As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
12 fevereiro 2026
11 fevereiro 2026
Vai um gin do Peter’s ?
A VOZ MISTERIOSA QUE FASCINOU OS BEATLES
Esse ano de 1965 prometia acabar em beleza, com novo concerto da mais aclamada banda pop da época – os Beatles. O estádio Hammersmith Odeon de Londres estava apinhado de fãs, na histeria típica que rodeava todas as actuações dos britânicos. Nessa noite, porém, uma surpresa aguardava os quatro magníficos, que iam para o seu 347º concerto, pensando apenas somar mais um previsível sucesso de beatlemania.
Enquanto o palco esteve às escuras, a gritaria da multidão inundava o estádio, até uns holofotes estratégicos iluminarem a chegada dos músicos ao palco. Uns segundos de silêncio em êxtase para logo redobrarem os aplausos, os gritos, as lágrimas e alguns desmaios ou simulacros de... Só voltou alguma calma, quando as guitarras arrancaram os primeiros acordes e Paul McCartney começou a cantar. No palco ouviu-se, então, uma quinta voz, claramente feminina, a improvisar uma ária que harmonizava na perfeição com a dos Beatles. George Harrison, o mais entendido em música, percebeu que aquele contributo misterioso tinha uma sofisticação que nunca ouvira nos ambientes rock seus conhecidos. Paul também dá pela voz e, entre troca de olhares, percebe que John também a distinguira. Avançam para a segunda música e a voz reaparece, segura, riquíssima, originalíssima. Terceira música e terceira intervenção da enigmática voz, a melhorar imenso a sonoridade final da banda, num improviso mais ao jeito do jazz. Tanto mistério, era demais! Nenhum dos 4 tinha já dúvidas sobre aquele acrescento surpreendente e único no seu historial de concertos.
Também o público estava a aperceber-se de uma insólita presença musical extra, ficando menos interventivo e menos barulhento. Tudo q.b. insólito, como a decisão que tomaram os quatro, sem precisarem de trocar palavras entre si. Pararam o concerto, juntaram-se ao centro e Paul virou-se para a multidão e, ao microfone, pediu à voz espectacular para se dar a conhecer! Ninguém respondeu, fazendo-se um inusitado silêncio. Paul insistiu, em vão.
Então, Lennon fez uma sugestão audaciosa para os 4 irem à procura da voz, por entre as 15 mil pessoas! À parte do pânico dos seguranças, o público manteve-se incrivelmente calmo, talvez adivinhando a cena única que estavam a viver. Seguiram-se quinze minutos surreais na história do rock & rol, com os Beatles no encalce de uma voz linda nas zonas do estádio onde a tinham captado. Interpelavam, então, cada fila, convidando os espectadores a entoar um início de alguma das suas composições. Coube a George a grande descoberta, no balcão superior onde se metera. Mais precisamente, no lugar 23, da fila 5 da secção 12, descobriu uma envergonhada miúda de 22 anos, a quem a prima, sentada ao lado, implorou para fazer o que George lhe pedira e entoar um par de notas. Mal cantou, Sarah Williams saiu do anonimato. Nunca imaginara que os Beatles iriam no encalce da autora dos seus originalíssimos arranjos vocais, pois nem se apercebera que estariam a ser ouvidos no palco e a fazer furor!
Uma vez descoberta, os quatro conseguiram a custo convencer a tímida Sarah a actuar com eles, no palco, continuando a improvisar, como era sua especialidade! Quando Paul lhe deu um microfone, os primeiros sons da jovem professora de música clássica saíram titubeantes. Mas, aos poucos, conseguiu submergir na música, abstrair da multidão e retomar o seu habitual improviso, num alinhamento perfeito com a banda de Liverpool.
Claro que a sua vida pacata, num povoado perdido do País de Gales, nunca mais foi a mesma, passando a ser procurada por outros grupos e pelos estúdios para enriquecer com novas texturas musicais as composições dos grupos rock mais prolíficos.
Com sólida formação em música clássica, Sarah William dava aulas de piano e, desde tenra idade, divertia-se a compor contra árias e polifonias sofisticadas para complementar composições conhecidas. Não se limitava aos tons abaixo ou acima, antes introduzindo novas melodias para dialogar e aumentar o espectro sonoro da sequência principal, ao jeito das sobreposições de diferentes árias na ópera, em dueto e terceto. Nascida nos anos 40, viveu a juventude bombardeada pelas toadas do rock, do pop e do jazz, vindas do outro lado do Atlântico. Detestava a algazarra dos magotes de fãs das bandas da década de 60, que punham os Beatles nos píncaros. Só apreciava Bach e orquestrações clássicas eruditas. Mas calhava ter uma prima fã dos miúdos de Liverpool e das modas do seu tempo. Essa prima conseguira dois bilhetes para o concerto no Hammersmith Odeon, a 10 de Dezembro. Resolvera desafiar a professora da parvónia para a acompanhar aos Beatles, o que não fora tarefa fácil. O resto da história já é sabida e o resultado foi modernizar o seu repertório musical e colaborar com mais bandas no enriquecimento das composições rock. Por seu turno, os Beatles resolveram focar-se mais no trabalho em estúdio, em vez do frenesim dos concertos, para trabalharem melhor os arranjos e as boas improvisações.
Quem diria que uns miúdos rockers saberiam tão bem reconhecer o talento de uma especialista em Bach! E quem diria que a craque na música clássica saberia reconhecer a qualidade musical daquele quarteto pop rock! Bem costumava responder Stravinski, quando lhe perguntavam pelo estilo de música preferido e onde situava a sua obra (citado por aproximação): ‘na música o que importa não são as escolas nem os estilos, mas a qualidade, se é boa ou má’! O salto para a ribalta da anónima Sarah confirmou também a magnanimidade dos Beatles a repartir os holofotes com gente dotada e igualmente melómana, vinda de outras tradições. Na beleza da linguagem musical, todos encontraram um chão comum, tendo sabido tornar complementares os diferentes contributos de uns e de outros.
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
10 fevereiro 2026
Poemas dos dias que correm
![]() |
| Os amantes (René Magritte, 1898-1967) |
O Beijo
Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?
É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'
O Instante Antes do Beijo
Não quero o primeiro beijo:
basta-me
O instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.
Mia Couto, in 'Tradutor de Chuvas'
Mais Beijos
Devagar...
outro beijo... ou ainda...
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!
Mais beijos!...
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!
Sim, amor..
deixa que se alongue mais
este momento breve!...
— que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!
Judith Teixeira, in 'Antologia Poética'
09 fevereiro 2026
08 fevereiro 2026
V Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mateus 5, 13-16
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Vós sois o sal da terra.
Mas se ele perder a força, com que há de salgar-se?
Não serve para nada,
senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
mas sobre o candelabro,
onde brilha para todos os que estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».
07 fevereiro 2026
Pensamentos impensados
Joana d'Arc, devido à pena a que foi condenada, pode ser considerada a primeira tosta mística.
Um dia, um numismata impingiu-me uma conversa interminável sobre moedas; acabei por dizer-lhe: numismata mas mói.
Falemos de casacos de pele de animais: se tiverem pelos, diz-se casaco de peles, se não tiverem chamam-se casacos de pele. Alguém me explica?
O pau-santo é uma madeira exótica; o pau de Cabinda é uma madeira erótica.
Às pessoas que se lamentam dizendo que os seus amigos estão todos a morrer, costumo argumentar: é natural, toda a gente morre antes de nós.
SdB(I)
06 fevereiro 2026
Poemas dos dias que correm
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem..
Sei ter o pasmo essencial
que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo….
05 fevereiro 2026
Músicas dos dias que correm *
04 fevereiro 2026
Do silêncio e da lentidão *
![]() |
| Toronto, Outubro de 2014 |
Dá Tempo à Tua Vocação
Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações. Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti. E, se a atraiçoas, é a ti que desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente, pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula. O tempo é que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil. Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas, não se te impõe como a solução de um enigma, mas como um apaziguamento dos litígios e uma cura dos ferimentos. E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão. Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos.
Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"
03 fevereiro 2026
Poemas dos dias que correm
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.
Hilda Hilst, in Roteiro do Silêncio, 1959
02 fevereiro 2026
01 fevereiro 2026
IV Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mateus 5,1-12
Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
31 janeiro 2026
Pensamentos Impensados
Há partes do corpo das senhoras em que não se deve mexer seja por res...peito seja por re...seio.
Elogio a uma menina com namoro: espero que ele esteja à sua altura embora nem lhe chegue aos calcanhares.
Usava uns óculos com umas lentes tão fracas que, dir-se-ia, as usava só para fazer vista.
Quem, num exame, “apanha” 19 valores, deve ser burro, pois não teve capacidade para estudar matéria que só valia 1 valor.
SdB(I)
30 janeiro 2026
Das doenças *
Do dicionário:
Caturraadjectivo de 2 géneros
1. teimoso
2. pouco receptivo a inovações
nome de 2 géneros
1. pessoa teimosa
2. pessoa apegada a pontos de vista ultrapassados
nome feminino
ORNITOLOGIA (Nymphicus hollandicus) ave australiana, da família dos Psitacídeos, apresenta geralmente plumagem cinzenta no corpo e face amarelada com mancha laranja e penacho na cabeça, sendo muito apreciada como animal de estimação; calopsita.
Ora, caturra, como pode ver-se pela definição do dicionário, está muito longe de ser aquilo que algumas famílias entendem ser. E calisto não é mais, ainda segundo o dicionário, do que indivíduo cuja presença, no jogo, é de mau agouro. No entanto, apesar das definições correctas, algumas famílias continuarão a usar calisto e caturra como uma espécie de opostos, ainda que nada tenham a ver um com o outro.
À medida que o tempo passa, olhamos com outros olhos para os caturras (e vamos deixar os calistos de parte). Maçador como consigo ser, há muito que deixei de entender como caturrice o que algumas pessoas faziam, e cujas histórias me eram contadas por gente que ria delas. Partir com um machado uma mobília que se fez com as próprias mãos, só porque o destinatário pediu que fosse pintada de roxinho, não é caturrice. Deixar mulher e filhos e debandar para o Brasil à procura de aventura, de solidão ou de sei lá o quê, não é caturrice. Lembro-me ainda, era eu detentor de uma enorme ignorância (ainda assim menor do que aquela de que sou detentor hoje) de dizer que estas pessoas não eram caturras, mas apenas gente que infernizou a vida do próximo. Achamos graça só porque não vivemos com eles, não sofremos na pele ou no coração os seus aparentes disparates.
Ontem almocei com um amigo. No meio de conversas sobre perturbações do nosso sistema neuronal tomei conhecimento com uma doença, mais especificamente com o nome de uma doença, reconhecida como estado patológico desde 1990: misofonia, de miso (aversão, ódio) e fonia (som), o que significa que é uma reação forte a determinados sons. Sons que podem ser de alguém que clica insistentemente numa caneta, alguém que tamborila com os dedos no tampo de uma mesa, alguém que assobia baixinho uma toada qualquer. Sons esses, como me foi contado, que provocam alterações graves e perturbadoras em pessoas que sofrem desta patologia.
Olho para trás, para derramar um olhar mais lúcido sobre uma ideia que já tinha: estas famílias de que falo não tinham caturras, não tinham gente com graça ou com hábitos curiosos ou peculiares. E, mais grave ainda, aquilo que eu entendia, ignorantemente, como um processo de infernização das vidas alheias, tem um nome: chama-se síndrome de Asperger, bipolaridade, misofonia, esquizofrenia ou cólera. A ciência e o conhecimento psiquiátrico ou psicológico da mente humana desqualificaram algumas pessoas: de divertidos passaram a doentes, de caturras passaram a doentes.
Olhar para trás com este conhecimento técnico é perceber que o humor pode só ser interessante se divertir o nosso mais próximo. Caso contrário pode ser uma doença, com um nome já existente ou a existir, que a catalogará. O assustador são os padrões que descortinamos numa família...
29 janeiro 2026
28 janeiro 2026
Vai um gin do Peter’s ?
DOIS EXTREMOS: “LET IT BE” e “YESTERDAY”
O desgosto pela perda da mãe, aproximou os dois adolescentes melómanos, que se tinham conhecido há pouco tempo – Lennon e McCartney. A matriarca Julia Lennon morrera repentinamente, num acidente, tinha John uns 18 anos, enquanto Mary McCartney fora vítima de cancro, tinha Paul 14 anos. Embora trabalhasse muito e parasse pouco em casa, a família respirava e apoiava-se na sua presença maternal. Depois de chegar tarde do trabalho, ainda cozinhava as refeições para o dia seguinte. Os filhos mal a viam, mas adivinhavam a sua ajuda incansável! Não conseguiam ter carro – comentava Paul – mas geriam bem o dia-a-dia, sustentado no trabalho árduo da mãe e do pai. Por isso, também do ponto de vista financeiro, a morte de Mary desestabilizou o modesto equilíbrio dos McCartney.
Lennon, filho de pais separados logo nos primeiros anos de vida, sofreu cedo a morte do tio que o acompanhou na infância, pois fora adoptado por ele e pela irmã da sua mãe – a tia Mimi. Ainda assim, mantinha contacto com a mãe Julia, que tinha imenso humor e veia musical. Foi considerada por biógrafos de J.Lennon como a sua principal musa. Recebera dela a primeira guitarra e com ela aprendera a apreciar o rock’n roll. Aos 18 anos, sofreu uma dupla perda materna: a primeira, com a mudança para casa dos tios por impossibilidade de viver com a instável mãe, a segunda com o atropelamento fatal de Julia. A sequência de perdas afectivas, na infância e na juventude, poderão estar na origem do seu carácter agressivo e rebelde, que encontrou um escape na música, por onde ecoou o desgosto insarável da maior dor – a Partida materna. Os títulos de algumas composições são auto-explicativos: «Julia», «My Mummy’s death», «Mother». Esta ária inaugura o álbum homónimo, publicado em 1970, sob a marca John Lennon/Plastic Ono Band. Termina num estrilho dorido, entoado, quase gritado, a evocar a ferida antiga, nunca sarada: «Mama don't go /Daddy come home». O álbum fecha com «My Mummy's Dead», onde o Beatle canta a incompreensão pelo aguilhão persistente e doloroso causado pelo trágico falecimento da mãe.
| John Lennon (8 /9 anos) e a mãe, aprox. em 1949, em Rock Ferry, Cheshire, Inglaterra. |
| O pai de John Lennon, com quem o filho tinha uma relação conflituosa. |
O sofrimento deu uma cumplicidade adicional à parceria imbatível dos dois órfãos de mãe, John e Lennon, ambos q.b. perdidos na vida, mas transbordantes de talento musical e de vontade de viver as novidades entusiasmantes dos loucos anos 60. Entre guitarradas, composições musicais, drogas e namoradas, saboreavam o dia-a-dia com voragem, sem limites, maximamente inebriados. Enfrentavam, depois, a hora das teimosas ressacas e insónias, a relembrar-lhes o vazio das suas vidas desenraizadas, demasiado inconstantes, feridas por um desamor profundo, que exacerbava a fragilidade de tanto rodopio divertido, mas alucinante, fugaz.
Numa noite de insónia mais feroz, em 1965, McCartney acabou por dormitar e ter um sonho profético com a mãe, que lhe transmitiu palavras consoladoras, reconciliando-o com o desgosto da sua Partida prematura e, sobretudo, incutindo-lhe esperança no futuro: «I woke up with a great feeling. It was really like she had visited me at this very difficult point in my life and gave me this message: ‘Be gentle, don’t fight things, just try and go with the flow and it will all work out. It’ll be all right. Don’t worry too much, it will turn out OK’». De facto, acordou cheio de paz e até revigorado, falando daquele reencontro com a mãe, em sonhos, como um clímax de felicidade numa vida de altos e baixos acentuados. Apressou-se, por isso, a escrever a mensagem do sonho, que vinha já envolta em música: «When I find myself in times of trouble, Mother Mary comes to me / Speaking words of wisdom: LET IT BE.». Assim nasceu uma das obras mais famosas dos Beatles. A gravação só arrancou em 1969, quando o grupo se aproximava da ruptura. Conheceu, em 1970, uma versão remasterizada, após a cisão do quarteto com Lennon, pelo que foi gravada a três. Mas teve o contributo da voz da namorada de McCartney – a fotógrafa norte-americana Linda Eastman – no acompanhamento coral. Começava a parceria musical de Paul e Linda. Conhecera-a num bar, em 1967, e rapidamente ela tornou-se no seu sustentáculo, inclusive a nível artístico. Considerava-a um presente da atenta mother Mary: «Not very long after the dream, I got together with Linda, which was the saving of me. And it was as if my mum had sent her, you could say.»
27 janeiro 2026
Textos dos dias que correm
Agradecer o que não nos dão
O mais comum é agradecer o que nos foi dado. E não nos faltam motivos de gratidão. Há, é claro, imensas coisas que dependem do nosso esforço e engenho, coisas que fomos capazes de conquistar ao longo do tempo, contrariando mesmo o que seria previsível, ou que nos surgiram ao fim de um laborioso e solitário processo. Mas isso em nada apaga o essencial: as nossas vidas são um recetáculo do dom.
Por pura dádiva recebemos o bem mais precioso, a própria existência, e do mesmo modo gratuito fizemos e fazemos a experiência de que somos protegidos, cuidados, acolhidos e amados. Se tivéssemos de fazer a listagem daquilo que recebemos dos outros (e é pena que esse exercício não nos seja mais habitual), perceberíamos o que a poetisa Adília Lopes repete como sendo a sua verdade: «sou uma obra dos outros». Todos somos.
A nossa história começou antes de nós e persistirá depois. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, de gestos, boas vontades, sementeiras, afagos, afetos. Colhemos inspiração e sentido de vidas que não são nossas, mas que se inclinam pacientemente para nós, iluminando-nos, fundando-nos na confiança. Esse movimento, sabemo-lo bem, não tem preço, nem se compra em parte alguma: só se efetiva através do dom.
Por isso é que quando ele falta a sua ausência indelével faz-se sentir a vida inteira. O seu lugar não consegue ser preenchido, mesmo se abunda uma poderosa indústria de ficções de todo o tipo com a inútil pretensão de ser oblívio e substituição para essa espécie de fala geológica que nos morde.
Hoje, porém, dei comigo a pensar também na importância do que não nos foi dado. E a provocação chegou-me por uma amiga que confidenciou: «Gosto de agradecer a Deus tudo o que Ele me dá, e é sempre tanto que nem tenho palavras para descrever. Sinto, contudo, que lhe tenho de agradecer igualmente o que Ele não me dá, as coisas que seriam boas e que eu não tive, o que até pedi e desejei muito, mas não encontrei. O facto de não me ter sido dado obrigou-me a descobrir forças que não sabia que tinha e, de certa maneira, permitiu-se ser eu».
Isto é tão verdadeiro. Mas exige uma transformação radical da nossa atitude interior. Tornar-se adulto por dentro não é propriamente um parto imediato ou indolor. No entanto, enquanto não agradecermos a Deus, à vida ou aos outros o que não nos deram, parece que a nossa prece permanece incompleta. Podemos facilmente continuar pela vida dentro a nutrir o ressentimento pelo que não nos foi dado, a compararmo-nos e a considerarmo-nos injustiçados, a prantear a dureza daquilo que em cada estação não corresponde ao que idealizamos.
Ou podemos olhar o que não nos foi dado como a oportunidade, ainda que misteriosa, ainda que ao inverso, para entabular um caminho de aprofundamento... e de ressurreição. Foi assim que numa das horas mais sombrias do século XX; desde o interior de um campo de concentração, a escritora Etty Hillesum conseguiu, por exemplo, protagonizar uma das mais admiráveis aventuras espirituais da contemporaneidade. No seu diário deixou escrito:
«A grandeza do ser humano, a sua verdadeira riqueza, não está naquilo que se vê, mas naquilo que traz no coração. A grandeza do homem não lhe advém do lugar que ocupa na sociedade, nem no papel que nela desempenha, nem do seu êxito social. Tudo isso pode ser-lhe tirado de um dia para o outro. Tudo isso pode desaparecer num nada de tempo. A grandeza do homem está naquilo que lhe resta precisamente quando tudo o que lhe dava algum brilho exterior, se apaga. E que lhe resta? Os seus recursos interiores e nada mais.»
José Tolentino Mendonça in Expresso, 18.4.2014
26 janeiro 2026
25 janeiro 2026
III Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mateus 4,12-23
Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-Se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:
«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,
uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me
e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,
a consertar as redes.
Jesus chamou-os
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
proclamando o Evangelho do reino
e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
24 janeiro 2026
Pensamentos Impensados
Nos restaurantes a comida aparece por portas e travessas.
O primeiro "mano a mano" que a história regista foi o que opôs Caim e Abel: ganhou o mano Caim.
A última coisa a dizer-se a uma viúva indiana que vai ser queimada viva é pira-te.
Os supositórios têm efeitos rectoactivos?
Fractura de mão é manufractura?
SdB (I)
23 janeiro 2026
Textos dos dias que correm
— Pequim é um monstro! — disse Camilloff oscilando refletidamente a calva. — E agora considere que a esta capital, à classe tártara e conquistadora que a possui, obedecem trezentos milhões de homens, uma raça subtil, laboriosa, sofredora, prolífica, invasora... Estudam as nossas ciências... Um cálice de Médoc, Teodoro!... Têm uma marinha formidável! O exército, que outrora julgava destroçar o estrangeiro com dragões de papelão donde saíam bichas de fogo, tem agora tática prussiana e espingarda de agulha! Grave!
— E todavia, general, no meu país, quando, a propósito de Macau, se fala do Império Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e dizem negligentemente: «Mandamos lá cinquenta homens, e varremos a China...»
A esta sandice — fez-se um silêncio. E o general, depois de tossir formidavelmente, murmurou, com condescendência:
— Portugal é um belo pais...
Eu exclamei com secura e firmeza:
— É uma choldra, general.
Eça de Queiroz, in O Mandarim
22 janeiro 2026
21 janeiro 2026
Da diferença entre 'queixar-se' e 'manifestar uma preocupação'
Um dia destes, entre uma bicada numas amêijoas à Bulhão Pato e uma bicada numas plumas de porco preto, dei por mim a dialogar sobre a diferença entre alguém 'queixar-se' e alguém 'manifestar uma preocupação'. Afinal, o tema não é despiciendo: tendemos naturalmente para nos impacientarmos com os primeiros, e tendemos de forma igualmente natural para nos solidarizarmos com os segundos. Ouvir uma pessoa e decidir que ela está a queixar-se ou apenas a demonstrar uma preocupação pode suscitar respostas completamente diferentes.
O dicionário Priberam define 'queixar[-se]' (também) como lamentar-se, mostrar-se ofendido ou indignado. Por outro lado, a expressão 'manifestar preocupação por' pode definir-se (também) como um estado de inquietação, ansiedade ou receio sobre algo que pode dar errado ou que necessita de atenção. É uma demonstração de apreensão por uma situação, pessoa ou problema.
A diferença entre 'queixar-se' e 'manifestar uma preocupação' poderá estar no tom, na intenção e na forma como ouvimos quem profere o lamento. 'Queixar-se' envolve insatisfação ou descontentamento com algo e costuma ter um tom mais emocional, negativo ou crítico, podendo ser percebido como simples reclamação ou como algo pouco construtivo. Já a 'manifestação de preocupação' envolve cuidado, atenção ou alerta sobre um possível problema. Tem um tom mais neutro, respeitoso e racional, sugerindo intenção construtiva, muitas vezes com um foco na prevenção de consequências ou na melhoria de uma situação.
O meu interlocutor defendia que a queixa é de alguma forma egoísta, nomeadamente quando a pessoa se lamenta, não tomando nenhuma decisão. Exemplo: tem muito trabalho. Porém, quando o lamento tem impacto noutras pessoas já configura a manifestação de uma preocupação. Exemplo: o trabalho que dá a manutenção de casas porque a sua alienação pode afectar potenciais herdeiros. Eu defendi que a diferença entre a queixa e a manifestação de preocupação está, também, no tom de voz e na repetição; e defendi que apenas em casos claramente óbvios essa diferença é óbvia. Fora isso, há uma enorme zona cinzenta relativamente à qual a diferença entre um estado e o outro é muito ténue, sendo que depende, também, de quem ouve. Na verdade, do que dizemos só metade nos pertence; a outra metade é de quem nos escuta.
A definição constante acima é bastante clara. No entanto, quem pode dizer que a queixa de muito trabalho não tem uma motivação construtiva por trás? No seu roman à clef intitulado Vidas Concêntricas, escreve Adalberto Cristina Carvalho: Hélder tinha uma generosidade que era filha da preguiça, como que a comprovar que uma virtude poderia ser motivada por um pecado; e tinha uma forma de lamento homeopática que, dizia ele, o ajudavam a combater a misantropia - a queixa como alívio. O incómodo para os outros - uma espécie de pecado social - era motivado pela virtude.
Há diferença entre dizer 'queixo-me dos custos dos materiais' ou dizer 'tenho uma preocupação com os custos dos materiais'? Podemos dizer à primeira que, no fundo, embora use a expressão 'queixa', essa pessoa está a manifestar uma preocupação? E podemos dizer à segunda que, no fundo, apesar de manifestar preocupação, essa pessoa não faz mais do que queixar-se? O que as diferencia?
Neste tema, como em tantos outros, teremos de usar de bom senso:a forma como ouvimos o lamento, se o lamento é transformado numa acção, a motivação, o histórico da pessoa que profere o lamento, a forma como o ouvimos e a nossa opinião sobre a referida pessoa, o universo humano associado ao lamento.
JdB
20 janeiro 2026
Poemas dos dias que correm
Os Meus Livros
Os meus livros (que não sabem que existo)São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"
19 janeiro 2026
18 janeiro 2026
II Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – João 1,29-34
Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d’Ele que eu dizia:
“Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim”.
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim batizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a batizar em água é que me disse:
“Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que batiza no Espírito Santo”.
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
17 janeiro 2026
Pensamentos Impensados
Atendendo a que todos os meses têm um signo, qual será o signo do 13º mês?
Tentaram promover uma exposição pornográfica, mas foi vetada; foi uma espécie de veto de castidade.
Os subsídios concedidos ao teatro podem ser considerados como despesas de representação?
Tomou um remédio para as alergias e ficou com alergia ao remédio.
SdB (I)
16 janeiro 2026
O músico *
Habituei-me a vê-lo, nos últimos dois ou três anos, numa das ruas mais movimentadas da zona onde vivo. Relativamente novo, pelos quarenta anos, aparentou sempre um ar distinto, para o qual contribui o ar lavado e as roupas em bom estado, não obstante algum desenquadramento com a moda.
Durante cerca de uma hora ouve-se fado tocado com o maior sentimento. De guitarra na mão, o Alberto percorre as melodias que revelam a alma portuguesa funestamente melancólica. A qualidade é francamente elevada, pelo que as pessoas param, encostam-se a uma parede, ouvem com deleite. No fim, aproximam-se do músico, elogiam-lhe a arte, afagam o cão, deixam uma recompensa generosa na caixa da guitarra.
Quando o sol se põe e o movimento diminui, o Alberto recolhe, acompanhado do cão e de uma bengala, auxiliares que lhe tacteiam os obstáculos e o guiam na selva urbana. Ao chegar a casa, um apartamento herdado num bairro de classe média, cumpre religiosamente as suas rotinas: um bom prato de comida que o cão chamado Esperto merece recompensa; uma música suave para acalmar a tensão do dia e, por vezes, um banho quente e longo que revigora e relaxa.
Correu-te bem o dia, Alberto?
Não me posso queixar…
Percorrem então, lentamente, os canais de uma televisão maçadora e repetida. Comentam as notícias, as pessoas, as roupas, os cabelos, as actrizes. Alberto fala dos espectadores que o ouvem tocar, dos visitantes assíduos, dos esporádicos, da dimensão das esmolas.
Estás melhor do que nunca, Marília.
Abraçam-se e riem muito os dois, numa voragem de emoções fortes. A Marília enamorada doentiamente por um homem vocacionado para o teatro e que sempre enganou toda a gente. O Alberto, com uma cegueira só de paixão, sem conseguir imaginar o que seria não ver o que as mãos sentem.
Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.
JdB
15 janeiro 2026
14 janeiro 2026
Vai um gin do Peter’s ?
2026 INSPIRADO PELO PEDIDO DE FLANNERY O’CONNOR
Nascida há cem anos, de vida relativamente curta, até aos 39 anos (1964), Flannery O’Connor deixou uma produção literária muito premiada – a maioria, postumamente – , sobretudo composta por contos duros, narrados em estilo seco e algo cortante. Abundam nas suas narrativas os twists imprevistos, que fazem desabar ideias pré-concebidas sobre a realidade e sobre as pessoas. Tudo parece ser testado ao limite, explorando as motivações mais profundas para expor as mil fraquezas humanas, numa destrinça lúcida entre a aselhice e a má intenção.
No seu estilo inconfundível, Flannery era genuína e corajosa a explorar os refolhos do comportamento humano, marcado por contradições, mesquinhez em excesso, mas também imprevista grandeza, quando tocado pelo dom.
| À esquerda, com a sua novela «Wise Blood». |
Pertencente à América sulista de maioria protestante e herdeira da tradição esclavagista dos grandes latifúndios, a escritora teve a invulgaridade de ser uma católica intelectual, convicta até ao âmago e avessa a sentimentalismos. Não esteve imersa na afectividade de muitos ambientes cristãos da Europa do Sul, antes em contraciclo com a maioria dos seus conterrâneos. Também não se lhe conhecem afinidades com o salero caloroso da religiosidade latino-americana. No seu mundo, avançava o materialismo e subsistia ainda o moralismo dos pregadores protestantes, que funcionavam como opinion leaders das sociedades rurais do Sul dos Estados Unidos.
Racional e rigorosa, empenhou-se com todo o seu talento literário em desconstruir o proselitismo manipulativo dos falsos profetas do seu tempo, que pregavam paraísos ocos, narcísicos, baseados em miragens e num consumismo meio desenfreado, onde a maioria vivia superficialmente, tornando-se presa fácil dos sedutores do momento e das modas da época. A sua novela «Wise Blood», sobre um pregador de uma ‘Igreja da Verdade, sem Deus’, oferece uma síntese desta decadência quase nihilista, que a autora denunciava e combatia. A obra foi transposta para o cinema por Huston (1979) com argumento adaptado pelos filhos (Michael e Benedict) dos seus amigos Fitzgerald.
Curiosamente, marcou os colegas de faculdade pelo sentido de humor, além do enorme talento na escrita e no desenho. Nos tempos da Universidade, os seus cartoons faziam furor. O temperamento tímido não a impediu de se integrar nos círculos intelectuais de Nova Iorque e de cultivar boas amizades com gente muito diversa.
Os seus contos – que uns consideram “góticos”, outros de escrita áspera e indigesta (revejo-me) ou até “grotesca” – estão impregnados de um humor sarcástico e ácido, que proporciona reviravoltas surpreendentes nas tramas sombrias, habitadas por personagens que arrastam fracasso, vícios e incontáveis limites. Será que o seu olhar só tropeçava nos falhados da vida ou serão eles a metáfora do ser humano comum, apenas com os contornos da América profunda? Segundo a escritora, os traços caricaturais dos seus anti-heróis serviam de alerta para as mentes embutidas e desatentas do grande público (basicamente, todos nós), já só capaz de captar imagens e mensagens extremadas, hiperbólicas sobre os perigos camuflados que pululam na vida. A possibilidade de happy end residia na graça. Explica a autora: «Resumindo, descobri, ao ler a minha própria escrita, que o meu tema na ficção é a acção da Graça em território dominado, em grande parte, pelo diabo, (ao ponto de) o diabo (poder) ser instrumento involuntário da Graça.»
Quando lhe foi diagnosticada a doença autoimune lúpus (1951), de que o pai morrera, viu-se forçada a abandonar a vida cosmopolita de Manhattan e a mudar-se definitivamente para a quinta da família – “Andalusia”. Naqueles últimos 13 anos manteve-se fiel à disciplina diária da escrita, a par de cuidar das plantas e dos seus queridos pavões. Recebia também muitas visitas e viajava, quando as dores abrandavam, para dar conferências pelo país. Tinha de gerir forças para aguentar o peso de cada dia: «Tenho uma doença chamado lúpus e tomo um medicamento chamado ACTH, e consigo viver bem com ambos. O lúpus é uma daquelas coisas na categoria do Reumatismo; vem e vai; quando vem, retiro-me, quando vai, aventuro-me. O meu pai teve-o há cerca de 12 ou 15 anos, mas na altura não havia nada a que se pudesse recorrer senão ao coveiro; agora pode ser controlado com ACTH. Tenho energia suficiente para escrever, e como isso é tudo o que realmente tenho de fazer, posso, com um olho semicerrado, tomar tudo isto como uma bênção.» (in carta a Elizabeth e Robert Lowell, a 17.MAR.1953).
Mesmo sem conseguir apreciar parte da sua obra bastante crua, reconheço-lhe linhas geniais e luminosas, como este pedido, sob a forma de oração, que ajudam a inaugurar o ano de 2026, em beleza:
«Ó Rafael, guia-nos em direcção àqueles que esperamos, àqueles que nos esperam:
Rafael, Anjo do encontro feliz, guia-nos pela mão até àqueles que procuramos.
Que todos os nossos movimentos sejam conduzidos pela tua Luz e transfigurados pela tua alegria.
Anjo, guia de Tobias, apresenta o pedido que aqui te entregamos aos pés d’Aquele cujo Rosto desvelado tens o privilégio de contemplar. Solitários e cansados, esmagados pelos desencontros e mágoas da vida, sentimos a necessidade de te chamar e de implorar a protecção das tuas asas, para que não sejamos como estranhos na província da alegria, ignorantes das preocupações da nossa pátria.
Lembra-te dos fracos, tu que és forte, tu cuja morada está para além da região do trovão, numa terra sempre pacífica, sempre serena e luminosa com a resplandecente glória de Deus. Amen.»
Também delicioso e bem apanhado é o introito de Flannery a este pedido a Rafael: «Detesto recitar a maioria das (novenas, orações) escritas por santos-em-estado-emocional. Sinto-me como se estivesse a usar as melhores roupas de outra pessoa, e nunca consigo descrever o meu coração como “ardente” diante do Senhor (que o conhece melhor do que ninguém) sem me rir.»
Que as surpresas do Novo Ano consigam tocar-nos de forma benigna, para não sermos nunca estranhos na terra da alegria.
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
13 janeiro 2026
Poemas dos dias que correm
| Paredão do Estoril, etc. e tal |
Reconhecimento à loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exatamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.
Almada Negreiros
12 janeiro 2026
11 janeiro 2026
Festa do Batismo do Senhor
EVANGELHO – Mateus 3,13-17
Naquele tempo,
Jesus chegou da Galileia
e veio ter com João Baptista ao Jordão,
para ser batizado por ele.
Mas João opunha-se, dizendo:
«Eu é que preciso de ser batizado por Ti,
e Tu vens ter comigo?».
Jesus respondeu-lhe:
«Deixa por agora;
convém que assim cumpramos toda a justiça».
João deixou então que Ele Se aproximasse.
Logo que Jesus foi batizado, saiu da água.
Então, abriram-se os céus
e Jesus viu o Espírito de Deus
descer como uma pomba e pousar sobre Ele.
E uma voz vinda do Céu dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência».
10 janeiro 2026
Pensamentos Impensados
Mário de Sá-Carneiro escreveu um pouco mais de Sol e eu era brasa e é citado e aplaudido; vou também dizer qualquer coisa: um pouco mais de Fevereiro e eu era bissexto.
Era um fotógrafo de renome mas um dia sofreu um desaire: fotografou o arco-íris a preto e branco.
Quando falamos de energias renováveis, será que estamos a falar de doping?
A ASAE e a Brigada de Narcóticos apreenderam o Auto de Mofina Mendes, de Gil Vicente; pensaram que era Morfina Mendes.
SdB (I)
09 janeiro 2026
Da ideia de Céu
Leio o livro acima, por sugestão de um amigo. De uma forma potencialmente simplista, o livro assenta numa história fácil de contar: Javier Cercas, escritor espanhol que se considera (e cito) ateu, anticlerical, laicista militante, racionalista obstinado e ímpio inveterado, é desafiado pelo Vaticano para acompanhar o Papa Francisco na sua viagem à Mongólia e para escrever um livro, tendo-lhe sido dado acesso a figuras altas do Vaticano. O escritor impõe, no entanto, uma condição: poder estar a sós com o Papa durante 5 minutos para lhe perguntar se, depois de morrer, a sua (do escritor) mãe verá o pai (do escritor) que já morreu. No fundo, precisa de informar a mãe se há Céu, e quer interrogar o Papa sobre a ressurreição da carne e sobre a vida eterna. Na fase em que estou essa conversa já existiu, mas não se sabe o que o Papa respondeu. Ou ainda não se sabe, ou nunca se saberá.
A conversa sobre este livro surgiu num jantar de amigos, todos católicos. Discutiu-se o que nós achamos, o que o Papa acha, o que o Papa pode ou deve responder (e poder e dever são coisas diferentes). Talvez a resposta mais próxima da certeza teológica seja esta: o Céu é a contemplação de Deus. No entanto, eu gostaria que o Papa respondesse: não sei. Gostava que ele respondesse uma coisa humana, feita de um desconhecimento humano mas, também, de uma esperança humana.
O meu Pai, já aqui o escrevi, tinha também essa dúvida sobre o que era o Céu, quem e como iria encontrar quando morresse. A minha visão do Céu é algo infantil, talvez, ou apenas humanamente ingénua e compreensível: quero encontrar a minha filha. E não só quero, como estou mais do que certo de que irei encontrá-la; se assim não for, muitas coisas em que acredito não farão sentido.
Não domino os dogmas da igreja Católica, mas parece-me que a ideia de Céu não é dogmática, pelo que cada um de nós pode - dentro dos limites da razoabilidade - imaginar o Céu à sua maneira, encontrar uma definição pessoal do que é a ressurreição da carne ou a vida eterna. Se eu quero contemplar Deus, como lugar geométrico da felicidade eterna? Sim, quero, mas sou revolucionário: talvez a contemplação da felicidade eterna seja a contemplação de uma filha que morreu com 7 anos. E nisso não estou sozinho: todos os Pais enlutados com que conversei - e muitos não seriam crentes - tinham a mesma esperança: a de encontrar um dia o seu filho ou filha. Seguramente que a sua ideia de felicidade eterna (ou apenas de felicidade desejada) é a contemplação, feliz e desprovida de angústia, de um filho que lhes morreu (muito) cedo demais. É a alegria do reencontro porque é isso, também, que os sustenta.
Como ainda não cheguei ao fim do livro, não sei se se saberá a resposta do Papa à inquirição do escritor. Se a resposta constar do livro, só rezo para que não seja uma resposta excessivamente teológica, feita de um jargão que não nos conforta a alma nem nos alimenta a fé. Ou o Papa tem certezas - do que duvido - ou então que responda: não sei se existe, não sei como é, mas estou em crer que será bom. Depois disso olharei para a minha fotografia com o Papa durante a sua vinda a Lisboa e imaginarei que ele me confortou: sim, acredito que vais encontrar a tua filha. É imaginação eu sei, mas para já chega.
JdB
08 janeiro 2026
07 janeiro 2026
Poemas dos dias que correm
Para vir a gostar de tudo
Para vir a gostar tudo,Não queiras ter gosto em nada.
Para vir a saber tudo,
Não queiras saber algo em nada.
Para vir a possuir tudo,
Não queiras possuir algo em nada.
Para vir ao que não gostas,
Hás-de ir por onde não gostas.
Para vir ao que não sabes,
Hás-de ir por onde não sabes,
Para vir a possuir o que não possuis,
Hás-de ir por onde não possuis.
Para vir ao que não és,
Hás-de ir por onde não és.
Quando reparas em algo,
Deixas de arrojar-te ao todo.
Para vir de todo ao todo,
Hás-de deixar-te de todo em tudo.
E quando o venhas de todo a ter,
Hás-de tê-lo sem nada querer.
Nesta desnudez acha o espírito o seu descanso
Porque não cobiçando nada,
Nada o afadiga para cima e nada o oprime
para baixo porque está no centro
da sua humildade.
S. João da Cruz
Da Oração
Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:
Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.
Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?
Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?
Frei Agostinho da Cruz (Agostinho Pimenta), in 'Sonetos'
06 janeiro 2026
Da leveza *
Durante 20 anos trabalhei em fábricas, espaços que são mais, muito mais, do que zonas onde se transformam matérias-primas e se manufacturam produtos acabados, e onde se alinham maquinarias diversas segundo uma lógica qualquer. Uma fábrica, como já o disse aqui por várias vezes, é um micro-cosmos de vidas, uma sociedade em pequena escala com regras próprias e existências específicas.
Na minha actividade de empregado fabril travei inúmeros contactos com pessoas ligadas ao marketing e às vendas. Detectava-lhes no olhar e nas conversas uma certa estranheza quanto aos nossos processos, à nossa forma de pensar, aos nosso ritmos e à nossa noção de tempos, prazos, gestão e eficácia. Presumi-lhes a diferença pelo facto de sermos engenheiros quase todos, com um jargão próprio e uma desatenção atávica às necessidades dos consumidores.
O que nos diferenciava não era essa aparente ignorância do que a dona de casa queria no remanso do seu lar, ou uma certo jargão próprio, já que todos os misteres os têm, independentemente de serem multinacionais ou agremiações profissionais. O que nos separava era uma palavra simples: leveza.
O mundo está todo feito para a leveza - não só dos equipamentos, cada vez mais pequenos e em materiais menos pesados, mas das vidas. A comida de fusão tem uma leveza semelhante à volatilidade das relações conjugais, porque uma conjugalidade duradoura tem a densidade de um regionalismo gastronómico. A felicidade dos tempos modernos é um desejo de leveza: descartável, utilitária, frívola, sem critério de compromisso nem desejo de perenidade. Os corpos são leves, não porque haja nisso saúde, mas porque queremos saltitar entre nenúfares. O futuro é pesado, só o presente é leve.
Uma fábrica é, toda ela, pesada, por oposição ao seu contrário. Planeamentos, ordenação de maquinaria volumosa, cálculos de eficiências e encadeamento de acções para definição de caminhos críticos, gestão e classificação de pessoal especializado ou indiferenciado, folhas de cálculo, são o oposto da leveza com que o mundo quer viver hoje em dia. A deslocalização não é, portanto, a procura da redução de custos de mão de obra, mas o desejo de estar actualizado, estar à moda, ser ligeiro, efémero, sorridente.
A diferença entre um engenheiro de fábrica e um profissional de marketing reside numa palavra apenas: leveza.
JdB
* publicado originalmente a 25 de Setembro de 2017
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal
Arquivo do blogue
-
▼
2026
(43)
-
▼
fevereiro
(12)
- Músicas dos dias que correm
- Vai um gin do Peter’s ?
- Poemas dos dias que correm
- Para um começo de semana sereno (XXXVIII)
- V Domingo do Tempo Comum
- Pensamentos impensados
- Poemas dos dias que correm
- Músicas dos dias que correm *
- Do silêncio e da lentidão *
- Poemas dos dias que correm
- Músicas dos dias que correm
- IV Domingo do Tempo Comum
-
►
janeiro
(31)
- Pensamentos Impensados
- Das doenças *
- Em memória de António Chainho (1938 - 2026)
- Vai um gin do Peter’s ?
- Textos dos dias que correm
- Para um começo de semana sereno (XXXVII)
- III Domingo do Tempo Comum
- Pensamentos Impensados
- Textos dos dias que correm
- Fados dos dias que correm
- Da diferença entre 'queixar-se' e 'manifestar uma ...
- Poemas dos dias que correm
- Para um começo de semana sereno (XXXVI)
- II Domingo do Tempo Comum
- Pensamentos Impensados
- O músico *
- Interpretações dos dias que correm
- Vai um gin do Peter’s ?
- Poemas dos dias que correm
- Para um começo de semana sereno (XXXV)
- Festa do Batismo do Senhor
- Pensamentos Impensados
- Da ideia de Céu
- Músicas dos dias que correm
- Poemas dos dias que correm
- Da leveza *
-
▼
fevereiro
(12)


