20 outubro 2009

Trancas à Porta


Subi ao quinto andar do número seis do Largo da Fonte, que é estreito demais para lhe chamarem largo e ainda por cima não tem nenhuma fonte, nem sequer um chafariz, ainda que avariado, como os do jardim do meu bairro, que não matam a sede mas apaziguam a vista a quem gosta de ver a rua arranjada. É importante embelezar a nossa freguesia, diz sempre o Aníbal presidente, com a cabeça tão inchada que ameaça explodir o colarinho e, sem abusar da sorte, tudo o que mais se encontre perto dele. É um idiota.

Quando eu era rapazola subia estes degraus duma corrida só, carregado de recados, no tempo em que tu não existias aqui. Quando a Fátinha costureira morreu, uns dias a seguir à minha mãe, fiquei de vir cá recolher os trapos que, além de já não poderem ser remendados, não tinham para quem voltar. O Aníbal amolgou-me as costas nessa semana, Tentar perceber essas coisas vai deixar-te idiota, proclamou ele quando me apanhou a dois terços de uma garrafa de Famous Grouse e de razão entalada entre as aleatoriedades da vida. Penso que, de maneiras diferentes, somos iguais aos olhos um do outro, eu e o Aníbal.

Foi com o fim do whisky e, por coincidência, da comida do gato, que decidi ir até ao quinto andar, que entretanto já era teu, não por querer recolher o resto dos pedaços da mãe que ainda estavam espalhados pela vizinhança, mas principalmente porque, se queria voltar a sair à rua, precisava das Levis 501.

Não toquei à campainha porque, como tentei explicar-te entre objectos voadores de dimensões diversas e arestas ameaçadoras, não esperava que estivesse alguém para me abrir a porta. Tinhas as minhas calças vestidas e os teus pés espreitavam dos dois pares de dobras que tinhas feito para não tropeçar. Nunca tinha visto uma rapariga andar descalça como eu, foi uma agradável surpresa, apesar do estardalhaço. Disseste-me que sorri quando olhei para ti, e que só reparaste que não tinhas parado de lançar coisas quando eu me encolhi no chão. Não te queria acertar, dizias aflita, Mas também, porque é que entraste assim aqui em casa, continuavas, Mas espera lá, quem és tu?, não esperavas pelas respostas que eu não conseguia dar, que a dor era daquelas que vêm de onde só os homens sabem.

Acabaste por me oferecer um lugar no sofá, onde acabei por perder o tino às horas.

Subi ao quinto andar e, pela primeira vez ao fim de oito meses, não tens a porta entreaberta. Dei a volta à fechadura, como fiz da primeira vez que aqui vim, e não houve nenhum tipo de recepção, nem objectos voadores nem braços leves à volta do pescoço, nem sequer o, Estou aqui, que costumavas cantar quando estavas na varanda. Chamei por ti e fiquei à espera de ouvir o segredo dos teus pés descalços, num passo leve e feliz de quem esteve à espera, fiquei parado durante um tempo que não sei dizer. Estas fechaduras já não se usam, disse o Jorge da polícia, Qualquer artolas podia ter entrado, e com a maldade que anda praí...

Tentar perceber essas coisas vai deixar-te idiota, disse o Aníbal da última vez que o vi. Resolvi continuar por aqui, mas não sei se tenho coragem de ir buscar as minhas Levis 501 outra vez.

ZdT

19 outubro 2009

Prémios imerecidos


GJ, num exercício de consideração actualmente sub-equatoriana, mimoseia-me com o prémio supra. Para poder ser fidelíssimo depositário deste galardão devo cumprir algumas regras, nomeadamente três, sendo que a do meio consiste em referir três (sempre este número bíblico) situações de conflito que me levaram ao divã (o de casa, porque os outros, mais especializados, nunca frequentei). Ora, são eles:
- quando percebi que os desaparecimentos não obedeciam a uma regra lógica (ou pelo menos desejável) e que eles iam, por vezes, antes de nós.
- quando senti que o provérbio que termina em nem mal que nunca acabe me soava a disparate por duas vezes no espaço de dois anos;
- quando me confrontei com a possibilidade de ter criado um deserto de entusiasmos dentro de mim, arriscando-me a não vislumbrar os vários oásis que a vida me ia oferecendo.
Quanto à terceira regra... Posso pensar mais um bocadinho?

JdB

O inteligente

Sim, sim. Inteligência, claro. Olha…

Era de madrugada, e Gaspar ouvira este princípio de frase que se imobilizara no cérebro como uma folha teimosa num remoinho de Outono.

Gaspar, o nosso protagonista, tinha-se formado com seriedade no Instituto Superior Técnico. Como sempre acontecera ao longo daqueles cinco anos, corria para enxergar, em duas pautas, em dois pavilhões, as notas dos dois cursos que tirara em simultâneo. Como costumava dizer

temos dois olhos, dois hemisférios cerebrais, dois ouvidos, duas mãos, duas pernas…

e isso era, para si, argumento bastante para a empreitada. Dupla, diga-se de passagem.

Considerado um homem superiormente inteligente, discorria com propriedade sobre qualquer assunto, vivendo nesse limbo que separa, por vezes, a cultura da informação. Ria pouco e o sorriso, quando se abria, era mais um esgar de espanto por ver amigos e colegas gargalhando com uma série cómica, um filme ligeiro, uma anedota. Mas Gaspar, na sua seriedade, tinha a mente noutro lado. Enquanto os camaradas de curso se afadigavam a ver de onde partia a bola (eufemismo para ilustrar a vida em geral, com as suas tendências científicas, propensões literárias, pendores médicos) Gaspar contraía os olhos que todos temos na mente e sabia para onde seguia o esférico cuja partida os outros descortinavam.

O mundo girava e Gaspar, com um bilhete comprado no carrossel da vida profissional, sentia que tudo era uma espiral ascendente. De estagiário passara a contratado a prazo; num feliz Natal fora presenteado com o ingresso nos quadros; quando o conheci em casa de amigos comuns (moramos todos num raio de mil e quinhentos metros) Gaspar era director-geral da empresa. Continuava a não sorrir, mas talvez achasse isso dispensável face a um carro fabricado ontem, a um cartão do ouro mais fino, a férias em lugares impossíveis, a contactos internacionais ao nível da excelência.

Solicitei-o várias vezes para me resolver pequenos problemas domésticos: uma torneira irrequieta, um gás natural sem chama, uma disfunção num reóstato. Sempre prestável e solícito, percebia-se que observava a dificuldade com um duplo olhar (dois cursos, duas mãos): o olhar do cientista que pré-examina o problema à luz do conhecimento teórico e o do homem que não ri, porque aqueles que riem não sabem o que é um reóstato.

Sim, sim. Inteligência, claro. Olha…

Gaspar atentou na nudez de Marília quando ela se levantou da cama. Uma nudez alva num corpo vagamente franzino mas proporcionado, que o acompanhava em noites lentas de há alguns meses para cá. A rapariga fascinara-se por uma inteligência superior e séria que não se perdia em miudezas quotidianas, porque havia o futuro da humanidade, o aquecimento global, a escassez da água, as radiações nocivas, o trânsito caótico.

Sim, sim. Inteligência, claro. Olha… Mas és capaz de me fazer rir?

Gaspar foi desgraçadamente clarividente. Os outros veriam de onde saía a Marília. Gaspar – com os seus dois hemisférios – já percebia para onde ia a ex-fascinada. Quando lhe viu as costas desnudas por onde gostava de passar uns lábios sérios percebeu que, pela primeira vez, tinha chumbado no exame.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto que devia ter sido publicado sábado no Porta do Vento mas que não foi devido a obras de restauro no dito.

18 outubro 2009

O "ranking" da Felicidade

A expressão já é conhecida. Existe mesmo um organismo chamado “World Database of Happiness”, cujo objectivo é desenvolver estudos que possam medir o grau de felicidade das nações. Naturalmente que os países com melhores condições de vida, nomeadamente países do norte da Europa, ocupam os lugares cimeiros da tabela. Não se podem absolutizar estes estudos porque inúmeras são as situações humanas que geram felicidade ou infelicidade. Mas eles ajudam a perceber que as atitudes individuais, e em especial a capacidade de viver em equilíbrio e de estabelecer objectivos, contribuem para a transformação de cada um e de todo um grupo social. O que torna mais verdadeira ainda a frase atribuída a Santo Agostinho: “uma alma que se eleva, eleva o mundo”.

Ainda nos rescaldos dos conflitos em torno da educação foram conhecidos os “rankings” das escolas. A exigência é uma tónica constante dos melhores resultados. Mas não deixaram de me interpelar dois tipos de afirmações, recolhidas por um jornal, em duas escolas católicas. Numa delas, uma aluna afirma: “Os nossos professores ensinam-nos a ser as melhores em tudo”, e outra diz: “Ficar em primeiro é mais um orgulho do que responsabilidade.” “Ser as melhores em tudo” terá certamente um sentido de exigência e de trabalho, mas traduzirá uma sã competição e uma correcta visão da realidade? Mas a afirmação que me inspirou foi a do director de outra escola: “Eu quero que os meus alunos sejam os primeiros no ranking da felicidade.” Gosto mais desta perspectiva, feita também de exigência, mas que tem em conta a totalidade da vida.

É de admirar a coragem do pedido de Tiago e de João. E, para além da tentação primeira de os julgarmos soberbos e desejosos de poder, gostaria de pensar que pode traduzir o desejo de estarem próximos de Jesus e de, com Ele, exercerem também uma função de serviço. Como se fossem “primeiros-ministros” (que, na realidade, quer dizer “primeiros a servir”)! Mas o que me encanta é o modo como Jesus acolhe este pedido e faz dele ocasião para um compromisso com a sua vida e missão. “Beber o cálice” e “ser baptizado” tem o sabor da Páscoa, o sabor de uma vida entregue para a felicidade de todos. E será essa a lição para todos os discípulos: se queremos um “ranking” do seguimento de Jesus e da sua amizade, “servir e dar a vida” é o termo de avaliação. “Sentar-se” e acomodar-se a práticas vazias, ou correr para “ser os melhores” (talvez sem olhar aos meios e aos outros!) tem pouco a ver com isso. Que felicidade procuramos?

Nota: texto do P. Vítor Gonçalves tirado daqui.

XXIX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 10,35-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Tiago e João, filhos de Zebedeu,
aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
«Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir».
Jesus respondeu-lhes:
«Que quereis que vos faça?»
Eles responderam:
«Concede-nos que, na tua glória,
nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda».
Disse-lhes Jesus:
«Não sabeis o que pedis.
Podeis beber o cálice que Eu vou beber
e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?»
Eles responderam-Lhe: «Podemos».
Então Jesus disse-lhes:
«Bebereis o cálice que Eu vou beber
e sereis baptizados com o baptismo
com que Eu vou ser baptizado.
Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda
não Me pertence a Mim concedê-lo;
é para aqueles a quem está reservado».
Os outros dez, ouvindo isto,
começaram a indignar-se contra Tiago e João.
Jesus chamou-os e disse-lhes:
«Sabeis que os que são considerados como chefes das nações
exercem domínio sobre elas
e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder.
Não deve ser assim entre vós:
Quem entre vós quiser tornar-se grande,
será vosso servo,
e quem quiser entre vós ser o primeiro,
será escravo de todos;
porque o Filho do homem não veio para ser servido,
mas para servir
e dar a vida pela redenção de todos».

17 outubro 2009

Ide Bloyeurs, espairecer


Toma-se a estrada da Beira e onde o Alva e o Alvoco se misturam, sobe-se à Aldeia das Dez. É lá que se encosta essa quinta. Sete hectares viçosos.

É já crescido na vida de hotel rural. Fez onze anos que a Quinta da Geia abriu ao turismo. Uma história diferente, gente de fora, um outro jeito de receber. Holandeses, são holandeses os proprietários que adquiriram o que restava desta casa agrícola beirã e a dotaram a este fim. Homens, são homens, esses holandeses que em anos idos escolhiam Portugal para férias e a cada vinda sentiam-no um “país intrigante”.
- Intrigante Fir?!
- Sim. Não em Lisboa ou no Porto… as cidades são todas iguais. Entre Lisboa e Amesterdão, não há grandes diferenças. No meio rural, claro.
Acabei sem informações exactas sobre que “intrigas rurais” inspiraram Fir a escrever aquela frase.
A Aldeia das Dez é património qualificado de histórico, fixou 10 famílias na sua origem, e viveu na dependência desta casa agrícola da Geia desde o século XVIII. Era a fruticultura a grande aposta e, em 1974, a fama tinha sabor a morango. Vinham daqui os primeiros que apareciam no mercado. Assim se garantiu a aldeia de pão e trabalho, mas a democracia inverteu a vida das gentes, porque a quinta se viu sem rei nem roque. Quando Fir e Frenkel a encontraram, pouco havia. Terra em socalcos, vista para o vale, uma quinta de velho, uma casa em ruína. Era Primavera, a de 1994. Feita a escritura, colabora a tutela na aprovação do projecto de reconstrução e na concessão de um subsídio, e adjudica-se a obra a um empreiteiro local. “Em apenas dois anos o senhor José Ramiro de Alvôco das Várzeas, foi capaz de nos entregar um fantástico hotel. Até os mais pequenos detalhes e acabamentos se encontram perfeitos. E também agora, após anos, não demonstra nenhuma falha.”
… de Alvôco das Várzeas. Dos campos férteis da margem do rio. Intrigante de facto.
Nem falha, nem fuga, nem erro. Por dentro, o hotel é uma beleza. Muito português, muitas vezes imperial europeu, holandês, pois claro, em belos móveis. Rústico e clássico. Aqui velho, ali contemporâneo. Acolá uma época, ao lado outra. Agnóstico e religioso. Fir compra, compra, compra. Carrega, traz, restaura e põe no sítio certo. Encheu a sua planta, inteligentemente traçada e indecifrável numa só corrida, de objectos magníficos, uns de grande valor artístico, outros vivendo só da alma. Fir não despreza uma peça, entende-se com muitos canais do sentir. E consegue levar o conforto à alma.
Sempre gostei da gente da Beira. Sempre me pareceu o povo mais anfitrião da nossa terra. E dão-no aqui à Geia. Genuína e intensamente. Os holandeses captaram-no.
Falei de Fir, o advogado. Ele é mais do hotel, do jardim, da piscina, das relações públicas. Frenkel é o chef e à ementa dispensa o tempo. O seu restaurante “João Brandão” (um fidalgo que deu brado) reúne fregueses vindos de todo o lado. Frenkel tem parança quando a noite cai, entre “submarinos”, cerveja e aguardente directa no estômago. O restaurante é a alegria. Tem hóspedes serenos que jantam, amigos da aldeia que vêm para café, empregados que ainda não se lhes deu a vontade de seguir a casa, tem conversas fáceis e eruditas, pipas de vinho, rótulos de prestígio, e sempre este tráfico de vida sobre digníssimos registos musicais. Cesária, Callas, Piaf, Amália, Marisa, Pavarotti, Boccelli, Glenn Gould, Nat King Cole, Rod Stewart, Brian Ferry...

Hotel Rural Quinta da Geia
Aldeia das Dez, Oliveira do Hospital
http://www.quintadageia.com/

DaLheGas

16 outubro 2009

royal straight bluff

estas semanas
têm saído
nem melhores nem piores
nem diferentes
do que
outras semanas.
o tio charlie, o tio philip, e eu próprio,
a jogar às cartas.

razão tinha aquela vizinha de minha mãe:
- cuidado com as futuras companhias
desse rapaz, minha senhora.
saberia ela porventura
qualquer coisa verdadeira,
algo verdadeiramente importante?
ou seria apenas mais uma
simples velhinha,
por circunstâncias da vida
e por mero acaso,
nossa banal vizinha?

estas semanas, dizia,
têm sido
nem melhores nem piores
nem diferentes
do que
outras semanas.
como os poetas, aliás,
e as companhias futuras,
as semanas
escolhem-nos a nós bem mais
do que nós as escolhemos a elas.

bukowski (o tio charlie),
larkin (o tio philip),
e blake (eu próprio):
os três estarolas,
uns irmãos marx desoptimizados,
para deleite
de saraus literários
transbordantes de mentecaptos.

tudo isto são factos.

a velhinha da vizinha é que,
do fundo do seu mundo,
sabia afinal das coisas:
poetas, companhias, semanas.
todos, todas, tudo

patranhas.


gi

15 outubro 2009

Deixa-me rir...

Like a Rolling Stone é uma canção de Bob Dylan, de 1965, do seu álbum Highway 61 Revisited. Marco importante e revolucionário da música pop mundial, constou do repertório musical de mega artistas como os próprios Rolling Stones, Jimi Hendrix, BB King, Bob Marley, Lenny Kravitz e Noel Gallagher.

Escolhi, no entanto, uma interpretação "diferente" e que me agrada muito. Não será a melhor, sobretudo para os puristas de Bob Dylan, mas eu gosto muito dela. Adoro a suavidade da melodia e chega a comover-me a forma como é cantada. Tão sentida, tão pungente, tão delicada também .... Acho-a particularmente interessante porque é cantada por uma mulher (Barb Jungr) a quem uma vez ouvi dizer, no palco do Almeida Theatre, em Londres, que iria cantar Bob Dylan até morrer. Tirassem-lhe tudo e todos, mas não o Bob Dylan.

Agrada-me seguir, devagarinho, a história de alguém que é abandonado à sua triste sorte, tal qual uma pequenina pedra rolante num qualquer caminho, depois de ter estado nas alturas, bebido champanhe e rido alto das misérias alheias. Gosto de canções com letras fortes e interpelativas, que falam da condição humana e das "quedas" que abrem caminhos para a descoberta da fragilidade que nos torna irmãos.

E adoro o acompanhamento musical, a simplicidade do arranjo, e a vibração teatral e intensamente sentida da intérprete.



Acrescento também a versão original do Bob Dylan para que me digam se a Barb Jungr a assassinou. Em meu entender, acrescentou-lhe dramatismo e novos picos de emoção…. mas isso sou eu!



Ah, é verdade, tudo se passou no Barbican Hall, em Londres … e o PO, meu partner no Deixa-me Rir, odeia a Barb Jungr! Acha que ela não sabe cantar Bob Dylan. Pois eu acho que sabe. E muito bem. Ouçam o álbum “Every Grain of Sand” e depois digam-me …

pcp

13 outubro 2009

O caubói

Puxou as rédeas e o cavalo parou de imediato. Tinha sido um dia cansativo, para ele e para o cavalo. Mas este nunca abrandou o passo, seguiu sempre a galope em direcção a Oeste. O dono saltou para o chão, passou-lhe a mão pelo focinho e encheu o balde com água. Era um Mustang castanho, daqueles nascidos e criados debaixo do sol abrasador do deserto que leva muitos homens à loucura de verem o que não existe.

Depois de lhe dar de comer e de beber, o caubói encostou-se a uma pedra. O sol já se punha, e o calor que ferve durante o dia dá lugar a um vento mais frio que vem de Norte. Mas, muito desse calor é agarrado pelas pedras que pouco a pouco o vão deitando cá para fora durante a noite. Era por isso que ele procurava sempre um sítio rochoso para dormir e fugir ao frio.

Estava a meio caminho do seu destino, uma cidade de que tinha ouvido falar. Não sabia o nome, apenas que, andando para Oeste, era a primeira no mapa. Prometeram-lhe que lá encontraria facilmente trabalho e uma cama. Ouviu também dos bordéis com as mulheres mais bonitas de todo o Oeste, e dos saloons com o melhor whisky da América. Por isso ia para lá o mais rápido que conseguia. Se dependesse dele, continuaria a cavalgar durante toda a noite, mas, no escuro, a orientação tornava-se mais difícil. Decidiu então parar e esperar que o sol nascesse.

Tirou o chapéu da cabeça e pousou-o no chão virado para baixo. Com o lenço que levava ao pescoço limpou o resto de suor da testa e pendurou-o num ramo seco. Tirou o revólver do coldre, um .38 tipicamente americano, abriu o tambor e deixou cair as balas no chão. Soprou para tirar a poeira que durante o dia fica presa nos cantos mais apertados, e limpou o cano por dentro e por fora. Nunca tivera de o usar, mas não queria arriscar a que no dia em que o chamassem a um duelo a arma encravasse nas mãos. Não seria uma pedra ou poeira teimosa que lhe assinariam a sentença de morte.

Puxou do cachimbo e do tabaco. Encheu um copo com Jack Daniels, o seu amigo mais fiel, e bebeu tudo de um trago. Pensava nos saloons, com um piano desafinado em que qualquer um se sentava para tocar, e nos balcões compridos do bar onde canecas de cerveja iam deslizando de um lado para o outro. Imaginava-se a conhecer a mulher mais bonita da cidade, presa contra vontade por um bandido sem sentimentos. E esse, derrotá-lo-ia num duelo, ganhando a donzela. E assim ia enganando o tempo até adormecer, entre whisky, sonhos e nuvens de fumo.

Uma buzina estridente tocou, e tanto o caubói como eu acordámos. Ainda com os olhos meios fechados olhei pela janela e percebi que tinha chegado ao Cais do Sodré. Dormira durante a viagem toda. No comboio das 07:07 da manhã o melhor a fazer é sonhar. Tirei o iPod do bolso para ver o que estava a tocar. Não só tinha sonho, como banda sonora.

SdB (III)

12 outubro 2009

A garagista

Começara com o Meccano dos irmãos mais velhos depois de ter sentido a magia do Lego, não para a construção de casas, mas para a concepção de espaços industriais – “fábricas para fazer coisas”, como dizia - numa idade em que a normalidade estatística recomendaria o desejo do sexo oposto.

Passara, então, para os electrodomésticos. Numa primeira fase, com a perspectiva da autópsia e, numa segunda, com uma dimensão de curandeiro. Acabaria, se é que a expressão se pode utilizar em quem está no início da vida, a esmiuçar carros, numa dissecação cientista dos vários órgãos.

O curso de engenharia mecânica veio como corolário lógico de uma mente e de umas mãos voltadas para as máquinas e equipamentos, electrónica e circuitos afins. Quando se instalou no bairro provocou aquela estranheza que por vezes antecede o respeito ou o sorriso. De facto, não era costume ver uma mulher – ainda para mais relativamente nova – à frente de uma oficina de automóveis.

Mas Andreia, com uma cara bonita num corpo equilibrado, impôs-se num mundo quase exclusivamente masculino. Se fosse preciso gritava, descompunha um empregado, falava-lhe de igual para igual – em termos de conhecimento, é claro, porque a hierarquia nunca foi questionada. Este convívio indiferente só com homens, totalmente imune a olhares concupiscentes de clientes e mecânicos (porque a relação profissional não inviabiliza o desejo) acabou por sujeitá-la a algumas suspeitas de orientação de vida íntima menos ortodoxas… Tornara-se, acima de tudo, numa mulher dura e intransigente.

Duas vezes por mês, no recato de sua casa, Andreia recebe Madame Odille, uma francesa que tem o privilégio de umas mãos de fada e de uma sensibilidade de artista. Durante uma hora e meia a garagista aprende tudo o que é possível sobre pintura: os estilos, a história, a aguarela, o pastel, o lápis. Tem uma única exigência: os últimos trinta minutos são dedicados em exclusivo ao retrato, mesmo sem a presença de um modelo. Nos olhos de Madame Odille há um cintilar de desconfiança sempre que olha para um esboço ou uma obra acabada. É como se houvesse uma qualquer nota dissonante, ainda que essa dissonância esteja numa constância a que alguns chamarão monotonia. A mestra pressente, mais do que evidencia. Talvez seja dos seus 70 anos, de uma visão menos boa, de uma mão mais incerta, de uma memória que já tem dias.

Na sala onde há muito só entra a professora, Andreia, já sozinha, abre a gaveta da cómoda e espalha os retratos que tem vindo a pintar ao longo do último ano. A evolução é visível: as sombras, a perspectiva, a firmeza e a agilidade, o amor ao preto e branco. Estão lá, se calhar, 20 esboços, uns mais acabados do que outros. São todos do mesmo homem, e quase todos na mesma atitude: uma boca bem desenhada ainda que não especialmente bonita, um cabelo grisalho e ondulado, uns olhos infelizes que se fixam no vago, uma mão que se adivinha abandonada. Andreia vê-os com nostalgia. Põe uma música triste e chora sozinha, abandonada numa ilusão de dureza que ficou à porta da oficina.

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no
Porta do Vento

11 outubro 2009

Milagres

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Tal como referi em dois posts publicados esta semana, participei numa reunião mundial de vários dias onde se falou - do ponto de vista dos profissionais de saúde e do ponto de vista dos pais - de oncologia pediátrica.

5ªfeira de manhã, à margem do programa delineado, uma islandesa ainda nova propôs-nos uma apresentação sobre um caso que lhe tocava de perto. Não foram mais, seguramente, de cinco minutos: 47 slides, acompanhados apenas de música, sobre a história de um dos seus filhos a quem foi diagnosticada uma leucemia quando tinha nove meses. Poupo quem me lê aos pormenores dos tratamentos, dos revezes, dos avanços. Quando chegou ao fim havia muitos lenços molhados, muitos olhos embaciados, muitos narizes a fungar. Eu era um deles.

Em muitos crentes, um caso destes abate a Fé mais sólida. Questionamo-nos sobre a justiça de Deus que permite o sofrimento de inocentes, duvidamos da bondade de Deus que não poupa a dor de bebés. Não me arrogando o privilégio do esclarecimento, resta-me sorte de acreditar, com toda a minha força, que Deus não é senão amor, e que não está por detrás de doenças nem de curas. A minha opinião sobre os milagres talvez seja pouco ortodoxa, prefirindo pensar que, na generalidade dos casos, muito do que hoje é inexplicável se explicará.

Há alguns anos, no nosso livro Deus pregou-me uma partida, a Rita Jonet e eu escrevíamos:

Os milagres existem, Inês? E como os caracterizamos? Um dicionário diria que milagre é um acontecimento contrário às leis estabelecidas da natureza e atribuído a uma causa sobrenatural. Mas diz também que é um acontecimento que espanta (e a origem latina da palavra vem desta expressão) ou maravilha. A vitória do Homem sobre uma doença que parece incurável é um milagre? A capacidade que nós temos de mudar a nossa vida e de a encararmos de outra forma também é? A predisposição que passamos a ter para ajudar os outros ou a consciência que adquirimos de que a nossa felicidade tem de ser em função do próximo é um acontecimento que maravilha?

Deus não é senão amor. Foi esta certeza, ganha tantas e tantas vezes da maneira mais sofrida, que muitos Pais crentes seguiram em frente na sua luta e na sua esperança. Conheci, esta semana, Pais de crianças que morreram, que sobreviveram, que passam tempos muito difíceis. Todos eles, com ou sem fé, são beneficiários de um milagre - acreditar que nem tudo se esgota no nosso desgosto.

JdB


Os "ricos" e o reino de Deus

EVANGELHO – Mc 10,17-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
ia Jesus pôr-Se a caminho,
quando um homem se aproximou correndo,
ajoelhou diante d’Ele e Lhe perguntou:
«Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?»
Jesus respondeu:
«Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus.
Tu sabes os mandamentos:
‘Não mates; não cometas adultério;
não roubes; não levantes falso testemunho;
não cometas fraudes; honra pai e mãe’».
O homem disse a Jesus:
«Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude».
Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu:
«Falta-te uma coisa: vai vender o que tens,
dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu.
Depois, vem e segue-Me».
Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante
e retirou-se pesaroso,
porque era muito rico.
Então Jesus, olhando à volta, disse aos discípulos:
«Como será difícil para os que têm riquezas
entrar no reino de Deus!»
Os discípulos ficaram admirados com estas palavras.
Mas Jesus afirmou-lhes de novo:
«Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus!
É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha
do que um rico entrar no reino de Deus».
Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros:
«Quem pode então salvar-se?»
Fitando neles os olhos, Jesus respondeu:
«Aos homens é impossível, mas não a Deus,
porque a Deus tudo é possível».
Pedro começou a dizer-Lhe:
«Vê como nós deixámos tudo para Te seguir».
Jesus respondeu:
«Em verdade vos digo:
Todo aquele que tenha deixado casa,
irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras,
por minha causa e por causa do Evangelho,
receberá cem vezes mais, já neste mundo,
em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras,
juntamente com perseguições,
e, no mundo futuro, a vida eterna».

10 outubro 2009

Qual Par?

não chore menina, não chore. seus olhos se enxugarão, assim que ele torne a vir. torna a vir menina, tudo torna a vir. desde que não chame por nada, enquanto se distrai das coisas, nos dias em que é seu ser. deixe menina, deixe assim. a vida tem seu sentido. ainda que se interrogue, ainda que se pergunte. há-de vir sua resposta.
ri agora, quem a viu. quanto não valeu o pranto. acendeu a sua luz. chega a iluminá-la. sem se fincar para trás. muito bem. há sempre além menina. porque havia de acabar, se este mundo não tem fim? dizem que é só abrir as asas. que cada um tem o seu par. cada um tem o seu par! dizem isso menina. dizem.


DaLheGas

09 outubro 2009

da dúvida metódica enquanto bela arte


e de repente vemos o quão frágil é o fio da vida,
o quanto de maravilhoso ela tem, estrela-e-imensa,
contendo em si a pungência mais destemida que
faz do sonhador o próprio sonho, chama-e-intensa.
- numa palavra sem medo e sem dono: desmedida..

--

..ou tudo revelando, por entre grelhados de ocasião,
já dizia o famoso fadista, debicando tremoços estivais.
afinal vida de artista é vida sempre em combustão:
umas vezes, espelhos partidos; outras, esbeltos vitrais.
que digo eu?, e surge a imponente interrogação:
- digo feiras decadentes? ou digo antes.. catedrais?

gi

08 outubro 2009

Deixa-me rir...

Estimados audiophiles, anglo-philes and -phobes, this week I offer you a contemporary song, to gently wake up the pharaohs (see comentarios for Deixa-me rir, 24 Setembro), with a charming video and a simple universal message of friendship which, I think, may also resonate for some bloguistas who correspond but never actually meet:

I don't know what you smoke or what countries you've been to
if you speak any other languages other than your own
I'd like to meet you
I don't know if you drive, if you love the ground beneath you
I don't know if you write letters or you panic on the phone
I'd like to call you all the same, if you want to, I am game.

I don't know if you can swim or if the sea has any draw for you
if you're better in the morning or when the sun goes down
I'd like to call you
I don't know if you can dance, if the thought ever occurred to you
if you eat what you've been given or you push it round your plate
I'd like to cook for you all the same, I would want to, I am game,


If you walk my way and I could keep my head
we could creep away in the dark or maybe not,
we could shoot it down anyway.


I don't know if you read novels or the magazines
if you love the hand that feeds you
I assume that your heart's been bruised
I'd like to know you
you don't know if I can draw at all or what records I am into
if I sleep like a spoon or rarely at all
or maybe you would do? maybe you would do


if you walk my way I will keep my head
we will feel our way through the dark
though I don't know you I think that I would do
I don't fall easily at all

http://www.youtube.com/watch?v=WSaPbVjcrp4

If you think you recognise Lisa Hannigan's voice, well, she used to sing with another Irish songwriter Damien Rice a few years ago.
The video brings a memory of my very early childhood, during a summer holiday in Magoito (near Ericeira), sitting on my Portuguese great-grandmother's knee while she cut out paper objects, usually sailing boats...

A próxima...

po

07 outubro 2009

Ainda S. Paulo e a Acreditar

Ontem era a gala de abertura dos trabalhos do SIOP - Societé Internacionale de Oncologie Pediatrique -, organismo a que o ICCCPO se junta para as suas reuniões anuais. De um lado os médicos, do outro os pais. No fundo, no fundo, as partes interessadas (para usar uma expressão mais corrente do que afectiva) quando se trata de uma criança com cancro.
O programa social passava por um espectáculo na Sala São Paulo, um belíssimo recinto recuperado a partir de uma antiga estação de caminhos-de-ferro, onde se ouviria música de Tom Jobim, Villa-Lobos, Nepomuceno, Francisca Gonzaga, Ary Barroso. Antes do show, uma multidão afadigando-se de volta de petit riens que se comem, se bebem, se conversam, se riem. Encontrões, apertos, dificuldades em chegar às vitualhas, gente que defende a sua travessa como se não houvesse amanhã. 1200 pessoas, talvez mais, na sua esmagadora maioria médicos da área da oncologia pediátrica. Eu conversava com a sumidade portuguesa, de quase 80 anos, fundador do serviço de pediatria do IPO. E os encontrões, e as sumidades, e os apertos, e os cercos, e a boca seca. E um empregado que, no meio daquele mar de gente, se dirige a mim (sim, a mim e não a quem estava comigo, a quem trato respeitosamente por Senhor Professor) e me diz com um sorriso genuíno:
- Dôtô João! Ali ao lado tem uma sala com menos gente.
Olhei para ele e retribuí o sorriso que acompanhei com um agradecimento. Lembrei-me do Eça, no Conde de Abranhos:
- Bom rapaz, este António...

O post abaixo fala de cancro, de cancro, de cancro. O tema está subjacente em todas as palestras ou trabalhos de grupos, porque é por isso que esta gente se reúne. Quando falamos entre pais imginamos as histórias, as saudades, as expectativas, os desgostos, as pequenas melhoras, os exemplos, os casos de sucesso, a lágrima fácil e sentida. Ontem, ao ver aquelas mais de mil pessoas, entre pais e profissionais de saúde, na sala S. Paulo, imaginei, metaforicamente, o recinto totalmente vazio e a oncologia pediátrica remetida a uma história de memórias antigas, de sorrisos com que brindamos algumas efemérides e lembranças. Ontem vi a vitória à minha frente. E disse três vezes, tantas quantas as que usei para a palavra cancro: esperança, esperança, esperança.
Acreditar é, sobretudo, isto.

S. Paulo (Brasil) e a Acreditar

Cheguei 6ªfeira de madrugada a S. Paulo. Lembro, sem saudade e como primeiro impacto, uma espera de duas horas para sair do aeroporto: filas para a Polícia Federal, para passar a alfândega, para olhar com uma desmoralização ensonada a ausência da minha mala, levada por engano pela Vivian Leite (não, não conheço) que diminuiu a importância das identificações apostas na pega.

Durante o fim-de-semana andei por aí com uma amiga local que me foi apresentando parte das suas rotinas de diversão. Na solitude, também, do viajante que já conheceu mundo acompanhado apenas pelos seus pensamentos, vi arte, lojas, ruas movimentadas, trânsito caótico, esplanadas à beira da Avenida Paulista, gente simpática e afável, preocupações com a segurança, carros trancados e vidros fechados, livrarias que apetece arrematar. S. Paulo será melhor para se viver durante algum tempo do que para veranear por poucos dias.

A partir de ontem o caso mudou de figura. Até ao final da semana represento a Acreditar na reunião anual do ICCCPO, a organização mundial das associações de crianças com cancro.

Na mesma semana almoço regionalmente no cosmopolita e ruidoso Consulado Mineiro, entregando o meu palato (salvo seja) a um rabo de boi estufado com agriões e arroz; passeio pelo parque Ibirapuera onde visito uma exposição afro-americana e o museu de arte moderna; no Astor, lá para a Vila Madalena, provo uma caipirinha de caju e um bolinho de bacalhau; conheço gente local, que me presenteia com um sorriso e um sem-cerimónia.

Na mesma semana, repito, assisto a apresentações de survivors (continuo a não gostar da tradução sobreviventes), oiço falar de tumores cerebrais, de cuidados paliativos, de partilha, de fim de vida de crianças, de cancro, de cancro, e de cancro naqueles que deviam brincar, não ser tratados.

Uma semana de luz e de sombra, de escuridão e de claridade, de esperança e recordações dolorosas. No fundo, no fundo, uma semana que reflecte a vida de muitos de nós, balanceados entre os dois lados de uma mesma moeda. Usando a fórmula com que termino alguns escritos, Acreditar é também isto...

Porque a vida é também música, oiçamos Caetano Veloso explicar como vê S. Paulo.

Adeus, até ao meu regresso...



06 outubro 2009

Lar doce lar

Antes de começar, quero fazer notar a estratégica cronologia com que inauguro este novo espaço, tão próximo das autárquicas quanto se quer, que o povo tem memória curta. Posto isto, vamos ao que me trouxe aqui.

Já é Quarta-feira, dia da Edite vir cá a casa espalhar o pó com criatividade renovada, redistribuindo com mestria as bolas de cotão pelo chão das diferentes assoalhadas, a seis euros à hora, Que é mais barato que o que por aí se encontra, recordo ter ouvido de alguém entendido.

Uma hora e nove minutos da manhã, o nosso novo e oriental coleguinha, e não estranhem o diminutivo, que o rapaz é uma pessoa de diminuta figura, como todos os seus amiguinhos amarelos, está a cantar com afinco uma qualquer pimbalhada em mandarim, sem nenhum pudor e, ao que parece, com uma maldade desprovida de qualquer remorso, visto já não ser a primeira vez que, com agradável amabilidade, lhe bato à parede, Está calado chinês.

Em toda a sua orientalidade, o educado rapazito diz chamar-se Zé, que é a tradução de Chin Pau Tai, ou Pim Pam Pum, ou uma outra composição trissilábica aleatória, e canta cada vez mais alto, o danado, espero que seja de felicidade, que a ser de tristeza, não havia compaixão que lhe valesse.

Curiosamente, e nem de propósito, hoje, pela hora a que a Edite, com o seu porte de lutador de sumo e a sua dislexia cognitiva aguda, chegar a casa, a única pessoa que vai estar presente para lhe abrir a porta vai ser o Zé Chinês, do alto do seu metro e meio e com o seu raquítico vocabulário lusitano, que se resume facilmente a Sim sim, Tábem, Desculpa e Obrigado. Ninguém, de entre a infinita multidão que constitui o nosso círculo de leitores, será possuidor de uma imaginação tão explosivamente fértil que, assim de umas linhas, consiga criar uma imagem mental capaz de fazer justiça à epicidade de semelhante situação. Mas fica o desafio.

É este o primeiro episódio da nossa nova rubrica, marcada para as terças-feiras, que desta vez assinala o dia em que duas das mais bizarras personagens da cidade se encontram em minha casa, e eu não vou estar presente para ver.


Ora, roubando o término a que o Chefe nos acostumou, Adeus, e até terça que vem.
(Este texto em particular foi publicado, como episódio piloto, num blogue aqui perto.)

ZdT

05 outubro 2009

O administrativo do rent-a-car

Talvez a farda do dia-a-dia – uma camisa branca, umas calças azuis escuras e uma gravata com o logótipo da empresa - fosse, de facto, o seu salvo-conduto para a pergunta demolidora:

Queres falar sobre essa camisola? E tens a certeza de que gostas dessas meias?

Mas ele não se importava, ou importava-se e sentia a impotência – ou, quiçá, falta de vontade -, para enveredar por um caminho diferente no tocante ao seu guarda-roupa pessoal. E continuava a cruzar riscas com bolas, castanho com verde-claro, azul celeste com cores indefinidas, padrões modernos com tecidos improváveis. Tudo em nome de uma indiferença – ou de uma ignorância.

Os amigos riam-se – sendo que o riso era a sensação que se seguia ao espanto - e sugeriam que ele adoptasse a farda como vestimenta permanente.

Mantém o pijama, se quiseres, por desconhecimento nosso e pouco entusiasmo pela atracção do abismo.

Carlos, o administrativo do rent-a-car de maior sucesso nas redondezas, volta a sorrir com bonomia salpicada com uma indiferença que caracteriza a inteligência de algumas pessoas. Durante a semana usa a sua farda clássica; de noite, ou aos fins-de-semana, dá asas à sua criatividade mais louca - ou mais errada, porque loucura e erro nem sempre caminham juntos.

Para efeitos desta crónica não interessa o resto do calendário. Importa reter todas as últimas quintas-feiras do mês, momento em que o rapaz da visão desgovernada das cores e padrões convida a Cristina para jantar em sua casa. Nesse exacto dia, que se repete com a certeza da lua cheia e das marés, Carlos veste a sua melhor farpela: um fato completo cinzento-escuro, uma camisa azul e uma gravata com um motivo que não passa de moda. Era clássica no tempo do seu pai, será clássica no tempo hipotético do seu filho – imaginando que possa vir a ter descendência. Uns botões de punho discretos dão um toque de classe ao conjunto.

Socorramo-nos, agora, do lugar-comum: há frases que se repetem e que não perdem o seu encanto. Citemos o amo-te, mas, também, o que seria da minha vida sem ti e, nalguns casos, o que seria da tua vida sem mim. Cristina não fugirá à regra. Entra e beija-o numa sala que, embora modesta, está repleta de flores propositadas para aquela noite. Ardem velas aqui e ali, baixou-se a luz aos candeeiros existentes para que a penumbra inebrie os sentidos e convide ao erotismo. Cristina aloja dentro de si sensores que disparam na última quinta-feira do mês em casa do Carlos, empregado no ramo do aluguer de automóveis.

Depois do beijo longo e apaixonado, do aspirar do aroma das flores e das velas de cheiro que ardem romanticamente, a rapariga ajeita-lhe o nó da gravata e sacode-lhe a impressão de uma poeira nos ombros. E repete a frase, porque descobre encanto na rotina de algumas expressões.

Estás muito bem vestido.

Carlos sabe que Cristina é cega de nascença. Mas, mesmo que a inconsciência do mal não configure um pecado, não gosta de imaginar que ela está mentir.

Muito bem vestido, mesmo.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento

04 outubro 2009

Orações dos dias que correm







Deixai vir a mim as criancinhas...

EVANGELHO – Mc 10,2-16

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Aproximaram-se de Jesus uns fariseus para O porem à prova
e perguntaram-Lhe:«Pode um homem repudiar a sua mulher?»
Jesus disse-lhes:
«Que vos ordenou Moisés?»
Eles responderam:
«Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio,
para se repudiar a mulher».
Jesus disse-lhes:
«Foi por causa da dureza do vosso coração
que ele vos deixou essa lei.
Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher.
Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa,
e os dois serão uma só carne’.
Deste modo, já não são dois, mas uma só carne.
Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».
Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo
sobre este assunto.
Jesus disse-lhes então:
«Quem repudiar a sua mulher e casar com outra,
comete adultério contra a primeira.
E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro,
comete adultério».

Apresentaram a Jesus umas crianças
para que Ele lhes tocasse,
mas os discípulos afastavam-nas.
Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes:
«Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis:
dos que são como elas é o reino de Deus.
Em verdade vos digo:
Quem não acolher o reino de Deus como uma criança,
não entrará nele».
E, abraçando-as, começou a abençoá-las,
impondo a mão sobre elas.

03 outubro 2009

Y Uno Aprende

 

Después de un tiempo,

uno aprende la sutil diferencia

entre sostener una mano

y encadenar un alma,

y uno aprende

que el amor no significa acostarse

y una compañía no significa seguridad

y uno empieza a aprender...

Que los besos no son contratos

y los regalos no son promesas

y uno empieza a aceptar sus derrotas

con la cabeza alta y los ojos abiertos

y uno aprende a construir

todos sus caminos en el hoy,

porque el terreno del mañana

es demasiado inseguro para planes...

y los futuros tienen una forma de caerse

en la mitad.

Y después de un tiempo

uno aprende que si es demasiado,

hasta el calorcito del sol quema.

Así que uno planta su propio jardín

y decora su propia alma,

en lugar de esperar a que alguien le traiga flores.

Y uno aprende que realmente puede aguantar,

que uno realmente es fuerte,

que uno realmente vale,

y uno aprende y aprende...

y con cada día uno aprende 

 

(Jorge Luis Borges)

02 outubro 2009

quando te falo de amor

[ao senhor charles bukowski]

hoje ao almoço, atravessei o bairro
naquele passo de sempre.
quero dizer: o bairro que atravessei
é uma metáfora. por isso dizem: triste pândego,
usa a linguagem a seu jeito,
é um lesa-linguística!, uma lesma do pântano!
pobres literais, pobres literatos.
não sabeis vós por acaso como se escreve
o raio de um poema?
não sabeis vós como é que
um homem atravessa o bairro
e ainda assim sobrevive?
pois eu digo-vos:
esqueçam o terço, a arte sacra,
esqueçam o basketball e a soap opera.
misturem, e sejam generosos,
meia amarguinha portuguesa
com toda a vossa amargura.
puxem-lhe um fósforo - bum!!
depois metam conversa com todas as miúdas.
eu disse: todas. essa também.
façam a estatística trabalhar para vós.
aproveitem todas as manhãs,
tardes,
noites,
perdidos na cama delas.
quando acabar, comecem de novo.
e, de súbito, tudo terá passado.
sereis apenas memória largada ao vento,
sugestão num rodapé sem brilho,
um nome longínquo.

esta manhã, ao atravessar o bairro,
pensei em ti com toda a força que não tinha
e, o diabo me leve, se não foi, se não foste,
a melhor coisa que não tive em anos.

gi

01 outubro 2009

Deixa-me rir...

Era meia-noite de uma noite deliciosamente perfumada de Julho. As janelas, abertas de par em par sobre uma varanda de pedra que se prolongava para o jardim de buxo, convidavam os mais velhos a descansarem do barulho que se fazia sentir dentro do palácio, e os mais enamorados a momentos de maior intimidade, longe dos olhares curiosos. “Mas que calor que está lá dentro”… dizia uma rapariga, empoleirada nuns extraordinários Manolo Blatnik, ao descer os degraus de pedra a caminho das sombras e da frescura dos bancos de jardim.

Dentro do velho palácio, espelhos antigos, de vidros manchados e molduras sumptuosamente douradas, decoravam as paredes de um verde jade um pouco fanné da extensa sala de baile. Tecto pintado com frescos e três enormes candelabros venezianos iluminavam a sala, roubando reflexos dourados aos belos e trabalhados cabelos das convidadas. A música tinha sido pensada ao pormenor e o DJ de serviço marcava o ritmo das músicas com a cabeça, satisfeito por ver tantos corpos dançando e rodopiando livremente ao som de canções de décadas em que o ritmo era espontâneo, descontraído e alegre. Tinha sido uma ideia engraçada da dona da casa pensava ele, enquanto mudava o vinyl no seu gira-discos de estimação, esta de organizar uma festa com músicas dos anos 50 e 60, décadas que ainda por cima lhe eram particularmente queridas. Gira também a ideia de pedir aos convidados para se vestirem à época, incorporando o espírito do swing, do rock & roll, do boogie woogie, da pop … e giríssima a ideia de ter pegado na lista telefónica e de, aleatoriamente, ter convidado 200 desconhecidos… semelhante ideia, semi extravagante no enquadramento de um grupo muito agarrado às convenções sociais, estava a revelar-se o maior sucesso!

A dona da casa estava feliz com o que via. A casa, já um pouco decadente, parecia ter voltado aos seus tempos áureos … os risos, o tilintar dos copos, o brilho dos tecidos, o menear alegre dos corpos, a brisa carregada do aroma do jasmim, e a música … sempre a música … faziam-na vibrar e pensar que tinha de organizar mais festas como aquela. Dinheiro não lhe faltava, sendo única herdeira de uma grande fortuna. Para além disso tinha tempo, dezenas de amigos, criatividade, ousadia qb e um gosto sem fim por dançar. Era tempo de enterrar o passado e o profundo luto interior que sentia há muitos e muitos anos. Desde que os pais tinham morrido e que o marido, ao fim de 2 anos de um matrimónio feliz (assim o pensara ela), a abandonara com requintes de malvadez e uma insensibilidade absoluta. Tinha, desde então, mergulhado no mais profundo desespero e numa total ausência de gosto pela vida que nem os inúmeros convites dos amigos e a presença doce e calmante da Emília, que a vira nascer, conseguiam alterar. Não que os outros avaliassem o seu verdadeiro grau de devastação interior. Nunca fora particularmente comunicativa e, nos últimos anos, tinha vindo a aperfeiçoar o seu gosto pela arte da representação. Sabia que os outros a sabiam triste, mas daí até suspeitarem que tinha um buraco negro no lugar do coração ia uma grande distância ….

Foi então que o seu olhar se cruzou com um outro que, pela expressão, já devia estar a olhar para si há algum tempo. Numa fracção de segundos inexplicável, ou só explicável por quem passou pelo mesmo, apercebeu-se que havia um homem alto, moreno, esguio, com uma camisola de gola alta azul escura e um copo de whisky na mão que a olhava com a intensidade com que a tinham olhado noutros tempos, quando ela era uma jovem mulher cheia de vida e curvas exuberantes. De repente, tudo à sua volta se transformou numa espécie de espiral faíscante de luz, cor, música e confusão. E a música, sempre a música … parecia cada vez mais alta…

Sem forças, suores frios a percorrerem-lhe as costas, sentia as pernas a cederem e uma tontura gigantesca a formar-se … até que uma mão forte e os acordes de uma canção infinitamente melódica e romântica a salvaram de cair, desamparada, no xadrez de mármore brilhante do seu salão de baile: “Au premier temps de la valse, je te voi et tu m’aperçois … “


PCP

30 setembro 2009

Pensamentos impensados

A Inquisição fez inúmeras vítimas por queimaduras; ainda não tinham inventado os bronzeadores.

Bactéria atrai bactéria na razão directa da infecção, e na inversa do antibiótico.

O Limbo foi uma invenção da Igreja para descongestionar o Purgatório.

Tales, de Mileto, foi o primeiro a tentar construir a linha de caminho de ferro; mas devido ao seu estrabismo apenas conseguiu um paralelismo convergente que esteve na origem do seu famoso teorema.
SdB (I)

Filmes dos dias que correm

29 setembro 2009

Pensamentos impensados

Eureka era uma estância balnear onde o Arquimedes ia amolecer os calos.

Pitágoras foi um grande promotor do triângulo Lisbo/Sintra/Cascais.

Atendendo a que o Conde de Andeiro foi morto na flor da idade poder-se-á dizer que foi desflorado?


SdB (I)

Cemitério de barcos

I.

Pudesse eu levar
Uma mão cheia de areia,
E outra cheia de mar,
Para que quando desaparecer
Para nunca mais voltar
Possa mais um dia cheirar
A praia que me viu nascer

II.

Há quem lhe chame cemitério. Aqui, os barcos não navegam. Ficam parados, a verem-se ao espelho da água. Não estão à espera de nada nem de ninguém. Estão só parados, mortos.

As redes foram arrumadas à cabeceira, os remos cruzados sobre as traves e os nós foram todos desatados das cordas. E é assim que ali ficam, para sempre.

Percebe-se que lhe dêem este nome. Estão lá as lápides com os nomes de quem ali conheceu a última casa terrena. Mas estas, ao contrário do mármore escuro e frio, são as madeiras dos barcos, ainda quentes do sol e roídas pelo sal, pintadas a cores de aguarela.

Não há flores, mas há conchas. Não há cheiro a árvores e a Outono, mas cheira a maresia. E, como em qualquer outro cemitério, o silêncio aqui é mais do que a simples ausência de barulho. Aqui, o silêncio é o som dos dias sem vento e sem sol. É a música das noites com estrelas e sem lua. Mesmo as ondas que embalam os barcos rebentam na costa sem qualquer som.

E naquelas rochas há um ponto que sobe mais alto do que os outros, e de onde se vê o mar até ao outro lado. Foi daí que se disse o último adeus aos barcos, e é aí que as gaivotas pousam e ficam paradas a ver o horizonte.

E cada vez que passo por aqui, ao olhar para este repouso, pergunto-me para onde vão os barcos quando são aqui sepultados. Porque o casco fica, mas o resto não...

SdB (III)

28 setembro 2009

O homem do talho

- Dá-me 1 kg de bifes, Sr. Josué? Mas importa-se de os cortar fininhos? E de me tirar a gordura antes de pesar?

- E quer que eu lhes faça uma massagem também? Ou uma lipoaspiração? Se quer fininho fale com o Rui Veloso, que essa música era dele.

Ou então:

- A carne é boa, Sr. Josué? Queria uma peça macia mas barata, que o tempo não está para mais.

- Ah sim? E mais alguma coisa? Um bilhete premiado, talvez? Mas que eu lhe oferecesse, é claro, que o tempo não está para mais…

Os diálogos como o dono do talho não variam muito. Pedidos simples respondidos com frases agrestes, simpatias matinais retorquidas com azedumes permanentes. Ao Sr. Josué vale-lhe a qualidade da carne, além de não haver alternativa num raio de quilómetros. A freguesia no talho não diminui, só diminui a esperança de que o feitio do talhante melhore. Os dias passam e nada acontece, para além da carestia da vida, das pensões de miséria, do preço dos medicamentos, do desrespeito das gerações mais novas. No Sr. Josué, tal como na Nação, já muitos descrêem uma mudança.

Duas vezes por mês, às 4ªs feiras, o talhante despede-se da mulher com dois beijos rotineiros e um até logo indiferente. D. Lucília, sentada num sofá a descascar favas e a ver a novela do fim de tarde, repete-lhe a pergunta quinzenal com o interesse das coisas vagas:

- Vais jogar sueca?

- Sim, vou.

Por volta das onze da noite o Sr. Josué, comerciante agreste que tem do serviço ao cliente uma visão muito própria, entra em casa e saúda a mulher com outros dois beijos curtos, com uma intensidade e afecto só muito ligeiramente diferentes. As favas estão descascadas mas a saga da novela continua – outros personagens, outros cenários, outro enredo.

- Ganhaste?

O talhante não devolve o olhar porque D. Lucília não olha para ele, que o seu interesse está em saber se a outra do conde ascenderá a esposa legítima. O olhar do talhante atravessa paredes e pessoas e pára num ponto no infinito que só ele vê. Há uma hora, um local, um personagem e uma actividade que definem as coisas da vida de cada um, mesmo se resguardadas de olhares terceiros: entre as seis da tarde e as dez da noite, às 4ªs feiras e duas vezes por mês, o industrial das carnes cortadas a jeito, um lar de idosos perdido nos arrabaldes da sua freguesia. Ali, na miséria da terceira idade abandonada à sua sorte, há velhos a precisarem de banho, de uma muda de fraldas, de casas de banho lavadas, de camas mudadas, de sopas ralas dadas em bocas sem dentes.

- Ganhaste?, repete a esposa do Senhor Josué, esperançada na ascensão da amante a condessa com palácio e gelo permanente no balde.

Dos olhos do homem que retira a gordura antes de pesar os bifes rolam duas lágrimas grossas, pesadas, cheias de sentimentos contraditórios.

- Talvez mais do que mereça…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado Sábado no Porta do Vento

27 setembro 2009

Só a verdade liberta

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Se bem que o comentário que segue, do Pe. Vitor Gonçalves, seja relativamente ao Domingo passado, não resisto a transcrever uma parte, pela sua actualidade.

É sempre a tentação de idealizar uma realidade assente sobre lógicas de poder e glória (que não estamos imunes de prolongar na sociedade, na família e na Igreja), fugindo do caminho da humildade e do serviço, do acolhimento dos mais insignificantes e desprezados. Só a verdade liberta. Só a alegria de servir pode mudar por dentro aquilo que está mal. Por isso, a mudança que Jesus quer fazer em nós, fortalece-nos para aquelas que é preciso fazer à nossa volta. Mas será que estamos dispostos a mudar o olhar, o pensar, e o agir segundo critérios de um amor sem medida, de uma verdade procurada e corajosamente praticada? Mesmo sabendo que isso tem a marca da cruz?

EVANGELHO – Mc 9,38-43.45-47-48

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
João disse a Jesus:
«Mestre,
nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome
e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco».
Jesus respondeu:
«Não o proibais;
porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome
e depois dizer mal de Mim.
Quem não é contra nós é por nós.
Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo,
em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.
Se alguém escandalizar algum destes pequeninos
que crêem em Mim,
melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço
uma dessas mós movidas por um jumento
e o lançassem ao mar.
Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a;
porque é melhor entrar mutilado na vida
do que ter as duas mãos e ir para a Geena,
para esse fogo que não se apaga.
E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o;
porque é melhor entrar coxo na vida
do que ter os dois pés e ser lançado na Geena.
E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo,
deita-o fora;
porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos
do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena,
onde o verme não morre e o fogo não se apaga».

26 setembro 2009

Even so

Eu pedi-lhe e você disse que sim.
Depois esperou por mim e eu não vim.
Roubaram-me de si e você não disse nada.

O que se diz a quem vai e já não volta?
A quem passa do dia para a noite e esquece as horas?
E se deixa roubar vezes sem conta?

Eu pedi-lhe e você disse que sim.
Que fosse, que livrasse o coração de qualquer culpa.
Que aqui o que se faz é por amor.

Você esperou JdB e eu não vim.
Pela tarde mandou-me ir e eu lá fui.
Veio a noite JdB e eu segui.
Vi as estrelas desbotarem com a manhã.
Riscou-se o dia JdB, emudeci.
Só Deus sabe o que foi chegar aqui.
E só Deus sabe com que gosto eu sorri.

Tell me Jdb: – Do you still love me?


DaLheGas

Filmes dos dias que correm

25 setembro 2009

lenga-lenga, lenga-lenta, lenta-lenta

na viragem do ano,
a formiga interroga-se:
a harpa ou as suas cordas?

na viragem do ano,
também a cigarra se pergunta:
tronco ou flauta?

a montanha condensada - diz a capa.
mão de criança hoje, pulso firme futuro.
ou será ao contrário?

à flor não se pergunta.
a verdade não se dilui,
chovam mil águas ou nenhuma.

o livro como a vida.
quantas páginas, mestre?
as que escreveres, rapaz.

escrever.
lavrar o campo.
esperar a estação certa.

sim, não, sim, não, sim, não..
lenga-lenga de inverno hoje.
escuta: já lá vem o verão.

gi

24 setembro 2009

Deixa-me rir...

"Imagine... a warm summer's evening, by a dark flowing river, under a magical moonlit sky. A stage bathed in purple light. The audience in hushed anticipation, some awaiting the return at last of a cherished hero, others curious to experience for the first time, like me... And then The Man appears, forever stylish in his tailored suit and tie and fedora hat. His band of musicians look equally chic.

This was the scene last summer by Lisbon's river Tejo. And I had the opportunity to re-live this experience once more this summer. No warm evening. No moon. Lots of rain. Well, this was England. But it did not matter.

He performs with the same grace and humility and charisma and humour, and respect for his audience and for his fellow musicians.

His band are exceptionally artistic instrumentalists, the arrangements rhythmic, spanish, cabaret, waltz...

Not everyone likes Leonard Cohen. At least, they think they don't, or they would not, happy to accept the stereotypical belief that his poetic music sounds and therefore must be depressing. Well, he is not a pop singer. But his deep and mellow voice carries the wisdom and sensibilities of a lifetime's experiences. When he speaks he is quiet, understated, the audience captivated in his presence, clinging to his every word, like a congregation to their bishop's sermon.

LC himself makes fun of his mournful image by skipping onto and off the stage and dancing during his band's instrumental solos. He jokes that it is 14 years since he last gave concerts, when he was 60 years old, just a kid with a crazy dream. In that time he tells us that he studied the religions and philosophies of the world, but cheerfulness, cheerfulness kept breaking through.

I think these worldwide concerts have opened the ears and eyes of some sceptical people. And of a new younger generation.

[If anyone is interested to discover more, I found a very good review with excellent pictures which expresses the whole concert experience much better than I can: http://www.lauraleanalle.com/Blog/leonard-cohen-review.html ]

If you are converted, or maybe you too were present, LC has released a new double cd, Live In London, which captures perfectly the aural magic of LC and his band. I hope there will one day be a dvd to capture the visual magic.

But if you still find his voice hard to listen to, I here offer you a compromise:

one of the most magical moments of all; one of the greatest in LC's Tower of Songs, introduced by The Man as a spoken prayer before taking heavenly flight on the wings of the angelic harmonies of his backing singers. Accompanied by a harp. Spell-binding. Sublime.



The Webb Sisters are just two of many wonderful backing singers employed through the years by LC. They are English; how LC discovered them I do not know; but I imagine and hope that they will find their own solo success. I suggest you find and listen also to one of their own compositions, Baroque Thoughts.

Until the next time...

po

23 setembro 2009

Pensamentos impensados

A problemática circunstancial dum paralelismo convergente obtém-se multiplicando o centrismo periférico pelo parafuso sem fim

Um organista é um anarquista organizado.

A temperança é um condimento ou um condicionamento?


SdB (I)

Filmes dos dias que correm...

Para quem já tem alguma idade (o filme é de 1971), para quem é fã dos Bee Gees e para quem não se importa de legendas em japonês.

É o meu caso...

JdB

22 setembro 2009

Memórias e Lembranças


Das memórias que fogem do tempo, a que seguro com mais afinco é a do olhar, que nunca uns olhos souberam dizer tanto como aqueles. Os anos foram rasgando afincadamente as rugas da idade, à força de muito sol e muito sorriso franco, do homem que, de entre todos os que nasceram naquele tempo difícil, se ergueria para caminhar sempre um passo à frente do mundo. Quase todas as vidas davam um livro, menos são, em verdade, as que dariam um bom livro, raras contudo, são as que não cabem em qualquer livro, por mais que se encolham as frases e se estreite o papel.Das mil e uma linhas que, escritas, não diriam tudo, escolho algumas que, pertinentes nesta altura, reproduzem o que outros, pegando no mesmo exemplo, o do meu avô, e procurando o mesmo fim que eu, já rabiscaram com contornos semelhantes.Defendo que a felicidade do Homem, na sua essência, reside num dos sentimentos mais corriqueiros e, sobretudo, mais desvalorizados dos dias que correm, o da utilidade. O Homem é feliz se sentir que é útil.

Levantar-se-ão, perante esta afirmação, vozes com acusações de ingenuidade, mas eu sei que os olhos bons do meu avô eram, com toda a certeza, rasgados pelo triunfo de se sentir útil. E desengane-se quem pensa que o reconhecimento é condição necessária, porque não o é, de todo.

Ficam estas linhas, para lembrar coisas que eu não gosto de esquecer.

ZdT

21 setembro 2009

Pensamentos impensados

O Adão foi a primeira pessoa a ser traumatizada pelo complexo de Édipo: gritou MAMÃ MAMÃ e apareceu-lhe um velho de barbas com um triangulo na cabeça.

A característica do improviso é o pensamento antecipado.

O peixe é um animal depauperado: não tem "pauperas".

SdB (I)

O Presidente da Junta

Roubara mobiliário para decorar sedes revolucionárias com cheiro a cigarros ilícitos; ajudara a sanear professores universitários cujo nome bastava para atemorizar o pessoal discente; lançara à rua obras de arte, num exercício de defenestração do burguesismo diplomático estrangeiro. A idade, os cabelos brancos, algum cansaço, talvez, levaram-no a caminhar para a direita, que é para onde corriam os bons nos filmes de cowboys. Resvalando de partido em partido, numa espécie de queda quase livre na direcção do extremo, aterrou na última agremiação do espectro partidário e que lhe serviu de batente. No esplendor da carreira política chegara a presidente da junta de freguesia.

Fruto de um discurso crescentemente inflamado – e de uma quase imperceptível perturbação do espírito - entrou numa rotazinha de colisão com a lucidez da mente. Fala-se em imigração e o cavalheiro abespinha-se, alegando que a calçada portuguesa já fala ucraniano, o ferro de engomar foi tomado de assalto por umas havaianas e calções, os pedintes na rua perturbam o sossego das mentes cristãs com gemidos em moldavo; menciona-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o presidente brama contra o nojo - o asco, mesmo - o pão e o circo, a porcaria de homens que por aí há; refere-se a adopção de crianças por homossexuais e o senhor leva as mãos à cabeça, sugerindo bengaladas queirosianas em público.

Senta-se todas as tardes junto à praia, num café onde só trabalham portugueses de terceira geração – no mínimo – envolvendo os correligionários com um olhar onde se sente determinação:

- Sabem? Existe a fogueira que purifica para sempre, o barco que parte sem regresso, a cadeia que amansa os vícios. Escolham o que quiserem, mas agora tragam-me uma sandes de queijo limiano num pão de Mafra. Nada de pãozinho aparado, que isso é para maricas.

O senhor presidente encerra a Junta e dirige-se a casa onde vive sozinho desde que a mulher o trocou por um rapaz de Ulan Bator, portador de cartas registadas. Fecha as janelas para manter uma privacidade impenetrável e veste uma tanga negra com um lustro que confunde. Liga o karaoke e, quando a música começa a tocar, todo ele se agita num frenesim de sensualidade

Quand il me prends dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose

Duas vezes por semana, quando os telejornais vão a meio, recebe a Roberta - uma negra de Porto Galinhas e que as más-línguas alegam já ter sido Roberto – para uma série de duetos exclusivos de George Michael e Ney Matogrosso. Faz amor com ela ficando sempre por cima, não porque aprecie os missionários, mas porque gosta de demonstrar que há posições de chefia a respeitar. Depois fuma um cigarro e retoma o discurso da cadeia, da fogueira, do barco sem regresso, da corja negra e de leste. A brasileira, dengosa e suada, vai à casa de banho e toma um comprimido, porque o médico disse que tinha de ser assim até ao fim da vida.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento.

20 setembro 2009

As crianças

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
No tempo de Cristo, as crianças (pelo menos até uma certa idade) não tinham direitos. Representavam, por isso, também, os mais fracos, os mais débeis, os mais insignificantes, os que tinham poucos direitos, os indefesos. São esses que Jesus senta ao colo (metafóricamente falando). Cabe-nos a nós fazer o mesmo: olhar pelos marginalizados, estender a mão a quem precisa, não virar a cara aos que a sociedade condena - até porque os condena, tantas vezes, em nome de lógicas erradas e injustas.

EVANGELHO – Mc 9,30-37

Naquele tempo,
Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia,
mas Ele não queria que ninguém o soubesse;
porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes:
«O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens
e eles vão matá-l’O;mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».
Os discípulos não compreendiam aquelas palavras
e tinham medo de O interrogar.
Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa,
Jesus perguntou-lhes:
«Que discutíeis no caminho?»
Eles ficaram calados,
porque tinham discutido uns com os outros
sobre qual deles era o maior.
Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes:
«Quem quiser ser o primeiro será o último de todos
e o servo de todos».
E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles,
abraçou-a e disse-lhes:
«Quem receber uma destas crianças em meu nome
é a Mim que recebe;
e quem Me receber
não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

19 setembro 2009

Voltem, estão perdoados

Setembro alonga-se, a cidade encheu-se e o Adeus não vê os seus escritores. Onde estão aquelas siglas misteriosas, que adivinhávamos em prosa? Setembro alonga-se, a cidade enche-se, ninguém aparece. Onde andam essas maiúsculas, JdB?

Se JCN não toca, DaLheGas não vem ao baile. ATM não prega, DalheGas não se levanta. E assim sucessivamente. Falando neles, devo saudar, louvar e agradecer, os novos redactores. A equipa de verão. E o JdB, sempre de olho na salvação. Juntos, o Adeus bem se fez, melhor se pagou. Enquanto o dono do estabelecimento não nos puser a andar, é tudo para ficar.

DaLheGas

18 setembro 2009

na islândia

a vidraça é por vezes um recurso inestimável
espécie de filtro translúcido entre nós e o universo,
como essa porta de restaurante moderno
que hoje te separa da pequena multidão lá fora.

a mistura de negro e vermelho é perigosa,
como todos sabemos bem dos livros de história
e de outras coisas que rimam com a memória
do que já fomos, do que somos e sempre seremos.

mais uma manifestação burocrática, parece-te,
'já nem dá para um entusiamo à antiga sequer,
este sindicalismo on demand', diz a teu lado a mulher
e tudo revela a essência burocrática deste tempo.

dizem-te: desempregados de espadas desembainhadas?
é coisa muito pouco vista, mesmo nada habitual,
pois o país que sobrevive já não passa no telejornal
e estes desempregados são, já se vê, gente de bem.

engoles a sopa de grão, que não te cai como devia,
e perguntas-te se será desse moderno cozinhado,
embora sabendo que a razão não está no refogado,
antes na secreta arte de manipular a algibeira alheia.

tudo se compra, tudo se vende, tudo se corrompe,
verso bem a calhar, já que te acusam de nihilista-mor.
encolhes os ombros, bebericas o café sem sabor,
serei nihilista-mor ou só lúcido? (dandy era melhor).

dormes, na rotina dos justos que navegam à vista,
marinheiros de água doce e mares sem chama,
que isto de viver enquanto se refila e se reclama,
é como reconstruir um avião em pleno vôo sónico.

a rádio fala da crise, esse animal de desestimação.
de súbito, entra-te no carro esse país (existe?) branco
a que muitos chamam islândia - ilha de fogo, portanto -
onde o impensável afinal também parece acontecer.

as pessoas revoltam-se, há pedras a voar pelos ares,
e não, não é nenhum secreto ritual, nenhuma celebração
bizarra e ancestral, é mesmo, como dizer, a manifestação
pura e dura de um mal geral: como viver sem se poder?

direitos adquiridos, o welfare state, o milagre económico,
expressões de um presente garantido, de conforto, etc. e tal,
transformam-se em palavras bolorentas, mera poeira astral.
não pagam contas de anteontem, nem são passaporte feliz.

"então isto é assim".., deve pensar aquela gente por lá,
as regras mudam em pleno jogo, "passar bem e viver mal"..
"não esperam pela demora, estes fregueses em especial",
que "a impunidade não passará!", "abaixo o governo! "..(é cá?)

retomas o teu pensamento, são exactamente 9h05,
numa cidade conhecida e tua, bem longe da islândia.
abençoado és, rapaz, por essa geográfica circunstância.
aceleras o carro, outra mudança - que bom é viver em paz.

lá longe.. mas que te interessa esse lugar abstracto?
no futuro.. mas que te interessa esse tempo por acontecer?
mas e "se lá longe e no futuro" for "o aqui e agora"? - queres tu ver..
aceleras mais, mudança engrenada, pedal a fundo.

uma lágrima contida, quase ensimesmada,
contra um muro concreto, ali logo à frente,
procuras o travão ontologicamente ausente,
enquanto te despistas - tu e a branda islândia.

nuvens de chumbo, prédios a arder,
um travo amargo, uma visão alucinada.
depois uma dor insana, vertical, funda,
depois o muro

e depois nada.

gi

17 setembro 2009

Deixa-me rir...


Uma vez mais, a história de hoje reporta-se à minha vivência em Londres. Foi no Jazz Café de Camden que, em final de tarde luminosa e quente, descobri uma nova estrela no meu firmamento musical. Escrevi na semana passada sobre o Dr. John, elogiando a sua excentricidade e postura descontraída e relaxada. Esta semana elogio uma cantora com uma postura idêntica. Rickie Lee Jones, de seu nome. Americana, com uma infância particularmente turbulenta e instável, cresceu rodeada de música, num ambiente criativo e estimulante para uma imaginação sequiosa de se expressar. Percorreu os EUA à boleia, foi hippie, viveu com o Tom Waits, com quem teve uma relação de intensidade kármica, escreveu e interpretou canções pop, rock, rythm & blues, soul e jazz.

Confesso que a achei no mínimo curiosa ao vê-la entrar em palco nessa noite: atrasadíssima, provavelmente pouco se importando com os numerosos fãs que a esperavam de pé (não há praticamente cadeiras ou bancos neste famoso clube londrino), com a farta e longa cabeleira loira totalmente desgrenhada, botas pretas à punk, vestido indiano cor de rosa, com uns enfeites brilhantes, tipo camisa de noite… uma figureta! Atenção que era bonita quando era nova … mas agora ronda os 50 e muitos. Muita droga, noitadas, maluquice e vida bem preenchida daquilo que a nós, bloguistas, não nos atrai (penso eu de que…) sulcou-lhe a cara de rugas, alargou-lhe as formas e intensificou-lhe a expressão da voz, de si não particularmente distinta.

E que expressão! Estou a vê-la pequena, braços descobertos e flácidos, iluminada por um foco de luz no meio de um palco escuro, no fundo do qual se adivinhavam os músicos que a acompanhavam. Estou a vê-la a balouçar-se, pesadamente, de olhos fechados, imersa nos seus pensamentos e no ritmo dos primeiros acordes da primeira canção, alheia aos assobios e aos murmúrios provenientes dum público já ansioso … e a voz a soltar-se, surpreendentemente fresca, cheia de inflexões, algo entaramelada, sensual, expressiva como só são expressivas as vozes de quem ama a música e a sente no corpo e na alma …

Daí até ao fim do concerto foi sempre a crescer: ela em “estatura” musical, os músicos em virtuosismo e entrega, nós em tensão e em gozo … e a música a espalhar-se por cada canto esconso e escuro de um clube muito cool e repleto de gente com copos de cerveja de plástico na mão …

Deixo-vos com uma música que me marcou. Nem sei se é particularmente bonita ou do agrado dos bloguistas. Mas adoro a batida, os acordes, a voz para cima e para baixo, os arremessos súbitos e, muito, o título: We belong together, do álbum Pirates.

Agora imaginem-se neste clube lendário, numa noite de Verão, encostados a uma coluna, de olhos fechados, a sentir a presença de alguém especial ao vosso lado … é possível, eu senti-a! Estava lá, era quase palpável. É tão bom assistir a um concerto com alguém de quem gostamos!... A "materialização" dessa pessoa, neste contexto, é de somenos importância. O que interessa é o que se passa quando fechamos os olhos...

pcp + po

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