21 agosto 2008

Há horas felizes


Hoje de manhã recebi várias mensagens electrónicas. Algumas fazem parte das rotinas matinais, outras são informativas, outras ainda de trabalho. Recebi duas particularmente relevantes: uma mostrava uma perspectiva diferente sobre coisas que me são importantes; a outra, da JTR, dizia-me coisas que me enterneceram profundamente.

O meu coração já as sentia, mas ouvi-las de viva voz tem um sabor diferente, um impacto diferente. São palavras que nos alegram o futuro, que nos fazem olhar para a frente com a certeza de que há luzes que nunca se apagam, braços que nunca se retraem, corações que nunca se fecham. São, no fundo, faróis que iluminam o mar tormentoso, mostrando que há um caminho de regresso.

Sei que a mensagem é críptica, que só algumas pessoas perceberão o que estou a dizer. Mas, e desculpem-me a genica proprietária de que me revisto neste momento, o blogue é meu, e este post tinha de ser dirigido à JTR, por aquilo que sentimos um pelo outro. Entre mim e ela há algo de especial, como há pelo RAV, sobre quem escrevi recentemente.

Desenganem-se os que pretendem ver romances escondidos, amizades misteriosas, contactos clandestinos. Há muito, mas muito mais do que isso.

Para a JTR vai um abraço especial, cheio de um carinho infinito.

Nota: o desenho, chinês, tem um significado: dupla felicidade

Queimadas


Por Harare inteiro, sobretudo nos subúrbios, onde há vegetação, se sente o cheiro da terra queimada. Adormeço, muitas vezes com esse odor que me entra suavemente pelo quarto adentro. Traz-me à memória vaga o encanto de uma lareira, onde as chamas são sempre diferentes, onde os nossos olhos se perdem horas infindas enquanto a mente devaneia por outros lugares. É um cheiro que não me cansa, não me sufoca, se entranha mansamente nas minhas rotinas diárias.

Um dia, movido pela curiosidade que sempre entusiasma alguns ignorantes, perguntei a uma rapariga de cá o verdadeiro motivo das queimadas. Respondeu-me mencionando a renovação da terra, a necessidade de a tornar mais fértil, o carácter purificador e regenerador do fogo. No fundo, disse-me, to make a new green grass grow.

Há uma ou duas semanas troquei mensagens assertivas com pessoas de quem me sinto muito amigo. Algumas palavras tiveram contornos de dureza – não aquela que se serve de objectos de arremesso, mas a que nos faz olhar o outro nos olhos e verbalizar a franqueza, a diferença, o desacordo, a vontade de reparação, a certeza do seguir viagem. No fundo, fizemos uma queimada, porque a terra se regenerou, esfumando-se os vestígios do desalinhamento de pensamentos na cinza que a brisa levou. Cresceu uma nova green grass na maneira como nos relacionamos.

Lembrei-me então de uma toada lindíssima, chamada Whispering Grass, interpretada pela voz não menos bonita da Sandy Denny. Não consegui pôr aqui o videoclip, mas deixo o endereço, para quem quiser confiar no meu gosto e discernimento.

Why do you whisper, green grass
Why tell the trees what ain't so?
Whispering grass
The trees don't have to know
Why tell them all your secrets
Who kissed there long ago?
Whispering grass
The trees don't need to know

Não vi o filme (Orgulho e Preconceito, parece-me) que fornece as imagens à música, não conheço os actores. Gostei da sequência de cenas – olhares que se cruzam, que se perdem, mãos que se entrelaçam e se afastam, encontros e desencontros de duas pessoas entre varandas, salões, danças inacabadas, beijos interrompidos. O verdadeiro encanto das coisas está na possibilidade que nos oferece de uma visão muito única, muito nossa. E eu gostei de ver, naqueles pouco mais de quatro minutos, tantas coisas que dizem respeito à vida.

20 agosto 2008

Jogo Olímpicos - a visão de uma colectividade


Os Jogos Olímpicos de Pequim estão na sua recta final. Para a delegação portuguesa, com algumas honrosas excepções, não há euforia na Portela, vislumbra-se já a curva da estrada. Estou certo de que comungaremos todos do mesmo sentimento: desilusão. Não faremos com certeza o V da vitória, mas, se o despudor nos impelir a isso, haja uma alma caridosa que pendure as medalhas alcançadas nos dedos espetados. Sobra um dedo? Mas que maçada…

Não me parece que a culpa seja dos atletas, da falta de profissionalismo, da fatalidade das provas matinais para quem gosta do quente da cama, da penúria indigente em que nos encontramos, da falta de resistência à tensão competitiva. Há um problema de base que faz ruir a visão da bandeira hasteada, a audição do hino nacional expurgado do carácter marcial e transformado numa sinfonia pastoral. O problema está na escolha das modalidades nas quais teremos representantes. Estou certo disso, e a certeza instala-se em mim com uma convicção que pode ser incomodativa.

O País não está preparado para me ouvir (não levo a mal a impreparação) mas eu faria as coisas Jogo Olímpico a Jogo Olímpico. Eu explico: as modalidades medalhadas em Pequim ganhariam o estatuto de representação em Londres. As outras seriam riscadas ferozmente do Plano Desportivo Nacional.

(Neste momento apostamos no triatlo feminino, o que se me afigura económico).

Era imperioso que duas outras modalidades tivessem o total empenho do Governo, dos Clubes, das Autarquias – afinal, os grandes responsáveis pelo nosso desaire desportivo. Quais seriam? O bilhar e o ping pong, que os intelectuais do desporto chamam ténis de mesa. Porquê estes? Porque são os verdadeiramente praticados nas colectividades, ramo da economia onde somos fortíssimos. Há por esse país fora – na sua pluralidade geográfica, incluindo os arquipélagos – um manancial de talentos que investe horas no taco ou na raqueta, procurando o melhor efeito para esmagar o oponente. É gente que não carece de grandes patrocínios ou subsídios, que entrega a camisa à Pátria em troca de uma fanta laranja ou de uma imperial bem tirada.

Damo-nos mal com o estatuto de alta competição, embora o chapéu que alguns atletas usaram no desfile de abertura não ajude à moral. Criamos uma exagerada expectativa que, como se sabe, é a mãe da desilusão. Há almoços com o presidente da república, programas nos canais generalistas, conversas com a população local. Os atletas nacionais afadigam-se num corropio entusiasmante de entrevistas, fotografias, conversas informais, dissecação das biografias, informação sobre os gostos pessoais. Enquanto isto, os outros treinam - só assim se compreende que a poderosa Mongólia, o competitivo Uzbequistão e os entusiasmantes Camarões estejam à nossa frente no ranking. A nossa liga é a dos últimos, mas sabemos que há atletas lusos que elegem o passeio e o convívio com os amigos como actividades lúdicas importantes.

Não me alongo, que tenho ali uma juventude à minha espera para um torneio solidário de bilhar. É malta local que já vislumbra o Big Ben daqui por quatro anos – assim haja vontade política de mudança. Alertam-me para algo importante: estamos habituados à simplicidade deste jogo, pelo que as três tabelas só são obrigatórias para o último ponto. Tudo o resto é singelo – bola na bola na bola com opção facultativa de tabela .

A música de Verão de 2012 será A Portuguesa. Duvidam?

19 agosto 2008


Lady, por Richard Katanda

(estátua feita em Opal, Springstone, Serpentine ou outras pedras que me são desconhecidas)

Notas dispersas e recados


O Pedro Castelo Branco, rapaz de vinte e poucos anos, filho de amigos e primos, juntou-se a quatro amigos e deambulam pela Índia. Visitou-me ontem, via Adeus, até ao meu regresso, para me cumprimentar simpaticamente e para me dar novas do seu blogue, onde reflecte as impressões de viagem. Para quem queira saber como se passeiam, na jóia da coroa britânica, cinco matulões cheios de força e com o apetite que é próprio da idade e dos genes de cada um, visitem-nos em No país de Gandhi. Não se arrependerão, porque entre a inveja da jornada e o nojo de algumas descrições fica sempre uma gargalhada.

Num registo diferente (passe o cliché da expressão), três amigas rumaram aos Açores, no gozo legítimo de dias retemperadores que as prepararão para o sufoco da rentrée. Têm a idade que têm, uso do mesmo raciocínio para lhes descrever o apetite, mas são detentoras de uma sabedoria diferente, fruto de quem já tem muitos anos a virar frangos. Vale a pena visitá-las no Porta do Vento, onde a mestria literária da Ana V. e a beleza das fotografias nos faz olhar para alguns destinos continentais tão eleitos com uma sensação de náusea frustrante e de erro de opção.

Aos que me visitam e me deixam um ou outro comentário ao qual eu não respondo, agradeço sensibilizado. A ausência de resposta não deve ser entendida como desinteresse ou falta de simpatia. Nem sempre tenho disponibilidade tecnológica, porque a rede é lenta e a energia eléctrica escasseia . O gerador, como já referi anteriormente, precisa de descanso. Aos Anónimos, Ritz on the Rocks, Ana V., Rocha e tantos outros que me escrevem sem que leiam resposta, o meu bem haja (expressão que me parece particularmente feliz).

Última nota travestida de lugar comum. Sei de um amigo que está na Índia - por onde anda, o que come, o que visita, o que sente. Sei de amigas que estão nos Açores: as descrições são diferentes, mas o relato do seu dia-a-dia é-nos disponibilizado por igual. Falo com os meus filhos por Skype, poderia usar semelhante processo para Nova Deli, o Pico, ou mesmo Tumbuctu se as tropelias da falta de rede não inquinassem a facilidade. Mesmo assim, estamos em tempo real com o mundo que nos rodeia. Como saudosista que sou em inúmeros aspectos, sinto a falta da carta manuscrita, que fica para a posteridade com hipótese de análise grafológica. Mas esta panóplia de comunicações que está ao nosso alcance, dá muito jeito. Uma palma para a Internet!

17 agosto 2008

Harare - divagações com vista sobre a cidade



Lembramo-nos da disposição com que entrámos nas cidades que conhecemos? Ir a Paris por alturas de Maio com o divórcio unilateral marcado para o início de Junho? Aterrar no Rio de Janeiro com uma conjuntivite que nos obriga a um semi-olhar? Ter uma semana inteira em Istambul e não poder adquirir nenhum bem local? Chegar a Veneza de avião e saber, à partida da Portela, que o grande canal está fechado para desintoxicação? Ganhar uma semana de férias em Benidorm - em simultâneo com as viagens de fim de curso - acompanhados da mulher da nossa vida e no momento da nossa vida? Um fim de semana em Badajoz, por alturas de Agosto, depois de nos ter sido anunciada a promoção aguardada desde o final dos anos 90? Tudo isto é uma caricatura, obviamente, mas adequa-se ao meu raciocínio: como olharíamos para estas e outras cidades afectados por um estado de espírito tão marcante? Estou certo que o belo e o horror se esbateriam, amortecidos, ambos, por um ânimo interior tão diverso mas tão forte.
Estou em Harare há 15 dias. A minha primeira impressão, como partilhei com os meus leitores, foi negativa. Globalmente feia, suja, com um ou outro pormenor bonito. A minha cabeça está formatada, seguramente, para a visão de uma cidade ocidental. O contraste não me foi favorável, confesso. E talvez tenha olhado para a capital do Zimbabué com os mesmos olhos que se admiraram com Berlim, Nova Iorque, Sevilha, o Cairo mesmo.
À medida que vou conhecendo ou reconhecendo os pormenores desta cidade vou-lhe vislumbrando sinais de algum encanto. As ruas largas e arborizadas, um renque bonito de jacarandás que florirão um dia,
Flor do jacarandá
Cai, leve no passeio
Céu d´outro mar sonhado
Chão de anilado estio
uma fiada de palmeiras que decora uma via, alguns edifícios relativamente modernos e interessantes, um pormenor de um hotel do início de século rodeado por uma parte urbana substancialmente mais limpa, um permanente bulício tão diferente daquele a que estou acostumado.
Num raciocínio um pouco simplista - e sem querer comparar o que quer que seja - imaginem que Harare é do tamanho de Lisboa, que o seu centro tem a dimensão da baixa pombalina e o resto (o que aqui se chamam os subúrbios) é completado por um restelo. É assim que vejo esta cidade.
Se conseguir retirar dos meus olhos o trompe l'oeil que me faz ver o ocidente a toda a hora e momento, os motivos de graça vão-se revelando. É imperioso, no entanto, fazer a agulha arquitectónica mental. Não existe a dimensão cultural da velha Europa, o modernismo tecnológico norte-americano, o exotismo do Oriente, a envolvente natural brasileira. Harare é uma cidade africana - tipicamente africana - e é com essa evidência que os nossos sentidos têm de percorrer a cidade. Se assim não for, talvez só lhe vejamos sujidade, decadência, as estradas largas que ligam as redondezas ao centro uma triste imagem de tráfego confuso.
Harare não é uma cidade francamente bonita. Mas é uma cidade que merece um segundo olhar.

Tengenenge



Fomos ontem a Tengenenge, uma cooperativa com mais de 200 escultores locais que produzem o que de melhor se faz na arte shona. O local situa-se entre Mvurwi e Guruve, a cerca de 150km a norte de Harare, em plena Mashonaland. A 200km, zambianos, zimbabueanos e moçambicanos estão à distância de um aperto de mão, estando todos em casa.
O caminho até lá faz-se por uma estrada secundária (portuguesmente falando) em relativo mau estado e com algum trânsito de carros ligeiros (as tais carrinhas de caixa aberta cheias de gente local), camionetas de passageiros (que seriam já obsoletas quando os aliados pisaram as praias da Normandia) e um ou outro pesado de mercadorias.
No espaço de 50 a 60km passámos por quatro ou cinco operações stop, algumas tão rudimentares que as barreiras na estrada eram compostas por bidões amolgados com um pau atravessante. Numa prova de província, seria mais um obstáculo numa barrage de cavaleiros amadores. Considerando que íamos em carro de matrícula diplomática nunca nos incomodaram, e apenas uma vez pediram os documentos.
Ao longo da estrada, dezenas, se não centenas de pessoas, apinham-se num pedido de boleia, numa venda de meias dúzias de laranja, de duas ou três couves, algumas delas carregados com malas, sacos, como se partissem de férias para uma estância de eleição. Não sei quanto tempo ali permanecerão, mas admito que possam ficar horas infindas. Talvez regressem ao ponto desmoralizador de partida, para uma nova tentativa no dia seguinte. Ou no seguinte…
A vegetação que nos acompanhou nesta centena e meia de quilómetros é variada. Capim alto à beira da estrada, árvores verdes e altas (ao longe pinheiros ou ciprestes), zonas com um cultivo ordenado e limpo, alguns pomares de laranjeiras, montanhas na linha do horizonte, mas, sobretudo, terra a perder de vista. Quem conhece África não precisa da minha descrição para saber do que falo. Quem não conhece, não será com a pobreza das minhas palavras que lá irá. Se me perguntarem o que me impressionou mais na geografia direi sem sombra de dúvida:
O espaço e a cor
O espaço e a cor
O espaço e a cor
Repito três vezes, porque não me canso de o afirmar - nem me canso de o lembrar.
A orientação por mapa é difícil, nalguns pontos quase impossível. Vale-nos a amabilidade da gente local, sempre disponível para fornecer uma indicação. Não há sinais na estrada, roubados, muitas vezes, para fazer uma fogueira ou aproveitar a chapa metálica.
Chegar a Tengenenge é chegar, talvez, a um misto de cidade fantasma (depreendi, pelas palavras, do “guia” que seríamos as segundas visitas este mês) e cemitério de esculturas. De facto, ao longo de 2 hectares, talvez, de terreno, existem centenas de estatuetas de todos os tamanhos e feitios, esculpidas, maioritariamente, em springstone (ainda não consegui descobrir o que é).
Comprei uma escultura que representa uma mulher zimbabueana, com cerca de 40cm de altura. Negociei o preço: em dólares americanos custar-me-ia 60; quando perguntei o preço em dólares do Zimbabwe, o sistema cambial é tão frenético e incompreensível, que a peça de arte me custou o equivalente a 30, cerca de 22€. Um dos mais afamados escultores do género, chamado Dominic Benhura, vende peças de arte deste género, nos mercados europeus, por 50 vezes mais.
Talvez tenha sido a minha primeira incursão à África profunda, tão pouco recordado do trajecto que fiz entre Pretória, na África do Sul, e Sun City, no então Bophutatswana.
Considerando todas as diferenças no tempo, no clima, na civilização, no povo, na geografia, percebo bem o fascínio e o desaire de quem começou um livro revelando: I had a farm in Africa...
Adeus, até ao meu regresso

16 agosto 2008

Vi o "Adeus, até ao meu regresso" no meu computador!!!


Imaginem que adquirem um cocker spaniel, lhe põem o nome de B---- e se afeiçoam ao animal, tratando-o como um primo próximo que foi reencontrado na selva amazónica. Há um desajuste nos astros, um desalinhamento astronómico da vossa vida, e têm de entregar o bicho a uma família de apoio. Arranca-se-vos um braço, despedaça-se a vossa alma, revolvem-se as entranhas de cada um. Passados algumas horas, dias, meses, lustros, tudo se recompõe e o canito volta para casa. O regresso do filho pródigo seria uma história dura comparada com a vossa alegria.
Pois foi assim que eu me senti quando, no espaço de duas semanas, abandonei o meu blogue a um computador de suporte e o revi ontem, no começo de uma tarde semi-tapada pelas nuvens.
Tudo se deve à minha necessidade obsessiva, à disponibilidade permanente da Manuela Chaby, ao olhar informaticamente arguto de uma sua sobrinha, que mirou com um ar - se não íntimo, pelo menos conhecedor - para os hardwares e softwares disponíveis e, por fim, à mestria de um cavalheiro munido de uma chave de fendas (confesso que o terror se apoderou de mim), de um hub, de um cabo e de uma dose de simpatia e profissionalismo. O meu B----, perdão, o meu blogue, estava de volta a casa. Mate-se o vitelo mais gordo, pois viveu-se uma espécie de Deus cria, o Homem sonha, a obra nasce em versão zimababueana.
Tenho, finalmente, internet no meu computador, embora servida por uma banda cuja largura já nem se encontra num loja de retrós da província profunda. Mas tenho acesso ao mail, ao blogue, ao Google (que saudades, senhores). Experimentarei o Skype amanhã e o MSN é já a seguir.
Sou um homem com uma conectividade conseguida. Ontem, confesso, foi um dia de fortes emoções: um corte de cabelo com actividade paralela, o regresso ao MacBook do meu bloguinhas. Tinha de partilhar convosco.

Estou convicto que todos temos, dentro de nós, uma luta permanente entre a alegria e a tristeza, o riso e a lágrima, a euforia e a depressão. Sentimo-nos, por vezes, com o estado de espírito do peru quando começa o Advento; noutras alturas, somos uma ave canora engaiolada - destas que só subsiste em cativeiro. As mulheres preferem o sentido de humor, garante-me pessoa fidedigna. Eu faço o meu melhor - sempre pelos motivos mais nobres.

Trivialidades do dia-a-dia


Um embaixador, acima de muitos outros misteres que não carecem de uma imagem impecável, tem de tratar de minudências capilares. Não me refiro à lavagem, embora esta seja de importância igual. O que me traz hoje ao blogue é a crónica de um corte de cabelo. Faço-o, e descanso os meus potenciais leitores sobre este assunto, de acordo com o visado na historiazinha, que lerá o texto antes da sua publicação.
Eram 11.45h de ontem, quinze minutos depois da hora que o JdC tinha registado na sua agenda, quando entrámos ambos numa vivenda dos subúrbios de Harare. No que seria o hall de entrada de uma habitação normal, existia uma ou duas cadeiras frente a um espelho corrido. Numa delas sentava-se pessoa dos meus conhecimentos, que retocava a cor do cabelo numa elegância de elogiar. Nada disto seria surpreendente - vamos esquecer, para já, o pormenor do salão funcionar paredes meias com uma habitação - se a pessoa em questão não puxasse de um cigarro e o fumasse alegremente, entre escovas, pentes, e secadores que lhe alindavam o cabelo.
Perguntámos se nos era permitido repousar o corpo cinquentão na varanda. Felizmente, a única funcionária presente não acedeu, porque a cadeira existente, tristemente só numa viuvez de mobiliário, não tinha fundo onde pudéssemos assentar as nobres nádegas. Sugeriu-nos que entrássemos para a sala, onde nos esperavam três sofás confortáveis em napa negra e um plasma a encimar uma lareira, dentro da qual se colocara um cesto com ovos de avestruz, vigiados por uma fotografia da proprietária do salão, colocada esteticamente a três quartos.
45 minutos depois da hora marcada - e perante o nervoso já anunciado da coiffeuse de serviço - o senhor embaixador prestava-se a um corte de cabelo que o prepararia (ainda mais, se possível) para qualquer representação ao nível máximo. A operação - tensa e vagarosa da jovem - demoraria uma hora! Muito cabelo?, perguntarão alguns; exigências estéticas?, aludirão outros. Nada disso. Eu explico:
De dois em dois minutos tocava o telemóvel (seriam vários?), o telefone fixo, ambos numa sanfona desarmoniosa com a música ambiente tipo Shakira com uma overdose de excitantes. A menina atendia, eventualmente. A meio do telefonema, ou do aparar de um madeixa diplomática, chegava uma cliente, e ambas recolhiam aos fundos, para uma conversa mais privada; o telefone voltava a tocar, entrava mais uma cliente e lá iam para as traseiras da vivenda ajustar uma qualquer outra conversação. Às tantas - não me pareceu bem, num representante de um país milenar - o JdC aparecia, de cabelo molhado e desgrenhado, envergando um bibe em nylon verde-alface para dar um dedo de conversa, espreitando, com curiosidade tristonha, o desaire olímpico nacional.
Na televisão plasmada, o fenómeno Phelps ganhava mais uma medalha; o stars and stripes nao se ouvia, vencido pelo som da cançonetista que gritava num frenesim ritmado; as clientes entravam e saíam, faziam-me perguntas às quais não sabia responder e seguiam o seu caminho, para mais uma conversa nos quartos resguardados. O suave e cuidado cabelo do embaixador de Portugal em Harare caía em pequenos flocos intervalados, ao longo de uma hora. Dentro da lareira, onde na época fria os clientes em lista de espera se aqueceriam junto a um lume crepitante, repousava agora o cesto de ovos, vigiado, a três quartos (o pormenor não é dispiciendo), pelo retrato singelo mas tocante da dona ausente do estabelecimento.
Duas perguntas se impõem, para encerrar a croniqueta:
1) o que eram as conversações nas assoalhadas resguardadas?
2) que tal ficou a cabeleira diplomática do nosso JdC?
À primeira não posso responder. À segunda não sei.
PS: mais semana menos semana toca-me saga do corte de cabelo. Dada a minha farta e forte gaforina, estou a pensar em cativar o salão entre as 9 e as 5 - talvez a menina tenha, ainda, de fazer horas extraordinárias, assumindo que nesse dia o vai-vem de clientes para os quartos dos fundos seja reduzido.

15 agosto 2008

Para a Parede 7

Que me perdoem os que me lêem e são ateus, agnósticos, budistas, hindús, muçulmanos ou outras confissões religiosas que não as cristãs, mas, sobretudo, as marianas. O dia de hoje está voltado para o beatério (e quem me conhece sabe o significado desta palavra).
Durante alguns anos tive o gosto de pertencer a um movimento católico mundial, chamado Equipas de Nossa Senhora. Não faz sentido explicar, aqui neste blogue, em que consiste este movimento. Mas faz sentido dizer, com uma enorme satisfação (pouco altruísta, diga-se...), que recebi muito mais do que dei. Fui militante numa dada altura mais complicada da minha vida e, não só as rotinas próprias da Equipa, como também, e sobretudo, as amizades que criei e / ou desenvolvi, foram garante de uma certa estabilidade no domínio da Fé.
A Parede 7 (assim se chamava a equipa) era e é um grupo extraordinário, composto por gente com vidas mais fáceis ou mais difíceis, mas com uma disponibilidade por igual. Fazem parte daqueles meus amigos que estão sempre presentes, nunca disfarçam um olhar, abrem um sorriso quando é necessário, mesmo que o seu dia-a-dia seja sofrido, custoso, ou mesmo ingrato. Acabei por sair devido a circunstâncias próprias da minha vida, mas guardo na memória todos os momentos.
Este meu post de hoje é-lhes dedicado por inteiro. Sei que alguns estarão a banhos, outros gozarão o feriado. Haja uma alma caridosa que os informe desta minha romagem de saudade.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.
Porque pôs os olhos na humildade da sua serva,
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações.
O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.
(Magnificat, do Evangelho de hoje)

Dia da Assunção de Nossa Senhora



Hoje é 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, e eu não esqueço a minha condição de católico e mariano.
Neste mesmo dia, mas há 14 anos, baptizava-se no Estoril uma criança aparentemente igual a tantas outras. Há evidências fotográficas de ter rido 24 horas depois de ter nascido, talvez por ter ouvido o princípio de uns versos que lhe foram dedicados:

Na Sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu

Esteve pouco tempo connosco, vítima das leis de um mundo nem sempre perfeito. Mas quem de nós não acredita que há vidas cujo tamanho e impacto nos outros se queda para lá da finitude das horas, minutos, instantes, existências que se não reduzem a cronologias humanas?
Àqueles que a viram nascer, dela se afeiçoaram e a lembram com saudade resta a dimensão da memória e o desafio de viver o melhor possível.

E aos outros, aos que contribuem estatísticamente para o crescimento da esperança de vida, o que os move nesta caminhada terrena, quais são os seus objectivos maiores?
Alguns, filhos de uma educação e de uma época, entenderão que é o cumprimento dos seus deveres e obrigações. Outros, filhos de uma educação semelhante, mas de época diversa, acreditarão que é a busca da felicidade.
Os primeiros arriscar-se-ão, talvez, a viver uma vida árida e auto-desumanizante, assente numa tábua das leis onde se gravou uma infinitude de regras, todas elas começadas pela palavra não.
Os segundos (o que é isso de felicidade?) esquecerão, eventualmente, que a felicidade é um percurso, não é um destino, que o conceito tem uma dimensão abrangente, pois nunca se poderá ser feliz à custa de outrém.**
Aqueles que são crentes talvez possam adoptar uma meta simples - porém desafiadora: ganhar o céu. Ambicionar essa dimensão etérea engloba, no seu sentido mais nobre, o respeito pelas obrigações e a busca da felicidade. Consegui-lo é sentir o pleno nas mãos.
Fiz o mais fácil, que foi escolher o destino. Quanto ao caminho para lá chegar, nem eu sei para mim...

** Desenganem-se os que imaginam um raciocínio enviesado nesta frase. O conceito aplica-se a inúmeras situações: o que é egoísta e vive feliz nos seus hábitos exclusivos; o que é forreta e respira satisfação na sua poupança à custa dos outros; o patrão que é desumano e transborda conforto burguês com o seu ordenado.

14 agosto 2008

Harare



Tinham-me dito que era uma cidade tipicamente africana, com o que as cidades tipicamente africanas têm de feio. Deste continente onde me encontro conheci Pretória e Joanesburgo (em 1981, pleno apartheid, e tenho poucas recordações) , uma cidade pequena em Marrocos de cujo nome não me lembro, e o Cairo, onde estive há cerca de ano e meio. Mas, entre a capital do Egipto e a capital do Zimbabué existe um Sahara e isso, em termos de caracterização africana, fará toda a diferença.
Vamos por partes, como diria Jack, o estripador:
Beleza: Harare não é, definitivamente (pelo menos na minha opinião) uma cidade globalmente bonita. Tem, como qualquer localidade no mundo, pormenores bonitos - um edifício, umas árvores, um enquadramento. Mas, ao deambular ontem pelo centro, não vislumbrei nada de extraordinário. E vi muita sujidade.
Arruamentos: da chancelaria (os escritórios da embaixada portuguesa) até ao centro da cidade são cerca de 15 - 20 minutos a pé. Grande parte do caminho é feito por avenidas largas, com a parte dedicada aos carros estreita q.b. e de qualidade média. Os passeios são grandes, cheios de jacarandás, num estado não muito bom, sendo metade da largura do passeio em terra batida.
Transeuntes: andei cerca de hora e meia deambulando pelo centro da capital. Não encontrei um único branco (dizem-me ser normal, pois estes não vão ao centro da cidade). As ruas estão apinhadas de gente: encostados a esquinas, a andar de um lado para o outro, enchendo estabelecimentos tipo Kentucky Fried Chicken. A população não é, na generalidade bonita, embora tenha encontrado mulheres elegantes, de feições correctas e agradáveis. Há um pormenor curioso: os apertos de mão são moles (percebe-se à distância) e as pessoas prolongam o cumprimento agitando a mão uma na outra quase como se fossem namorados. É um hábito.
Segurança: comportei-me como um turista típico: mapa na mão, máquina fotográfica em punho, a parar aqui e ali para apanhar um ângulo, observar uma loja. Nem sempre me senti seguro, e, por vezes, para consultar a planta da cidade, encostei-me a uma parede, protegendo conscientemente (e se calhar ridiculamente) a rectaguarda. Mas nunca - digo mesmo nunca - me senti verdadeiramente ameaçado. Algumas pessoas olhavam para mim - o contraste era evidente - outras ignoravam-me completamente. Não me ofereceram dinheiro a câmbios milagrosos, não me pediram nada - com excepção de um miúdo que pedia esmola a torto e a direito.
Comércio: as lojas são, na generalidade, confrangedoras. Não têm preços, devido ao ritmo cambial frenético, têm poucos artigos. A evidência mais chocante foi uma sapataria, chamada World of Shoes, que tinha redes metálicas a proteger montras amplas completamente vazias. À porta, um empregado observava o movimento do quotidiano, queixando-se, seguramente, que o negócio está fraco. Vi lojas de ferragens de vitrines decoradas com meia dúzia de alicates ou martelos que, num estabelecimento de outro país mais rico, estariam a monte num caixote de madeira. As lojas de brinquedos evidenciam artigos para crianças que em Portugal se dariam aos pobres.
Parque automóvel: quem me conhece sabe que não sou muito de ligar a automóveis: tenho dificuldade em distinguir marcas, a menção a modelos (gente que se refere ao seu carro como sendo um 3.si, ou xktl turbo) recorda-me a engenharia espacial. Não serei por isso, o informador privilegiado desta vertente de Harare. Noutros pontos da cidade vêem-se alguns bons Mercedes que são viaturas diplomáticas ou de gente do partido. Há, aqui e ali, bons jeeps, uma profusão de veículos do tipo Toyota Carina (dá para perceber?) e, acima de tudo, carrinhas de caixa aberta, onde se acomoda, como sardinhas em lata, uma quantidade imensa de gente local. As fotografias que circulam na internet podem ter sido tiradas aqui.
Nota final: sou, estatisticamente, um viajante europeu - ou pelo menos ocidental. Estes dez dias em Harare abriram-me os olhos para uma realidade que eu sabia existir mas que não conhecia de perto. Vivo num mundo diferente, decididamente, daquele a que estou habituado. Não gostaria, de forma alguma, que as descrições que aqui faço - e continuarei a fazer no futuro - fossem lidas como uma manifestação de racismo ou desprezo pelo país. Apercebo-me da crise, da instabilidade, das características próprias de um país africano que tem da democracia, das leis do mercado, da cultura, uma visão diferente da nossa. Parece-me importante esta nota final, para poder ter a liberdade de escrever, sem sentir o melindre em quem me lê.

13 agosto 2008

Livros dos dias que correm

O regresso, de Bernhard Schlink

Da badana:
A viver com a mãe na Alemanha do pós-guerra, o pequeno Peter passa as férias de Verão em casa dos avós, na Suíça. Responsáveis pela edição de uma colecção de livros, os avós dão ao neto o papel usado nas provas, em cujo verso ele pode escrever mas cujas histórias está proibido de ler. Um dia, Peter desobedece e descobre o relato de um prisioneiro de guerra alemão que, após ter enfrentado inúmeros perigos para fugir aos seus captores e regressar a casa, descobre que, durante a sua ausência, a mulher constituíra uma nova família. Mas Peter já tinha usado as páginas finais para fazer os trabalhos de casa e fica sem saber como termina a aventura. Anos depois, já adulto, decide procurar as páginas desaparecidas; uma busca que se altera por completo quando descobre que o seu pai, um soldado alemão que ele sempre acreditou ter morrido na guerra, pode ainda estar vivo. Sob o encantamento da sua própria história de amor, e à medida que começa a deslindar o mistério do desaparecimento do pai, Peter vê-se obrigado a questionar a sua própria identidade e a enfrentar o facto de a realidade ser, por vezes, um reflexo das expectativas dos outros.

Do interior:
Não castigamos o assassino por este extinguir a vida de um ser humano sem o seu consentimento. Por que razão o faríamos? Castigamos a perfídia e a crueldade com a qual ele cometeu o crime, ou seja, a desilusão e a dor que ele infligiu à vítima antes de esta morrer. Então porque punimos o assassinato no seu estado mais puro? Não é por causa da vítima, mas por causa dos outros. Por causa da mulher que perdeu o marido, da criança que perdeu o pai, do amigo que perdeu o amigo. Por causa de todos os que confiavam na vítima e a perderam. Por causa da ordem do mundo, de que necessitamos e na qual confiamos; e esta implica que haja um tempo natural para viver e para morrer.

Os meus amigos

A televisão debita informação ininterrupta sobre os Jogos Olímpicos, com Portugal arredado, para já, das medalhas e de Pequim, vítima do fuso horário, de um vento aziago, do sorteio desfavorável, do nervosismo de quem não se habituou, ainda, à roda da alta competição. Há pouco, uma jovem atleta, talvez eliminada, referia ao jornalista a importância que tinha estar-se em boa forma nas olimpíadas - não como uma justificação, mas como um tesouro do seu pensamento juvenil. Pareceu-me um lugar comum, mas talvez seja azedume da minha parte...
Observo uma coreana bonita, sossegada, com um panamá branco que lhe assenta elegantemente por cima de uns olhos rasgados, na modalidade de tiro com arco. Compete com ela uma marroquina que podia ter sido um homem noutra reencarnação ou, quem sabe, na década passada. Entendo que deve haver uma dimensão estética nas coisas e, por isso, também nas vitórias. Assim, não tenho dúvidas sobre a beneficiária do meu (pouco) entusiasmo.
Estava eu nestes preparos, pensando no tema do meu blogue de amanhã (por vezes escrevo na véspera) quando me chegou uma mensagem electrónica de uma pessoa de quem sou amigo há muitos, muitos anos – o RAV. Era uma mensagem alegre, bem-disposta, de alguém que tinha visitado pela primeira vez o meu espaço cibernético e o comentava com humor, referindo-se a mim como uma pessoa de quem gosta e que muito admira. Decidi, por isso, que o meu post de hoje se iria referir aos amigos – no sentido mais amplo da palavra.
Eu sei que esta afirmação é um cliché, mas as amizades sofrem um forte crivo em momentos de crise, de aflições, de maçadas, de desgostos, de choques. Há uma espécie de onda purificadora que varre da nossa praia, numa lógica tantas vezes injusta da lei do mais presente, os amigos que não sobreviverão ao desgaste do tempo. Tive esta visão mais criteriosa numa determinada fase da minha vida, durante a qual alimentei uma espécie de preto / branco, passa / não passa, fraco / forte. Hoje, tento o desafio da tolerância, sabendo que há muitos factores por trás de certos comportamentos e que, olhando para cima, me defrontarei com os meus próprios telhados de vidro.
Tenho sido um homem fortemente privilegiado nas minhas amizades, reconhecendo que a forma como lido com quem me dá o gosto de se afirmar meu amigo nem sempre será a mais correcta. Há exageros na convivência e naquilo que lhes exijo, falto-lhes, seguramente, em momentos importantes, nem sempre tenho paciência em stock suficiente. Mas, quando preciso, olho para o lado e tenho, por vezes, o embaraço da escolha. Gente que nunca me falta, sobretudo nos momentos mais determinantes da minha vida. Gente que tem, muitas vezes, as vidas ocupadas com preocupações próprias, que já se dariam por satisfeitas se lhes aliviassem a carga.
Daqui do Zimbabué onde estou, sei que muitos se preocupam comigo à distância. Uns perguntam por mim, outros escrevem-me ou visitam o meu blogue, interessam-se pelo meu ânimo e pela minha hérnia discal, contam-me boas novas do solo pátrio. De outros não vou sabendo - porque estão de férias ou porque entendem respeitar a minha distância -, mas estou certo que me levam nos seus pensamentos. Neste misto de exílio voluntário e férias em que me encontro, é um factor de consolo e uma fonte de companhia. Um conforto, digo-lhes!
Para eles, e para os que são família, não de sangue mas de afecto, e que me abraçam como um deles, vai este post de hoje. Para o RAV, um abraço especial e forte.

12 agosto 2008

Uma semana de Zimbabué



Cheguei há exactamente uma semana. Altura para algumas notas dispersas sobre sensações e impressões:
Internet: Não obstante os esforços inexcedíveis da chanceler da Embaixada, Manuela Chaby, a minha ligação ao mundo da internet continua por um fio (telefónico). Tenho os serviço mínimos, que me permitem enviar SMS via Vodafone PT, actualizar o blogue, receber e enviar correio electrónico. Carregar fotografias e comunicações pelo Skype estão, para já, arredados do mundo das realidades. Fica aqui o agradecimento renovado à Manuela - pela simpatia e disponibilidade permanentes, nestas e noutras questões logísticas / financeiras / informativas.
Meteorologia: as manhãs surgem gloriosas, sem núvens no céu e uma temperatura fresca e simpática. As tardes tendem a ficar mais quentes e rondam, neste momento, os 24ºC. Quando cai o sol fica frio, e a camisola torna-se traje (quase) obrigatório.
Trabalho: tenho o privilégio de trabalhar no alpendre com vista para a piscina e para o lindíssimo jardim da residência (fotografias já publicadas aqui). Tudo seria idílico se não fosse o ruído constante e mecânico do gerador que nos acompanha diariamente - nos últimos dias ao longo de várias horas. Quando vem a energia da rede - ou se desliga a máquina infernal para poupança do equipamento - cai um silêncio que surpreende, mas que é inspirador, apenas quebrado pelo som dos pássaros. Não há motoretas ao fundo, carros que passam, cães que ladram dos jardins vizinhos.
Redondezas: saindo da residência e voltando à esquerda, defrontamo-nos com casas semelhantes, como já referi anteriormente, amplas e espaçosas, relativamente baixas, com muros altos e redes de protecção (alguma electrificadas). Se voltarmos à direita - no caminho que nos levará ao centro, a paisagem é mais incaracterística e não tão simpática.
Bancas: em cada esquina (não estará um amigo, como cantava o Zeca) mas há um grupo de gente local, com um caixote de madeira voltado ao contrário a vender meia dúzia de tomates, algumas cenouras e laranjas. Não são bancadas grandes, não são quantidades grandes. Dá aspecto de ser uma tentativa, inglória, quiçá, de facturar uns tostões.
Estradas: a beira das estradas está povoada de zimbabueanos, parados como quem aguarda por nada, ou acenando uma mão num braço caído ao longo do tronco. O que fazem estes (que se contam às dezenas) que manifestam um movimento mínimo? Pedem boleia - porque os hábitos cá são assim.
População: a população branca, versus a preta (diz-se preta ou negra?) é inferior a 1%. Significa que, salvo alguns locais frequentados maioritariamente pela população branca, o nosso olhar cruza-se, quase sempre, com os de cá. São geralmente afáveis, simpáticos, educados e têm, ao que me foi dito, o grau de escolaridade mais elevado em toda a África.
Finanças: Desde 1 de Agosto que entrou em vigor uma nova política monetária. Assim, foram retirados 10 zeros (parece-me) a todas as notas. Reina, agora, o dólar zimbabueano revalued. Para estas coisas sou engenheiro - naquilo que os engenheiros têm de pior. Preciso de estabilidade para perceber as engrenagens. Escusado será dizer, por isso, que ainda não entendo o preço das coisas, a lógica que preside aos câmbios, o que é barato ou caro.
Feriado: Ontem foi Dia dos Heróis. O Zimbabué presta homenagem aos bravos (gallant no original) filhos e filhas da nação que tombaram para proporcionar a liberdade de que todos gozam agora.

11 agosto 2008

O senhor dos anéis

As pessoas queriam contar cidades visitadas, aeroportos pisados, escalas feitas, recorde de fusos horários, continentes conhecidos, mares banhados. Queriam reduzir as viagens dele a uma contabilidade, a uma tabela com várias linhas e colunas, a um somatório de parcelas. Mas ele - sem que envolvesse na resposta uma modéstia falsa - alegava simplesmente: o meu mundo.
Havia, no seu círculo de amigos, quem juntasse coisas várias ligadas ao turismo: postais ilustrados, cinzeiros subtraídos a quartos de hotel, bases de copos em bares locais, artesanato alegórico. Ele coleccionava anéis que enfiava naturalmente nos dedos das mãos, sem critério de importância evidente ou de estética cuidada. Olhava para eles, não como uma peça de joalharia ou de cultura local, mas como o sinal evidente de uma qualquer emoção. Tinha um anel do Perú, oferta de uma criança que viajara longa e inesperadamente no seu colo, encostando uma cabeça cansada a um ombro dorido; tinha ainda outro, dado por uma estudante japonesa com quem passara uma noite vagarosa, intervalando ensinamentos sobre posições impossíveis e rituais do chá; tinha os dedos cheios de anéis, todos eles com uma história gravada no interior, que só ele conhecia, mas que o marcara de alguma forma.
Um dia, entraram-lhe em casa e roubaram-lhos todos. Sem gritos, sem violência, com uma mansidão que espantaria qualquer mortal. Quando olhou para as mãos sentiu um vazio, mas recusou liminarmente pensar que se iam os anéis mas que ficariam os dedos. Não se tratava de comparar propriedade valiosa com integridade física. Respirou fundo, olhou para as mãos e saíu para a rua, como se nada se tivesse passado. Com o polegar e o indicador ajeitou o anel da criança peruana, rodou o que tinha sido oferta da rapariga nipónica. Já não compunha aros de metal, de madeira ou de marfim, mas marcas do tempo, manchas brancas e perfeitas em dedos tisnados pelo sol e vincadas pelo trabalho manual.
Encontrei-o ontem, quando passeava no centro de Harare; tenho ideia de o ter visto a beber vodka numa esplanada de Moscovo; estou certo que me cruzei com ele a ouvir tangos em Buenos Aires; posso garantir, mesmo, que o vi a negociar tapetes no grande bazar de Istambul. Quando regressar tomarei atenção, talvez faça parte dos habituais do paredão.
Escrevo uma história que contei ontem, quando o sol se punha no silêncio de África. No fim, quem me escutou, sorriu e disse: Bonita metáfora. Mas para quê? Não corria uma aragem, mas o frio que vem diariamente com a noite já se tinha instalado. Devolvi o sorriso e respondi:
- Não é metáfora. Estou mesmo a falar de anéis.

Saudades do que não se afigura

Faz hoje uma semana que saí de casa para a minha estadia de dois meses no Zimbabué. Despedi-me da Praceta Marquesa do Cadaval, lembrando-me de que já se chamou Praceta projectada à Avenida do Lago. Em termos toponímicos, penso que não se poderia ter batido mais fundo - uma morada assim não tem inspiração, não tem homenagem, não tem futuro, não dignifica o munícipe. Em boa hora a edilidade cascaense se lembrou de substituir a projecção pela nobreza.
Não é sobre endereços, no entanto, que espraio as minhas ideias neste manhã de segunda-feira. Ontem, ao fazer uma caminhada pelas redondezas da embaixada - uma zona de casas boas servidas por uma estrada de qualidade relativamente baixa -, dei por mim a pensar na saudade do que (não) há-de vir. Pensamento singelo? Certamente. Pouco original? Sem dúvida alguma. Interessante? Questiono-me...
Achei sempre que teria saudades do que já passou: as férias em sítios que me encantaram, os tempos felizes da juventude, a sensação intoxicante das paixões, os braços dos meus filhos à volta do pescoço, a cama que lhes compunha numa ternura de protecção paternal. Olhar a saudade era olhar para trás, para aquilo que já foi.
Por uma vez na minha vida - e de uma forma brutal - fui confrontado com o sentimento da nostalgia olhando em frente: tive saudades do que não viveria, não acompanharia, não saberia como ia ser.
Estou em Harare em condições privilegiadas, com mordomias que nunca terei em casa, na companhia de um amigo a quem me ligam confidências, férias, afastamentos e reaproximações. Todas as refeições são uma surpresa; o tempo é esplêndido; adivinham-se, num futuro próximo, viagens ao sul do país - onde os gatos que miam na praceta são substituídos pelos leões que rugem no mato - e a Moçambique, onde nos abasteceremos de praia, encanto, camarão e bacalhau em proporções incertas.
Em mais do que uma ocasião estive ausente de casa uma semana - em trabalho ou lazer - e, quando era novo, muito mais do que isso. Embora, tal como disse ontem, o regresso fosse importante, tudo se passava com uma tranquilidade de alma própria da juventude que ambiciona a ausência, ou com o sossego do quarentão que volta para o conhecido. Em nenhuma ocasião, no entanto, esteve previsto estar dois meses longe. Por isso, ao contrário do que poderia pensar, esta semana foi carregada de saudades, não daqueles que não vi em sete dias, mas daqueles (consistentemente próximos) que não verei nos próximos quarenta e nove.
Estará de regresso? perguntarão alguns mais alarmados (ou mais esperançados, dependendo...) De todo! Ainda não cumpri, nem pouco mais ou menos, o que me trouxe a este país. E por isso fico, acompanhando a nostalgia, que anda de braço dado comigo, com a perspectiva da aventura, que me espreita por cima do ombro.
Porquê este post, então? Se sofresse de bronquite, tomaria um expectorante. Como tenho saudades, decido-me pela escrita.

Adeus, até ao meu regresso...

PS: olhei para o contador que revela a evolução de visitas a este blogue e reparei, num repente que me surpreendeu, que já tive mais de 1000 - não, certamente, um milhar de pesssoas diferentes, mas número igual de espreitadelas. Sinto crescer em mim um frémito juvenil que não me impede, no entanto, de agradecer a quem se aprochega para me ler. Quando chegar aos mil cento e quarenta e três (o número parece-me historicamente entusiasmante) talvez beba uma cerveja local. Sounds exciting...

10 agosto 2008

Confusões aparentes


Hoje é Domingo, e não esqueço a minha condição de Católico.
Há dois ou três dias que repousa na minha mente uma frase que li no Evangelho Quotidiano:
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?
Não sou letrado suficiente para ter a veleidade da interpretação certa desta linha que, numa leitura mais desatenta, se perderia no meio de um Evangelho.
Poderíamos falar do ser e do ter, do que é imediato e do que é duradouro, da ligeireza versus o que é consistente, da intermitência e da constância.
Talvez as expressões mundo inteiro e vida tenham significados diferentes para pessoas diferentes. Haverá quem nisso veja vantagem, sinal da pluralidade de olhares distintos sobre um mesmo assunto. Estou convicto, no entanto, de que há uma verdade única por trás desta frase, que não se compadece com visões que pretendam afastar-nos da procura da rectidão – não aquela que obedece cegamente a preceitos, mas a que nos dá a sensação de (quase) plenitude. Ganhar a vida, talvez, para a dar pelo próximo, porque só quando prescindimos das coisas é que somos verdadeiramente donos delas.
A curto prazo, este desafio de um certo percurso proporciona maçada, seriedade indesejável, trabalho, desencanto, pouca ligeireza, desfasamento em relação ao que são as modas actuais.
A curto prazo, estou certo, não será mais do que isto...

Tive a sorte de querer e poder viajar a partir dos 16 ou 17 anos. Herdei o hábito por via paterna e desenvolvi-o, fruto de bilhetes de avião grátis, sacrifícios que geravam poupanças e, posteriormente, aproveitando deslocações profissionais.
Os destinos do meu encanto eram desenhados nas revistas da especialidade, nos programas televisivos relacionados com o tema, nas conversas com amigos igualmente viajantes. Percorri muitos países, mas, em frente a um sonho, fui a todo o mundo.
Gozadas as delícias da jornada, o meu desejo enchia-se do retorno a casa, mesmo que no vôo de regresso já planeasse a próxima saída. A chave que fecha ou abre a mesma porta tem, decididamente, encanto igual. Na minha mente – ou naquilo que em mim é mais emotivo - uma viagem só fica verdadeiramente completa quando se fecha o ciclo: partir, disfrutar, regressar. Na realidade, só quero ir porque quero voltar. E na alegria da chegada está, também, a antevisão de uma nova partida.
A vida é, de certa forma, algo semelhante, em que o terminar de um momento marca o início de um outro. Talvez por isso nem sempre seja decisivo de onde se parte e para onde se regressa. É o lado luminoso da caminhada.

Duas reflexões aparentemente desconexas, independentes uma da outra. Este blogue, não sendo de culto, não tem mais pretensão do que reflectir o que me vai na alma. Mesmo que seja uma aparente confusão.

09 agosto 2008

Música dos tempos que correm



Oliver "Tuku" Mtukudzi

Poesia dos tempos que correm

THE WORD IS A BIRD

Some say silence is golden
But silence is shit
’Cause words can hit
But they can heal
Liberating us from what we feel
’Cause mazwi acho akasimba
Anogona kutibatsira kwatirikuenda (1)
’Cause words are warriors
And their great gifts are glorious
But politicians wanna sell us words that are worthless
Creating a populace that’s wordless
Throwing curse upon curse on the word’s carcass
But the word is a bird and birds fly regardless
Flying above the durawalls of their so-called silence
The word still heard above their virile violence
’Cause you can bomb the word but you can’t keep it silent.

(1) Words are powerful, they can help us to move forward.

(Samm Farai Monro, mais conhecido como Comrade Fatso, Zimbabué)

Escultura (shona) dos tempos que correm



08 agosto 2008

A residência


A residência do embaixador de Portugal é fora do centro de Harare, numa zona com casas semelhantes. A estrada que nos leva de carro à embaixada (cerca de 7 km de distância) é o equivalente a uma boa estrada secundária portuguesa, só que esta é bastante larga, ainda que de qualidade média - nalguns locais média baixa.
O quadro de pessoal - extremamente simpático, educado e prestável, é o seguinte:
Moffat, o motorista;
Vice, o criado de fora;
João (moçambicano), o cozinheiro;
Joe, engoma e limpa a casa;
David e Mike, os jardineiros.
Como poderão verificar, a minha vinda não duplicou o trabalho, reduziu para metade o tempo de ócio.


A economia dinâmica, ou perder peso versus perder peso

Cheguei na 3ª feira e, desde então, vou ouvindo informações sobre os preços das coisas: triliões que se pagam por jantares ou medicamentos, notas com dez zeros que valem vinte e cinco tostões. Alguns exemplos deste país à beira de qualquer coisa:
- 1/2 dúzia de ovos: 30.000.000.000 dolares zimbabueanos (1,5 US dolares);
- 1kg de carne: 9.000.000.000.000 dolares zimbabueanos (9 US dolares)
- 200g de manteiga: 4.000.000.000.000 dolares zimbabueanos (16 US dolares)
- Frango (ao quilo): 4.500.000.000.000 dolares zimbabueanos (5 US dolares)
- Uma professora portuguesa na Universidade de Harare ganha 50 US dolares mensais;
- Um guarda da embaixada (contratado a uma empresa) ganha 500 biliões de dolares zimbabueanos, o equivalente a 2 US dolares. Dá-lhe para comprar dois pães...
- Existem quatro tipos de câmbios:
1 - o câmbio do cash
2 - o câmbio das transferências interbancárias
3 - o câmbio dos cheques
4 - o câmbio quando se paga em moeda estrangeira
- A 11 de Julho 1 US dolar equivalia a 45 biliões de dolares zimbabueanos (45 + 9 zeros); 1 mês depois valia 280 biliões.
- O ritmo cambial a 6 de Agosto:
de manhã 1 US dol <==> 220 + 9 zeros dolares zimbabueanos;
pelas 13 horas: 250 + 9 zeros
pelas 16 horas: 280 + 9 zeros
Os preços mudam diariamente. De 3ª para 4ª feira, o custo de seis ovos duplicou.
******
Vim para Harare com o firme propósito de continuar a minha saga de perda de peso. Fá-lo-ia à custa de uma alimentação racional e de algum exercício. Como se explica a empregados locais, que vêem os seus compatriotas a morrer de fome, a viver de expedientes alimentares que repugnam a nossa sensibilidade, a subsistir numa miséria sub-humana, que não queremos comer porque desejamos emagrecer? Como se diz, a quem não tem nada: não me traga mais arroz, nem mais bifes - e evite os doces - porque estou muito gordo e tenho de reduzir a cintura...
Como se explica, a quem perde peso pela força das circunstâncias, que também queremos perdê-lo pela ditadura da estética?

(Nota: esta minha preocupação é conceptual, já que não se aplica aos funcionários da residência, pois têm um estatuto privilegiado relativamente aos seus conterrâneos).

07 agosto 2008

Aniversário

Faz hoje anos a minha amiga ETM, que espero possa ler-me no seu remanso de férias de praia. Tendo eu 50 anos, não posso dizer que tenhamos uma amizade muito antiga - talvez seis ou sete anos, com maior proximidade nestes últimos. Mas, como tenho alguma cultura matemática, gosto de acreditar no valor das equações. Assim:

Amizade = antiguidade * intensidade

sendo que este valor tende para infinito.

Daqui do Zimbabué lhe envio um beijo de parabéns, agradecido por uma amizade que não negoceia, por um apoio que nunca me faltou, por uma proximidade que me conforta. Segue também um abraço para o magnífico A., seu marido, porque o respeitinho é uma coisa muito bonita. You'll always have Paris.

A minha mala é um queijo da serra

Na generalidade, penso que todos temos um potencial racismo interior, pronto a eclodir ao menor sinal. Estou em África, pelo que falo em relação aos que cá vivem e aos que de cá são naturais. Um nativo simpático e educado ganha o estatuto de encantador. Ao lado dele, um jovem que comete um erro transforma-se num incompetente que vive num país que não funciona, porque senão tê-lo-ia despedido antes de o contratar. Entre a cristandade que deseja abraçar o seu irmão de côr e a superioridade que pretende defenestrar o mesmo cavalheiro há um nada que mal se vê. Eu conto:
Fui buscar ontem a minha mala ao aeroporto de Harare, 24 horas depois de eu próprio ter chegado. Mantive a higiene mínima graças ao pronto-a-vestir do JdC. Somos amigos há tantos anos que já temos o mesmo tamanho, pouco mais ou menos. Pela manhã afiançaram que a mala já repousava no Zimbabué, o que não se confirmou, após busca aturada. O sr. Simba, verdadeiro leão africano, sugeriu-me que esperasse pelo voo da SAA das 12.20h. O sistema, segundo ele, não falha, e afiançara que a mala saíra de Joanesburgo ainda na 3ª feira. Talvez neste aviãozinho, sugeriu ele. Aguardei, pois. Chegou enfim, passados largos minutos de espera ansiosa, enquanto os meus olhos corropiavam pelo tapete que suporta bagagem de todo o tipo e feitio - desde equipamento para o jogo do polo ao saco de comida para cães.
Estou certo de que em Joanesburgo a minha mala levantou suspeitas. Presumo o farejar de cães, o telefonema enervado para as minas e armadilhas, o contacto com o supervisor de serviço, a dúvida sobre o despoletar da emergência interna. Activou-se o plano B, que consistiu em cortar uma face inteira da minha mala, deixando a descoberto um forro alvo, feito do algodão mais macio. Felizmente não roubaram nada - das meias à máquina fotográfica, passando por um teclado de má qualidade e roupa interior do M&S..
Quando olhei para os despojos da mala que albergava os meus pertences, vi o desinteresse em tempo inútil. Senti-me como um presidente de um clube de futebol que, pagando milhões por um craque, o vê chegar no dia seguinte ao prazo legal com uma rótula flexível como basalto. Acabei por ter uma visão mais gastronómica: a minha mala é um queijo da serra ao qual cortaram uma calote, revelando um amanteigado de salivar.
PS: li algures, no espaço blogosférico de alguém, que as mulheres almejam sentido de humor nos homens. É isso que querem. Eu, apesar de tudo, tento manter o meu - para os fins mais nobres.


06 agosto 2008

Aniversário


Hoje faz anos o meu querido amigo MB, que sei estar no Algarve a banhos, em companhia privilegiada. Temos uma amizade recente, que estimamos como se fosse um faqueiro de família -não pelo valor financeiro, mas pelas recordações que o acompanham. Viajei com ele e com um grupo de amigos numa altura mais complicada da minha vida. Quando pego numa colher de sopa deste nosso conjunto de talheres, não vejo a prata trabalhada nem o cabo de marfim - vejo (não só, mas também) as pirâmides, Luxor, o caminhar manso do barco pelo Nilo, as conversas ao som de quem fumava um cachimbo de água.
Daqui do Zimbabué segue um abraço forte de parabéns, ao qual se junta o JdC.

Potpourri do primeiro dia


Simpatia. Tudo na Embaixada (residência ou escritório) se faz sob o signo da simpatia e disponibilidade. A mala não chegou, o computador tem um casamento difícil com a internet zimbabueana, se almocei bem, se preciso de alguma coisa, etc. Há sempre gente com um sorriso, uma amabilidade, um telefonema (ou vários) para resolver imbróglios. O nosso embaixador (de ora em diante referenciado como JdC) está bem acompanhado.
Energia. Há, em Harare - nos mais diversos pontos da cidade - cortes pontuais de energia. Ao que parece, a electricidade não chega para as encomendas. Almoçámos ao som do gerador, acordei hoje com o mesmo maquinar de fundo. Entre refeições houve abastecimento normal, mas só um adivinho saberá dizer quando aparece e desaparece a energia. Podem ser umas horas, podem ser uns dias. O gerador é um equipamento sujeito a desgaste, pelo que deve ser usado com parcimónia, evitando o pior. Aposte-se na prevenção vs reparação, o que significa algumas horas à moda antiga, confiando no isolamento de arcas firgoríficas para conservar os perecíveis.
Jantar. Jantei ontem com JdC e dois colegas da embaixada. Restaurante normal, que poderia existir em qualquer parte do mundo. Recomenda-se carne, particularmente boa. Há quem leve duas garrafas de vinho, que presumi serem para oferta a quem parte de férias. Não! O vinho é para ser servido no nosso jantar. Quando for cear ao Gambrinus levarei um Monte da Ravasqueira tinto, que eu próprio me encarregarei de adquirir a preços mais em conta.
Dinheiro. A nossa refeição de ontem custou vários triliões de dólares zimbabueanos. Para os puristas da matemática (que alegarão não existir essa grandeza) imaginem um entrecosto com molho de barbecue que custa 17 + 12 zeros. O jantar talvez tivesse sido mais económico se fosse de manhã, porque a economia do país é dinâmica, e a conversão para o dólar americano vai sofrendo variações sucessivas. Aumento do preço da gasolina em Portugal? Uma brincadeira de meninos quando comparado com o frenesim cambial no país de Mugabe.
Internet. Tal como disse no início, o casamento entre a internet nacional e o meu portátil state of the art é difícil. Socorro-me, enquanto a amabilidade e a eficiência não resolvem o problema, dos computadores existentes na embaixada e na residência. A lentidão é notória, quando comparada com o que temos em Portugal. Neste momento, skype, fotografias no blogue, acesso ilimitado à velocidade costumeira são miragens. Não encarem a minha ausência de respostas como desinteresse - mas como limitação tecnológica.

05 agosto 2008

Impressões de viagem aeronáutica


Saí ontem de casa eram 14.15h e cheguei ao Zimbabué às 12.30h (uma a hora a mais do que em Portugal) do dia seguinte. O número de horas que mediou o chegar e o partir foi quase sempre dentro de um avião, a ouvir informações de segurança sobre as máscaras de oxigénio.
Amiga de amigo meu ofereceu-se para me facilitar a vida no check-in; assim, garantiu-me lugares excelentes dentro da condição económica, porque para mais não dava. Mas mesmo isso foi um bálsamo para um homem que tem 1.86m, um peso que o pudor impede de revelar, a quem lhe foi diagnosticada uma hérnia discal e que sofre de um ataque irritante e incomodativo de gota. Conseguiram-me o melhor, considerando o quadro de miséria em que se encontra o cinquentão.
Tendo sido um viajante frequente, e com uma relação com a tentação fortemente judaico-cristã, tenho uma recomendação para todos: recusem liminarmente o primeiro lugar da classe económica. Se necessário for, que se viaje com os joelhos esmagados, os artelhos num sofrimento de cãibra permanente, a coluna num clamor de angústia por um osteopata. Eu explico, porque viajei sempre na 1ª fila da classe económica:
De Lisboa para Frankfurt detive o meu olhar numa business class vazia, onde o espaço para estender os membros inferiores que Deus me deu era fortemente convidativo. Ali respira-se luxo - mas não havia candidatos, a não ser os que não têm direito a. De Frankfurt para Joanesburgo são 10 horas de viagem 10. Quem está nas últimas filas da zona dos que não podem ou não querem remete-se a uma infelicidade que é cega. Quem, como eu, ia na primeira fila, saliva perante a visão, um metro à frente e por detrás de uma cortina que tapa o luxo burguês, de um copo que tilinta num cristal da boémia, de um pano quente que ensopa as faces num aroma de lavanda, de uma hospedeira que distribui revistas e ementas, de um ecrã individual, porque o colectivismo é para depois da fila 33.
De Joanesburgo para Harare o voo é menos tentador. Uma hospedeira, com umas medidas físicas claramente incompatíveis com a largura do corredor, pergunta a meia dúzia de pessoas, sentadas na zona das portas de emergência, se são capazes e estão dispostas a ajudar no caso de uma evacuação. Um inglês com ar colonial diz logo que sim, porque o Império Britânico se construíu desta forma; a senhora idosa na minha fila esbugalha os olhos de terror, antes de ceder uma carteira que faria as delícias da pocahontas; um nativo, de boné de pala enterrrado até à arcada supraciliar desinteressou-se do assunto, continuando a conversar com o vizinho. Foi chamado à realidade pela assistente de bordo, que lhe assentou uma palmada no braço que me pareceu de uma intimidade pouco profissional.
Cheguei a Harare numa décalage quase angustiante com a minha mala, que ocupa espaço desnecessário num contentor qualquer - provavelmente em Joanesburgo. Hoje tenho um jantar, e talvez vá de smoking, que é a fatiota mais disponível.
Tentarei voltar amanhã, com menos peripécias e mais descrições. Assim consiga ligar o meu computador à internet - que hoje ocupo um emprestado.

Algures nos céus de África

No livro que estou agora a terminar, a música - seja clássica, moderna, ou das nossa melodias de sempre - desempenha, aqui e ali, um papel importante. Há toadas que surgem como antevisão de acontecimentos, outras ilustram estados de alma, outras, ainda, concluem cenas, como se a letra do que alguém canta chegasse, por si só, para explicar o que se passou.
Olho para o bilhete de avião que me garante, salvos os imponderáveis, a viagem para Harare, passando por Frankfurt e Joanesburgo. No reverso desta meia dúzia de folhas estão três linhas que só eu consigo ler, porque fazem parte de uma sextilha que me acompanhou interiormente ao longo de muito tempo.

Quanto caminhos cruzados
Estradas feitas em bocados
Vidas que Deus baralhou

Percebo, de repente, que faltam as três últimas linhas dos versos. Puxo pela cabeça mas já não consigo lembrar-me. Talvez seja a memória que me falta, ou talvez tenha sido a percepção de que muitas coisas já não rimam, porque os fados mudam.
Amanhã é outro dia.

Adeus, até ao meu regresso

04 agosto 2008

Contagem decrescente - é hoje




Poemas dos dias que correm


Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo,
eu sei

Ainda assim,
escrevo

(Mia Couto)

03 agosto 2008

Reflexões dos dias que correm

As minhas rotinas domingueiras são propiciadoras de reflexões de mim comigo próprio. Talvez seja um exercício de presunção, mas não resisto a partilhar algumas.

Os velhos. Com uma regularidade semanal, lá estou a visitar o meu lar habitual. São talvez uns quinze ou dezoito idosos, sentados à volta de uma sala, como se fossem senhoras num baile popular a aguardar convite para dançar. Une-os, à hora em que entro, uma televisão que debita ruídos e imagens de fundo que acompanham o ressonar de alguns, os pensamentos de outros, o vazio de tantos. Enternece-me o gosto que sinto, aqui e ali, por me verem, se bem que a maioria já quase não saia do seu mundo próprio. Fecho a porta ao sair com a certeza do pouco que fazemos por eles – não só pelos anónimos, como pelos “nossos”.
Portas que se fecham. Aprendi que devemos sair dos sítios e das situações sem bater com a porta. Nem sempre se pode deixá-la aberta, porque há portas que se fecham definitivamente – por vontade nossa ou alheia. Mas a vida ensinou-me a importância de um fechar suave, manso e tranquilo, ainda que recheado de uma profunda tristeza, ou de um imenso alívio. Este raciocínio aplica-se à vida profissional (onde o aprendi em primeiro lugar), à vida social, à vida em família. Há uma certa libertação em quem sai pelo seu próprio pé, de cabeça erguida, levando uns caixotes com um agrafador, uns livros, umas recordações, deixando na divisão vazia um envelope que diz raiva e rancor – ainda que também possa dizer injustiça.
Orgulho. Talvez seja um cliché, mas estou seguro de que todos nós, de uma forma ou outra, andamos à procura de ser amados. Se calhar essa demanda provoca desencontros, porque entre amar e ser amado há desajustes, entendimentos errados, ritmos diferentes. Muitos factores impedirão, seguramente, que consigamos essa permuta de amor. Eu elejo (também) o orgulho - o que nos impede de voltar atrás ou de andar para a frente reconhecendo que errámos, que podíamos ter feito as coisas de modo diferente, de pedir desculpa. Dar a vida pelo outro, com vem na Bíblia aplica-se, estou convencido, ao abdicar de todos os nossos egoísmos que impedem essa aproximação da perfeição. A humildade pode ser um momento de enorme exaltação.

Tempo de férias

Tal como há uma semana, começo o texto com a frase: hoje é Domingo, e não esqueço a minha condição de católico. Agosto é o mês das férias por excelência. Não vou correr o risco de maçar os meus potenciais leitores com considerações pessoais sobre esta época. Fica, por isso, um texto de Bento XVI (publicado, penso, em 2007) sobre este mesmo tema. Boas férias, para quem as goza, ou está em preparação para.

Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso. Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta. Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco. Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar! Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é. A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana. Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano. O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir. Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro. Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe". Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

02 agosto 2008

O valor do silêncio

Fui buscar ao site Essejota este pensamento, publicado ontem, 1 de Agosto. O silêncio é um tema que me encanta, sobre o qual gosto de ler e de pensar. A minha vida dos últimos anos foi atravessada, aqui e ali, por momentos de grande parcimónia na utilização das palavras - ditas ou ouvidas. Foram tempos reconfortantes, de olhar para dentro e para fora, de escutar vozes que só nós ouvimos, de proferir frases que mais ninguém ouve; foram alturas esmagadoras, em que o que não se dizia tinha um peso infinitamente doloroso, constrangedor, revelador de um incómodo que era filho do diálogo que já não existia. O silêncio é, de facto, uma ferramenta poderosíssima, capaz do melhor e do pior. Assim eu a soubesse usar para os fins mais elevados.

O silêncio é um valor inestimável. Sem silêncio não se ouve e ainda menos se escuta. O homem que não se escuta a si próprio, desconhece-se. O que não tem espaço e tempo para meditar, para ouvir o significado dos sons e das palavras, anda neste mundo a reboque, sem leme. Só no silêncio é possível descobrir outros sinais de comunicação. Aproveitemos este tempo de férias para fazer silêncio. O silêncio é o segredo de uma melhor comunicação.
(Vasco P. Magalhães, sj)

01 agosto 2008

Partir é já em si bastante

À medida que vou conversando com amigos sobre esta minha viagem para o Zimbabué, encontro em muitos – conhecedores ou não da minha circunstância – uma saudável inveja. Porque é a experiência humana, porque é a aventura possível, porque é África – continente que talvez represente, para os portugueses, a definição de céu como limite. Lá tudo é grande, tudo tem cheiro, pôr-do-sol, cor, vastidão. Dessa ilimitação me falava um amigo com quem partilho viagens de solidariedade social. Espartilhado em Portugal, o nacional encontra o desafogo (no sentido que cada um dos meus leitores lhe quiser dar) no continente africano. Não conheço ninguém que tenha detestado África – nem sequer que lhe tenha votado uma indiferença genuína.
A sorte esteve do meu lado ao oferecer-me a hipótese desta estadia. Como disse em post antigo, une-me ao embaixador uma amizade com quase 40 anos. Afastados durante algum tempo por ocorrências próprias da vida, reaproximámo-nos, retomando a conversa fluída e íntima como se a tivéssemos interrompido por alturas do telejornal. Ter-lhe-ia pedido uma estadia semelhante caso estivesse em Madrid, em Helsínquia ou no Cairo. Vou por quem me será anfitrião, como vou pela vontade da partida e, por isso, qualquer destino seria bom.
Ir para o Zimbabué dois meses equivalerá, pouco mais ou menos, a um estado intermédio entre uma permanência igual no Círculo Polar Árctico e numa capital ligeiramente inferior ao padrão europeu. Há que pensar na roupa, no dinheiro, na fracção de vida profissional que não abandonarei, nas formas de comunicação com os meus interlocutores afectivos, no modo de gerir saudades em dois meses de afastamento longínquo. Graças à técnica moderna estarei contactável 24 horas por dia, com direito a comunicação telefónica grátis com opção de imagem. Estar lá é, em termos tecnológicos, estar aqui.
Das várias conversas que vou tendo com o embaixador, fico a saber da necessidade de levar artigos básicos de higiene – sabonete, pasta de dentes, champô, etc. – mercadoria localmente cara e de raridade inusitada; os cartões de crédito ou débito não têm utilidade, pelo que os remeterei a um cofre; são precisos dólares, porque não há (ou não havia) papel para imprimir notas, e muita coisa ficará em conta se for paga com o dinheiro do imperialismo americano; é preciso pedir um visto que custa 84€, duas fotografias, e uma espera de 40 minutos sob o olhar fotograficamente benevolente do Sr. Mugabe, e a afadigação de duas funcionárias consulares, pouco habituadas, estou certo, a agitação administrativa.
Ir ao Zimbabué é mais do que ir a África. É estar num país à beira de qualquer coisa e que não vive uma guerra civil, segundo um politólogo, porque a oposição não tem armas; é conhecer uma nação sem dinheiro e na qual o câmbio local para o euro se faz com a ajuda de calculadoras com muitos dígitos; é percorrer uma cidade onde as lojas distribuem nas montras, com uma precisão de régua, o nada que têm em stock; é conhecer uma região que faz de animais repelentes um manjar de sobrevivente. Será um contraste interessante com a Europa que, mesmo com a crise actual, respira um conforto burguês.
Retenho, do texto e das conversas, palavras que me parecem reveladoras – a vastidão, a miséria, os contrastes, a beleza, os cheiros, a aventura. São apenas alguns dos factores que me fazem partir para o Zimbabué no próximo dia 4 de Agosto e regressar dois meses depois.

Adeus, até ao meu regresso.

PS: retiro o título que encima este texto de um livro de José da Camara Leme, chamado "Chegar é já em si bastante"

Quadros dos dias que correm


Snow storm - steam-boat off a harbour's mouth
(William Turner, 1775 - 1851)

Acerca de mim

Arquivo do blogue