As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
12 outubro 2010
A Árvore da Música
11 outubro 2010
Vai um gin do Peter’s ?

As tiradas cortantes são inequívocas, escondendo um desconforto que não se contenta com pouco, como é próprio de quem intui um desejo de infinito que o presente não alcança. Não poupou o entrevistador do The Paris Review: «Quando as perguntas são velhas e gastas você arrisca-se a receber de volta respostas gastas e velhas.» Outra equivalente, como resposta à questão se escreveria melhor quando estava apaixonado: «Que pergunta. Mas tem a nota máxima pela tentativa.»
Nas suas milhentas aventuras, deambulando por palcos de guerra, pesava-lhe, em especial, o suicídio do pai e o estranho presente que a mãe lhe enviara pelo correio, sempre muito impositiva: a pistola daquele fim trágico. E arrastou a dúvida se a intenção seria sugerir-lhe desfecho idêntico ou apenas oferecer uma mórbida recordação do desastre.
Tentativa de esboço do seu complexo retrato psicológico, em pinceladas aparentemente paradoxais:
- Boémio na vida mas rigoroso e disciplinado no trabalho, começava o dia de alvorada: «tão perto quanto possível do nascer do sol.» E fazia um registo diário do número de palavras escritas «para não estar a enganar-me a mim mesmo.» Enorme horror à fraude, à imprecisão e ao inacabado.
- Rodeado de amigos nas farras mas isolado na arte: «Quanto mais avançamos na escrita, mais sozinhos estamos.»
- Excessivo e atormentado nas relações mas comedido e maximamente discernido na literatura. Aliás, considerava que o talento essencial do escritor era a capacidade crítica, qual radar capaz de detectar e erradicar o mais leve assomo de mediocridade. «Se um escritor deixar de observar está acabado. (…) Tenta sempre (escrever) sob o princípio do iceberg. Há sempre sete oitavos submersos para cada parte que está à vista.»
- Duro (até à irascibilidade) e assertivo na vida mas muito meigo a fixá-la no papel. Comentava assim o livro que lhe valeu o Nobel – O Velho e o Mar –, assemelhando-se a uma criança agradecida por um presente recebido: «A sorte foi eu ter um homem bom e um bom rapaz e o facto de ultimamente os escritores se terem esquecido de que isso ainda existe. Além do mais, o oceano é tão digno da literatura como um homem. Por isso tive sorte, nesse aspecto.»
- De um idealismo intempestivo nos combates do dia-a-dia, mas de uma abertura dócil e empática para registar o mesmo quotidiano no papel, dispondo-se a roçar o mistério com uma ternura que lhe escapava para viver. Como não havia de ser grande? «Faz-se algo (na escrita), com a imaginação, que não é uma representação mas antes uma coisa totalmente nova e mais verdadeira do que qualquer coisa que está viva e é verdadeira, e dá-se-lhe vida e, se for suficientemente bem feita, ela torna-se imortal.»
Nos anos transcorridos em Paris, privou com os artistas que por ali deambulavam nos animados anos 20: Ezra Pound, Monet, Joyce, Gris, Picasso e Bracques. À pergunta sobre as suas heranças literárias, nem hesitou em referir músicos, pintores e também alguns escritores, abrangendo estilos e épocas bem diversas. Acabou por convocar um milénio de história da arte ocidental, lembrando Bach, Mozart, Giotto, Tintoretto, Bosch, Goya, Joyce, Tolstoi, San Juan de la Cruz, Shakespeare, etc.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, passando a publicar às Segundas)
_____________
(1) Título: Entrevistas da Paris Review
Autores: vários
Data de edição/reimpressão: 2009
Editor: Tinta da China
10 outubro 2010
28º Domingo do Tempo Comum
Os milagres existem, Inês? E como os caracterizamos? Um dicionário diria que milagre é um acontecimento contrário às leis estabelecidas da natureza e atribuído a uma causa sobrenatural. Mas diz também que é um acontecimento que espanta (e a origem latina da palavra vem desta expressão) ou maravilha. A vitória do Homem sobre uma doença que parece incurável é um milagre? A capacidade que nós temos de mudar a nossa vida e de a encaramos de outra forma também é? A predisposição que passamos a ter para ajudar os outros ou a consciência que adquirimos de que a nossa felicidade tem de ser em função do próximo é um acontecimento que maravilha? Fui beneficiária de um milagre? As perguntas ficam no ar mas as respostas, essas, estão todas no meu coração. E, ao não sentir dúvidas de quais são, sinto que Deus, à Sua maneira, pregou-me outra partida
09 outubro 2010
Pensamentos impensados
08 outubro 2010
Cadernos andaluzes
no topo do mundo, segredavas-me ao ouvido,
instalados nesse maravilhoso pátio
de onde avistávamos o mundo, inteirinho,
como se pela primeira vez, outra vez.
o sol caía sobre as nossas cabeças despenteadas,
o ar próprio da estação inundava-nos daquele
estranho júbilo a que, em dias serenos,
bem podemos chamar paz.
no topo do mundo, como outrora decerto,
os limites do mundo eram automáticos,
o que a vista alcançava,
nem mais, nem menos, nem diferente.
a justa medida é uma ciência, e das finas,
como esse espinhoso caminho
que é sempre o do equilíbrio
(como desenhar os contornos de algo assim abstracto?).
no topo do mundo, existiam cores, aromas,
todos os sentidos fundidos a frio e a quente
como se alta cozinha molecular e sápida cozinha caseira
se encontrassem finalmente, num nec plus ultra improvável.
do prédio ao lado, coisas da vida que nunca entenderemos,
saía o som perfeito de uma juvenil orquestra sinfónica
ensaiando a preceito alguma grande gala.
star wars, indiana jones, bandas sonoras cinéfilas assim,
inundavam ruas, praças, veredas - até o topo do mundo
que neste preciso momento recupero e reivento
para fugaz deleite de dois ou três leitores.
em toledo, na posada de manolo,
recebi uma lição nada menosprezável:
até às cidades feias deves dar a tua oportunidade.
em toledo, no topo do mundo,
tudo isto aconteceu de verdade,
como se este poema enxuto de metáforas
fosse um quase relato da vida tal e qual.
tudo isto aconteceu. ou quase tudo.
não me segredaste ao ouvido,
porque não estavas lá.
sózinho, no topo do mundo,
- que triste e certeiro remate para um poema.
ou para uma vida.
07 outubro 2010
Deixa-me rir...
PO
06 outubro 2010
Moleskine
Festejos. Continua a saga social dos vários festejos para os quais vou sendo convidado. Falo agora do almoço dos 50 anos da minha querida amiga L., no passado Sábado. Apesar de desafiado, coibi-me de dizer umas palavras por altura dos discursos, preferindo ouvir quem partilhou com ela, sobretudo, momentos de alegria saudável e juventude risonha. A nossa amizade assenta noutras emoções, provavelmente mais dolorosas, mas nem por isso menos importantes. Conheci-a talvez há onze ou doze anos, aquando da minha entrada para as Equipas de Nossa Senhora. Em 2001, ano de todas as partidas, a L. organizou um terço semanal em sua casa onde se chegaram a reunir muitíssimas pessoas que mal se conheciam, mas que rezavam por um propósito comum. Nesse ano, ainda, deu Catequese ao (meu) domicílio. A aluna adorava a catequista, sendo que a inversa também é, presumo, verdadeira. Tendo o privilégio de uma memória selectiva e fantasiosa, estou certo da importância das ideias trocadas para a viagem que a aluna faria mais tarde: que há pessoas que nascem para ser anjos, que Nossa Senhora tem colo para todos os filhos, que Deus não é senão Amor. Temos um pelo outro uma amizade certa, construída na convicção de que estaremos disponíveis para o que for preciso. Nunca me falhou em nada, nunca me disse um não, nunca lhe supus um talvez. Foi também com ela que aprendi que o tempo é um conceito elástico, e que a duração de um dia ou de um minuto varia de pessoa para pessoa. Tem uma fé inquebrantável, contagiante e sem vergonha, e devo-lhe a minha primeira ida a Fátima, sobre cujo 12 de Maio escrevi no meu livro. Estou certo de que acredita que a oração não lhe resolve os problemas, mas que lhe dá forças para os resolver. Revejo-me naquela fé: um misto de crença ingénua, convicção profunda, certezas que só nós sabemos. Penso que não preciso de repetir o conceito sobre se conseguiria viver sem a amizade dela...
Mineiros chilenos. Prevê-se que saiam na primeira quinzena de Novembro, antes do que estava previsto. Tendo eu laivos fortíssimos de pessimismo, gosto de pensar que esta característica tem as suas vantagens: antes prever o horror da saída por alturas do Natal que posteriormente é antecipado quinze dias, do que prever a alegria de uma saída breve e tudo se atrasar por causa de setecentos metros de rocha. Vi a gaiola na qual sairão todos os mineiros. Enchi-me de um misto de esperança e de claustrofobia, do pânico de uma viagem do fundo da terra e que dura quinze minutos, do terror do encravamento a meio de uma oração sofrida. Mas isto sou eu, no remanso de um conforto desconhecido da comunidade mineira. Lamento, no entanto, não me ter cruzado com notícias que dessem conta das rotinas, das lideranças, dos problemas. Curiosidades...
Televisão. Sempre tive esta característica sobre a qual escreverei um dia: quando todos atentam no protagonista de uma entrevista, eu olho para o lado, para aquilo que é acessório, secundário, não vende nem interessa: a camisa do secretário de estado ao lado do ministro, o cabelo do jornalista do periódico de província, a T shirt do operador de câmara... Seguia eu no outro dia, pela segunda ou terceira vez, o concurso do J C Malato que é, como seria de esperar, a pessoa mais filmada, quando dei por mim a observar os figurantes (é assim que se chamam os espectadores contratados?) gente que faz disso uma actividade remunerada (quase) diária, que aplaude, ri e canta de acordo com as indicações, não do sentimento. Ora, estou certo de que quem se encontra por trás do Malato tem o privilégio de um tempo de antena quase permanente, enquanto o apresentador pergunta, para enervamento dos concorrentes, quem escreveu Os Maias ou em que mês se deu o 25 de Abril... Aconteceu, naquele dia, que a figurante estava visualmente decapitada – um selo, cuja dificuldade de visão me impede de identificar, tapava-lhe a cara em permanência. Aparecia um corpo, balofo e desinteressante, e não uma face que nos podia entusiasmar pela beleza serena. Já me viram este azar? Não? Enfim... também quem pensa nisto se não eu? Talvez só a figurante, que poderia ter envergado, ao nível dos artelhos, um A3 escrito a vermelho relâmpago: mamã, mamã! estou aqui...
JdB
05 outubro 2010
Monarquia
A vida do indivíduo quer-se uma monarquia. Em determinado momento herda a liderança singular de si mesmo e, daí para a frente, até findar ou abdicar do posto, mais ou menos voluntariamente, é rei do seu umbigo e de toda a vastidão corpórea que a sorte lhe destinou, bem como de todas as riquezas nela encerradas e de todo o céu ao alcance de uma braçada larga. Nascido sempre rei de si mesmo, o indivíduo passa pelo limbo que é digerir todas as memórias de infante, sujeito à sensibilidade que os acasos da educação lhe reservarem e ao filtro imprevisível do seu intelecto particular que, em metáfora, poderá ser comparado a uma sopa de novidades feita segundo a receita da fome. Chegada a altura de tomar as rédeas da existência, de tomar em mãos o mais nobre dos serviços, ao contrário do que a história poderia fazer prever, não se assinalam datas, nem com pompa nem com circunstância, não se soltam fogos nem se domam elefantes, não desfilam exércitos nem se ouvem vivas, não se recebe nenhuma coroa inútil e difícil de limpar. Há quem tenha o privilégio de um abraço, que no fundo é o melhor que se pode pedir, e depois, bem, depois é o que deus quiser.
ZdT
04 outubro 2010
Fórmula para o caos
O apertar do cerco
03 outubro 2010
Domingo….. Se Fores à Missa !
O Evangelho de hoje fala-nos de fé. A fé, base de toda a vocação cristã. A fé que move montanhas, que salva, cura e ressuscita. A fé que se aprende na Catequese. A fé que se apreende ao longo da vida. A fé que se sente e se experimenta. A Fé é um dom que se recebe, não se compra! Se eu tivesse que a definir, diria que a verdadeira fé é simplesmente ‘não duvidar’, é aceitar sem pôr em causa. Por isso se torna tão difícil manter a fé. Como cristã e católica, a fé sempre me acompanhou. Às vezes porque estava cheia dela, às vezes porque duvidava da sua própria existência. Quando crianças, todos nós temos imensa fé; basta que os nossos pais nos digam para fazer isto ou aquilo e nós fazemos, sem questionar. Á medida que crescemos, vamos tendo o nosso próprio mundo, vamos criando as nossas próprias ideias e chega a hora em que pomos tudo em causa, que questionamos tudo. Acho que todos passamos por essa fase. Mais tarde, com maior ou menor esforço, lá conseguimos recuperar a fé de volta, mas (acho eu !) nunca da mesma forma.
Hoje em dia e apesar de dizer com toda a naturalidade “tenho fé”, sei que a única coisa em que realmente tenho fé é no Amor de Deus por cada um de nós. No resto, dou por mim a colocar dúvidas, a questionar certos dogmas, a contrariar costumes, a criticar regras e normas. Tudo o resto – a igreja, as orações, as leituras, os movimentos, os sacramentos – são obras feitas pelo homem, para louvar a Deus, é certo, mas não deixam de ser feitas pelo homem. Aceito-as, porque fazem parte da religião que pratico e acredito que através delas posso alimentar o espírito, mas na realidade não tenho ‘verdadeira fé’ nessas obras. Acredito nelas, acato-as, pratico-as, sim, mas lá no fundo há sempre uma qualquer dúvida, há sempre uma sombra que tolda e que teima em sussurrar: “E se isto for tudo invenção?” Agarro-me, portanto, à única coisa sobre a qual não paira qualquer dúvida, qualquer sombra: que Deus nos ama incondicional-mente a cada um de nós, individualmente.
Domingo, Se fores à Missa ……………… Não Duvides !
Maf
EVANGELHO Lc 17, 5-10
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé». O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia. Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’?. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’.
Palavra da salvação.
02 outubro 2010
Pensamentos impensados
01 outubro 2010
Cadernos andaluzes
30 setembro 2010
Deixa-me rir...
pcp
29 setembro 2010
Moleskine
Divagações. Há uns dias, no meio de uma vaguíssima tensão, alguém me dizia que actualmente só as coisas verdadeiramente importantes lhe provocavam stress. Dei por mim a pensar que o raciocínio estava errado, não só por conhecer a pessoa em questão, como porque sim. Eis senão quando me deparo com um pensamento de Charles Bukowsky que, de uma forma bem mais elucidativa, corrobora o que eu penso (e o que pensa o meu interlocutor, não fora o calor do momento): não são as coisas importantes que levam um homem ao manicómio. Está preparado para a morte ou para o assassínio, para o incesto, o roubo, o incêndio, a inundação. Não, é a série contínua de pequenas tragédias que leva um homem ao manicómio... Não é a morte do seu amor, mas sim o atacador do seu sapato que se rompe quando tem pressa.
Concerto. 23 de Setembro, 19.00h, Gulbenkian. Mão eternamente amiga oferece-me dois bilhetes para assistir ao Cosi Fan Tutte, de Mozart, pela Orquestra Barroca de Freiburgo, com um naipe de solistas (para além de parte do coro local) verdadeiramente excepcional. Fica um vídeo de uma das árias mais bonitas, mas numa versão ligeiramente diferente, cantada pelos Swingle Singers. Casa cheia, como não podia deixar de ser. Há horas felizes e amizades fortes a quem se deve sempre um gesto importante.
Serralves. Meio fim de semana no Porto para actividades diversas. Hotel na Boavista, a dois passos da estátua onde, há muitos anos, o avô do meu querido amigo FQ me explicou a simbólica: acima de tudo é o leão a pôr-se na águia... Era um homem encantador, mas pouco previsível nestas coisas do futebol... Tempo ainda para ir a Serralves deliciar-me, sobretudo, com o esplendor dos jardins, se bem que valha sempre a pena visitar as exposições de momento. E o Porto aqui tão perto.

Cruz. Troca de impressões, via mail, com quem vive um momento menos intenso de fé – se bem que esta não lhe falte. Falamos da Cruz e algo nos separa – se não ao nível da certeza conceptual, pelo menos ao nível do que cada um sente: a cruz é um símbolo de Amor ou de Dor? Há uma resposta certa para a dúvida, ou a interpretação tem a ver com a nossa educação, com a nossa história de vida, com a forma como vivemos e nos foi transmitida a religião?
Tolerância. Esta virtude talvez seja como a definição de sucesso que aprendi nos bancos da multinacional: é um percurso, não é um destino. É um exercício diário, porque há truques de pequena magia que nos fazem pensar que somos tolerantes quando, afinal, o somos viciadamente. Se temos uma adição, por mais ligeira que seja, somos tolerantes com quem também a tem; o raciocínio é igual quando pensamos nos nossos pecadilhos ou defeitos – somos tolerantes com quem se nos assemelha. É mais difícil exercer a virtude no confronto com gente substancialmente diferente de nós - nas opções, nos princípios de vida (quando não envolve carácter...), na politica, na religião, no feitio ou no comportamento. Escrevi, neste mesmo espaço, um texto dedicado ao encanto do segundo olhar: a forma como olhamos para alguém e nos desafiamos a ir mais longe, ver além do desfocado, entender os verdadeiros motivos por trás de uma atitude qualquer.
JdB
28 setembro 2010
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