12 maio 2010

E vocês?

"Um dia, o mais provável é tornares-te num chato, deixares de sair à noite e começares a levar-te demasiado a sério. Nesse dia, vais começar a vestir cinzento e beje, pedir para baixar o volume da música e deixar a tua guitarra a apanhar pó. Vais tornar-te politicamente correcto, socialmente evoluído, economicamente consciente.

Vais achar que tens de ir para onde toda a gente vai e assumir que tens de usar fato e gravata todos os dias. Nesse dia, vais deixar de beijar em público, as tuas viagens serão mais vezes no sofá e dormirás menos ao relento. É oficial. Vais entrar na idade do chinelo e deixar de ser quem foste até então. Vais deixar de te sentar ao colo dos amigos, e vais esquecer-te de como se faz um quantos-queres ou um barco de papel. Vais ficar nervosinho se não trocares de carro de quatro em quatro anos e desatinar se o hotel onde estiveres não te der toalhas para o teu macio e hidratado rosto.

Vais tornar-te muito crescido e começar a preocupar-te com tudo e com nada e a não fazer nada porque "vai-se andando" e a vida é mesmo assim. Vais dizer não mais vezes, vais ter mais medo, vais achar que não podes, que não deves, que tens vergonha. Vais ser mais triste.
Nesse dia, o mais provável é que também deixes de beber refrigerantes.
Aqui fica uma ideia: quando esse dia chegar, não lhe fales." Sumol.

E vocês? Já lhe falaram?

TdB

11 maio 2010

Um Domingo no estádio

Sou um grande adepto de futebol. Algumas vezes, atrevo-me até a dizer que a maioria das vezes, mais adepto de futebol em si que do meu próprio clube. Enquanto fui crescendo, nunca o vi a ganhar nada de grande relevo, merecedor de festa rija. Só o vi mesmo a ganhar dois campeonatos. Mas enfim, não se muda de clube. E talvez por isto não tenha uma grande veia de fãnzice clubística, o que me torna um frequentador pouco assíduo de estádios.

Prefiro ver os jogos em casa. Mesmo que, e isto raramente falha, alguém (geralmente do sexo feminino) se ponha de pé em frente da televisão em alturas críticas. Parece que escolhem. Durante um pontapé de baliza, está tudo sentado e quietinho. Enquanto o jogo está parado, idem. Mas agora quando é um contra-ataque perigoso, com grandes hipóteses de dar em golo, é fatal como o destino que alguém se vai pôr de pé, e tapar o fim da jogada.

Ou que muitas vezes ver o jogo na televisão implique ouvir comentadores com uma vaga noção de como realmente se comenta um jogo. A época dos dois homens a formar um triângulo já passou. Também já há nenhum que se exalte com as jogadas emocionantes. Agora são todos analistas. Imagino-os, durante os jogos, a passear na cabina dos comentadores com um dispositivo 3G topo de gama, que permite arrastar bolinhas que passam por jogadores. Falam todos com uma voz serena e hipnotizante, e só querem saber das linhas intermédias das transições defesa-ataque. Já não há gritos, saltos e enervamentos.

Mesmo assim, tendo visto nos últimos anos todos os jogos em casa, sempre tive um fascínio pelo estádio de futebol. E esse fascínio prende-se muito mais com a atmosfera em redor do jogo, que com o futebol em si.

Nunca fui ver nenhum jogo em que tenha saído do estádio a dizer 'Sim senhor, que grande espectáculo de bola'. Mas saí, isso sim, a dizer 'Sim senhor, que grande leque de palavrões que aquele homem ao meu lado sabia'. Todos os palavrões que gritei enquanto fui crescendo, aprendi-os num estádio de futebol. Não fazia a menor ideia do que significavam, mas como me diziam sempre que o que se ouvia ali não se repetia a mais ninguém, imaginava que não fosse coisa boa.

Outro ponto alto de se ver um jogo num estádio (sim, porque aprender palavrões é um ponto alto para qualquer rapaz) é o pré-jogo. O caminho, desde o carro/metro, até à porta de entrada. As pessoas que, 3 horas antes do jogo, já não têm no coração as cores do clube, mas um rótulo de cerveja. Os velhos que nunca largam o rádio de mão, nem mesmo durante o jogo. As roulotes, com as suas chapas para fritar que não são limpas desde que o estádio foi inaugurado, que vendem o típico kit courato + mini. A hola, obrigatória em qualquer jogo. Os olés para o adversário. As frases que se dizem ao árbitro e aos ódios de estimação da outra equipa. Tudo isto faz parte do encanto de se ver um jogo ao vivo.

E ainda assim, não me lembro de última vez que fiz tudo isto. Presumo que a preguiça de sair de casa para ir ver o que, a maioria das vezes, é um mau jogo de futebol fale mais alto. O que é estranho, porque de tudo o que envolve ver um jogo no estádio, o jogo em si é quase sempre o menos interessante.

SdB (III)

09 maio 2010

Domingo ….. Se fores à Missa !

EVANGELHO Jo 14, 23-29

«O Espírito Santo vos recordará tudo o que Eu vos disse»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada. Quem Me não ama não guarda a minha palavra. Ora a palavra que ouvis não é minha, mas do Pai que Me enviou. Disse-vos estas coisas, estando ainda convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse. Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. Ouvistes que Eu vos disse: Vou partir, mas voltarei para junto de vós. Se Me amásseis, ficaríeis contentes por Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu. Disse-vo-lo agora, antes de acontecer, para que, quando acontecer, acrediteis».

Descobri o Espírito Santo, na minha vida, há 18 anos atrás, quando fiz um Cursilho de Cristandade. 3ª pessoa da S.T., sempre o tinha considerado de nível inferior ao Pai ou ao Filho …. como se nas coisas de Deus houvesse níveis ! Enfim …. Descobri um Espírito Santo vivo a quem se pode, e deve, recorrer quando precisamos de discernimento ou sabedoria para tomar uma decisão, esta ou aquela opção, este ou aquele caminho. O Pai representa o poder do livre arbítrio, o Filho representa o amor nos nossos corações e o Espírito Santo representa a sabedoria na nossa alma e na nossa mente. Hoje, rezo ao Espírito Santo pedindo-lhe sabedoria e eloquência, sempre que tenho de falar para uma audiência, sempre que um amigo me pede um conselho ou opinião sobre algum assunto mais delicado e importante e até O invoco, imaginem, se calho a ter um ataque de riso durante a missa. Uma vez, estava eu a ‘maestrar’ o meu coro e o Padre chamou-nos pedindo-nos que comêssemos todas as hóstias consagradas que tinham sobrado da comunhão (tratava-se de uma capela particular e as hóstias não podiam lá ficar); meteram-nos, em média, umas 10 ou 15 hóstias na boca de cada um de nós. Podem imaginar o embaraço em que ficámos; parecia que tínhamos um pedaço de cortiça dentro da boca, difícil de mastigar, impossível de manusear. Começámos a olhar uns para os outros, como que a pedir ajuda e de repente irrompemos num nervosíssimo e incontrolável ataque de riso, como se fossemos umas crianças. A assembleia, em postura de recolhimento, esperava o cântico de Acção de Graças e nós, talvez uns 15 ….. ríamos ! Invoquei o Espírito Santo. Naquele momento, sabia que era a única forma de eu conseguir parar de rir e transmitir ao resto do coro a serenidade e a calma necessárias para acalmarmos e prosseguirmos com o cântico. E assim foi. Assim como veio, assim se foi, o ataque de riso. O Espírito desceu no momento oportuno. Assim como este, mas não com tanta graça, poderia contar-vos N outros exemplos da Sua acção na minha vida do dia-a-dia. Experimentem !

Domingo, se fores à Missa …. Invoca o Espírito Santo

Maf

08 maio 2010

Pensamentos impensados

Há uns tempos, na TV, apareceram uns programas sobre desafios de futebol, a que deram o nome de resumos alongados; acho graça mas não percebo.

Também vou contribuir com frases que acho graça mas não percebo:
- reminiscências do futuro;
- retrospectiva futura;
- sintetismo analítico;
- não fazer uma análise exaustiva, antes uma análise sintética.

Os subsídios concedidos ao teatro podem ser considerados como despesas de representação?

Tomou um remédio para as alergias e ficou com alergia ao remédio.

A invenção do aço inoxidavel constituiu uma victória sôbre a ferrugem; daí, a célebre frase IN OXIDO VINCES.

Numa rusga no Intendente, o polícia interroga uma "passante": rameira, rameira quem és tu?
Ela responde: sou a Benta Bexigosa.
(Tinha lido Eça).

SdB (I)

07 maio 2010

cuidados intensivos

seguir viagem.
cauterizar a dor.

cirúrgica intervenção

de coração aberto
às vagas de frio
que queimam os dedos,

de coração aberto
ao calor que gela
qualquer flor,

e todos os masculinos medos
e todos os feminis enredos.


gi.

06 maio 2010

Deixa-me rir...

Se me tivessem dado a escolher um dom antes de nascer, não tenho uma dúvida que teria escolhido ter uma voz como a da Etta James, a minha artista convidada de hoje. Ou como a da Maria Callas, Patti Labelle, Aretha Franklin, Amy Winehouse, Amália, Beth Rowley (que postarei em breve), entre tantas outras …. Uma voz que comovesse alma, coração e cérebro, que entrasse pelos ouvidos, poros, na corrente sanguínea, até nos chakras (!)…. e que nos fizesse chorar e rir ao mesmo tempo! Uma voz que contasse histórias que nos são próximas, ou que já vivemos, e que nos remetesse para a pureza da interpretação e do feeling.
Hoje trago-vos um bom exemplo deste género de vozes. Espero que gostem.



PS: Já agora, a título de curiosidade, se pudessem escolher um dom, qual seria? MAF? TdB? Gi, MZ, deA, jp?

Now in English: PO, if you were showered with a gift (there’s a fabulous quote by Vasari on Leonardo da Vinci being showered with gifts – apart from the many that you, PO, already possess :)) – which one would you choose??

pcp

05 maio 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Uma das artistas portuguesas mais marcantes – a Joana Vasconcelos – tem perto de 40 obras expostas no CCB, integradas na Colecção Berardo e patentes ao público até 18 de Maio(1). O título da mostra identifica bem o estilo interpelador da Joana: «SEM REDE». Algumas das peças mais inspiradas (para mim) transbordam, literalmente, para o exterior, em especial a mega-escultura «Sr.Vinho»:

(2010) Garrafão de 5 m de altura, tecido no rendilhado de ferro forjado das
varandas pombalinas, que uma grua colocou no Jardim das Oliveiras.

Nas duas entradas do Museu, erguem-se dois castiçais gigantescos, «Néctar», numa estrutura metálica aerodinâmica, muito esguia, revestida de milhares de garrafas verdes. Daria um vidrão hiper decorativo! Junto à recepção, as ventoinhas coloridas «Wash and go» fazem as delícias das crianças e divertem os adultos, quando disparam em espiral. Este é dos méritos da artista, sempre incrivelmente comunicativa, através de instalações de tamanhos astronómicos, mas com uma ironia comedida, linhas sóbrias e harmoniosas, resultando em obras expressivas e coerentes, de fácil leitura e rápida sintonia. A boa disposição impregna a arte da JV, desafiando os cânones tradicionais ao transfigurar materiais paupérrimos da sociedade de consumo. No fundo, atrevendo-se a reciclar a banalidade e o kitsch, que o universo artístico costuma ignorar, olimpicamente!

Claro que nem todas as soluções ousadas da artista, nascida em Paris, no ano de 1971, terão alcançado o efeito de eloquência estética e irónica que marca a exposição, quando o populismo e o excesso de previsibilidade submergem o intervencionismo arrojado da JV. Digo isto, só para prevenir eventuais metros de arte menos felizes, nos corredores expositivos que vão de «O mundo a seus pés» (cliché) até ao carrocel ou mesmo à «Burka» (em cedência ao politicamente correcto), onde apenas ressalvaria o testemunho da Joana sobre a experiência criativa da instalação Fátima Shop (FS): «Tenho sempre de falar do FS. Até hoje me estou a perguntar: como é que aquele ciclomotor me levou a Fátima?… Foi uma viagem fantástica que fiz no dia 12 de Maio de 2003. Queria perceber o factor Fátima, perceber o que motivava as pessoas a fazer uma peregrinação...» (2 ver citação integral)

Vale a pena retomar os pontos fortes da artista, que superabundam no CCB, deixando para cada um explorar os alertas ecológicos e político-sociais presentes na mostra:

- Os 5 m de sapato «Cinderella», 2007, parecem saídos dos estúdios da Disney! A mensagem é revolucionária, porque a metamorfose de plebeias em princesas é um facto inegável e até consentido, com inúmeros exemplos entre as top models da actualidade. Agora, o trem de cozinha ganhar glamour e direito de entrada no salão de baile, convenhamos que é um feito inédito…

Recentemente leiloado pela Christie’s, em Londres, atingindo valores homéricos.

- Os lindíssimos «Corações Independentes» (2004-2006) – Dourado, Preto e Encarnado – tecidos numa trama translúcida de talheres plásticos, de quase 4 metros de altura, ondulando ao som do fado de Amália, conquistam-nos à primeira. Aliás, o dourado foi a obra de representação do país, no átrio do Conselho Europeu (2º Semestre de 2007), em Bruxelas. A ideia nasceu de uma encomenda para o restaurante Eleven, culminando na simbiose da portugalidade, onde a joalharia de filigrana e o fado se fundem em jóias extraordinárias, sob o signo da boa cozinha nacional:


Segundo a autora: «o Vermelho, do fado, do amor, dos sentimentos; Dourado, que representa
o ouro e a tradição portuguesa; e Preto, que simboliza a morte, a dor e o sofrimento
»

- Numa alusão divertida e q.b. acutilante à moda das drogas – começando nas mais benignas, validadas pelas farmácias – Joana brinca com os paradoxos de uma sociedade de superabundância e de plena liberdade, que vive atordoada e lida mal com… nada menos que a própria realidade, preferindo, por vezes, intoxicar-se nos recursos escapistas que a química proporciona:

Sofá Aspirina, 1997- Blisters com comprimidos Aspirinas de 500 mg madeira e vidro.
Ao lado, estende-se a Cama Valium (1998)

Para explicar melhor a abordagem tão positiva da Joana, vale a pena referir uma peça suspensa na antecâmara da entrada, que só pela beleza lhe seria atribuível. Vista de perto, a carga negativa da esfera cintilante, com 18.000 balas cravadas em volta, dificilmente teria a sua assinatura! O título é auto-explicativo: «Death Star» (1993). E a autoria é de Robert Longo, numa crítica feroz contra a quantidade obscena de projécteis disparados nos EUA, apenas num ano!

Uma singularidade notável que se infere da arte da JV é o olhar curioso, ávido de descobrir e sintonizar, mais lúcido que crítico, mais empático que julgador. Empenhada na busca incessante de símbolos pátrios, qual coleccionadora de antiguidades, recria-os depois num cenário de modernidade, que lhes desperta uma vitalidade comunicativa, que julgávamos extinta. Do atelier da Joana, as velharias chegam-nos rejuvenescidas, como Belas Adormecidas. É também uma feliz surpresa o toque de afectividade omnipresente nas suas peças, surpreendendo-nos pela originalidade arrebatadora, sem resvalar para o efeito de placagem, puro e duro, cultivado por muitos artistas contemporâneos. Daí que o gigantismo das suas peças nunca intimide, antes inspire uma atmosfera divertida e aconchegante, até porque impera a transparência e a luminosidade, como em Lisboa.

E recorro a um poeta para explicar «Sem Rede», porque a poesia tem o condão de penetrar os segredos da realidade, sem ser intrusiva, esquivando-se às análises esquadrinhadas, que julgam esgotar o mistério da vida! De facto, num excerto do livro As Aventuras de João sem medo, logo com um título aplicável à Joana, dá-se o mote certo para esta exposição: «É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir»(3).

Haveria dezenas de peças giras para postar, mas convém manter algum suspense para quem venha a deambular SEM REDE, dispondo-se a mergulhar no património cultural português – que se abre ao mundo, como o Atlântico, no dizer da Joana – e de onde se sai refrescado, agradavelmente espantado de vibrar com um presente enriquecido de história!

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

____________________________
1 Sobre o horário e questões afins, consultar o site: http://museuberardo.pt/informacoes.html .

Nos Jardins do Museu da Cidade (ao Campo Grande), também estão expostas obras da Joana Vasconcelos.


2 Citação integral: «Tenho sempre de falar do Fátima Shop. Até hoje me estou a perguntar: como é que aquele ciclomotor me levou a Fátima? Nunca tive de pôr gasolina e percorri cento e tal quilómetros de Lisboa até lá. Foi uma viagem fantástica que fiz no dia 12 de Maio de 2003. Queria perceber o factor Fátima, perceber o que motivava as pessoas a fazer uma peregrinação. Foi uma viagem engraçada, com muitas peripécias. Ia sendo atropelada por um camião TIR e nunca me esqueci de que os primeiros peregrinos que encontrei eram croatas. É uma peça com uma estrutura menos clássica que as outras, já que é um vídeo que acompanha uma escultura, ou vice-versa, ou seja, uma instalação.»

3 Do poeta portuense, José Gomes Ferreira (1900-1985 ).

04 maio 2010

Madrugada

Não sei se ando na rua por que não tenho sono, ou se não tenho sono porque ando na rua. Sou um equilibrista de lancil quando ninguém está acordado para reparar, dou piruetas assustadoras e pulos de espantar.


Faço-me amigo de dois cães vadios, que se chegam a mim num murmúrio de fome e se conformam com uma festa dedicada, reconhecendo que, ao contrário daquilo que a vida lhes ensinou sobre as pessoas, eu tenho um grande desprezo por pulgas e primos directos e não me deixo incomodar pelo cheiro a contentor. O vento sopra firme do lado da roulotte de bifanas e desperta-me o estômago que, numa sinfonia de reclamações vigorosas, faz de mim membro ecléctico da matilha dos famintos.


E o Benfica? Apesar de já me pesarem os olhos, ainda tenho conversa para meia hora e, com sorte, para uma Especial com tudo, se faz favor. Depois de descascar nos tripeiros, método infalível para cair em graça nestas paragens sob o viaduto, e de acalmar a fome com a simpatia do senhor Amílcar, noto que Maio chegou ventoso. Dá ano formoso, atira um velho. Ainda desenrasquei umas sobras para os meus novos amigos, que acenam com o rabo enquanto se afastam para o lado mais escuro da rua.


Aqui é madrugada, longa nas horas e curta nas palavras. As conversas são pouco mais que constatações roucas do óbvio de cada um. Apaga-se a luz roxa quando passa o duzentos e sete para a Musgueira. O sono é das inevitabilidades mais caprichosas que conheço, mas talvez já esteja capaz de se render às evidências da noite. Vamos ver se se decide no caminho para casa, que é curto e encostado às paredes.


ZdT

03 maio 2010

Orgulho

Álvaro tinha entrado na Igreja pela primeira vez de mão dada com a Marília. Não iam casar e, por isso, a frase é metafórica, se bem que não seja estatisticamente impossível. A rapariga queria apresentar-lhe Jesus, os mistérios, os sacramentos, o incenso, o serviço ao próximo, o Céu e a ausência dele, que os mais antigos chamavam Inferno. Tal como se chama frio à ausência de calor e escuridão ao que é a inexistência de luz.

Álvaro gostou da sensação de ser alcandorado a cristão-novo no século da tecnologia, das redes sociais, da solidão das multidões estranhas. Absorveu tudo com um furor quase missionário; inebriou-se com os fumos que saíam do incensório, olhou com temor para os pecados mortais, fixou os mandamentos como se o seu futuro dependesse disso e cresceu para os inimigos da fé como se atacassem algo intrinsecamente seu.

Marília tinha um odor de virtude que surgia por baixo de um perfume adocicado e inebriante – se bem que a condição “e” pudesse ser fatal. Era uma rapariga gentil, cordata, disposta ao perdão, sorridente, prestável e humilde. Zangava-se pouco com as pessoas e vivia num impulso permanente de promover a paz e o amor onde a discórdia e a guerra assumissem foros de domínio.

Daquela boca fina, de lábios delgados e dentes muito perfeitos saía um discurso singelo, minado de uma coerência permanente com os ensinamentos mais antigos e mais perenes que regulam o saudável convívio entre os mortais

Deixa, a culpa é minha;

Na realidade não tenho um feitio fácil;

Não te zangues;

Peço desculpa se te ofendi.

Deixa estar – não te preocupes comigo;

Podemos esquecer este assunto?

Estás mais do que perdoado, eu também não estive bem...

Álvaro cresceu na fé – e na vida com a Marília, vá... - com este discurso, esta atitude constante, este apagar de si mesmo. Impressionava-se e, entre duas minis bem geladas e um prato de caracóis, confessou a um amigo, ateu militante e inspector das finanças, que duvidava por definição da legalidade fiscal dos padres, que a felicidade da namorada lhe advinha daquela humildade, daquela paz com a vida, daquela incapacidade do rancor e da raiva.

Um dia, quis o destino que as mãos de ambos percorressem territórios alheios – não territórios terceiros, no sentido da infidelidade mútua. Álvaro era um homem vivido, se bem que a noção do pecado lhe viesse a refrear os ímpetos, e temeu o desencontro de tempos e de ritmos, afligiu-se que um excesso de pudor, filho de uma castidade incoerente, matasse a sensualidade e o erotismo.

Marília desapertou um botão da camisa junto ao pescoço magro onde latejava uma veia num frémito circulatório. Ao lado dela o recém-convertido estirava-se na sua nudez, sem saber se a companheira a veria – essa tal nudez esplêndida – com uma dimensão demasiado pecaminosa. Álvaro olhou para ela, para aquele corpo magrito que seria seu, e enterneceu-se perante uma humildade que lhe abria portas para a explicação das virtudes do toque, do beijo, da lentidão, dos finais conjuntos, da criatividade.

Trinta minutos depois, o frémito circulatório tinha-se passado para as veias de Álvaro. Afinal não tinha sido preciso ensinar-lhe nada: a rapariga que citava as escrituras, dominava as vidas dos santos e falava dos dogmas com uma facilidade invejável, tomara mão dos ritmos, do virtuosismo, da elasticidade dos corpos, do gosto pela experiência.

Tu desculpa, Álvaro, se calhar não estive muito bem. Tenho pouco jeito, sabes...

Álvaro olhou para ela, percorreu-lhe o corpo com um olhar indecifrável e, antes de atender o telefone ao tal inspector das Finanças - o TóJó - que ficara de indagar do IRC das ordens religiosas disse-lhe:

És uma mulher orgulhosa, sabias Marília? Não há aí humildade, mas orgulho. E isso é um pecado, ou não?

Diz Tójó...

JdB

02 maio 2010

Música para o dia de hoje

Poema para o dia de hoje

Palavras para a Minha Mãe

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

Músicas dos dias que correm...

5º Domingo do Tempo Pascal

EVANGELHO – Jo 13,31-33a.34-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Quando Judas saiu do cenáculo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Agora foi glorificado o Filho do homem
e Deus glorificado n’Ele.
Se Deus foi glorificado n’Ele,
Deus também O glorificará em Si mesmo
e glorificá-l’O-á sem demora.
Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco.
Dou-vos um mandamento novo:
que vos ameis uns aos outros.
Como Eu vos amei,
amai-vos também uns aos outros.

Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos:
se vos amardes uns aos outros».

01 maio 2010

Pensamentos muito pensados

Tenho acompanhado com alguma curiosidade e interesse as manifestações exteriores de religiosidade dos toureiros, em Espanha.
Normalmente começa tudo no quarto do hotel onde se vão vestir; é montado um "altar" cheio de imagens de Nossa Senhora e de Jesus Cristo; quando chega a altura de se recolherem em oração, benzem-se, mal, pois em vez de desenharem uma cruz, desenham um T invertido.
Alguns toureiros benzem-se duas vezes, outros três; fico sem perceber por que não são 5 ou 7; em seguida levam o polegar à boca e fico sem saber se chupam o dedo ou roem a unha.
Quando chegam à praça de touros, alguns benzem-se ao sair do carro. Em seguida, quando há capela, recolhem-se em oração e repetem o ritual de se benzerem mal.
Antes do "paseo", já vi 2 ou 3 toureiros que batem na trincheira (knock on wood) e tornam a benzer-se mal; também escravam a arena, não me parecendo que seja para ver o estado do terreno, antes me dá a ideia de que desenham uma cruz.
Quando começa o "paseo" todos se benzem, e dá para ver que o capote de "paseo" tem bordado Nossa Senhora ou Jesus Cristo. Nos dois primeiros tercios nada de assinalável em termos de religiosidade.
Quando chega a ltura do tercio de muleta, se a faena é dedicada a alguém que morreu, o matador olha para cima (lá em cima, que eu saiba, está o tiroliroliro) e, segundo aprendi, Deus está em toda a parte, seja no capote (defesa) seja nos cornos do toiro (ataque).
Depois o matador atira a "montera" para trás das costas, e se calhar ficar a boca para cima há logo um murmúrio na praça pois parece que dá azar; no entanto, com a boca para cima, dá para ver que algumas "monteras" têm, no interior, uma imagem de Nossa Senhora ou Jesus Cristo.
Já antes de começar o tercio tinham bebido água por um copo que, julgo, tem uma imagem pois beijam o copo.
A gravata tem um alfinete com medalhas e, presumo, que por baixo da camisa têm um fio com medalhas.
Posto isto, é lógico perguntar: serão os toureiros religiosos? Acho que não; os toureiros são, na maior parte, supersticiosos.
Se não estiver certo, que Deus e os toureiros me perdoem.

PS- os futebolistas benzem-se e comem relva.

SdB (I)

30 abril 2010

cidade cinza

uma coisa cortante entra no poema pelo início,
a semântica recorrente dissolve-se, está gasta,
é enxofre o que entra pela janela-precipício,
é fraca a moeda que o ácido tempo arrasta.

chumbo é a cor deste dia, inundação inteligente
mas não inteligível, saudades e pedra - basta -,
quando o que procuras é um sonho-que-é-gente,
nem mais, nem menos que
a tua cidade dilacerada

reerguida, insurgente, ladina, uma mulher-cidade
restituindo ao tempo traços roubados ao fúnebre nada.
uma coisa louca - insone, insana - linda de verdade
(arrancar a máscara negra, ousar o salto na passada.)


gi.

29 abril 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this week I am inspired by two friends, one who recently has travelled in Morocco and the other who has just returned from living in Egypt, to choose songs by two North African/Middle Eastern artists.

Amr Diab is Egypt's most successful singer in terms of popularity and sales. Born into a privileged and educated family, he is considered to have developed a "pan-Mediterranean" sound, a blend of traditional Arabic rai and western pop rhythms. I did not know of Amr until by chance recently I heard this song Tamally Maak, which means simply I Am Always With You, apparently one of the most popular Arabic songs ever:



Souad Massi was born in Algeria within a poor family. She began her career singing political songs about her country's difficult civil problems and consequently was severely disapproved by powerful people in government. More than this, Souad was a young woman who liked modern western dress and so challenged her male-dominated society. After death threats and being shot at, she moved to Paris where she continues to write songs about her home country. A few years ago I saw her fantastic debut UK concert at London's Queen Elizabeth Hall and have been a fan ever since. Like Amr Diab, she incorporates traditional Algerian arabic instruments and rhythms with western styles.

This song is called Raoui (The Storyteller); it speaks that, although everyone has a story in their heart about today's socio-political troubles, they should forget their problems for a moment and listen to the storyteller recounting tales of "once upon a time" of more innocent times:



I hope you enjoy.

A proxima.
PO

28 abril 2010

Sei que estás aí

Para ti, C R S

Eu sei que estás aí.

Não me respondas que não é preciso. Achas que enganas quem? Se quiseres passar despercebido não faças tanto barulho para a próxima vez.

Chamaram-me maluca a última vez mas, eu não ouço quem não me entende, sei que estás aí e que ainda tens coisas para me dizer.

Não, não é o vento.

És mesmo tu!

Pus a tua música preferida no outro dia, fechei os olhos e até te senti a dançar que nem uma pessoa maluca.

Também foi o vento?

Tenho tantas coisas para te contar... mas vou falar baixo para as pessoas à minha volta não acharem que falo com o ar. Se acharem? Azar o delas. Tu sabes que eu não estou louca. Tu sabes que estás ao pé de mim.

Quem é que me acordou no outro dia quando não ouvi o apito do relógio?

Gosto que me julgues e que me chames à atenção quando não faço o que devo, sempre foste assim, sempre tiveste jeito para grilo falante mas agora, fazes-me sentir à tua maneira que estou a fazer disparates.

Sinto-te ao meu lado todos os dias, sinto que me observas, que te ris do meu jeito desajeitado, de quando os meus bolos saem queimados do forno ou quando me esqueço de tudo em todo o lado. Mas aí já não me ajudas, olha que tu também...

Sinto-te ao meu lado,

Sinto-te em todo o lado,

Podes-te esconder melhor na minha sombra, podes tentar fazer menos barulho,

Podes dizer-me ao ouvido que é o vento,

Mas eu sei, eu sei sempre que estás aí.

TdB


27 abril 2010

As paixões da alma

Realizaram-se neste fim-de-semana que passou, como já é hábito há alguns anos, os dias da música no CCB. Quem olha para o que é proposto acha que esta é a forma encontrada pelo CCB para conseguir entrar para o livro do Guinness. São dois dias (não conto com o primeiro, que tem só o de abertura) ‘apinhados’ de concertos. O programa não tem um único furo. Não há cá pausas para o café. É tudo seguido, desde as onze da manhã até à meia-noite, com muitas sobreposições pelo meio.

É o segundo ano que vou. E, pelas duas experiências, parece-me que é o segundo de muitos. O ano passado os dias tiveram como tema Bach. Tive o prazer de assistir (juntamente com o dono deste estaminé) a um excelente concerto.

Este ano o tema foi ‘As Paixões da Alma’. Quem espreitou o programa percebia que as paixões da alma englobam de tudo. Desde recitais de piano a peças para coro e orquestra passando por tango, acabando num homem que fazia música com copos de cristal. Agradava a gregos e a troianos.

Depois de analisar o programa escolhi três concertos. Uma maratona entre as seis da tarde e a meia noite. O primeiro era o de um pianista turco conhecido principalmente pelas suas interpretações características de peças clássicas e não só. Mas, como se sabe, os turcos são pessoas que adoecem com muita facilidade. Deve ser da brisa fria que sopra ali à beira-mar. E por motivo de doença do pianista o concerto ficou sem efeito.

O CCB tratou de arranjar um substituo. Tenho o maior respeito pelo Sr. Jorge Moyano (que tem enormes parecenças físicas com o Avô Cantigas) mas, sinceramente, não era quem eu queria ver tocar. Ainda assim assisti ao concerto, porque sempre se ouve qualquer coisa nova. As peças eram todas de Schumann. Não conhecia nada dele e, no fim, acabei com pouca vontade de conhecer mais. Não tenho uma dúvida de que é por falta de cultura musical minha, mas tudo o que ouvi me disse pouco.

Deixo abaixo uma amostra do que estava inicialmente previsto.

O segundo concerto foi de um cantor norte-americano chamado Corey Harris. Blues puros. Guitarra, voz e um pé a bater no chão para marcar o passo. Foi um excelente concerto. Não lhe dou 10/10 porque houve ali três ou quatro músicas a puxar para o reggae, que não beneficiaram ninguém. Nem a mim, porque acho que é sempre a mesma coisa, nem a ele, que não conseguia explorar todo o potencial voz / guitarra.

O cenário do concerto não podia ser melhor: uma sala pequena, as luzes a menos de meio-gás e uma parede toda em vidro de frente para o Mosteiro dos Jerónimos.

Acabado este, foi correr para o grande auditório para o último concerto da maratona. E este sim, foi uma verdadeira paixão da alma. Um coro Gospel, com a ajuda de um piano, de um baixo e de uma bateria. É um cliché dizer que transmitem uma alegria contagiante a cantar, mas acho que essa é a única justificação para, em algumas músicas do concerto, o grande auditório - à pinha - estar de pé a cantar, a dançar e a bater palmas.

Ainda mais espantoso é perceber que este público não é propriamente do género de acompanhar o que se passa em palco com dança e cantoria. Mas a verdade é que vi pessoas de oitenta anos a abanar as ancas como se não houvesse amanhã. Fica abaixo um cheirinho do que se passou, e recomendo que não percam o espectáculo quando eles cá voltarem.




SdB (III)

26 abril 2010

Gula

Levantava-se sempre pelas seis horas, qualquer que fosse a estação do ano. Era rápido no banho, no café e na torrada e saía a correr, porque havia que dar o pequeno-almoço à comunidade de idosos que vivia perto de si numa moradia que o tempo, a humidade e as desavenças familiares tinham arruinado parcialmente.

Pela hora de almoço sentava-se frente a uma sanduíche e a um sumo natural e redigia cartas, preparava balancetes, desenvolvia projectos e planos de negócio, gizava cronogramas com um rigor relojoeiro. Era o seu voluntariado em prol de uma associação de deficientes à qual se ligara por via do filho de um colega de faculdade.

Ao fim da tarde, quando o bulício da cidade anunciava o regresso a casa, Henrique ia distribuir jantares aos sem-abrigo a quem conhecia os nomes, as doenças e os passados – porque os futuros eram um exercício difícil de adivinhação. Quando o relógio da igreja onde dava catequese aos domingos assinalava a meia-noite, o jovem economista ainda arranjava tempo para navegar na internet – não nas redes sociais como fazia meio mundo, mas nos sites oficiais, procurando um programa comunitário, um prémio, um fundo, uma ajuda financeira. De facto, as crianças em risco mereciam-lhe toda a atenção.

Foi numa dessas noites frias e chuvosas, quando distribuía uma sopa de legumes fumegante a quem vivia na rua embrulhado em cartão canelado, que conheceu a Carolina. Trocaram um olhar breve, carregado daquela cumplicidade que une quem se dedica à caridade. As mãos tocaram-se fugazmente quando se organizaram para entregar tabuleiros, recolher canecas vazias, distribuir um par de meias quentes.

Três semanas depois Henrique dirigia-se às avenidas novas onde, num terceiro esquerdo elegante e discreto, vivia a Carolina, uma licenciada em Direito e especialista em fiscalidade num escritório de renome. Já se conheciam minimamente, tinham trocado experiências e opiniões sobre a solidariedade, a vacuidade das vidas, o egoísmo das opções, o serviço ao próximo, a importância do combate à pobreza e à exclusão.

Mas o jantar de hoje tinha um outro fim, mais carnal, mais afectivo, mais erótico. Afinal, eram dois adultos livres, solteiros, independentes, que se juntavam para gozar da companhia mútua e de uma noite previsível de amor.

Carolina estava deslumbrante, vestida com uma roupa que assentava tentadoramente num corpo que, não sendo perfeito, provocava a inveja de muitas colegas e o desejo de inúmeros clientes. Após o jantar sentaram-se num sofá e, pouco tempo depois, enroscavam-se num beijo longo, sensual, húmido, carregado de erotismo. Henrique correra-lhe o corpo com as mãos e ela entregara-se sem restrições, ambicionando também uma noite que se prolongasse sem fim.

- Espera, dissera ela com a roupa semi-desabotoada, deixa-me por música e acender umas velas. Levantou-se mas deixou-lhe outro beijo ardente, sentindo-lhe as mãos sem recuo.

Baixou as luzes, acendeu uma velas e colocou um disco na aparelhagem. Tinha-lhe dado as costas e lentamente – muito lentamente – tirara todas as peças de roupa enquanto Joe Cocker cantava, na sua voz característica, you can leave your hat on... A fiscalista estava integralmente nua e rodou lentamente, antevendo a emoção que provocaria no seu namorado ao revelar-se por inteiro – e pela primeira vez.

Henrique, o homem que servia os pequenos-almoços aos idosos, que construía business plans para associações de deficientes, dava catequese, distribuía sopas aos sem-abrigo e investigava fundos comunitários para crianças em risco dormia profundamente, com a boca ligeiramente aberta e uma mão solta de onde se penduravam uns óculos periclitantes.

Sabes qual é o teu mal, Henrique? - afirmou Carolina num monólogo frustrado, enquanto calava o Joe Cocker, apagava as velas e cobria uma nudez que só ela via – é que tu não fazes caridade. Tu sofres é de gula. E isso não é um pecado?

JdB


25 abril 2010

Domingo .... Se fores à Missa!

Evangelho segundo S. João 10,27-30.
«As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço-as e elas seguem-me.
Dou-lhes a vida eterna, e nem elas hão-de perecer jamais, nem ninguém as arrancará da minha mão.
O que o meu Pai me deu vale mais que tudo e ninguém o pode arrancar da mão do Pai.
Eu e o Pai somos Um.
»


O Evangelho de hoje, parco em palavras, é rico em conteúdo. Toca-me especialmente a primeira frase: "As minhas ovelhas escutam a minha voz; eu conheço-as e elas seguem-me". É esta a mensagem do bom pastor.

Trazendo esta ideia para a n/ realidade, é bem verdade que qualquer pastor conhece as suas ovelhas uma a uma, apesar de nós, leigos em matéria ovina, acharmos que são todas iguaizinhas. O pastor (o Pai) leva as ovelhas (nós) para um grande campo (o palco da n/ vida) às vezes verdejantes (horas de alegria), às vezes seco e árido (horas de tristeza) e deixa-as pastar livremente (n/ livre arbítrio); tem como auxiliar um cão pastor (o n/ director espiritual), mas acima de tudo tem todo o empenho e toda a dedicação (o amor do Pai por cada um de nós) naquelas ovelhas que são, afinal, o sustento da sua vida.

Não sei se se passa o mesmo convosco, mas para mim é importante saber que o Pai me conhece como ninguém. Ele conhece cada um de nós de ginjeira, não tenho dúvidas. Com Ele não tenho de fingir, não tento ser aquilo que não sou, não tenho de sorrir quando choro por dentro, não tento sequer aparentar virtudes que não tenho, nem valeria a pena ! Ele que tudo sabe. Posso ir direita ao assunto, expôr os factos, descrever o que sinto, em determinada situação e sei que Ele entende exactamente aquilo que estou a tentar dizer .... não há mal-entendidos, não há más interpretações. É como se fosse assim, a cara-metade, a alma gémea, aquela pessoa com quem não é preciso trocar palavras, sequer. E, nesse diálogo, que parece mudo sem o ser, encontro a minha segurança como pessoa, como mulher e como católica.

Domingo se fores à Missa .... deixa-te embalar pela voz do Pai.

MAF

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