17 outubro 2010

Domingo …….. Se Fores à Missa !

O evangelho de hoje fala-nos de esperança, de não desanimar, fala-nos da importância da oração. Quando li esta passagem, a tendência imediata foi a de (des)identificar-me com aquele juiz; homem austero, prepotente, desrespeitador e que, pelos vistos, não sentia qualquer tipo de compaixão pela pobre viúva. Graças a Deus não sou assim, pensei ! Adiante, este evangelho não é para mim. Outros que o oiçam e encaixem a carapuça. Mas, depois, numa análise mais atenta (é no que dá, quando aceitamos comentar evangelhos em blogues de amigos J ) e de uma forma totalmente natural e crescente foi surgindo na minha mente a importância da personagem da viúva. E percebi que a mensagem principal deste evangelho reside na atitude da viúva e não no juiz. Ora não se esqueçam que uma viúva, naqueles tempos, não valia nada. Pertencia à mais baixa das classes. E um juiz era alguém de muita importância. Além disso era um juiz que não tinha medo de nada nem de ninguém; e mesmo assim, o que fez a viúva ? Uma e outra e outra vez, sem desanimar, ia à presença do juiz e pedia-lhe justiça. Aquela mulher foi muito corajosa, demonstrou uma fé enorme e no final teve a sua recompensa.

O evangelista vai mais além e, por outras palavras, diz-nos o seguinte: se até um juiz mal encarado atende as preces duma viúva, quanto mais Deus não há-de ouvir as nossas ! A mensagem é clara: não desanimemos, não percamos a fé mesmo se acharmos que não estamos a ser ouvidos. Cristo pede-nos que oremos sem cessar e sem desanimar.

Na minha vida do dia a dia, nos meus ambientes, nos meus grupos de oração, tenho sentido muito em concreto o poder da oração. Não há dúvida de que somos ouvidos. E não tenho dúvidas de que somos atendidos. Podemos não o ser no tempo e na forma que esperávamos; mas, mais cedo ou mais tarde, acabamos por ver a resposta. Paciência é a palavra de ordem de hoje.

Domingo, Se Fores à Missa ……… Não Desanimes !

Maf


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos uma parábola sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar: «Em certa cidade vivia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’. Durante muito tempo ele não quis atendê-la. Mas depois disse consigo: ‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens; mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente’». E o Senhor acrescentou: «Escutai o que diz o juiz iníquo!... E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa. Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?».

Palavra da salvação.

16 outubro 2010

Pensamentos impensados

Respostas às perguntas da semana passada

S. António aparece no Guiness por ter sido canonisado em apenas 9 meses após a sua morte; o mais normal é (era) demorar séculos.

A inicial do nome de S. António é F, pois chamava-se Fernando.

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As federações desportivas e os jornalistas desportivos têm umas ideias bizarras; já uma vez, neste blog, fiz uns comentários acerca do resumo alongado. Hoje vou debitar mais umas patetices, a propósito da mini-maratona. A maratona são 42 quilómetros e alguns amendoins; a meia maratona são 21 Km e algumas pevides. A mini-maratona o que é? Dois quilómetros e alguns tremoços? Será patrocinada pela Sagres?
Qualquer dia temos os 100 metros, os meios 100 metros (50 metros) e os mini 100 metros que podem ser só alguns centímetros.

Poesia popular

Lá em cima não sei onde
Havia não sei que santo
Fazendo-se não sei quê
Ganhava-se não sei quanto.

Uma lição de poesia

Fui à praia ver os limos
'stava bem alta a maré
Foi por isso que fugimos
Sem ficar fora de mão

A este tipo de poesia chama-se rimar contra a maré.

SdB (I)

15 outubro 2010

cadernos andaluzes

IV. alhambra, setembro de 2010

a tabuleta, foi assim que a li (ou tresli):

"ao entrares aqui, esquece as agruras do mundo,
as injustiças do tempo e as desilusões dos homens.
porque este é o verdadeiro palácio, a chave do reino,
intemporal estrela que iluminará os céus dos teus descendentes."

nesses dias largos [como os braços do meu avô],
namorando noites serenas [como o rosto da minha avó],
protegido do mundo, e de mim próprio, [como no quarto da minha tia],
olhando só o futuro risonho [como tu, outrora]

só eu e o tempo, planando neste plano espaço,
semeando luminosas palavras.

umas (as palavras)
e outro (eu ou o tempo? eu ou o espaço?)
à procura de um laço
e de um regaço.

gi.

14 outubro 2010

Deixa-me rir...

Hoje inspirei-me, sem qualquer vergonha, no excelente Moleskine do dono deste estabelecimento (não se importa, não, JdB?). Só desta vez … Só que em vez de fazer humor ou observações pertinentes (tantas vezes comoventes) sobre a realidade circundante, vou ser light e pairar antes sobre temas mundanos e leves. Ei-los:

a) Conhecem o melhor restaurante do mundo? Não, já não é o El Bulli. Este está, aliás, para obras. É o Noma, votado recentemente o melhor restaurante do mundo no S. Pellegrino World’s 50 Best Restaurants. Se o quiserem conhecer e pagar aproximadamente 150 libras por pessoa, desloquem-se a Copenhague e deliciem-se com o extraordinário talento culinário do chef René Redzepi. A cozinha é assumidamente nórdica e baseia-se na qualidade e variedade de produtos naturais que os países mais setentrionais têm para oferecer: plantas, berries, peixe, trufas, cogumelos, flores selvagens. “A pact with nature”, segundo RR, é a melhor descrição para a gastronomia que faz. O sabor desconheço, mas a apresentação é fabulosa: cada prato parece um quadro vivo feito de amor, cor e equilíbrio. “Noma is now on the itinerary of that breed of traveller whose holidays are determined by the demands of their stomach”. http://www.noma.dk/

b) Se forem a Londres, não se esqueçam de ir à Tate Modern. A retrospectiva Gauguin: Maker of Myth está lá até 16 de Janeiro. Muito boa, muito vasta, repleta de informação escrita e visual. Uma noção de cor e de quietude que me encantam! Uma vida inteira para captar a transcendência animista da Natureza.
Li também, algures, que a National Gallery vai organizar uma mega exposição de quadros do Leonardo da Vinci em 2011. Aproveitem, vai ser um verdadeiro evento! Os Leonardos, para além de poucos (segundo alguns especialistas, não mais de 15, máximo 18), são de tal maneira valiosos que só muito raramente saem das suas respectivas casas: do Hermitage, do Louvre, do Museu de Cracóvia, de Milão, do Vaticano e de Washington. Em mãos privadas, há unicamente dois: um num castelo na Escócia, o outro em parte incerta (que por acaso sei onde é…).

c) Na revista Condé Nast Traveller de Outubro, Portugal é citado como o 18º país que os leitores desta revista mais gostam de visitar. O ranking não é brilhante, já que a lista inclui unicamente 20 destinos! Em nº 1 figura a Turquia (do pouco que conheço deste país, faz totalmente sentido!), e Itália, no 4º lugar, é ultrapassada pelo Egipto e Austrália (este lugar já me parece mais discutível….).

d) Architecture of transformation é umas das novas vertentes da arquitectura contemporânea. From Los Angeles to London, building design is improving the lives of the homeless. From the moment people walk in, we want them to think that life is going to get better (extraído do FT de 11 de Setembro). Este o objectivo de arquitectos e urbanistas ligados à reconversão de bairros degradados na periferia dos grandes centros urbanos mundiais. Que maravilha já não se criarem bairros a metro e haver a consciência, real e genuína, de que também os pobres são afectados pelo que os rodeia. A “minha” teoria de que a Beleza cura é capaz de estar certa! Mais: a Beleza deveria ser considerada um direito universal (e não um privilégio das classes afluentes)!

e) Conhecem o hotel mais cool e original de Portugal? http://www.aquapurahotels.com/

Uma explosão de exotismo em pleno Douro vinhateiro. Há quem não goste (poucos), há quem ache o fim do mundo. Não vá pelo que lhe dizem e tire as suas próprias conclusões: tire uns dias a dois num hotel romântico e assumidamente virado para os sentidos. Luzes suaves, aromas delicados, cambiantes de luz natural a entrarem por janelas rasgadas sobre a paisagem circundante, uma extensa escolha de vinhos e uma gastronomia de autor baseada nos produtos locais e nos sabores mediterrâneos. O spa é considerado dos melhores de Portugal. Experimente a sauna panorâmica ou uma massagem à luz de velas. No dia seguinte, faça uma prova de vinhos numa quinta da região ou descubra as gargantas do Douro a bordo dum barco vintage. O Douro, como reconhecia o Público na sua edição de 19 de Setembro último, está na moda!

f) Uma canção de que sempre gostei muito por causa do ritmo. Hoje em dia gosto porque me traz óptimas memórias. Entre outras, a serenidade do verde dos campos ingleses, os caminhos cobertos de folhas outonais, passeios a pé pelas ruas de Chelsea e Notting Hill espreitando os interiores super apetecíveis das casas (não se deve, eu sei), passeios de bicicleta até ao anoitecer, os almoços em pubs barulhentos, os jogos de futebol, Wimbledon, os vídeo-dinners, a opera assistida a partir do “galinheiro” com restricted view do palco, a "visão" do Mick Jagger numa loja exclusiva num 3º andar de Dover Street, o equilíbrio de Russell Square, a categoria de Bloomsbury, os canais do Norte de Londres, pintura mais pintura e mais pintura … tanta coisa…



pcp

13 outubro 2010

Moleskine (II)

Imprevisibilidades do destino permitiram que visse, em directo (eram 4 da manhã, pouco mais ou menos), o resgate do primeiro mineiro - Florencio Avalos, se a memória não me engana. Chegou bem, depois de uma viagem de 10 ou 15 minutos, barbeado e feliz, abraçado por muita gente. Comovi-me, como não podia deixar de ser, angustiei-me com o aperto daquela cápsula - Fénix - a subir 700 metros.

Do que ouvi, retenho duas ideias. A da mulher de um mineiro, afirmando que a mina tinha finalmente parido. A de um dos mineiros que disse mais ou menos isto: lá em baixo viveu-se uma guerra entre Deus e o diabo; Deus venceu.

Num tom mais ligeiro, fica o video de Spanish Train, de Chris de Burgh, música que fez as minhas delícias de adolescente. Vale a pena atentar na letra, porque o mineiro sabe do que fala...




JdB

Moleskine

Mineiros. Escrevo este texto quando já passa da meia noite. Ao meu lado, a BBC transmite os últimos preparativos para o salvamento dos mineiros, incluindo a divulgação dos nomes de quem sobe em primeiro lugar, em segundo, etc. Tudo se prevê para as próximas horas, pelo que imagino a ansiedade das partes envolvidas: equipa, familiares – os próprios encurralados. Chegados cá acima espera-os uns óculos escuros especiais, uma avaliação médica e a gestão difícil de um mediatismo expectável. Muitos deles estarão em idade de continuar a trabalhar. Será que quererão voltar à mina, ou terão sido possuídos por um temor claustrofóbico mais do que compreensível? O que faria eu? Talvez procurasse um lugar na marinha mercante. Os grandes espaços, sabem... À hora a que me lerem os meus fiéis leitores talvez já estejam todos cá fora. Talvez suerte - e uma pequena oração - seja o que se me oferece dizer agora.

Prémio Nobel da Literatura. Li um único livro de Mário Vargas Llosa (Os Cadernos de D. Rigoberto, Pub. D. Quixote, 1998). Não me lembro, sinceramente, o que me levou a comprar o livro: terá sido a sugestão de alguém credível ou a personagem feminina deitada displicente e desnuda em cima de uma cama? Talvez fosse o sticker laranja na direita baixa que definia a obra como um verdadeiro elogio ao erotismo. Agradeço sugestões de quem seja entendido no Nobel deste ano ou tenha apanhado, por aí, opiniões de qual o melhor livro dele. Nunca ando atrás da obra de quem foi nobelizado, mas sempre gostei de literatura sul-americana, pelo que me apetece ler mais.

5 de Outubro. De fim de semana com amigos fora de Lisboa, não acompanhei quase nada das celebrações do centenário da República. Do que fui lendo pelos blogues, pelos jornais, pelos livros, pelas opiniões, acabei por formar uma convicção forte e própria – se bem que pouco original: ninguém tem grande orgulho na 1ª República, pouca gente se interessou por estes festejos, o Rei caiu por obra e graça dos próprios monárquicos. Conversas tidas e ouvidas leva-me a entender que à monarquia se associam ainda ideias de privilégios, beija-mãos, duques e marqueses, sinal de que é importante desmistificar-se esta ideia. Faço o pouco que sei e posso, como monárquico que sou, se bem que soubesse mais e pudesse mais.

Futebol. Arrogo-me uma grande qualidade – ou uma qualidade confortável: não sou especialista em nada ou, como dizia o meu Pai quando eu era jornalista estagiário n’ O Dia, sou especialista em matéria vaga. Assim sendo, não sei – nem me interessa muito - se a selecção de futebol ganhou contra a Dinamarca e a Islândia derivado a um esquema táctico infalível e inovador gizado no remanso de um estágio tranquilo, ou se foi a atitude dos jogadores (uma expressão tão futebolística) após o desenlace decorrente das traumáticas palavras de Carlos Queiroz referindo-se à mãe do chefe da luta anti-doping. O importante é que ganharam e o Paulo Bento, por quem tenho apenas uma menor simpatia estética, saiu-se bem na fotografia. Não sou especialista, mas sou pessimista: fizemos o mais fácil, que foi ganhar estes dois jogos.

Fé. A Luísa (e vale a pena visitarem-lhe o blogue, um primor de bom gosto) comenta-me semanalmente neste espaço (eu visito-a, mas nem sempre comento...) e, na passada 4ªfeira, não lhe respondi. Não me canso de pensar no que vou dizer como sendo uma verdade quase irrefutável: questiono-me onde estaria, em termos de fé, se a vida não me tivesse sido o que foi. Mas, como o foi, não me restou outra alternativa que não sobreviver, encontrar um sentido para as coisas, procurar incessantemente o lado luminoso da vida. Pessoas compassivas dizem que tudo isso já lá estava dentro de mim, à procura do momento certo para sair. Não sei, não sei. Foi à fé que me agarrei para tudo ter uma explicação enquanto outros, com dramas semelhantes, me disseram: zanguei-me com Deus. Zangar-me com o Ancião da Eternidade, como diria o Eça, era desacreditar no Céu como o destino dos destinos. E para onde iria quem partiu antes de mim? O que faria eu sem esta fé que me conforta?

JdB

12 outubro 2010

A Árvore da Música

Sempre odiei a chamada música clássica. Durava mais do que quatro minutos e não tinha ninguém a cantar em inglês e / ou a martelar uma guitarra. Não percebia onde estava o fascínio. Ainda para mais, tudo aquilo soava a gente morta, gravado na altura em que o mundo ainda era a preto e branco. Por outro lado, as músicas em inglês de quatro minutos que ouvia na Rádio Nostalgia só podiam ser tocadas por pessoas vivas e ainda aí para as curvas. Só mais tarde é que vim a saber que em 1997 já tinham morrido o Elvis Presley, o John Lennon e o Freddie Mercury.

Até que um dia, durante um zapping e a prestar pouca atenção ao que ia aparecendo, vi por acaso um filme sobre a vida do Beethoven. Não vou dizer que o filme era de segunda categoria, porque seria ofensivo para os outros que se incluem nessa classificação. Era de terceira para baixo. E, apesar do argumento ser mau e dos actores parecerem saídos das sobras de um casting para uma novela mexicana de hora de almoço, foi aí que mudei a minha opinião em relação à música clássica.

Iniciei então a minha exploração desse universo, começando pelas obras mais óbvias e mais fáceis (geralmente as que enchem CD's com nomes como 'Classical Music for People Who Hate Classical Music', 'Classical Chill Out' ou ainda 'Classical For Beginners'), e fui seguindo para o que me recomendavam ou ia descobrindo por conta própria. E nestes seis anos ouvi tudo o que me deram - sonatas, concertos para vários solistas, sinfonias, obras diversas - passando por vários compositores e por várias épocas.

Isto não fez de mim um entendido, mas sim um grande apreciador. Nunca me refiro a uma obra dizendo que é boa ou má, classificação que implica necessariamente conhecimento técnico / teórico, mas sim em relação ao meu gosto pessoal. Por isto mesmo é possível que o que vou dizer abaixo seja, para alguém minimamente entendido no assunto, um enorme disparate ou uma constatação básica de um facto mais do que conhecido. Mas aí vai...

Gosto de olhar para a evolução da música como uma árvore: tem as suas raízes, o seu princípio (há 100, 1000, 100000 anos?, deixo o número para os entendidos) e, ao longo do tempo, surgem ramificações que se entrelaçam entre si, umas mais outras menos, mas tudo vem de uma fonte comum, e cada 'andar' novo da árvore é moldado e tem um pouco dos 'andares' anteriores.

Quero com isto dizer que, ao longo do tempo, a música foi evoluindo, e a partir do que era conhecido na altura foram criados novos géneros, formas e estilos. Algumas dessas mutações são as ramificações de que falei acima, que crescem numa dada altura, mas eventualmente o crescimento pára sem dar origem a ramos novos. Por isso é possível ouvir em música moderna (ou semi - moderna) ecos muito mais antigos. E, no caso que vou referir, com 200 anos de diferença.

Alguns andamentos de sinfonias e concertos, na situação a que me refiro são do período romântico, ficam no ouvido devido à sua simplicidade e à repetição da sua melodia. Ouve-se uma vez, e é logo decorada. São facilmente assobiáveis. Basta ouvir os três primeiros minutos dos exemplos abaixo para perceber isto.



Esta simplicidade de melodia foi transportada para a música mais popularizada na segunda metade do século XX, especialmente rock e blues. Isto é facilmente observável pelas guitarras destes géneros - aqui o termo popularizou-se como riff. A linha da melodia é simples e repetitiva, criando o mesmo efeito que os dois andamentos acima. E, tal como estes, as músicas abaixo tornam-se facilmente assobiáveis.



Estes são apenas alguns exemplos que achei que ilustravam muito bem a ideia que queria transmitir. Podia ter referido muitas outras obras: o 1º andamento do concerto para violino em Mi Menor, de Mendelssohn, uma passagem do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky - isto nas obras pré-século XX. No pós-século XXI: Deep Purple - Smoke on the Water, The Rolling Stones - Satisfaction.

SdB (III)

11 outubro 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Na continuação do último gin, retomamos aqui a conversa com Hemingway, ocorrida em Madrid, no mês de Maio de 1954, transcrita na revista «The Paris Review» (http://www.theparisreview.com) e no livro homónimo, editado em Portugal no ano passado (1).

A ferocidade do velho lobo do mar tem a marca d’água dos espíritos de tamanho desmedido, desproporcionado. Como é costume, faltaram-lhe também interlocutores e respostas à altura da torrente de inquietações que a sua vida, imensamente atribulada, foi acumulando em catadupas, sem tempo nem espaço de recuo para sair de si e rasgar horizonte para além dos limites humanos, que lhe eram manifestamente curtos.

As tiradas cortantes são inequívocas, escondendo um desconforto que não se contenta com pouco, como é próprio de quem intui um desejo de infinito que o presente não alcança. Não poupou o entrevistador do The Paris Review: «Quando as perguntas são velhas e gastas você arrisca-se a receber de volta respostas gastas e velhas.» Outra equivalente, como resposta à questão se escreveria melhor quando estava apaixonado: «Que pergunta. Mas tem a nota máxima pela tentativa.»

Nas suas milhentas aventuras, deambulando por palcos de guerra, pesava-lhe, em especial, o suicídio do pai e o estranho presente que a mãe lhe enviara pelo correio, sempre muito impositiva: a pistola daquele fim trágico. E arrastou a dúvida se a intenção seria sugerir-lhe desfecho idêntico ou apenas oferecer uma mórbida recordação do desastre.

Tentativa de esboço do seu complexo retrato psicológico, em pinceladas aparentemente paradoxais:

- Boémio na vida mas rigoroso e disciplinado no trabalho, começava o dia de alvorada: «tão perto quanto possível do nascer do sol.» E fazia um registo diário do número de palavras escritas «para não estar a enganar-me a mim mesmo.» Enorme horror à fraude, à imprecisão e ao inacabado.

- Rodeado de amigos nas farras mas isolado na arte: «Quanto mais avançamos na escrita, mais sozinhos estamos.»

- Excessivo e atormentado nas relações mas comedido e maximamente discernido na literatura. Aliás, considerava que o talento essencial do escritor era a capacidade crítica, qual radar capaz de detectar e erradicar o mais leve assomo de mediocridade. «Se um escritor deixar de observar está acabado. (…) Tenta sempre (escrever) sob o princípio do iceberg. Há sempre sete oitavos submersos para cada parte que está à vista.»

- Duro (até à irascibilidade) e assertivo na vida mas muito meigo a fixá-la no papel. Comentava assim o livro que lhe valeu o Nobel – O Velho e o Mar –, assemelhando-se a uma criança agradecida por um presente recebido: «A sorte foi eu ter um homem bom e um bom rapaz e o facto de ultimamente os escritores se terem esquecido de que isso ainda existe. Além do mais, o oceano é tão digno da literatura como um homem. Por isso tive sorte, nesse aspecto.»

- De um idealismo intempestivo nos combates do dia-a-dia, mas de uma abertura dócil e empática para registar o mesmo quotidiano no papel, dispondo-se a roçar o mistério com uma ternura que lhe escapava para viver. Como não havia de ser grande? «Faz-se algo (na escrita), com a imaginação, que não é uma representação mas antes uma coisa totalmente nova e mais verdadeira do que qualquer coisa que está viva e é verdadeira, e dá-se-lhe vida e, se for suficientemente bem feita, ela torna-se imortal.»

Nos anos transcorridos em Paris, privou com os artistas que por ali deambulavam nos animados anos 20: Ezra Pound, Monet, Joyce, Gris, Picasso e Bracques. À pergunta sobre as suas heranças literárias, nem hesitou em referir músicos, pintores e também alguns escritores, abrangendo estilos e épocas bem diversas. Acabou por convocar um milénio de história da arte ocidental, lembrando Bach, Mozart, Giotto, Tintoretto, Bosch, Goya, Joyce, Tolstoi, San Juan de la Cruz, Shakespeare, etc.

Ficará para o próximo gin a conversa com e sobre o grande escrivão das estepes da Ásia central – Boris Pasternak.

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, passando a publicar às Segundas)

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(1) Título: Entrevistas da Paris Review

Autores: vários

Data de edição/reimpressão: 2009

Editor: Tinta da China

10 outubro 2010

28º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

Talvez erre na interpretação, mas gosto (também) de olhar para este texto e encontrar o conceito do milagre. Os leprosos eram os marginalizados, dez representa a totalidade. Todos eles foram curados, mas apenas um voltou atrás para agradecer.

Em 2001, ano de todos os anos, a questão do milagre pôs-se. Quando escrevi, com a Rita Jonet, o Deus pregou-me uma partida, retomei o tema. Hoje, passados quase 10 anos, sei bem da potencial conflitualidade interior do assunto: há um Deus que cura uns e não cura outros? Há um Deus com comportamentos diferentes, critérios diferentes - e que não entendemos, nem sequer aceitamos?

Dou a voz à Mariana do livro, que disse, melhor do que eu, o que me ia - e ainda vai - na alma. Só espero saber agradecer todos os pequenos milagres que me vão acontecendo todos os dias.


Os milagres existem, Inês? E como os caracterizamos? Um dicionário diria que milagre é um acontecimento contrário às leis estabelecidas da natureza e atribuído a uma causa sobrenatural. Mas diz também que é um acontecimento que espanta (e a origem latina da palavra vem desta expressão) ou maravilha. A vitória do Homem sobre uma doença que parece incurável é um milagre? A capacidade que nós temos de mudar a nossa vida e de a encaramos de outra forma também é? A predisposição que passamos a ter para ajudar os outros ou a consciência que adquirimos de que a nossa felicidade tem de ser em função do próximo é um acontecimento que maravilha? Fui beneficiária de um milagre? As perguntas ficam no ar mas as respostas, essas, estão todas no meu coração. E, ao não sentir dúvidas de quais são, sinto que Deus, à Sua maneira, pregou-me outra partida


JdB

EVANGELHO – Lc 17,11-19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
indo Jesus a caminho de Jerusalém,
passava entre a Samaria e a Galileia.
Ao entrar numa povoação,
vieram ao seu encontro dez leprosos.
Conservando-se a distância, disseram em alta voz:
«Jesus, Mestre, tem compaixão de nós».
Ao vê-los, Jesus disse-lhes:
«Ide mostrar-vos aos sacerdotes».
E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra.
Um deles, ao ver-se curado,
voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz,
e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus
para Lhe agradecer.
Era um samaritano.
Jesus, tomando a palavra, disse:
«Não foram dez que ficaram curados?
Onde estão os outros nove?
Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus
senão este estrangeiro?»
E disse ao homem:
«Levanta-te e segue o teu caminho;
a tua fé te salvou».

09 outubro 2010

Pensamentos impensados

Respostas às perguntas da semana passada

O Brasil, nome oficial República Federativa do Brasil, é composto por 27 estados, sendo um o do Rio de Janeiro, cuja capital é Niteroi.

Os humanos comem peixe, que é um carnívoro.

Perguntas da semana

Santo António de Lisboa já apareceu no Guiness; alguém sabe a razão?
Já agora, qual a inicial do nome de S. António?

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Se touro e toiro querem dizer a mesma coisa, se ouro e oiro querem dizer a mesma coisa, por que razão é que couto e coito não querem dizer a mesma coisa?

Há dois políticos portugueses, de tal maneira baixos, que nunca poderão ser nomeados para lugares de Alto Comissário. Poderão ser úteis para a televisão, em notícias de roda-pé.

Fez um assalto em Vila Franca de Xira; fugiu para a lezíria e a Polícia diz que anda a monte.

Quando os Cristãos conquistavam mesquitas aos Mouros, não podiam pôr um letreiro a dizer "fechado para mudança de ramo, reabre com nova gerência" pois o ramo era o mesmo, a gerência é que mudava.

SdB (I)

08 outubro 2010

Cadernos andaluzes

III. la posada de manolo

no topo do mundo, segredavas-me ao ouvido,
instalados nesse maravilhoso pátio
de onde avistávamos o mundo, inteirinho,
como se pela primeira vez, outra vez.
o sol caía sobre as nossas cabeças despenteadas,
o ar próprio da estação inundava-nos daquele
estranho júbilo a que, em dias serenos,
bem podemos chamar paz.
no topo do mundo, como outrora decerto,
os limites do mundo eram automáticos,
o que a vista alcançava,
nem mais, nem menos, nem diferente.
a justa medida é uma ciência, e das finas,
como esse espinhoso caminho
que é sempre o do equilíbrio
(como desenhar os contornos de algo assim abstracto?).
no topo do mundo, existiam cores, aromas,
todos os sentidos fundidos a frio e a quente
como se alta cozinha molecular e sápida cozinha caseira
se encontrassem finalmente, num nec plus ultra improvável.
do prédio ao lado, coisas da vida que nunca entenderemos,
saía o som perfeito de uma juvenil orquestra sinfónica
ensaiando a preceito alguma grande gala.
star wars, indiana jones, bandas sonoras cinéfilas assim,
inundavam ruas, praças, veredas - até o topo do mundo
que neste preciso momento recupero e reivento
para fugaz deleite de dois ou três leitores.
em toledo, na posada de manolo,
recebi uma lição nada menosprezável:
até às cidades feias deves dar a tua oportunidade.
em toledo, no topo do mundo,
tudo isto aconteceu de verdade,
como se este poema enxuto de metáforas
fosse um quase relato da vida tal e qual.
tudo isto aconteceu. ou quase tudo.
não me segredaste ao ouvido,
porque não estavas lá.
sózinho, no topo do mundo,
- que triste e certeiro remate para um poema.

ou para uma vida.

gi.

07 outubro 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this week another early childhood hero of mine. Herb Alpert & his Tijuana Brass Band.
Even at the age of 7 or 8, I was captivated by him, perhaps wanted to be him. As portrayed in his iconic album cover photos: the tanned handsome man with the beautiful woman on his arm, wearing a short brown bolero jacket on South Of The Border, or the black tie dinner suit on What Now My Love. like a stylishly cool James Bond of music; or flying a vintage aeroplane on Going Places, travelling to exciting destinations; and entranced by the sexy girl covered in cream on Whipped Cream & Other Delights. He was charismatic and exotic.
And his music was joyful and uplifting, exciting and fun. His trumpet, combining with guitars and percussive mariachi rhythms, he managed to create with his band a distinctive sound, in the same way that for example Glenn Miller had his own sound, Very few artists have been able to achieve this.
I used to spend hours playing along to his tunes with my toy trumpet standing on the table in our playroom. God knows what sound I really made but it seemed like I could play every note!
It seems incredible in the rock and pop era of The Beatles and The Stones and Bob Dylan that there could be appeal for such an apparently conservative "un-groovy" instrumental music but Herb Alpert's Tijuana sound was still modern and permeated everywhere in the middle 60s, perhaps as an antidote to rock and pop. But then again, the best-selling album of that era was The Sound Of Music! There was room for all music.
I suppose some might consider him as music for elevators or hermetically sealed shopping malls where any music has the soul sucked out of it. But no, Herb Alpert is energetic and celebratory, rather like The Gipsy Kings of the 90s.
With his worldwide mega success Herb Alpert was also a hugely successful business entrepreneur, becoming the A of A&M Records and recognising and encouraging the talents of The Carpenters and The Police among many others.
I could find very few good videos of Herb Alpert and his Band playing 'live', but I offer a selection of my favourite tunes, including his one and only solo hit as a singer which ironically is possibly his best-known work, together with Spanish Flea.
As a child, listening especially to his tune El Presidente, I always imagined him peforming at a bullring, his music introducing the matadors and toreadors as they march into the arena. So imagine my surprise when I found such a video!

el presidente:



herb alpert - mexican shuffle:



i've grown accustomed to her face:



south of the border:



this guy's in love with you:



A proxima! Ole
PO

06 outubro 2010

Moleskine

Festejos. Continua a saga social dos vários festejos para os quais vou sendo convidado. Falo agora do almoço dos 50 anos da minha querida amiga L., no passado Sábado. Apesar de desafiado, coibi-me de dizer umas palavras por altura dos discursos, preferindo ouvir quem partilhou com ela, sobretudo, momentos de alegria saudável e juventude risonha. A nossa amizade assenta noutras emoções, provavelmente mais dolorosas, mas nem por isso menos importantes. Conheci-a talvez há onze ou doze anos, aquando da minha entrada para as Equipas de Nossa Senhora. Em 2001, ano de todas as partidas, a L. organizou um terço semanal em sua casa onde se chegaram a reunir muitíssimas pessoas que mal se conheciam, mas que rezavam por um propósito comum. Nesse ano, ainda, deu Catequese ao (meu) domicílio. A aluna adorava a catequista, sendo que a inversa também é, presumo, verdadeira. Tendo o privilégio de uma memória selectiva e fantasiosa, estou certo da importância das ideias trocadas para a viagem que a aluna faria mais tarde: que há pessoas que nascem para ser anjos, que Nossa Senhora tem colo para todos os filhos, que Deus não é senão Amor. Temos um pelo outro uma amizade certa, construída na convicção de que estaremos disponíveis para o que for preciso. Nunca me falhou em nada, nunca me disse um não, nunca lhe supus um talvez. Foi também com ela que aprendi que o tempo é um conceito elástico, e que a duração de um dia ou de um minuto varia de pessoa para pessoa. Tem uma fé inquebrantável, contagiante e sem vergonha, e devo-lhe a minha primeira ida a Fátima, sobre cujo 12 de Maio escrevi no meu livro. Estou certo de que acredita que a oração não lhe resolve os problemas, mas que lhe dá forças para os resolver. Revejo-me naquela fé: um misto de crença ingénua, convicção profunda, certezas que só nós sabemos. Penso que não preciso de repetir o conceito sobre se conseguiria viver sem a amizade dela...

Mineiros chilenos. Prevê-se que saiam na primeira quinzena de Novembro, antes do que estava previsto. Tendo eu laivos fortíssimos de pessimismo, gosto de pensar que esta característica tem as suas vantagens: antes prever o horror da saída por alturas do Natal que posteriormente é antecipado quinze dias, do que prever a alegria de uma saída breve e tudo se atrasar por causa de setecentos metros de rocha. Vi a gaiola na qual sairão todos os mineiros. Enchi-me de um misto de esperança e de claustrofobia, do pânico de uma viagem do fundo da terra e que dura quinze minutos, do terror do encravamento a meio de uma oração sofrida. Mas isto sou eu, no remanso de um conforto desconhecido da comunidade mineira. Lamento, no entanto, não me ter cruzado com notícias que dessem conta das rotinas, das lideranças, dos problemas. Curiosidades...

Televisão. Sempre tive esta característica sobre a qual escreverei um dia: quando todos atentam no protagonista de uma entrevista, eu olho para o lado, para aquilo que é acessório, secundário, não vende nem interessa: a camisa do secretário de estado ao lado do ministro, o cabelo do jornalista do periódico de província, a T shirt do operador de câmara... Seguia eu no outro dia, pela segunda ou terceira vez, o concurso do J C Malato que é, como seria de esperar, a pessoa mais filmada, quando dei por mim a observar os figurantes (é assim que se chamam os espectadores contratados?) gente que faz disso uma actividade remunerada (quase) diária, que aplaude, ri e canta de acordo com as indicações, não do sentimento. Ora, estou certo de que quem se encontra por trás do Malato tem o privilégio de um tempo de antena quase permanente, enquanto o apresentador pergunta, para enervamento dos concorrentes, quem escreveu Os Maias ou em que mês se deu o 25 de Abril... Aconteceu, naquele dia, que a figurante estava visualmente decapitada – um selo, cuja dificuldade de visão me impede de identificar, tapava-lhe a cara em permanência. Aparecia um corpo, balofo e desinteressante, e não uma face que nos podia entusiasmar pela beleza serena. Já me viram este azar? Não? Enfim... também quem pensa nisto se não eu? Talvez só a figurante, que poderia ter envergado, ao nível dos artelhos, um A3 escrito a vermelho relâmpago: mamã, mamã! estou aqui...

JdB

05 outubro 2010

Monarquia

A vida do indivíduo quer-se uma monarquia. Em determinado momento herda a liderança singular de si mesmo e, daí para a frente, até findar ou abdicar do posto, mais ou menos voluntariamente, é rei do seu umbigo e de toda a vastidão corpórea que a sorte lhe destinou, bem como de todas as riquezas nela encerradas e de todo o céu ao alcance de uma braçada larga. Nascido sempre rei de si mesmo, o indivíduo passa pelo limbo que é digerir todas as memórias de infante, sujeito à sensibilidade que os acasos da educação lhe reservarem e ao filtro imprevisível do seu intelecto particular que, em metáfora, poderá ser comparado a uma sopa de novidades feita segundo a receita da fome. Chegada a altura de tomar as rédeas da existência, de tomar em mãos o mais nobre dos serviços, ao contrário do que a história poderia fazer prever, não se assinalam datas, nem com pompa nem com circunstância, não se soltam fogos nem se domam elefantes, não desfilam exércitos nem se ouvem vivas, não se recebe nenhuma coroa inútil e difícil de limpar. Há quem tenha o privilégio de um abraço, que no fundo é o melhor que se pode pedir, e depois, bem, depois é o que deus quiser.

ZdT

04 outubro 2010

Fórmula para o caos

Segundo texto relativo ao processo de anexação do Estado de Goa

O apertar do cerco

Em 1954, já com uma independência no caminho da consolidação, o governo indiano decretou um embargo a Goa, Damão, e Diu. Estavam portanto proibidas todas as trocas comerciais entre os territórios de domínio português, ressentindo-se em especial a impossibilidade de entrega de armas com a vista à defesa dos interesses colónias. De referir que toda esta operação teve como coordenador o Comité Nacional de Goa, sediado em Bombaim. A cidade que anteriormente havia sido cedida pelo império português ao britânico, servia como ponto de operações dos movimentos nacionalistas da União Indiana. Este bloqueio provocou um reforço das forças nacionais no Estado português da Índia.

Nesse mesmo ano, as autoridades português reprimem as comemorações do aniversário do levantamento de 1946.

Depois de surgir o rumor de que Salazar estaria disposto a ceder território goês à NATO, para que esta construísse uma base militar, dado o clima de guerra fria entre os blocos de oeste e este, Nehru começa a duvidar da utilidade de pertencer à Commonwealth, tendo pensado que a organização, com sede em Londres, apenas estava voltada para os interesses ocidentais.

Tempos mais tarde, o governo de Nova Delhi atinge por fim o objectivo de anexação dos territórios franceses no sub-continente. Este acontecimento levou ao reconhecimento de Nehru como um superador das forças estrangeiras. O Primeiro-ministro indiano aproveita a ocasião para revelar que Winston Churchill é da opinião que toda a península deveria ser totalmente independente. Entretanto o Foreign Office, apercebendo-se do iminente conflito, faz uma tentativa de dissuadir Portugal de recorrer à NATO para auxílio militar. A sede da diplomacia inglesa refere que se tal facto se sucedesse, enfureceria os responsáveis de Nova Delhi, e simultâneamente reafirma a inutilidade que seria a invocação da Declaração de Windsor por parte de Salazar. Acredita-se que o Presidente do Conselho de Ministros já esperava esta reacção, querendo apenas deixar bem vincado, a possíveis agressores, que dispunha de um forte aliado.

Depois de varias forças policiais portugueses terem sido feitas prisioneiras nas regiões entre Goa, Damão e Diu, Salazar apelou à presença de fiscalizadores internacionais nas fronteiras do Estado Português da Índia. O aliado inglês recusou.

Paralelamente, as comemorações do 15 de Agosto (dia da independência da Índia) ocorreram sem qualquer tipo de confrontos dentro do Estado goês. Em Lisboa essa notícia foi interpretada como um receio de Nehru provocado por uma intimidação do Foreign Office. Os diplomatas britânicos, através da pessoa de Sir Nigel Ronald, propõem a Portugal e à Índia que partilhem a região. O governo português recusa linearmente a proposta, e atribui a Goa um novo estatuto administrativo. A medida é mal recebida por Nehru.

Após a ocorrência de violentos confrontos, com palco em Goa, entre as forças opositoras, a comunidade internacional faz um apelo ao Reino Unido para mediar um encontro entre os chefes governamentais português e indiano. Ambos recusam. Londres mostra-se cada vez mais reticente quanto a uma solução pacífica para o problema.

No período deste conflito diplomático, em vias de se tornar armado, os media britânicos dividiam-se no que concerne ás opiniões, dependendo da área política em que se colocavam. Obviamente que a esquerda anti-colonialista tendia a rever-se nos argumentos indianos e a direita conservadora, pró-ocidente, a apoiar a causa ultramarina. Não deixando de referir que ambas as facções concordavam que a via diplomática seria a mais razoável de seguir.

Uma paz sazonal

Durante, sensivelmente, quatro anos (1956-1960), reinou um clima bastante mais pacífico entre Lisboa e Nova Delhi, comparado com os anos anteriores. As eleições legislativas indianas, que resultaram numa vitória esmagadora do Partido do Congresso (liderado por Nehru), contribuíram largamente para a acalmia que se fez sentir em Goa. Com este reforço parlamentar, o Primeiro-ministro da União Indiana obteve uma legitimidade que lhe proporcionou uma maior margem de manobra para a resolução do problema com Portugal. Desde que se tornara independente da Inglaterra que Nehru era pressionado pela facção anti-colonialista presente na Índia.

Nem a entrada, em 1955, de Portugal na Organização das Nações Unidas, que levou Salazar a interpor junto do Tribunal Internacional de Haia uma acção que visava o levantamento do embargo indiano ao Estado Português da Índia, provocou crispação entre as duas nações. Esta foi a melhor notícia possível para o Foreign Office, com a crise de Goa entregue à ONU, a diplomacia britânica sentia-se profundamente mais aliviada. Londres sempre foi criticado por nunca ter tomado uma posição oficial.

Em meados de 1957 o governo de Noa Delhi procede ao levantamento de alguns bloqueios anteriormente decretados a Goa, nomeadamente a abertura de espaço aéreo das regiões próximas do território goês.

Em 1958, Vassalo e Silva é empossado Governador de Goa e prontamente executa algumas medias que vieram a diminuir a animosidade reinante da comunidade goesa favorável à anexação. O novo responsável pelos destinos da colónia seguiu um política económica que surtiu efeitos positivos no desenvolvimento da região, tais como alguns acordos comerciais com os Estado Unidos da América. Vassalo e Silva implementa a aprendizagem da língua Concani nas escolas, em paralelo com o alfabeto latino.

Porém, tanto Salazar como Nehru sabiam que este recente pacifismo não duraria sempre e que o estalar do conflito armado aconteceria em breve, mas que ambos dispunham de mais tempo para preparar as respectivas estratégias.

Pedro Castelo Branco

03 outubro 2010

Domingo….. Se Fores à Missa !

O Evangelho de hoje fala-nos de fé. A fé, base de toda a vocação cristã. A fé que move montanhas, que salva, cura e ressuscita. A fé que se aprende na Catequese. A fé que se apreende ao longo da vida. A fé que se sente e se experimenta. A Fé é um dom que se recebe, não se compra! Se eu tivesse que a definir, diria que a verdadeira fé é simplesmente ‘não duvidar’, é aceitar sem pôr em causa. Por isso se torna tão difícil manter a fé. Como cristã e católica, a fé sempre me acompanhou. Às vezes porque estava cheia dela, às vezes porque duvidava da sua própria existência. Quando crianças, todos nós temos imensa fé; basta que os nossos pais nos digam para fazer isto ou aquilo e nós fazemos, sem questionar. Á medida que crescemos, vamos tendo o nosso próprio mundo, vamos criando as nossas próprias ideias e chega a hora em que pomos tudo em causa, que questionamos tudo. Acho que todos passamos por essa fase. Mais tarde, com maior ou menor esforço, lá conseguimos recuperar a fé de volta, mas (acho eu !) nunca da mesma forma.

Hoje em dia e apesar de dizer com toda a naturalidade “tenho fé”, sei que a única coisa em que realmente tenho fé é no Amor de Deus por cada um de nós. No resto, dou por mim a colocar dúvidas, a questionar certos dogmas, a contrariar costumes, a criticar regras e normas. Tudo o resto – a igreja, as orações, as leituras, os movimentos, os sacramentos – são obras feitas pelo homem, para louvar a Deus, é certo, mas não deixam de ser feitas pelo homem. Aceito-as, porque fazem parte da religião que pratico e acredito que através delas posso alimentar o espírito, mas na realidade não tenho ‘verdadeira fé’ nessas obras. Acredito nelas, acato-as, pratico-as, sim, mas lá no fundo há sempre uma qualquer dúvida, há sempre uma sombra que tolda e que teima em sussurrar: “E se isto for tudo invenção?” Agarro-me, portanto, à única coisa sobre a qual não paira qualquer dúvida, qualquer sombra: que Deus nos ama incondicional-mente a cada um de nós, individualmente.

Domingo, Se fores à Missa ……………… Não Duvides !

Maf

EVANGELHO Lc 17, 5-10

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas


Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé». O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia. Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’?. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’.


Palavra da salvação.

02 outubro 2010

Pensamentos impensados

Comecemos com duas perguntas:
- Como se chama a capital do Rio de Janeiro?
- Os humanos não comem carnívoros, com uma excepção. Qual?

Praga é a capital da República Checa. Lisboa é a capital da República choca.

Os homens não se medem aos palmos; pois... medem-se aos centímetros.

Há quem goste de pôr gelo no vinho tinto; a essas pessoas recomenda-se gelo "chambré".

Há anos, estando em Los Angeles, meti-me numa excursão que passava por um parque lindíssimo; a certa altura aparece uma capela e o guia informa: aqui é onde costuma casar a Elisabeth Taylor.
Nesse parque havia umas campas e uma delas tinha um telefone; diz um dos turistas: não sei para que serve o telefone, o morto não fala;
Disse eu: se não fala ao telefone também não vê as flores que lá puserem.

Falando de flores e de pessoas que "partiram". Acho errada a frase "eterna saudade"; as saudades não são eternas, são vitalícias.

SdB (I)

01 outubro 2010

Cadernos andaluzes

II. coitadinho dele

adoro a vida que tenho, não me esqueço de o dizer a mim própria, a cada manhã que Deus me concede. bem sei que sou pouco exigente, para os dias que correm. uma velha pateta, sofrida, pobremente vestida
- decerto que é assim que me retratam, virando costas com a displicência e a alegria que a juventude, a beleza física, o dinheirito no bolso, normalmente trazem consigo. quem os censura? não eu. não eu. todos os dias carrego comigo, como esta cidade que me viu nascer, viver e onde provavelmente morrerei, a memória dos dias de antigamente. como quando, a partir desta cidade, os mouros ou lá o que eram, dominavam parte importante do que hoje é este país. provavelmente tenho sangue deles, talvez sim. nunca estudei, não sei explicar estas coisas, o ar torrado que os rapazes, em nova, diziam que eu tinha. esplendor (aprendi com um senhor, no outro dia, esta palavra) - ou não será esplendor sentirmo-nos jovens e amadas pelos rapazes da terra? cada qual sabe de si, mas, para mim, isso foi o melhor que tive, até hoje. agora a vida é outra, num rame-rame próprio dos velhos, dos que não contam para as contas. graças a Deus que o tino ainda ficou aqui na cabecinha. e é por isso, se querem saber, que ainda me mantenho viva. todos os dias, à força de pernas e braços, desço do bairro e instalo-me nas ruas mais movimentadas, onde vendo os chocolates, os rebuçados, os doces, que turistas (muitos) e companheiros de luta (poucos) me vão comprando. no dia em que parar, não duro duas estações, é como digo. a sorte de ter uma ocupação, a sorte de ter o que fazer, e o dinheirinho que sempre ajuda a manter a casa arrumada, uma roupita limpa, a pôr comida na mesa. coisas que quem me compra os doces provavelmente não entenderá, mas também para que é que seria preciso que entendessem, bem vistas as coisas? cada um na sua, aprendi com a senhora minhã mãe (Deus a guarde, pobrezinha), que uns nascem para serem poucochinho, mas que talvez haja uma razão para isso. cala-te, mulher, que sabes tu da vida? tantas vezes o teu pai (Deus o guarde, pobrezinho) te deu nas mãos, por meteres o bedelho onde não és, nem nunca foste, chamada. cala-te, mulher. adoro a vida que tenho, já vos disse? podia ser melhor, claro que sim. para outros, mas não para mim. gosto de me levantar bem cedo, de cruzar as ruas com os turistas que querem ver o palácio em sentido contrário. não há lá nada, já morreu tudo, mas querem ver, dizem que é um monumento importante. não sei, nunca estudei, mal sei ler. dizem que sim, que é, e eu acredito. levanto-me cedo, desço do bairro, dou uns dedos de conversa a quem calha, monto a tenda devagarinho, numa sombra que dê jeito e traga gente, e sigo o dia, vendendo o que posso. uns euros aqui, uns euros ali, coisa pouca, mas honesta, como aprendi com quem já não está cá (Deus guarde as minhas tias e o meu homem, pobrezinhos).
hoje, vi um rapaz a olhar para mim, tão triste, que nem queiram saber. coitadinho dele. apesar de estrangeiro, ninguém merece tanta tristeza. uma velha tonta, até ao fim, é o que é.

gi.

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