATENÇÃO: Desfecho de Skyfall revelado aqui


E que tem um filme como Skyfall a ver com Saturno? Em astrologia, Saturno representa o princípio do limite, da estrutura, da realidade. Rege a tradição, o tempo, o passado, o envelhecimento, a morte e fim de ciclos. Saturno é o planeta associado às consequências das nossas acções, às confrontações com o nosso passado, com a nossa mortalidade, e com o karma. Parte desta interpretação deriva da mitologia do deus romano Saturno e do seu antecessor grego Cronos de quem herdamos as palavras ligadas à passagem do tempo, como cronómetro e cronologia. Na mitologia clássica, o deus Saturno, apesar de ser muito poderoso, tinha medo de ser substituído pela nova geração e por isso engoliu os filhos. Esta estratégia não resultou nem na mitologia, sendo Saturno destituído do seu poder, e nem resulta na vida real, porque a passagem do tempo é inevitável. 

Em Skyfall, James Bond começa por morrer, mas evidentemente que reaparece vivo. Esta parte do filme introduz imediatamente o tema plutónico de morte e renascimento. Porém, ao contrário do que diz o proverbio “o que não mata, fortalece”, o nosso herói renasce mais fraco, mais cansado, mais velho, cheio de dúvidas sobre o seu trabalho, o seu passado e o seu chefe.

O seu autoritário chefe M, figura saturnina que toma decisões difíceis e impiedosas baseadas na realidade, é maravilhosamente interpretado por Judi Dench.  M, julgando 007 morto, escreve o seu óbito, ao mesmo tempo que o superior dela, um homem mais novo, lhe pede para se reformar. As duas personagens principais deste filme (o vilão máximo não é, no meu entender uma delas) têm que confrontar a sua relevância e o seu papel no mundo actual. Ainda serão úteis ou são dinossauros em vias de extinção, relíquias do passado? James Bond já não é o atirador que acerta sempre no alvo e fica com os bofes pela boca depois de ter nadado umas piscinas. M resiste à ideia da reforma mas as circunstâncias e uma bala põem fim à sua carreira. 

A inevitabilidade da passagem do tempo no confronto com nova geração é tratada com a substituição do velho Q, que inventava os gadgets de James Bond, por um “computer geek” muito novinho e ilustrada por este diálogo delicioso:


Q: 007. I'm your new Quartermaster.

James Bond: You must be joking...

Q: Why? Because I'm not wearing a lab coat?
James Bond: Because you still have spots.
Q: My complexion is hardly relevant.
James Bond: Your incompetence is.
Q: Age is no guarantee of efficiency.
James Bond: And youth is no guarantee of innovation.

Apesar da trama principal girar à volta de um problema actual de segurança internética, as chamadas ao passado são múltiplas: o Aston Martin, carro famoso de Goldfinger, volta a entrar em cena para ser inteiramente destruído no último combate. O icónico martini “shaken, not stirred” é substituído por whisky Macallan de 50 anos, isto é, de 1962 o ano em que saiu “Dr. No”, o primeiro filme da série 007.

James Bond sentiu a necessidade de revisitar o seu passado regressando à sua casa de infância, Skyfall, onde os seus pais foram assassinados. Esta propriedade, ao dar o nome ao filme, ganha uma enorme importância, e revela uma das leituras possíveis: há épocas em que, por mais negro que tenha sido o passado, temos que o confrontar, porque senão não há futuro. Essa é uma das grandes lições de Saturno. É em Skyfall que se dá o desfecho final que vai permitir ao herói reconstruir o futuro, um futuro diferente, com relacionamentos novos. 


Skyfall, o filme, não é como os anteriores James Bond’s, um shot de adrenalina para ser engolido de um trago, mas deve ser saboreado como o whisky de 50 anos pela sua complexidade, pela riqueza das suas nuances, incluindo as mitológicas e astrológicas.

Luiza Azancot


01 janeiro 2013

Duas últimas

Escrevo este pequeno texto quando faltam meia dúzia de horas para 2012 ir à vida. Olho pela janela e vejo um final de tarde cinzento e tristonho, a que uma chuva miudinha de última hora que resolveu comparecer acrescenta uma atmosfera gélida, pouco habitual no clima ameno que Lisboa nos costuma oferecer, mesmo no Inverno.

Talvez para lembrar que este ano que agora finda deixa, infelizmente, marcas e recordações tristes e cinzentas a muita gente, confrontada com situações adversas que muitas não pensariam sequer que pudessem existir. No meu caso particular, a bem da verdade, devo dizer que o ano correu genericamente bem, assim possa o 2013 correr de forma semelhante. Diria que actuámos com algum optimismo (eu, que sou um pessimista!) e que tivemos sorte, remédios indispensáveis em épocas como a que vivemos.

As dificuldades esperadas para 2013 são por demais conhecidas, não vale a pena bater mais no ceguinho. Muitas pessoas continuarão a passar dificuldades, e o rol ainda vai engrossar. É por isso necessário combater a indiferença que há em muitos em relação ao sofrimento alheio, e esse combate começa por nós próprios. E coisas a fazer há muitas, é só preciso estar atento aos que nos estão próximos ou às imensas propostas com que solicitam a nossa ajuda. E querer participar, lutando para melhorar as coisas. Não deixemos é que sejam os “afectos” próprios a dominar as nossas vidas.

Portugal, nação velha de quase nove séculos, já ultrapassou muitos cabos das tormentas na sua longa história, transformando-os em cabos da Boa Esperança. É essa a lição que devemos lembrar e tentar por em prática. Se evitarmos derrotismos fáceis e desculpas mais que gastas, já não é mau. Se cada um fizer bem o que pode fazer, já é muito.

Tiago Bettencourt é um músico que conheci melhor nos últimos tempos. Do seu álbum “Acústico”, de 2012, aqui vão 2 músicas que espero que apreciem.

Bom Ano de 2013 para todos!

fq



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