24 agosto 2015

Vai um gin do Peter’s?

No Verão, o país parece desabar para Sul, com a avalanche de gente a caminho das praias e das noites quentes do Algarve. Vá lá não se afundar junto à Via do Infante.

Bem sabemos que há praias lindas por toda a orla atlântica, até ao Minho, mas não o clima cálido, quase africano da costa algarvia. De facto, à parte dos ventos violentos na Ponta de Sagres onde a cor do mar toma o azul forte e solene do Norte, tudo o mais é suave, turquesa e sem nortadas. Por isso, o Norte fica bastante despovoado e disponível para receber os visitantes, que ali têm muito para explorar. 

Primeiro palmarés nortenho: juntando o gozo de percorrer caminhos por entre paisagens de sonho, com sítios simpáticos para comer e dormir, a melhor estrada do mundo soma tudo isso e é portuguesa, segundo o estudo levado a cabo por especialistas estrangeiros para a Avis-rent-a-car. Num universo de milhares de troços candidatos ao prémio, nos quatro cantos do planeta, a Estrada Nacional 222 ganhou confortavelmente, exibindo valores que rasaram a correlação de curvas e retas considerada ideal pelos ditos especialistas. 

Dicas dos condutores experimentados para guiar na N222: «Esta zona é mais
segundas, terceiras, terceiras, segundas, mais travão do que segunda…»

A pequena estrada que liga o Peso da Régua ao Pinhão, serpenteando o curso aos ziguezagues pelas margens do Douro, cumpriu os requisitos da fórmula matemática criada por um trio de sábios para definir um critério de selecção objectivo e quantificável. A tal matriz determina o melhor tempo entre retas e curvas, além de incorporar benefícios extra como a envolvente natural. Assim, a estrada que dará mais gozo guiar deverá ter um rácio de 10:1, o que corresponde a dez segundos a direito para cada segundo a curvar, de modo a proporcionar a aceleração ideal para reta de tamanho certo e depois entrar na curva em U acentuado e relevée correcto. Ora, a N222 tem a proporção mais próxima do desejável, atingindo o 11:1. Facilmente, ganhou o galardão de World Best Driving Road, entre as muitas candidatas, com as medalhas de prata e de bronze a boa distância: a Big Sur na Califórnia chegou aos 8,5:1, e a A535 no Reino Unido ficou-se nos 8,4:1.

O próprio trânsito de camiões a circularem na N222 e a aparecer
ao virar de curvas apertadíssimas, aumenta o frisson da viagem. 

O júri reunia gente batida nestas lides. Assim, incluía um ex-piloto de Fórmula 1, que depois enveredou pela engenharia civil e a arquitectura, sendo o responsável pelo traçado das pistas de F1 dos últimos 20 anos – Hermann Tilke. 

O segundo era o designer de troços radicais, autor de montanhas russas famosas, como as britânicas Nemesis e Oblivion, em Alto Towers– John Wardley. Compreensivelmente, colaborou também nos efeitos especiais de 5 dos filmes do 007. Na sua opinião, uma boa estrada deve suscitar múltiplas sensações, da emoção à intimidação, com um ritmo variado de retas e curvas, proporcionando também uma experiência entusiasmante  e memorável, que divirta. Basta as vistas soberbas após cada ziguezague na N222, entre os socalcos de vinhas e o rio, para tirar o fôlego ao mais desatento. 

Segundo Hadley: «Embora este índice tenha uma base científica, depois das minhas experiências com Hermann e John, tornou-se claro que as emoções e as paisagens
foram factores essenciais. (…) É por isso que acreditamos que a melhor estrada
do mundo para conduzir é em Portugal – a Estrada Nacional 222»

O trio era completado por um físico quântico britânico – Mark Hadley, que esteve no arranque do estudo. Sobre a escolha tão renhidas entre tantos candidatos, explicou «O processo foi bastante exaustivo: em primeiro lugar aplicámos alguns conhecimentos físicos a uma ampla variedade de modelos de estrada. Posteriormente consultámos e envolvemos uma série de especialistas notáveis em diferentes áreas, inclusive Hermann Tilke e John Wardley (do júri), que ajudaram a refinar e testar este índice. Por fim, mapeámos meticulosamente estradas por todo o mundo com estes parâmetros rigorosos, de forma a identificar a melhor estrada para conduzir». 

Património Mundial da Unesco, o Douro continua em crescendo, com as suas quintas a oferecerem provas de vinho de grande qualidade, miradouros estratégicos a pontuar a galardoada Estrada Nacional, pontezinhas antigas, algumas do tempo dos romanos, uma estação de comboios em Pinhão revestida a azulejaria portuguesa, e todo o ambiente nostálgico da paisagem nortenha, que justificam a comoção de Jacinto quando aterrou acidentalmente naquelas paragens, acabado de chegar do chiquismo atordoante de Paris, que se pode tornar entorpecedor e entediante. O segredo de «A Cidade e as Serras» desvenda-se por inteiro naquela estrada ou na canja ainda saborosíssima das tascas perdidas nos contrafortes durienses. É que o Eça conhecia o Norte como a palma das suas mãos. 

Para aguçar ainda mais o apetite sobre os méritos da região e fugir ao caos instalado a Sul, a reflexão do Miguel Esteves Cardoso (de há uns bons anos) é eloquente. Guardiã do berço da nação leva a marca da identidade nacional: 


O NORTE

O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela.

As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram. Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas. Mais verdades.

No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior.

É que só o Norte existe. O Sul não existe.

As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.

No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? (…)
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país.

Não haja enganos. (…) Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa.

Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. (…) sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. (…)

Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.

Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. (…)

Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. (…)

Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

As mulheres do Norte deveriam mandar neste país.

Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. (…) Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade.

Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, (…)

Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos (…), defendem o 'Norte' em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente. (…)

Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes (…), com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer 'Portugal' e 'Portugueses' (…) sem complexos e sem patrioteirismos. (…) Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?»

por Miguel Esteves Cardoso 


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

23 agosto 2015

21º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,60-69

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram:
«Estas palavras são duras.
Quem pode escutá-las?»
Jesus, conhecendo interiormente
que os discípulos murmuravam por causa disso,
perguntou-lhes:
«Isto escandaliza-vos?
E se virdes o Filho do homem
subir para onde estava anteriormente?
O espírito é que dá vida,
a carne não serve de nada.
As palavras que Eu vos disse são espírito e vida.
Mas, entre vós, há alguns que não acreditam».
Na verdade, Jesus bem sabia, desde o início,
quais eram os que não acreditavam
e quem era aquele que O havia de entregar.
E acrescentou:
«Por isso é que vos disse:
Ninguém pode vir a Mim,
se não lhe for concedido por meu Pai».
A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se
e já não andavam com Ele.
Jesus disse aos Doze:
«Também vós quereis ir embora?»
Respondeu-Lhe Simão Pedro:
«Para quem iremos, Senhor?
Tu tens palavras de vida eterna.
Nós acreditamos
e sabemos que Tu és o Santo de Deus».

22 agosto 2015

Pensamentos Impensados

Crimes
Guilherme Tell, se tem matado o filho, teria cometido suicídio: matou um suíço.

Informática
Da internet recebemos os inputs, na casa de banho largamos os outputs.

Gula
Os peixes são uns gulosos, estão sempre com água na boca.

Bola
Treinador de futebol em português é mister, em inglês é coxo.

Macróbios
Vi na TV Mário Soares a abraçar Manuel Alegre, ou seria Matusalém a abraçar Noé?

Lesões
Os lesados percorrem Portugal de BES a BES.

Comilões
O Sporting ganhou a super-taça; os meus fatos tentam ganhar à super-traça.

Falecimentos
Os símios morrem todos de morte macaca.

SdB (I)

20 agosto 2015

Da paisagem

Durante algum tempo - não me lembro quanto, nem quando - apreciei sobremaneira a paisagem beirã / nortenha: a geografia montanhosa, as fragas, as ravinas, o serpentear dos rios no fundo de uma escarpa, a terra agreste onde a urze a custo desabrochava, como diria o Aquilino. Era como se esta geografia reproduzisse o desafio da vida - as curvas, as elevações, o eco a devolver os gritos, a altitude a deixar adivinhar um frio de rachar os ossos. A vida era agitação, procura, imediatismo, luta.



Depois - também já não sei quando - a minha alma regressou toda ao Alentejo onde passei muitos e felizes setembros: era a terra a perder de vista, o silêncio, o sossego, o ritmo lento dos dias, os castanhos da terra, os fins de tarde amenos e um tudo nada moles do fim do verão, as searas, o gerúndio local a dizer que nada se faz, tudo se vai fazendo, que não se vive, mas que se vai vivendo. 

Ontem, à hora a que escrevia, regressara ao Alentejo (muito perto da Borba das minhas saudades) que me conheceu menino a viver o seu primeiro drama de amor nas cartas a que se agarrou para sempre, a crescer nos cigarros escondidos e gregários ou nas idas aventureiras a uma Badajoz onde se apreciavam os caramelos e se temia a ferocidade da guarda fiscal. Ontem, à hora a que escrevia - e apesar dos temíveis 35ºC - confirmei o silêncio, a lonjura, os castanhos, o gerúndio como única conjugação possível da nossa existência verbal.



O que preside à mudança de apreciação da natureza? Não é seguramente uma questão de idade, como se houvesse - que há! - necessidade de vida suficiente para apreciar um Rembrandt. Não precisamos de mais anos para apreciar a beleza do marão em detrimento da beleza da planície alentejana, como não precisamos de mais anos para apreciar Londres em detrimento de Paris. É possível que alguma coisa mude dentro de nós para mudarmos a forma como olhamos para a terra que nos circunda? 

Em termos de natureza sou mais alentejano do que nortenho, sendo que já fui o contrário. O que mudou?

JdB   

19 agosto 2015

Game viewing

Há sete anos, que se completam no final do mês, estava num Lodge no Zimbabwe para alguns dias (luxuosos, a 12€ / dia) de safari fotográfico. Poderão relembrar os pormenores abaixo.

Hoje ainda estarei com um amigo recente que, volta não volta, vai a Moçambique caçar, tendo inclusivamente assumido um negócio nessa área. Um destes dias disse-lhe que gostava de ir com ele, tudo dependendo da evolução da vida profissional e financeira. Nunca disparei uma arma contra um animal, mas gostaria de ter essa experiência. Como me sentirei depois? Incomodado, como penso, ou todo entregue a um espírito ancestral de caçador? Acima de tudo move-me uma certa curiosidade sociológica: estar uma semana (não quererei estar mais) no meio do mato, isolado de comunicações e comodidades. Como me darei?

JdB

***

Dados que parecem relevantes para um melhor enquadramento da reportagem que segue:

Hóspedes do Nduna Safari Lodge: JdC e este vosso criado; uma diplomata relativamente júnior da embaixada inglesa e a sua irmã, ainda mais júnior; um casal com um filho dos seus 16 anos e com uma altura obscenamente elevada. O pai (presume-se que fosse, dado que o ADN não se observa a olho nu) neozelandês; a mãe, natural deste país, e que sofreu um qualquer trauma que lhe solta um conversar ininterrupto num inglês dificilmente compreensível. Tentou explicar o drama ao JdC, mas interpôs sempre uma outra história, e mais outra. E outra ainda… Resta-nos pois, a especulação – e o descanso do ouvido, não obstante a amabilidade da interlocutora.

Rotinas de Game Viewing: alvorada pelas 05.30h, chá, café e bolinhos trinta minutos depois; debandada para o mato decorrido igual período de tempo. Chegada pelas 09.30h, para pequeno-almoço. De tarde, o mesmo cerimonial das bebidas e biscoitos, mas a começar pela hora terceira com arranque passada meia hora. Chegada pelas 19.30h, a tempo de um banho retemperador e de um jantar ao som da savana.


Os meus leitores, fiéis ou ocasionais, perguntarão se vi animais diferentes, aves raras, insectos únicos. Indagarão se temi pela vida ante a investida feroz do búfalo, o rugido tremendo do leão ou o riso escarninho (imaginado, porque não vi) da hiena. Quererão saber se as aves piam diferente, se imitam o rufar dos tambores ou gritam toufraca em shona. A resposta é: não!

Num dia, após uma aturada busca e uma condução arrojada pelo mato e pela savana, já o sol tinha recolhido, encontrámos dois casais leoninos. Soubemos, por quem conhece o seu rebanho, que estavam em digestão de um búfalo deglutido, sem preocupação estética, mas com furor sanguíneo, havia quatro dias. A mansidão era tal que quis levantar-me e afagar-lhes o estômago cheio, sussurrando-lhes bichaninho ao ouvido. Não rugiram, e levantaram a cabeça vaga com uma indiferença que me desiludiu. Talvez eu ficasse pior, se tivesse um búfalo como pitéu...


Na véspera, fazia o grupo o seu descanso, aproximou-se um rinoceronte. Olhou-nos com um ar indiferente a meia dúzia de metros e seguiu a sua vidinha, naquele corpo de antes da criação do mundo. Acontecera o mesmo com um elefante trombudo que, de tanta proximidade, quase nos aquecia a nuca com um bafo quente. A hiena esteve à distância de dois metros; ao gnu quase lhe vi a cor dos olhos; distingui, claramente, o código de barras da zebra.


Dir-me-ão, então, queridos leitores, que não há grande diferença entre os habitantes do Zoo lisboeta e a fauna que povoa este espaço imenso. Poderia ter ido a Sete Rios e poupava a destruição de uma mala. Erro! O bicho pode ser o mesmo, ter a mesma mansidão aparente, mas o habitat é que marca a diferença. Aqui vemos o reino animal nos seus domínios, passeando-se com ferocidade ou ligeireza consoante a sua espécie. Apercebemo-nos das rotinas próprias, dos momentos de caça, dos esquemas de fuga, das regras de acasalamento, dos hábitos alimentares.

Compreendemos que o impala (ou um dos seus inúmeros primos direitos) confraterniza com o babuíno – não porque lhe aprecie a traquinice, mas porque o macaco é um excelente alerta para a presença de predadores; deparamo-nos, a todo o momento, com a fúria destruidora do elefante, que derruba árvores por onde passa para comer uma ramagem carnuda lá do alto; vemos, quase, a obediência da hiena jovem, que permanece na sua toca até que a mãe regresse da caça; descortinamos o piar de alerta dos pássaros e os animais que caçam apenas de noite, como se fossem homens viciados em bas fonds.



Fazer um game viewing é muito mais do que ver a girafa, o mocho, o ginete ou o hipopótamo. É estar ali, onde tudo se passa, ver o mato e a savana, o espaço e a cor (sempre as mesmas referências), o cheiro e a luz, o sol a pôr-se por trás das acácias, a brisa do fim da tarde a agitar as folhas do mopane, o calor confortável do meio do dia a contrastar com o frio tremendo da noite, a paisagem verdejante ou desoladoramente lunar. Fazer um game viewing é sentir, também, a frustração de não ter visto o leopardo, o único dos big five que não se quis mostrar… O que fizemos foi mais do que encontrar bicharada escondida numa ramagem, a assomar por detrás de uma árvore, a escapulir-se na margem de um rio seco.


Por último, mas não menos importante, fazer um game viewing também é sair do jipe e, na orla de um charco, à vista de uma bola amarela que se põe no fio do horizonte, beber um gin and tonic, e realizar que nem tudo se perdeu neste país que já se chamou Rodésia.

18 agosto 2015

Duas Últimas

Atrapalhado com a feitura do primeiro draft da tese de mestrado - o tempo é curto e a sabedoria pouca... - falta-me a inspiração para escritas bloguistas. 

Deixo-vos com Pedro Jóia - numa parceria com Ricardo Ribeiro e num solo.

JdB


17 agosto 2015

Poemas dos dias que correm

Toronto, Outubro de 2014


A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

16 agosto 2015

20º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,51-58

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar é minha carne,
que Eu darei pela vida do mundo».
Os judeus discutiam entre si:
«Como pode ele dar-nos a sua carne a comer?»
E Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a carne do Filho do homem
e não beberdes o seu sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha carne é verdadeira comida
e o meu sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em Mim e eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou
e eu vivo pelo Pai,
também aquele que Me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram:
quem comer deste pão viverá eternamente».

15 agosto 2015

Pensamentos Impensados

No restaurante
- Quero um bife bem pretérito.
- Perdão?
- Quero um bife bem passado.

Boladas
No futebol, os descontos têm a ver com a época dos saldos?

Bem visto, bem visto...
O tema homem invisível tem perdido a visibilidade.

Jornalismo
Não há Forbes que não dê em fortuna.

Negócio falhado
Quem cabritos vende, e cabras não tem, procure nos bares de alterne.

Equivalência
Atena é uma deusa que m'enerva.

Bulhas
Sou pacífico, mas todos os anos tenho um ajuste de contas com as Finanças;
até à data tem ganho o inimigo.

Entre mortos e feridos...
Um acidente na A644 provocou 3 feridos e 1 morto; os feridos estão livres de perigo e o morto está estável.

SdB (I)

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

Hoje, mas há 21 anos, baptizava-se na Igreja de Santo António do Estoril uma criança que, estou certo, já nascera consagrada a Nossa Senhora.

JdB

***

Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.
Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa.


***

EVANGELHO – Lc 1,39-56


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.

12 agosto 2015

Ainda do Padre Ricardo

Faz hoje uma semana que morreu o Padre Ricardo. Nas conversas de amigos, de gente que é paroquiana do Estoril, fala-se de outras coisas, mas a morte dele surge sempre. Nas duas missas a que fui (5ªf e 6ªf) a Igreja da Boa Nova estava cheia, a deitar por fora. Muitas centenas de pessoas daqui, mas também de outros sítios; muitas dezenas de padres, diáconos, acólitos, quatro bispos, o Cardeal Patriarca. O elencar aparentemente estatístico das pessoas obedece a um critério - não o da importância da pessoa que morreu, mas das tantas e tantas pessoas que ele tocou durante as suas funções no seminário, em Santo António do Estoril, em tantos casais e em tantas famílias. Mas também da forma como morreu - uma brutalidade num homem bom, com 42 anos.

O Padre Ricardo não tinha importância institucional. Actualmente seria fundamentalmente prior de uma paróquia, com uma ou outra função. A multidão que lhe fez companhia nas duas missas de corpo presente não seguiu uma personalidade relevante a nível nacional, um pensador com créditos firmados publicamente, um candidato a qualquer coisa ou alguém que já foi qualquer coisa. As pessoas seguiram o homem Padre Ricardo Neves - o homem que dava abraços como se não nos visse há anos, que nos conhecia pelo nome, que nos identificava a história, que nos desafiava com compaixão e amor firme até às lágrimas; o homem que ria, que fazia caretas, que nos dizia uma graça provocadora e que se ria das que lhe dirigíamos; o homem que tinha uma fé inquebrantável e uma agenda de loucos.

À minha volta vi vários homens comovidos. Gente feita e direita, de barba rija, alguns com a sua dose de estragos e dramas. Para cada um destes, para cada um de nós - para mim - não morreu o prior: morreu o homem que me ouviu, que me falou, que me ensinou, talvez que comigo tenha aprendido um módico de coisa nenhuma, que me fez perguntas cujo alcance só percebi mais tarde, que preferiu a compaixão ao cumprimento estrito de um regra seca e, sei lá eu, de uma quase desumanidade árida. Não morreu, de facto, o prior: morreu o Padre Ricardo que existia em cada um de nós, que vivia com cada um de nós. 

Com o desaparecimento do Padre Ricardo desaparece mais do que um interlocutor: desaparece quem me conhecia a alma e os dramas, os desejos e as alegrias; desaparece o homem mais pequeno a quem abracei forte e comovidamente depois de lhe desnudar tantas e tantas vezes a minha vida. Com o desaparecimento dele não acaba o meu mundo, mas fecha-se um ciclo na minha vida de paroquiano de Santo António do Estoril. Ainda não sei o que isso quer dizer, pelo que talvez volte ao tema.

JdB    

Músicas dos dias que correm

Hoje, mas há sete anos, estava no Zimbabwe, e escrevia para o continente europeu sobre Harare. Tinha chegado há pouco mais de uma semana. Numa troca de comentários com uma amiga, referi esta música excelente com interpretação igual. Falava-se em green grass, a relva que cresce forte após as queimadas.

Ontem tivemos amigos a jantar. Entre um folhado de pato rematado com um licor de figo caseiro (uma pomada, diria o personagem do Herman José...) a noite alongou-se, pelo que a criatividade fica pelos mínimos. 

A quem está de férias, que continue a gozá-las. A quem trabalha, que nada lhe seja pesado. E apreciem a Sandy Denny, que canta este Whispering Grass de forma magnífica.

JdB

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