11 agosto 2015

Duas Últimas

Acabo de regressar de um passeio familiar de 3 dias, com paragens mais ou menos prolongadas em Atouguia da Baleia, Grijó, Porto, Lousada e Guimarães.

É um passeio que se vem tornando numa (saudável) tradição desta época do ano, planeado sempre de forma entusiástica e bastante eficiente pelos meus irmãos mais novos. Envolvendo perto de 30 pessoas, de 4 gerações diferentes, compreende-se que a logística não é das mais fáceis e que durante estes dias não estamos todos de férias da mesma maneira. É o preço a pagar por se ser (mais) novo…

As actividades são as mais diversas, desde as de carácter cultural/religioso às desportivas e lúdicas. E conversa qb. O balanço entre todas tem vindo a ser aperfeiçoado com o passar dos anos, o que melhora a percepção e aproveitamento que sobretudo os mais novos podem retirar de cada uma delas.

Em suma, saímos enriquecidos destes passeios, como família e em termos individuais. Diria que os resultados animam a prosseguir.

Deixo-vos com os Resistência, em Guimarães. Não teria faltado ao encontro, se por feliz acaso nela tivéssemos coincidido.


fq


10 agosto 2015

Vai um gin do Peter’s?

É bem difícil transmitir o horror que a guerra provoca. A mais badalada – a II Guerra, considerada comummente nos EUA como the last good war – continua a ser tema de filmes, comemorações, debates, testemunhos. Talvez por ter tido um desfecho tão consensual para a maioria, continue a oferecer um manancial inesgotável de registo expressivos das atrocidades cometidas nas zonas atingidas pelo conflito. Claro que sob o ponto de vista de destruição e de dor não há guerras boas! Haverá pior causa de sofrimento? 

Recentemente, foi divulgado um link sugestivo, contrapondo dois momentos da mesma paisagem: durante a guerra de 1939-1945 e na actualidade. O resultado é por demais eloquente, evidenciando a ruína e o caos produzidos em combates, qual máquina grotesca de desconstrução. Movendo o rato sobre a imagem antiga, ela transporta-nos para o presente. Voltando a mover o rato, a imagem regressa aos tempos aflitivos da II Guerra: 


Como é possível que depois daqueles 6 anos de dor acumulada, o recurso às armas não tivesse sido banido para sempre? Como se explica que não tenha servido de vacina? 

Estranhamente, logo após 1945 novos conflitos foram eclodindo aqui e ali, embora circunscritos a áreas geográficas delimitadas, garantindo que as bombas caíam em zonas que não beliscavam as sociedades desenvolvidas. Um privilégio único das nações poderosas que, infelizmente, não demonstraram tanta eficácia (e empenho) a esgrimir a sua poderosa influência para evitar essas guerras regionais. Como observava o grande historiador português Borges de Macedo: quando um confronto se arrasta por mais de um mês, é porque está a ser financiado pelo exterior, a menos que se trate de um país muito rico. É uma iniciativa tão dispendiosa, que resulta num luxo mantê-la. Aqui, como nas investigações às fraudes fiscais e aos branqueamentos de capitais, basta aplicar o velho princípio: follow the money. Bem sabemos o papel que os media corajosos têm tido na denúncia de financiadores inimagináveis de conflitos longínquos. Ainda agora é assim, na própria Europa dita civilizada, onde grupos de extrema-esquerda, como o Podemos espanhol ou o Syrisa grego, são patrocinados pela Venezuela de Maduro.  

A quantidade de guerras que grassam no mundo, várias com risco elevado de alastramento rápido e descontrolado, tornam prementes os apelos de inúmeras personalidades públicas, cientes do sofrimento injusto e inglório que está ao alcance do ser humano travar. É só uma questão de vontade! 

Aqui fica o apelo recente do Papa Francisco, proferido na última Oração pela Paz a proclamar com vigor que «a violência e a guerra nunca são o caminho da paz.» 


«Como gostaria que, por um momento, todos os homens e as mulheres de boa vontade olhassem para a cruz. Nela pode ler-se a resposta de Deus. Nela, à violência não se respondeu com a violência, à morte não se respondeu com a linguagem da morte. No silêncio da Cruz cala-se o fragor das armas e fala a linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz. Gostaria de pedir ao Senhor, esta noite, que nós, cristãos, os irmãos das outras religiões, cada homem e mulher de boa vontade, gritasse com força: a violência e a guerra nunca são o caminho da paz.» 

Outra mensagem lapidar do Papa, na senda dos seus antecessores, lembrando a importância da Justiça para alicerçar uma paz duradoira: 



O que será preciso ainda acontecer para acordarmos e mudarmos de vida? 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

09 agosto 2015

XIX Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito:
«Eu sou o pão que desceu do Céu».
E diziam: «Não é Ele Jesus, o filho de José?
Não conhecemos o seu pai e a sua mãe?
Como é que Ele diz agora: ‘Eu desci do Céu’?»
Jesus respondeu-lhes:
«Não murmureis entre vós.
Ninguém pode vir a Mim,
se o Pai, que Me enviou, não o trouxer;
e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.
Está escrito no livro dos Profetas:
‘Serão todos instruídos por Deus’.
Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino
vem a Mim.
Não porque alguém tenha visto o Pai;
só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai.
Em verdade, em verdade vos digo:
Quem acredita tem a vida eterna.
Eu sou o pão da vida.
No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram.
Mas este pão é o que desce do Céu
para que não morra quem dele comer.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne,
que Eu darei pela vida do mundo».

08 agosto 2015

Pensamentos impensados

Alcatrazes da nora
Vale e Azevedo, enriquecimento injustificado.
Ricardo Salgado, empobrecimento justificado.

Que atire a primeira pedra
A Maçonaria está a crescer; com a crise na construção civil há mais pedreiros livres.

Com papas e bolos
No papar é que está o gajo.

Frase lapidar
Nem todas as lápides são fáceis de datar, mas numa lia-se bem: 1756 antes de Cristo.

Torna viagem
Em 1499 houve volta a Portugal; foi Vasco da Gama, embora tenha chegado em último lugar.

Frase desfeita
Quem o feio ama é porque bonito não lhe aparece.

Falta de poesia
Odeio résteas de Sol; chamam a atenção para a poeira nos móveis.

Orelhas moucas
Morreu de uma doença num ouvido, o que é raríssimo; daí ter sido otopsiado.

SdB (I)


07 agosto 2015

Dos dias desafiantes (e sobretudo do Padre Ricardo)

Aqui há cerca de quinze dias escrevi um post intitulado 'Crer tudo ou negar tudo', assente num excerto muito bonito, mas sobretudo muito desafiador, d'A Peste, de Albert Camus: 'Meus irmãos, chegou o instante. É preciso crer tudo ou negar tudo. E quem, de entre vós, ousaria negar tudo?'

Há poucos meses soube que um amigo recente sofria de uma doença grave. Foi internado na semana passada, quase ao mesmo tempo que a mulher de um primo que, na sequência de um aneurisma, está no hospital em coma induzido. Nesse mesmo dia, uma grande amiga de uma pessoa que me é próxima - e que vive momentos familiares muito difíceis - era morta a tiro pelo ex-namorado. Este amigo recente morreu anteontem, um dia antes do Padre Ricardo Neves, pároco do Estoril, muito muito lá de casa, com 40 e poucos anos e um destino traçado há meses. Dois outros amigos / primos sofrem de uma problema de saúde grave, com um prognóstico muitíssimo reservado. Podia citar mais exemplos, mas fico-me por aqui.

(Lembro-me de há alguns anos, talvez na sequência do tsunami que matou milhares e milhares de pessoas, um jornal perguntar a representantes de várias confissões religiosas: onde estava Deus nesse dia?)


Hoje, talvez, irei a uma missa por alma do Padre Ricardo. Gostava que o Cardeal Patriarca, que celebrará, nos falasse ao ouvido, encostasse o ombro a cada um dos nossos ombros, chorasse com quem chorar, desse as mãos a quem tremer de saudade ou de pena ou de frio na alma. Talvez eu queira falar-lhe no amigo que morreu, na mulher morta a tiro que tanta falta faz a quem já pouco tem, na pessoa que está em coma induzido, nos outros dois agarrados à vida e aos próximos por um fio cada vez mais ténue. Gostava de lhe falar nas crianças que morrem antes do riso adolescente, nos adultos que morrem antes do tempo estatístico, em todos os que sofrem cheios de lembranças e lágrimas. Gostava de lhe falar no Pe. Ricardo e na falta que me faz. Gostava de lhe falar dos abraços dele, dos desafios que me lançou, na compaixão com que me ouviu ou na sabedoria com que me respondeu. Gostava de lhe falar no capital de inteligência, proximidade, fé militante que desaparece com ele. Gostava de lhe perguntar o que se está a passar... 

Não esqueço a minha condição de crente, de quem está certo da existência da eternidade, do colo imenso de Nossa Senhora, do céu azul e infinito onde cabem todos, que Deus não é senão amor. Mas, reconheço, não quero que me falem de vida eterna, da dimensão teológica da morte, da inevitabilidade que nos toca a todos, de Jesus Cristo que a venceu. Talvez gostasse que nos sentássemos e reconhecêssemos a nossa pequenez, a nossa tristeza, a nossa incredulidade - talvez até a nossa perplexidade ou mesmo o sentido de injustiça de tudo. Ontem, à hora a que escrevia, não queria palavras piedosas nem cheias de esperança num futuro de uma dimensão superior. Talvez quisesse que alguém me dissesse, cheio de uma humanidade frágil e reconfortante: a gente não percebe nada disto... 

Creio tudo, porque não quero negar tudo. Mas há dias difíceis...

JdB    

06 agosto 2015

"O Fado, canção de vencidos"

José António Sabrosa compôs este Pintadinho. Durante toda a minha vida o ouvi cantado por Maria Teresa de Noronha, com versos de Rita Mariano de Carvalho. Ontem, por puro acaso, ouvi uma versão cantada por Camané, com versos de Manuela de Freitas, cuja primeira quadra me interessa em termos de tese de mestrado.

Oiçam os dois e digam de vossa justiça.

JdB



05 agosto 2015

Fotografias dos tempos que correm


A legenda é igual para todas as fotografias: a então embaixada de Portugal em Harare (Zimbabwe), hoje, mas há exactamente sete anos.

JdB








04 agosto 2015

Pensamentos Impensados

Meio mundo está chocado porque mataram um leão; chocado ao ponto de projectarem a fotografia do bicho em Times Square em New York.

Enquanto penso na indignação, vou à Internet e procuro informações sobre as crianças que morrem de fome por esse Mundo fora e deparo-me com isto: em cada minuto morrem de fome 5 crianças e de fome morrem por dia 100 mil pessoas. Essa fome é em Angola (diamantes e petróleo não faltam), Brasil e outros países. Será que esses indignados fazem alguma coisa por esses esfomeados?

H I P Ó C R I TAS!

Na minha busca topo ainda com esta frase: todas as crianças que morrem de fome actualmente, morrem assassinadas. 

SdB (I)

Duas Últimas

Hoje, mas há rigorosamente sete anos, partia para o Zimbabwe onde me quedaria durante dois meses carpindo mágoas, gozando alegrias, olhando para a frente e para trás com intensidades desiguais. Em bom rigor, é hoje que este estabelecimento faz anos, porque foi por esta viagem que ele foi criado. Tudo o que se passou antes teve uma dimensão de estágio, apenas. Por mais anos que viva esta foi, seguramente, a viagem da minha vida, frase que se tornou maçadora e gasta pela profusão de repetições. 

Conheci Harare e o encanto dos jacarandás e das crianças fardadas por igual. Conheci Lusaca e a missão de padres portugueses. Conheci a Beira, um infantário para crianças no Macúti que abriram sorrisos que geraram outros sorrisos. Conheci a savana, as flat top acacia, o elefante e o rinoceronte a dois passos do nosso gin and tonic ao cair do dia. Conheci a montanha sagrada de Ngomakurira e a ala das crianças com cancro. Conheci o Pointe e a desvergonha do karaoke. Conheci gente que me ficou na memória e gente que se tornou minha história. Escrevi como nunca mais escreverei, numa dimensão de total liberdade criativa. Conheci o impacto do Mia Couto na construção de pontes. Tudo o que eu conheci e vivi não cabe nesta folha de computador, não cabe no espaço de tempo que entendi dedicar-lhe. Quase tudo agradeço ao embaixador da altura e meu amigo JdC.  

Lembrar a minha partida para o Zimbabwe com música é afunilar tudo até à escolha única e possível: esta que vos apresento, talvez pela terceira vez desde que este estabelecimento está aberto. Agitem-se!

JdB


03 agosto 2015

Das frases que se querem ouvir



O excerto de filme acima é o final do África Minha. Apesar da cena do clube exclusivamente masculino aberto para uma mulher, retratando com elegância britânica uma certa rendição àquela dinamarquesa tão cheia de coragem e infortúnio, o que me captou a atenção foi uma cena um pouco mais tarde, aos 1'52", quando a protagonista diz ao criado: I want to hear you say my name. Farah, o criado, sabe o nome de Karen, a patroa, e di-lo de forma pausada, como um sentimento que se quer vivido em câmara lenta, para que seja mais claro e fique a ressoar no tempo. Ela sabe que ele sabe - e, não obstante, quer ouvi-lo.

Todos nós, cada um à sua maneira, somos baronesas Blixen, pedindo aos nossos mais próximos que profiram o nosso nome. Karen representa uma variedade imensa de frases que desejamos ouvir de forma pausada e lenta: sou teu amigo, amo-te, fazes-me falta, ajuda-me, tenho saudades, não sei o que fazer, vem comigo senão perco-me, diz-me como farias, fica, quero ficar, ajuda-me, sei que sabes, nem sempre é fácil, havemos de chegar, sou feliz, sonho-te feliz, quero que digas o meu nome. Todos sabemos que eles sabem e, não obstante, queremos ouvi-lo, nem sempre realizando que por vezes as baronesas Blixen são os outros, remetendo para nós o papel de Farah.

Karen nunca mais viu Farah. Farah nunca mais viu Karen. O que os uniu para sempre não foi a casa que se encheu de refinamento europeu, a escola que ensinou o bê-á-bá às crianças, o gramofone que rompeu de beleza musical um silêncio já de si belo. O que os uniu para sempre foi a cheia que tudo levou, o fogo que tudo consumiu, a avioneta que se despenhou sobre um sonho. O que os uniu para sempre, por mais irónico que possa parecer, foi o fim de uma vida quimérica construída no sopé de uma montanha. O que os uniu para sempre foi um diálogo composto de duas frases:

- I want to hear you say may name.
- You are Karen, m'sabu.

JdB 

02 agosto 2015

18º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,24-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
quando a multidão viu
que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago,
subiram todos para as barcas
e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus.
Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe:
«Mestre, quando chegaste aqui?»
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
vós procurais-Me, não porque vistes milagres,
mas porque comestes dos pães e ficastes saciados.
Trabalhai, não tanto pela comida que se perde,
mas pelo alimento que dura até à vida eterna
e que o Filho do homem vos dará.
A Ele é que o Pai, o próprio Deus,
marcou com o seu selo».
Disseram-Lhe então:
«Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?»
Respondeu-lhes Jesus:
«A obra de Deus
consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou».
Disseram-Lhe eles:
«Que milagres fazes Tu,
para que nós vejamos e acreditemos em Ti?
Que obra realizas?
No deserto os nossos pais comeram o maná,
conforme está escrito:
‘Deu-lhes a comer um pão que veio do céu’».
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu;
meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu.
O pão de Deus é o que desce do Céu
para dar a vida ao mundo».
Disseram-Lhe eles:
«Senhor, dá-nos sempre desse pão».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu sou o pão da vida:
quem vem a Mim nunca mais terá fome,
quem acredita em Mim nunca mais terá sede».

01 agosto 2015

Pensamentos Impensados

Fim da picada
Catarse - Movimento que fazem alguns animais quando atacados pelas pulgas.

Conta aí
A prova dos nove é um acerto de contas?

Pés de galinha
Numa mesa de pé de galo procura-se um interlocutor válido.

Penas
Um tribunal condenou um atleta a correr duas maratonas no mesmo dia.
O advogado diz que o seu constituinte vai percorrer.

Moedas
Quando há um incêndio fala-se em meio aéreo: O que é? cinquenta cêntimos?
E dois meios aéreos fazem um euro?

Paixões
Estava apaixonado por uma senhora mas só "levava com os pés".
Era a invencível amada.

Informática
Disco rígido é o que as pessoas de idade têm entre as vértebras.

Dinheiros
As Finanças funcionam como receptor ou como receptador?

SdB (I)

31 julho 2015

Da beleza e da beleza

O que distingue um pôr-do-sol de um pôr-do-sol? O que distingue um quadro de um quadro? O que distingue um poema ou um música de um poema ou de uma música? O que distingue, no fundo, a beleza da beleza? A resposta está na diferença entre as duas frases: é bonito mas não me diz nada ou é bonito e diz-me tudo.

Toda a arte nos interpela; toda a natureza - nada mais do que arte viva - nos interpela. Um quadro, um soneto, uma música, um renque de flores verdes, um mar alteroso, o vento a soprar baixinho na planície, a lonjura do céu. Dentro daquilo que se convenciona chamar "belo", tudo nos provoca uma emoção. É bonito mas não me diz nada.

Uma fracção da arte agarra-nos pela mão: aquele poema, aquele quadro, o mar a perder de vista ou o silêncio que nos tranquiliza a alma. São objectos, momentos, imagens que nos encaminham para uma lembrança, uma perda, uma alegria, para pessoas que são da nossa história de ontem ou de hoje, ou que calcorrearam as nossas ruas. Nesse momento só há duas pessoas no mundo: quem canta, quem escreveu, quem esculpiu e nós, esses nós que se deixam levar pela mão, que sustentam o olhar com o artista, porque no fundo no fundo, no meio de uma multidão de espectadores, não há mais ninguém: nós e ele. É bonito e diz-me tudo.

JdB

30 julho 2015

Das folgas

Hoje folgamos todos - o dono e editor do estabelecimento e os fiéis e surpreendentes leitores... Volto amanhã, em correndo tudo bem.

JdB


29 julho 2015

Saudades de um tempo que não se viveu...

Praia de Vale de Lobo, ontem pelas 21.00h (tirada por mim, em fato de banho, com um iPhone...)
Aproximou-se de nós para vender bolas de Berlim com e sem creme. Deveria ter a minha idade, pois falou de uma filha com 23 anos, por aí, e de outro ainda a estudar. Pelo facto de termos pedido uma bola extra quis oferecê-la. Recusámos, dizendo: era só o que mais faltava! Este é o seu trabalho... Já agora, o que faz durante o inverno? 

Contou-nos a sua história. Que era de Serpa (o sotaque alentejano era óbvio) que tinha um negócio de construção civil que tinha corrido mal. Disse mal - muito mal - do Sócrates. Que esta maltosa só quer governar-se, não quer governar ninguém... E falou do Salazar que, mais do que bom homem e honesto, era um santo, que tinha morrido dono apenas de um chão de terra (expressão sua) e que tinha um Volkswagen. Conhece alguém que tenha um carro pior do que o do Salazar? perguntou-nos.

Já de pé ainda disse: há para aí uma excursões para ver a terra do Salazar. Estou e pensar inscrever-me numa....

JdB

28 julho 2015

Duas Últimas

A convite de amigos generosos, estou no Algarve a banhos, mais precisamente Vale de Lobos. Da qualidade da companhia não falo, que ça va sans dire... Tempo magnífico (talvez um tudo-nada de calor a mais) praia bastante deserta, água fresca, propícia a queixas de quem gosta de águas mais quentes.

Ontem, depois de um magnífico jantar no Casa Vostra (pizzas e massas) demos uma volta pela noite de Vale de Lobos. O que se viu? Ingleses de um meio bastante mais médio do que o nosso (para usar uma expressão muito lá de casa) meios bêbedos; elas pelo mesmo caminho, mas com uma descompostura de comportamentos e vestimenta de bradar ao céu. Vimos, inclusivamente, raparigas cujo vestido seria difícil de descrever, considerando que estavámos para lá das 2 da manhã: era como se tivessem vindo da praia de biquini e colocassem um balandrau por cima. O biquini, óbvio, bastante visível. À hora a que nos atirávamos ao regresso, uma pequena escaramuça - ingleses contra seguranças / GNR. Semi-pacífica, sem facas nem pancadaria grave. Mas se todos os ingleses se tivessem voltado contra a GNR esta teria perdido...

Deixo-vos com o Dallas String Quartet, que conheci ontem, enquanto se esperava por um gaspacho e uma tortilha e com gente idêntica, mas de Berlim... 

JdB


27 julho 2015

Vai um gin do Peter’s?

De uma povoação remota da Tanzânia, junto à fronteira com Moçambique, vem o talento vitamínico e elegante do pintor Edward Saidi Tingatinga (1932-1972), que transpõe a natureza pujante e colorida de África para a tela, numa harmonia e serenidade espantosas. Nos dois primeiros nomes tem as marcas da sua dupla herança: cristã do lado materno (Edward) e muçulmana do lado paterno (Saidi). Com uma vida atribulada, percorreu diferentes regiões da Tanzânia aproveitando as oportunidades de trabalho que surgiam. Acabou por ter uma carreira artística muito breve, de apenas 4 anos. Apesar disso, a sua obra marcou a arte do continente, parecendo inspirar-se nos murais africanos primitivos. Por isso, é simultaneamente tão nova e tão expectável.  
Nos anos 50, mudou-se para o Norte do país, para ir trabalhar numa fazenda agrícola, conseguindo depois tornar-se cozinheiro de um oficial britânico que acabou por o promover a jardineiro. Foi nessa altura que começou a explorar hobbies artísticos, na música e na pintura. Utilizando os resíduos domésticos, como fragmentos cerâmicos e ladrilhos variados, em telas de tamanho portátil, coloridas com tintas de fabrico caseiro, fazia composições naïves e bem humoradas, a representar a vida selvagem da savana. Entre os turistas ocidentais, rapidamente transformou-se num ícone da África dos safaris, ganhando suficiente para se dedicar em exclusivo à arte. Apesar da morte prematura em 1972, baleado pela polícia que o confundiu com um fugitivo, Tingatinga deixou inúmeros seguidores e até imitadores das suas telas, clonadas ad exaustum.  Esse o motivo por que algumas das aqui postadas suscitam dúvidas de autoria.
As paisagens lindas e orgânicas, pacíficas e funcionais caracterizam o seu legado, com um humor refrescante, que alguns críticos sustentam conter sarcasmo e mordacidade. É possível que também pese o olhar de quem observa a sua obra, incrédulo por provir do nativo de um continente dilacerado por guerras, fome e violência de toda a ordem. Até os predadores que habitam as suas telas sugerem bonomia, em poses tranquilas e garbosas, mas sem a fantasia infantil de se verem reduzidos a animaizinhos de estimação negando-lhes a evidente indomabilidade. Por isso, o pintor mantém-lhes o olhar faiscante de felinos, apenas depurando-os da agressividade mais primária e sanguinária. Aliás, não é pouco pousarem (quase sempre) sem herbívoros por perto, a salvo de possíveis tentações. Acima de tudo, adivinha-se-lhes nobreza de carácter. Neles e nas suas presas. Até as plantas verdejantes, que serpenteiam festivamente por toda a arte de Edward T., ajudam à animação.    
Atribuível a Tingatinga, apesar da multidão de imitadores do seu estilo.

Um olhar tão confiante e entusiasmado sobre o Continente Verde é, só por si, um balão de oxigénio, tanto mais meritório quanto Tingatinga assistiu em directo ao dolorosíssimo processo de descolonização de inúmeros países da África austral, marcados por banhos de sangue e crueldades tremendas. De onde lhe veio então tamanha confiança, como se tivesse vivido num jardim paradisíaco onde reinasse a felicidade suprema? Terá estado no mesmo planeta problemático do século XX? É verdade que a figura humana rareia, o que não será destituído de significado. 
Ainda assim, a regra acaba por ser confirmada pela melhor excepção, com as silhuetas lindas das mulheres africanas, invulgarmente etéreas na perspectiva de Edward T. Bem em destaque, dispensam os adornos decorativos da vegetação, como se o céu fosse o único cenário à altura da sua passagem.

Na mesma linha, são raros, mas não menos bonitos, os vestígios da presença humana na paisagem alegre do continente, com habitações maravilhosamente integradas na natureza, dando espaço à fulgurância da flora circundante, sem se imporem minimamente.  

No estilo de Saidi

O belo é uma constante na sua obra, ilustrado através das múltiplas facetas da vida natural sempre em composições onde até os cardumes de peixes acinzentados brilham em movimentos coreográficos que lembram os passos de dança na natação sincronizada. Sim, tudo se torna estético depois de cruzar o olhar e o pincel do pintor apaixonado pelo reino vegetal e animal de África. Significativamente, os sites com as suas pinturas auto-intitulam-se  another-africa, inside-african-art, etc. 
Muito curiosa a paleta de cores híper comedida e imprevista num africano rodeado pelo colorido intenso dos trajes dos seus conterrâneos, que são verdadeiras explosões cromáticas, transpostas em versão bem menos garrida por Edward T. De facto, reduz o espalhafato mas não o efeito cénico, esse sempre ao rubro.

Uma das grandes ironias de Tingatinga ressalta numa natureza-morta à base de frutos, formando um conjunto bastante vistoso, apesar do espectro de tons ser pobre. Simplesmente, a escolha cirúrgica de tonalidades contrastantes surte o efeito oposto. Será possível aplicar à tela o nome técnico de natureza-morta? É um facto que a expressão inglesa still  live é bastante mais feliz para designar este tipo de composições, embora no caso de Edward T. também seja de difícil aplicação, de tal modo a sua arte está impregnada de vida. Só não tem violência nem carga negativa.

Mesmo a variedade que sobressai nas suas obras tem qualquer coisa de ilusório, pois o pintor recorre frequentemente à repetição de elementos, tendendo para uma padronização que confere harmonia ao todo. A partir de um jogo de formas hábil consegue sugerir uma diversidade e um movimento que estão longe de ser reais. A colocação certeira de cada elemento (em geral, bichos) forma uma trama coerente, deixando de se percepcionar individualmente cada parcela do todo. Por isso, a maioria dos quadros de Tingatinga é comparável à polifonia dos coros musicais, valendo o resultado pela pluralidade de vozes bem orquestradas, não fazendo qualquer sentido dissociá-las umas das outras. É o caso dos peixes ou até das girafas na tela em baixo à esquerda.

Outra invulgaridade deste artista é a superabundância de fundos escuros, parecendo esquivar-se ao sol abrasador daquelas paragens.

Parece antes preferir os poentes e o pousio nocturno da selva, embora a plena actividade animal que pinta não se coadune com o sossego das noites na savana. De facto, trata-se de um efeito decorativo, onde o cenário escuro proporciona maior realce e brilho ao que se exibe em primeiro plano. Aplicando a mesma lógica, noutros casos optou por fundos laranja fogo, a coincidir com os tons do entardecer, dando maior vivacidade aos animais de listas em preto-e-branco. E ainda lhes aguçou o olhar tingindo o branco leitoso da esclerótica ocular de laranja na tela à esquerda, ou de encarnado nos antílopes ao centro, ou de amarelos quentes na galinhola da direita.
Telas atribuíveis a Edward T.

Predomina no seu portfolio uma suavidade próxima do silêncio, como se espreitássemos os primeiros segundos da criação, quando as diferentes espécies se começaram a passear pela terra para se darem a conhecer uns aos outros, sem a rotina sobressaltada da sobrevivência que, posteriormente, se terá instalado. Estaria a vida animal a despontar no planeta, querendo cada qual confirmar presença no reino dos vivos, quase numa exibição cordata, de acordo com o relato do Génesis?   
Na tela da esquerda, surgem ao fundo as neves eternas do Kilimanjaro.

 A concluir esta exposição virtual a telas que alguns denominam, sardonicamente, por arte de aeroporto, uma nota de humor e boa disposição com feras em acrobacias improváveis e q.b. divertidas. Pelo menos, poderá ajudar quem ainda não está de férias a ganhar fôlego para o arranque, depois do fim-de-semana.


Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

26 julho 2015

17º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,1-5

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia,
ou de Tiberíades.
Seguia-O numerosa multidão,
por ver os milagres que Ele realizava nos doentes.
Jesus subiu a um monte
e sentou-Se aí com os seus discípulos.
Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Erguendo os olhos
e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro,
Jesus disse a Filipe:
«Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?»
Dizia isto para o experimentar,
pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Respondeu-Lhe Filipe:
«Duzentos denários de pão não chegam
para dar um bocadinho a cada um».
Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro:
«Está aqui um rapazito
que tem cinco pães de cevada e dois peixes.
Mas que é isso para tanta gente?»
Jesus respondeu: «Mandai sentar essa gente».
Havia muita erva naquele lugar
e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil.
Então, Jesus tomou os pães, deu graças
e distribuiu-os aos que estavam sentados,
fazendo o mesmo com os peixes;
E comeram quanto quiseram.
Quando ficaram saciados,
Jesus disse aos discípulos:
«Recolhei os bocados que sobraram,
para que nada se perca».
Recolheram-nos e encheram doze cestos
com os bocados dos cinco pães de cevada
que sobraram aos que tinham comido.
Quando viram o milagre que Jesus fizera,
aqueles homens começaram a dizer:
«Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo».
Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei,
retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.

25 julho 2015

Pensamentos impensados

Brasil ressuscitado
No Brasil, assim que as minas de pedras preciosas se esgotaram, logo disseram isto foi chão que deu uvas. Hoje pode dizer-se que o Brasil é chão que dá luvas, sendo o maior produtor um tal Luva da Silva, que no Sertão é também criador de um animal chamado lula da selva.

Mais Lázaro
Quando Jesus Cristo ressuscitou Lázaro, houve gritos de espanto.
Diz um dos presentes: a morte tem os dias contados.
Diz outro: e sem desfibrilhador.

Dar música
Era um músico tão mau que só tocava socatas.

Seporte
O golfe é um desporto de rufias, tudo se resume à pancada.

Iguarias
Para se tornar notado, o pudim de gelatina faz um esforço, tremendo.

Felicidade
As baleias e o golfinhos sentem-se no mar como peixe na água.

Bebidas quentes
A polícia grega desconfia que os cocktail Molotov são lançados pelos fabricantes de gravatas.

Bebidas frescas
Fogo rescaldado de água fria tem medo.

SdB (I)

24 julho 2015

Da impontualidade

Declaração de interesses 1: sou profundamente pontual. Declaração de interesses 2: sou obsessivamente pontual. Conto uma história que elucida: um dia fui com amigos a Sevilha aos touros. Já lá vai muito tempo, numa altura em que uma chamada de telemóvel era cara, sobretudo se envolvesse roaming. Combinámos o encontro na cafetaria do Corte Inglés, pelas 13 horas. A essa hora eu estava na cave, no supermercado, com um atraso previsível de três minutos. Pois telefonei a um deles a informar do atraso e da dimensão de. A chamada saiu de Sevilha, veio a Portugal e voltou a Sevilha de novo, não subiu 7 andares directo. 

Por um destes dias, via este blogue que recomendo fortemente, li um artigo sobre pontualidade, que me parece já ter vindo traduzido num jornal online português. Basicamente diz que os impontuais são gente optimista, pois pensam poder fazer mais coisas num espaço de tempo limitado; têm um pensamento grande, pois não se prendem às minudências da vida; são pessoas do momento, que gostam de cheirar as rosas e gozar o momento.

O artigo é um perigo, pois transforma um característica potencialmente negativa numa outra garantidamente positiva: quem se atreve a dizer que não ao optimismo, ao cheiro das rosas, ao big picture? A impontualidade - digo eu, que sou profunda e obsessivamente pontual - não é uma qualidade. Não se divide, como diz o artigo, numa impontualidade ok (aquela que não afecta o próximo) e numa impontualidade não ok (aquela que afecta o próximo). Pode dividir-se na dimensão - 15 minutos ou 1 horas - ou no impacto (grau de irritação que habita quem fica à espera, seja numa praia, numa esplanada, no fim de uma escada). 

Por outro lado, o artigo abre uma gama forte de possibilidades para justificar defeitos próprios. Imaginemos que eu sou profundamente egoísta. Quem se atreverá a dizer que não é um defeito. Eu! Eu atrevo-me! O egoísta é um cuidador da sua saúde e do seu bem-estar, pois devota-lhe uma atenção desmesurada; toma atenção à dificuldade dos dias, gastando o menos possível com os outros, potenciais delinquentes ou esbanjadores de dinheiro que custou a ganhar; tem forçasamente auto-estima elevada, porque só quem gosta muito de si pode estar a olhar permanentemente para o seu umbigo.

O exercício pode repetir-se para quem tem mau génio (treino das cordas vocais), quem tem tendências adictas (o consumo que dinamiza a economia) ou é de uma infidelidade matrimonial chocante (a generosidade altruísta da satisfação do ser humano feminino).

Desculpem qualquer coisinha. Ando de volta da tese e estes últimos dias pensei muito em confissão. Talvez esteja perturbado.

JdB    

23 julho 2015

Duas Últimas

A respeito de Tomar pode dizer-se muita coisa.

No que à sua rica história compete, lembro que foi sede da Ordem dos Templários, e mais tarde da Ordem de Cristo, após a dissolução da primeira pelo Papa no início do século XIV, na sequência da perda da Terra Santa pelos cristãos.

Ou que nela se realizaram, em 1581, as Cortes que aclamaram o primeiro Filipe Rei de Portugal.

Que nela encontramos o soberbo (e infelizmente mal mantido) Convento de Cristo, com construção iniciada no século XII, exemplar único combinando de forma admirável diferentes estilos arquitectónicos, do românico ao maneirismo filipino. Realçando-se naturalmente o seu esplendoroso manuelino.

Que por ela passa o Nabão, sub afluente do Tejo, atravessado na cidade por uma muito antiga e magnífica ponte cujas origens se perdem no tempo.

Que nela se realiza de 4 em 4 anos a famosa Festa dos Tabuleiros – representando as freguesias do concelho – , instituída em honra do Espírito Santo e que lança a confusão na cidade desde o reinado de D. Dinis.

Que nela viu a luz do dia alguém que foi e é para mim deveras importante, primeiro em termos profissionais, depois acrescentando outros termos à equação.

Que Tomar é a terra de origem da Quinta do Bill, grupo de rock que começou a ser conhecido com “Filhos da Nação” (1994), música com um refrão que lança dúvida pouco católica.

Deles escolhi estas 3 músicas. Espero que as apreciem.


fq






22 julho 2015

Crer tudo ou negar tudo

S. Miguel, Açores, Maio de 2015


(...) 

O seu interesse fixou-se quando Paneloux disse vigorosamente que havia coisas que se podiam explicar em relação a Deus e outras que não se podiam. Havia, decerto, o bem e o mal e, geralmente, as pessoas sabiam explicar facilmente o que os distinguia. Porém, a dificuldade começava no interior do mal. Havia, por exemplo, o mal aparentemente necessário e o mal aparentemente inútil. Havia Don Juan enterrado nos infernos e a morte de uma criança. Pois que, se é justo que um libertino seja fulminado, não se compreende o sofrimento de uma criança. E, na verdade, nada havia de mais importante na Terra que o sofrimento de uma criança e o horror que esse sofrimento arrasta com ele e as razões que é preciso encontrar-lhe. No resto da vida, Deus facilitava-nos tudo e, até então, a religião não tinha méritos. Aqui, pelo contrário, ele punha-nos entre a espada e a parede. Nós estávamos, assim, sob as muralhas da peste, e era à sua sombra mortal que nos era necessário encontrar o nosso benefício. O padre Paneloux recusava até as oportunidades que lhe permitissem escalar a muralha. Ter-lhe-ia sido fácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podiam compensar o seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Com efeito, quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante de dor humana? Não seria um cristão, certamente, cujo Mestre conheceu a dor na Sua carne e na Sua alma. Não, o padre ficaria ao pé da muralha, fiel a esse esquartejamento de que a Cruz era o símbolo, frente a frente com o sofrimento de uma criança. E diria sem temor aos que o escutavam nesse dia: 'Meus irmãos, chegou o instante. É preciso crer tudo ou negar tudo. E quem de entre vós, ousaria negar tudo?'

(...)

Nesse instante dizia o padre que a virtude da aceitação total de que falava não podia ser compreendida no sentido restrito que se lhe dava habitualmente, que não se tratava da banal resignação, nem sequer da difícil humildade. Tratava-se de humilhação, mas de uma humilhação consentida pelo humilhado. Sem dúvida o sofrimento de uma criança era humilhante para o espírito e para o coração. Mas era por isso que era necessário passar por essa prova. Era por isso - e Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iam ouvir não era fácil de dizer - que era preciso contemplá-lo, porque Deus assim o queria. Só assim o cristão não se pouparia a nada e, fechadas todas as saídas, iria ao fundo da escolha essencial. Escolheria crer em tudo, para não ficar reduzido a negar tudo.

Albert Camus, A Peste

***

Desenganem-se os que lendo dois dias de posts sobre a morte me descortinam debilidades interiores, ainda que momentâneas. Não é o caso, felizmente. O post de ontem era datado, face ao desaparecimento de uma amiga da juventude. O de hoje tem uma história vagamente desinteressante. Há dois anos, talvez, peguei no livro do Camus porque estava fora de casa e não tinha levado leitura. Li-o de um fôlego. Quando cheguei às páginas de onde retiro dois excertos, já me faltava o ar. Reli-as ontem - impelido por nada de especial - para reforçar a certeza de que temos de escolher crer em tudo. Talvez, mais do que páginas duras, que também as são, sejam páginas inspiradoras. E a inspiração pode ser o sopro de Deus na nossa alma.

JdB  

21 julho 2015

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