16 novembro 2010

Saudades Tuas

Por norma, estico-me devagar, sobretudo porque ao comprido o sono se apressa, e aguardo, num sossego mudo, que a noite me desça também sobre os olhos. Tenho tido saudades tuas. O Outono tem o condão de espicaçar a lembrança do teu corpo enroscado no meu, num novelo de calor. Pode ser que seja do frio, meio irmão da solidão, ou pode ser só mariquice, de qualquer forma, a tua ausência deixa-me suficientemente inquieto para rebolar uns minutos inconformados. Pensava que podia armar-me em homem e adormecer logo tudo de uma vez, te-lo-ia feito, noutro tempo, antes de te saber a outra metade da minha noite, mas agora já não consigo. Tenho tido saudades tuas.


Zdt.


15 novembro 2010

Fórmula para o caos

Num recente relatório do PNUD 2010 foram conhecidos os actuais níveis de desenvolvimento humano de 135 países.

Ao ler e observar o relatório, a primeira coisa que empolou o meu pensamento foi, não o ordenamento classificativo do documento (diga-se a verdade, em nada surpreendeu), mas o facto de todos as declarações da extrema esquerda, adeptas de estados-papão que em tudo interferem e tudo consomem, estarem completamente deslocadas da realidade. Declarações essas que tentam incutir nas populações a ideia de que o estado deveria ser dono e patrono de todos, que a todos pode providenciar os diversos serviços e todos pode assistir socorrendo-se de um abundante poço sem limite que, existindo, estaria na posse de meia-dúzia de capitalistas e especuladores.

Veja-se o caso dos três primeiros classificados da lista: Noruega, Austrália e Nova Zelândia. O que têm em comum? Regime monárquico. Segundo o sindicalismo ortodoxo e o marxismo utópico, a monarquia é um regime assente em direitos de nascimento para uns e opressão e exploração para outros. Na verdade, o relatório das nações unidas demonstra que a humanização dos povos não está conectada com Reis ou Presidentes. Está associado à democracia representativa, ao respeito pelos direitos humanos, à liberdade de escolha e à livre iniciativa. Encarando a Noruega como um caso à parte, que além de um sustentável Estado-providência dispõe de uma, até hoje, inesgotável extracção e produção de petróleo do Mar do Norte, Austrália e Nova Zelândia, não se podendo recorrer de nenhum recurso mineral de particular relevância, são Estados liberais, amplamente democráticos, em que a liberdade de escolha e o respeito pela propriedade privada são direitos inabaláveis.

O último da lista é o Zimbabwe. É bom recordar os elogios de que foi alvo, nos anos 80, Robert Mugabe pela vaga de nacionalizações e expropriações que desencadeou. Em 2010 verifica-se que essa política conduziu a antiga Rodésia à cauda do mundo relativamente ao Índice de Desenvolvimento Humano e a uma inflação de 250.000.000% nos últimos 4 anos. Para se ter a noção: recentemente foi injectada na economia a nova nota de 1 trilião de dólar do Zimbabwe que, ao câmbio actual, corresponde a uns míseros 20 euros.

Continuando a deambulação pelo documento, salta à vista a classificação das antigas repúblicas soviéticas. De todos os países de leste que lograram a independência no processo de 1989/1991, os únicos que apresentam resultados descendentes e insatisfatórios são: Federação Russa, Ucrânia e Bielorussia.

Federação Russa: depois de uma aparente abertura e democratização desencadeada a meias por Gorbatchev e Boris Iéltsin, foi à 10 anos tomada por um ditador e opressor chamado Vladimir Putin.

Ucrânia: Enquanto Putin mandar no Kremlin e detiver o poder de fechar a torneira de gás ao povo ucraniano, será muito complicado eleger um governo democrático de matriz ocidental em Kiev.

Bielorussia: desde 1994 governada sob o cunho ditatorial de Alexander Lukashenko.

Destaque para os três países bálticos que obtiveram um verdadeiro milagre de crescimento económico e humano.

Nota: não seria intelectualmente honesto ignorar o impressionante crescimento que se deu na China. Apesar de estar a anos-luz da democracia e do pleno respeito pelos direitos humanos, desde as reformas de Deng Xiaoping, centenas de milhões de chineses passaram da extrema pobreza para a classe média consumidora.

Pedro Castelo Branco

14 novembro 2010

Domingo….. Se Fores à Missa !

“Haverá choro e ranger de dentes ... tudo será destruído”. Este não é o tipo de discurso que esperamos ouvir da boca de Jesus. Nem é o tipo de mensagem que queremos ouvir para nós próprios. Nós queremos ouvir coisas boas, queremos que nos digam que não há qualquer problema, que tudo vai correr bem, que não vamos sofrer, que não vamos passar fome nem sede, que a nossa família vai ser muito feliz. Queremos ouvir que o mundo não vai acabar, que os nossos amigos e familiares vão viver para sempre. Queremos ouvir que a natureza é perfeita e que não há terramotos nem outras catástrofes naturais. Queremos ouvir que a guerra acabou e o ser humano aprendeu a viver em paz. Ao invés, Jesus vem dizer-nos que tudo isto irá acontecer e que, ainda, iremos ser perseguidos e ostracizados. Mas o pior de tudo ainda está para vir. É que, perante tais calamidades, Jesus pede-nos que fiquemos calados e que confiemos n’Ele totalmente, pois Ele advogará em nossa defesa. Livra !

Mas que grande prova de confiança nos é pedida. Não sei se a minha fé alguma vez chegará a atingir este nível. Confesso que não me estou a ver, calada e quietinha, enquanto me injuriam ou me maltratam. Mesmo sabendo que a minha alma só Deus a pode salvar, não tenho santidade suficiente para uma entrega desta natureza.

E isso fez-me pensar e equacionar até que ponto a minha fé é frágil. Até que ponto é que a minha fé é um puro exercício mental, uma série de conceitos e pensamentos a que chamo fé ? Uma série de acções, símbolos e rituais que são repetidos vezes sem conta, em nome de uma fé que, afinal, pode nem sequer existir ? Até que ponto a minha fé não é senão fruto da minha imaginação ? Jesus Christ ..... isto é por demais assustador. Deixo a questão em aberto !

Domingo Se Fores à Missa .......... Equaciona a tua fé !

Maf

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas


Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».
Palavra da salvação.

13 novembro 2010

Pensamentos impensados

Resposta à pergunta da semana anterior
Os Estados Unidos da América compõe-de 50 estados um dos quais se chama Washington, cuja capital é Olympia.
(agradeço a ML a colaboração; já aprendeu os meus truques).

Equilibrar compõe-se de equi (igual) e libra (balança) pelo que dizer os pratos da balança estão equilibrados afigura-se-me um pleonasmo. Basta dizer os pratos da balança estão equi.

É possivel haver alguém que se saiba quem é o pai e não se saiba quem é a mãe? É. Adão era filho de mãe incógnita.

As médicos não passam receitas; passam despesas.

O fadista Alfredo Marceneiro fazia lavagem de dinheiro
Pois é. Todas as notas que ganhava eram por ele lavadas, penduradas na corda da roupa e, quando estavam secas, punha-lhes água de colónia.

Fala-se muito na retoma; não sei o que é.
Bordalo Pinheiro criou uma figura que usa os dois braços para sublinhar TOMA.
Quantos braços serão precisos para a retoma?

Já alguém reparou nos anglicismos que estão no fado e no folclore português?
Licor Bailey - Bailaste, bailaste, bailaste, bailei.
Monday (2ª feira) - Mandei a saudade embora.
Ice (gelo) - Ai se os meus olhos falassem...
I (eu) - Ai Mouraria...

Pergunta da semana
Antes de se chamarem Amadora e Montijo, como se chamavam estas cidades.

SdB (I)

12 novembro 2010

poeminha assertivo

e era o rio e eras tu
e esta cidade e esta saudade
que te (d)escrevo assim

e esta estranha vontade
colada à minha sofrida pele
com essência de jasmim

como se arriscando ao malmequer
- num vertiginoso jogo floral -
um bom pedaço de mim

tudo ou nada, o que se quiser,
como um país novo saído do forno,
e para o diabo a palavra nim!

gi.

11 novembro 2010

Deixa-me rir...

A propósito da grande novidade introduzida este ano na programação da nova temporada Gulbenkian, resolvi escolher esta aria do L’Elisir d’Amore, do Donizetti. A propósito da novidade e porque adoro ópera, bem entendido.

Excessiva, exagerada, dramática, elitista e, claro, extremamente cara, a ópera é, para mim, o apogeu, tantas vezes sublime, do extraordinário casamento das artes musicais, do teatro e da cenografia, enquadradas por um virtuosismo vocal, às vezes quase surreal, que não deixa indiferente quem as presencia e ouve.

Talvez por isso mesmo, e à semelhança de outros países europeus, a Gulbenkian resolveu incluir algumas óperas na sua programação para o ano 2010/2011. Este ano é possível assistir, no Grande Auditório da Av. de Berna, à transmissão em directo, a partir do Metropolitan de Nova Iorque, de um conjunto de óperas que começam já no próximo sábado com o Dom Pasquale do Donizetti, passando pela Traviata do Verdi em Abril do próximo ano, com algum Wagner, e outros, à mistura.

Os bilhetes são baratíssimos e a ideia excelente. Assistir numa mega tela - ou seja, "quase lá" - à chegada das pessoas, ao frenesim que antecipa os grandes eventos, o presenciar o afinamento dos instrumentos musicais, o movimento da câmara e os grandes planos da sala de espectáculos e de senhoras e senhores impecavelmente vestidos ou, antes pelo contrário, de jovens totalmente baldas mas profundamente apaixonados por uma arte que não é do seu tempo, é, a meu ver, algo de verdadeiramente estimulante.

E é também o sentirmo-nos enquadrados por um ambiente cosmopolita, de verdadeiro luxo intelectual e artístico, numa ilusória sensação de pertença a um mundo ao qual só temos acesso quando viajamos. Lamentavelmente (ou não), estamos longe, muito longe, deste nível de cultura, desta oferta do que há de melhor no mundo a nível artístico. Para mim, que gosto de cultura, isto é mais ou menos heaven. Mas don’t take me wrong! Não quero com isso dizer mal do meu país, tão fustigado pela comunicação social nos últimos tempos, tão maltratado pelos nossos governantes e tantas vezes por nós próprios. Basta ler os jornais, revistas, assistir a determinados programas na RTP2 ou ler a Time Out Lisboa e Porto, para nos apercebermos que o panorama das artes e da cultura em Portugal está cada vez melhor. E que os prémios se vão acumulando. E que a nossa visibilidade lá fora é cada vez maior. E que os nossos criadores se têm desdobrado em obra feita, alimentados por referências nacionais e influências estrangeiras, agora que vivemos num mundo cada vez mais global. Por isso não me interpretem mal! Adoro o meu país – então da nossa arquitectura nem se fala (a minha preferida de todas as que conheço) -, o Rui Veloso, o Rodrigo Leão, os fadistas de outros tempos (talvez à excepção da Kátia Guerreiro), a nossa língua, os nossos Miguel Torga, Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa, a nossa poesia (nomeadamente a do gi!), as nossas livrarias antigas, a moda do José António Tenente, o programa Bombordo, a efervescência do Chiado, a beleza da Ribeira, as noites nos Clérigos, as árvores do Porto, o romantismo de Sintra, a luz de Portugal (ouro no Sul, prateado no Centro, verde e fria no Norte), o vento atlântico, a nossa magnanimidade, o facto de termos coroado Nossa Senhora como Rainha de Portugal, enfim… não parava de dizer bem do nosso país. Por isso, termino já, já. Espero que gostem da minha escolha desta semana.



PCP

10 novembro 2010

Moleskine

Acreditar. Como tive oportunidade de referir, passei parte significativa do fim de semana passado num encontro de gente ligada a esta coisa do cancro infantil: Pais, jovens adultos que passaram pela doença, voluntários, profissionais. Olhei à volta e contei quatro Pais que perderam filhos – quase tantos como os presentes que viveram a felicidade da cura. Tão angustiante como isso é ter olhado para uma das mães e imaginar que há fortes possibilidades de vir a engrossar esta terrível estatística. Mesmo assim fez questão de estar presente, de colaborar, de alertar, de propor melhorias de que beneficiarão talvez outros. Olhámos sobretudo para a frente: como estar mais próximo, como respeitar os que querem fechar uma porta e, mesmo assim, lançar-lhes o desafio do serviço, sabendo que irão reviver o drama. Na Acreditar encontrei, como muitos outros, o sentido para a minha vida. Só espero estar à altura.

Ruído. Parte da minha vida profissional obriga-me a duas viagens semanais de comboio entre o Estoril e o Cais do Sodré e regresso. A volta, pela hora de almoço, é terrível. Música alta, conversas de telemóvel partilhadas pela carruagem, diálogos sem qualquer noção de pudor pelas vidas próprias. Quando alguém me liga percebe imediatamente onde estou: estás no comboio? Encolho-me, ponha a mão em concha e reduzo os decibéis ao nível do milagre da audição. Conservador como sou, faço uma sugestão: substituam as horas da educação sexual obrigatória por tempos de educação cívica. É óbvio que não sabemos que vai ministrar esses temas, mas sempre é melhor falar-se de ruído incomodativo do que ensinar aos jovens como se põe um preservativo sem perder a sensualidade de um vão de escada.

Futebol. Contra o Guimarães, anteontem, o Sporting passou de uma vitória de 2 - 0 para uma derrota por 2 - 3. Em pouco mais de dez minutos, se a memória não me atraiçoa. Contra a frase dos fãs só eu sei porque não fico em casa, só me ocorre gritar, verde de raiva: até eu sei porque fico em casa...

Dias de hoje. Alguém dizia que um pessimista via em cada oportunidade uma dificuldade e que o optimista via a inversa. Gostava de imaginar, do alto de toda a minha ingenuidade (sempre pouco optimista), que os tempos difíceis que se adivinham serão uma oportunidade para rever modelos de vida, para prestar mais atenção ao próximo, para aproveitamento de sinergias (no caso das instituições de solidariedade social, por exemplo), para diminuir um consumismo desenfreado e estéril. Cresci num tempo em que não se falava de dinheiro. Mesmo sabendo que havia mesadas diferentes, elas não eram factor diferenciador. Talvez se possa, de alguma forma, regressar a essa espécie de pureza. Sob risco de nada termos aprendido.

Música. Quem não tiver dez minutos para fechar os olhos e ter um pensamento elevado - ou mesmo fugidio - que se desvie da espuma dos dias pode ir andando que eu já lá vou ter. Só têm de esperar dez minutos, ok?


09 novembro 2010

Ti'Jefa

A Dona Maria Josefa (Ti'Jefa, como era mais conhecida), vivia numa localidade pequena. Bem sei que esta não é uma designação apropriada do ponto de vista legal ou geográfico, mas é a que melhor se aplica neste caso.

Era uma aldeia porque toda a gente se conhecia e se tratava pelo nome, mas o local não tinha uma dimensão tão pequena para uma classificação tão redutora. Ao mesmo tempo, era também uma vila. Tinha a pacatez, o silêncio e a lentidão adequada, mas faltava-lhe aquele cheiro tão característico de nostalgia e de passado. A última hipótese é que fosse uma cidade. Mas não era, porque lhe faltava uma escola e um hospital, isto visto por um advogado, e faltava-lhe aquela impessoalidade própria de quem se senta num comboio sem olhar para quem está sentado ao lado, isto visto por um sociólogo.

Por tudo isto, a localidade ficou presa num tempo que teimava em não passar e suspensa num espaço sem nome.

Voltando à Ti'Jefa. A sua sorte era que tinha o monopólio da sua área de negócio. Era a única pessoa que se podia orgulhar disso.

O Zé das Roscas que, como o nome indica, fazia vida na venda de parafusos e outros elementos roscados, tinha como concorrente o Quim Porcas. Mas o Quim achava que a sua veia comercial pulsava demasiado para se limitar apenas a um negócio e, por isso, para além das porcas metálicas, vendia também as cor-de-rosa, mais viradas para o bacon do que para as ligações mecânicas.

Mas o seu bacon não era o único. O Chico Bicho vendia todo o tipo de animais. Vivos, mortos ou assim-assim. Grandes ou pequenos. Comestíveis ou demasiados irrequietos para serem cozinhados. Burros ou inteligentes. Burros ou bois. Ou vacas. Ou porcas. Aí está, voltamos ao bicho cor-de-rosa.

Mesmo os correios, que em todas as cidades tratam de todas as cartas, aqui tinham concorrência. Havia um habitante que, em troca de três cigarros e um café, dizia que fazia chegar as cartas aos destinatários, desde que estes vivessem dentro dos limites da localidade. Depois pegava nesses três cigarros e, quando chegassem aos dez, guardava dentro de uma caixinha de cartão, fechava e ia vender na rua. Com o dinheiro que fazia pagava ao carteiro para entregar as cartas que lhe davam. O negócio não era brilhante, mas ao menos ganhava uma bica de borla.

Mas na localidade só havia uma padaria. Mais ninguém vendia pão. Havia muita gente que vendia farinha, ovos, fermento e sal. No entanto, só uma pessoa vendia os ingredientes amassados e cozidos: a Ti'Jefa. Não deixava de ser curioso que numa cidade com tantos negócios paralelos só existisse uma padaria. A justificação era simples: mais ninguém sabia fazer pão tão bom. Antes do sol nascer, quando este fervia lá no alto ou quando já se preparava para dizer adeus, fosse qual fosse a altura do dia, o pão da Ti'Jefa era sempre fresco. E mais curioso ainda era o facto de, mesmo em casa e guardado numa lata durante dois dias, quando era levado à boca, já um pouco a medo, parecia que tinha sido acabado de fazer. Qual seria a lógica de abrir um negócio que tivesse a sua morte anunciada?

Assim a padaria estava sempre cheia. Enquanto todos os outros comerciantes passavam por épocas de vacas magras (que o diga o Chico Bicho, que durante um ano teve estes animais literalmente escanzelados) e de vacas gordas, este negócio tinha só época obesa. E como a população precisava mais da Ti'Jefa que a Ti'Jefa da população, todos toleravam a sua estranha mania. E embora todos protestassem com o que achavam ser um capricho, isso nunca mudou nada. Se não aceitavam, podiam ir embora. Mas como não havia pão em mais lado nenhum, acabavam por ceder e voltar.

Antes de cada pagamento, a Ti'Jefa exigia um histórico dos cinco pagamentos anteriores que o dinheiro tinha feito. Tudo discriminado: quem pagou a quem, onde, em que dia e a que horas. Se algum destes pontos obrigatórios falhasse, o pagamento era recusado. O dinheiro e o cliente voltavam para trás e, até este cumprir com a estranha exigência, não saia nada do cesto da padaria. Houve mesmo quem tivesse ficado dois dias sem comer pão por não conseguir arranjar, de um dia para o outro, dinheiro limpo.

A justificação desta bizarra mania era simples: dinheiro que vem de dívida atrai mais dívida. Até ter feito cinco pagamentos honestos e imediatos, está amaldiçoado. Quer fugir das mãos, ir embora, escapa-se por entre os dedos e pelos espaços entre as tábuas do soalho. E quando uma pessoa dá por isso não tem nada, só contas pendentes e nenhuns cifrões.

Até que chegou a crise, e nessa altura ninguém conseguia pagar a pronto. Ninguém tinha dinheiro, e quando por milagre alguém arranjava algum, era logo usado para liquidar contas pendentes. Andava de mão em mão, de dívida em dívida, e não havia hipótese alguma de fazer cinco pagamentos honestos e imediatos.

Mas nem assim a Ti'Jefa largou essa incómoda e cara superstição. Durante largas semanas o pão ficou à espera nos cestos da padaria, sem que ninguém tivesse dinheiro limpo para o comprar. Muito a incomodaram, imploraram e insultaram. Tentaram apelar ao seu bom senso, não fazia sentido que a localidade ficasse sem pão por uma teimosia. Mas ela não cedeu.

Até que um dia decidiu que realmente não fazia sentido continuar a fazer pão que acabava, todos os dias, por ser dado às galinhas e aos cães. Deixou então de cobrar. Passou de negócio a caridade. 'Se todas as notas nesta cidade estão sujas com dívidas, então não as quero. Não vou aceitar dinheiro que me vai pagar a falência'.

SdB (III)

08 novembro 2010

Vai um gin do Peter's?

Que tal uma viagem virtual até Xangai, a aterrar na Expo 2010? A acumulação de pavilhões de volumetrias arrojadíssimas, desafiando a força da gravidade, são um convite irresistível a tentarmos lá chegar pelos meios ao nosso alcance…

http://static.publico.clix.pt/docs/mundo/expoxangai/

O mega-tema em foco, entre Maio e 31 de Outubro, foi "Better City, Better Life" (Melhor Cidade, Melhor Qualidade). Com um recorde de participantes, a exposição reuniu 192 países e 50 organizações internacionais. Estendia-se, estrategicamente, ao longo do Rio Huangpu, ocupando uma área de 528 hectares (dez vezes superior à da Expo’98). Depois dos Jogos Olímpicos de 2008, a China voltou a ser palco de um mega acontecimento internacional, onde eram esperados 70 milhões de visitantes.

Pavilhão de Portugal


Pavilhão de Shanghai


Pavilhão de Israel

O pavilhão de Portugal foi distinguido com um dos três “Prémio Design”, atribuído pelo Bureau International des Exhibitions, no encerramento. Tratava-se de uma construção de 2000 metros quadrados, revestida a cortiça, um material reciclável e ecológico, onde o país é líder de mercado a nível mundial. Ali, o visitante dispunha da mais moderna tecnologia, de produção lusa (a Zero Carbon), a mostrar a aposta portuguesa nas energias renováveis. Para proporcionar uma breve visita ao país, corria em looping o filme «Portugal, Energy for the World»:

PORTUGAL, UMA PRAÇA PARA O MUNDO from Anze Persin on Vimeo.

Revisitando a história universal, Portugal pode orgulhar-se de ser o país europeu com a relação mais antiga e estreita com o Império do Meio, selada pela oferta da península de Macau e das duas ilhas adjacentes.

Precisamente, no Pavilhão nacional, exibia-se um guache muito expressivo de José de Guimarães, a assinalar os 500 anos das relações de amizade luso-chinesas.

Guache “Thomas Pereira”

Em tons dourados na tela destaca-se um sino de bronze, revestido de caracteres chineses com enorme significado afectivo, a transcrever as palavras de gratidão e enorme respeito mandadas gravar pelo Imperador Kangxi na lápide do seu grande amigo português, conselheiro diplomático e professor de música – o jesuíta Thomas Pereira (1646-1708). Aliás, a pintura resulta de uma encomenda para as comemorações do terceiro centenário da morte do jesuíta (2008), mais conhecido na China que na sua terra natal. De facto, foi naquela corte imperial que T.Pereira se distinguiu, ocupando uma posição muito influente e gozando da estima do monarca.

É estranho e triste que um vulto de relevo na China seja praticamente desconhecido na história pátria. E, como se imagina, foi por mérito próprio que o jesuíta estrangeiro, oriundo de um país longínquo, se tornou tão próximo do Imperador, desde que ali chegou, em 1671. O currículo não deixa margem para dúvidas quanto aos seus notáveis talentos, tendo-se destacado na Astronomia, Geografia, Matemática, Arquitectura, Engenharia, Música, Religião e Política! A somar aos palmarés científicos e de erudição cultural, vale a pena referir que foi uma figura maior nas negociações das fronteiras sino-russas, consagradas no tratado de Nerchinsk – um documento ainda hoje considerado um marco na história diplomática da Ásia!

Apesar da imensidão de representações nacionais reunidas em Xangai, longe vão os tempos das grandes exposições de Paris, de onde nos chegaram monumentos emblemáticos como a Torre Eiffel ou jóias de uma beleza indizível, como a Regalia Imperial dos Romanov(1), uma miniatura das insígnias dos Czares, assinada por Fabergé e exibida no Pavilhão russo, em 1900. Naturalmente que perdura o mesmo ambiente de exibicionismo e de feira de vaidades… porque o ser humano mudou pouquíssimo desde que começou a povoar o planeta.

Isto dito, creio que vale bem a pena sobrevoar, novamente, os espantosos pavilhões de bandeira, verdadeiras acrobacias arquitectónicas, que deram corpo à Expo’2010, fascinando visitantes de todas as partes do mundo:



Para sugerir um regresso a Portugal – entusiasmado e revigorante – depois de planarmos sobre Xangai, reevoco o alcance do pequeno guache de Jorge de Guimarães, contendo cinco séculos da história de um povo precursor da globalização, com figuras maiores que deixaram marcas muito positivas nas civilizações mais distantes. Recorde-se que a presença jesuíta na China, iniciada pelos portugueses (1513), se prolongou até à destituição do último soberano do Império do Meio, já no século XX.

Óptima viagem por Xangai (ou Shanghai, se se preferir uma ortografia mais anglófona) e pela história,

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda-feira)

________________________

(1) Pertence ao acervo do Hermitage e esteve, temporariamente, em Lisboa, na exposição dedicada aos tesouros dos Czares, patente na Galeria D.Luís durante o último trimestre de 2007. Composta de ouro e prata, é cravada a diamantes, safiras e rubis, ostentando um brilho e uma luminosidade que lhe conferem uma beleza invulgaríssima:



07 novembro 2010

Katia Guerreiro




Sou fã da Katia Guerreiro desde que a ouvi cantar pela primeira vez. Diria mesmo, sem desprimor por outras que conheço que é, actualmente, a minha fadista preferida. Além do mais, tive a sorte de a conhecer pessoalmente quando, há dois ou três anos, deu um pouco do seu tempo para participar numa angariação de fundos a favor da Acreditar, fazendo - para além de uma actuação a solo - um dueto com a Maria João (sem Mário Laginha).

Comemorando 10 anos de carreira, dará um concerto no Coliseu de Lisboa, no próximo Sábado. Infelizmente talvez não possa ir, mas fica aqui o desafio, para que não percam.


JdB

32º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Serei honesto: não comentarei o Evangelho de hoje. Os meus fiéis leitores, ou me perdoarão ou rejubilarão... O facto é que estive no último dia e meio num encontro da Acreditar. Um dia e meio com gente que perdeu filhos, que passou pela doença (cancro infantil) e sobreviveu, que é voluntária ou faz parte da estrutura profissional. Um dia e meio duros - mas produtivos...

Ao fim do dia de ontem falava com uma das profissionais e fundadoras da Acreditar, uma holandesa que perdeu uma filha.

Sabes, dizia-me ela, tive um educação católica. Mas à medida que ia pensando por mim própria ia perdendo a Fé.

Olhei para ela e disse-lhe com o ar mais confiante que tinha: tem graça... Eu, à medida que ia pensando por mim próprio, ia ganhando Fé.

No carro, no regresso, vinham três pessoas - eu próprio e mais duas mães. Todos tínhamos perdido filhos, vítimas de cancro - seis, sete, oito anos, por aí. Ele há dias, sabem...

Bom Domingo para quem me lê. E não se esqueçam de agradecer.

JdB


EVANGELHO – Lc 20,27-38

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
aproximaram-se de Jesus alguns saduceus
– que negam a ressurreição –
e fizeram-Lhe a seguinte pergunta:
«Mestre, Moisés deixou-nos escrito:
‘Se morrer a alguém um irmão,
que deixe mulher, mas sem filhos,
esse homem deve casar com a viúva,
para dar descendência a seu irmão’.
Ora havia sete irmãos.
O primeiro casou-se e morreu sem filhos.
O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva;
e o mesmo sucedeu aos sete,
que morreram e não deixaram filhos.
Por fim, morreu também a mulher.
De qual destes será ela esposa na ressurreição,
uma vez que os sete a tiveram por mulher?»
Disse-lhes Jesus:
«Os filhos deste mundo
casam-se e dão-se em casamento.
Mas aqueles que forem dignos
de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos,
nem se casam nem se dão em casamento.
Na verdade, já nem podem morrer,
pois são como os Anjos,
e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus.
E que os mortos ressuscitam,
até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente,
quando chama ao Senhor
‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’.
Não é um Deus de mortos, mas de vivos,
porque para Ele todos estão vivos».

06 novembro 2010

Pensamentos impensados

Resposta à pergunta da semana passada
Fenícia é país da Europa.
Europa, filha de Agenor rei da Fenícia, aí nasceu.

Pergunta da semana
Qual é a capital de Washington?

A pescadinha de rabo na boca está em auto-digestão.

Tirei um curso de relojoaria só para me entreter; tenho certidão de hobby.

Anda a fazer-se uma contagem para se saber quantas mulheres de má vida há em Portugal; é para "pôr no gráfico".

INCONTINENTE: diz-se dos hipermercados que são concorrentes do Continente.

Na TVI24 há um programa que se chama De Homem para Homem; é feito pelo Goucha; deveria chamar-se De Quem Para Homem.

Se não se pode fumar em recintos fechados, não deveria fumar-se na Terra; a Terra é um recinto fechado, nunca ninguém de cá saiu.

Por vezes faço umas perguntas de geografia que têm pequenas rasteiras, pelo que nunca perguntaria qual é a capital do Butão; arriscava-me a que alguém dissesse: a capital do botão é a casa.

Com o novo Orçamento de Estado, o Abono de Família passou a Abandono de Família.

SdB (I)

05 novembro 2010

dia de todos-os-santos

era dia de todos-os-santos, tal e qual,
e o carro deslizava suave pelas colinas douradas
ao encontro de um qualquer encontro.
na rádio, o velho lobo era homenageado em directo
e escutava-se agora a voz do homem que jaz morto.
talvez um dia, quem encontrar as gravações antiquíssimas
de uma certa estação fria,
sinta o mesmo - pudor e amor - por sentir ter entre mãos
algo precioso, que nos pertence e que não nos pertence.
na mesma rádio, falava-nos agora a companheira do velho lobo,
e a voz não tremelicava, a emoção estava controlada ao mílimetro,
coisa de que não somos capazes (talvez quando crescermos).
a canção que se escutava em fundo, apenas trecho musical
mas não menos fulminante, era aquela daquele rapaz
com nome de cidade oriental esventrada - beirut -
aquela exactamente que nos faz deflagrar o coração.
quando, mais tarde, pedi o vinho da madeira doce
e o saboreei em tragos muito lentos e muito suaves,
pensava em ti - videotape que trago inscrustado -,
no velho lobo (almirante do ar, ocorre-me a expressão),
na sua companheira tão elegante (e tão superior a mim,
naquela justeza admirável e contida que só as mulheres).
as colinas de lisboa continuavam lá
e eu deslizava como que pelo dorso de um puro-sangue amigo,
e tudo era suavidade e tudo era como a doçura antecipada
do vinho da madeira que beberia dali a instantes
(mesmo que, claro, o não soubesse - que a poesia tem limites)
quando estacionei frente ao rio,
não percebia porque tremia, nem porque tinha os olhos
enxaguados, exauridos, exangues, extenuados,
nem muitas outras coisas deveras patetas (coro levemente).
lembrei-me então daquele dono de circo que dissera no jornal do dia
- só levam daqui os três ursos, para os matarem,
depois de me matarem a mim primeiro!
virei-me para ti, meu senhor cosmos estuporado, e gritei:
- só levam os meus sonhos depois de me matarem!!
ou tudo ou nada, desgraçados!!
quando entrei no tal encontro, apresentei-me assim: olá, sou poeta.
e lisboa e o rio abraçaram-me, entre eles,
enquanto ursos levitavam ao pé do Cristo-Rei,
e o velho-lobo-do-ar-almirante mai-la sua sereia me piscavam o olho
e o rapaz como nome de cidade oriental esventrada me dizia baixinho:
- i dream of electric dreams which dream of you..

e era o tejo
e eras tu
e era já a saudade que não sei dizer

e foi assim
o meu dia de todos-os-santos.


gi

04 novembro 2010

Carta a um anjo

Foi hoje, mas há 9 anos.

Há aqueles que nascem optimistas – em toda a escuridão vislumbram uma luz, para toda a tempestade antevêem uma bonança. Outros há para quem o raciocínio é a inversa. Sobram aqueles, talvez como eu, que ainda se espantam pelo próprio sorriso, quando tudo neles prenunciaria um esgar.

Tive a sorte de perceber que a vida oferece, por cada pilar que tira ao edifício que nos sustenta, a possibilidade de encontrar um outro pilar. O que nos impede de o descortinar, quedando-nos teimosamente numa casa tombada num desequilíbrio inútil? A raiva, a impotência, o desespero, a tristeza infinda. São sempre lágrimas que nos toldam os olhos, que nos impedem de ver mais além, de vislumbrar uma infinitude de possibilidades de redenção. São as lágrimas que acompanham um grito de fúria ou um soluço de saudade.

Sabes, cada vez mais tenho a certeza de que não invento nada, não crio nada, não deslindo nada. Uso as palavras que outros inventaram, tenho as sensações que outros já definiram. E, no entanto, sinto muitas coisas como se fosse o pioneiro delas no mundo. Vejo-me como uma criança que usa uma gravata pela primeira vez, e que responde ao fatalismo do já muitos a usaram antes de ti... com o prazer singelo da descoberta: pois eu gosto dela como se fosse o primeiro. E às vezes dou por mim a alegrar-me com este despojamento libertador que advém do muito que se perdeu. Um sorriso de criança ingénua que se abre para um campo parco de flores.

Olho para trás, para o caminho percorrido, e não deixo de agradecer. Tudo poderia ter sido diferente, mas tudo poderia ter sido igualmente pior. Agradeço a fé que me foi dada, a convicção da estrada difícil que nos levará ao Céu, as dúvidas permanentes que lembram a minha condição humana, a gente a quem devo tudo, o desafio diário de dizer sim à santidade; continuo a cair, a nem sempre saber o caminho, a perguntar, a estender e a receber uma mão, a errar. Tu bem me ouves a pedir discernimento e força.

Agora dou por mim, num silêncio metafórico, a olhar para as pessoas. As que me rodeiam hoje não são mais do que eram ontem. As que chegaram são, talvez, em número conforme às que partiram, como se até nisto o deve e o haver tivessem o dom da igualdade. Acontece que talvez as veja melhor, é só isso. Nelas já não descortino as que nem sempre estão, as que escolhem lados, as que vivem no orgulho, as que fazem da tolerância uma palavra difícil de soletrar. Nelas já não descubro as minhas próprias falhas, mas em todas tento encontrar a beleza, porque talvez lhes deva a beleza que encontraram em mim.

Muitos poderão perguntar o motivo desta carta. No fundo, no fundo, tudo faz sentido: há nove anos que derramas sobre mim o pó do amor, que és o ponto na linha do infinito para onde me volto mesmo de olhos fechados. Há nove anos que fazes de mim o melhor que sou, porque o pior que também sou é obra exclusiva minha. Em dois momentos diferentes, duas pessoas que me dão o gosto da sua amizade mandaram-me uma história que poderia ter sido a tua, tantas são as semelhanças. Retive uma frase simples, que tem a beleza das coisas simples: saudade é amor que fica. É também por isso que te escrevo.

Ainda tens sete anos. Sempre disse que ninguém te levara, mas que partiras de mão dada com esse Deus que não é senão amor. No Céu, de onde velas por todos nós, o tempo não vence a eternidade, não enruga uma cara infantil, não ensombra uns olhos que brilham e se deslumbram. Terás sempre sete anos, mesmo que durante um século lembremos a tua chegada e a tua partida. Vai brincar, vai. Até logo.

Foi hoje, mas há nove anos.

JdB

03 novembro 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, I was lucky and privileged last Saturday to have tickets for a special BBC concert by Neil Diamond, in an intimate stylish venue called The Roundhouse which reminds me a little of Lisbon's Coliseu. I saw him once before years ago from the back of a big arena, so to experience him perform up close and personal was spectacular. By chance I was approached before the concert to do a live interview for radio to tell listeners, very briefly, why I loved Neil Diamond!
He is one of those artists who has never, I think, been considered 'cool' to like but who everybody likes to hear. Indeed, some of his compositions are better known through other artists' interpretations, such as I'm A Believer and Red Red Wine. but his own songs such as Sweet Caroline, Song Sung Blue, Beautiful Noise, Forever In Blue Jeans, You Don't Bring Me Flowers, and his Jonathan LIvingston Seagull soundtrack, are ingrained in our consciousness. His songs are personal, heartfelt, spiritual. For me, many of his songs have a slightly melancholy feel, a deep sense of searching for something out of reach, but they are also joyously uplifting because they speak truthfully about, and are celebrations of, love and life.
After such a long career it is hard to choose just a few songs. However, the first song I remember hearing, and probably still my favourite, is
I Am...I Said, his autobiographical account of living life in the spotlight and his deep sense of loneliness:



Another early song, Play Me has the most wonderful romantic lyric imaginable: She was morning and I was night time...you are the sun, I am the moon, you are the words, I am the tune, play me:



Forever / Pretty Amazing Grace



My only disappointment of Saturday's concert is that he did not perform songs from his recent album 12 Songs. To me, this has some of his best ever songs, performed acoustically and minimally with naked voice and guitar. His voice has deepened with age, giving an extra gravitas to a lifetime of experience and wisdom contained in every word he sings. I would recommend that you listen to his simple recipe for a successful loving relationship in We, his celebratory Delirious Love, and his deeply spiritual Man Of God, but here I offer Hell Yeah, which is his own honest 'I did it My Way/Non je ne Regrette Rien' reflection of his life and career:



A proxima,
PO

02 novembro 2010

Vinte e quatro horas novas

Os pássaros assobiam as primeiras claridades lá fora, declarando oficialmente mais uma noite em branco. Tenho sono. Não teria qualquer dificuldade em adormecer se tentasse, a cama é do melhor que se pode pedir, macia e bem guarnecida de coberturas, o cansaço é do que pesa no corpo, como uma subtil multiplicação da força de gravidade que se traduz numa lentidão de paquiderme à medida que me vou arrastando de divisão em divisão, só não me apetece ir dormir, por enquanto. O silêncio do meu dia velho vai sendo interrompido, a espaços, pelo bulício do dia novo dos outros.

Esqueço-me sempre, algures entre a rotina e a inércia, que cada dia é, espante-se, um dia novo. Pior, tendo a confundir uns dias com os outros e acuso-os, injustamente, de serem todos iguais. Reclamo da ausência da novidade como quem reclama que a sopa está insossa, e atrevo-me a apontar o dedo aos que, de uma forma ou de outra, estão próximos o suficiente para serem responsáveis pela falha.

Salpico o vidro da janela com impressões da ponta do nariz, alternando as ideias entre quem é o chefe da cozinha da vida e quantidade de tons de azul novos que são inventados todas as madrugadas. Decido ir dormir, afinal, para amanhã estão guardadas vinte e quatro horas, todas novas, se eu quiser.

ZdT

01 novembro 2010

Era uma vez um amor que dura para sempre

Era uma vez um jardim em Reguengos. Tantas histórias que aquele jardim deve ter tido… Tão feliz que aquele jardim deve ter sido... Mas havia um homem que chorava. Depois de nos contar que não valia a pena ir ver a igreja porque o padre “roubou tudo para comprar coisas para ele”, contou porque chorava…

Ela usava calças porque era Maria-rapaz, ele usava calças de cabedal só porque sim. Todos lhe chamavam “bandido” e era o rapaz mais cobiçado de Reguengos. Tinham quinze anos e apaixonaram-se naquele jardim onde tanta gente tinha sido feliz. Eles foram outros a manter a tradição. Casaram-se novos e ele tornou a rapariga “uma mulher séria”, e a viver apaixonada pelo “homem mais parecido com um actor de cinema” da região.

Foram viver para a outra parte do mundo e foram felizes durante muitos anos. Assistiram a vários eclipses juntos e acharam que era o universo a celebrar o amor deles. Tiveram filhos, netos e voltaram para Reguengos para adormecer todos os dias de mãos dadas, com a mesma felicidade dos quinze anos, quando ele era um gabarola e ela gostava de futebol.

O Sr. Vítor e a D. Maria criaram uma vida, tiveram uma história de amor e foram guardados pela cadela Pastor Alemão, chamada Diana em homenagem à princesa. Era uma história de amor incrível, e sentámo-nos a ouvir a vida dele que incluía sempre a mulher. No fim, encostou-se com um ar cansado e disse: “ela faz-me tanta falta”, e chorou, chorou com a tristeza de alguém a quem tinha sido arrancado uma parte. Tinha feito um mês que a mais que tudo daquele homem cansado e velho tinha morrido.

O Sr. Vítor estava sozinho, sozinho com um cão e um lado da cama vazio e feito. As calças de cabedal tinham agora pó e estavam guardadas no armário, a casa estava escura e com um ar triste. A sala estava cheia de molduras, garrafas de whisky, memórias e nada.

Prometemos voltar e tenciono cumprir. Disse-me que nunca se iria esquecer de mim, que eu tinha mudado o dia dele e que Deus me ia pagar. Quando falou em Deus disse-lhe que ia rezar por ele: “sim menina, mas não reze na igreja que o Padre roubou”. Perguntei-lhe em segredo se ia a alguma igreja, e disse-me que ainda não tinha feito as pazes com Deus. “Não é por me ter levado a mulher, mas porque ainda não me levou a mim”. Nem os filhos, nem os netos animaram a tristeza daquele homem por ter ficado sem a Maria.

No fim, voltei para casa com a garrafa de whisky que o Sr. Vítor me oferecera por ter acalmado o coração dele, com um abraço e uma dose de lágrimas que enchia uma garrafa do tamanho daquela que me dera.

Era um jardim feliz, com um homem triste. Sabem o que é que me encheu o coração?Saber que há amores que duram para sempre.

TdB

31 outubro 2010

Domingo …… Se Fores à Missa !

O Evangelho de hoje “bateu-me” forte. Jesus, naquele tempo, não fazia distinção entre as pessoas. A Ele não lhe interessava se se tratava de um publicano ou fariseu, se escriba ou judeu, se prostituta ou viúva, se leproso ou mendigo. Qualquer um era acolhido no seu coração, como o seria um dos apóstolos ou um dos seus amigos. Essa capacidade de aceitar e acolher o outro tal como é, é um dom. É um dom que vem de Deus, e que nós devemos praticar e desenvolver. Vivemos numa sociedade em que tudo é comparável, tudo é aferido pelo que temos ou não temos; pelo que somos ou não somos; pelo nosso bom nome; pela cor da nossa pele; pela classe social a que pertencemos, pela forma como falamos ou nos vestimos. Naquele tempo, certamente, assim o era, também. E Jesus veio cortar com essas amarras todas. Ele media as pessoas pela sua fé, pela sua força interior e não pelo exterior. Olhei para mim própria ao ler este Evangelho e realizo que estou sempre a fazer distinções entre as pessoas ( disse, no início do post, que este Evangelho me bateu forte); com que facilidade catalogo e classifico as pessoas com quem me cruzo nos diversos ambientes, em GCN e GDN (Gente Como Nós e Gente Diferente de Nós); com que leviandade decido que não quero perder tempo com esta ou aquela pessoa GDN, sem sequer abrir o meu coração? E, afinal, quem sou eu para decidir quem é GCN e GDN? E quais os critérios que utilizo? São os critérios do coração, os critérios do amor, da partilha e do acolhimento ou serão os critérios da sociedade, os critérios estúpidos e mesquinhos das classes sociais em que teimamos nos diferenciar? Porque diz moça e usa meia branca é GDN …. Porque faz férias na neve ou tem casa na Quinta da Marinha é GCN ! O exponente máximo é quando, orgulhosamente dizemos: “Sabes que a minha filha vai casar? E, graças a Deus, é com um rapaz GCN” Como se Deus tivesse alguma coisa a ver com GCN’s e GDN’s. Deus, através do seu filho Jesus, veio dizer-nos exactamente o contrário. Não olhes com os olhos, mas sim com o coração. Não julgues com a mente, mas sim com o amor do teu coração. Não deixes que as aparências te iludam, nem queiras iludir pela aparência. O Cristo que está em ti é o mesmo Cristo que está no outro.

Domingo Se Fores à Missa ………….. Olha com Coração !

Maf

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

Palavra da salvação.

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