24 outubro 2013

Duas últimas


Há muito que deveria ter trazido a esta rubrica os UHF, grupo da outra banda nado e criado em Almada, que posso considerar como o meu “concelho adoptivo”, pois nele vivi e cresci desde tenra idade.

Fui pois vizinho deles durante largo tempo. Lembro-me vagamente de ver no liceu de Almada o vocalista e guitarrista, António Manuel Ribeiro, mais velho do que eu uns dois ou três anos, numa época anterior a 1974 em que as escolas dos subúrbios eram terreno propício à instigação do protesto e da subversão. Se calhar sem grandes diferenças para o que se passa hoje em dia, afinal….

Lembrei-me da minha falha quando me apareceram na net, ao fazer umas pesquisas sobre o Pedro Barroso, apresentado neste blogue há dias. Músico que também me atrasei a postar, e uma (a menor!) das razões para isso é certamente porque é o autor do hino do meu clube, e seu adepto incondicional. Mas o PO antecipou-se e fê-lo, e muito bem!

Os UHF são um dos grupos de topo do rock português, há mesmo quem lhes atribua a paternidade do mesmo, mas não vou por aí, que há vários a reclamarem-se dessa qualidade. Limito-me a constatar que são “antigos” (1978), resistentes (ainda este ano editaram um álbum comemorativo dos 35 anos de carreira) e genuinamente portugueses.
Músicas como “Cavalos de Corrida” e “Rua do Carmo”, ambas com mais de 30 anos, continuam a ser referências do rock nacional.

António Manuel Ribeiro é a alma do grupo. Não o acompanhando de todo nas suas preferências políticas e futebolísticas, ambas demasiado avermelhadas para meu gosto, acompanho-o todavia enquanto músico e compositor.

Espero que também gostem!

fq

23 outubro 2013

Diário de uma astróloga – [63] –23 de Outubro de 2013



Eclipse Solar de 3 de Novembro de 2013 – 11° 15’ de Escorpião
Alguns factos:
·       Todos os seis meses há um conjunto de eclipses: um lunar e outro solar com 14 dias de intervalo.  
·       Os eclipses lunares ocorrem durante a Lua Cheia quando a Terra está entre o Sol e a Lua. O último eclipse lunar foi na noite de 18 para 19 de Outubro. Os eclipses lunares são vistos por todos os habitantes do mundo desde que a Lua esteja visível durante o eclipse, isto é,  acima do horizonte, durante a noite e com um céu sem nuvens.
·       Os eclipses solares ocorrem durante a Lua Nova quando a Lua está entre o Sol e a Terra. Só são vistos pelos pessoas que se encontram no local certo que lhes permita alinhar a sua visão com o ângulo de ensombramento do Sol.



·  Os eclipses solares não são acontecimentos isolados. Pertencem a uma série a que chamaram Ciclo Saros (saros em grego quer dizer repetição) e ocorrem de 18 em 18 anos. 
·       Cada Ciclo Saros tem 71 – 73 eclipses, portanto duram muitos séculos.
·       O eclipse de 3 de Novembro de 2013 pertence ao Ciclo Saros 16 Norte.
·       A brilhante astróloga Bernardette Brady fez um estudo sobre as qualidades de cada Ciclo Saros baseado na carta do eclipse inicial, que neste caso ocorreu há mais de 500 anos, e descreve-o:

“ Uma família de eclipses muito simpática que traz inspiração e ideias luminosas. A presença da combinação Úrano / Neptuno favorece a libertação de material inconsciente muito profundo. Estas ideias são boas e os indivíduos afectados devem agir com sabedoria de dar-lhes continuidade”.

E quem vai ser mais afectado?

·       Os nascidos entre 31 de Outubro e 6 de Novembro, pois o Sol e Lua envolvidos no eclipse vão fazer uma conjunção ao seu Sol Natal.
·       Todos os que tiverem o Ascendente ou a Lua entre 8° e 14° de Escorpião.
·       Mediamente afectados serão que tiverem o Sol, Lua ou Ascendente natais entre 10° e 12° de Touro.
·       Como todos temos o grau 11° de Escorpião nalgum sitio da carta, os assuntos da casa onde este grau cai, podem ter uma “sacudidela”. Identifique a casa, a área de vida correspondente e esteja atento.  Se precisar de ajuda sobre o significado da casa consulte http://www.astro.com/astrologia/in_house2_p.htm

A péssima reputação dos eclipses confirma-se?
·      Os eclipses são o contrário do status quo, e muita gente não gosta de ser abanada.
·  A nível pessoal os acontecimentos podem ser momentaneamente difíceis mas depois trazem grande luz.
·      A nível mundano a má reputação tem alguma razão de ser. Os eclipses começam a fazer-se sentir aproximadamente 3 meses antes da data em que ocorrem e mantêm-se activos por vários meses, sobretudo na região do globo onde o eclipse é mais forte. No Quénia, o eclipse será quase total, e lembro que nos dias 21 a 24 de Setembro passado houve um ataque terrorista a um centro comercial onde morreram dezenas de pessoas. Este ataque foi da responsabilidade de al-Shabaab por retaliação a acontecimentos na Somália, país também dentro da área mais vermelha do mapa seguinte.


Em que países se vê?
Mapa de ensombramento do próximo eclipse do dia 3 de Novembro de 2013. Na zona a vermelho escuro o Sol terá um ocultamento entre 100% e 75%. Em Portugal e no Brasil só se verá uma dentadinha escura no Sol entre as 11:30 e as 13:10 em Portugal e de manhã muito cedinho no norte do Brasil.
Pode obter mais informações sobre o horário preciso deste acontecimento nas várias cidades de Portugal em http://www.vercalendario.info/pt/lua/portugal-3-novembro-2013.html
Pode confirmar o horário para algumas cidades do Brasil em http://www.vercalendario.info/pt/lua/brasil-3-novembro-2013.html


Palavras finais
·       No domingo, dia 3 de Novembro, não se assuste, se o céu estiver limpo observe a pequena ocultação com protecção ocular apropriada.
·       Durante um eclipse a luz do Sol desaparece da Terra, mas depois volta, tornando a iluminar. As palavras-chaves são ênfase, crise e oportunidade de ver, de encarar os outros, nós próprios, os problemas, a vida sob outra luz.
·       Reflictam nas boas ideias que tiveram em Outubro e Novembro de 1995 pois foi a última vez que tivemos um eclipse desta serie.
·        Aproveitando o carácter simpático do Ciclo Saros 16 Norte, permitam que a inspiração e as ideias luminosas surjam e ganhem coragem para as por em prática.

Luiza Azancot



22 outubro 2013

Anúncios dos dias que correm

Cartas

Retomo um tema que me é querido desde há muito: as cartas. 

Num blogue, há uns meses, alguém afirmava estar a destruir as suas cartas pessoais. Porque eram isso - pessoais - para além de intransmissíveis. E porque não queria que ninguém, após a sua morte, soubesse, lesse, tomasse conhecimento de uma parte da sua intimidade. Dos comentários ao post eu fui a ovelha ronhosa, defendendo a manutenção, em formato legível, da correspondência de cada um. E aduzi argumentos, para que não se pensasse que era do contra por desejos de saliência. Mesmo assim fiquei a sambar sozinho no meio da rua, citando uma colega brasileira. 

Grande parte das cartas revelam o que somos - ou o que fomos, num dada circunstância. São em muitos casos uma grande forma, se não a única, de nos darmos a conhecer a quem vem a seguir, e constituem, por isso, um manancial de informação não forçosamente indiscreta. São um bocado da história de cada um e, nesse sentido, um bocado da história do nosso mundo, mesmo que este seja apenas o fundo da rua que calcorreamos.

Um dias destes, alguém que me é próximo comentou estar na posse de rascunhos de cartas escritas por um familiar que já cá não está. Eram cartas pessoais que revelavam muito da pessoa que as redigira, nomeadamente preocupações relacionadas com o seu enquadramento social. Revelavam ainda alguns remorsos por opções tomadas que, em referencial nenhum do mundo civilizado, digo eu, seriam de criticar. Mas eram motivo de incómodo para quem delas falava. Eram, no fundo, cartas sensíveis, que revelavam fragilidades.

Se estes rascunhos tivessem sido destruídos (e tê-lo-iam sido, seguramente, se os acontecimentos tivessem seguido outro ritmo) não teria sido possível completar a imagem de quem partiu. Só alguém muito forte consegue reconhecer uma fraqueza. Só alguém muito grande consegue revelar o que aquela pessoa revelou. Ler os rascunhos que só por acaso não foram queimados numa lareira é completar a imagem amorosa de alguém que deixou saudades, apesar de ter morrido estatisticamente no seu tempo. Quem me falou nisso não sentiu ter invadido uma intimidade, apesar do teor das cartas. Antes pelo contrário, albergou um Homem ainda melhor no seu coração.

JdB

PS: E se as cartas fossem de um teor desagradável? Também é verdade, mas agora não me dá jeito falar nesse tema.

Fotografia de JMAC, o homem  de Azeitão


21 outubro 2013

Vai um gin do Peter’s?


O filme da ortodoxa judia Rama Burshtein, «NOIVA PROMETIDA»(1),  foca a relação homem-mulher numa perspectiva invulgarmente afectiva e íntima, onde se revela muito da riqueza da psicologia feminina, aumentada pelo idealismo e pela generosidade incrível dos 18 anos (do lado da noiva). Tudo decorre num espaço fechado, tanto sociológica como geograficamente, distante do nosso, mas de uma densidade humana cativante.

O mundo interior predomina e inunda todo o ambiente. Aqui, o silêncio é a via de comunicação preferida. Diz-se apenas o que se acredita valer mesmo a pena verbalizar. Assim acontece no momento difícil do funeral da jovem Esther, ao dar à luz um bebé, em que os amigos e familiares se dirigem à família enlutada com uma invocação do Antigo Testamento. Sempre a mesma, muito positiva, a implorar luz para aquela hora escura. E a resposta é invariavelmente ámen, confirmando que se tenta seguir naquele trilho, tão desafiante, de continuar a confiar. 

O impacto das poucas palavras trocadas é marcante, até porque são mínimas as ocasiões de o fazer. Compreensivelmente, privilegia-se uma comunicação subtil, frequentemente apoiada em metáforas, breves desabafos ou orações que todos sabem citar e decifrar. Uma linguagem fortemente encriptada, que convoca as raízes mais ancestrais de um povo onde a identidade nacional e religiosa se entrelaçam. Claro que todo o filme acaba por ficar encriptado, num estilo bem interpelativo.

Percebe-se que o ponto de observação é feminino, de uma realizadora pertencente à comunidade ultra-ortodoxa de Tel Aviv, nascida em Nova Iorque, convertida aos 25 anos e bem ciente de tudo o que diferencia aquele modus vivendi codificado, do Ocidente secularizado. Aliás, tem-no ao pé da porta, na maioria da sociedade israelita.

 O título original inglês lança-nos logo no âmago da história de amor especialíssima, envolta em múltiplos véus psicológicos – «Fill the Void» (preencha a vaga). No fundo, ecoa neste relacionamento a frase do realizador de Amélie Poulain – Jean-Pierre Jeunet: «Être cinéaste, c’est comme être navigateur, il faut aimer la souffrance, les difficultés.»(2). Entenda-se Jeunet sem sado-masoquismo, mas no sentido aplicável a qualquer atleta, alpinista, artista ou activista de causas maiores, que são chamados a encarar as dificuldades como alavanca para se superarem. Ai deles se se deixarem esmorecer. Jeunet até vai mais longe quando fala em amar as dificuldades, bem à maneira dos que acreditam na vitória. Embora possa soar paradoxal, resulta na perspectiva mais positiva e talvez também a mais realista para quem queira levar até ao fim um projecto arrojado. Gandhi frisava aos seus inúmeros seguidores o lado doloroso dos grandes combates, não para os afugentar nem por curtir a dor, per se, mas por a saber incontornável num percurso de vida intenso e profundo.

A beleza suave das personagens, sobretudo das mulheres, com um guarda-roupa irrepreensível, a qualidade da banda sonora com um coro masculino a rezar em off, as vozes calmas, bem educadas mas firmes em todas as conversas, o acordeão de sons antigos que a protagonista toca maravilhosamente (nem precisa de dizer que herdou tudo aquilo da avó) transmitindo imensa paz, os poucos gestos de afecto com abraços muito sentidos entre amigos do mesmo sexo, os olhares comovidos que dizem tudo, as mensagens de vida trancadas em papelinhos bem dobrados que se entregam aos amigos em momentos sensíveis, tingem toda a trama de uma atmosfera intimista, onde se comunica através do testemunho de vida. Nos momentos falados, há cenas especialmente eloquentes, como o diálogo entre Shira (a protagonista) e os pais, com a câmara fixada no rosto da filha, e as vozes graves dos adultos em off, quando lhe apresentam uma proposta de casamento menos convencional. Em Shira tudo fala, apesar dos seus modos suaves, de olhar acutilante e respostas telegráficas, fogosas mas pensadas.

A conversa entre ela e o cunhado, agora candidato a noivo, são lapidares. Aliás, todas as suas saídas são antológicas. A réplica espantosa dada a um outro possível noivo, bastante imaturo e empenhado em esclarecer o tipo de mulher e de casa que pretendia, condensou o essencial numa única frase: Quero uma casa e uma família verdadeiras. Tudo simples mas exigente. Era tão sintética e certeira, até mesmo a assumir as hesitações, que costumava deixar os seus interlocutores atordoados. Como se tivessem apanhado com a onda em cima, atingidos por um excesso de significado.


Tudo nela era cristalino e autêntico, merecendo um elogio rasgado do rabino, num encontro de desfecho algo imprevisto.

Uma raridade conseguir-se tal nível de intimidade num filme repleto dos episódios contrastantes da vida da comunidade: nascimento, noivados, casamentos, morte, cerimónias religiosas. Nisto, assemelha-se ao grande realizador alemão do primeiro quartel do séc.XX – Murnau e, mais tarde, a Dreyer ou Bresson, que ousaram filmar a alma humana. Como explica Rama B., ela abre-nos uma janela para nos deixar ver o dia-a-dia das pessoas, sem explicações pedagógicas. Considera, aliás, que a matriz do judaísmo está na procura constante do justo equilíbrio entre satisfazer os anseios humanos e saber esperar, ser contido no timing de realização. Um desafio à subtileza. E concretiza na descrição do relacionamento homem-mulher, seu tema predilecto: «The thing that really interests me, in life and with this film, is the male-female relationship. The enigma of intimacy. And that was an issue for us in terms of how to deal with it in the film. How far do you go with it? (…)»(3)   

Quando lhe perguntam: «It's hard to even remember that we never see Shira and Yochay touching each other because the scenes they perform together seem so intimate.», responde: «That’s true. That’s how we see the enigma—the power of wanting and then restraining. The restraining is the power. The passion cannot exist if you have it all the time—the passion is only for something that you don’t have. You have to work to keep the passion. Judaism is all about that. »(3) 

Genericamente, a segurança do grupo feminino é a pedra de toque do argumento. Segundo Rama B., cabe a elas a escolha do noivo, apesar das relações serem organizadas pelos pais. O caso de uma tia é paradigmático desta semi-liberdade, pelo seu estilo divertido, desenvolto e descomplexado, sempre bem arranjada e com saídas incisivas. Só a custo percebemos não ter braços nem marido, porque não gostou do candidato, apesar de pertencer a uma comunidade onde casar era a opção mais honrosa e recomendada.  

O filme dá amplo espaço de interpretação ao espectador, abrindo para múltiplas pistas de leitura, sem respostas categóricas e definitivas. Por exemplo, no final, fica ao entendimento de cada um interpretar a aproximação difícil entre a miúda de 18 anos e o futuro noivo viúvo, a rasar os 30. A este respeito, a realizadora observa com graça que: «I think when you watch films it becomes a mirror of who you are. If you’re mad at the world, you’re going to see this film as a victim story. But if you’re living in love and romance and passion, you’re going to see it as a love story.»(3)

Antes de ouvirmos Rama B. em entrevistas, intuímos que NOIVA PROMETIDA é fruto de uma longa gestação (15 anos no total; 1 ano só para a selecção do casting), tendo, ao mesmo tempo, fluído harmoniosamente, com tranquilidade. Estreando-se aos 46 e filmando apenas como hobby, tudo resultou hiper profissional. Basta dizer que só 2 dos actores são amadores da comunidade ortodoxa (90% são seculares e de carreira), além de que foi rodado com câmara digital de alta definição – uma Alexa, o que favorece muito os múltiplos zooms às expressões das personagens. Quando Rama pensou na história, não imaginava que chegaria a escrevê-la. Quando a escreveu, não imaginava filmá-la. Quando desencantou financiamento e começou a filmar, não imaginava que chegasse às salas de cinema. Quando lançou a película no mercado internacional, não imaginava qualquer efeito. Quando embateu com o sucesso além-fronteiras, limitou-se a viver o novo momento com o empenho e a novidade com que as coisas lhe costumam acontecer. Desde sempre, diz. Percebe-se que vive num diálogo de fé constante, e que é esse o fio condutor que teceu toda a trama narrativa e desenhou a individualidade de cada personagem.

Antes de nos surpreender a nós, Rama B. foi surpreendida pela vida. Talvez isso explique a vitalidade incrível de NOIVA PROMETIDA – um filme q.b. difícil mas que merece o desafio.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

__________________________
  (1)   FICHA TÉCNICA
      
Título original:
FILL THE  VOID
Título traduzido em Portugal:
NOIVA PROMETIDA
Realização:
Rama Burshtein
Argumento:
Rama Burshtein
Produtor
Assaf Amir
Banda Sonora:
Yitzhak Azulay
Duração:
90 min.
Ano:      
2013
País:
Israel
        Elenco:

Hadas Yaron – Shira, noiva de 18 anos
Irit Sheleg      – mãe de Shira,
Yiftach Klein  – o cunhado
Renana Raz    -  Esther, a irmã que morre
Razia Israeli   - a tia.

Local das filmagens:

Tel Aviv

Site oficial:

 

Prémios

7 galardões da Academia de Israel, 

Prémio da Melhor Actriz para “Shira” no Festival de Veneza.


(2) Entrevista publicada no Paris Match a 10 de Outubro de 2013.
(3) Entrevista concedida a Danny Miller, em Los Angeles, a 18 de Maio de 2013).   





20 outubro 2013

29º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 18,1-8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus disse aos seus discípulos uma parábola
sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar:
«Em certa cidade vivia um juiz
que não temia a Deus nem respeitava os homens.
Havia naquela cidade uma viúva
que vinha ter com ele e lhe dizia:
‘Faz-me justiça contra o meu adversário’.
Durante muito tempo ele não quis atendê-la.
Mas depois disse consigo:
‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens;
mas, porque esta viúva me importuna,
vou fazer-lhe justiça,
para que não venha incomodar-me indefinidamente’».
E o Senhor acrescentou:
«Escutai o que diz o juiz iníquo!...
E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos,
que por Ele clamam dia e noite,
e iria fazê-los esperar muito tempo?
Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa.
Mas quando voltar o Filho do homem,
encontrará fé sobre esta terra?»

19 outubro 2013

Pensamentos impensados


Happy hour
O melhor sítio para se beber caipirinhas é a bordo dum navio quebra-gelos.
 
Tudo o que  vai à rede é golo
De uma maneira geral, na marcação de penaltis, os guarda redes atiram-se para o lado contrário; então por que não se atiram para o lado contrário?
 
Hiper-actividade
... enquanto não estiveres estafado, não estás descansado!
 
Frases célebres
Ouvi Cavaco Silva dizer ninguém está acima da lei.
Perante tanta criatividade, caí de rabo em cima da Constituição; fiquei acima da lei.
 
Controis
As rotundas "controlam-se"; as barrigas rotundas é falta de controle.
 
Ouvido por aí
Era um dicionário tão bom que tinha um índice com todas as palavras.
 
Modas
Os vestidos das fadas têm uma cauda, a que se dá o nome de fairy tail.

Reciprocidades
Dos jornais: Passos e Cavaco visitam Canal do Panamá. Os dois políticos bem poderiam convidar os seus homólogos a visitar Canal Caveira e oferecer-lhes um belo cozido.

SdB (I)

18 outubro 2013

Deixa-me rir...


Caros Audiophiles, I have just returned from a wonderful sunny ten days in Portugal - first playing some golf and eating great seafood in Algarve, and then visiting many friends in Lisbon.

Usually I rent a car, but this time I spent some days walking around Lisbon, exploring the cobblestone streets of Estrela, Lapa, Bairro Alto, Chiado, Baixa and Alfama.

I discovered for the first time (incredibly after so many visits) the lovely old Jardim da Estrela, and the new extraordinary architectural shapes of Fundacao Champalimaud, which by night is beautifully lit, and the interesting regeneration of LX Factory area.

One rather surreal evening was spent with Portuguese friends watching a Noel Coward play performed in English by the mixed amateur/professional Lisbon Players in the charming intimate Estrela Theatre, followed by drinks in the bar Procopio where we met and sat until 3am with the long-time owner Alice and her fascinating friend Tete the renowned 'Clown Woman' who founded Chapito.

One afternoon alone, I found myself at the mirodouro of Sao Pedro da Alcantara, close to where my grandparents' house used to stand and where I remember being taken for fresh air as a very young child. Here, under shady trees and with wonderful views of Lisbon and Castelo Sao Jorge, I came across a street musician playing guitar and singing Portuguese and French chansons. The first song as I arrived seemed to capture the mood of the afternoon. When I asked the musician he told me the song was called "Menina dos Olhos d'Agua" by Pedro Barroso.

I have not before heard of his name. And in fact, when later I asked my friends about him, only one friend claimed to know his name.

I am stunned. I imagine that Pedro Barroso should be very well known in Portugal, almost an institution. Since returning to London I have been discovering his songs on YouTube and honestly, although I don't understand all the lyrics, I am a little obsessed with him right now.

His sonorous voice, and the way he phrases his words, is reminiscent of Charles Aznavour. And when he expressively recites his poetry, he reminds me of Leonard Cohen. And the acoompaniment of guitar, guitarra, flute, violin or accordion sounds traditional and timeless.

Hard to choose from so many lovely songs. I love "Agora Nao E Tarde", "Poema do Lavrador de Palavras aos Politicos", "Longe d'Aqui", among others.

But here I begin of course with "Menina" from the miradouro, in a recent version 'ao vivo', followed by "Setembro" also 'ao vivo' but by a much younger and impassioned PB :






Next I present one of his 'poem' songs "Eterno" which reminds me of Cohen :



Finally, "Esperanca" with its dramatic Latin finale reminiscent of Carmina Burana or Enya :




I will be interested to hear from you if Pedro Barroso is indeed well regarded and widely known. I hope so!
 
A proxima.
 
PO

17 outubro 2013

Crónicas de um mestrando tardio

Tive ontem feedback do meu segundo ensaio. Dos comentários escritos cito o seguinte: 
1) (...) paradoxalmente, a sua maior desenvoltura neste segundo ensaio leva-o a fazer mais erros que não fez no primeiro;
2) No fundo, se a estrutura do seu argumento fosse mais sóbria, o ensaio seria melhor - mas sei que o João é completamente capaz disso.
Em minha defesa aduzi o seguinte: sabe, Professor, senti-me mais desenvolto e aventurei-me; quando dei por mim estava fora de pé e não sabia o que fazer. 
Segue o ensaio, para os que tiverem paciência ou curiosidade de ler. Curiosamente, a nota deste foi pior, mas eu percebi mais o tema. Curiosidades...

JdB

***

São as metáforas “sistematically misleading expressions?

Iniciemos a resposta a esta pergunta com dois pontos prévios: uma definição e uma citação, sendo que esta última acompanhará, sem préstimo, o espírito do ensaio:
1.          sistematicamente: de modo sistemático; invariavelmente.
2.         “para quê alcançar os astros?! Para quê?! Para os desfolhar, por exemplo, como grandes flores de luz!” (Florbela Espanca)
Retomemos a pergunta de abertura: são as metáforas “expressões sistematicamente enganosas?”
Para Max Black (MB), a utilidade das metáforas reside no facto de poderem transmitir conteúdos que, de outra forma, não poderiam ser transmitidos. Talvez resida aqui, nesta ideia de MB, uma parte da resposta à pergunta de base. Como poderemos encontrar utilidade em algo que é invariavelmente enganador? Isto é, se o nosso objectivo não for o de enganar sistematicamente o nosso interlocutor, como poderemos encontrar utilidade em algo que é, de facto, sistematicamente enganador?
Para MB, uma metáfora é uma relação entre duas coisas e, para que cumpra o seu objectivo, tem de haver (e usemos, por simplicidade de raciocínio, os exemplos citados no texto):
1.          um sistema de lugares comuns associados (p. ex. , o homem é um lobo) ou
2.          características morfo-semânticas da linguagem (p. ex., a tua boca é uma latrina)
Tomemos a primeira premissa de MB para que uma metáfora funcione. O dicionário define assim o lobo:
“Zoologia: mamífero carnívoro da família dos Canídeos, feroz, semelhante a um cão grande, que habita regiões isoladas da Europa, Ásia e América do Norte.”
Não fosse o adjectivo feroz, que de alguma forma caracteriza o animal, e tínhamos apenas uma definição científica, virtualmente neutra. Comparar o homem a um lobo não é, seguramente, querer transmitir a ideia de que é um mamífero carnívoro que habita aqui ou ali, mas que há uma certa ferocidade no ser humano. Para que a metáfora cumpra o  seu efeito, é preciso , “não que os lugares comuns sejam verdadeiros, mas que sejam pronta e livremente evocados.” No limite pode acontecer que, para uma determinada zona do globo, por questões culturais, de convivência com o lobo – ou mesmo da utilidade que lhe é dada – se considere o lobo, não um animal feroz, no sentido mais negativo da palavra, mas como um animal feroz, no sentido mais positivo da palavra. A metáfora, nesse sentido, seria potencialmente enganadora, porque o sentido dado à palavra feroz seria diferente.
Por outro lado, a expressão a tua boca é uma latrina suscita um raciocínio diferente. Até onde o nosso conhecimento alcança, não haverá circunstância ou lugar do mundo onde a  frase não seja assumida como um insulto. A eficácia da metáfora assenta, neste exemplo, em características morfo-semânticas da linguagem. Não há interpretações diversas para esta expressão. A metáfora não deixa margem para dúvidas.
Em Max Black, são as metáforas “expressões sistematicamente enganosas?” Não são. Podemos reconhecer que “as regras estabelecidas da linguagem deixam uma grande latitude para a diferença, iniciativa e criação individuais” e, nesse sentido, serão, no âmbito de um sistema de lugares comuns associados, potencialmente enganadoras. Mas não sistematicamente enganadoras, diria eu.
***
Sigamos agora o pensamento de Donald Davidson (DD), para quem a ideia de MB - as metáforas podem transmitir conteúdos que de outra forma não poderia ser transmitidos - é completamente absurda.   
Diz DD: “não existem instruções para a invenção de metáforas; não há um manual para determinar o que uma metáfora “significa” ou “diz”; não há nenhum teste para metáforas que não apele ao gosto”. E, neste sentido, discorda de Max Black quando este afirma que “as regras da nossa linguagem determinam que algumas expressões devem contar com metáforas”, porque para ele não existem regras de linguagem.
A tese de DD é que “as metáforas significam o que as palavras, na sua interpretação mais literal, significam, e nada mais”, acrescentando ainda que “o erro fulcral, que atacarei, é a ideia de que uma metáfora tem, para além do seu sentido literal, outro sentido ou significado”.
Diz DD: “uma consequência é a de que as frases nas quais as metáforas ocorrem são verdadeiras ou falsas num sentido normal, literal, pois se as palavras nas frases não tiverem um especial significado, as frases não contêm uma especial verdade”. E diz ainda: “se uma frase usada metaforicamente for verdadeira ou falsa no sentido vulgar, então é claro que é normalmente falsa”.
 Assim sendo, para DD a maior parte das frases será trivialmente verdadeira ou trivialmente falsa:
O homem é um lobo – a frase é falsa porque, de facto, o homem não é um lobo, pese embora as características de ambos que se podem assemelhar;
Nenhum homem é uma ilha – a frase é verdadeira, porque, de facto, nenhum homem é uma ilha, no sentido literal da palavra.
De acordo com este ponto de vista, e de acordo com o pensamento segundo o qual uma metáfora não veicula uma mensagem, não tem um conteúdo ou significado para além do literal, podemos então assumir que, à luz da teoria de Donald Davidson, as metáforas são sistematicamente enganadoras.
A metáfora que afirma que o homem é um lobo é verdadeira, porque há uma certa ferocidade no homem; a metáfora que afirma que nenhum homem é uma ilha é também verdadeira, não porque o ser humano seja dissemelhante de uma porção de terra emersa rodeada de água, mas porque todo o Homem é uma parte do continente. O sentido das frases, na boca de quem as profere e tendo em atenção o destinatário, não é o sentido literal, mas o sentido metafórico. Entender a frases literalmente é eliminar o encanto de decifrar um código e ou desvendar uma charada. É desprovê-las do entretenimento e da diversão. E é lê-las como sistematicamente enganadoras. Menos do que totalmente enganadoras, talvez, mas mais do que potencialmente enganadoras.
***
“Para quê alcançar os astros?! Para quê?! Para os desfolhar, por exemplo, como grandes flores de luz!” Uma frase falsa, porque os astros não se desfolham, nem são grandes flores de luz. E, no entanto, há quem almeje alcançá-los.

16 outubro 2013

Memória pacífica



Chegará o momento em que a memória é maior do que o sofrimento e o cobre como um manto de serenidade. 

Entre o final da semana passada e o princípio desta, dois amigos perderam gente que lhes era próxima e de quem sentirão saudades. Num caso era a afinidade, noutro era o sangue. É irrelevante a quantidade de saudades que terão dos seus mortos, porque a dor do luto não se mede com a escala de Richter. 

A frase que encima o texto foi-me enviado por um deles com a pergunta: isto está certo?, porque quem ma mandou renovava uma experiência de morte, achando que eu havia vivido uma experiência da morte. A minha resposta, totalmente!, representava uma convicção, mais do que uma diplomacia de misericórdia. 

Não digo mais do que diriam psicólogos e outros técnicos desta área, nem diferente do que diriam pessoas que passaram por experiências de, ou da morte.  Não acrescento mais, por fim, ao que disse durante estes últimos anos. 

Não há dia em que não lembre quem me morreu. Aqui e ali, nos momentos mais sombrios que todos temos, lembro como me morreram, que o acto de desaparecer e a forma de desaparecer nem sempre são indissociáveis. Relativamente aos nossos mortos temos memórias e temos sentimentos. O que perdura de um e de outro quando o negro da alma vai dando lugar a lutos mais aligeirados? O que é mais doloroso de manter, o que é mais saudável activar dentro de nós? Não sei, nunca dediquei muito tempo a racionalizar uma dicotomia sobre a qual desconheço quase tudo. Mas sei o que o tempo faz, o que faz, sobretudo, a qualidade do tempo. Sei para mim, que sou incompetente para receitas universais: falar, lembrar, contar histórias e com elas sorrir, rir mesmo, talvez; assumir a dor da mesma forma que se assume o frio ou a noite, que mais não são do que o contraponto de momentos mais felizes; ter fotografias, guardar um ou outro objecto, não reprimir o que a mente apresenta aos sentidos; chorar sozinho ou com os amigos, comover-se com as coisas, por insignificantes que sejam; estar atento aos sinais; lembrar tudo, que a natureza do corpo, deixando-a livre, segue bem. Ter Fé, ter Fé, ter Fé. 

Aristóteles achava que a queda dos objectos era explicada pela tendência de cada um em procurar o seu local de repouso natural. Podemos, mesmo que isso exija um esforço desnecessariamente grande, replicar o raciocínio para o tema em apreço: tendemos para a paz interior, que é uma espécie de gravidade por explicar, porque é isso que Deus, a primeira causa de tudo, deseja para nós. Não ensino nada a ninguém mas acredito, com a mesma força com que acredito que Deus não é senão Amor, que de todos os nossos mortos, bem feitas as coisas - ou feitas as coisas de forma humanamente imperfeita -, teremos uma quantidade imensa de memórias pacíficas. A paz está para as memórias como a terra está para os objectos. Sei-o, mesmo que não me saiba fazer entender. 

JdB 

15 outubro 2013

Duas Últimas

Eu, JdB, me confesso: nunca fui grande apreciador de Bruce Springsteen. Conheço-lhe mal a discografia, identificarei meia dúzia de títulos, se tanto. Se me pedirem para citar dois, gaguejo, remetendo toda a beleza da música para o Requiem de Mozart, que esse sim, trauteio com gosto e desafinação em proporções iguais. Por isso dificilmente sugeriria, neste espaço que vou ocupando às 3ªs feiras, o cavalheiro em questão. Acontece que mão amiga enviou-me o youtube abaixo, sem qualquer nota explicativa que decifrasse o mistério, mistério que talvez só o fosse para mim. Abri-o no domingo com sossego, porque sei que daquele remetente só vêm coisas boas. Quedei-me surpreendido nos primeiros segundos, sem perceber porque mo tinha mandado. Bruce Springsteen? Para mim? E porquê?

De olhos postos no ecrã, numa tentativa embrutecida de desvendar a charada, vi os cinco minutos e um segundo. E não é que gostei? Não falo especificamente da música (uma letra simples e sincera, numa batida que se fixa), menos ainda da imaginação cinéfila do video, que não sei se pretendia ter. Mas gostei verdadeiramente daquele desfilar de pessoas de várias idades, a emoção nas caras diferentes: a alegria, a expulsão das tensões internas num corpo que se agita, o gozo de ouvir alguém que para eles é the boss, os risos, o embaciamento dos olhos, a chuva que cai perante a indiferença das pessoas, as multidões, os miúdos felizes a gozarem o ritmo, que o sentido das palavras ainda não o entendem. Talvez os cinco minutos não pretendam ser mais do que um desfilar humano de sensações e, em cada uma das pessoas que aparece, o desafio de imaginarmos uma vida única, irrepetível, cheia de encantos e desilusões, de choros e risos, de um dream baby dream repetido insistentemente.   

Não sei porque é que o meu querido amigo JS me enviou o video. Prosaicamente, admito que se tenha enganado no destinatário, embora não me pareça. Admito ainda que tenha visto mais do que eu vi, porque há sagacidades e sensibilidades que bafejaram mais uns do que outros. Um dias destes almoçarei com ele e falaremos disto, como falaremos de livros, de futuro, de alma, de pessoas, de saudades e de projectos, da vida canalha feita de dinheiro e de horas. Aprenderei como sempre aprendo, verei melhor a vida e descortinarei coisas neste video - que lhe agradeço - e que não consegui ver, apesar de ter tentado três ou quatro vezes.

JdB
  

14 outubro 2013

Fórmula para o caos*


Ajustamento e Investimento
Durante a primeira década do século XXI, o país viveu, na sua globalidade, 10% acima daquilo que produzia. Por outras palavras, as nossas necessidades de consumo superaram em 10 pontos percentuais as nossas capacidades de produção. Esse era o chamado défice externo. Para financiar esse desequilíbrio, tivemos que importar capitais. Contrair empréstimos. Pagar o nosso consumo com o excedente de outros países. Em meados de 2011, face à gigante dívida acumulada como resultado dos consecutivos défices, os nossos credores, com uma desconfiança crescente quanto às nossas reais possibilidades de pagarmos a divida, fecharam-nos a torneira do crédito. Foram os parceiros europeus, com o apoio do FMI, que vieram em nosso socorro. Contudo, em troca do empréstimo, apresentaram-nos um plano de ajustamento da economia que teríamos que seguir à risca. No fundo, ou produzíamos mais para compensar o gasto, ou teríamos que reduzir o gasto até ao nível da produção. Aliás, a médio prazo, um excedente externo seria o necessário por forma a honrarmos os compromissos com os credores. Por muito custoso que seja, o ajustamento é fundamental para que possamos voltar ao crescimento económico. Fundamental, mas insuficiente.
Como complemento à austeridade, os responsáveis políticos terão que implementar medidas estruturais que promovam e atraiam investimento. Em especial, Investimento Directo Estrangeiro, que tem vindo a cair a um ritmo vertiginoso. Em 2012, segundo um ranking elaborado pela revista The Economist, Portugal ocupava um desanimador 41º lugar em termos de atractividade de negócios. São várias as componentes estudadas pelos investidores antes tomar a decisão de aloucar capitais num país estrangeiro. Claro que Portugal fez alguns progressos, com destaque para as baixas taxas de inflação dos últimos 20 anos, muito embora esse tenha sido um avanço alcançado por imposição da União Europeia. No entanto, ainda são bastantes, e decisivos, os aspectos que carecem de uma clara melhoria. No que toca ao sistema de Justiça, apesar de anualmente despendermos 0,3% do PIB do dinheiro dos contribuintes para financiá-lo (média OCDE de 0,2%), os processos nos tribunais arrastam-se por anos a fio. Também o regime laboral é um dos mais rígidos dos países desenvolvidos. Quanto à estabilidade política, dispensa comentários de maior: 14 primeiros-ministro desde a democratização, enquanto em Espanha houve 6.
Apesar de toda atenção que merecem os factores enunciados no parágrafo anterior, de acordo com os mais bem sucedidos empresários, é a estabilidade fiscal o ponto que mais pesa quando se decide investir. Nesse campo o nosso percurso não pode ser mais desastroso. Todos os anos surgem novas leis fiscais, sobem e descem impostos, criam-se taxas especiais sobre tudo e sobre nada. Sempre que muda o governo, um novo regime fiscal é adoptado. Ainda há poucos dias, a empresa chinesa China Three Gorges, que nem há 2 anos adquiriu o que restava de capital publico na EDP, mostrou-se extremamente decepcionada pela criação de uma taxa sobre os produtores de electricidade. Mais: os investidores chineses afirmam que o acordo de privatização previa que não se introduzisse qualquer taxa nos próximos anos. No passado dia 8 de Outubro, foi noticiado que o fundo imobiliário alemão Dekka Immobiliene comprou, por 43 milhões de euros, o edifício Báltico no Parque das Nações em Lisboa. Imagine-se que, daqui por uns tempos, o governo decide alterar o valor do Imposto imobiliário? Qual seria a reacção de quem já investiu, e, pior, de quem pensava investir?
Veja-se o exemplo da Jerónimo Martins que, à semelhança da maioria das sociedades cotadas no PSI20, transferiu a sua sede para Holanda por aí obter um quadro fiscal muito mais favorável. No inicio deste ano, a mesma JM atacou em força o mercado colombiano, com a abertura de várias lojas no país sul-americano. O CEO, Pedro Soares dos Santos, afirmou taxativamente que o poder politico da Colômbia garantiu 20 anos de estabilidade fiscal, independetemente do governo que esteja em funções. Porque não fazer o mesmo em Portugal? Se PSD, PS e CDS-PP convergem na ideia de que é crucial atrair investimento estrangeiro, qual a razão de não assinar um pacto de regime para 10 anos, em que se garantisse a manutenção da fiscalidade e a protecção ao investidor?

Pedro Castelo Branco

* Artigo originalmente publicado no site portugueseindependentnews.com

13 outubro 2013

Acto de entrega a Nossa Senhora de Fátima*



Nossa Senhora de Fátima,
Com renovada gratidão pela tua presença materna, unimos a nossa voz à de todas as gerações que Te proclamam bem‑aventurada.
Em Ti celebramos as grandes obras de Deus, que nunca se cansa de inclinar‑se com misericórdia sobre a humanidade, afligida pelo mal e ferida pelo pecado, para a curar e salvar.

Acolhe com benevolência de Mãe o ato de entrega que hoje fazemos com confiança, diante desta tua imagem que nos é tão querida.
Estamos certos que cada um de nós é precioso aos teus olhos e que nada do que se encontra nos nossos corações Te é estranho.
Deixamo‑nos alcançar pelo teu dulcíssimo olhar e recebemos a consoladora carícia do teu sorriso.

Guarda a nossa vida entre os teus braços: abençoa e robustece todo o desejo de bem; vivifica e alimenta a fé; ampara e ilumina a esperança; suscita e anima a caridade; guia a todos nós no caminho da santidade.
Ensina‑nos o teu amor de predileção com os pequenos e pobres, com os excluídos e sofredores, com os pecadores e os de coração perdido: reúne a todos sob a tua proteção e entrega a todos o teu amado Filho, Jesus nosso Senhor.

Amen.

*Oração do Papa Francisco 13/10/13, 

(tradução: padre Manuel Morujão, SJ)

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