21 abril 2010

Vai um gin do Peter’s ?

No actual cartaz de cinema, entre os melhores, há as grandes realizações, as grandes interpretações, as grandes narrativas e o retrato das grandes figuras históricas.

O SONHO É POSSÍVEL acumula vários méritos: o Óscar da Melhor Actriz Principal, juntamente com o Globo de Ouro de Melhor Actriz de 2010 (Sandra Bullock); um elenco bem caracterizado onde cada actor encarna com uma naturalidade notável a sua personagem; uma trama poderosa, cheia de humanidade; uma família comum onde os gestos cruciais nascem em pequenos momentos, daqueles verdadeiros, que todos reconhecemos no nosso dia-a-dia; mas, acima de tudo, o facto de se basear na realidade, em que o ponto de partida adverso se converte em bem, num efeito dominó, quase irreal! E isso é o mais inacreditável, tendo inspirado a tradução livre do título português, a sublinhar a improbabilidade do sonho realizado.

Uma história maior e factual, que aguenta alguns estereótipos a que o argumento não se conseguiu esquivar. E percebe-se a gigantesca tentação de Hollywood, quando todos os ingredientes se juntaram: em pano de fundo, o desporto favorito dos americanos e o menino pobre, com imenso potencial, que nasce no país das oportunidades, onde se tenta praticar o lema: the sky is the limit! Nas personagens, de um lado, uma família branca, abastada, republicana, do outro, um adolescente negro, indigente, traumatizado pela marginalidade típica de quem nasce na zona proscrita da cidade (Memphis), significativamente conhecida por Hurt Village, submergida na típica espiral de degradação: droga, violação, ditadura dos gangs, orfandade e desenraizamento absoluto. Ali tudo é disfuncional, violento e viciante! Sobreviver é, por si só, uma aventura… Autêntica roleta russa! Michael Oher é o produto real do lado errado do burgo. O lado que todos (com um mínimo de sucesso ou sorte) evitam conhecer. Excepto se houver uma boa razão…
Precisamente, o filme é sobre uma óptima razão!

As melhores razões têm, naturalmente, o nome de pessoas e os factos aqui narrados reúnem várias, em crescendo. Antes de mais, o abandonado Oher, sem a agressividade expectável, face ao seu passado, e uma característica linda, taxada à americana, em percentil: 98% de instinto de guardião! Um dom invulgaríssimo numa criança que fora maximamente desprotegida. Talvez corresponda ao primeiro recorde de Oher, que os foi somando ao longo da vida.

A seguir – cronologicamente – uma professora que se compadece e lhe aplica um método de avaliação, a título excepcional (sendo penalizada pelos colegas), através de prova oral, permitindo-lhe não ser expulso da escola, aos primeiros e previsíveis desaires, quando a maioria o achava um caso perdido, puro desperdício de recursos. Aparece ainda o miúdo confiante e alegre, ruivíssimo, que não se intimida com a enorme estatura de Oher, antes se mete com ele, encontrando-lhe graça onde a maioria apenas via motivos para se afastar… Finalmente, uma noite invernosa, com tudo para ser horrível e, surpreendentemente, o ar enregelado de Oher, mal abrigado numa T-shirt disforme, derrete o coração bondoso de uma mãe, de um pai, de duas crianças a quem nada faltava, enquanto a maioria virava a cara para não se impressionar!

Depois, as felizes e insólitas coincidências, que sabemos serem possíveis, apesar de muitíssimo improváveis: um treinador que faz um diagnóstico precipitado de prodígio atlético, influenciando a admissão de Michael O. numa escola privada, de luxo, onde é o único negro entre brancos. Aliás, este facto merecerá um comentário bem apanhado, por parte da sua mãe adoptiva, que o quer enquadrar etnicamente para evitar o desconforto de se sentir «uma mosca num copo de leite»! O argumento avançado pelo treinador, no magno encontro do Conselho Directivo, é muito bonito mas soa a manobra persuasiva, habilmente esgrimida: a escola cristã não poder deixar de honrar os seus compromissos com a virtude maior – a caridade! Mal sabia ele a caixa de pandora, verdadeiramente caridosa, que tinha aberto… Mas talvez o facto mais inexplicável, à luz da teoria das probabilidades, ainda seja a enigmática sobrevivência de Oher, nado e criado em condições de máxima exposição ao perigo! Até Leigh Anne, expoente da combatividade e do optimismo, estranhava essa circunstância prodigiosa, que só se atreveu a tentar esclarecer com o próprio, bastantes anos depois, com tudo já estabilizado.

Claro que para o profundo da pergunta, a mergulhar no abismo da vida, a resposta racional, lógica, irrefutável, ficaria por dar. O que o teria protegido, até encontrar abrigo numa mansão a transbordar de calor humano, rodeada de um jardim verdejante, no seio de uma família que o sente seu e o acolhe na véspera do Dia de Acção de Graças, uma das festas mais familiares dos EUA?
E será que há mesmo coincidências?

O título original, de tom hiper prosaico, a evocar as entranhas tecnicistas do jogo – The Blind Side: Evolution of a Game – será o melhor retrato, quer do próprio Oher, quer da família Tuohy, onde tudo tem uma aparência demasiado comum, a ocultar um substrato magnânimo, invulgarmente despojado (no meio da abundância em que vivem), animado por uma pedagogia muito disciplinada e lutadora, uma atenção grande aos outros pagando o tributo das escolhas difíceis (na adolescente, o repúdio das amigas pelo novo irmão, de outra raça). Também no relvado, o lado cego é assumido pelo jogador que protege o avançado, viabilizando assim os golos. Menos vedeta, mas não menos campeão! Sobretudo, não há que temer o lado cego, quando este esconde, justamente, o lado melhor da realidade:

- Afinal, a matriarca mandona, que Sandra Bullock personifica na perfeição, é a verdadeira Mãe Coragem, hiper empreendedora, movida por uma energia inesgotável ao serviço do bem! O pudor, de não querer partilhar as lágrimas com uma criança que carrega tanta dor, é bem a marca d’água da sua bondade arrojada.

- Afinal, o falhado Oher é um diamante por burilar, que a ternura de uma família irá lapidar e revelar aos mais incrédulos, simplesmente por o fazer partilhar da sua felicidade e união!

Iniciação de Michael na fábula preferida dos Tuohy, em que o protagonista da estória tem o seu retrato…

- Afinal, a inscrição no arco de pedra, à entrada da escola – «With men this is possible. With God everything is possible» – ganha vida, quando encontra eco no coração de quem não se esquiva às circunstâncias desagradáveis e problemáticas. E isso desafiará sempre as probabilidades mais remotas!

- Afinal, o primeiro gesto generoso – de acolhimento de Oher – é apenas o começo de uma avalanche de novidades, simbolicamente referida no desabafo cómico dos pais (republicanos), a propósito das convicções democráticas da nova explicadora, contratada para tentar o
milagre da sua admissão à universidade. De facto, quantas vezes, a vida nos arrasta num tsunami de surpresas, incontível e até divertido. E nisso (ou será em quase tudo?) supera, em muito, a ficção!

- Afinal, o sonho acontece, sempre que o círculo de pobreza é quebrado por uma mão, ou melhor, uma mãe e toda uma família salvadora!

The Blind Side é, afinal, aquela mão direita, que dispensa saber o que faz a outra… Não conheço muitos assim, embora esteja tanto ao nosso alcance!

Vale a pena ver e ouvir as personagens reais, em discurso directo:

Os pais adoptivos, numa entrevista televisiva: «Michael was there, he had a need. We had the ability to fill it. We all fell madly in love with him, probably within 48 hours. He was an instant part of this family. We just got a great kid, a wonderful addition to our family. (…) Michael wanted to receive help, and he wanted to change his life and better himself.»
A mãe: «I just felt like I was unstoppable. I felt like no matter what, I was going to win the battle.»



Michael Oher: «I'm not going to feel sorry for myself because I didn't have a place to stay a lot of time. It is what it is. We've got to go through some things in life. Take it and run with it. (…) Anything Is Possible»

Aposto que o mundo seria mais festivo se o nosso
blind side melhorasse um bocadinho o percentil em favor dos que se cruzam connosco, enregelados…


Uma cumplicidade que foi crescendo, dia após dia.



Abraço a cada um,

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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FICHA TÉCNICA:
Título original: The Blind Side, evolution of a game
Tradução: O Sonho é Possível
Realizador: John Lee Hancock
Elenco: Sandra Bullock » Leigh Anne Touhy
Quinton Aaron » Michael Oher
Kathy Bates » Miss Sue
Tim McGraw » Sean Tuohy
Lily Collins » Collins Tuohy
Jae Head
Ray McKinnon
Ashley LeConte Campbell
IronE Singleton
Produção: Broderick Johnson, Andrew A. Kosove, Gil Netter
Argumento: John Lee Hancock, baseado em livro de Michael Lewis
Fotografia: Alar Kivilo
Duração: 128 min. Ano: 2009
País: EUA Distribuidora: Warner Bros.
Estúdio: Alcon Entertainment / Warner Bros. / Zucker/Netter Productions

20 abril 2010

Balão

Vieram antes do tempo, os mosquitos peganhentos, ou então é a chuva, que se demorou demais e engana a gente. Entram pela janela, que já se vai deixando aberta, e tropeçam em tudo antes de chegar à luz do tecto. Consigo ouvi-los ralhar, bêbados com o cheiro a gente, embrulham-se neles próprios e nos cabelos dos corpos, numa aflição que me desperta mais o nojo que a compaixão. Enxotam-se com paciência, não incomodam tanto como o retesar involuntário dos músculos do pescoço, o esternocleidomastoideu e os seus primos direitos, que reclamam dias mais curtos e menos marrecos. Os livros vão-nos esticando as ideias quase na mesma medida com que nos vão encurvando as costas. Estou cansado.

A rua não tem ninguém. Parece que as pessoas se escondem da noite e, com a pressa, abandonam metade das coisas do dia. Juntam-se dentro das casas, onde há mais luz, como os mosquitos, e vão enjoando, tropeçando, bebendo e ralhando, até o sono os enxotar para a cama. Vejo um balão abandonado, preso ao mundo por um fio, e decido levá-lo comigo.

À espera do metro está um miúdo louco, com umas sapatilhas brilhantes e uma camisola pequena demais. Bate furiosamente com os pés, como que a espantar-se a si mesmo, e a mãe dele suspira, sentada mais abaixo, Guilherme, então?. O desconforto de ambos é evidente, não porque o comportamento do pequeno seja inoportuno ou incomodativo, afinal, a noite está praticamente vazia, mas porque uma qualquer mudança nas rotinas de ambos os trouxe até aqui. A caminho de casa.

O passeio cola debaixo das solas os restos de um jantar que se revoltou à saída do restaurante, faço um contra-ritmo com o chiar dos passos. Finjo que ninguém está a ver e aproveito para animar o serão das viúvas que dormitam tristezas atrás dos vidros, dou dois pulos e duas voltas ao candeeiro, pulo outra vez e bato os calcanhares. Contrariam-se com o mesmo fôlego a corcunda do dia e as mágoas de quem se refugia à janela. Toco à campainha.

Sabe bem ter quem nos espere, ou pelo menos quem nos faça acreditar que somos esperados. Seis ou sete lanços de escadas são seis ou sete saltos. Trago-te uma prenda, recebes-me com um sorriso e pegas no balão, que se estica em direcção à luz do tecto, para junto do único mosquito que deixaste entrar, É dos que sobem!

ZdT


18 abril 2010

Músicas dos dias que correm...

Poemas dos dias que correm...

A Prisão do Orgulho

Choro, metido na masmorra
do meu nome.
Dia após dia, levanto, sem descanso,
este muro à minha volta;
e à medida que se ergue no céu,
esconde-se em negra sombra
o meu ser verdadeiro.

Este belo muro
é o meu orgulho,
que eu retoco com cal e areia
para evitar a mais leve fenda.

E com este cuidado todo,
perco de vista
o meu ser verdadeiro.


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
(Tradução de Manuel Simões)


3º Domingo do Tempo Pascal

EVANGELHO – Jo 21,1-19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus manifestou-Se outra vez aos seus discípulos,
junto do mar de Tiberíades.
Manifestou-Se deste modo:
Estavam juntos Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo,
Natanael, que era de Caná da Galileia,
os filhos de Zebedeu e mais dois discípulos de Jesus.
Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar».
Eles responderam-lhe: «Nós vamos contigo».
Saíram de casa e subiram para o barco,
mas naquela noite não apanharam nada.
Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem,
mas os discípulos não sabiam que era Ele.
Disse-lhes Jesus:
«Rapazes, tendes alguma coisa de comer?»
Eles responderam: «Não».
Disse-lhes Jesus:
«Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis».
Eles lançaram a rede
e já mal a podiam arrastar por causa da abundância de peixes.
O discípulo predilecto de Jesus disse a Pedro:
«É o Senhor».
Simão Pedro, quando ouviu dizer que era o Senhor,
vestiu a túnica que tinha tirado e lançou-se ao mar.
Os outros discípulos,
que estavam apenas a uns duzentos côvados da margem,
vieram no barco, puxando a rede com os peixes.
Quando saltaram em terra,
viram brasas acesas com peixe em cima, e pão.
Disse-lhes Jesus:
«Trazei alguns dos peixes que apanhastes agora».
Simão Pedro subiu ao barco
e puxou a rede para terra,
cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes;
e, apesar de serem tantos, não se rompeu a rede.
Disse-lhes Jesus: «Vinde comer».
Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-Lhe:
«Quem és Tu?»,
porque bem sabiam que era o Senhor.
Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho,
fazendo o mesmo com os peixes.
Esta foi a terceira vez
que Jesus Se manifestou aos seus discípulos,
depois de ter ressuscitado dos mortos.
Depois de comerem,
Jesus perguntou a Simão Pedro:
«Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?»
Ele respondeu-Lhe:
«Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus: «Apascenta os meus cordeiros».
Voltou a perguntar-lhe segunda vez:
«Simão, filho de João, tu amas-Me?»
Ele respondeu-Lhe:
«Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas».
Perguntou-lhe pela terceira vez:
«Simão, filho de João, tu amas-Me?»
Pedro entristeceu-se
por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez se O amava
e respondeu-Lhe:
«Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus:
«Apascenta as minhas ovelhas.
Em verdade, em verdade te digo:
Quando eras mais novo,
tu mesmo te cingias e andavas por onde querias;
mas quando fores mais velho,
estenderás a mão e outro te cingirá
e te levará para onde não queres».
Jesus disse isto para indicar o género de morte
com que Pedro havia de dar glória a Deus.
Dito isto, acrescentou: «Segue-Me».

17 abril 2010

Convite

Recebi este texto via correio electrónico, e presumo que tenha sido publicado na net. É com gosto que o reproduzo também aqui, não só pela concordância, mas pela amizade antiga que me liga à família do Pe. Quintela.

Já lhe conhecia a voz dos seus tempos da TSF. Agora, sempre que oiço no carro a Antena2, com o desejo, sem mais, de ouvir música clássica, sai-me sempre ao caminho essa mesma voz, facilmente reconhecível pela contínua ambição de debitar opinião sobre tudo. E se lhe falta o génio dos mestres transborda-lhe na voz o sentido doutrinário/sanguinário própria dos reaccionários de esquerda: propaganda dos seus, obnubilamento dos outros (para quando musica de Arvo Part, Penderecki, Gorecki?, porquê o apagamento da biografia dos compositores das suas convicções religiosas, dos antigos a Stravinsky e Falla?), referências continuamente venenosas e ácidas no que se refere à Igreja Católica.

Hoje excedeu-se. Sobre um cónego do Porto, músico afamado neste país pequeno, tratou de dizer logo, com todas as letras, que é suspeito de pedofilia. E pronto, está lançado o anátema. Sem sequer o caso estar a ser julgado em tribunal, eis que o juiz da Antena2 lançou o seu veredicto.

Daí o meu convite. Não a que se eleve à altura das coisas do espírito, que só são belas, perduravelmente belas, se o são no espírito de verdade. Não apenas a que refira, ou convide os seus correligionários a referir, com igual gosto e languidez os nomes de toda a rapaziada envolvida no processo da Casa Pia, oficiais do estado e outros. Mas parece-me que seria saudável, no entanto, para sabermos com que linhas nos cosemos, que se referisse às dificuldades de Eugénio de Andrade, nome maior da sensibilidade pederasta da nossa terra, ou de Lagoa Henriques – esse da estátua do Pessoa no Chiado - que se divertia com os seus modelos meninos, ou ainda uma palavrinha sobre o João César Monteiro e o seu documentário sobre a Sophia, e o modo obcecado como filma a criança sua filha (à venda na FNAC!) ou à literatura pedófila do Partido Radical Italiano, inspirador dos rapazes do Bloco. Que cite, ainda, Daniel Cohn-Bendit, avatar da cultura libertária de 68, inimigo vencedor do perigoso católico Rocco Buttiglionne na primeira equipa de Barroso (lembram-se?), dinossauro do actual parlamento europeu, e os seus elogios das suas próprias praticas pedófilas. Ou então, se quiser ser mais cosmopolita, ele que nos fale dos passeios de Roland Barthes, esse do Estruturalismo e da Semiótica pela Africa sariana em turismo sexual avant la lettre, ou das aventuras de Paul Bowles na Tanger da sua depravação, mais a Beat Generation sua convidada para o calor marroquino. Que desenvolva os tópicos do Michel Foucault justificando a libertação de todas as censuras sexuais burguesas, e que nos fale ainda do Gide mentor de toda a cultura pedófila e, indo um pouquinho mais atrás, que nos refira o barão von Gloeden e as suas celebres fotografias dos garotos da Itália pobre e, de novo, do Norte Africa apaixonante para essa gente obcecada por meninos. Gostaria também de ouvir duas palavras sobre o Presidente pedófilo Teixeira Gomes, nos 150 anos do seu nascimento, esse que também escolheu para terminar os seus dias na Argélia. E que não se julgue que são coisas perdidas no tempo. O poeta candidato a Belém escolheu para anunciar a sua candidatura a cidade de Portimão, num misto de homenagem ao Presidente escritor e à ética republicana. E pronto, se quiser ser generoso agradeceria, ainda, que nos descobrisse um pouco do mundo das artes nos dias que correm, e basta ficar por Lisboa. Ele que nos fale da gente da musica, do teatro, do cinema, e por aí fora, desses que são livres dos preconceitos cristãos.

E já agora, se quer falar dos padres pedófilos, que não se esqueça de referir que o estudo americano sobre estas misérias, o único até agora de natureza científica, aponta que 90% desses famigerados é homossexual. Sim, desse género de gente que não se deve discriminar, segundo as mais recentes conquistas da legislação portuguesa.

Poderá soar-lhe a ‘chinês’ mas, ainda assim, seria bom que ele dissesse que esses padres são gente muito longe do hábito de ir regular e fielmente ao confessionário, que não são devotos do terço, que desprezam a via sacra e a vida dos santos, que detestam e levantam a voz contra o Papa, contra o Papa do dia, e que embora um Papa suceda ao outro não sucede eles amarem o magistério e a sua doutrina. Que é gente, ainda, sem devoção à Virgem Maria e que sofrem muito por causa da proibição da ordenação das mulheres. Que tendem a considerar o celibato uma imposição antiquada e que são muito tolerantes no que se refere ao aborto. E que, se por vezes, essa gente perversa e perdida vive na Igreja, em versão reaccionária, também lhe são reconhecíveis os tiques: ritualismo extremo (=narcisismo pedante), falta de compromisso com os pobres e a missão, acusação contínua à hierarquia de ceder, eles cuja rigidez exterior revela um mundo pulsional febril. Finalmente, seria curioso que se pronunciasse sobre o facto de a pedofilia ser escandalosa ‘apenas’ no mundo cristão, na tradição cristã. Que se arrisque a fazer um prognostico sobre o que irá suceder daqui a cinquenta anos, nesta estrada estonteante que caminha de causa fracturante em causa fracturante…

E pronto, por aqui ficam estas ideias soltas, sugestões escritas apressadamente, ao correr da pena, com um lamurio final: pobre de Cristo, como sempre e uma vez mais humilhado e ofendido nas traições/perversões dos seus. Gente ‘velha’ esta, tão velha como o golpe nocturno do primeiro discípulo sacerdote perverso. Pobre do vigário de Cristo, cujo coração tem de ser do tamanho católico da misericórdia de Cristo, ou o Senhor não lhe pediria tanto! Pobres de Cristo, os humilhados e ofendidos que só o poder do mesmo Senhor poderá ressuscitar de tamanha ferida. Pobres, ainda, esses pobres de Cristo – os cristãos simplesmente cristãos - que levam sobre o seu coração a dor atroz de tudo isto mas que não puderam jamais ceder aos gritos da multidão, como habitualmente aviltada e acovardada.

Padre Pedro Quintela

16 abril 2010

to catch a thief

apetece-me escrever um poema todo em vertigem, souplesse e estilo,
como se ao volante de um esvoaçante bólide super-desportivo,

beijando ao de leve o asfalto das esbeltas estradas do mónaco,
ao lado de uma morena de estalo e vestido mais do que negro.

mas a vida não é um filme de hitchcock, nem um livro strawberry light,
- antes o mesmo exacto bólide, fundindo-se agora contra um rochedo.


gi.

15 abril 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, a fascinating exhibition 'The Real Van Gogh: The Artist & His Letters' is currently showing in London's Royal Academy.
Alongside 65 famous paintings and 30 drawings, are displayed 35 of his letters, to his devoted brother Theo and to other friends and fellow painters.
The popular conception of Vincent Van Gogh (1853-1890) is that he was a mad crazy artist, these days considered manic depressive, who cut off his ear and later killed himself.
But the letters show that he was also a highly educated intelligent thoughtful man, who could speak several languages and who read much literature. Artistically, he taught himself to paint and composed his paintings with much reflection and planning.
'The duty of the painter is to study nature in depth and to use all his intelligence, to put his feelings into his work so that it becomes comprehensible to others,' van Gogh wrote in 1882.
'All my work is based to some extent on Japanese art,' van Gogh wrote to Theo. In a letter to his sister Willemien, he says that his passion for portrait painting surpassed his love of all other genres. Commenting on his famous 1888 self-portrait, van Gogh writes: 'A pink-grey face with green eyes, ash-coloured hair, wrinkles in forehead and around the mouth...And you see - this is what Impressionism has above the rest, it is not banal and one seeks a deeper likeness than that of the photographer.'
'Books and reality and art all have the same meaning for me. There is the art of lines and colours but there is also the art of words that will endure just the same,' he wrote.
When he died, a blood-stained letter to Theo found on him read: 'I risk my life for my own work and my reason has half foundered in it.'
['founder' is to be destroyed like a ship on rocks].
One further fact that I did not know: he began to paint, self-taught, only at the age of 27, after failing to become a church pastor.
In just ten short years he painted around 900 works and created, eventually because he was not recognised in his lifetime, a legend.
And so now to a famous song inspired by Vincent van Gogh: Vincent (Starry Starry Night) by Don McLean. I have chosen a video subtitled with Portuguese lyrics but there are many others which also exhibit Vincent's many wonderful paintings.


Don McLean himself believed that his lyrics 'painted' too much detail and did not leave enough space for the listener's imagination. I, and many many other people evidently, disagree.
In fact Don McLean was himself the inspiration for another classic song, after the writer heard him perform in concert.
Here is the incomparable Roberta Flack and
Killing Me Softly With His Song:


Strumming my pain with his fingers
Singing my life with his words
Killing me softly with his song
Killing me softly with his song
Telling my whole life with his words
Killing me softly with his song

I heard he sang a good song
I heard he had a style
And so I came to see him
To listen for a while
And there he was this young boy
A stranger to my eyes

I felt all flushed with fever
Embarrassed by the crowd
I felt he found my letters
And read each one out loud
I prayed that he would finish
But he just kept right on

He sang as if he knew me
In all my dark despair
And then he looked right through me
As if I wasn't there
And he just kept on singing
Singing clear and strong

He was strumming my pain
Yeah, he was singing my life
Killing me softly with his song
Killing me softly with his song
Telling my whole life with his words
Killing me softly
With his song

A proxima,
PO

14 abril 2010

Good morning sunshine

4th must have:
A clutch.
(Note-se que esta é um exemplo de uma para lá de feia. Quem gostaria dela? Um estilo EMO, aquelas que gostam muito dos Toquio Hotel)

MUST SEE:http://www.youtube.com/watch?v=ufdplVhAVUY

13 abril 2010

John. Paul. George. Ringo.

Passou no outro dia por mim um miúdo que não teria mais de dez anos. Vinha a cantar o ‘Yellow Submarine’, dos Beatles. É por isso que digo cada vez com mais convicção:

Os Beatles são a maior banda de sempre.

Para mim são também a melhor, mas alguns não concordam porque gostos não se discutem, e o que eu gosto é diferente do que tu gostas, e não me podes obrigar a ouvir o mesmo que tu ouves, e blá blá blá, todas as frases com pretensões a politicamente correcto que muitas pessoas dizem com um ar arreliado e indignado, porque não se podem questionar gostos alheios, dizem elas.

Voltando ao miúdo. É espantoso ver alguém cantar uma música de um CD que é trinta anos mais velho do que ele, de uma banda que provavelmente não conhece, mas que ouviu em algum lado e cuja música ficou no ouvido.

E isto só acontece com os Beatles, porque nenhuma criança cantarola o ‘Satisfaction’ dos Rolling Stones, ou assobia o solo de guitarra do ‘Shine On You Crazy Diamond’ dos Pink Floyd. E são também grandes bandas e grandes músicas. Mas só os Beatles conseguem pôr músicas na cabeça de alguém, sem essa pessoa saber quem canta ou onde a ouviu. E isto torna-os a maior banda de sempre. Não é por serem dos artistas mais ricos e famosos de sempre, por terem vendido uma enormidade de CD’s, por terem feito história em termos de tempo de permanência nas tabelas. É só por isto.

E esta minha opinião é bastante recente. Porque, até me ter começado a interessar realmente por todos os CD’s que editaram, era só mais um miúdo a assobiar o ‘Yellow Submarine’.

É sempre difícil escolher poucas músicas dos Beatles para sugerir às pessoas; é conforme os dias que escolho as músicas deles de que mais gosto. Abaixo estão duas que, à hora a que escrevia este texto, eram as que me apetecia ouvir.

PS: Só mais uma coisa: há músicas e álbuns que são feitos à frente do seu tempo. O ‘Helter Skelter’ e o ‘Tomorrow Never Knows’ são claros exemplos disso. Foram feitas na década de 60, mas podiam perfeitamente ser um single editado na semana passada por uma banda recente. Não pus essas músicas na lista porque não são as mais imediatas deles, mas aconselho vivamente a que se oiçam.


SdB (III)

12 abril 2010

Luxúria

António Maria passava férias no Mónaco, hóspede frequente e requisitado de amigos ricos, para quem a palavra tristeza (como outras) tinha uma conotação muito própria, porque algumas pessoas usam as palavras dando-lhes sentidos específicos:
Estou triste, sabes? O Dow Jones fechou em queda e o Euronext não está a ajudar. Não achas uma tristeza?
Mas a tristeza bolsista era secundarizada pelos barcos, manobrados por mãos hábeis que aproveitavam o vento brando e a rotina mansa das marés, pelas tripulações vastas, almoços surpresa, camas abertas, gin and tonic ao fim da tarde, roupas bonitas e corpos bem tratados.
Em Portugal era conhecido em S. Carlos, onde era frequentador assíduo, assim como na Gulbenkian, nos leilões de arte, nos melhores restaurantes, nas festas mais deslumbrantes, nas famílias mais finas, nas revistas mais cor-de-rosa, nos casamentos mais luxuosos.
Tinha uma casa com uma vista deslumbrante sobre o Tejo, cuja decoração tinha sido facilitada por uma imensidão de quadros herdados e mobílias compradas, tapeçarias adquiridas após negociações criteriosas onde a dureza e a educação caracterizavam por igual o seu estilo.
Dizia, quem tinha passado pela sua cama de solteirão inveterado, que o sexo era magnífico. Atento aos ritmos de quem estava consigo, era virtuoso, criativo, ágil, aberto a novas experiências, demorado quando necessário, rápido quando exigido. Acendia velas, punha uma música suave e que se ouvia o bastante para não incomodar, e a noite acabava com o raiar do sol, com um pequeno-almoço de hotel de luxo e uma olhar burguês sobre os cacilheiros.
Porque o destino nos faz trilhar caminhos que se suporiam vedados ao estilo de vida que cada um escolhe, António Maria veio a apaixonar-se. Não por uma baronesa, mas pela Adélia, uma estudante de Engenharia do Ambiente e monitora do curso de boleros que o gestor decidira frequentar, para satisfazer o capricho de uma advogada, rapariga da baixa nobreza do Liechtenstein, por quem se apaixonara ao assistir ao Anel dos Nibelungos. Adélia tinha uns olhos escuros, um corpo esquivo e um nariz ligeiramente levantado. O artista cantava

Reloj deten tu camino
Porque me vida se apaga
Ella es la estrela
Que alumbra mi ser
Yo sin su amor no soy nada

e Adélia encostava-se, colava-se num requebro permanente, e o aluno sentia o peitinho dela a estremecer por baixo de um vestido de lycra que revelava formas escaldantes. Acabou por levar a dançarina a sua casa. A professora fascinou-se com as velas, os quadros, as tapeçarias, a temperatura ambiente, a cozinha, a organização dos armários, a vista sobre a outra banda onde vivia desde que nascera.
Sabe, doutor António
diria ela, estirada numa cama com duzentos anos, revelando uma nudez juvenil, firme, sem pudores nem receios. E ele, o gestor herdado que desenvolvera a fortuna e semeara contactos nos vários cantos do mundo, beijava-a ao de leve pelo corpo todo, como quem descobre, reconhece, regressa e descansa.
Diz, Adelita
Aprecio esta luxúria em que vive.
Luxúria? Eu acho que é luxo, não é luxúria...
E não é a mesma coisa? Olha, achei que era... A sério que não é?

JdB

11 abril 2010

Poemas dos dias que correm...

Teoria da Presença de Deus

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço
a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida


Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

Músicas dos dias que correm

2º Domingo do Tempo Pascal

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram-lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu-lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão na seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou-Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete-a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu-Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse-lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto
».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.


10 abril 2010

Fotografias dos dias que correm (2ª parte)



Fotógrafa de alma e profissão, Rita Burmester foi co-autora do livro “Splendid Garage” a que pertence o conto “A Esperança de Margarida”, publicado ao longo dos últimos 6 sábados neste blogue. Amiga do coração do autor deste conto, com ele viveu momentos inesquecíveis e mutuamente enriquecedores. Um era o “anjo”, o outro a “rocha”, na poesia das palavras de Bernardo Pinto de Almeida, que escreveu o prefácio do livro.

Apresentamos hoje (e no sábado passado) parte das fotografias que fazem parte, também, deste livro. Fotografias fortíssimas, riquíssimas nos seus contrastes de luz e sombra, cor e nitidez. Fotografias desoladas que nos remetem para um universo de despojos, de um consumismo rápido, esbanjado e esquecido. São carcaças de carros… mas poderiam ser frigoríficos, micro-ondas, máquinas de lavar, sofás esventrados, armários de cozinha …

E para quem quiser ficar a saber mais sobre a Rita e o seu trabalho: http://www.ritaburmester.com/

09 abril 2010

íntima cicatriz

(ao sr. joaquim manuel magalhães)

lembrava-se,
como se à brutal oficina do tempo
correspondesse
a infinitude delicada da memória.

tomava por seus os céus da catalunha,
emprestadas testemunhas
da sua história trágico-marítima
mais íntima.

a noite caía na temperatura, gelada agora.
trombetas emudecidas
que ninguém esperava, que ninguém escutava,
um som-silêncio-cimento universal.

'a arte de perder não é difícil de dominar',
tudo isto lhe passava agora à frente, rente aos olhos,
uma visão futura indesejada
fazendo-se passar por outra coisa.

obscenidades.
como este poema terrível:
escrito a partir do tempo futuro,
mas vívido, vivo, no presente mais doloroso,
que é sempre o tempo-mal-passado.

como as
legiões romanas de outrora,
e as senhoras de meia idade agora,
as palavras são enviadas para a morte,

estrelas nos céus de amanhã,
indiferentes à triste sina
ou só má-sorte
dos que ficaram para trás.

dói o céu que ontem foi derrotado,
esse último céu sobre a batalha mais sangrenta,
a da metafísica cruel.

palavras, outra vez:
assassinos a soldo do monstro
a que chamam devir.

tudo o resto:
um rosto amachucado,
um homem de rastos,
o cadáver esquisito do futuro decomposto,
amargo travo de açúcar que é já fel.

resta-nos rir.

nós, os que vamos morrer
despedaçados pela ponta das palavras,
saudamos-te, césar.

gi.

08 abril 2010

Deixa-me rir...

Hoje trago-vos KD Lang. Intérprete-autora pop, folk e country, é canadiana, tem 49 anos, vários Grammy’s e uma personalidade engagée em questões polémicas como os direitos humanos no Tibete, os direitos dos gays e dos animais. “Descobri-a” há relativamente pouco tempo e fiquei fã da sua voz rica, encorpada, sensual e cheia de sensibilidade.
E gosto muito da mensagem intensa, vital e profundamente humana, desta canção. Dedico-a por isso a todos os que padecem desta espécie de sede interior chamada “human condition”…
…. if you should leave here tonight feeling not quite sated... feeling unfulfilled …. please remember that this is a human condition ...

….

Even through the darkest phase
Be it thick or thin
Always someone marches brave
Here beneath my skin

And constant craving
Has always been
Maybe a great magnet pulls
All souls towards truth
Or maybe it is life itself
Leads wisdom
To its youth

Constant craving
Has always been
Craving
Ah ha

Constant craving
Has always been
Has always been
………..

pcp

07 abril 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Se há altura do ano boa para falar de Van Gogh é, com toda a certeza, na Páscoa! Não só por calhar na Primavera, quando a luz do sol é mais radiosa e alegre, como a pintou VG. Não só por a natureza ganhar os tons do amarelo vivo e do verde luzidio que povoam as suas telas. Não só por o céu ter o azul que encontramos na sua paleta cromática. Não só por ser a época das flores, um dos leit-motivs do pintor, que não conseguiu vender um único quadro em vida!!! E nem preciso de lembrar que hoje é dos mais cotados no mercado leiloeiro mundial !

É, sobretudo, por esta tela, talvez menos conhecida do seu badalado repertório e que é das minhas preferidas, por revelar tanto e tão bem a sua forma de olhar a vida, incrivelmente positiva, apesar do sofrimento avassalador e de um dia-a-dia crivado de dissabores:



Vincent Van Gogh (1853-1890), Ramos de amendoeiras em flor, Fevereiro de 1890, Rijksmuseum, Amsterdam.

Pasmo como um homem marcado pelo insucesso, a quase todos os níveis – afectivo e familiar, financeiro, profissional, ignorado artisticamente, torturado pela dor física, além de sofrer de perturbações psicossomáticas graves – tenha passado tanta luz, tanto horizonte para as suas telas! É das coisas que me toca.

E esta é das telas mais impactantes. Porque
nada na biografia que se lhe conhece, justifica celebrar tão gloriosamente a vida!

Quanto mais a olho e
tudo nela vibra como um verdadeiro hino à alegria – daquela profunda, que nasce na alma e permanece turquesa e luminosa apesar de todas as chuvas torrenciais – mais fico siderada. Há nela uma grandeza indizível. Os ramos de linhas curvas, que se entrelaçam harmoniosamente uns nos outros, ponteados a flores brancas e de rosa suave, transmitem uma vitalidade contagiante! São uma explosão de vida nova, revigorada, que me lembram o que se conta dos concertos finais, regidos, tentativamente, por Beethoven. Não apenas esta tela mas toda a obra do pintor holandês, que não conseguiu sair do atelier, se assemelham ao fiasco das últimas audições públicas de um compositor surdo, totalmente desencontrado da orquestra, à deriva. A própria estreia mundial, absoluta da Nona Sinfonia escapou, com muita peripécia e alguma balbúrdia, ao caos que tinham sido os ensaios da ópera “Fidelio”. Mesmo assim, a 7 de Maio de 1824, a Nona conheceu a luz do dia, com dois maestros em palco, um real (Michael Umlauf) e outro a reger virtualmente, entretido numa mímica entusiasmada, q.b. risível ! E se tudo correu, apesar de tudo, bastante bem, deveu-se ao mérito dos músicos, com ordens estritas para ignorar as indicações desfasadas de Beethoven. Terminado o concerto, reza a história que a soprano, Henriette Sontag, teve de lhe interromper a mímica e virá-lo para o público, que o aplaudia animadamente, enquanto o compositor continuava a dirigir músicos imaginários! É bem irónico que o autor da que ficou conhecida por Sinfonia da Alegria, pelo coro apoteótico do final triunfante, musicando a Ode à Alegria de Schiller, não a tenha podido ouvir, nem apreciar, nem sequer reger a orquestra, naquele Dia D, sob pena de tudo ter redundado num flop!

De facto, a vida tem destas surpresas, muito misteriosas, aparentemente paradoxais, que nos ultrapassam. Mas nem tudo o que começa mal, em termos públicos (porque a pauta composta por Beethoven é irrepreensível), está votado ao fracasso. Há uma consideração muito antiga, das orações judaicas, que reza assim: «
Quem semeia em lágrimas, recolhe com alegria.»

Parece-me curioso observar que nas encruzilhadas imprevistas da história, em que as gerações dos homens se entrelaçam como os ramos da amendoeira de Van Gogh, descobrimos flores novas e surpreendentes, que nos chegam de épocas muito recuadas. É fantástica esta amálgama enriquecedora de tempos. É extraordinária esta possibilidade de comunicação entre épocas distantes, esta fortuna imensa de herdar legados de gente de eras distantes, em que chegamos ao cúmulo de descobrir uma imensidão de fãs de VG (e de tantos outros! serão a maioria?) uns bons anos depois da sua morte! Do mesmo modo, também muitas das figuras de referência e de sucesso, em dado momento, são exclusivas da sua época, pertencem apenas à sua contemporaneidade, sem conseguirem entrar na memória das novas gerações. Falham o teste do tempo!

Não haverá aqui um eco daquela reflexão radical da história dos homens, em que a realização plena não se esgota no presente, devendo abrir-se ao futuro? Refiro-me ao célebre Sermão da Montanha, onde se nomeiam os que hoje choram e os que hoje são elogiados e assim já receberam, esgotaram, a sua consolação. Uma das chaves de leitura são os
diferentes tempos dos verbos, com variações muito significativas, em cada uma das proposições das Bem-Aventuranças: entre um presente de horizonte rasgado a projectar-se no futuro e uma actualidade que não descola do imediatismo, acabando amortalhada no passado (Lc. 6, 20-26). É que o tempo é sempre implacável com as aparências…

Retomando Van Gogh, há uns anos, num voo da KLM, a revista de bordo tinha um artigo empolgante sobre uma doença ligada ao ouvido médio e que afecta a capacidade de socialização dos pacientes, além de outras consequências nefastas. E os investigadores eram unânimes em diagnosticá-la, postumamente, em VG, pelos inúmeros comportamentos que estão registados, a começar pelo corte da orelha, considerando-o inteiramente explicável, para aliviar a pressão insuportável provocada pelo tal síndrome! O local preciso do golpe, pouco comum, coincide com a zona atingida pela doença. Mais uma achega para a biografia tão dorida e incompreendida do artista.

Partilho ainda a impressão que me causou, diante de uma colecção assombrosa de óleos, que pude ver em Amsterdam, há uns anos, uma pintura lindíssima pintada no verso! A indigência do pintor não lhe permitia desperdiçar o avesso das telas, mesmo correndo o risco de manchar a parte da frente e de atrapalhar a visibilidade das telas geminadas! A exposição abarrotava de visitantes e bem vi mais lágrimas a correr, teimosamente. Mas silenciosamente – é impossível fazer barulho junto às suas paisagens radiosas. Compensamo-lo hoje pelo esquecimento dos seus contemporâneos. E isso tem graça!

Boa Páscoa,

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


06 abril 2010

Para sempre

Sentaram-me aqui para sempre, agora que estou velho.


Entretenho-me muito a pensar. Aliás, não sei se é a pensar, que não percebo nada das engrenagens da cabeça, o que faço é passar lembranças como quem projecta, numa parede qualquer, fitas estragadas pela humidade e pelo pó, ando para a frente e para trás e tento ordenar o que se aproveita, adivinhar o que dizem as vozes que se vão desfocando, recordar o tom dos risos. Sustenho a respiração no sussurro dos segredos e nos soluços abafados das lágrimas e paro nas caras das pessoas. Vamos chamar a isso pensar no tempo, para ser mais fácil.


Entretenho-me muito a pensar no tempo em que as pessoas não eram mais que pares de pernas, mais ou menos bem calçadas, mais ou menos familiares, no tempo em que a sanita era um mistério que engolia tudo, candidata improvável a conquistar o lugar do bacio azul, que parecia um carrinho com uns olhos de bambi autocolantes, no tempo em que as nossas mãos eram pequenas de mais para a sede e, nas tardes de sol, só o avô, com as suas mãos escuras de gigante, a cheirar a sabão azul e branco, conseguia segurar água suficiente para a saciar, no tempo em que as horas estavam a mando do sol e a rua a mando da chuva.


Entretenho-me muito a pensar no nosso tempo, das mãos sempre agarradas, como se não se vissem há anos demais, no tempo dos cheiros novos, nossos, que souberam guardar-se na memória, no tempo em que todos os bancos de jardim eram uma boa desculpa para parar e em que redescobrimos o prazer de rebolar na relva, no tempo em que aprendemos a saborear as imperfeições, nos apaixonámos irremediavelmente por elas, no tempo em que deixámos de ter frio de noite.


Entretenho-me muito a pensar no tempo dos nosso pequenos, que ganiam baixinho nas primeiras noites connosco, no tempo em que aproveitavas para chorar com eles as notícias do médico, de que os nossos corpos não iam funcionar nunca, só porque pensavas que eu não podia ouvir, no tempo em que percebeste que enrolar-me em ti com mais força era a minha maneira de chorar, no tempo em que as palavras deixaram de ser necessárias para nos entendermos nos assuntos da alma.


Entretenho-me muito a pensar no tempo em que os nossos pequenos morreram, e os filhotes deles também, em que choravas enquanto semeavas flores para eles, no tempo em que a preguiça já não tinha responsabilidade nenhuma na dificuldade que tinhas em levantar-te de manhã, no tempo em que eu alisei o caminho até à entrada, só porque ia ficar muito mais bonito, apesar de saberes desde o início que era para a cadeira, no tempo em que usaram esse caminho para te levar para sempre, e em que eu fui contigo, mãos agarradas como se não se vissem há anos demais, a apertar com tanta força que me esqueci de olhar para trás.


Depois sentaram-me aqui. Para sempre.



ZdT


05 abril 2010

Inveja

A militância politica de Vitória tinha começado cedo, por alturas da instrução primária. Habituara-se a ver o pai, comunista convicto e militante, com um discurso entusiasmado, a bramar contra os fascistas, contra as injustiças, contra a falta de solidariedade - contra aquilo a que ele chamava a canalha. O combatente chegava a casa aos fins-de-semana depois de mais uma ocupação de terra, de uma campanha política numa fábrica de gestão capitalista selvagem, de uma campanha de alfabetização de populações que desconheciam como alinhar as letras para compor poemas sofridos.

Nos antípodas desta realidade estava Manuel Maria, filho de uma sociedade que identificava o mundo de Vitória porque numa contenda os oponentes sempre se reconhecem. Ainda que numa visão metafórica, os seus pais eram os donos das terras que o militante político ocupava, administravam as fábricas onde os operários eram supostamente explorados, tinha um tratamento respeitoso junto das populações que não sabiam redigir textos simples. Manuel Maria usava expressões como os Pais foram ou as férias na quinta. Incongruências linguísticas de uma gente que preservava acima de tudo a propriedade privada, mas que não usava pronomes possessivos na sua sintaxe própria.

Vitória e Manuel Maria descobriram-se mutuamente para satisfazer aquela frase desinteressante e vagamente verdadeira que afiança que os extremos se tocam. Cruzaram-se ambos na improbabilidade de amigos comuns, mas os seus olhos encontraram-se num instante certo, porque se tivesse havido um minuto de atraso – ou de avanço - a sua atenção teria focado outros aspectos do mundo em redor, e algo se perderia no encaixe possível de almas desconhecidas.

Uma semana depois, aquele que não tinha por hábito usar pronomes possessivos no seu fraseado, entrava em casa da filha do comunista militante cheio de uma curiosidade levemente enervada. Munido de uma discrição que era filha de uma educação cheia de regras, o seu olhar prendeu-se na profusão de biografias de Marx e Engels, nas visões elogiosas do comunismo mundial, nos relatos sofridos das vítimas das prepotências, nas encadernações diversas dos pensamentos de Mao ou de Ernesto Guevara. A música era conforme – porque na verdadeira militância política não pode haver aspectos discordantes, não se pode abrir uma brecha na solidez revolucionária que abra caminho à incoerência burguesa.

Sentaram-se e, ao fim de 10 minutos de uma conversa neutra – confortavelmente neutra – houve algo entre eles que levou os olhos a tocaram-se, as mãos a tocaram-se, as bocas a tocaram-se. Tudo se tocou num furor erótico que era fruto de um desejo irresistível, de uma atracção quase fatal. Quando deram por isso encaminhavam-se na direcção do quarto, impelido pela vontade de ambos.

Quando entraram no quarto, a boca de Manuel Maria encheu-se de espanto – era um quarto clássico, onde ardiam várias velas de cores diferentes e aromas diferentes. Numa aparelhagem estereofónica, Tony Bennett, o homem que se chamou Anthony Dominick Benedetto, cantava, na sua voz sensual

I left my heart / in San Francisco

enquanto ao lado da cama um tabuleiro com caviar, meio limão, dois copos e uma garrafa de champanhe – e não espumante – rematavam o cenário.

O sexo entre ambos (teria havido amor?) seria bom – clássico, arrojado, criativo, lento, brutal, acelerado, respeitador dos tempos alheios, preocupado por fetiches próprios.

Nas semanas seguintes as noites repetiram-se: em primeiro lugar os livros da esquerda revolucionária, do elogio do marxismo, dos amanhãs que cantam. Em seguida o sexo ao som de Tony Bennett, do caviar, das ostras, dos vinhos a condizer.

Um dia, Manuel Maria disse-lhe:

És muito contraditória, companheira! Não sei se consigo voltar cá mais...

Sabe qual é o seu problema, senhor doutor Manuel Maria?

Diz lá, camarada Vitória. Qual é?

É a tua relação com a minha incoerência. Sabes, no fundo, o que tu tens é inveja desta minha dupla faceta, da facilidade com que vivo com o Tony Bennett e a Brigada Victor Jara, com os tremoços e com o caviar. Inveja, é o que tu tens. E isso é um pecado, ou não?

JdB

04 abril 2010

Música para o dia de hoje

Domingo de Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

03 abril 2010

Fotografias dos dias que correm...

Fotógrafa de alma e profissão, Rita Burmester foi co-autora do livro “Splendid Garage” a que pertence o conto “A Esperança de Margarida”, publicado ao longo dos últimos 6 sábados neste blogue. Amiga do coração do autor deste conto, com ele viveu momentos inesquecíveis e mutuamente enriquecedores. Um era o “anjo”, o outro a “rocha”, na poesia das palavras de Bernardo Pinto de Almeida, que escreveu o prefácio do livro.

Apresentamos hoje (e no próximo sábado) parte das fotografias que fazem parte, também, deste livro. Fotografias fortíssimas, riquíssimas nos seus contrastes de luz e sombra, cor e nitidez. Fotografias desoladas que nos remetem para um universo de despojos, de um consumismo rápido, esbanjado e esquecido. São carcaças de carros… mas poderiam ser frigoríficos, micro-ondas, máquinas de lavar, sofás esventrados, armários de cozinha …

E para quem quiser ficar a saber mais sobre a Rita e o seu trabalho: www.ritaburmester.com

pcp


02 abril 2010

Música para o dia de hoje

polaroids de figuras extintas

#5 - rogério

rogério,

a partir da prisão a que o mundo - e a falta de amor? - te condenou,
essa doença dos trópicos que te lançou
uma rede de malha fina e terrível eficácia,
a partir dessa espécie de não-lugar,
para sermos modernos e exactos na geografia descoordenada que nos resta,
peço-te que nos desculpes a distopia.

aos miúdos que te crismaram com cruel nome de fruto;
aos graúdos que não foram capazes, adivinho à légua;
aos médicos que não terão ido mais além do que atenuar
o que só tem redenção cósmica se invertido aqui na terra;
ao mundo que te negou oportunidades devidas,
abalando, até hoje, para parte incerta;
a mim, que não sou ninguém, nem mereço mais do que
qualquer outro homem que vira costas ao seu semelhante,
(mesmo que este 'virar costas' seja metafórico
e não corresponda à tradicional equação de um espaço num tempo);
e a ____.
(ia escrever quatro letras, mas não fui capaz.)

vês, rogério, a matéria de que somos feitos? cobardia e siga a vida,
raio de gente esta em que nos transformámos.

no dia em que te vi, já lá vão uns anos valentes,
tinhas um carro com tuning - uma coisa que me repele, devo dizer-te,
e um corpo ainda jovem com umas muletas já velhas,
numa estranha rima desengonçada,
como o teu andar doente,
espasmódico (como o ritmo quebrado desta porcaria de poema).

achei, nesse dia, que as jantes douradas do teu carro eram afinal lindas,
contra o azul eléctrico do capot - e ambos recortados contra o céu da beira alta.
até dos apliques - ailerons, ponteiras de escape, eu sei lá que mais - gostei.
emprestavam uma estranha dignidade ,
ao carro e ao rogério que conheci em menino, transformado ele próprio,
num homem-maquinizado.

pensando bem,
talvez não seja beleza a palavra certa,
talvez a palavra certa seja ironia
- a única resposta possível que te deixámos,
eles e eu, todos nós, aqui em baixo,
mais aquelas quatro letrinhas que não ouso dizer,
ali mais em cima.

um homem kitado, conduzindo, em dificuldade,
um carro dourado, feérico, eléctrico,
jantes douradas e agonia movida a gasolina sem chumbo,
uma anedota motorizada largada ao vento,
como aquelas piadas de mau-gosto
que alguém sempre sopra em jantares sociais
(e todos tentamos evitar escutar, apesar de estarmos lá).

o que eu agora gosto do tuning, rogério,
dessa metáfora feita de horsepower,
como se fosse um puro sangue no asfalto,
brincando com a identidade automobilística
e a possibilidade humana.

é assim, rogério.
ser duro não chega. ser mole não alivia. ser justo, talvez.. o quê?
é assim, rogério.

é assim.
mas não devia ter sido.

gi.

01 abril 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this Easter week I have chosen some extracts from the film musical Jesus Christ Superstar from 1973.
Considered controversial by some Christian and Jewish religious groups for suggesting, they believed, that Jesus may not be divine and that the Jews were responsible for Jesus' death, and perhaps partly because of its 'rock opera' artistic medium, I believe instead that it successfully tries to humanize Jesus, to "strip away the myth from the man", similar to the more recent films The Last Temptation of Christ and The Passion. I do not believe it denies necessarily his divinity. Through the eyes in particular of Judas Iscariot - who sees the human-ness of Jesus and the desire among his fellow people for a new spiritual messiah, but who also fears retribution from Rome - and of Pontius Pilate who also sees Jesus as a political victim, JCS tries also to observe the events in its social/political context and also comments on how perhaps Jesus might have been regarded if He had lived in today's world of mass communication and PR marketing. Would Jesus be revered if He appeared on earth today as the Son of God?
JCS has become one of the most popular and loved musicals ever. Not just because it contains brilliant music and lyrics (based on the text of St John's Gospel) but because also it has helped to make the story of Jesus more approachable, understandable and relevant for the modern world.
I managed to find only one video extract which contains Portuguese subtitles but I hope that most of you will be familiar already.

Heaven On Their Minds - observations from Judas:



Pilate's Dream - premonitions:



Pilate and Christ - the first meeting:

Herod's Song -

Trial Before Pilate/39 Lashes/Superstar -

I wish you all a spiritually fulfilling Easter holiday.

A proxima,
PO

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