08 outubro 2009

Deixa-me rir...

Estimados audiophiles, anglo-philes and -phobes, this week I offer you a contemporary song, to gently wake up the pharaohs (see comentarios for Deixa-me rir, 24 Setembro), with a charming video and a simple universal message of friendship which, I think, may also resonate for some bloguistas who correspond but never actually meet:

I don't know what you smoke or what countries you've been to
if you speak any other languages other than your own
I'd like to meet you
I don't know if you drive, if you love the ground beneath you
I don't know if you write letters or you panic on the phone
I'd like to call you all the same, if you want to, I am game.

I don't know if you can swim or if the sea has any draw for you
if you're better in the morning or when the sun goes down
I'd like to call you
I don't know if you can dance, if the thought ever occurred to you
if you eat what you've been given or you push it round your plate
I'd like to cook for you all the same, I would want to, I am game,


If you walk my way and I could keep my head
we could creep away in the dark or maybe not,
we could shoot it down anyway.


I don't know if you read novels or the magazines
if you love the hand that feeds you
I assume that your heart's been bruised
I'd like to know you
you don't know if I can draw at all or what records I am into
if I sleep like a spoon or rarely at all
or maybe you would do? maybe you would do


if you walk my way I will keep my head
we will feel our way through the dark
though I don't know you I think that I would do
I don't fall easily at all

http://www.youtube.com/watch?v=WSaPbVjcrp4

If you think you recognise Lisa Hannigan's voice, well, she used to sing with another Irish songwriter Damien Rice a few years ago.
The video brings a memory of my very early childhood, during a summer holiday in Magoito (near Ericeira), sitting on my Portuguese great-grandmother's knee while she cut out paper objects, usually sailing boats...

A próxima...

po

07 outubro 2009

Ainda S. Paulo e a Acreditar

Ontem era a gala de abertura dos trabalhos do SIOP - Societé Internacionale de Oncologie Pediatrique -, organismo a que o ICCCPO se junta para as suas reuniões anuais. De um lado os médicos, do outro os pais. No fundo, no fundo, as partes interessadas (para usar uma expressão mais corrente do que afectiva) quando se trata de uma criança com cancro.
O programa social passava por um espectáculo na Sala São Paulo, um belíssimo recinto recuperado a partir de uma antiga estação de caminhos-de-ferro, onde se ouviria música de Tom Jobim, Villa-Lobos, Nepomuceno, Francisca Gonzaga, Ary Barroso. Antes do show, uma multidão afadigando-se de volta de petit riens que se comem, se bebem, se conversam, se riem. Encontrões, apertos, dificuldades em chegar às vitualhas, gente que defende a sua travessa como se não houvesse amanhã. 1200 pessoas, talvez mais, na sua esmagadora maioria médicos da área da oncologia pediátrica. Eu conversava com a sumidade portuguesa, de quase 80 anos, fundador do serviço de pediatria do IPO. E os encontrões, e as sumidades, e os apertos, e os cercos, e a boca seca. E um empregado que, no meio daquele mar de gente, se dirige a mim (sim, a mim e não a quem estava comigo, a quem trato respeitosamente por Senhor Professor) e me diz com um sorriso genuíno:
- Dôtô João! Ali ao lado tem uma sala com menos gente.
Olhei para ele e retribuí o sorriso que acompanhei com um agradecimento. Lembrei-me do Eça, no Conde de Abranhos:
- Bom rapaz, este António...

O post abaixo fala de cancro, de cancro, de cancro. O tema está subjacente em todas as palestras ou trabalhos de grupos, porque é por isso que esta gente se reúne. Quando falamos entre pais imginamos as histórias, as saudades, as expectativas, os desgostos, as pequenas melhoras, os exemplos, os casos de sucesso, a lágrima fácil e sentida. Ontem, ao ver aquelas mais de mil pessoas, entre pais e profissionais de saúde, na sala S. Paulo, imaginei, metaforicamente, o recinto totalmente vazio e a oncologia pediátrica remetida a uma história de memórias antigas, de sorrisos com que brindamos algumas efemérides e lembranças. Ontem vi a vitória à minha frente. E disse três vezes, tantas quantas as que usei para a palavra cancro: esperança, esperança, esperança.
Acreditar é, sobretudo, isto.

S. Paulo (Brasil) e a Acreditar

Cheguei 6ªfeira de madrugada a S. Paulo. Lembro, sem saudade e como primeiro impacto, uma espera de duas horas para sair do aeroporto: filas para a Polícia Federal, para passar a alfândega, para olhar com uma desmoralização ensonada a ausência da minha mala, levada por engano pela Vivian Leite (não, não conheço) que diminuiu a importância das identificações apostas na pega.

Durante o fim-de-semana andei por aí com uma amiga local que me foi apresentando parte das suas rotinas de diversão. Na solitude, também, do viajante que já conheceu mundo acompanhado apenas pelos seus pensamentos, vi arte, lojas, ruas movimentadas, trânsito caótico, esplanadas à beira da Avenida Paulista, gente simpática e afável, preocupações com a segurança, carros trancados e vidros fechados, livrarias que apetece arrematar. S. Paulo será melhor para se viver durante algum tempo do que para veranear por poucos dias.

A partir de ontem o caso mudou de figura. Até ao final da semana represento a Acreditar na reunião anual do ICCCPO, a organização mundial das associações de crianças com cancro.

Na mesma semana almoço regionalmente no cosmopolita e ruidoso Consulado Mineiro, entregando o meu palato (salvo seja) a um rabo de boi estufado com agriões e arroz; passeio pelo parque Ibirapuera onde visito uma exposição afro-americana e o museu de arte moderna; no Astor, lá para a Vila Madalena, provo uma caipirinha de caju e um bolinho de bacalhau; conheço gente local, que me presenteia com um sorriso e um sem-cerimónia.

Na mesma semana, repito, assisto a apresentações de survivors (continuo a não gostar da tradução sobreviventes), oiço falar de tumores cerebrais, de cuidados paliativos, de partilha, de fim de vida de crianças, de cancro, de cancro, e de cancro naqueles que deviam brincar, não ser tratados.

Uma semana de luz e de sombra, de escuridão e de claridade, de esperança e recordações dolorosas. No fundo, no fundo, uma semana que reflecte a vida de muitos de nós, balanceados entre os dois lados de uma mesma moeda. Usando a fórmula com que termino alguns escritos, Acreditar é também isto...

Porque a vida é também música, oiçamos Caetano Veloso explicar como vê S. Paulo.

Adeus, até ao meu regresso...



06 outubro 2009

Lar doce lar

Antes de começar, quero fazer notar a estratégica cronologia com que inauguro este novo espaço, tão próximo das autárquicas quanto se quer, que o povo tem memória curta. Posto isto, vamos ao que me trouxe aqui.

Já é Quarta-feira, dia da Edite vir cá a casa espalhar o pó com criatividade renovada, redistribuindo com mestria as bolas de cotão pelo chão das diferentes assoalhadas, a seis euros à hora, Que é mais barato que o que por aí se encontra, recordo ter ouvido de alguém entendido.

Uma hora e nove minutos da manhã, o nosso novo e oriental coleguinha, e não estranhem o diminutivo, que o rapaz é uma pessoa de diminuta figura, como todos os seus amiguinhos amarelos, está a cantar com afinco uma qualquer pimbalhada em mandarim, sem nenhum pudor e, ao que parece, com uma maldade desprovida de qualquer remorso, visto já não ser a primeira vez que, com agradável amabilidade, lhe bato à parede, Está calado chinês.

Em toda a sua orientalidade, o educado rapazito diz chamar-se Zé, que é a tradução de Chin Pau Tai, ou Pim Pam Pum, ou uma outra composição trissilábica aleatória, e canta cada vez mais alto, o danado, espero que seja de felicidade, que a ser de tristeza, não havia compaixão que lhe valesse.

Curiosamente, e nem de propósito, hoje, pela hora a que a Edite, com o seu porte de lutador de sumo e a sua dislexia cognitiva aguda, chegar a casa, a única pessoa que vai estar presente para lhe abrir a porta vai ser o Zé Chinês, do alto do seu metro e meio e com o seu raquítico vocabulário lusitano, que se resume facilmente a Sim sim, Tábem, Desculpa e Obrigado. Ninguém, de entre a infinita multidão que constitui o nosso círculo de leitores, será possuidor de uma imaginação tão explosivamente fértil que, assim de umas linhas, consiga criar uma imagem mental capaz de fazer justiça à epicidade de semelhante situação. Mas fica o desafio.

É este o primeiro episódio da nossa nova rubrica, marcada para as terças-feiras, que desta vez assinala o dia em que duas das mais bizarras personagens da cidade se encontram em minha casa, e eu não vou estar presente para ver.


Ora, roubando o término a que o Chefe nos acostumou, Adeus, e até terça que vem.
(Este texto em particular foi publicado, como episódio piloto, num blogue aqui perto.)

ZdT

05 outubro 2009

O administrativo do rent-a-car

Talvez a farda do dia-a-dia – uma camisa branca, umas calças azuis escuras e uma gravata com o logótipo da empresa - fosse, de facto, o seu salvo-conduto para a pergunta demolidora:

Queres falar sobre essa camisola? E tens a certeza de que gostas dessas meias?

Mas ele não se importava, ou importava-se e sentia a impotência – ou, quiçá, falta de vontade -, para enveredar por um caminho diferente no tocante ao seu guarda-roupa pessoal. E continuava a cruzar riscas com bolas, castanho com verde-claro, azul celeste com cores indefinidas, padrões modernos com tecidos improváveis. Tudo em nome de uma indiferença – ou de uma ignorância.

Os amigos riam-se – sendo que o riso era a sensação que se seguia ao espanto - e sugeriam que ele adoptasse a farda como vestimenta permanente.

Mantém o pijama, se quiseres, por desconhecimento nosso e pouco entusiasmo pela atracção do abismo.

Carlos, o administrativo do rent-a-car de maior sucesso nas redondezas, volta a sorrir com bonomia salpicada com uma indiferença que caracteriza a inteligência de algumas pessoas. Durante a semana usa a sua farda clássica; de noite, ou aos fins-de-semana, dá asas à sua criatividade mais louca - ou mais errada, porque loucura e erro nem sempre caminham juntos.

Para efeitos desta crónica não interessa o resto do calendário. Importa reter todas as últimas quintas-feiras do mês, momento em que o rapaz da visão desgovernada das cores e padrões convida a Cristina para jantar em sua casa. Nesse exacto dia, que se repete com a certeza da lua cheia e das marés, Carlos veste a sua melhor farpela: um fato completo cinzento-escuro, uma camisa azul e uma gravata com um motivo que não passa de moda. Era clássica no tempo do seu pai, será clássica no tempo hipotético do seu filho – imaginando que possa vir a ter descendência. Uns botões de punho discretos dão um toque de classe ao conjunto.

Socorramo-nos, agora, do lugar-comum: há frases que se repetem e que não perdem o seu encanto. Citemos o amo-te, mas, também, o que seria da minha vida sem ti e, nalguns casos, o que seria da tua vida sem mim. Cristina não fugirá à regra. Entra e beija-o numa sala que, embora modesta, está repleta de flores propositadas para aquela noite. Ardem velas aqui e ali, baixou-se a luz aos candeeiros existentes para que a penumbra inebrie os sentidos e convide ao erotismo. Cristina aloja dentro de si sensores que disparam na última quinta-feira do mês em casa do Carlos, empregado no ramo do aluguer de automóveis.

Depois do beijo longo e apaixonado, do aspirar do aroma das flores e das velas de cheiro que ardem romanticamente, a rapariga ajeita-lhe o nó da gravata e sacode-lhe a impressão de uma poeira nos ombros. E repete a frase, porque descobre encanto na rotina de algumas expressões.

Estás muito bem vestido.

Carlos sabe que Cristina é cega de nascença. Mas, mesmo que a inconsciência do mal não configure um pecado, não gosta de imaginar que ela está mentir.

Muito bem vestido, mesmo.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento

04 outubro 2009

Orações dos dias que correm







Deixai vir a mim as criancinhas...

EVANGELHO – Mc 10,2-16

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Aproximaram-se de Jesus uns fariseus para O porem à prova
e perguntaram-Lhe:«Pode um homem repudiar a sua mulher?»
Jesus disse-lhes:
«Que vos ordenou Moisés?»
Eles responderam:
«Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio,
para se repudiar a mulher».
Jesus disse-lhes:
«Foi por causa da dureza do vosso coração
que ele vos deixou essa lei.
Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher.
Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa,
e os dois serão uma só carne’.
Deste modo, já não são dois, mas uma só carne.
Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».
Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo
sobre este assunto.
Jesus disse-lhes então:
«Quem repudiar a sua mulher e casar com outra,
comete adultério contra a primeira.
E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro,
comete adultério».

Apresentaram a Jesus umas crianças
para que Ele lhes tocasse,
mas os discípulos afastavam-nas.
Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes:
«Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis:
dos que são como elas é o reino de Deus.
Em verdade vos digo:
Quem não acolher o reino de Deus como uma criança,
não entrará nele».
E, abraçando-as, começou a abençoá-las,
impondo a mão sobre elas.

03 outubro 2009

Y Uno Aprende

 

Después de un tiempo,

uno aprende la sutil diferencia

entre sostener una mano

y encadenar un alma,

y uno aprende

que el amor no significa acostarse

y una compañía no significa seguridad

y uno empieza a aprender...

Que los besos no son contratos

y los regalos no son promesas

y uno empieza a aceptar sus derrotas

con la cabeza alta y los ojos abiertos

y uno aprende a construir

todos sus caminos en el hoy,

porque el terreno del mañana

es demasiado inseguro para planes...

y los futuros tienen una forma de caerse

en la mitad.

Y después de un tiempo

uno aprende que si es demasiado,

hasta el calorcito del sol quema.

Así que uno planta su propio jardín

y decora su propia alma,

en lugar de esperar a que alguien le traiga flores.

Y uno aprende que realmente puede aguantar,

que uno realmente es fuerte,

que uno realmente vale,

y uno aprende y aprende...

y con cada día uno aprende 

 

(Jorge Luis Borges)

02 outubro 2009

quando te falo de amor

[ao senhor charles bukowski]

hoje ao almoço, atravessei o bairro
naquele passo de sempre.
quero dizer: o bairro que atravessei
é uma metáfora. por isso dizem: triste pândego,
usa a linguagem a seu jeito,
é um lesa-linguística!, uma lesma do pântano!
pobres literais, pobres literatos.
não sabeis vós por acaso como se escreve
o raio de um poema?
não sabeis vós como é que
um homem atravessa o bairro
e ainda assim sobrevive?
pois eu digo-vos:
esqueçam o terço, a arte sacra,
esqueçam o basketball e a soap opera.
misturem, e sejam generosos,
meia amarguinha portuguesa
com toda a vossa amargura.
puxem-lhe um fósforo - bum!!
depois metam conversa com todas as miúdas.
eu disse: todas. essa também.
façam a estatística trabalhar para vós.
aproveitem todas as manhãs,
tardes,
noites,
perdidos na cama delas.
quando acabar, comecem de novo.
e, de súbito, tudo terá passado.
sereis apenas memória largada ao vento,
sugestão num rodapé sem brilho,
um nome longínquo.

esta manhã, ao atravessar o bairro,
pensei em ti com toda a força que não tinha
e, o diabo me leve, se não foi, se não foste,
a melhor coisa que não tive em anos.

gi

01 outubro 2009

Deixa-me rir...

Era meia-noite de uma noite deliciosamente perfumada de Julho. As janelas, abertas de par em par sobre uma varanda de pedra que se prolongava para o jardim de buxo, convidavam os mais velhos a descansarem do barulho que se fazia sentir dentro do palácio, e os mais enamorados a momentos de maior intimidade, longe dos olhares curiosos. “Mas que calor que está lá dentro”… dizia uma rapariga, empoleirada nuns extraordinários Manolo Blatnik, ao descer os degraus de pedra a caminho das sombras e da frescura dos bancos de jardim.

Dentro do velho palácio, espelhos antigos, de vidros manchados e molduras sumptuosamente douradas, decoravam as paredes de um verde jade um pouco fanné da extensa sala de baile. Tecto pintado com frescos e três enormes candelabros venezianos iluminavam a sala, roubando reflexos dourados aos belos e trabalhados cabelos das convidadas. A música tinha sido pensada ao pormenor e o DJ de serviço marcava o ritmo das músicas com a cabeça, satisfeito por ver tantos corpos dançando e rodopiando livremente ao som de canções de décadas em que o ritmo era espontâneo, descontraído e alegre. Tinha sido uma ideia engraçada da dona da casa pensava ele, enquanto mudava o vinyl no seu gira-discos de estimação, esta de organizar uma festa com músicas dos anos 50 e 60, décadas que ainda por cima lhe eram particularmente queridas. Gira também a ideia de pedir aos convidados para se vestirem à época, incorporando o espírito do swing, do rock & roll, do boogie woogie, da pop … e giríssima a ideia de ter pegado na lista telefónica e de, aleatoriamente, ter convidado 200 desconhecidos… semelhante ideia, semi extravagante no enquadramento de um grupo muito agarrado às convenções sociais, estava a revelar-se o maior sucesso!

A dona da casa estava feliz com o que via. A casa, já um pouco decadente, parecia ter voltado aos seus tempos áureos … os risos, o tilintar dos copos, o brilho dos tecidos, o menear alegre dos corpos, a brisa carregada do aroma do jasmim, e a música … sempre a música … faziam-na vibrar e pensar que tinha de organizar mais festas como aquela. Dinheiro não lhe faltava, sendo única herdeira de uma grande fortuna. Para além disso tinha tempo, dezenas de amigos, criatividade, ousadia qb e um gosto sem fim por dançar. Era tempo de enterrar o passado e o profundo luto interior que sentia há muitos e muitos anos. Desde que os pais tinham morrido e que o marido, ao fim de 2 anos de um matrimónio feliz (assim o pensara ela), a abandonara com requintes de malvadez e uma insensibilidade absoluta. Tinha, desde então, mergulhado no mais profundo desespero e numa total ausência de gosto pela vida que nem os inúmeros convites dos amigos e a presença doce e calmante da Emília, que a vira nascer, conseguiam alterar. Não que os outros avaliassem o seu verdadeiro grau de devastação interior. Nunca fora particularmente comunicativa e, nos últimos anos, tinha vindo a aperfeiçoar o seu gosto pela arte da representação. Sabia que os outros a sabiam triste, mas daí até suspeitarem que tinha um buraco negro no lugar do coração ia uma grande distância ….

Foi então que o seu olhar se cruzou com um outro que, pela expressão, já devia estar a olhar para si há algum tempo. Numa fracção de segundos inexplicável, ou só explicável por quem passou pelo mesmo, apercebeu-se que havia um homem alto, moreno, esguio, com uma camisola de gola alta azul escura e um copo de whisky na mão que a olhava com a intensidade com que a tinham olhado noutros tempos, quando ela era uma jovem mulher cheia de vida e curvas exuberantes. De repente, tudo à sua volta se transformou numa espécie de espiral faíscante de luz, cor, música e confusão. E a música, sempre a música … parecia cada vez mais alta…

Sem forças, suores frios a percorrerem-lhe as costas, sentia as pernas a cederem e uma tontura gigantesca a formar-se … até que uma mão forte e os acordes de uma canção infinitamente melódica e romântica a salvaram de cair, desamparada, no xadrez de mármore brilhante do seu salão de baile: “Au premier temps de la valse, je te voi et tu m’aperçois …


PCP

30 setembro 2009

Pensamentos impensados

A Inquisição fez inúmeras vítimas por queimaduras; ainda não tinham inventado os bronzeadores.

Bactéria atrai bactéria na razão directa da infecção, e na inversa do antibiótico.

O Limbo foi uma invenção da Igreja para descongestionar o Purgatório.

Tales, de Mileto, foi o primeiro a tentar construir a linha de caminho de ferro; mas devido ao seu estrabismo apenas conseguiu um paralelismo convergente que esteve na origem do seu famoso teorema.
SdB (I)

Filmes dos dias que correm

29 setembro 2009

Pensamentos impensados

Eureka era uma estância balnear onde o Arquimedes ia amolecer os calos.

Pitágoras foi um grande promotor do triângulo Lisbo/Sintra/Cascais.

Atendendo a que o Conde de Andeiro foi morto na flor da idade poder-se-á dizer que foi desflorado?


SdB (I)

Cemitério de barcos

I.

Pudesse eu levar
Uma mão cheia de areia,
E outra cheia de mar,
Para que quando desaparecer
Para nunca mais voltar
Possa mais um dia cheirar
A praia que me viu nascer

II.

Há quem lhe chame cemitério. Aqui, os barcos não navegam. Ficam parados, a verem-se ao espelho da água. Não estão à espera de nada nem de ninguém. Estão só parados, mortos.

As redes foram arrumadas à cabeceira, os remos cruzados sobre as traves e os nós foram todos desatados das cordas. E é assim que ali ficam, para sempre.

Percebe-se que lhe dêem este nome. Estão lá as lápides com os nomes de quem ali conheceu a última casa terrena. Mas estas, ao contrário do mármore escuro e frio, são as madeiras dos barcos, ainda quentes do sol e roídas pelo sal, pintadas a cores de aguarela.

Não há flores, mas há conchas. Não há cheiro a árvores e a Outono, mas cheira a maresia. E, como em qualquer outro cemitério, o silêncio aqui é mais do que a simples ausência de barulho. Aqui, o silêncio é o som dos dias sem vento e sem sol. É a música das noites com estrelas e sem lua. Mesmo as ondas que embalam os barcos rebentam na costa sem qualquer som.

E naquelas rochas há um ponto que sobe mais alto do que os outros, e de onde se vê o mar até ao outro lado. Foi daí que se disse o último adeus aos barcos, e é aí que as gaivotas pousam e ficam paradas a ver o horizonte.

E cada vez que passo por aqui, ao olhar para este repouso, pergunto-me para onde vão os barcos quando são aqui sepultados. Porque o casco fica, mas o resto não...

SdB (III)

28 setembro 2009

O homem do talho

- Dá-me 1 kg de bifes, Sr. Josué? Mas importa-se de os cortar fininhos? E de me tirar a gordura antes de pesar?

- E quer que eu lhes faça uma massagem também? Ou uma lipoaspiração? Se quer fininho fale com o Rui Veloso, que essa música era dele.

Ou então:

- A carne é boa, Sr. Josué? Queria uma peça macia mas barata, que o tempo não está para mais.

- Ah sim? E mais alguma coisa? Um bilhete premiado, talvez? Mas que eu lhe oferecesse, é claro, que o tempo não está para mais…

Os diálogos como o dono do talho não variam muito. Pedidos simples respondidos com frases agrestes, simpatias matinais retorquidas com azedumes permanentes. Ao Sr. Josué vale-lhe a qualidade da carne, além de não haver alternativa num raio de quilómetros. A freguesia no talho não diminui, só diminui a esperança de que o feitio do talhante melhore. Os dias passam e nada acontece, para além da carestia da vida, das pensões de miséria, do preço dos medicamentos, do desrespeito das gerações mais novas. No Sr. Josué, tal como na Nação, já muitos descrêem uma mudança.

Duas vezes por mês, às 4ªs feiras, o talhante despede-se da mulher com dois beijos rotineiros e um até logo indiferente. D. Lucília, sentada num sofá a descascar favas e a ver a novela do fim de tarde, repete-lhe a pergunta quinzenal com o interesse das coisas vagas:

- Vais jogar sueca?

- Sim, vou.

Por volta das onze da noite o Sr. Josué, comerciante agreste que tem do serviço ao cliente uma visão muito própria, entra em casa e saúda a mulher com outros dois beijos curtos, com uma intensidade e afecto só muito ligeiramente diferentes. As favas estão descascadas mas a saga da novela continua – outros personagens, outros cenários, outro enredo.

- Ganhaste?

O talhante não devolve o olhar porque D. Lucília não olha para ele, que o seu interesse está em saber se a outra do conde ascenderá a esposa legítima. O olhar do talhante atravessa paredes e pessoas e pára num ponto no infinito que só ele vê. Há uma hora, um local, um personagem e uma actividade que definem as coisas da vida de cada um, mesmo se resguardadas de olhares terceiros: entre as seis da tarde e as dez da noite, às 4ªs feiras e duas vezes por mês, o industrial das carnes cortadas a jeito, um lar de idosos perdido nos arrabaldes da sua freguesia. Ali, na miséria da terceira idade abandonada à sua sorte, há velhos a precisarem de banho, de uma muda de fraldas, de casas de banho lavadas, de camas mudadas, de sopas ralas dadas em bocas sem dentes.

- Ganhaste?, repete a esposa do Senhor Josué, esperançada na ascensão da amante a condessa com palácio e gelo permanente no balde.

Dos olhos do homem que retira a gordura antes de pesar os bifes rolam duas lágrimas grossas, pesadas, cheias de sentimentos contraditórios.

- Talvez mais do que mereça…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado Sábado no Porta do Vento

27 setembro 2009

Só a verdade liberta

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Se bem que o comentário que segue, do Pe. Vitor Gonçalves, seja relativamente ao Domingo passado, não resisto a transcrever uma parte, pela sua actualidade.

É sempre a tentação de idealizar uma realidade assente sobre lógicas de poder e glória (que não estamos imunes de prolongar na sociedade, na família e na Igreja), fugindo do caminho da humildade e do serviço, do acolhimento dos mais insignificantes e desprezados. Só a verdade liberta. Só a alegria de servir pode mudar por dentro aquilo que está mal. Por isso, a mudança que Jesus quer fazer em nós, fortalece-nos para aquelas que é preciso fazer à nossa volta. Mas será que estamos dispostos a mudar o olhar, o pensar, e o agir segundo critérios de um amor sem medida, de uma verdade procurada e corajosamente praticada? Mesmo sabendo que isso tem a marca da cruz?

EVANGELHO – Mc 9,38-43.45-47-48

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
João disse a Jesus:
«Mestre,
nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome
e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco».
Jesus respondeu:
«Não o proibais;
porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome
e depois dizer mal de Mim.
Quem não é contra nós é por nós.
Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo,
em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.
Se alguém escandalizar algum destes pequeninos
que crêem em Mim,
melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço
uma dessas mós movidas por um jumento
e o lançassem ao mar.
Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a;
porque é melhor entrar mutilado na vida
do que ter as duas mãos e ir para a Geena,
para esse fogo que não se apaga.
E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o;
porque é melhor entrar coxo na vida
do que ter os dois pés e ser lançado na Geena.
E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo,
deita-o fora;
porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos
do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena,
onde o verme não morre e o fogo não se apaga».

26 setembro 2009

Even so

Eu pedi-lhe e você disse que sim.
Depois esperou por mim e eu não vim.
Roubaram-me de si e você não disse nada.

O que se diz a quem vai e já não volta?
A quem passa do dia para a noite e esquece as horas?
E se deixa roubar vezes sem conta?

Eu pedi-lhe e você disse que sim.
Que fosse, que livrasse o coração de qualquer culpa.
Que aqui o que se faz é por amor.

Você esperou JdB e eu não vim.
Pela tarde mandou-me ir e eu lá fui.
Veio a noite JdB e eu segui.
Vi as estrelas desbotarem com a manhã.
Riscou-se o dia JdB, emudeci.
Só Deus sabe o que foi chegar aqui.
E só Deus sabe com que gosto eu sorri.

Tell me Jdb: – Do you still love me?


DaLheGas

Filmes dos dias que correm

25 setembro 2009

lenga-lenga, lenga-lenta, lenta-lenta

na viragem do ano,
a formiga interroga-se:
a harpa ou as suas cordas?

na viragem do ano,
também a cigarra se pergunta:
tronco ou flauta?

a montanha condensada - diz a capa.
mão de criança hoje, pulso firme futuro.
ou será ao contrário?

à flor não se pergunta.
a verdade não se dilui,
chovam mil águas ou nenhuma.

o livro como a vida.
quantas páginas, mestre?
as que escreveres, rapaz.

escrever.
lavrar o campo.
esperar a estação certa.

sim, não, sim, não, sim, não..
lenga-lenga de inverno hoje.
escuta: já lá vem o verão.

gi

24 setembro 2009

Deixa-me rir...

"Imagine... a warm summer's evening, by a dark flowing river, under a magical moonlit sky. A stage bathed in purple light. The audience in hushed anticipation, some awaiting the return at last of a cherished hero, others curious to experience for the first time, like me... And then The Man appears, forever stylish in his tailored suit and tie and fedora hat. His band of musicians look equally chic.

This was the scene last summer by Lisbon's river Tejo. And I had the opportunity to re-live this experience once more this summer. No warm evening. No moon. Lots of rain. Well, this was England. But it did not matter.

He performs with the same grace and humility and charisma and humour, and respect for his audience and for his fellow musicians.

His band are exceptionally artistic instrumentalists, the arrangements rhythmic, spanish, cabaret, waltz...

Not everyone likes Leonard Cohen. At least, they think they don't, or they would not, happy to accept the stereotypical belief that his poetic music sounds and therefore must be depressing. Well, he is not a pop singer. But his deep and mellow voice carries the wisdom and sensibilities of a lifetime's experiences. When he speaks he is quiet, understated, the audience captivated in his presence, clinging to his every word, like a congregation to their bishop's sermon.

LC himself makes fun of his mournful image by skipping onto and off the stage and dancing during his band's instrumental solos. He jokes that it is 14 years since he last gave concerts, when he was 60 years old, just a kid with a crazy dream. In that time he tells us that he studied the religions and philosophies of the world, but cheerfulness, cheerfulness kept breaking through.

I think these worldwide concerts have opened the ears and eyes of some sceptical people. And of a new younger generation.

[If anyone is interested to discover more, I found a very good review with excellent pictures which expresses the whole concert experience much better than I can: http://www.lauraleanalle.com/Blog/leonard-cohen-review.html ]

If you are converted, or maybe you too were present, LC has released a new double cd, Live In London, which captures perfectly the aural magic of LC and his band. I hope there will one day be a dvd to capture the visual magic.

But if you still find his voice hard to listen to, I here offer you a compromise:

one of the most magical moments of all; one of the greatest in LC's Tower of Songs, introduced by The Man as a spoken prayer before taking heavenly flight on the wings of the angelic harmonies of his backing singers. Accompanied by a harp. Spell-binding. Sublime.



The Webb Sisters are just two of many wonderful backing singers employed through the years by LC. They are English; how LC discovered them I do not know; but I imagine and hope that they will find their own solo success. I suggest you find and listen also to one of their own compositions, Baroque Thoughts.

Until the next time...

po

23 setembro 2009

Pensamentos impensados

A problemática circunstancial dum paralelismo convergente obtém-se multiplicando o centrismo periférico pelo parafuso sem fim

Um organista é um anarquista organizado.

A temperança é um condimento ou um condicionamento?


SdB (I)

Filmes dos dias que correm...

Para quem já tem alguma idade (o filme é de 1971), para quem é fã dos Bee Gees e para quem não se importa de legendas em japonês.

É o meu caso...

JdB

22 setembro 2009

Memórias e Lembranças


Das memórias que fogem do tempo, a que seguro com mais afinco é a do olhar, que nunca uns olhos souberam dizer tanto como aqueles. Os anos foram rasgando afincadamente as rugas da idade, à força de muito sol e muito sorriso franco, do homem que, de entre todos os que nasceram naquele tempo difícil, se ergueria para caminhar sempre um passo à frente do mundo. Quase todas as vidas davam um livro, menos são, em verdade, as que dariam um bom livro, raras contudo, são as que não cabem em qualquer livro, por mais que se encolham as frases e se estreite o papel.Das mil e uma linhas que, escritas, não diriam tudo, escolho algumas que, pertinentes nesta altura, reproduzem o que outros, pegando no mesmo exemplo, o do meu avô, e procurando o mesmo fim que eu, já rabiscaram com contornos semelhantes.Defendo que a felicidade do Homem, na sua essência, reside num dos sentimentos mais corriqueiros e, sobretudo, mais desvalorizados dos dias que correm, o da utilidade. O Homem é feliz se sentir que é útil.

Levantar-se-ão, perante esta afirmação, vozes com acusações de ingenuidade, mas eu sei que os olhos bons do meu avô eram, com toda a certeza, rasgados pelo triunfo de se sentir útil. E desengane-se quem pensa que o reconhecimento é condição necessária, porque não o é, de todo.

Ficam estas linhas, para lembrar coisas que eu não gosto de esquecer.

ZdT

21 setembro 2009

Pensamentos impensados

O Adão foi a primeira pessoa a ser traumatizada pelo complexo de Édipo: gritou MAMÃ MAMÃ e apareceu-lhe um velho de barbas com um triangulo na cabeça.

A característica do improviso é o pensamento antecipado.

O peixe é um animal depauperado: não tem "pauperas".

SdB (I)

O Presidente da Junta

Roubara mobiliário para decorar sedes revolucionárias com cheiro a cigarros ilícitos; ajudara a sanear professores universitários cujo nome bastava para atemorizar o pessoal discente; lançara à rua obras de arte, num exercício de defenestração do burguesismo diplomático estrangeiro. A idade, os cabelos brancos, algum cansaço, talvez, levaram-no a caminhar para a direita, que é para onde corriam os bons nos filmes de cowboys. Resvalando de partido em partido, numa espécie de queda quase livre na direcção do extremo, aterrou na última agremiação do espectro partidário e que lhe serviu de batente. No esplendor da carreira política chegara a presidente da junta de freguesia.

Fruto de um discurso crescentemente inflamado – e de uma quase imperceptível perturbação do espírito - entrou numa rotazinha de colisão com a lucidez da mente. Fala-se em imigração e o cavalheiro abespinha-se, alegando que a calçada portuguesa já fala ucraniano, o ferro de engomar foi tomado de assalto por umas havaianas e calções, os pedintes na rua perturbam o sossego das mentes cristãs com gemidos em moldavo; menciona-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o presidente brama contra o nojo - o asco, mesmo - o pão e o circo, a porcaria de homens que por aí há; refere-se a adopção de crianças por homossexuais e o senhor leva as mãos à cabeça, sugerindo bengaladas queirosianas em público.

Senta-se todas as tardes junto à praia, num café onde só trabalham portugueses de terceira geração – no mínimo – envolvendo os correligionários com um olhar onde se sente determinação:

- Sabem? Existe a fogueira que purifica para sempre, o barco que parte sem regresso, a cadeia que amansa os vícios. Escolham o que quiserem, mas agora tragam-me uma sandes de queijo limiano num pão de Mafra. Nada de pãozinho aparado, que isso é para maricas.

O senhor presidente encerra a Junta e dirige-se a casa onde vive sozinho desde que a mulher o trocou por um rapaz de Ulan Bator, portador de cartas registadas. Fecha as janelas para manter uma privacidade impenetrável e veste uma tanga negra com um lustro que confunde. Liga o karaoke e, quando a música começa a tocar, todo ele se agita num frenesim de sensualidade

Quand il me prends dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose

Duas vezes por semana, quando os telejornais vão a meio, recebe a Roberta - uma negra de Porto Galinhas e que as más-línguas alegam já ter sido Roberto – para uma série de duetos exclusivos de George Michael e Ney Matogrosso. Faz amor com ela ficando sempre por cima, não porque aprecie os missionários, mas porque gosta de demonstrar que há posições de chefia a respeitar. Depois fuma um cigarro e retoma o discurso da cadeia, da fogueira, do barco sem regresso, da corja negra e de leste. A brasileira, dengosa e suada, vai à casa de banho e toma um comprimido, porque o médico disse que tinha de ser assim até ao fim da vida.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento.

20 setembro 2009

As crianças

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
No tempo de Cristo, as crianças (pelo menos até uma certa idade) não tinham direitos. Representavam, por isso, também, os mais fracos, os mais débeis, os mais insignificantes, os que tinham poucos direitos, os indefesos. São esses que Jesus senta ao colo (metafóricamente falando). Cabe-nos a nós fazer o mesmo: olhar pelos marginalizados, estender a mão a quem precisa, não virar a cara aos que a sociedade condena - até porque os condena, tantas vezes, em nome de lógicas erradas e injustas.

EVANGELHO – Mc 9,30-37

Naquele tempo,
Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia,
mas Ele não queria que ninguém o soubesse;
porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes:
«O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens
e eles vão matá-l’O;mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».
Os discípulos não compreendiam aquelas palavras
e tinham medo de O interrogar.
Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa,
Jesus perguntou-lhes:
«Que discutíeis no caminho?»
Eles ficaram calados,
porque tinham discutido uns com os outros
sobre qual deles era o maior.
Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes:
«Quem quiser ser o primeiro será o último de todos
e o servo de todos».
E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles,
abraçou-a e disse-lhes:
«Quem receber uma destas crianças em meu nome
é a Mim que recebe;
e quem Me receber
não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

19 setembro 2009

Voltem, estão perdoados

Setembro alonga-se, a cidade encheu-se e o Adeus não vê os seus escritores. Onde estão aquelas siglas misteriosas, que adivinhávamos em prosa? Setembro alonga-se, a cidade enche-se, ninguém aparece. Onde andam essas maiúsculas, JdB?

Se JCN não toca, DaLheGas não vem ao baile. ATM não prega, DalheGas não se levanta. E assim sucessivamente. Falando neles, devo saudar, louvar e agradecer, os novos redactores. A equipa de verão. E o JdB, sempre de olho na salvação. Juntos, o Adeus bem se fez, melhor se pagou. Enquanto o dono do estabelecimento não nos puser a andar, é tudo para ficar.

DaLheGas

18 setembro 2009

na islândia

a vidraça é por vezes um recurso inestimável
espécie de filtro translúcido entre nós e o universo,
como essa porta de restaurante moderno
que hoje te separa da pequena multidão lá fora.

a mistura de negro e vermelho é perigosa,
como todos sabemos bem dos livros de história
e de outras coisas que rimam com a memória
do que já fomos, do que somos e sempre seremos.

mais uma manifestação burocrática, parece-te,
'já nem dá para um entusiamo à antiga sequer,
este sindicalismo on demand', diz a teu lado a mulher
e tudo revela a essência burocrática deste tempo.

dizem-te: desempregados de espadas desembainhadas?
é coisa muito pouco vista, mesmo nada habitual,
pois o país que sobrevive já não passa no telejornal
e estes desempregados são, já se vê, gente de bem.

engoles a sopa de grão, que não te cai como devia,
e perguntas-te se será desse moderno cozinhado,
embora sabendo que a razão não está no refogado,
antes na secreta arte de manipular a algibeira alheia.

tudo se compra, tudo se vende, tudo se corrompe,
verso bem a calhar, já que te acusam de nihilista-mor.
encolhes os ombros, bebericas o café sem sabor,
serei nihilista-mor ou só lúcido? (dandy era melhor).

dormes, na rotina dos justos que navegam à vista,
marinheiros de água doce e mares sem chama,
que isto de viver enquanto se refila e se reclama,
é como reconstruir um avião em pleno vôo sónico.

a rádio fala da crise, esse animal de desestimação.
de súbito, entra-te no carro esse país (existe?) branco
a que muitos chamam islândia - ilha de fogo, portanto -
onde o impensável afinal também parece acontecer.

as pessoas revoltam-se, há pedras a voar pelos ares,
e não, não é nenhum secreto ritual, nenhuma celebração
bizarra e ancestral, é mesmo, como dizer, a manifestação
pura e dura de um mal geral: como viver sem se poder?

direitos adquiridos, o welfare state, o milagre económico,
expressões de um presente garantido, de conforto, etc. e tal,
transformam-se em palavras bolorentas, mera poeira astral.
não pagam contas de anteontem, nem são passaporte feliz.

"então isto é assim".., deve pensar aquela gente por lá,
as regras mudam em pleno jogo, "passar bem e viver mal"..
"não esperam pela demora, estes fregueses em especial",
que "a impunidade não passará!", "abaixo o governo! "..(é cá?)

retomas o teu pensamento, são exactamente 9h05,
numa cidade conhecida e tua, bem longe da islândia.
abençoado és, rapaz, por essa geográfica circunstância.
aceleras o carro, outra mudança - que bom é viver em paz.

lá longe.. mas que te interessa esse lugar abstracto?
no futuro.. mas que te interessa esse tempo por acontecer?
mas e "se lá longe e no futuro" for "o aqui e agora"? - queres tu ver..
aceleras mais, mudança engrenada, pedal a fundo.

uma lágrima contida, quase ensimesmada,
contra um muro concreto, ali logo à frente,
procuras o travão ontologicamente ausente,
enquanto te despistas - tu e a branda islândia.

nuvens de chumbo, prédios a arder,
um travo amargo, uma visão alucinada.
depois uma dor insana, vertical, funda,
depois o muro

e depois nada.

gi

17 setembro 2009

Deixa-me rir...


Uma vez mais, a história de hoje reporta-se à minha vivência em Londres. Foi no Jazz Café de Camden que, em final de tarde luminosa e quente, descobri uma nova estrela no meu firmamento musical. Escrevi na semana passada sobre o Dr. John, elogiando a sua excentricidade e postura descontraída e relaxada. Esta semana elogio uma cantora com uma postura idêntica. Rickie Lee Jones, de seu nome. Americana, com uma infância particularmente turbulenta e instável, cresceu rodeada de música, num ambiente criativo e estimulante para uma imaginação sequiosa de se expressar. Percorreu os EUA à boleia, foi hippie, viveu com o Tom Waits, com quem teve uma relação de intensidade kármica, escreveu e interpretou canções pop, rock, rythm & blues, soul e jazz.

Confesso que a achei no mínimo curiosa ao vê-la entrar em palco nessa noite: atrasadíssima, provavelmente pouco se importando com os numerosos fãs que a esperavam de pé (não há praticamente cadeiras ou bancos neste famoso clube londrino), com a farta e longa cabeleira loira totalmente desgrenhada, botas pretas à punk, vestido indiano cor de rosa, com uns enfeites brilhantes, tipo camisa de noite… uma figureta! Atenção que era bonita quando era nova … mas agora ronda os 50 e muitos. Muita droga, noitadas, maluquice e vida bem preenchida daquilo que a nós, bloguistas, não nos atrai (penso eu de que…) sulcou-lhe a cara de rugas, alargou-lhe as formas e intensificou-lhe a expressão da voz, de si não particularmente distinta.

E que expressão! Estou a vê-la pequena, braços descobertos e flácidos, iluminada por um foco de luz no meio de um palco escuro, no fundo do qual se adivinhavam os músicos que a acompanhavam. Estou a vê-la a balouçar-se, pesadamente, de olhos fechados, imersa nos seus pensamentos e no ritmo dos primeiros acordes da primeira canção, alheia aos assobios e aos murmúrios provenientes dum público já ansioso … e a voz a soltar-se, surpreendentemente fresca, cheia de inflexões, algo entaramelada, sensual, expressiva como só são expressivas as vozes de quem ama a música e a sente no corpo e na alma …

Daí até ao fim do concerto foi sempre a crescer: ela em “estatura” musical, os músicos em virtuosismo e entrega, nós em tensão e em gozo … e a música a espalhar-se por cada canto esconso e escuro de um clube muito cool e repleto de gente com copos de cerveja de plástico na mão …

Deixo-vos com uma música que me marcou. Nem sei se é particularmente bonita ou do agrado dos bloguistas. Mas adoro a batida, os acordes, a voz para cima e para baixo, os arremessos súbitos e, muito, o título: We belong together, do álbum Pirates.

Agora imaginem-se neste clube lendário, numa noite de Verão, encostados a uma coluna, de olhos fechados, a sentir a presença de alguém especial ao vosso lado … é possível, eu senti-a! Estava lá, era quase palpável. É tão bom assistir a um concerto com alguém de quem gostamos!... A "materialização" dessa pessoa, neste contexto, é de somenos importância. O que interessa é o que se passa quando fechamos os olhos...

pcp + po

15 setembro 2009

The Beauty and the Beast - hoje, mas há 1 ano, no Zimbabwe



Tal como indica o título, o meu post de hoje escreve-se sob o signo do Beauty and the Beast. Eu explico.

Sábado de manhã fomos ver a oficina e uma das lojas de venda ao público do Patrick Mavros, um zimbabueano de origem grega que se dedicou, originalmente, à escultura em marfim. Com as restrições a nível mundial de utilização desta matéria-prima virou-se para a prata, esculpindo magistralmente animais, árvores - tudo o que está relacionado com África. Quando chegámos ao local onde também mora e onde circulam animais selvagens, deparámo-nos com a vista que vêem nas fotografias. Não vi campo - vi um quadro pintado por mão prodigiosa.



O Patrick contou-nos que quando se instalou aqui não havia qualquer construção. Tinha comprado uma moldura de janela numa demolição, ou noutro sítio qualquer, e a loja nasceu à volta do ponto onde ele a decidiu colocar - e que se abre para a vista que partilho convosco.

Este texto revela a Beauty do meu post.

Hoje, segunda-feira, pelas dez da manhã, dirijo-me a Parirenyatwa (não estou certo da grafia) um hospital de Harare, para conhecer um pouco do drama das crianças com cancro. Depois de contactos que foram feitos por quem subiu comigo à montanha sagrada, recebi uma chamada e fiz outra, tendo como interlocutores médicos simpáticos, disponíveis, que agradeceram (pasme-se...) a visita que me propunha fazer. Terei contactos, ao que parece, com uma Acreditar de cá, de que não sei nada. Gostava de sentir a miragem de uma potencial ajuda - não faço ideia em que moldes - mas estou certo, mais uma vez, que receberei mais do que darei.

Este texto revela a Beast do meu post.

A beleza de uma paisagem, a monstruosidade do cancro infantil. Duas faces da mesma moeda, duas realidades com que me vou confrontando ao longo dos últimos anos e que me fazem ter a certeza de que nada é garantido, certo, duradouro ou eterno. A paisagem idílica que vos mostro desaparece fruto de um incêndio incontrolável, o sorriso de uma criança desvanece-se face à brutalidade de uma doença. Resta-nos (pelo menos para mim, que sou crente) a Fé, a Esperança e a Caridade: confiar no futuro, acreditar em dias melhores, estender a mão a quem precisa num gesto de amor.

Adeus, até ao meu regresso...


14 setembro 2009

O polícia

Chama-se Curdo, um nome assaz bizarro para quem é natural do Alandroal, mas há quem o apelide de Surdo. De facto, como agente da autoridade, é totalmente desprovido de audição quando toca a multas. Implacável e rigoroso ao limite, não tem contemplações nem ouvidos para as desculpas habituais. Foi só um instantinho, já me ia embora, deixe lá, senhor guarda, só desta vez.

Mora num rés-do-chão direito de um prédio velho e escuro, engavetado numa rua onde o sol se esquece de ir. Nos dias de serviço entra e sai de casa impecavelmente fardado, como se o aguardasse uma parada presidencial, ou a rotina da autuação fosse incompatível com o desleixo.

O agente Curdo gosta de manter rotinas. Durante o dia zela pelo fluxo saudável do trânsito e pelo desimpedimento escrupuloso dos passeios. Mantém um registo particular de multas por dia, porque gosta de indicadores desafiadores e potencialmente contraditórios: a atenção à infracção versus o grau de cumprimento do cidadão.

Ao fim do dia chega a casa, despe-se e arruma a farda com zelo. Pendura as calças pelos vincos e ajeita o casaco num cabide para evitar deformações que tirem o decoro que se requer à autoridade. Veste umas calças de fato de treino e uma T-shirt de alças, escorropichando uma mini para a qual dispensa copo.

O agente Curdo senta-se então ao computador e digita uma série infindável de endereços e palavras-chave, troca informações com um interlocutor cibernético, consulta auxiliares de memória. Durante as duas horas seguintes entreter-se-á com jogos informáticos nos quais as forças de lei travam uma luta sem quartel contra a delinquência: raptos, assaltos, tráfico de droga, assassinatos, terrorismo urbano.

Durante duas horas, repete-se, o agente Curdo gritará, agitará as mãos, vociferará, soltará palavrões, premirá a tecla enter com uma genica inusitada.

- Estúpido, não é por aí! Ah! Grande camelo que vais ser apanhado! Força, força, pela direita, rápido! Atenção que ele está ali, ao virar da esquina. Tem cuidado. Ah! sacana que estás feito, não percebes nada disto. Nada! Se fosse eu havias de ver…

São 120 minutos de combate árduo - ainda que virtual – contra o crime. E, durante todo esse tempo, acompanhado da sua mini e da sua ausência de mangas, o agente Curdo estará indiscutivelmente do lado dos fora-da-lei, pondo todo o seu saber ao serviço dos que atemorizam os cidadãos e zombam das regras.

Pela hora de jantar chega a Susana, empregada recente de uma empresa de vigilância. O agente beija-a com ardor, admira-lhe a farda e pede-lhe:

- Importas-te de não apertar tanto as algemas? Ontem aleijaste-me…

No dia seguinte voltará à multazita, à pequena reprimenda, à surdez ao apelo do infractor:

- O senhor automobilista reparou que o rodado dianteiro esquerdo passou por cima do traço contínuo? Vou ter de o autuar…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento

13 setembro 2009

Perder e ganhar a vida

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Gostaria de ser simples, mais do que simplista. E, por isso, retenho (apenas) as últimas cinco linhas do Evangelho de hoje, que falam de renúncia, cruz, salvação, perda. Palavras na sua generalidade duras, difíceis, contraditórias com aquilo que o mundo actual persegue - os deleites tantas vezes sem critério, o gozo imediato, a satisfação oca, o contentamento egoísta.
Ninguém no seu perfeito juízo achará, hoje em dia, que a mensagem de Cristo nos condena a suportar cruzes sucessivas, nos impede dos pequenos e grandes prazeres, nos sugere que a virtude está no cumprimento cego e sem sentido de obrigações estéreis.
Temos todos, seguramente, um caminho de aprendizagem ainda longo: entender ao que podemos e devemos renunciar, qual a cruz que nos compete suportar, as renúncias que assumimos em nome de um bem maior, aquilo de que não faz sentido abdicar, os objectivos de plenitude e felicidade que perseguimos e que fazem de nós pessoas mais realizadas. Tudo isto, acredito, em nome do Céu, que é para onde os cristãos olham.
Perceber isto é um exercício desafiante, como desafiante é a tolerância com que devemos olhar a vida do nosso próximo, tantas e tantas vezes espartilhada entre vontades e deveres, desejos e obrigações, visões lúcidas e conceitos antigos. Vidas divididas, no fundo, vítimas amiúde de apreciações ligeiras.

EVANGELHO – Mc 8,27-35
Naquele tempo,
Jesus partiu com os seus discípulos
para as povoações de Cesareia de Filipe.
No caminho, fez-lhes esta pergunta:
«Quem dizem os homens que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns dizem João Baptista; outros, Elias;
e outros, um dos profetas».
Jesus então perguntou-lhes:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».
Ordenou-lhes então severamente
que não falassem d’Ele a ninguém.
Depois, começou a ensinar-lhes
que o Filho do homem tinha de sofrer muito,
de ser rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;
de ser morto e ressuscitar três dias depois.
E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.
Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O.
Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos,
repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás,
porque não compreendes as coisas de Deus,
mas só as dos homens».
E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes:
«Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,
salvá-la-á
».

12 setembro 2009

Férias light, que o Inverno vai pesar


Regresso. Voltar é melhor que partir. Chega-se leve, iludido pelos dias sem lei e olha-se a casa, agradecido. Um tecto, a cama própria, uma sala com a tralha dos anos, e prateleiras que ganham livros.

Toma lá: o “deserto”. Junta-o ao “equador”. Não gostei mais, nem menos. Desilusão, como alguém disse, nem de longe. Dá febre baixa e no fim um soluço. Devolvo-te o Quintino Aires, que reli com outra atenção e espírito livre de perguntas. Aprendi muito mais, vê lá tu. Sabes que falar da vida alheia ou ver novelas ajuda tanto como os livros, a que cada Homem crie consciência da sua própria vida? Não se condene, portanto. Mas trago-te um novo autor. Afinal, o que nos interessa mesmo são os autores, que as histórias desvanecem-se. Ignora a chamada de capa. A escrita dele não tem “um charme inimitável”, seja lá o que isso for. O título, convenhamos, foi preciso ter coragem – “Amor à 1ª Vista”. O texto não merecia. Sim, tu também não. Mas prataleira, há coisas inevitáveis a suportar nas nossas vidas. E uma nova literatura que veio para ficar. “Light”. Chamam-lhe assim. E sabes que têm razão? Não podes ler Pessoa num areal à cunha. Nem Voltaire num catamaran carregado de espanhóis. Isto, lês de rajada, em qualquer lugar, descobri eu, sem perder uma entrelinha. Sabes porquê? Adivinhas todas as frases e todos os sentidos que ainda hão-de vir. É um exercício de oxigenação cerebral, como outro qualquer. Um Soduku para coxos do cálculo, como eu, claro.

Agora, sabes que mais? Vou celebrar. Sim, hoje fiz 41 anos! Que tal?! Melhor que nunca. Até falo com prateleiras.

DaLheGas

11 setembro 2009

o último dia de agosto

faz hoje sete dias, rigorosamente cronometrados,
que quebrei a promessa de não mais vos escrever,
abusando de versos pobres e de tons desbotados,
abusando da paciência de quem ainda me teima em ler.

ia sentado num barquinho, que digo!, numa lancha,
entre ilhas, talvez de um contentamento algo infantil,
em frente, meus olhos bem focados naquela criança
e no seu papagaio, a quem sussurrava ternuras mil.

este poema, escrevi-o de memória, sem tal perceber.
estranhei, confesso, a mistura de mar salgado e lágrima,
escondida por entre a gola levantada e o anoitecer,
mistura improvável, agridoce, imparável - próxima -,

metáfora de tudo o que quero dizer e aqui se intromete
(esse sentimento intenso que nos rouba tino e razão),
esqueçam a figura de estilo que a este verso precede
- há milhentas por aí, sempre à nossa infeliz disposição.

o que interessa reter é todo um verbo: "sussurrar agosto",
três substantivos: "um rapaz", "um papagaio" e "um barquinho",
(a sintaxe, a ortografia, a semântica ficam a vosso gosto)
e aquele meu coração agora insular.. a voar baixinho.


gi

10 setembro 2009

Deixa-me rir...



Conheci o Dr. John por intermédio do PO. Vi-o, pela primeira vez, sentado a um piano, no vídeo The Last Waltz, sobre os The Band, um grupo canadiano que ao fim de 16 anos de tocarem juntos, resolveram juntar todos os amigos/artistas que os tinham inspirado ao longo do tempo e fazer um mega concerto/celebração no Winterland Ballroom de São Francisco no dia 25 de Novembro de 1976 (gosto muito deste dia!). O vídeo, considerado pelo New York Times como o mais belo vídeo de rock jamais produzido, foi realizado por Martin Scorcese (que já tinha feito um sobre o Bob Dylan e que, entretanto, fez outro sobre os Rolling Stones, o fabuloso Shine a Light, que passou nos cinemas há cerca de um ano).

E foi amor à primeira vista. Dos muitos e famosíssimos artistas que acompanharam os The Band naquele memorável concerto (basta fazer um google para ter uma ideia da “dimensão” dos intervenientes), nenhum me encantou mais do que o Dr. John. A voz, o talento, a figura, a descontracção, o puro gozo de quem sabe que tem graça, que é bom no que faz e GOSTA do que faz, conquistaram-me por completo.

Nasceu Malcolm John Rebennack, Jr, em 1940. Guitarrista durante algum tempo, sobretudo pianista, compositor e cantor, tornou-se conhecido pela sua excentricidade e por um estilo de música que, ao longo dos anos, se foi repartindo pelos blues, boogie woogie e rock n’ roll (com algumas fusões destes estilos, também).

Gris-Gris, o seu primeiro album a solo de 1968, que misturava, com grande criatividade, ritmos e sons voodoo com música tradicional de New Orleans, foi extremamente bem recebido pela revista Rolling Stone, que o colocou numa posição de destaque num ranking dos 500 melhores álbuns de sempre.

Tornou-se um cantor e músico de culto, tendo tocado com Mick Jagger e Eric Clapton no álbum The Sun, Moon and Herbs. Este álbum fez a ponte para uma nova fase, mais ligada ao rhythm and blues e ao funk. E que veio dar origem ao álbum seguinte, Dr. John’s Gumbo (1972), um dos seus álbuns mais conhecidos. Mais uma vez, foi aclamado pela Rolling Stone, que o colocou entre os 500 maiores álbuns of all times.

Em 1973 produziu um novo álbum, desta vez dedicado ao funk de New Orleans, In the Right Place, álbum que o transformou numa espécie de embaixador do funk produzido na Louisiana. Such a Night, a música interpretada no concerto dos The Band, faz parte deste álbum.

Ao longo da sua carreira trabalhou com músicos como Sonny & Cher, Bob Dylan, Brian Wilson, The Band, Lou Reed, Eric Clapton, Mick Jagger, Carly Simon, Neil Young, James Taylor e Rickie Lee Jones, entre muitos outros.

Entre 1981 e 1983, gravou dois álbuns a solo, sobretudo com composições suas, em que demonstrou o enorme talento enquanto intérprete de boogie woogie. Seguem-se vários álbuns gravados em 1998 (Anutha Zone), 2000 (Duke Elegant), 2001 (Creole Moon), 2004 (N’awlinz: dis, dato r d’udde), 2005 (Sippiana Hericane – a seguir ao furacão Katrina que arrasou a cidade de New Orleans), 2006 (Mercenary) e 2008 (City that care forgot).

Não pertencendo ao mainstream da música, nunca tendo tido uma projecção a nível global como tantos outros com quem colaborou, há quem o considere injustamente underrated. Na minha opinião, porque fui eu que o escolhi, totalmente underrated! O domínio das teclas, o ritmo, a originalidade das misturas, o reconhecimento que lhe foi dado pela major Rolling Stone … não percebo. Mas isso sou eu …

Para quem quiser saber mais, tem uma autobiografia, publicada em 1994, intitulada Under a Hoodoo Moon.

pcp + po

08 setembro 2009

Pero Soares


Pero Soares. Peeeeeerooooo Sooooaaaareeeees. Dito devagarinho até parece um nome cómico.

Pero Soares não é bem no mundo, é um universo paralelo que Deus criou para fazer os vinte habitantes da sua terra felizes.

Estes vinte habitantes, divididos entre meia dúzia de casinhas vivem bem, independentemente da história pessoal de cada um. Não inteiramente cientes do seu isolamento do mundo, os moradores contentam-se com o que para um metropolitano pareceria ridículo.

Vi sorrisos genuínos com o cheiro fresco dos coentros plantados no jardim. Vi felicidade imensa em comer figos tirados das árvores no momento e, até, numa rapariguinha que tinha como melhor amiga uma cabra que lá passava todos os dias.

Neste mundo maravilhoso os relógios não marcam horas, o dinheiro não tem importância nem valor e as conversas não têm fim.


Em Pero Soares não é preciso haver ruas, também não há conhecidos. São todos família e têm o exterior das casas como um jardim onde se juntam. Pode ser para trocar plantações individuais, para cochichar sobre o tempo, a roupa da vizinha ou o namorico do sobrinho. Também pode ser só para fechar os olhos e perceber o verdadeiro sentido do silêncio.

Não precisam de nada de extraordinário para serem felizes. Uma melancia até serve perfeitamente como bola de futebol e os portões da igreja como baliza. Desrespeitoso? De todo! Percebi que cinquenta por cento das maldades só são conhecidas e praticadas em grandes aglomerados.

Entre os vinte habitantes existe um mudo. Um dia, olhou para mim com os seus olhos muito grandes e expressivos e, se pudesse falar, tenho a certeza que me diria: “Aqui Eu Sou Feliz..!!”

Pero Soares, Agosto 2009.

TdB

07 setembro 2009

A menina dos Correios

São as meninas dos Correios, como numa dada altura eram as meninas dos Telefones. Sei do que falo, porque me dirijo amiúde ao posto mais próximo que tem um quadro de pessoal exclusivamente feminino. Compro selos, peço estampilhas de correio azul, levanto cartas registadas, atento nas últimas publicações. A menina lá está, fardada, com uns óculos tristes, um cabelo aloirado e desinteressante, um olhar irrequieto e envergonhado. Recebe simpatias com uma cara que ruboresce, enfrenta uma observação com desculpas que tendem para infinito.

Esta menina dos Correios é uma rapariga nova, pintada de forma displicente, que poderia usar um letreiro em forma de súplica: não olhem para mim, finjam que eu não existo. Chama-se Clotilde e é filha de uma professora primária e viúva precoce de um motorista da Câmara Municipal. Convicta da irreversibilidade do estado civil, a senhora devotou-se por inteiro aos meninos, a quem transmitiu valores que formam as mentes e salvam as almas. Clotilde cresceu entre um aviso de recepção e um luto permanente, com uma Mãe que assumiu um pensamento constante: para onde caminhas tu, com esse feitio tímido e invisível?

Um destes dias levaram-me a um recinto no lado oriental da cidade, recuperado para uma malta mais alternativa, desta que não se revê em lado nenhum da noite – ou que quer tudo em simultâneo. Celebrava-se o dia de África, pelo que o estabelecimento era o continente negro copiado e colado na União Europeia.

Numa das salas dançava-se o kizomba: pernas que cruzam, ancas que roçam lateralmente para depois encaixarem de frente; a sensualidade, os cheiros, o ambiente, os sotaques, as saudades das noites africanas, do pôr-do-sol e do espaço sem fim. À minha frente, uma mancha negra movimentava-se ao som de uma toada ritmada e lasciva. No meio da pista, com um menear irrepreensível do corpo, uns cabelos loiros a revelarem cuidado, e uma saia curta que mal tapava umas pernas esguias, vi a Clotilde, esquecida dos carimbos e das encomendas, da franquia e do registo, a descobrir uma África que só conhece da TV Cabo. Com ela, um jovem negro com mais de 1,90 que lhe percorre o corpo como um alfaiate afaga uma peça de caxemira: com um vagar sensorial, de mão aberta e a toda a extensão do pano.

Quando saí, ainda a vi beijando o Valter, empregado de uma oficina na margem sul - um beijo longo, húmido, carregado de desejo e erotismo, de fluidos trocados e cor de pele contrastante. O rapaz sente no corpo da Clotilde a geografia africana e mata as saudades com o tacto, porque a lonjura é uma cegueira, e mão que não toca é alma que não sente. Para ela, que tem o horizonte visual de um balcão ao nível dos olhos, o mecânico é um canal de viagens com interacção erótica.

No dia seguinte a jovem voltará a ser a mesma menina do Correio, tímida, envergonhada, com uma farda estilizada e um cabelo démodé. Almoçará jardineira de vitela com uma Mãe que fala de Deus às crianças – sendo que a inversa também é verdadeira. Engolirá, nostálgica, um pedaço de carne, porque é, também, de nostalgia que se faz a pergunta guardada num coração dividido: sabes fazer moamba, mamã?

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado no sábado no Porta do Vento

06 setembro 2009

Surdos e mudos

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Realço, no Evangelho de hoje, aquilo que a minha sensibilidade entende ser o mais importante. Para mim, é claro, porque para ensinar aos outros pouco tenho que me qualifique.
Todos nós somos, seguramente - ainda que cada um à sua maneira - um pouco surdos-mudos. Porque somos "surdos" aos outros, àquilo que acreditamos ser a voz da Verdade, à nossa consciência, ao que dentro de nós apela ao serviço ao próximo, ao esforço, à dedicação, à vida plena. Também porque nos calamos na denúncia da injustiça, nos inibimos ao confronto, porque ser convicto, ter princípios e lutar por eles requer um desafio que não queremos combater. Entre o que é justo e a paz preferimos, tantas vezes, esta última.
Jesus ergueu os olhos ao Céu antes de proferir a palavra "mágica". Tal como Ele, também é no Céu que temos de por os olhos, porque é nesse "destino" que encontramos a felicidade suprema. Não aqui, nos nossos contentamentos comezinhos, no cumprimento de obrigações estéreis, numa caminhada sem sentido.
Aos surdos-mudos de alma e de coração resta um desafio: abre-te.


EVANGELHO – Mc 7,31-37
Naquele tempo,
Jesus deixou de novo a região de Tiro
e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia,
atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar
e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, afastando-Se com ele da multidão,
meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu,
suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,
soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar correctamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava,
tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam:
«Tudo o que faz é admirável:
faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

05 setembro 2009

Eixo Norte-Sul

Duas guitarras, duas pranchas, três chapéus de palha e um do rato Mickey, um fogão avariado, uma bilha de gás, quatro sacos cama e dois colchões, duas tendas, uma frigideira e uma panela, um tupperware de temperos, quatro malas para quatro pessoas, um carro e um destino. Em direcção a Sul, encostados ao mar.

Foi nestes termos que se iniciou uma viagem que sempre se caracterizou pela ausência de mapa. De frente para o mar, seguíamos para a esquerda.

Foi uma mão cheia e mais dois dedos da outra de dias cheios de sol e sal. Dias que se perdiam nos acordes da guitarra e noites que se derretiam com as pedras de gelo.

Durante esta semana, a janela do quarto abraçava a costa inteira, e o mar fazia de cabeceira quando fechava os olhos. Não precisei de encostar um búzio aos ouvidos para ouvir as ondas rebentar. Bastou-me ouvi-las ali ao lado. Levei o sal comigo para todo o lado. Aquele que fica quando saímos da praia, a fazer comichão nas costas e a puxar os cabelos para cima.

Descobri nestes dias que o fim de tarde tem mais cores do que aquelas a que estava habituado. E não falo aqui de cores como metáfora para certos e determinados estados de espírito que nos fazem olhar para o pôr-do-sol com os olhos cheios de melancolia e saudade. Digo cores no sentido literal da palavra. Entre o fio do horizonte e o último resto de sol cabem todas aquelas a que alguém um dia deu nome, e muitas outras que nunca ninguém se importou de catalogar. Gostava de as ter trazido no bolso, ao lado das chaves e das moedas, para num desses dias em que os olhos se enchem de melancolia e saudade as poder atirar novamente lá para o fundo.

Tal como gostava de ter trazido o prateado baço da lua cheia que banhava as escarpas que encimavam a praia, ou as estrelas e outros pontos brilhantes que são primos das estrelas, para depois poder copiar para um caderno preto todas as formas que estas faziam, com a inocência das crianças que se desenham maiores que as casas.

Trouxe, no entanto, os sons e os silêncios que encheram esses dias. E deixei, para quando lá voltar, uma cadeira à beira-mar.



Muna

04 setembro 2009

robert bresson

o meu nome é robert bresson, dizem-me aqui,
como se nesta nomeação fugissem eles mesmos
do risco possível de serem este eu que eu sou.

o meu nome é robert bresson e ninguém nunca
filmou ou filmará como eu filmei, há poucos anos,
nessa escala inclemente que é a da eternidade.

o meu nome é robert bresson e nos bosques de bolonha,
nas mãos dos carteiristas de rua, no recorte aguçado de uma nota,
no olhar petrificado da gente comum que elegi em vida,
pulsa, nem mais nem menos, do que um trevo da sorte,
desenhado a película granitada nos rostos pálidos
e orgulhosos que, uma e outra vez e para sempre,
zombam de ti e assim, fixos e petrificados, zombam afinal

dessa coisa viscosa e infilmável que é a morte.

gi

03 setembro 2009

Deixa-me rir...

Inicia-se hoje neste espaço, por grande amabilidade do dono deste estabelecimento, uma nova rubrica intitulada “Deixa-me rir …”. E como de uma rubrica musical se trata, nada melhor do que lhe dar um nome inspirado numa line de uma música de um cantor de que gosto muito – Jorge Palma -, que já tive a oportunidade de ver ao vivo num memorável, e afortunadamente interminável, concerto no Coliseu do meu querido Porto. Esta rubrica será produzida a meias em português (pcp) e inglês (po), pelo que se espera que a informação proveniente directamente de Londres, pela “mão” do po, grande amigo meu e imenso conhecedor (ainda que amador) de música anglo-saxónica, seja compreendida por todos os bloguistas.

Vamos então celebrar a Música, na sua forma menos erudita e clássica, ainda que esta definição tenha muito que se lhe diga, e começar com música do nosso Portugal. Concretamente com um famoso artista do meu (mais uma vez) querido Porto, o chamado “pai do rock português”. Não o dito cujo “Chico Fininho”, essa música cheia de ritmo e algo revolucionária à época, mas uma música cheia de soul e sentimento (como quase todas as músicas dele são, ou eram, aliás). A escolha foi difícil (podiam ter sido outras 10!), mas esta foi a contemplada. Espero que gostem. Até breve.

pcp + po


01 setembro 2009

Poemas dos dias que correm

Foi um Momento

Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não ?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa

Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
‘Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

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