15 agosto 2010

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Durante alguns anos – talvez de 1998 ou 99 a 2006 – rezei mensalmente o Magnificat, a parte do Evangelho de hoje assinalada a bold. Fi-lo integrado nas Equipas de Nossa Senhora, um movimento da Igreja voltado para casais. É um tempo claramente partido em duas partes: até 2001 e depois desse ano fatídico.

Olhando para trás, e interpretando livremente aquilo que me aconteceu, tenho a certeza de que o primeiro período foi de preparação para o que viria a seguir; um tempo oferecido para aforrar forças, criar e consolidar amizades que me foram fundamentais, crescer na fé, começar a olhar para Deus como aquele que não é senão Amor.

Os anos que se seguiram não foram perfeitos, mas há uma quase sobrevivência equilibrada que deve muito a esse período. Questiono-me como teriam sido sem uma pertença à Igreja que me habituei a amar, sem uma espiritualidade a que me fui habituando e que me permitiu afirmar, para lá de qualquer dúvida razoável, que não havia mão divina por detrás do que me foi acontecendo.

Hoje, mas há 16 anos, baptizava a minha filha mais nova. Que no Céu onde está vá rezando por nós, para que não nos falte o discernimento e a força.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,


Maria pôs-se a caminho


e dirigiu-se apressadamente para a montanha,


em direcção a uma cidade de Judá.


Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.


Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,


o menino exultou-lhe no seio.


Isabel ficou cheia do Espírito Santo


e exclamou em alta voz:


«Bendita és tu entre as mulheres


e bendito é o fruto do teu ventre.


Donde me é dado


que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?


Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos


a voz da tua saudação,


o menino exultou de alegria no meu seio.


Bem-aventurada aquela que acreditou


no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito


da parte do Senhor».


Maria disse então:


«A minha alma glorifica o Senhor


e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,


porque pôs os olhos na humildade da sua serva:


de hoje em diante me chamarão bem-aventurada


todas as gerações.


O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:


Santo é o seu nome.


A sua misericórdia se estende de geração em geração


sobre aqueles que O temem.


Manifestou o poder do seu braço


e dispersou os soberbos.


Derrubou os poderosos de seus tronos


e exaltou os humildes.


Aos famintos encheu de bens


e aos ricos despediu de mãos vazias.


Acolheu a Israel, seu servo,


lembrado da sua misericórdia,


como tinha prometido a nossos pais,


a Abraão e à sua descendência para sempre».


Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses


e depois regressou a sua casa.

14 agosto 2010

Pensamentos impensados

Há o salto em comprimento, há o salto em altura, por que não haverá o salto em largura?
Penso que devido ao ridículo de ver atletas musculados a menear as ancas para saltar 50 cm.

E já que estamos a falar de atletismo (ou será de sapatarias?): "high jump" quererá dizer saltos altos?

A água só é potável se tiver mais de 16 anos; se tiver menos é inimputavel.

Mistérios da aritmética ou, quiçá, da língua portuguesa. 5 vírgula 8 é mais que 5 vírgula 7; 5 vírgula 9 é mais que 5 vírgula 8. Por que é que 5 vírgula 10 não é mais que 5 vírgula 9?

Ouvido por aí:
Quem não bebe não treme.
Se conseguir não beba.

SdB (I)

13 agosto 2010

Música para o dia de hoje

do amor verdadeiro

passamos uma vida à procura do amor superlativo,
nos bosques, na boca de pássaros de fogo,
na copa das árvores mais distantes,
galáxias por inventar - pensamos nós.

depois, sentados à beira de uma metálica cama,
a conclusão chega de mansinho
como tudo o que é óbvio
e que obviamente faz o seu caminho:

afinal o amor que tanto procuramos
não é o amor de quem amamos,
antes o amor de quem nos ama.

um amor assim não rima com romances,
nem com palavras bizantinas,
nem com constelações semânticas,
muito menos rima com erotismo que pede cama.

é tão simples afinal:
o amor é o nosso nome soletrado por quem nos ama,
matando de morte matada a morte macaca,
que ronda essoutro-objecto-agora-ainda-a-cama.

eu sou de quem me ama, mais cama menos cama,
eu sou de quem me ama, mais dama menos dama,
eu sou quem com o meu nome faz milagres, magia,
casas, ruas, cidades, países, planetas, universos!
eu disse que sou de quem me ama?
disparate, meninos, eram apenas versos..

é que eu sou quem me ama.


gi.

12 agosto 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, here in London we are in the middle of the classical music Proms season at the Royal Albert Hall, an annual extravaganza for more than 100 years created to promote and popularise classical music among all people. Each night for two months there is a programme of music that might include something famous by one of the giants of classical composition such as Bach or Mahler, together with less known pieces by less-known or new composers, together with world premieres of new music, all played by fantastic orchestras and singers and conductors from around the world. The style may be baroque or operatic or romantic or minimalist or avant-garde. We may be introduced not only to our western music but also to Indian raga, to southeast Asian, Chinese, African or Arabian classical styles, The fun for me is having a mix, sometimes quite eclectic, and being introduced to music which normally I would not discover. And which sometimes I would happily not listen to again. Hands up anyone who fancies hearing Concerto for Three Pieces of Wood?!

So this week I offer something classical. My very first introduction to classical music.

Sergei Prokofiev was commissioned in 1936 to write a symphony for children, something accessible that could cultivate an interest in music and musical instruments.

Peter and the Wolf was composed remarkably in only four days. By defining each character in the story with its own musical instrument and musical theme or leitmotif, and most importantly by having an accompanying narrated story, children could take the first easy steps toward their musical education. I remember well, like many of you I am sure, listening dreamily to Peter's musical story, my head in my arms resting on a desk or lying on the classroom floor of my kindergarten primary school, being delighted by the distinctive sounds of Peter and the bird and duck and cat and anticipating the scary sounds of the wolf and the hunters from my place of safety. It must be one of my very first musical memories. As it remains today for children everywhere.

For children and adult children of all ages.

The videos I have found are of a wonderful stop-motion animated film which won an Oscar a few years ago. I attended the world premiere of this film at the Royal Albert Hall where the film was screened with a live orchestra. I was very pleased that it gained wide recognition later. The film captures beautifully the solitary life and defiant spirit of the young boy Peter amid the harsh Russian landscape, his friendship with his pet duck, his innocent adventure into the dark forest, and his loss of innocence, with some charming comic moments. Perhaps I should note that the music begins only after five minutes as soon as Peter escapes into the forest.

A proxima,
PO

Part 1/4


Part 2/4


Part 3/4


Part 4/4

11 agosto 2010

Vai um gin do Peter's?


A extrema beleza das quatro grandes Tapeçarias de Pastrana constitui a melhor homenagem aos avanços estratégicos de D.Afonso V no Magrebe, de merecido cognome O Africano. Foi essa a intenção da encomenda à oficina flamenga de Tournai. Tratava-se de fixar para a posteridade a memorável conquista da cidade portuária de Arzila, estrategicamente situada.

É assombroso o rei ter investido, em vida, na glorificação do seu reinado por meios visuais tão imponentes, sem se contentar com as crónicas encomendadas ou os retratos imortalizados em telas. E isso vale o título da exposição patente no MNAA (1), até 12 de Setembro: «A Invenção da Glória», em que o termo inventar é sinónimo de «descobrir», como sublinha o director do Museu.

D. AFONSO V no Cerco de Arzila, com o bastão dourado de comando

Estamos em plena dinastia de Avis, diria a mais valorosa da nossa história (bem próxima da Primeira – a Casa de Borgonha), no reinado do pai de um dos nossos maiores reis – D.João II. Aliás, na epopeia celebrada pelas riquíssimas artes da pintura e da tecelagem, os dois heróis são o rei, devidamente destacado à direita empunhando um estandarte, e o príncipe, igualmente a sobressair na face esquerda de uma das telas. Note-se que na sequência da leitura ocidental, da esquerda para a direita, o Delfim poderá surgir antes do rei no horizonte visual do observador. Uma precedência que só um pai admite, mais ainda se a preservação da sua mui nobre estirpe assim o recomendar. Até nisso, D.Afonso V mostrou saber conciliar a preferência afectiva com as razões de Estado.

Datadas de 1470-71, as magníficas Tapeçarias flamengas terão ficado no país por um curto período, sabendo-se que em 1532 já estavam em posse castelhana, no palácio do duque do Infantado (2), que mais tarde (séc. XVI) as cedeu à Colegiada de Pastrana (Espanha), de onde lhes vem a actual denominação. Assim, é um privilégio único poder vê-las em Portugal (até 12.Set.), junto aos Painéis de S.Vicente (3), beneficiando do diálogo com uma obra igualmente mítica, da mesma época e do mesmo universo iconográfico.

Aquele modo artístico de glorificar a História, em vida, inscreve-se mais na tradição anglo-saxónica que na ibérica, empenhando-se em comemorar e mitificar o passado recente. Nesse sentido, as Tapeçarias constituem um feito notável e raro, em Portugal, que talvez se explique pela influência da mãe da Ínclita Geração, de origem inglesa.

O filme em cartaz, de Ridley Scott, «Robin Hood» lembrou-me esse mérito dos ingleses, que desde cedo souberam inscrever no ideário europeu o mito dos Cavaleiros da Távola Redonda e do lendário Rei Artur, contagiando todo o universo cavaleiresco medievo, além-fronteiras. É disso prova, o facto de o ídolo de D.Nuno Álvares Pereira ser o Cavaleiro Galaaz, o escolhido para empunhar a espada sagrada – Excalibur. De facto, é difícil avançar no presente e traçar lucidamente o futuro sem honrar a história, estudando e avivando o passado.

Precisamente com o intuito de fixar os grandes feitos, no espantoso conjunto dos quatro panos de armar de Pastrana exaltam-se 4 momentos sequenciais, num crescendo épico, iniciado pela trilogia da conquista:

1ª tapeçaria – Desembarque – impõe-se a visão da enseada coberta pelas naus com os estandartes das armas lusas, o rei a liderar a armada que se dirige aos torreões (na face direita) da cidade-fortaleza, fortemente murada, além de protegida por um mar revolto;

2ª tapeçaria – Cerco – destaca-se a vedação crivada dos escudos portugueses, num duplo efeito de remate colorido do painel; no interior, um numeroso exército agrupa-se à esquerda em volta do Príncipe e à direita em volta do Rei;

3ª tapeçariaAssalto – uma amálgama de figuras, pontuadas da cor das bandeiras e armaduras dos cavaleiros portugueses, é animada por músicos a alentar a difícil tomada; o ambiente de luta encarniçada, entre a ferocidade da ofensiva e o desespero dos sitiados, joga a favor dos atacantes, exibindo já o indisfarçável garbo dos vencedores;

4ª tapeçaria – Tomada respira-se uma atmosfera pacificada, reordenada, onde avança pela direita o exército triunfante e se afasta pela esquerda a população local, dominada por mulheres e crianças em busca de novas paragens.

Pormenor das figuras nas tapeçarias

Pormenor: os Músicos no Cerco

Em 1457-58, o cavaleiro alemão, Georg von Ehingen, pintou o retrato de D.Afonso V com uma inscrição muito elogiosa: «O Rei era um príncipe bonito e bem formado e o mais cristão, mais bélico e mais justo que alguma vez conheci.» Enfermando dos habituais paradoxos humanos, o rei Conquistador – imbuído dos ideais cruzadísticos da época e da mística muito própria da Casa de Avis – teve um final pouco glorioso a ensombrar-lhe a memória (2 - cf ref. Batalha de Toro). Valeu-lhe a agudeza política magistral do Delfim, de cognome O Príncipe Perfeito, devolvendo a dignidade à dinastia inventada (na acepção de «forjada») pelo Santo Condestável (entre outros), ao assegurar-nos uma nova linhagem, a salvo de Castela e inaugurada com o sangue do aliado inglês, em D.Filipa de Lencastre.

Volto à película de Ridley Scott por ser um exemplo muito feliz da capacidade anglo-saxónica de revisitar a história, misturando, habilmente, lendas (séc.XII) e factos, numa teia de forte cariz patriótico, sem patrioteirismos, tal a naturalidade com que lhes sai… Nesta versão de Robin Hood, reinventa-se o defensor do povo a empunhar os valores democráticos da Magna Carta, devidamente alinhado com a nobreza, que desde cedo teria querido combater ao lado da população, propondo-se balizar os poderes régios. São também gloriosas as inúmeras batalhas ali travadas, de uma bravura e combatividade intrépidas, à medida de Ricardo Coração de Leão. A excepção é o novo rei, só por infeliz coincidência irmão do primeiro. Não por acaso, o adversário francês investe sobretudo na política de bastidores, aliciando mercenários, no intervalo dos infindáveis repastos de ostras frescas! Nos antípodas estão os ingleses, onde até um senhor feudal indefeso, cego e entorpecido pela provecta idade, se bate até ao limite das suas parcas forças. É um facto que perdeu a vida (perdê-la-ia, cedo ou tarde), mas não a honra. Fica bem patente a dificuldade de um traidor singrar no seio de um povo frontal e de palavra, que exige liderar o seu destino. Nunca se esquiva à luta, muito ciente dos seus direitos de cidadania. O lema para terçar armas pela liberdade teria sido a bandeira do pai daquele Robin dos Bosques, igualmente valoroso: «Rise and rise again, until lambs become lions». A novidade deste herói popular é o orgulho nacionalista, a aliar ricos e pobres numa frente única para instaurar a democracia. Os inimigos são: o estrangeiro beligerante, o traidor subornável e o rei autoritário e fraco.

Retomando as façanhas celebradas nas Tapeçarias – que não vão longe da exaltação nacional filmada por R.Scott – faço votos para que a vontade corajosa e empreendedora da armada de outros tempos venha a encontrar eco no Portugal de hoje. Não em demonstrações bélicas. Mas na vontade firme e discernida de devolver ânimo a um povo que, conjuntamente, se disponha a reafirmar e defender a sua identidade. Uma identidade muito antiga e imbuída de uma das histórias mais épicas e originais (pelos melhores motivos) que a humanidade conhece. Revê-la e narrá-la já é um bom arranque, como as Tapeçarias parecem sugerir-nos.

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

_______________________________

(1) MNAA - Museu Nacional de Arte Antiga: http://www.mnarteantiga-ipmuseus.pt/pt-PT/destaques/PrintVersionContentDetail.aspx?id=400

Morada: R.das Janelas Verdes, Lisboa. Telefone: +351 21 391 2800.

E-Mail: mnarteantiga@ipmuseus.pt

Propriedade: desde 1664, as Tapeçarias são pertença da Colegiada de Nossa Senhora da

Assunção (Pastrana), por doação dos duques do Infantado.

(2) Título nobiliárquico conferido pelos Reis Católicos a Diego de Mendoza, em 1475.

Note-se que continua por explicar o aparecimento das tapeçarias no Palácio do duque, em Gaudalajara, conforme assinala o historiador e Director do MNAA, António Filipe Pimentel.

Uma das teses mais correntes (citando doc.s do séc. XVII) considera que terão sido oferta de D.Afonso V ao nobre mais poderoso de Castela – o marquês de Santilhana, fundador da Casa do Infantado – para o persuadir a apoiar as pretensões do rei português à coroa castelhana. Simplesmente, as lutas diplomáticas e bélicas entre Portugal e Castela culminaram da pior forma, na batalha de Toro (1476), de onde Isabel «A Católica» saiu vitoriosa, depois de o futuro duque do Infantado se declarar seu partidário.

Outra das teses defende que terão sido subtraídas à coroa portuguesa, muito provavelmente na batalha de Toro, onde estariam expostas nas barracas de Campanha de D.Afonso V.

(3) Atribuídos a Nuno Gonçalves, só no final do séc. XIX foram redescobertos, faltando suporte documental fidedigno para se poder identificar as personalidades ali figuradas e descodificar toda a simbologia encerrada no conjunto dos seis retábulos.

10 agosto 2010

Pôr-do-sol

Depois de três semanas fora de Lisboa, aproveito este espaço para partilhar um episódio que se passou em Vila Nova de Mil Fontes. Foi uma missa, como muitas outras que já fui na vida, mas o cenário em que se desenrolou foi diferente do habitual.

O sítio escolhido foi uma duna na praia do Malhão, e o primeiro sinal da cruz foi feito por volta das oito da noite que, nos dias compridos de Verão, é o mesmo que dizer ao fim-de-tarde. Como a ideia do local da missa foi uma inspiração momentânea (divina, talvez?), tudo teve de ser improvisado. O altar era uma prancha de surf em cima de uma geleira de praia, a cruz eram dois ferros de um guarda-sol presos com uma toalha, o Evangelho foi lido de um iPhone e os bancos eram para uns as cadeiras de praia que traziam de casa, e para os restantes a areia da duna. O único elemento que não foi improvisado foi o Padre, que já o era antes da ideia da missa campal.

A missa foi presidida pelo Padre Nuno Tovar de Lemos que, como a maioria dos Jesuítas, tem uma capacidade de comunicação muito acima da média. Deixo aqui as palavras com que o Padre começou e acabou a missa. O que se passou pelo meio, deixo à imaginação de cada um.

Que bom deve ser Deus para nos dar um fim-de-tarde tão bom como este. Que bonito deve ser Deus para nos dar um pôr-do-sol com esta beleza. Que generoso deve ser Deus para nos oferecer esta missa. Se tivesse sido eu a criar o mundo, assinava por baixo de cada paisagem. Mas Deus não. Oferece-nos toda a beleza sem vaidade e sem imposições. O Seu nome está lá, não precisa de o escrever.

Estou a lembrar-me agora de um filme italiano. Nesse filme um senhor monta umas cadeiras no topo de uma falésia e cobra às pessoas para se sentarem e assistirem ao pôr-do-sol. Aproveitemos este, que nos é oferecido.

SdB (III)

08 agosto 2010

Domingo ..... Se Fores à Missa !

Li, fiz uma careta, pus de lado; voltei a ler no dia seguinte, voltei a fazer uma careta ! Vou deixar para amanhã. O amanhã já chegou, é hoje e vou ter de comentar. Foi, assim, neste espírito pobre e desinteressado que me fiz ao Evangelho desta semana.

Penso que o mal está em mim e não em S. Lucas. A 1ª frase do evangelho é bastante reconfortante e apelativa - diz-nos para não termos medo - mas logo a seguir o evangelista enumera uma série de requisitos e exigências que mais parecem ameaças. Então o sol quando nasce não é para todos ? Deus não salva todos os seus filhos ? Não é o perdão um dom universal que impende sobre todos nós ? Deus quer que sejamos interesseiros, ao pedir-nos que nos comportemos de uma certa maneira só para sermos salvos ? Não entendo.

Como Cristãos, é-nos pedido que façamos como Cristo; na nossa vida do dia-a-dia tentamos amar como ele nos ama, tentamos perdoar, tentamos estar atentos aos outros, ajudar o próximo, sorrir, trabalhar com alegria, praticar o bem e o altruismo, não nos queixar, não nos apegar ao materialismo, aceitar com serenidade as adversidades, partilhar as alegrias, etc.. etc.. etc.. Até consigo entender tudo isto quando é feito por amor e com amor. Quando é feito porque verdadeiramente acredito que é esse o caminho de vida. Porque verdadeiramente acredito que fazê-lo me torna uma pessoa melhor. Mas fazê-lo porque impende sobre mim uma ameaça ? Fazê-lo, porque é hoje que vem o meu admninistrador e não quero apanhar muitos açoites ????

Não sei, não. Há aqui muita coisa que não entendo.

A última frase do evangelho merece um comentário próprio: de facto, quanto mais conhecemos a Deus, quanto mais nos dispomos a fazer a sua vontade, maior responsabilidade sentimos, em maior grau nos comprometemos, mais nos tornamos exemplo para os outros e, sim, mais Deus nos vai pedindo. E à medida que nos vai pedindo, também nos vai dando mais sabedoria.

Domingo se fores à Missa .......... Compromete-te !

Maf

Evangelho segundo S. Lucas 12,32-48.
Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino.»
«Vendei os vossos bens e dai-os de esmola. Arranjai bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável no Céu, onde o ladrão não chega e a traça não rói.
Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.»
«Estejam apertados os vossos cintos e acesas as vossas lâmpadas.
Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor ao voltar da boda, para lhe abrirem a porta quando ele chegar e bater.
Felizes aqueles servos a quem o senhor, quando vier, encontrar vigilantes! Em verdade vos digo: Vai cingir-se, mandará que se ponham à mesa e há-de servi-los.
E, se vier pela meia-noite ou de madrugada, e assim os encontrar, felizes serão eles.
Ficai a sabê-lo bem: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não teria deixado arrombar a sua casa. Estai preparados, vós também, porque o Filho do Homem chegará na hora em que menos pensais.»
Pedro disse-lhe: «Senhor, é para nós que dizes essa parábola, ou é para todos igualmente?»
O Senhor respondeu: «Quem será, pois, o administrador fiel e prudente a quem o senhor pôs à frente do seu pessoal para lhe dar, a seu tempo, a ração de trigo? Feliz o servo a quem o senhor, quando vier, encontrar procedendo assim. Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens.
Mas, se aquele administrador disser consigo mesmo: 'O meu senhor tarda em vir' e começar a espancar servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo chegará no dia em que ele menos espera e a uma hora que ele não sabe; então, pô-lo-á de parte, fazendo o partilhar da sorte dos infiéis.
O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou e não agiu conforme os seus desejos, será castigado com muitos açoites.
Aquele, porém, que, sem a conhecer, fez coisas dignas de açoites, apenas receberá alguns. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito será pedido.»

07 agosto 2010

Pensamentos impensados

As piadas encurtaram as férias devido à pena de ML.

Na televisão um anúncio exalta os ovos postos por galinhas criadas ao ar livre; os sem abrigo também são criados ao ar livre, só é pena não porem ovos.

Por que é que os fogões a gás são considerados electrodomésticos?

Muito se tem dito e escrito sobre a invenção da roda; que povo, em que época, etc.
Por mim, acho que a roda foi inventada pelas Misericórdias para acolher as crianças indesejadas.

Neologismos:
Hálhito: hálito provocado pelo alho.
Predineta: neta predilecta

Se o dono da casa disser: o peixe está óptimo, não está? pode ser interpretado como "fishing for compliments".
E se disser: a carne está óptima, não está? Será que está "meating for compliments"?.

SdB (I)

06 agosto 2010

esboço biográfico

era o dia seguinte à vitória de nuestros hermanos
corolário glorioso das olimpíadas de noventa e dois
vinte anos quase de esforço dedicação devoção
agora a glória (o lema do leão tem afinal préstimo linguístico)

pensas como é difícil escrever sem pontuação
mas não naquele jeito moderninho tão português
antes de uma forma verdadeiramente refundadora
da respiração dos leitores (e respirar é viver)

querias à força meter no poema o manuel de freitas
que te inundou a tarde e a noite por entre futebol
e alegrias estranhas porque não tuas porque não vivas
tal como querias tão-só dizer mostrar lembrar

o quão difícil pode ser escrever poesia logo pela manhã
sem teres à mão fogo metafísico as dores vividas do dia
uma coisa qualquer que funcione como fulminante fulminante
(adjectivo e substantivo convém explicar este uso duplo

da palavra fulminante ao mesmo tempo mecânica de repetição)
aprendeste ontem que o poema-qualquer-poema não deve ter
palavras a mais nem palavras a menos antes as justas
daí ser tão difícil de praticar com a mestria que não ousas

mas dizias já lá bem atrás que é difícil escrever poesia
de manhã tal como é difícil escrever poesia em dias claros
ou como neste preciso e cartografado hoje aqui estou sim
em que quando te deitares serás provavelmente um tio crente

nos mistérios da vida outra vez e em toda a vitalista
crença de que às vezes se a poesia mata outras tantas te salva
da prosaica prosa da vida como se a poesia mesmo sem acentos
e demais pontuação recusasse o papel testamenteiro e vil

que muitos lhe outorgam não hoje dizes para ti próprio
enquanto olhas o relógio que marca umas imprecisas dez
não hoje e recusas o abraço de urso da poesia enquanto
improvavelmente te diriges sózinho da margem para esse

estranho e externo a ti país - o da vida e o da alegria


gi.

05 agosto 2010

Deixa-me rir...

Tive o privilégio de acompanhar um grupo de arquitectos do Porto a um local intitulado “Moderno Escondido” num destes últimos fins-de-semana. Trata-se de um local perdido no Nordeste Transmontano, lá para os lados de Mogadouro e Miranda do Douro, na terra de 9 Meses de Inverno, 3 Meses de Inferno, uma espécie de Alentejo nortenho. Planalto ondulado, paisagens a perder de vista, uma mão cheia de povoações, cores térreas e secas, castanheiros, muitas oliveiras, amoreiras, penedias ao jeito beirão … e veados, javalis, abutres necrófagos, lobos e cobras (para meu horror, vi uma esmigalhada e ressequida numa estrada que atravessámos). Senti-me noutro país, num outro mundo, e esqueci, completamente, a minha realidade lisboeta.

Mas para explicar o que é concretamente o “Moderno Escondido”, prefiro transcrever as seguintes citações (que tirei da net), e que ilustram muito melhor do que eu em que consiste este título tão curioso e que desde logo me fascinou:

O “Moderno Escondido” é o titulo dado pelos arquitectos Cannata (italiano) e Fernandes a uma exposição sobre o trabalho de pesquisa numa aldeia perdida em Trás-os-Montes.… um dos maiores tesouros arquitectónicos portugueses. Nos confins de Portugal, com Espanha à vista, esconde-se uma aldeia perdida no calendário mas não no tempo.

Há cerca de 50 anos, aquando da construção dos três aproveitamentos hidroeléctricos do douro internacional, num dos mais remotos pontos do país, houve necessidade de alojar uma enorme quantidade de trabalhadores, onde é hoje a aldeia de Barrocal do Douro, junto à barragem do Picote.

3 arquitectos recém-formados pela Escola de Belas Artes do Porto, tiveram liberdade para dar azo à criatividade e transformar um morro nas escarpas do Douro Internacional num local habitável e «revolucionário» numa região isolada onde faltava praticamente tudo. Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos projectaram há cinquenta anos o que os entendidos da arquitectura moderna classificam hoje como «uma cidade ideal», fundada a partir do nada com todas as infra-estruturas e serviços, inacessíveis à maioria da população daquela época.

O novo aglomerado tinha capacidade para suportar o quotidiano de quatro mil pessoas, número em muito superado durante a construção do empreendimento. Actualmente a aldeia "ideal" é considerada património nacional pelo IPPAR.

......

A política de electrificação do país nos anos 50 promoveu a construção de numerosas barragens no leito de alguns dos mais importantes rios portugueses. A Hidroeléctrica do Douro contou com a participação de um conjunto de arquitectos recém-formados na Escola de Belas Artes e voluntariamente dedicados à Arquitectura Moderna – João Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Araújo Ramos. As construções das barragens do Douro Internacional, divulgadas na exposição “Moderno Escondido”, são um testemunho da vontade transformadora da arquitectura no interior do país e de uma colaboração estreita e frutuosa entre arquitectos e engenheiros.

E ainda um link para um artigo do blogue “O Dolo Eventual” que nos remete para a negligência que caracteriza, grosso modo, a nossa maneira de ser e de estar e que é transversal a quase todos os sectores deste país tão, tão, tão imensamente cheio de potencial. Sem palavras.


Isto tudo para dizer que adorei o passeio, as pessoas com quem fui, as conversas entabuladas e a frescura, leveza, juventude, quase alegria que estes edifícios, escondidos no Portugal profundo, transmitem. Pergunta: e não estariam alegres, super entusiasmados, electrizados, os recém-formados arquitectos a quem deram a responsabilidade, e a oportunidade, de desenhar, algo de novo, de diferente, no contexto da arquitectura do nosso país? Claro que sim! E isso VÊ-SE completamente. (por acaso sei que estavam neste estado de espírito porque um destes arquitectos, agora com 80 e poucos anos, um senhor deliciosamente sedutor, cativante e criativo, contou histórias que o ilustravam na perfeição - para quem pudesse ter alguma dúvida!).

Recomendo a visita a este canto da nossa pátria. Que constitui o retrato de um Portugal radical, fresco, imponente, dramático, longínquo, revolucionário, inovador, pleno de criatividade. Revi-me, verdadeiramente, neste Portugal. Quem dera que tudo fosse assim…

Mas adiante – não quero ser “Velha do Restelo” - … vamos, então, à música. Claro que hoje só poderia ser música portuguesa. E aí sim, temos feito coisas muito boas nas últimas décadas. Aqui ficam algumas “pérolas”:






PCP

04 agosto 2010

03 agosto 2010

Poema para o dia de hoje, em memória de quem partiu


Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta

Continuará o jardim, o céu e o mar,

E como hoje igualmente hão-de bailar

As quatro estações à minha volta


Outros em Abril passarão no pomar

Em que eu tantas vezes passei,

Haverá longos poentes sobre o mar,

Outros amarão as coisas que eu amei.


Será o mesmo brilho a mesma festa,

Será o mesmo jardim à minha porta.

E os cabelos doirados da floresta,

Como se eu não estivesse morta.


(Quando, de Sophia de Mello Breyner)

O silêncio

Há um ano publicava, neste mesmo espaço, este pensamento retirado do site dos jesuítas em Portugal. Fala sobre algo - o silêncio - que, por um motivo ou por outro, tem vindo a ser muito importante para mim nestes últimos anos.

JdB

O silêncio é um valor inestimável. Sem silêncio não se ouve e ainda menos se escuta. O homem que não se escuta a si próprio, desconhece-se. O que não tem espaço e tempo para meditar, para ouvir o significado dos sons e das palavras, anda neste mundo a reboque, sem leme. Só no silêncio é possível descobrir outros sinais de comunicação. Aproveitemos este tempo de férias para fazer silêncio. O silêncio é o segredo de uma melhor comunicação.

(Vasco P. Magalhães, sj)

01 agosto 2010

A ditadura dos bens

A crónica dominical de hoje foi escrita sob o signo da ligeireza. Talvez tenha sido um erro, porque o tema de hoje presta-se a considerações várias. Uma ligeiríssima achega, portanto.

Todos nós conheceremos a história que tem alegadamente Salazar com interlocutor. Alguém lhe terá falado numa família feliz. O estadista terá respondido: felizes? E já fizeram partilhas?

Para além desta história, todos nós conheceremos famílias desavindas que se entendiam como Deus e os anjos até que a correnteza de expressões morte, testamento, partilhas passa a fazer parto do léxico dos intervenientes. Nessa altura, infelizmente, vem ao de cima, como o azeite, o pior que temos em nós: a cobiça, a raiva, o sentimento erradamente apurado de justiça, a ganância. Numa fracção de instante tudo o que nos unia passa a ser factor de afastamento.

Por trás de tantas famílias voltadas de costas entre si está a ditadura dos bens materiais. Não se pretende que sejamos pobres, que sejamos patetas, que vivamos numa indigência humilhante e estéril. Pretende-se, apenas, que tenhamos uma visão equilibrado do que temos e do que podemos prescindir em nome de uma pacificação familiar.

Pretende-se, apenas, que não queiramos ter infinitamente mais do que precisamos, que não prejudiquemos a nossa estabilidade familiar por causa de critérios de imagem, de sinais exteriores de sucesso, de uma vergonha infantil de quem tem mais do que nós.

JdB

Carta (dominical) à minha madrinha

Adorada madrinha do meu coração,

Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.

Estou certo de que irá ler o Evangelho de hoje. Aproveitemos os poucos momentos que nos restam para meditarmos sobre as escrituras, porque os tempos vindouros são de convite ao consumismo, à abertura das grandes superfícies, à visão, no corredor dos produtos dietéticos, da morte do pequeno comércio e do ressurgimento entusiasmado pela compra de mais uma inutilidade, uma outra linha preenchida na lista da vacuidade utilitária.

À minha maneira, amada madrinha, fui um homem de sorte. Ainda a onda que varrera a doce estabilidade paternal não morrera na areia e eu já encaixotava recuerdos de uma vida profissional e familiar. Voltei a segurar, à altura dos meus olhos desfocados, os despojos de uma época difícil. Os tempos seguintes nem sempre foram fagueiros, apesar de um gestor de conta educado que pouco tinha para me dizer, porque há gente que sente pudor na frase tenha lá paciência, senhor engenheiro...

Talvez a minha sorte tenha começado aí, de alguma forma um corolário de uma educação mais voltada para o sentido do dever do que para o do haver, menos ainda para o do ter, porque expressões como ambição e sucesso só eram, onde cresci, palavras trissilábicas, pronunciadas com um distanciamento nem sempre baseado na convicção, mas na falta dela.

Infelizmente, extremosa madrinha, a vida moderna conduz mais ao sibaritismo do que à ascese, ainda que as expressões sejam exageradas, fruto de uma liberdade criativa a cujo direito me arrogo. O verbo adquirir só no dicionário é que vem depois de abdicar. Mas a vida não é o Hoauiss e, por vezes, só à força - atingidos na ilharga por uma paulada do destino - é que percebemos que podemos viver com menos, com muito menos. Quando então nos libertamos desse vício aquisitivo - por mera dificuldade económica -, somos invadidos por uma profunda sensação de libertação e de proximidade com o Alto que, como bem sabe, tem uma decoração profundamente minimalista: nada de excessos, nada de supérfluos, nada de comparações balofas, porque se espera que os nossos bens cumpram, também, uma função social.

Não me alongo, madrinha querida. Tinha previsto a compra de um telemóvel de última geração, cheio de funcionalidades importantes - o tempo no Ohio, os resultados do campeonato da Ossétia do Sul, a tendência dos mercados bolsistas no longínqua Myanmar - e preciso de sair. A maioria dos meus amigos já tem, e não me fica bem um downgrade comparativo. O que lhe parece?

Termino, oferecendo-lhe um amplexo e um ósculo que me reconfortarão - porque dizem que dar é melhor do que receber. Já me esquecia: hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
alguém, do meio da multidão, disse a Jesus:
«Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo».
Jesus respondeu-lhe:
«Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?»
Depois disse aos presentes:
«Vede bem, guardai-vos de toda a avareza:
a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».
E disse-lhes esta parábola:
«O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita.
Ele pensou consigo:
‘Que hei-de fazer,
pois não tenho onde guardar a minha colheita?
Vou fazer assim:
Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores,
onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens.
Então poderei dizer a mim mesmo:
Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos.
Descansa, come, bebe, regala-te’.
Mas Deus respondeu-lhe:
‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma.
O que preparaste, para quem será?’
Assim acontece a quem acumula para si,
em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

31 julho 2010

Poema para o dia de hoje, em memória de quem partiu


Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.
Funeral Blues, por W. H. Auden

Músicas dos dias que correm...



A propósito de um jantar ontem, entre amigos e primos, onde se falou com um entusiasmo saudável desta música. Aí Benjamim!

Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
dizia ela tinha
um sorriso luminoso
tão triste e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
na fímbria do mar

Sua pele macia
era suma-uma
sua pele macias
cheirando a rosas
seus seios laranja
laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não

Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
'por ti sofre o meu coração'
num canto 'sim'
noutro canto 'não'
e ela o canto do 'não'
dobrou

Mandei-lhe um recado
pela Zefa do sete
pedindo e rogando
de joelhos no chão
pela Sra do Cabo,
pela Sta Efigénia
me desse a ventura
do seu namoro
e ela disse que não

Mandei à Vó Xica,
quimbanda de fama
a areia da marca
que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
bem forte e seguro
e dele nascesse
um amor como o meu
e o feitiço falhou

Andei barbado,
sujo e descalço
como um monangamba
procuraram por mim
não viu ai não viu ai
não viu Benjamim
e perdido me deram
no morro da Samba

Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sr. Januário,
mas ela lá estava
num canto a rir,
contando o meu caso
às moças mais lindas
do bairro operário

Tocaram a rumba
e dancei com ela
e num passo maluco
voamos na sala
qual uma estrela
riscando o céu
e a malta gritou
'Aí Benjamim'

Olhei-a nos olhos
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo
lá lá lá lá lá
lá lá lá lá lá
E ela disse que sim

(Música de Fausto e letra de Viriato Cruz)

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