15 setembro 2015

Duas Últimas

Este fim de semana, completando uma série intensa desde Junho, estive num casamento. Melhor, em dois, separados por 70 km de estrada alentejana. O primeiro era da filha de grandes amigos - sobretudo de uma grande amiga a quem me liga uma amizade com 40 anos e muitas confidências esperançosas e lamentosas. 

Na homilia, o Pe. Nuno Amador sugeriu três palavras que seriam, segundo me pareceu, uma espécie de legado do nosso Pe. Ricardo para os casamentos: criatividade, persistência, obediência. Se para as duas primeiras palavras não haverá resistência, a terceira será mais difícil de engolir. Temos uma relação menos boa com a obediência, dificuldade essa que se intensifica quando supomos (e a suposição é totalmente errada) que teremos de obedecer ao nosso cônjuge.

Enfim, retornemos à amizade. Há muitos anos, talvez mais de 30, fui com esta amiga e outras pessoas próximas passar uns dias ao Algarve. Nessa altura ouvíamos muito José Feliciano - ou talvez ouvíssemos apenas uma música dele, já não sei. O que sei é que daqueles dias algarvios me saiu uma letra para ser cantada na igreja. Uns versos beatos, portanto. Hoje, por puro acaso, dei por mim a ouvir a música que deu origem à letra - música que não ouvia, por quem a criou, há muitos muitos anos.

Deixo-vos com José Feliciano, na sua primeira visita a este estabelecimento.

JdB  

13 setembro 2015

24º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 8,27-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus partiu com os seus discípulos
para as povoações de Cesareia de Filipe.
No caminho, fez-lhes esta pergunta:
«Quem dizem os homens que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns dizem João Baptista; outros, Elias;
e outros, um dos profetas».
Jesus então perguntou-lhes:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».
Ordenou-lhes então severamente
que não falassem d’Ele a ninguém.
Depois, começou a ensinar-lhes
que o Filho do homem tinha de sofrer muito,
de ser rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;
de ser morto e ressuscitar três dias depois.
E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.
Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O.
Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos,
repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás,
porque não compreendes as coisas de Deus,
mas só as dos homens».
E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes:
«Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,
salvá-la-á».

12 setembro 2015

Pensamentos impensados

Vicios
Até durante o trabalho bebia, era um work alcoholic

Vestimentas alfabetizadas
Uma camisola interior com mangas, é uma T-shirt.
Sem mangas é uma I-shirt.

Eslogam
Determinadas pastilhas poderiam usar como slogan "dura sex sed sex".

Bodas
Partindo do princípio que Adão e Eva casaram, o único convidado foi Deus.

Haja respeito
Sou Católico e tenho o máximo respeito e admiração pelo Papa Francisco. Este intróito é fundamental para o que escrevo a seguir.

Nos Evangelhos não há uma referência a uma risada, piada, trocadilho por parte de Jesus Cristo.
O Papa Francisco está sempre alegre e a rir-se; será o Papa Francisco o anti-Cristo?

Trabalhos de Hércules
Os Esquimós são mais fracos do que os portugueses: não conseguem trabalhar de Sol a Sol.
Mas quando lhes dá para dormir à noite...

Germinação
O Intendente, em Lisboa, vai ser geminado com a sua congénere brasileira: meninas gerais.

Sáu-de-se quem poder
Incontinente - Militar que se recusa a fazer a continência.

SdB (I)

11 setembro 2015

Dos pormenores

Para a T. e para o F.

***

Já aqui escrevi sobre este tema: tenho uma atenção errática aos pormenores. Profissionalmente sempre fui desatento, não tenho imaginação para, num tabuleiro de pequeno-almoço, criar uma nota que dê um toque de requinte. E no entanto sou atento a outros detalhes: uma madeixa descaída sobre um olho, uma cicatriz num pulso, uma curva delicada numas costas, uma sorriso tímido que se revela mediante uma palavra-chave. A minha atenção ao pormenor tem um objectivo - a criação de uma história, a imaginação de uma vida, a suposição de um fetiche numa existência alheia. Não é por romantismo, estética ou outra coisa qualquer. É apenas uma imaginação a querer furar a opacidade de qualquer coisa. É apenas, com um grande pudor pela apropriação da frase, a louca da casa.  

Pessoa que me é muito querida enviou-me esta imagem de um cadeado, tirada na Florença onde estive há poucos anos, na ponte onde estive na mesma altura. Talvez o cadeado já lá estivesse, talvez tivesse sido posto depois por alguém que, de olhos postos num amor que se vai destruindo, num afecto que não subsiste ou numa relação que agora (re)começa, diz ao futuro: não desistirei. A imaginação é infinita, não limitada por legislação ou princípios morais.  


A fotografia pode ser apenas um cadeado - talvez barato, made in China - preso a uma travessa de uma ponte. Mas a fotografia pode ser o fotograma de um filme, um grande plano de duas pessoas que se encontraram fortuitamente no passado, que se olharam, se apaixonaram e decidiram fixar o mesmo ponto no horizonte. O cadeado pode ser apenas a junção engenhosa de peças metálicas, torneadas a preceito e respeitando os parâmetros de qualidade. Mas o cadeado pode ser o lugar geométrico de duas almas presas uma à outra, ligadas para sempre porque a chave que as desprende - o egoísmo, o orgulho, a violência verbal, o rancor - foi atirada à corrente forte de um rio que não pára. Esta chave desprende, não liberta, porque a verdadeira liberdade é a ligação que perdura. Só somos donos das coisas quando delas podemos dispor, e a liberdade que entregamos é o nosso melhor activo.

Esta ponte - se é a ponte que eu imagino - está pejada de cadeados iguais. Um, dois, cem, três mil. Mas só um, este mesmo que foi fotografado, é o protagonista do filme certo, intitulado não desistirei. Porque foi este cadeado que reteve o olhar de quem o quis ver, não com os olhos que vêm o típico, mas com o coração que adivinha o amor.

JdB 

10 setembro 2015

As portas do cerco

O estabelecimento de ensino universitário era reconhecido a nível mundial: o rigor e competência da classe docente, a taxa de empregabilidade, o rácio oferta / procura, a ausência de escândalos, a sobriedade das instalações não obstante a sua dimensão, os princípios de ética subjacentes às matérias ministradas e às conversas regulares entre professores e alunos. 

A escola, malgrado ser teoricamente mista, tinha regras muito próprias, nunca violadas: apesar do internato, dentro das instalações (porque fora delas cada pessoa seguia códigos próprios) rapazes e raparigas nunca se cruzavam, nunca se viam, estavam impossibilitados de qualquer contacto físico ou verbal. E no entanto frequentavam a mesma escola. Se era um professor a ministrar uma certa cadeira, na sala de aula só havia rapazes, sendo que as raparigas acompanhavam a matéria dada por meio de um sistema que as impossibilitava de ver os colegas e o docente; a inversa também se aplicava.

A propina dos rapazes era elevada. A das raparigas era muito baixa, sendo compensada com actividades de carácter doméstico - confeccionar a comida, lavar e engomar a roupa, pôr e levantar a mesa, fazer as camas. Nunca, mas nunca, vendo os destinatários das camisas que tratavam, dos lençóis que esticavam, dos rissois que fritavam. Um sistema de câmaras comunicantes, de portas de sentido único, de vigilância permanente garantiam a segregação absoluta. Uma espécie de apartheid ultra-rigoroso englobando todos os sentidos. Se o regime de internato lhes fosse imposto desde o dia em que nascessem, poucos saberiam que existia algo chamado sexo oposto. 

Maria frequentava esta escola há dois anos. Raramente ia a casa, pois calcorrear 500 km, qualquer que fosse o meio de transporte, não era coisa fácil - menos ainda barata - pelo que ficava por Lisboa, frequentando alguns bares ou discotecas mais decentes com colegas da escola. Num dia de Inverno rigoroso, a poucos dias do início do Advento, cruzou-se com o Manuel num bar da moda. Ficou estarrecida com o impacto. Não percebeu se era do cabelo grisalho num rapaz jovem, da boca carnuda, das pernas esguias, do tronco bem delineado numa roupa corriqueira, dos olhos peregrinos. Ou talvez fosse, apenas, a visão de um homem no final de um período de estudos e exames onde só se cruzava com mulheres. Talvez fosse tudo isso, ou ainda de um cocktail que a haviam obrigado a provar.

Nessa mesma noite Maria deitou-se a chorar. Na manhã seguinte levantou-se a chorar. Não era a primeira experiência sexual dela. Mas num carro? Com um desconhecido que lhe dizia que ia para Macau de férias, onde os pais trabalhavam? Não era possível! E no entanto tinha acontecido. Pior que tudo, divertira-se, gostara, apetecera-lhe repetir embora a probabilidade fosse baixa, já que o bar ficava fora do seu circuito. Voltou a chorar e agarrou um cesto de roupa suja para por na máquina de lavar. Foi então que se confrontou com um par de boxers de onde sobressaía uma fotografia: as Portas do Cerco e a frase de Camões: "a Pátria honrai, que a Pátria vos contempla...". Percebeu tudo ao identificar um cheiro que também era dela...

JdB           

09 setembro 2015

Duas Últimas

Sérgio Godinho completou 70 anos no final do passado mês de Agosto.

Não é novidade que se trata de personagem multifacetado e controverso. Por ele tenho terçado armas em conversas de interesse duvidoso, pois não fiquei convencido nem muito menos convenci.

Tem obra extensa, com algumas preciosidades pelo meio. E continua a fazer boa música.

Deixo-o com o “irmão” Caetano Veloso, numa música retirada dum magnífico álbum de duetos, de 2003.

fq





08 setembro 2015

Das injustiças

Sábado passado levei uma filha ao altar. Dispensarei pormenores do dia solarengo, da satisfação dos noivos, do divertimento de todos, do meu discurso de cachecol do Belenenses ao pescoço (contrariando muito vagamente uma opção clubística, já que toda a gente gosta do clube do Restelo) da alegria de ter na minha mesa três amigos que, somada a duração das amizades, ultrapassa o século. 

Às tantas falava com pessoas próximas cujas filhas tinham tido primeiros casamentos muito curtos. Meses num caso, dois anos noutro. A primeira vítima de um abandono, a segundo co-vítima de uma escolha desacertada. Ambas as raparigas, ainda que em estágios diferentes, recompuseram  a sua vida - ou estão em vias de - com relacionamentos que poderão durar uma vida. E depois, como sempre, vem-me à lembrança gente que me é próxima e que passou pelo mesmo - um insucesso curto seguido de um sucesso longo. 

Infelizmente, estes insucessos curtos ou são dolorosos ou marcam para a vida. O acesso ao sacramento do matrimónio tem um sinal de proibido, a menos que haja declaração de nulidade dos primeiros casamentos - solução a que nem todos podem, ou mesmo querem, recorrer. O mundo é-lhes por isso injusto (ou potencialmente injusto, vá...) em particular quando a educação cristã que tiveram as impele a uma vida religiosa tão completa quanto possível. É como começar uma maratona já com um joanete infectado... Bem podemos falar entusiasticamente de comunhão espiritual, que todos sabemos ser insuficiente para uma plenitude de prática que passa pela comunhão. Porque foi assim que crescemos - a comunhão é o culminar de tudo. 

O sínodo da família, convocado pelo Papa para Outubro deste ano, proporá soluções para algumas situações tipificadas. Ao que tudo indica, os processos da vulgarmente chamada anulação de casamento serão tornados mais fáceis, transformando-os numa espécie de divórcio religioso. Não o escondo: a via ortodoxa é-me muito mais simpática porque, não eliminando as declarações de nulidade, acolhe as que não se enquadram nesse figurino. Dá uma segunda oportunidade a pessoas que as querem verdadeiramente.

A igreja tem um caminho para fazer. Como sempre, fá-lo-á de forma lenta, ponderada, sustentada, sem presunção de agradar a todos, porque a universalidade é um desafio. Talvez fizesse uma sugestão (uma graça, apenas, pois ninguém, felizmente, me ouve): que acabassem com a palavra 'adultério'. E a seguir com a ideia de 'uniões irregulares'. Um segundo casamento longo, onde há amor, estabilidade, luta pelo sucesso do projecto, educação dos filhos para a ética e para a atenção ao próximo, pode ser apelidado de irregular, ou ser composto por adúlteros? As palavras não valem todas o mesmo e há expressões que são particularmente agressivas, revestidas de um rigor legislativo que aleija.

JdB    

07 setembro 2015

Vai um gin do Peter’s?

Por vezes, é preciso que as conclusões mais óbvias sobre a natureza humana sejam defendidas por cientistas de renome, para voltarmos a acreditar que são possíveis e que fazem sentido. 

Há, pelo menos, dois termos que foram tão glosados e usurpados pelos políticos (sobretudo os piores déspotas do século XX), além de desgastados por modas frívolas e pseudo-libertadoras, que ficaram reduzidos a contos infantis, bons para enganar aqueles idealistas incautos que perseguem sonhos como as crianças gostam de correr atrás de bolinhas de sabão. Depois de se tornarem em terreno fértil para as megas desilusões, sobreveio-lhes o cinismo dos sobreviventes, porque também não era possível ignorá-los. É uma dupla semântica demasiado vital para poder ser banida, apesar de todo o achincalhamento de que foi objecto, entre os equívocos da maioria e a sabotagem de uns quantos manipuladores de serviço. São eles: o amor e a verdade. Intencionalmente, vão sem maiúsculas para evocar a acepção mais universal, extensível a todos os homens de boa vontade, de qualquer latitude ou credo.   

Foi exactamente sobre eles que o Nobel da Economia, John Nash (1928-2015), se pronunciou no discurso proferido na Academia Sueca, em 1994, apoiando-se no seu inegável prestígio de génio matemático, para lhes tentar devolver o antigo significado, quando gozavam de um saudável estado de graça, no alvor da linguagem humana. Provavelmente, foi a necessidade de os verbalizar que esteve na origem da comunicação humana. Nash refere um explicitamente, enquanto o outro está subjacente pois foi o caminho que lhe franqueou o primeiro. 

John Nash corresponde ao físico e matemático interpretado por Russel Crowe em «A beautiful Mind», vencedor de 4 óscares, em 2001, incluindo o de Melhor Filme. Celebrizado pela Teoria dos Jogos e criador de teoremas vários, padeceu durante décadas de esquizofrenia, acabando por descobrir formas de controlar a doença a ponto de, a dada altura, se considerar curado. 

Estudante brilhante, com apenas 21 anos recebeu o doutoramento na Universidade de Princeton, para onde um professor de Física o tinha mandado com uma carta de recomendação tão sumária quanto eloquente: “este aluno é um génio”. 

O Nobel interpretado por Russel Crowe no filme «Uma Mente Brilhante».

Em Princeton perceberam lindamente a mensagem, pelo que acarinharam o novo estudante, confiando que viria a prestar um serviço maior ao saber. Nash correspondeu por inteiro, enriquecendo inúmeras áreas do conhecimento para lá da ciência dos números. É sua a noção revolucionária sobre a possibilidade, ou melhor, a vantagem explícita (em muitos casos) de dois competidores optarem antes pela cooperação, em vez de exacerbarem o despique, para rentabilizar o benefício de ambos. Mais: é frequente a falta de cooperação resultar em perda, segundo o Nobel. Uma estratégia inovadora, até ali circunscrita à minoria ínfima disposta a levar a sério a magnanimidade e abertura ao próximo, mesmo que ao preço de perdas assinaláveis para a facção generosa. Pela primeira vez, o gesto de cooperação via-se defendido por fórmulas matemáticas e demonstrações claras do lucro. O processo negocial avançava, assim, para a fórmula humana mais fecunda e conciliadora do win-win. De certo modo, a caridade deixava de ficar reduzida à fórmula unilateral de só um lado oferecer sempre a face, disposto a tudo. Designou-se de “equilíbrio de Nash” na sua Teoria dos Jogos. 

Voltando ao discurso proferido em Estocolmo,  o Nobel explicou a correlação entre amor e verdade numa lógica cristalina que, precisamente, uma criança poupada aos malabarismos dos cínicos terá mais facilidade em perceber: 

«Thank you (à Academia do Nobel). I've always believed in numbers and the equations and logics that lead to reason.
But after a lifetime of such pursuits, I ask,
"What truly is logic?"
"Who decides reason?"
My quest has taken me through the physical, the metaphysical, the delusional -- and back.
And I have made the most important discovery of my career, the most important discovery of my life: It is only in the mysterious equations of love that any logic or reasons can be found.
I'm only here tonight because of you [dirigindo-se à mulher, Alicia].
You are the reason I am.
You are all my reasons.
Thank you.» 

O grande matemático será daqueles casos em que a história de vida supera a grandeza do legado científico. Como Russel Crowe disse do casal, ao saber da notícia da sua morte, em Maio deste ano, eram «uma parceria incrível, mentes brilhantes, corações brilhantes.». Esteve longe de viver um mar de rosas, apesar do êxito retumbante nalgumas áreas. 

Para lá da ascensão académica meteórica, na primeira fase da vida, ressentiu-se dramaticamente mal surgiram os sintomas de esquizofrenia, quando a mulher engravidou. Ironicamente, tudo se concentrou em 1958 e 1959, entre o diagnóstico psiquiátrico, o reconhecimento no exigentíssimo mundo universitário norte-americano e o nascimento do primeiro filho. Em menos de nada, a terrível doença fez desabar tudo: primeiro a carreira universitária, tendo de ser internado; depois a relação familiar. Bondosamente, Alicia, com quem casara em 1957 depois de a ter conhecido como aluna quando leccionava no MIT, esperou um ano inteiro antes de dar o nome ao primeiro bebé, porque queria que John participasse na escolha. Em 1963, divorciaram-se de tal modo era difícil um entendimento mínimo. Sempre por perto, a mulher continuou a assisti-lo. Inclusive albergou-o em casa, logo que teve alta hospitalar, já nos anos 70, incentivando-o a superar o estado de alucinação regular que o assaltava. O lema de Alicia resumia-se a proporcionar-lhe um ambiente tranquilo e estável, cheio de afectividade. Fazendo parecer tudo simples, explicou da forma mais modesta, à biógrafa do Nobel, o modo como contribuíra para a cura inimaginável do marido: «it's just a question of living a quiet life».

De facto, a meio dos anos 80, respaldado pela mulher, John começou a melhorar consideravelmente, até se sentir curado. Segundo o próprio «saí do pensamento irracional sem medicação», numa combinação extraordinária de empenho pessoal e milagre de amor por parte da família, heroica no acompanhamento de uma doença gravíssima. Um processo win-win levado à letra, com enorme esforço de parte a parte para haver a desejável colaboração. Por isso, o matemático tinha tanta autoridade para declarar à Academia que o seu maior contributo para o conhecimento se situava numa área inexplorada do saber: «Fiz a mais importante descoberta da minha carreira, a descoberta mais importante da minha vida: É apenas nas misteriosas equações do amor que a lógica ou as razões podem ser encontradas.»

Em 2001, voltou a casar com Alicia, com quem sempre mantivera um relacionamento próximo e muito amigo. No passado Domingo 23 de Maio, encontraram juntos a morte, num desastre de automóvel, à saída do aeroporto de New Jersey, quando o táxi onde viajavam se despistou. Uma vida a dois até ao último minuto, permitindo-lhes superar em conjunto os desafios mais duros, a par de momentos gratificantes.   

John e Alicia Nash


Para lá da lição de grandeza oferecida pelo casal Nash, sobretudo Alicia transmitiu também o valor pouco reconhecido do saudável bom senso, que permite maior adesão à realidade, sem fantasias caprichosas. Sim, aquela qualidade subtil e de aparência comezinha, que funciona melhor nos bastidores, podendo soar a cinzentona para quem esteja viciado num tipo de vida híper mediatizado. A este respeito, o caso anedótico do «teste da banheira» é um bom exemplo sobre a forma como nos deixamos enredar e condicionar pelos modelos pré-fabricados que nos impingem, deixando-nos enfeitiçar por raciocínios pseudo-habilidosos e cheios de pompa, que não levam a lado nenhum, para lá do exibicionismo de egos desmesurados e incapazes de cooperar, na acepção pragmática recomendada pelo Nobel. Um problema muito comum nas sociedades ocidentais. Em último instância, o bom senso tem a ver com uma percepção correcta da vida, facilitando a descoberta da solução mais adequada para cada caso: 

Durante a visita a um hospital psiquiátrico, um dos visitantes perguntou ao
director:
- Qual o critério para decidirem quem precisa de ser
internado?
O director procurou esclarecer:
- Enchemos uma banheira com água e oferecemos ao paciente uma colher,
um copo e um balde e pedimos que a esvazie. Depois decidimos se o
hospitalizamos ou não em função do método que ele utilizar para executar a
tarefa.

- Ah! Já percebi. Uma pessoa normal usaria o balde, que é maior que o copo e a colher. – respondeu prontamente o visitante.
- Não! - respondeu o director. - Uma pessoa normal tiraria a válvula. O
que prefere, quarto particular ou enfermaria?
CONCLUSÃO: quase sempre, a vida tem mais opções do que as oferecidas, basta saber enxergá-las. 

Óptimo Agosto, esperando que alguma eventual falha no teste da banheira não tenha dado pretexto a internamento... Mas mesmo num cenário menos simpático, nada que uma negociação (com os clínicos de serviço), conduzida no espírito construtivo preconizado por Nash, não consiga resolver, a bem de todos.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

06 setembro 2015

23º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 7,31-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus deixou de novo a região de Tiro
e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia,
atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar
e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, afastando-Se com ele da multidão,
meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu,
suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,
soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar correctamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava,
tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam:
«Tudo o que faz é admirável:
faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

05 setembro 2015

Pensamentos Impensados

Sufrágeis
Teve um resultado histórico, 10% dos votantes foram unânimes.

Segredos
- Peço sigilo.
- Sigile-o você.

Mais aborto
Adoção - pastilha que adoça demasiado.

Racismo
Quem inventou a fotografia, a preto e branco, era racista.
Ignorou os peles vermelhas e os "amarelos".

Desastres
Dois automóveis chocaram frontalmente; os veículos estão em estado de choque.

Tretas
Os Ministros da Finanças quando criticados respondem à letra, com números.

Buscas
Mobilização à escala mundial: 7 biliões de pessoas procuram Deus.

Gente que enche chouriços
Estas linguiças são boas? Não são linguiças, são paios da Póvoa.

SdB (I)

04 setembro 2015

... para os dias que correm

Marriage of Willem van Loon and Margaretha Bas 1637 JM Molenear.

Casamento

Há mulheres que dizem: 
Meu marido, se quiser pescar, pesque 
mas que limpe os peixes. 
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, 
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. 
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, 
de vez em quando os cotovelos se esbarram, 
ele fala coisas como 'este foi difícil' 
'prateou no ar dando rabanadas' 
e faz o gesto com a mão. 
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez 
atravessa a cozinha como um rio profundo. 
Por fim, os peixes na travessa, 
vamos dormir. 
Coisas prateadas espocam: 
somos noivo e noiva. 

Adélia Prado, in 'Terra de Santa Cruz' 


03 setembro 2015

Sei lá...

Numa das minhas rondas de blogues encontro este início de parágrafo: "O Pátio das Cantigas" de Leonel Vieira é o filme português com o maior sucesso de bilheteira de todos os tempos. Porém, de acordo com os críticos, o seu destino não deveria ser uma sala de cinema mas o cano de esgoto." Nos parágrafos seguintes faz-se a defesa do filme, não enquanto obra cinematográfica, mas como momento de entretenimento. E diz o autor que a ninguém de bom senso lhe passa pela cabeça achar que uma sinfonia de Mahler não é superior a uma música pimba, mas não é por isso que se deve condenar esta última ao forno incinerador.

Não vi esta versão do Pátio das Cantigas mas, pelo que me têm dito, é entretenimento puro - toda a gente dá por bem empregue o dinheiro e o tempo gastos apesar de dizerem que não é um grande filme. É, em parte um bom indicador para o cinema português. Nesta senda dos filmes portugueses este domingo, talvez, vi na RTP 1 o filme "Sei Lá", baseado num livro de Margarida Rebelo Pinto, curiosamente o único que li dela - e de que não gostei. Não sou cinéfilo, pelo que me pronuncio muito com base no gostei / não gostei. Sinceramente, e usando a expressão do primeiro parágrafo, tudo aquilo deveria ter como destino o cano de esgoto, salvo uma ou outra interpretação. 



Consegue fazer-se um bom filme de um mau livro? Não sei. Admito que haja exemplos, eu não os conheço, mas nesta arte sou ignorante. É verdade que não sou da geração dos protagonistas (penso que por volta dos 30 anos) mas, por aquilo que vou ouvindo, não me parece que uma certa sociedade (que dá um beijinho apenas e tem nomes considerados tradicionais, ou que usem "você" ao falarem com o outro sexo) abusem uma liberdade de linguagem que faz corar um carroceiro, façam colecção de homens de uma noite só, vivam uma vida triste de abandono afectivo. A ideia de serviços secretos representada por aqueles dois actores é motivo de vergonha para as nossas secretas. A festa da revista, supostamente frequentada pelo jet set, é um carnaval - há casacas, há smokings, há casacos e gravatas. Não percebi, usando uma ideia do Eça, porque não havia ninguém de urso ou de tirolesa.

A ideia de suspensão da incredulidade tem 200 anos: havendo um interesse humano e uma semelhança com a verdade num conto fantástico, o leitor ignoraria a implausibilidade da narrativa. Nem com esta ideia se vai lá. Nada daquilo tem o menor interesse, a menor verosimilhança - personagens ocos, diálogos fracos, história ainda menos. Eu, confesso, não consegui suspender a minha incredulidade, e por isso me mantive espantado do princípio ao fim quando um perigoso bombista da ETa se mantém inalterado e quieto enquanto a ex-namorada e o agente secreto se escapulem na direcção da noite. O mundo não é um lugar seguro.

Nota: não vi o excerto que aqui posto. Não garanto a educação da linguagem...

JdB 

02 setembro 2015

Poemas dos dias que correm

Praia d'El-Rey, Agosto de 2015, 20.00h de uma 6ªf incerta


EIS-ME

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)

01 setembro 2015

Duas Últimas

Através de uma notícia do Observador fui a um site que revela a música que mais tocou na telefonia (a notícia diz "na rádio", mas eu não gostei...) no dia em que nasci. Fui movido pela curiosidade, que por vezes mais não é do que uma ocupação de tempos livres, ou uma disfarce para faltas de concentração. Do que me tocou em sorte gosto sobretudo da coreografia e da alegria da assistência (que me aprecem estudantes num anfiteatro)... 



Mas a notícia vai mais além, e dá-nos a enorme e feliz possibilidade de sabermos que música tocou mais no dia em que fomos concebidos. Não resisti e fui espreitar. Olhem... nem a coreografia se safa - um desinteresse total.


Divirtam-se, que eu não.

JdB

31 agosto 2015

Das saudades de quando éramos pequenos

Praia d'El Rey vista por um iPhone, 6ªfeira, 28 de Maio, pelas 20.00h

No seu ensaio intitulado Meden Agan, Álvaro T Monteiro fala sobre a iminente partida da mãe, dizendo que na morte dela vê a morte de todos os que lhe são mais próximos. Perante uma óbvia tristeza, remata: "são as saudades de quando éramos pequenos." Não há filosofia elaborada nestes dois pensamentos; não há ideias de além, de reencontros, de eternidade; não há dimensão de fé ou da sua inversa. Há, nestas duas frases que refiro / cito, uma humanidade singela, uma fragilidade terrena que só sente quem vê o mundo expandir-se (passe a contradição) até ficar do tamanho da sua infância. Num repente, são as memórias de "quando éramos pequenos" que ocupam todo o espaço de uma tela, o branco de uma página de livro, as quatorze linhas de um soneto, a infinidade de sinapses. Há um instante onde estas memórias absorvem tudo para, no instante seguinte, serem arrebatadas por uma viagem de onde não se regressa a não ser no formato fotografia, filme, roupa pendurada num armário, recibo da farmácia. Ou talvez não só.

O assunto não vem a despropósito: ontem, ao escrever este texto, cruzei-me com um artigo onde o autor mencionava sons - no caso vertente, um galo a cantar de manhã, um cão a ladrar ao fim da tarde. E falava da arqueologia que evidencia uma armadura ou um ânfora, mas que não consegue evidenciar um som. Todos temos esta incapacidade de transmitirmos aos que nos sucedem na vida e nas gerações, por mais próximos que sejam em afecto e / ou sangue, o que são os sons e os cheiros que colamos à frase são as saudades de quando éramos pequenos. Evidenciamos um casaco, um par de sapatos, uma carta antiga, um livro dedicado. Mas como explicamos o som das gaivotas a perseguirem os barcos que regressam da faina? Como descrevemos o cheiro dos eucaliptos outonais ou das compotas ou do peixe-espada grelhado ao estalar do verão? Como explicamos os sons e os cheiros da praia, dos fins de tarde, das noites quentes, das férias grandes, das famílias todas felizes e inteiras e cá?

Penso que o jogo da apanhada atravessa gerações. Há alguém que foge, há alguém que persegue. Ganha quem chegar ao sítio certo e gritar "coito!", porque ali está em segurança, ali ganhou o jogo, ali não é mais perseguido ou agarrado por um fralda de camisa. Os sons e os cheiros de quando éramos pequenos são o coito das apanhadas dos adultos. É aí que nos refugiamos quando um telefonema quebra a largueza do céu que prolonga o mar e instala uma nota desajustada na afinação do dia. Quando a alma se enregela a partir de fora, é aí que buscamos conforto, porque os cheiros e os sons da nossa infância são o agasalho que nos protege. 

São as saudades de quando éramos pequenos...

JdB  

30 agosto 2015

22º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 7,1-8.14-15.21-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
reuniu-se à volta de Jesus
um grupo de fariseus e alguns escribas
que tinham vindo de Jerusalém.
Viram que alguns dos discípulos de Jesus
comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.
– Na verdade, os fariseus e os judeus em geral
não comem sem terem lavado cuidadosamente as mãos,
conforme a tradição dos antigos.
Ao voltarem da praça pública,
não comem sem antes se terem lavado.
E seguem muitos outros costumes
a que se prenderam por tradição,
como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –.
Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus:
«Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos,
e comem sem lavar as mãos?»
Jesus respondeu-lhes:
«Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas,
como está escrito:
‘Este povo honra-Me com os lábios,
mas o seu coração está longe de Mim.
É vão o culto que Me prestam,
e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’.
Vós deixais de lado o mandamento de Deus,
para vos prenderdes à tradição dos homens».
Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão
e começou a dizer-lhe:
«Ouvi-Me e procurai compreender.
Não há nada fora do homem
que ao entrar nele o possa tornar impuro.
O que sai do homem é que o torna impuro;
porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos:
imoralidades, roubos, assassínios,
adultérios, cobiças, injustiças,
fraudes, devassidão, inveja,
difamação, orgulho, insensatez.
Todos estes vícios saem lá de dentro
e tornam o homem impuro».

29 agosto 2015

Pensamentos impensados

Galináceos
Ouvir as cavaleiras tauromáquicas a cacarejar dá-me um galo...

Quedas
Haverá algo de romântico nas Cataratas do Viagara?

Justiças
O julgamento de Luis XVI e Maria Antonieta foi um série de mentiras.
Ele há cada falso!

Dívidas
Vendeu cara a vida mas morreu pobre. Não lhe pagaram.

Portugal país seguro
Uma borboleta bate as asas em Celorico de Basto e não acontece nada em Cebolais de Baixo.

Progressismo
Foi sempre muito precoce; quando nasceu já tinha dois anos e meio.

Coincidências
Os olhos e os satélites artificiais estão em órbita.

Mudos mudem-se
A maioria dos de putados (e os deputados da maioria) faz lembrar os patos mudos.

SdB (I)

28 agosto 2015

Um poeta, dois poemas

Nome de Rua

Deste-me um nome de rua
Duma rua de Lisboa.
Muito mais nome de rua,
Do que nome de pessoa.
Um desse nomes de rua
Que são nomes de canoa.

Nome de rua quieta, 
Onde à noite ninguém passa,
Onde o ciúme é uma seta,
Onde o amor é uma taça.

Nome de rua secreta,
Onde à noite ninguém passa,
Onde a sombra do poeta,
De repente, nos abraça!

Com um pouco de amargura,
Com muito da Madragoa.
Com a ruga de quem procura, 
E o riso de quem perdoa.

Deste-me um nome de rua,
Duma rua de Lisboa!

David Mourão-Ferreira


***

Paisagem

Desejei-te pinheiro à beira-mar 
para fixar o teu perfil exacto. 

Desejei-te encerrada num retrato 
para poder-te contemplar. 

Desejei que tu fosses sombra e folhas 
no limite sereno dessa praia. 

E desejei: «Que nada me distraia 
dos horizontes que tu olhas!» 

Mas frágil e humano grão de areia 
não me detive à tua sombra esguia. 

(Insatisfeito, um corpo rodopia 
na solidão que te rodeia.) 

David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

27 agosto 2015

"O Fado, canção de vencidos"

O filme Fado, História de uma cantadeira, é acompanhado, do princípio ao fim, por um fado particularmente bonito - o Fado de Cada Um, com música de Frederico de Freitas e letra de Silva Tavares. Por questões da tese de mestrado, já devo ter visto este filme algumas dez vezes. Vejo, revejo, volto atrás, fixo uma frase, apanho uma ideia. Sempre, mas sempre, a voz deslumbrante de Amália, nessa altura com 28 anos.

A letra do fado não é uma letra de fado: é o fado em si ou, talvez melhor, a vida de cada um de nós que acredita no destino, na má sorte, em Deus que decide tudo sobre nós, mesmo sabendo, cada um destes "nós", que nada é assim, que o destino somos nós que o construimos, que nada do que nos acontece está escrito nas estrelas.


Fado é sorte
E do berço até à morte
Ninguém foge por mais forte
Ao destino que Deus dá

Que bom seria, poder um dia, trocar-se o fado
Por outro fado qualquer
Mas a gente já traz o fado marcado
E nenhum mais inclemente
Do que este de ser mulher

Bem pensado
Todos temos nosso fado
E quem nasce mal fadado
Melhor fado não terá

Fado é sorte
E do berço até à morte
Ninguém foge, por mais sorte
Ao destino que Deus dá

JdB


26 agosto 2015

Poemas dos dias que correm

Zimbabwe, Agosto de 2008

Entre a sombra...

Entre a sombra e a noite há um submisso instante
de preparação.
Aberto espaço onde aves não cantam,
imaculado, instantâneo refúgio.
Entre a sombra e a noite, único passo!

— E é serena e frágil a presença
dos nossos vultos passageiros
isolados na própria condição.

Onde nada se move, uma estrela suspensa.

E tão inutilmente despedaço o encanto,
e tão súbita me vem uma tristeza antiga,
que entre a sombra e a noite encontro o meu refúgio
— o intocável, único espaço.


(Maria Alberta Menéres, in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Lacerda Editora, 1999 - RJ, Brasil)

25 agosto 2015

Duas Últimas

Hoje, não sei bem porquê, parece-me bem retomar o tema do jogo. Como já o referi - aqui no estabelecimento ou noutros sítios - ver o que são as pessoas a uma mesa de jogo é um excelente indicador do que elas serão na vida real. Não vou pelo argumento da educação que se vê à mesa da refeição ou à mesa das cartas, mas pela forma como as pessoas jogam, celebram as vitórias, se conformam com as derrotas. 

(entre jogos de cartas de vazas ou de azar, dados, gamão, etc.,  partilhei mesas com muita gente e sempre me enervou mais, mas muito mais, as pessoas que tinham mau ganhar, porque ter mau perder é mais compreensivo, ainda que ligeiramente indesejável... Agora, ganhar e esmagar o adversário de forma arrogante e humilhante parece-me coisa pouco ética.)

Joguei muito King, algumas Copas, alguma Canasta, muito poker de dados vestido de aspirante a oficial miliciano num quartel abrantino. Alguns jogos são feitos para quatro pessoas; se aparecer um quinto, o número de pessoas é gerível; se forem seis é mais complicado, podendo mesmo ser impossível. A bem dizer, teria algum pudor em "infiltrar-me" numa mesa de jogo composta por quatro parceiros muito rotinados. Talvez me suscitasse a preocupação de estar a tornar-me um empecilho, um crava, uma excrescência naquela circularidade perfeita e com rituais próprios. E trazer um sexto? Isso então...

Uma mesa de jogo é uma boa metáfora para a vida. A forma como se joga, o modo como se organiza uma mesa de jogo, a imprudência com que podemos querer invadir uma mesa de jogo já constituída, a resistência necessária para suportar o olhar da mesa já constituída. Mesmo que este texto pareça particularmente críptico - ando falho de inspiração - convém não esquecê-la. A metáfora, digo eu, mesmo que não saiba porque a utilizei...

Deixo-vos com a música de John Williams: uma comovida interpretação do tema d' A Lista de Schindler. A explicação para a comoção parece estar aqui, num dos comentários: This was a real struggle. You celebrate the birthday of your daughter and you know you play one of your last performaces because of your dissease. So unfair. But what a wonderfull way to play your farewell... A música também convida.

JdB


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