21 setembro 2009

O Presidente da Junta

Roubara mobiliário para decorar sedes revolucionárias com cheiro a cigarros ilícitos; ajudara a sanear professores universitários cujo nome bastava para atemorizar o pessoal discente; lançara à rua obras de arte, num exercício de defenestração do burguesismo diplomático estrangeiro. A idade, os cabelos brancos, algum cansaço, talvez, levaram-no a caminhar para a direita, que é para onde corriam os bons nos filmes de cowboys. Resvalando de partido em partido, numa espécie de queda quase livre na direcção do extremo, aterrou na última agremiação do espectro partidário e que lhe serviu de batente. No esplendor da carreira política chegara a presidente da junta de freguesia.

Fruto de um discurso crescentemente inflamado – e de uma quase imperceptível perturbação do espírito - entrou numa rotazinha de colisão com a lucidez da mente. Fala-se em imigração e o cavalheiro abespinha-se, alegando que a calçada portuguesa já fala ucraniano, o ferro de engomar foi tomado de assalto por umas havaianas e calções, os pedintes na rua perturbam o sossego das mentes cristãs com gemidos em moldavo; menciona-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o presidente brama contra o nojo - o asco, mesmo - o pão e o circo, a porcaria de homens que por aí há; refere-se a adopção de crianças por homossexuais e o senhor leva as mãos à cabeça, sugerindo bengaladas queirosianas em público.

Senta-se todas as tardes junto à praia, num café onde só trabalham portugueses de terceira geração – no mínimo – envolvendo os correligionários com um olhar onde se sente determinação:

- Sabem? Existe a fogueira que purifica para sempre, o barco que parte sem regresso, a cadeia que amansa os vícios. Escolham o que quiserem, mas agora tragam-me uma sandes de queijo limiano num pão de Mafra. Nada de pãozinho aparado, que isso é para maricas.

O senhor presidente encerra a Junta e dirige-se a casa onde vive sozinho desde que a mulher o trocou por um rapaz de Ulan Bator, portador de cartas registadas. Fecha as janelas para manter uma privacidade impenetrável e veste uma tanga negra com um lustro que confunde. Liga o karaoke e, quando a música começa a tocar, todo ele se agita num frenesim de sensualidade

Quand il me prends dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose

Duas vezes por semana, quando os telejornais vão a meio, recebe a Roberta - uma negra de Porto Galinhas e que as más-línguas alegam já ter sido Roberto – para uma série de duetos exclusivos de George Michael e Ney Matogrosso. Faz amor com ela ficando sempre por cima, não porque aprecie os missionários, mas porque gosta de demonstrar que há posições de chefia a respeitar. Depois fuma um cigarro e retoma o discurso da cadeia, da fogueira, do barco sem regresso, da corja negra e de leste. A brasileira, dengosa e suada, vai à casa de banho e toma um comprimido, porque o médico disse que tinha de ser assim até ao fim da vida.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento.

20 setembro 2009

As crianças

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
No tempo de Cristo, as crianças (pelo menos até uma certa idade) não tinham direitos. Representavam, por isso, também, os mais fracos, os mais débeis, os mais insignificantes, os que tinham poucos direitos, os indefesos. São esses que Jesus senta ao colo (metafóricamente falando). Cabe-nos a nós fazer o mesmo: olhar pelos marginalizados, estender a mão a quem precisa, não virar a cara aos que a sociedade condena - até porque os condena, tantas vezes, em nome de lógicas erradas e injustas.

EVANGELHO – Mc 9,30-37

Naquele tempo,
Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia,
mas Ele não queria que ninguém o soubesse;
porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes:
«O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens
e eles vão matá-l’O;mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».
Os discípulos não compreendiam aquelas palavras
e tinham medo de O interrogar.
Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa,
Jesus perguntou-lhes:
«Que discutíeis no caminho?»
Eles ficaram calados,
porque tinham discutido uns com os outros
sobre qual deles era o maior.
Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes:
«Quem quiser ser o primeiro será o último de todos
e o servo de todos».
E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles,
abraçou-a e disse-lhes:
«Quem receber uma destas crianças em meu nome
é a Mim que recebe;
e quem Me receber
não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

19 setembro 2009

Voltem, estão perdoados

Setembro alonga-se, a cidade encheu-se e o Adeus não vê os seus escritores. Onde estão aquelas siglas misteriosas, que adivinhávamos em prosa? Setembro alonga-se, a cidade enche-se, ninguém aparece. Onde andam essas maiúsculas, JdB?

Se JCN não toca, DaLheGas não vem ao baile. ATM não prega, DalheGas não se levanta. E assim sucessivamente. Falando neles, devo saudar, louvar e agradecer, os novos redactores. A equipa de verão. E o JdB, sempre de olho na salvação. Juntos, o Adeus bem se fez, melhor se pagou. Enquanto o dono do estabelecimento não nos puser a andar, é tudo para ficar.

DaLheGas

18 setembro 2009

na islândia

a vidraça é por vezes um recurso inestimável
espécie de filtro translúcido entre nós e o universo,
como essa porta de restaurante moderno
que hoje te separa da pequena multidão lá fora.

a mistura de negro e vermelho é perigosa,
como todos sabemos bem dos livros de história
e de outras coisas que rimam com a memória
do que já fomos, do que somos e sempre seremos.

mais uma manifestação burocrática, parece-te,
'já nem dá para um entusiamo à antiga sequer,
este sindicalismo on demand', diz a teu lado a mulher
e tudo revela a essência burocrática deste tempo.

dizem-te: desempregados de espadas desembainhadas?
é coisa muito pouco vista, mesmo nada habitual,
pois o país que sobrevive já não passa no telejornal
e estes desempregados são, já se vê, gente de bem.

engoles a sopa de grão, que não te cai como devia,
e perguntas-te se será desse moderno cozinhado,
embora sabendo que a razão não está no refogado,
antes na secreta arte de manipular a algibeira alheia.

tudo se compra, tudo se vende, tudo se corrompe,
verso bem a calhar, já que te acusam de nihilista-mor.
encolhes os ombros, bebericas o café sem sabor,
serei nihilista-mor ou só lúcido? (dandy era melhor).

dormes, na rotina dos justos que navegam à vista,
marinheiros de água doce e mares sem chama,
que isto de viver enquanto se refila e se reclama,
é como reconstruir um avião em pleno vôo sónico.

a rádio fala da crise, esse animal de desestimação.
de súbito, entra-te no carro esse país (existe?) branco
a que muitos chamam islândia - ilha de fogo, portanto -
onde o impensável afinal também parece acontecer.

as pessoas revoltam-se, há pedras a voar pelos ares,
e não, não é nenhum secreto ritual, nenhuma celebração
bizarra e ancestral, é mesmo, como dizer, a manifestação
pura e dura de um mal geral: como viver sem se poder?

direitos adquiridos, o welfare state, o milagre económico,
expressões de um presente garantido, de conforto, etc. e tal,
transformam-se em palavras bolorentas, mera poeira astral.
não pagam contas de anteontem, nem são passaporte feliz.

"então isto é assim".., deve pensar aquela gente por lá,
as regras mudam em pleno jogo, "passar bem e viver mal"..
"não esperam pela demora, estes fregueses em especial",
que "a impunidade não passará!", "abaixo o governo! "..(é cá?)

retomas o teu pensamento, são exactamente 9h05,
numa cidade conhecida e tua, bem longe da islândia.
abençoado és, rapaz, por essa geográfica circunstância.
aceleras o carro, outra mudança - que bom é viver em paz.

lá longe.. mas que te interessa esse lugar abstracto?
no futuro.. mas que te interessa esse tempo por acontecer?
mas e "se lá longe e no futuro" for "o aqui e agora"? - queres tu ver..
aceleras mais, mudança engrenada, pedal a fundo.

uma lágrima contida, quase ensimesmada,
contra um muro concreto, ali logo à frente,
procuras o travão ontologicamente ausente,
enquanto te despistas - tu e a branda islândia.

nuvens de chumbo, prédios a arder,
um travo amargo, uma visão alucinada.
depois uma dor insana, vertical, funda,
depois o muro

e depois nada.

gi

17 setembro 2009

Deixa-me rir...


Uma vez mais, a história de hoje reporta-se à minha vivência em Londres. Foi no Jazz Café de Camden que, em final de tarde luminosa e quente, descobri uma nova estrela no meu firmamento musical. Escrevi na semana passada sobre o Dr. John, elogiando a sua excentricidade e postura descontraída e relaxada. Esta semana elogio uma cantora com uma postura idêntica. Rickie Lee Jones, de seu nome. Americana, com uma infância particularmente turbulenta e instável, cresceu rodeada de música, num ambiente criativo e estimulante para uma imaginação sequiosa de se expressar. Percorreu os EUA à boleia, foi hippie, viveu com o Tom Waits, com quem teve uma relação de intensidade kármica, escreveu e interpretou canções pop, rock, rythm & blues, soul e jazz.

Confesso que a achei no mínimo curiosa ao vê-la entrar em palco nessa noite: atrasadíssima, provavelmente pouco se importando com os numerosos fãs que a esperavam de pé (não há praticamente cadeiras ou bancos neste famoso clube londrino), com a farta e longa cabeleira loira totalmente desgrenhada, botas pretas à punk, vestido indiano cor de rosa, com uns enfeites brilhantes, tipo camisa de noite… uma figureta! Atenção que era bonita quando era nova … mas agora ronda os 50 e muitos. Muita droga, noitadas, maluquice e vida bem preenchida daquilo que a nós, bloguistas, não nos atrai (penso eu de que…) sulcou-lhe a cara de rugas, alargou-lhe as formas e intensificou-lhe a expressão da voz, de si não particularmente distinta.

E que expressão! Estou a vê-la pequena, braços descobertos e flácidos, iluminada por um foco de luz no meio de um palco escuro, no fundo do qual se adivinhavam os músicos que a acompanhavam. Estou a vê-la a balouçar-se, pesadamente, de olhos fechados, imersa nos seus pensamentos e no ritmo dos primeiros acordes da primeira canção, alheia aos assobios e aos murmúrios provenientes dum público já ansioso … e a voz a soltar-se, surpreendentemente fresca, cheia de inflexões, algo entaramelada, sensual, expressiva como só são expressivas as vozes de quem ama a música e a sente no corpo e na alma …

Daí até ao fim do concerto foi sempre a crescer: ela em “estatura” musical, os músicos em virtuosismo e entrega, nós em tensão e em gozo … e a música a espalhar-se por cada canto esconso e escuro de um clube muito cool e repleto de gente com copos de cerveja de plástico na mão …

Deixo-vos com uma música que me marcou. Nem sei se é particularmente bonita ou do agrado dos bloguistas. Mas adoro a batida, os acordes, a voz para cima e para baixo, os arremessos súbitos e, muito, o título: We belong together, do álbum Pirates.

Agora imaginem-se neste clube lendário, numa noite de Verão, encostados a uma coluna, de olhos fechados, a sentir a presença de alguém especial ao vosso lado … é possível, eu senti-a! Estava lá, era quase palpável. É tão bom assistir a um concerto com alguém de quem gostamos!... A "materialização" dessa pessoa, neste contexto, é de somenos importância. O que interessa é o que se passa quando fechamos os olhos...

pcp + po

15 setembro 2009

The Beauty and the Beast - hoje, mas há 1 ano, no Zimbabwe



Tal como indica o título, o meu post de hoje escreve-se sob o signo do Beauty and the Beast. Eu explico.

Sábado de manhã fomos ver a oficina e uma das lojas de venda ao público do Patrick Mavros, um zimbabueano de origem grega que se dedicou, originalmente, à escultura em marfim. Com as restrições a nível mundial de utilização desta matéria-prima virou-se para a prata, esculpindo magistralmente animais, árvores - tudo o que está relacionado com África. Quando chegámos ao local onde também mora e onde circulam animais selvagens, deparámo-nos com a vista que vêem nas fotografias. Não vi campo - vi um quadro pintado por mão prodigiosa.



O Patrick contou-nos que quando se instalou aqui não havia qualquer construção. Tinha comprado uma moldura de janela numa demolição, ou noutro sítio qualquer, e a loja nasceu à volta do ponto onde ele a decidiu colocar - e que se abre para a vista que partilho convosco.

Este texto revela a Beauty do meu post.

Hoje, segunda-feira, pelas dez da manhã, dirijo-me a Parirenyatwa (não estou certo da grafia) um hospital de Harare, para conhecer um pouco do drama das crianças com cancro. Depois de contactos que foram feitos por quem subiu comigo à montanha sagrada, recebi uma chamada e fiz outra, tendo como interlocutores médicos simpáticos, disponíveis, que agradeceram (pasme-se...) a visita que me propunha fazer. Terei contactos, ao que parece, com uma Acreditar de cá, de que não sei nada. Gostava de sentir a miragem de uma potencial ajuda - não faço ideia em que moldes - mas estou certo, mais uma vez, que receberei mais do que darei.

Este texto revela a Beast do meu post.

A beleza de uma paisagem, a monstruosidade do cancro infantil. Duas faces da mesma moeda, duas realidades com que me vou confrontando ao longo dos últimos anos e que me fazem ter a certeza de que nada é garantido, certo, duradouro ou eterno. A paisagem idílica que vos mostro desaparece fruto de um incêndio incontrolável, o sorriso de uma criança desvanece-se face à brutalidade de uma doença. Resta-nos (pelo menos para mim, que sou crente) a Fé, a Esperança e a Caridade: confiar no futuro, acreditar em dias melhores, estender a mão a quem precisa num gesto de amor.

Adeus, até ao meu regresso...


14 setembro 2009

O polícia

Chama-se Curdo, um nome assaz bizarro para quem é natural do Alandroal, mas há quem o apelide de Surdo. De facto, como agente da autoridade, é totalmente desprovido de audição quando toca a multas. Implacável e rigoroso ao limite, não tem contemplações nem ouvidos para as desculpas habituais. Foi só um instantinho, já me ia embora, deixe lá, senhor guarda, só desta vez.

Mora num rés-do-chão direito de um prédio velho e escuro, engavetado numa rua onde o sol se esquece de ir. Nos dias de serviço entra e sai de casa impecavelmente fardado, como se o aguardasse uma parada presidencial, ou a rotina da autuação fosse incompatível com o desleixo.

O agente Curdo gosta de manter rotinas. Durante o dia zela pelo fluxo saudável do trânsito e pelo desimpedimento escrupuloso dos passeios. Mantém um registo particular de multas por dia, porque gosta de indicadores desafiadores e potencialmente contraditórios: a atenção à infracção versus o grau de cumprimento do cidadão.

Ao fim do dia chega a casa, despe-se e arruma a farda com zelo. Pendura as calças pelos vincos e ajeita o casaco num cabide para evitar deformações que tirem o decoro que se requer à autoridade. Veste umas calças de fato de treino e uma T-shirt de alças, escorropichando uma mini para a qual dispensa copo.

O agente Curdo senta-se então ao computador e digita uma série infindável de endereços e palavras-chave, troca informações com um interlocutor cibernético, consulta auxiliares de memória. Durante as duas horas seguintes entreter-se-á com jogos informáticos nos quais as forças de lei travam uma luta sem quartel contra a delinquência: raptos, assaltos, tráfico de droga, assassinatos, terrorismo urbano.

Durante duas horas, repete-se, o agente Curdo gritará, agitará as mãos, vociferará, soltará palavrões, premirá a tecla enter com uma genica inusitada.

- Estúpido, não é por aí! Ah! Grande camelo que vais ser apanhado! Força, força, pela direita, rápido! Atenção que ele está ali, ao virar da esquina. Tem cuidado. Ah! sacana que estás feito, não percebes nada disto. Nada! Se fosse eu havias de ver…

São 120 minutos de combate árduo - ainda que virtual – contra o crime. E, durante todo esse tempo, acompanhado da sua mini e da sua ausência de mangas, o agente Curdo estará indiscutivelmente do lado dos fora-da-lei, pondo todo o seu saber ao serviço dos que atemorizam os cidadãos e zombam das regras.

Pela hora de jantar chega a Susana, empregada recente de uma empresa de vigilância. O agente beija-a com ardor, admira-lhe a farda e pede-lhe:

- Importas-te de não apertar tanto as algemas? Ontem aleijaste-me…

No dia seguinte voltará à multazita, à pequena reprimenda, à surdez ao apelo do infractor:

- O senhor automobilista reparou que o rodado dianteiro esquerdo passou por cima do traço contínuo? Vou ter de o autuar…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento

13 setembro 2009

Perder e ganhar a vida

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Gostaria de ser simples, mais do que simplista. E, por isso, retenho (apenas) as últimas cinco linhas do Evangelho de hoje, que falam de renúncia, cruz, salvação, perda. Palavras na sua generalidade duras, difíceis, contraditórias com aquilo que o mundo actual persegue - os deleites tantas vezes sem critério, o gozo imediato, a satisfação oca, o contentamento egoísta.
Ninguém no seu perfeito juízo achará, hoje em dia, que a mensagem de Cristo nos condena a suportar cruzes sucessivas, nos impede dos pequenos e grandes prazeres, nos sugere que a virtude está no cumprimento cego e sem sentido de obrigações estéreis.
Temos todos, seguramente, um caminho de aprendizagem ainda longo: entender ao que podemos e devemos renunciar, qual a cruz que nos compete suportar, as renúncias que assumimos em nome de um bem maior, aquilo de que não faz sentido abdicar, os objectivos de plenitude e felicidade que perseguimos e que fazem de nós pessoas mais realizadas. Tudo isto, acredito, em nome do Céu, que é para onde os cristãos olham.
Perceber isto é um exercício desafiante, como desafiante é a tolerância com que devemos olhar a vida do nosso próximo, tantas e tantas vezes espartilhada entre vontades e deveres, desejos e obrigações, visões lúcidas e conceitos antigos. Vidas divididas, no fundo, vítimas amiúde de apreciações ligeiras.

EVANGELHO – Mc 8,27-35
Naquele tempo,
Jesus partiu com os seus discípulos
para as povoações de Cesareia de Filipe.
No caminho, fez-lhes esta pergunta:
«Quem dizem os homens que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns dizem João Baptista; outros, Elias;
e outros, um dos profetas».
Jesus então perguntou-lhes:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».
Ordenou-lhes então severamente
que não falassem d’Ele a ninguém.
Depois, começou a ensinar-lhes
que o Filho do homem tinha de sofrer muito,
de ser rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;
de ser morto e ressuscitar três dias depois.
E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.
Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O.
Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos,
repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás,
porque não compreendes as coisas de Deus,
mas só as dos homens».
E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes:
«Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,
salvá-la-á
».

12 setembro 2009

Férias light, que o Inverno vai pesar


Regresso. Voltar é melhor que partir. Chega-se leve, iludido pelos dias sem lei e olha-se a casa, agradecido. Um tecto, a cama própria, uma sala com a tralha dos anos, e prateleiras que ganham livros.

Toma lá: o “deserto”. Junta-o ao “equador”. Não gostei mais, nem menos. Desilusão, como alguém disse, nem de longe. Dá febre baixa e no fim um soluço. Devolvo-te o Quintino Aires, que reli com outra atenção e espírito livre de perguntas. Aprendi muito mais, vê lá tu. Sabes que falar da vida alheia ou ver novelas ajuda tanto como os livros, a que cada Homem crie consciência da sua própria vida? Não se condene, portanto. Mas trago-te um novo autor. Afinal, o que nos interessa mesmo são os autores, que as histórias desvanecem-se. Ignora a chamada de capa. A escrita dele não tem “um charme inimitável”, seja lá o que isso for. O título, convenhamos, foi preciso ter coragem – “Amor à 1ª Vista”. O texto não merecia. Sim, tu também não. Mas prataleira, há coisas inevitáveis a suportar nas nossas vidas. E uma nova literatura que veio para ficar. “Light”. Chamam-lhe assim. E sabes que têm razão? Não podes ler Pessoa num areal à cunha. Nem Voltaire num catamaran carregado de espanhóis. Isto, lês de rajada, em qualquer lugar, descobri eu, sem perder uma entrelinha. Sabes porquê? Adivinhas todas as frases e todos os sentidos que ainda hão-de vir. É um exercício de oxigenação cerebral, como outro qualquer. Um Soduku para coxos do cálculo, como eu, claro.

Agora, sabes que mais? Vou celebrar. Sim, hoje fiz 41 anos! Que tal?! Melhor que nunca. Até falo com prateleiras.

DaLheGas

11 setembro 2009

o último dia de agosto

faz hoje sete dias, rigorosamente cronometrados,
que quebrei a promessa de não mais vos escrever,
abusando de versos pobres e de tons desbotados,
abusando da paciência de quem ainda me teima em ler.

ia sentado num barquinho, que digo!, numa lancha,
entre ilhas, talvez de um contentamento algo infantil,
em frente, meus olhos bem focados naquela criança
e no seu papagaio, a quem sussurrava ternuras mil.

este poema, escrevi-o de memória, sem tal perceber.
estranhei, confesso, a mistura de mar salgado e lágrima,
escondida por entre a gola levantada e o anoitecer,
mistura improvável, agridoce, imparável - próxima -,

metáfora de tudo o que quero dizer e aqui se intromete
(esse sentimento intenso que nos rouba tino e razão),
esqueçam a figura de estilo que a este verso precede
- há milhentas por aí, sempre à nossa infeliz disposição.

o que interessa reter é todo um verbo: "sussurrar agosto",
três substantivos: "um rapaz", "um papagaio" e "um barquinho",
(a sintaxe, a ortografia, a semântica ficam a vosso gosto)
e aquele meu coração agora insular.. a voar baixinho.


gi

10 setembro 2009

Deixa-me rir...



Conheci o Dr. John por intermédio do PO. Vi-o, pela primeira vez, sentado a um piano, no vídeo The Last Waltz, sobre os The Band, um grupo canadiano que ao fim de 16 anos de tocarem juntos, resolveram juntar todos os amigos/artistas que os tinham inspirado ao longo do tempo e fazer um mega concerto/celebração no Winterland Ballroom de São Francisco no dia 25 de Novembro de 1976 (gosto muito deste dia!). O vídeo, considerado pelo New York Times como o mais belo vídeo de rock jamais produzido, foi realizado por Martin Scorcese (que já tinha feito um sobre o Bob Dylan e que, entretanto, fez outro sobre os Rolling Stones, o fabuloso Shine a Light, que passou nos cinemas há cerca de um ano).

E foi amor à primeira vista. Dos muitos e famosíssimos artistas que acompanharam os The Band naquele memorável concerto (basta fazer um google para ter uma ideia da “dimensão” dos intervenientes), nenhum me encantou mais do que o Dr. John. A voz, o talento, a figura, a descontracção, o puro gozo de quem sabe que tem graça, que é bom no que faz e GOSTA do que faz, conquistaram-me por completo.

Nasceu Malcolm John Rebennack, Jr, em 1940. Guitarrista durante algum tempo, sobretudo pianista, compositor e cantor, tornou-se conhecido pela sua excentricidade e por um estilo de música que, ao longo dos anos, se foi repartindo pelos blues, boogie woogie e rock n’ roll (com algumas fusões destes estilos, também).

Gris-Gris, o seu primeiro album a solo de 1968, que misturava, com grande criatividade, ritmos e sons voodoo com música tradicional de New Orleans, foi extremamente bem recebido pela revista Rolling Stone, que o colocou numa posição de destaque num ranking dos 500 melhores álbuns de sempre.

Tornou-se um cantor e músico de culto, tendo tocado com Mick Jagger e Eric Clapton no álbum The Sun, Moon and Herbs. Este álbum fez a ponte para uma nova fase, mais ligada ao rhythm and blues e ao funk. E que veio dar origem ao álbum seguinte, Dr. John’s Gumbo (1972), um dos seus álbuns mais conhecidos. Mais uma vez, foi aclamado pela Rolling Stone, que o colocou entre os 500 maiores álbuns of all times.

Em 1973 produziu um novo álbum, desta vez dedicado ao funk de New Orleans, In the Right Place, álbum que o transformou numa espécie de embaixador do funk produzido na Louisiana. Such a Night, a música interpretada no concerto dos The Band, faz parte deste álbum.

Ao longo da sua carreira trabalhou com músicos como Sonny & Cher, Bob Dylan, Brian Wilson, The Band, Lou Reed, Eric Clapton, Mick Jagger, Carly Simon, Neil Young, James Taylor e Rickie Lee Jones, entre muitos outros.

Entre 1981 e 1983, gravou dois álbuns a solo, sobretudo com composições suas, em que demonstrou o enorme talento enquanto intérprete de boogie woogie. Seguem-se vários álbuns gravados em 1998 (Anutha Zone), 2000 (Duke Elegant), 2001 (Creole Moon), 2004 (N’awlinz: dis, dato r d’udde), 2005 (Sippiana Hericane – a seguir ao furacão Katrina que arrasou a cidade de New Orleans), 2006 (Mercenary) e 2008 (City that care forgot).

Não pertencendo ao mainstream da música, nunca tendo tido uma projecção a nível global como tantos outros com quem colaborou, há quem o considere injustamente underrated. Na minha opinião, porque fui eu que o escolhi, totalmente underrated! O domínio das teclas, o ritmo, a originalidade das misturas, o reconhecimento que lhe foi dado pela major Rolling Stone … não percebo. Mas isso sou eu …

Para quem quiser saber mais, tem uma autobiografia, publicada em 1994, intitulada Under a Hoodoo Moon.

pcp + po

08 setembro 2009

Pero Soares


Pero Soares. Peeeeeerooooo Sooooaaaareeeees. Dito devagarinho até parece um nome cómico.

Pero Soares não é bem no mundo, é um universo paralelo que Deus criou para fazer os vinte habitantes da sua terra felizes.

Estes vinte habitantes, divididos entre meia dúzia de casinhas vivem bem, independentemente da história pessoal de cada um. Não inteiramente cientes do seu isolamento do mundo, os moradores contentam-se com o que para um metropolitano pareceria ridículo.

Vi sorrisos genuínos com o cheiro fresco dos coentros plantados no jardim. Vi felicidade imensa em comer figos tirados das árvores no momento e, até, numa rapariguinha que tinha como melhor amiga uma cabra que lá passava todos os dias.

Neste mundo maravilhoso os relógios não marcam horas, o dinheiro não tem importância nem valor e as conversas não têm fim.


Em Pero Soares não é preciso haver ruas, também não há conhecidos. São todos família e têm o exterior das casas como um jardim onde se juntam. Pode ser para trocar plantações individuais, para cochichar sobre o tempo, a roupa da vizinha ou o namorico do sobrinho. Também pode ser só para fechar os olhos e perceber o verdadeiro sentido do silêncio.

Não precisam de nada de extraordinário para serem felizes. Uma melancia até serve perfeitamente como bola de futebol e os portões da igreja como baliza. Desrespeitoso? De todo! Percebi que cinquenta por cento das maldades só são conhecidas e praticadas em grandes aglomerados.

Entre os vinte habitantes existe um mudo. Um dia, olhou para mim com os seus olhos muito grandes e expressivos e, se pudesse falar, tenho a certeza que me diria: “Aqui Eu Sou Feliz..!!”

Pero Soares, Agosto 2009.

TdB

07 setembro 2009

A menina dos Correios

São as meninas dos Correios, como numa dada altura eram as meninas dos Telefones. Sei do que falo, porque me dirijo amiúde ao posto mais próximo que tem um quadro de pessoal exclusivamente feminino. Compro selos, peço estampilhas de correio azul, levanto cartas registadas, atento nas últimas publicações. A menina lá está, fardada, com uns óculos tristes, um cabelo aloirado e desinteressante, um olhar irrequieto e envergonhado. Recebe simpatias com uma cara que ruboresce, enfrenta uma observação com desculpas que tendem para infinito.

Esta menina dos Correios é uma rapariga nova, pintada de forma displicente, que poderia usar um letreiro em forma de súplica: não olhem para mim, finjam que eu não existo. Chama-se Clotilde e é filha de uma professora primária e viúva precoce de um motorista da Câmara Municipal. Convicta da irreversibilidade do estado civil, a senhora devotou-se por inteiro aos meninos, a quem transmitiu valores que formam as mentes e salvam as almas. Clotilde cresceu entre um aviso de recepção e um luto permanente, com uma Mãe que assumiu um pensamento constante: para onde caminhas tu, com esse feitio tímido e invisível?

Um destes dias levaram-me a um recinto no lado oriental da cidade, recuperado para uma malta mais alternativa, desta que não se revê em lado nenhum da noite – ou que quer tudo em simultâneo. Celebrava-se o dia de África, pelo que o estabelecimento era o continente negro copiado e colado na União Europeia.

Numa das salas dançava-se o kizomba: pernas que cruzam, ancas que roçam lateralmente para depois encaixarem de frente; a sensualidade, os cheiros, o ambiente, os sotaques, as saudades das noites africanas, do pôr-do-sol e do espaço sem fim. À minha frente, uma mancha negra movimentava-se ao som de uma toada ritmada e lasciva. No meio da pista, com um menear irrepreensível do corpo, uns cabelos loiros a revelarem cuidado, e uma saia curta que mal tapava umas pernas esguias, vi a Clotilde, esquecida dos carimbos e das encomendas, da franquia e do registo, a descobrir uma África que só conhece da TV Cabo. Com ela, um jovem negro com mais de 1,90 que lhe percorre o corpo como um alfaiate afaga uma peça de caxemira: com um vagar sensorial, de mão aberta e a toda a extensão do pano.

Quando saí, ainda a vi beijando o Valter, empregado de uma oficina na margem sul - um beijo longo, húmido, carregado de desejo e erotismo, de fluidos trocados e cor de pele contrastante. O rapaz sente no corpo da Clotilde a geografia africana e mata as saudades com o tacto, porque a lonjura é uma cegueira, e mão que não toca é alma que não sente. Para ela, que tem o horizonte visual de um balcão ao nível dos olhos, o mecânico é um canal de viagens com interacção erótica.

No dia seguinte a jovem voltará a ser a mesma menina do Correio, tímida, envergonhada, com uma farda estilizada e um cabelo démodé. Almoçará jardineira de vitela com uma Mãe que fala de Deus às crianças – sendo que a inversa também é verdadeira. Engolirá, nostálgica, um pedaço de carne, porque é, também, de nostalgia que se faz a pergunta guardada num coração dividido: sabes fazer moamba, mamã?

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado no sábado no Porta do Vento

06 setembro 2009

Surdos e mudos

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Realço, no Evangelho de hoje, aquilo que a minha sensibilidade entende ser o mais importante. Para mim, é claro, porque para ensinar aos outros pouco tenho que me qualifique.
Todos nós somos, seguramente - ainda que cada um à sua maneira - um pouco surdos-mudos. Porque somos "surdos" aos outros, àquilo que acreditamos ser a voz da Verdade, à nossa consciência, ao que dentro de nós apela ao serviço ao próximo, ao esforço, à dedicação, à vida plena. Também porque nos calamos na denúncia da injustiça, nos inibimos ao confronto, porque ser convicto, ter princípios e lutar por eles requer um desafio que não queremos combater. Entre o que é justo e a paz preferimos, tantas vezes, esta última.
Jesus ergueu os olhos ao Céu antes de proferir a palavra "mágica". Tal como Ele, também é no Céu que temos de por os olhos, porque é nesse "destino" que encontramos a felicidade suprema. Não aqui, nos nossos contentamentos comezinhos, no cumprimento de obrigações estéreis, numa caminhada sem sentido.
Aos surdos-mudos de alma e de coração resta um desafio: abre-te.


EVANGELHO – Mc 7,31-37
Naquele tempo,
Jesus deixou de novo a região de Tiro
e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia,
atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar
e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, afastando-Se com ele da multidão,
meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu,
suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,
soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar correctamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava,
tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam:
«Tudo o que faz é admirável:
faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

05 setembro 2009

Eixo Norte-Sul

Duas guitarras, duas pranchas, três chapéus de palha e um do rato Mickey, um fogão avariado, uma bilha de gás, quatro sacos cama e dois colchões, duas tendas, uma frigideira e uma panela, um tupperware de temperos, quatro malas para quatro pessoas, um carro e um destino. Em direcção a Sul, encostados ao mar.

Foi nestes termos que se iniciou uma viagem que sempre se caracterizou pela ausência de mapa. De frente para o mar, seguíamos para a esquerda.

Foi uma mão cheia e mais dois dedos da outra de dias cheios de sol e sal. Dias que se perdiam nos acordes da guitarra e noites que se derretiam com as pedras de gelo.

Durante esta semana, a janela do quarto abraçava a costa inteira, e o mar fazia de cabeceira quando fechava os olhos. Não precisei de encostar um búzio aos ouvidos para ouvir as ondas rebentar. Bastou-me ouvi-las ali ao lado. Levei o sal comigo para todo o lado. Aquele que fica quando saímos da praia, a fazer comichão nas costas e a puxar os cabelos para cima.

Descobri nestes dias que o fim de tarde tem mais cores do que aquelas a que estava habituado. E não falo aqui de cores como metáfora para certos e determinados estados de espírito que nos fazem olhar para o pôr-do-sol com os olhos cheios de melancolia e saudade. Digo cores no sentido literal da palavra. Entre o fio do horizonte e o último resto de sol cabem todas aquelas a que alguém um dia deu nome, e muitas outras que nunca ninguém se importou de catalogar. Gostava de as ter trazido no bolso, ao lado das chaves e das moedas, para num desses dias em que os olhos se enchem de melancolia e saudade as poder atirar novamente lá para o fundo.

Tal como gostava de ter trazido o prateado baço da lua cheia que banhava as escarpas que encimavam a praia, ou as estrelas e outros pontos brilhantes que são primos das estrelas, para depois poder copiar para um caderno preto todas as formas que estas faziam, com a inocência das crianças que se desenham maiores que as casas.

Trouxe, no entanto, os sons e os silêncios que encheram esses dias. E deixei, para quando lá voltar, uma cadeira à beira-mar.



Muna

04 setembro 2009

robert bresson

o meu nome é robert bresson, dizem-me aqui,
como se nesta nomeação fugissem eles mesmos
do risco possível de serem este eu que eu sou.

o meu nome é robert bresson e ninguém nunca
filmou ou filmará como eu filmei, há poucos anos,
nessa escala inclemente que é a da eternidade.

o meu nome é robert bresson e nos bosques de bolonha,
nas mãos dos carteiristas de rua, no recorte aguçado de uma nota,
no olhar petrificado da gente comum que elegi em vida,
pulsa, nem mais nem menos, do que um trevo da sorte,
desenhado a película granitada nos rostos pálidos
e orgulhosos que, uma e outra vez e para sempre,
zombam de ti e assim, fixos e petrificados, zombam afinal

dessa coisa viscosa e infilmável que é a morte.

gi

03 setembro 2009

Deixa-me rir...

Inicia-se hoje neste espaço, por grande amabilidade do dono deste estabelecimento, uma nova rubrica intitulada “Deixa-me rir …”. E como de uma rubrica musical se trata, nada melhor do que lhe dar um nome inspirado numa line de uma música de um cantor de que gosto muito – Jorge Palma -, que já tive a oportunidade de ver ao vivo num memorável, e afortunadamente interminável, concerto no Coliseu do meu querido Porto. Esta rubrica será produzida a meias em português (pcp) e inglês (po), pelo que se espera que a informação proveniente directamente de Londres, pela “mão” do po, grande amigo meu e imenso conhecedor (ainda que amador) de música anglo-saxónica, seja compreendida por todos os bloguistas.

Vamos então celebrar a Música, na sua forma menos erudita e clássica, ainda que esta definição tenha muito que se lhe diga, e começar com música do nosso Portugal. Concretamente com um famoso artista do meu (mais uma vez) querido Porto, o chamado “pai do rock português”. Não o dito cujo “Chico Fininho”, essa música cheia de ritmo e algo revolucionária à época, mas uma música cheia de soul e sentimento (como quase todas as músicas dele são, ou eram, aliás). A escolha foi difícil (podiam ter sido outras 10!), mas esta foi a contemplada. Espero que gostem. Até breve.

pcp + po


01 setembro 2009

Poemas dos dias que correm

Foi um Momento

Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não ?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa

Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
‘Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Músicas dos dias que correm

31 agosto 2009

Pensamentos dos dias que correm

O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo. Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.

Marguerite Yourcenar, in "Sistina"

30 agosto 2009

Poema para um Domingo

Colhe o Dia, porque És Ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in "Odes"

Músicas para um Domingo



XXII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 7,1-8.14-15.21-23
Naquele tempo,
reuniu-se à volta de Jesus
um grupo de fariseus e alguns escribas
que tinham vindo de Jerusalém.
Viram que alguns dos discípulos de Jesus
comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.
– Na verdade, os fariseus e os judeus em geral
não comem sem terem lavado cuidadosamente as mãos,
conforme a tradição dos antigos.
Ao voltarem da praça pública,
não comem sem antes se terem lavado.
E seguem muitos outros costumes
a que se prenderam por tradição,
como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –.
Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus:
«Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos,
e comem sem lavar as mãos?»
Jesus respondeu-lhes:
«Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas,
como está escrito:
‘Este povo honra-Me com os lábios,
mas o seu coração está longe de Mim.
É vão o culto que Me prestam,
e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’.
Vós deixais de lado o mandamento de Deus,
para vos prenderdes à tradição dos homens».
Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão
e começou a dizer-lhe:
«Ouvi-Me e procurai compreender.
Não há nada fora do homem
que ao entrar nele o possa tornar impuro.
O que sai do homem é que o torna impuro;
porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos:
imoralidades, roubos, assassínios,
adultérios, cobiças, injustiças,
fraudes, devassidão, inveja,
difamação, orgulho, insensatez.
Todos estes vícios saem lá de dentro
e tornam o homem impuro».

28 agosto 2009

Músicas dos dias que correm

Porque há jantares particularmente divertidos, interessantes e de aprendizagem permanente. Les beaux esprits se rencontrent.

jeanne moreau

no tempo em que o mundo estava ainda por inventar,
quase que me apaixonei por ti, jeanne,
como é timbre dos adolescentes em qualquer lugar.

no tempo em que barcos sedentos se lançavam ao mar,
eras a mulher-fatal, negra e perfeita,
inventada por marinheiro qu'em terra só queria navegar.

no tempo dessas manhãs-sem-igual-belas-de-pasmar,
esperava-te à porta de todos os sonhos.
e tu chegavas e tu eras minha..

(diz-me, jeanne, devagarinho:
chegaste mesmo a chegar?)

gi

27 agosto 2009

Músicas



(Há sugestões que são fortes...)

In memoriam de Londres, 2006

De mais ninguém senão de ti preciso
do teu sereno olhar, do teu sorriso,
da tua mão pousada no meu ombro.
E ouvir-te murmurar: espera e confia.
E sentir converter-se em harmonia
o que era, antes, confusão e assombro."

Carlos Queirós

(Nota: Por sugestão de PCP, bloguista frequente neste Adeus..., que escolheu o título do post e o poema)

Músicas dos dias que correm

26 agosto 2009

Poemas dos dias que correm

Tenho uma Grande Constipação

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Músicas dos dias que correm

25 agosto 2009



Quem acampa cinco dias de livre vontade num festival de música assume, perante o mundo, que gosta de porcaria.

TdB

Músicas dos dias que correm

Poemas dos dias que correm

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

24 agosto 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm

As recordações em amor não constituem uma excepção às leis gerais da memória, também ela regida pelas leis do hábito. Como esta enfraquece tudo, o que mais nos faz lembrar uma pessoa é justamente aquilo que havíamos esquecido por ser insignificante e a que assim devolvemos toda a sua força. A melhor parte da nossa memória está deste modo fora de nós. Está num ar de chuva, num cheiro a quarto fechado ou no de um primeiro fogaréu, seja onde for que de nós mesmos encontemos aquilo que a nossa inteligência pusera de parte, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando se esgotam todas as outras, sabe ainda fazer-nos chorar.


Marcel Proust, in 'A Fugitiva'

23 agosto 2009

As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os cânticos da terra.

No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira bússola nos seja,
Senhor, tua palavra.

A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que há de abrir à estância eterna
O fulgido caminho.

Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
Vê quanto vale a terra;

Quando das glórias frias
Que o tempo dá e o mesmo tempo some,
Despida já, — os olhos moribundos
Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos lábios,
No coração, na mente põe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
No seio do infinito.

Machado de Assis, in 'Crisálidas'

Músicas dos dias que correm

XXI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,60-69
Naquele tempo,
muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram:
«Estas palavras são duras.
Quem pode escutá-las?»
Jesus, conhecendo interiormente
que os discípulos murmuravam por causa disso,
perguntou-lhes:
«Isto escandaliza-vos?
E se virdes o Filho do homem
subir para onde estava anteriormente?
O espírito é que dá vida,
a carne não serve de nada.
As palavras que Eu vos disse são espírito e vida.
Mas, entre vós, há alguns que não acreditam».
Na verdade, Jesus bem sabia, desde o início,
quais eram os que não acreditavam
e quem era aquele que O havia de entregar.
E acrescentou:
«Por isso é que vos disse:
Ninguém pode vir a Mim,
se não lhe for concedido por meu Pai».
A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se
e já não andavam com Ele.
Jesus disse aos Doze:
«Também vós quereis ir embora?»
Respondeu-Lhe Simão Pedro:
«Para quem iremos, Senhor?
Tu tens palavras de vida eterna.
Nós acreditamos
e sabemos que Tu és o Santo de Deus».

22 agosto 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm

Eis aí uma maneira de perpetuar as ideias de um homem que eu afoitamente aprovo - publicar-lhe a correspondência! Há desde logo esta imensa vantagem: - que o valor das ideias (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquele que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de críticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além disso uma Correspondência revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e isto é inestimável para aqueles que na Terra valeram mais pelo carácter do que pelo talento. Acresce ainda que, se uma obra nem sempre aumenta o pecúlio do saber humano, uma Correspondência, reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporâneo e o ambiente, enriquece sempre o tesouro da documentação histórica. Temos depois que as cartas de um homem, sendo o produto quente e vibrante da sua vida, contém mais ensino que a sua filosofia - que é apenas a criação impessoal do seu espírito. Uma filosofia oferece meramente uma conjectura mais, que se vai juntar ao imenso montão das conjecturas: uma vida que se confessa constitui o estudo duma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem, único objecto acessível ao esforço intelectual. E finalmente como cartas são palestras escritas (assim afirma não sei que clássico), elas dispensam o revestimento sacramental de tal prosa como não há...

Eça de Queirós, in 'A Correspondência de Fradique Mendes'

21 agosto 2009

da geografia interior

conduzes pelas estradas do alentejo,
a cidade mágica para trás,
a teu lado o companheiro de sempre,
ângulo generoso e terceiro
dessa figura geométrica que a amizade
pode, em dias largos, ser.

o teu amigo fez quarenta anos,
o que, feitas as contas por alto,
dá a esse nobre triângulo a três
uns trinta anitos - sobressalto.

o tempo passa, sempre o soubeste,
mas era mais, como dizer, em abstracto.
ver os quarenta anos de um amigo
faz de matéria vaga matéria de facto.

que fazes dos teus dias, rapaz?
que segredos deixarás aos vindouros?
o zénite está já a teus pés, foge-te,
as horas escasseiam, faltam, doem-te.
estes teriam sido os anos de ouro,
fosses tu outro. ou mais tu

- mas mais capaz.

gi

19 agosto 2009

O Barqueiro e o Erudito

Conta-se que uma vez um homem erudito aproximou-se da margem de um rio, para que o barqueiro lhe permitisse atravessa-lo. O erudito parecia que carregava toda a sua importância junto com o seu conhecimento, como se temesse perde-lo. E assim, com soberba de letrado, disse ao humilde e serviçal barqueiro:
- Podes passar-me para a outra margem?
- Sim, claro, são duas rupias.
E o letrado temendo sujar-se ao tocar o barqueiro, entregou-lhe essas moedas.
Quando já estavam a atravessar o rio, e enquanto o barqueiro fazia o seu trabalho, o erudito perguntou:
- Barqueiro, estudaste Sânscrito? A língua em que, sabes, foram escritos os Vedas, os Upanishads, as epopeias do Mahabharata e o Ramayana, todos os Puranas e Upapuranas, a língua de Valmiki e Vyasa, a língua em que foi escrito o glorioso Bhagavad Gita, resumo de todo o conhecimento?
- Não senhor, nada sei de dita língua
- Oh, que desperdício de vida, então nada te posso dizer da beleza de suas estruturas sintácticas, dessas formas sublimes analisadas pelo ilustre Patanjali.
- E sabes, por acaso, Latim? A língua de Virgílio e de Cícero, tão belamente sonora e rítmica, como dizia em seus discursos o grande pretor romano, Quo usque abutere patientia nostra, que significa “Até quando abusarás da nossa paciência”? Oh, Oh, perdeste sem nenhuma dúvida metade da tua vida inutilmente.
- Não senhor, disso também não sei nada.
- Oh que tristeza de vida, então também não terás lido os versos amorosos de Ovídeo e Catulo, ou as tragédias de Séneca. Oh, Oh, Oh, perdeste sem duvida metade da tua vida.
E conheces os mistérios da Geometria?, que permite medir as distancias e as superfícies, classificar os ângulos, reconhecer os tipos de triângulos e fundamentar o cálculo diferencial para, claro poder estudar a Dinâmica dos Fluidos, tão necessário num trabalho como o teu?
- Oh, senhor, nada sei de Geometria
- Bem, bem, bem, oh, vida miserável e arruinada, perdeste metade da tua vida.
E Aritmética?, para distinguir os números racionais, os transcendentes, os imaginários?; sabes que Pi, o número que resulta da divisão da circunferência pelo diâmetro é um numero transcendente, tal como o número que permite calcular a forma de uma Ciclóide, que é como a forma que assume esta corda estendida na tua barca?
- Não, não, nada sei de Aritmética
Nisto as águas do rio começaram a agitar-se, movidas por uma tempestade, que de repente e com surpreendente violência começou a agitar a barca. Porem o erudito estava tão possuído de seus conhecimentos e com tanta soberba para com o humilde barqueiro que não se apercebia. Repetia, perdeste metade da tua vida inutilmente. E continuava instigando o nosso barqueiro com perguntas com as quais demonstrava orgulhosamente o seu saber.
- Ah claro, e seguramente também não sabes nada de Metafísica, dos mistérios da ontologia e as categorias do Ser….
- Ah, desculpe, desculpe, senhor, e você sabe nadar?
- Eu, Eu, e porque me pergunta isso, eu não sei.
- Pois nesse caso, vai perder a sua vida inteira, porque esta barca afunda-se, afunda-se, afunda-se.
Mais importante que acumular conhecimentos é encontrar o sentido da vida, como um fio mágico que conduz a nossa existência. O grande sábio Pitágoras dizia que melhor que um tonel de conhecimento é uma gota de verdadeira sabedoria, e a sabedoria que já é a alma da vida, é quem nos pode orientar no meio das tempestades do mundo. A nossa vida é uma barca frágil, o barqueiro é a consciência.
O que é mais importante que chegar, a tempo e bem, ao porto sonhado, e não fundir-se nas enganosas águas do que não somos, não cedendo aos cantos de sereia do mundo? O mais importante de aprender é a Arte De Viver.

Músicas dos dias que correm

18 agosto 2009

Pensamentos dos dias que correm

Das ocorrências indesejadas, falando de maneira genérica, algumas acarretam naturalmente dor e vexação, mas, na maior parte dos casos, é falsa a noção que nos habituou a nos enfadarmos com elas. Como específico contra este tipo de ocorrência, é conveniente ter à mão um dito de Menandro: «Nada te aconteceu de facto enquanto não te importares muito com o ocorrido». Isso quer dizer que não há motivo para o teu corpo e a tua alma se mostrarem afectados se, por exemplo, o teu pai é de baixa extracção, a tua mulher cometeu adultério, tu mesmo te viste privado de alguma coroa honorífica ou privilégio especial, pois nada disso te impede de prosperar de corpo ou alma.

Para a primeira categoria - doenças, privações, a morte de amigos ou filhos -, que parece acarretar naturalmente dor e vexação, esta linha de Eurípedes deve estar à mão: "Ai! por que ai? É o quinhão da mortalidade que nos coube". Nenhum outro argumento lógico pode romper de forma tão efectiva a espiral descendente das nossas emoções, do que a reflexão de que somente através da compulsão comum da Natureza, um dos elementos da sua constituição física, é que o homem se torna vulnerável à Fortuna; nos seus aspectos principais e essenciais, permanece seguro.

Plutarco, in 'Do Contentamento'

Músicas dos dias que correm

17 agosto 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm

Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro. O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?

Jean-Paul Sartre, in 'Situações I'

16 agosto 2009

XX Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Evangelho segundo S. João 6,51-58.

«Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu:
se alguém comer deste pão, viverá eternamente;
e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo.»
Então, os judeus, exaltados, puseram-se a discutir entre si, dizendo:
«Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?!»
Disse-lhes Jesus:
«Em verdade, em verdade vos digo:
se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem
e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós.
Quem realmente come a minha carne
e bebe o meu sangue tem a vida eterna
e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia,
porque a minha carne é uma verdadeira comida
e o meu sangue, uma verdadeira bebida.
Quem realmente come a minha carne
e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele.
Assim como o Pai que me enviou vive
e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os antepassados comeram,
pois eles morreram;
quem come mesmo deste pão viverá eternamente.»

Desejar ser

"A mais poderosa inclinação e o mais poderoso apetite do homem é desejar ser. Bem nos conhecia este natural o demónio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ruína a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (Gén. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser sábios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. Só uma coisa devem os homens desejar ser, que é ser santos. Assim emendou Deus o sereis do demónio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum . O demónio disse: Sereis como Deus, sendo sábios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do demónio não só nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos também o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele é, não só nos restitui o ser como Deus, senão também o ser. Quando Moisés perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (Êx. 3,14): Eu sou o que sou — porque só Deus tem por essência o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Moisés: Se sois tão amigos e tão ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que não é ser santo, é não ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se não sois santo, não sois nada. Pelo contrário, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que só é e só tem ser, que é Deus. Todo o outro ser, por maior que pareça, não é, porque vem a parar em não ser. Só o ser santo é o verdadeiro ser, porque é o que só é, e o que há-de permanecer por toda a eternidade."


Padre António Vieira

15 agosto 2009

Músicas dos dias que correm

Lembranças do dia de hoje


Há exactamente um ano estava eu no Zimbawe, e escrevi um post de que copio parte abaixo. Onde está 14 anos leia-se 15. O resto permanece actual.

Hoje é 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, e eu não esqueço a minha condição de católico e mariano.

Neste mesmo dia, mas há 14 anos, baptizava-se no Estoril uma criança aparentemente igual a tantas outras. Há evidências fotográficas de ter rido 24 horas depois de ter nascido, talvez por ter ouvido o princípio de uns versos que lhe foram dedicados:

Na Sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu

Esteve pouco tempo connosco, vítima das leis de um mundo nem sempre perfeito. Mas quem de nós não acredita que há vidas cujo tamanho e impacto nos outros se queda para lá da finitude das horas, minutos, instantes, existências que se não reduzem a cronologias humanas?

Àqueles que a viram nascer, dela se afeiçoaram e a lembram com saudade resta a dimensão da memória e o desafio de viver o melhor possível.

JdB

14 agosto 2009

domingo à tarde

ao domingo à tarde,
saímos de casa.
gola semi-arrebitada,
que pintarola,
apanhor sol de outono
na magistral e douta tola.

que linguagem, menino,
onde ficaram seus modos?
deixei-os em coimbra,
entre outros destroços.

ao domingo à tarde,
como no livro do fernando,
- o fernando namora -,
saímos de casa,vamos à bola,
qu'arejar é preciso
diz aqui o artola.

menino, menino,
heresias em dia santo?
a vida corre-lhe mal,
mas é razão para tanto?

ao domingo à tarde,
que se lixe o escritor,
passeamos pela cidade,
à falta de melhor,
(ia escrever: de calor).

menino, menino,
mas não fazia sol soalheiro?
o menino procura coisas
como agulha no palheiro.
não lhe basta o solzinho,
queria por acaso milagre maior?
diga lá: que acabasse a fome?,
diga cá: encontrar o amor?

menino, menino,
onde ficou a educação, respeito, etc e tal?
dizer assim mal do país,
dizer mal de portugal?

ao domingo à tarde,
ensandecidos da semana,
que cansaço, que torpor,
esquecemos qu'em nós manda:
a nossa algibeira
(mai-la do senhor doutor).

menino, menino,
que poeta tão limitado,
erra na métrica e no verso,
faz impressão,
ainda morre de fome,
tenha cuidado.

Deus-lhe pague o aviso,
e do chão erga o mendigo
que qual Cristo ajoelhado
pedia a quem passava:
- tenho fome, piedade.
essa agora, mendigo do diabo,
estragas assim o domingo,
pensas qu'isto é o quê?!
(apenas mais um domingo na cidade,
bem se vê..)

menino, menino,
que mal disposto anda,
homem feito por fora,
mas vê-se à légua a criança.
herança de livros e discos,
de mãe e pai e tudo,
feche-se em casa ao domingo,
saia só no entrudo.
que isto de aturar humores
de poetas mal arrimados
é dos piores terrores
alguma vez inventados.
claro que falo de mim,
acredite se quiser,
olho-o, faz-me pena,
lembra-me a minha mulher.
coisa assim nunca vi,
essa incapacidade de ser forte,
tome juízo, menino,
apanhe de vez o norte.

ao domingo à tarde,
petece morrer.
ou então espantar a dor,
no corpo de uma mulher.
se é isto o domingo,
dia santo de guarda,
ou perdemos toda a fé
ou a gente anda parva.
shopping mall e internet
passeios e futebol
eis a nossa condição:
trocar a vida por nada
e agradecer com devoção.

menino, menino,
insiste na diabrura?
olhe que gente que pensa e sofre e sente
lugar já aqui não tem,
moram todos no cemitério

ou no coração de sua mãe.

gi

13 agosto 2009

Pensamentos e músicas para o dia de hoje

Não consigo fugir ao lugar-comum: controlamos pouco a vida que vivemos, somos donos de algo mais do que nada. Os planos de uma mulher desfazem-se quando, no espaço de um instante, lhe é comunicada a sua infertilidade; a alegria quase incontida de uns pais é cortada se, numa observação de minutos, realizam a deficiência do seu filho ou são confrontados com uma doença grave que o atingiu; a carreira de um jovem termina numa curva da estrada e numa cadeira de rodas. No reverso da medalha, dois olhares estranhos que se cruzam na impessoalidade de uma festa podem dar origem a um encontro de almas; a leitura, inexplicável aos olhos da estatística, de uma carta surpreendente dá lugar a um novo encantamento; uma fotografia, um excerto de filme, uma música, pedaços de coisas que se ouvem ou vêem abrem um sorriso numa tristeza que se instalou sem regresso aparente. Em tudo - na luz e na sua ausência - há espaço para uma segunda oportunidade e para a pergunta: o que faço eu com isto que me aconteceu?

O post de hoje é dedicado a quatro pessoas (A, T, A e M) que sentiram bem esta ausência de domínio sobre os acontecimentos. Entre o contentamento e o desgosto, entre a gargalhada e o choro, entre a mão que acena numa alegria de regresso e a que vai à garganta para conter um soluço, há um instante, um fio de cabelo. Para elas vai a minha lembrança, a minha oração, e a confiança na capacidade que todos temos de reiventar o caminho e de olhar a vida de frente, na certeza de que o futuro é uma carta fechada que nos pede para ser aberta.

JdB



A morte nada é.
Eu estou apenas noutro lado,
Eu sou eu, tu és tu.
Aquilo que éramos um para o outro
Continuamos a ser.
Chamem-me como sempre me chamaram.
Falem-me como sempre me falaram.
Não mudem o tom da vossa voz.
Nem façam um ar solene ou triste.
Continuem a rir daquilo que juntos nos fazia rir.
Brinquem, sorriam, pensem em mim,
Rezem por mim.
Que o meu nome seja pronunciado em casa
Como sempre foi;
Sem qualquer ênfase,
Sem qualquer sombra.
A vida significa o que sempre significou.
Ela é aquilo que sempre foi.
O “fio” não foi cortado.
Porque é que eu,
Estando longe do vosso olhar,
Estaria longe do vosso pensamento?
Espero-vos, não estou muito longe,
Somente do outro lado do caminho.
Como vêem,
Tudo está bem.

Henry Scott Holland

12 agosto 2009

Pensamentos dos dias que correm


Em todos os males que nos acontecem, olhamos mais para a intenção do que para o efeito. Uma telha que cai de um telhado pode ferir-nos mais, mas não nos desola tanto como uma pedra atirada de propósito por uma mão maldosa. O golpe, por vezes, falha mas a intenção nunca erra o alvo. A dor física é a que menos se sente nos ataques da sorte e, quando os infortunados não sabem a quem culpar pelas suas infelicidades, culpam o destino, que personificam e ao qual atribuem olhos e uma inteligência disposta a atormentá-los intencionalmente.

É o caso de um jogador que, irritado com as suas perdas, se enfurece sem saber contra quem. Imagina que a sorte se encarniça intencionalmente para o atormentar e, encontrando alimento para a sua cólera, excita-se e enfurece-se contra um inimigo que ele próprio criou. O homem sábio, que em todas as infelicidades que lhe acontecem só vê golpes da fatalidade cega, não tem essas agitações insensatas; grita na sua dor, mas sem exaltação, sem cólera; do mal que o atinge só sente os ataques materiais, e os golpes que recebe podem ferir a sua pessoa, mas nenhum atinge o seu coração.

Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

Músicas dos dias que correm

11 agosto 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm


Dirigirmo-nos a alguém com a missão de que se transforme noutro, é irmos com a embaixada de que ele deixe de ser ele. Cada qual defende a sua personalidade, e só aceita uma mudança na sua maneira de pensar ou de sentir, na medida em que esta alteração possa entrar na unidade do seu espírito e enredar-se na sua continuidade; na medida em que essa mudança se puder harmonizar e se conseguir integrar com tudo o resto da sua maneira de ser, pensar e sentir, e possa, por outro lado, enlaçar-se nas suas recordações. Nem a um homem, nem a um povo - que, em certo sentido, também é um homem - se pode exigir uma mudança, que desfaça a unidade e a continuidade da sua pessoa. Pode-se mudá-lo muito, quase até por completo; mas sempre, dentro da continuidade.


Miguel de Unamuno, in 'Do Sentimento Trágico da Vida'

10 agosto 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm


Às vezes também é preciso chegar até a embriaguez, não para que ela nos trague, mas para que nos acalme: pois ela dissipa as preocupações, revolve até o mais fundo da alma e a cura da tristeza assim como de certas enfermidades. E Líber foi chamado o inventor do vinho não porque solta a língua, mas sim porque liberta a alma da escravidão das inquietações; restabelece-a, fortalece-a e fá-la mais audaz para todos os esforços. Mas, como na liberdade, também no vinho é salutar a moderação. Crê-se que Sólon e Arcésilas eram dados ao vinho; a Catão, reprovou-se-lhe a embriaguez: mais facilmente se fará honesto esse crime do que Catão desonroso.

Séneca, in 'A Traquilidade da Alma'

Músicas dos dias que correm

09 agosto 2009

XIX Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Há muitos anos, seguramente quase 25, pessoa que me era próxima por via familiar e de amizade afirmou, com um ar, talvez, de algum orgulho, que nunca tinha discutido com o noivo. Lembro-me de ter achado a frase perigosa, porque entendia, já nessa altura de jovem inexperiente das coisas conjugais, que havia uma enorme importância na forma como recuperamos de uma altercação: como gerimos o ganhar e o perder, a raiva, as desculpas que se pedem e aceitam, o orgulho que se feriu, a humildade, o remorso, a aprendizagem, a vingança ou o esquecimento, os gestos de paz e de concórdia. Ontem, passado um quarto de século sobre a frase, falava com um amigo sobre esse mesmo assunto. Para chegarmos à conclusão de que numa relação qualquer, o tema da discussão e da forma como a enfrentamos é quase determinante na continuação harmónica de uma vida a dois. 25 anos depois do pensamento verbalizado com uma ingenuidade natural, tenho esta certeza, pouco científica, metafórica - e com alguma tristeza -, de que podemos não morrer na bebedeira, mas agonizar na ressaca.

EVANGELHO – Jo 6,41-51
Naquele tempo,
os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito:
«Eu sou o pão que desceu do Céu».
E diziam: «Não é ele Jesus, o filho de José?
Não conhecemos o seu pai e a sua mãe?
Como é que Ele diz agora: ‘Eu desci do Céu’?»
Jesus respondeu-lhes:
«Não murmureis entre vós.
Ninguém pode vir a Mim,
se o Pai, que Me enviou, não o trouxer;
e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.
Está escrito no livro dos Profetas:
‘Serão todos instruídos por Deus’.
Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino
vem a Mim.
Não porque alguém tenha visto o Pai;
só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai.
Em verdade, em verdade vos digo:
Quem acredita tem a vida eterna.
Eu sou o pão da vida.
No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram.
Mas este pão é o que desce do Céu
para que não morra quem dele comer.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne,
que Eu darei pela vida do mundo».

08 agosto 2009

Cresceram lá na avenida, na Avenida da Liberdade, e por ali aprenderam o melhor da mocidade

Joaquim era pequenito, mas um prodígio na fala. Da janela do seu quarto, num alto rés-do-chão, o menino saciava-se. Abordava toda a gente e fazia mil perguntas. “Boa tarde!” “Onde vai?” “Fazer?” “Mas olhe...” “E onde mora?” “Tem Mãe?” Queriam as almas seguir marcha e o Quinzinho não dava tréguas. Um dia caiu doente. Uma infecção pulmonar. E de dia para dia, a janela sempre vazia e a rua tão intrigada... A campainha tocou, a rua não aguentou. O que é feito do menino?! Transeuntes de horas certas trouxeram-lhe um lindo carrinho. E ao Quinzinho, ao Quinzinho, foi a rua que o curou.

Belo rancho na Avenida era o do Senhor Pompeu. Trigueirinhas as meninas, louro e claro o rapazinho. Tinha um gosto no petiz, que no dia em que ele nasceu, pagou ginjas, o Pompeu! E agora, fecho a loja. Vai fechar a drogaria?! Nãão, homem! Quero é ver se não vêm mais filhos. Vocemessê tá ciente do que é casar três moçoilas? São duas cousas terríveis, em simultâneo: o trabalho e a despesa. Fora a fúria da criada, de cuidar da pequenada. Diz sentir-se enfastiada. Coitadinha. Não faz nada! Não dê ouvidos Pompeu. Isso é conversa fiada, alfinetada. Tem razão. Dá outra ginja, ó Leitão.

Tão serena a Amélinha, que criança encantadora. No Passeio com a madrinha, quem se lembra de as ver, nunca houvera de dizer. Que o anjinho ao crescer viria logo escolher fraco caminho na vida. Tanto se empenhou o pai, viúvo novo demais, em proteger a menina, para ela depois teimar, que queria ser dançarina. Há quem diga que foi birra, outros, força do talento, e, tivesse a pequena mãe, dissipava-se o tormento. Mesmo contra as vontades, no Teatro triunfou, plena de engenho e arte, o seu nome ecoou. Amélia passou a estrela, era amiga de escritores. Um dia o pai foi vê-la e elogiou-lhe os valores.

DaLheGas

07 agosto 2009

o rapaz raro

um rapaz raro,
diria dele outro rapaz dourado - rimbaud.
um rapaz que guardava um tesouro,
diria, aqui ao lado,
o muito nosso josé miguel silva.

um dia foi só um rapaz
como os outros:
sorridente,
travesso,
luminoso.

como são todos os rapazes.

quando hoje, em busca de magia,
nos ajoelhamos perante as canções,
é a catedral que veneramos.
mas, antes e depois e além da catedral,
houve um rapaz.

como todos os rapazes.

nos
que existiram,
nos
que existem,
nos
que existirão:
em todos eles há,
preciso e precioso,
um derradeiro gosto a verão.

depois foi nick drake,
mas esse já conhecemos
(wikipedia e bibliografia).
o que nunca saberemos
é onde o olhar do rapaz
se perdeu para sempre,
em que margem ficou,
essa coisa que no ainda rapaz vemos
essa coisa a que chamam alegria.

gi

Acerca de mim

Arquivo do blogue