domingo, 30 de junho de 2013

13º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

É muito fácil, estou em crer, um homem afastar-se da igreja nas desditas da vida. É demasiadamente simples a forma como qualquer um de nós pode sair de uma missa e dizer para dentro de si mesmo ou para o seu interlocutor: não volto mais, nada disto me diz o que quer que seja. Não conhecemos uma, duas ou três pessoas que fizeram isto. Conhecemos mais, seguramente. É demasiadamente simples, repito. Deveria haver formas metafóricas de prender pessoas aos bancos da igreja, agarrá-las e incitá-las a não desistirem, a ficarem mais um pouco, a olharem para além da espuma imediata de uma má experiência quiçá prematura.

A escuta de um evangelho ou de uma homilia nem sempre é um exercício fácil, sobretudo quando se está numa encruzilhada, na iminência de uma decisão - ou mesmo na ressaca da decisão. Falo, obviamente, de quem escuta a Palavra para dela aproveitar ensinamentos, regras, indicações de percurso. Os outros, que da missa tiram quem lá está, tanto lhes faz o que ouvem, que os olhos são órgão mais importante que os ouvidos.   

Deus interpela-nos em permanência, seja por via da nossa consciência, seja por via da escuta de uma Palavra que ressoa dentro de nós. O que é isso do caminho que devemos seguir? É o do Amor? É o da regra? Quando ouvirmos hoje o evangelho do dia, como reagiremos ao desafio que Cristo lança a quem Ele encontra na estrada para Jerusalém: segue-Me. Como entenderemos o sentido da frase quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus? 

Para alguns tipos de dúvidas não há respostas certas. Ouvir as leituras, escutar a homilia, interiorizar  e aplicar tudo à vida própria é um exercício, repito, difícil. É desafiante. Dizem que a melhor forma de calar um bebé que chora passa por desligar o intercomunicador. Talvez a forma mais simples de apaziguar uma consciência seja ensurdecê-la ao exterior, e o afastamento da Igreja pode ser um caminho. Simplista e errado, direi eu, mas, não obstante, um caminho. Talvez o outro passe por proferir-se até à exaustão esta fórmula mágica: Deus não é senão Amor. Parece deslocado deste contexto? Talvez não. Afinal, é isso que Deus é. E é também isso que faz muitos ficarem de livre vontade numa cadeira de Igreja, semana após semana.

Bom Domingo para todos.

JdB   

***

EVANGELHO – Lc 9,51-62

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?»
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».

sábado, 29 de junho de 2013

Pensamentos impensados


Assentos
Parece que o Papa João Paulo I quis meter o nariz na Banco Ambrosiano.
Alguém lhe terá dito: Vossa Santidade tem uma cadeira tão bonita e prestigiada e está a preocupar-se com um simples banco.

Lobby
Fui ao Vaticano, como turista, para ver qualquer coisa mais censurável, mas não lobriguei.

Rir é o melhor
O deputado que pôs o ministro Álvaro às gargalhadas deve ser de Borba.
Ao Álvaro deu-lhe água pela Borba e ao ministro Gaspar citou-lhe o Borba de Água.

Literatura
Somerset Maugham, ao escrever The Razor's Edge, enfrentou um desafio, já que desafio pode querer dizer tirar o fio à navalha.

Património
Sugiro que para Património Imaterial da Humanidade concorra a ALMA.

Judeus
Jesus Cristo era cristão novo? Ou seria cristão velho, pois foi baptizado já adulto?

SdB (I)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Friday is a great day to fall in love

Pai capta universo particular do filho autista em uma serie de fotos cheia de sensibilidade

Começou assim mesmo, por frustração. O fotógrafo Timothy Archibald não via fim ao desespero por seu filho, Eli, ser autista, até que encontrou uma forma de sentir “que estava fazendo alguma coisa” por ele – uma série fotográfica íntima e genuína, captando a sua essência. 

Intitulada de Echolilia: Sometimes I Wonder, a série foi a forma encontrada por Archibald para retratar Eli exatamente como ele é, ao contrário do que fazem muitos pais, clicando os filhos sempre sorridentes ou em situações graciosas. Segundo o fotógrafo, nenhuma das imagens foi planeada e todas foram captadas no momento, visto que Eli rapidamente se cansa do que está fazendo, procurando outra ocupação em minutos. 

Hoje o pai não se preocupa tanto com o diagnóstico ou com o peso da palavra autismo. Ele está focado no que realmente importa: a relação entre os dois.








quinta-feira, 27 de junho de 2013

Lembras-te em que ano dançámos esta música? *



Lembras-te em que ano dançámos esta música? Era seguramente Verão, no terraço de um qualquer prédio no Algarve. Tínhamos todos a mesma idade, mesmo que tivéssemos nascido em anos diferentes. Tínhamos todos o mesmo dinheiro, mesmo que algumas mesadas fossem mais generosas. Jogávamos o verdade ou consequência, certos de que coraríamos se nos perguntassem de quem gostávamos, ansiosos por não fazer má figura se as regras nos levassem a beijar a rapariga que nos criava borboletas no estômago. Depois, alguém punha discos de vinil num gira-discos que talvez funcionasse a pilhas. As estrelas eram imensas, e a Janis Joplin arrancava com o seu Me and Bobby Mc Gee. Eu olhava em volta e ia buscar-te, porque este era o nosso slow. Não tinha pressa, porque tinha a certeza de que esperarias por mim, que disfarçarias se te viessem buscar para dançar. Íamos para o meio da pista - quer dizer, do terraço - e enroscávamo-nos na ingenuidade da juventude, com a embriaguez provocada por dois corpos justos, um cabelo cheiroso, uma face encostada, uma forma de dançar que pouco mais era do que a imobilidade de dois adolescentes apaixonados. Lembras-te em que ano dançámos esta música?

JdB

* postado originalmente em Outubro de 2008

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Das relações inúteis

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Parece-me que o mundo deveria estabelecer mais relações entre variáveis do que aquelas que já estabelece. Eu explico, atirando-me sem pudor ao devaneio.

Estudam-se as relações entre o pib e a escolaridade, ou talvez mesmo a inversa. Dispendem-se horas de investigação para estabelecer concomitâncias entre a riqueza das nações e a felicidade dos povos. Por certo que se chegaram a conclusões que definem um nexo causal entre o clima e o turismo, entre o custo de vida e os fluxos migratórios, entre o preço da batata e a obesidade, entre isto e aquilo. Para tudo se poderia encontrar um pequenino indicador feito de dois valores: quanto maior x, menor y. Ou o seu contrário, sendo que x e y pertencem a um domínio que tende para infinito.  

Que relação haverá entre o conhecermos mais e o sermos melhores? Isto é, como poderemos relacionar o entendimento das coisas com o entendimento do próximo? Como ligamos o acesso à cultura com o exercício da tolerância? Por certo que não poderemos, mas que isso não elimine o gosto da dissertação. 

Hoje viajamos mais. Num instante estamos em Praga - ou em Punta Cana. Os voos para o mundo estão cheios, os hotéis pejados de gente, as excursões esgotadas. Marca-se uma ida aos Ufizzi com quinze dias de antecedência, a capela Sistina é o que se sabe. Há duas ou três décadas, um mortal curioso entrava num museu e podia dar-se ao luxo, sem que ninguém o incomodasse ou lhe tapasse a vista, de se quedar a olhar para um quadro. Hoje, entre o incauto turista e um Rembrandt existem camadas de espanhóis, japoneses, americanos. Ver a Pietà é um exercício que requer rapidez de apreensão. 

No seu post de ontem, o meu querido amigo fq revelava a diferença, em termos de conhecimento do mundo, entre ele próprio e o filho, com 24 anos. Há uma geração conhecia-se Badajoz e Londres. Hoje, a cidade espanhola é um pardieiro turístico, ninguém lá vai. Viaja-se mais, conhecem-se mais museus, tem-se mais informação, o acesso ao mundo está mais democratizado. Não há ninguém, na nossa roda de amigos, que não conheça a Europa e os seus arredores. Vinte ou trinta anos de pujança tiraram as pessoas da província e puseram-nas dentro de um avião com destino ao globo terrestre.

Não obstante tudo isto, será que o Homem está melhor? Será que o contacto com o estrangeiro, com as diversas artes, deveria proporcionar às pessoas uma maior tolerância e aceitação da diferença? Associar a cultura à evolução da humanidade é um raciocínio desprovido de senso? No fundo, no fundo, haverá, ao nível do indivíduo, alguma relação entre conhecimento e civilização? Se sim, porque não somos melhores? Se não, qual a vantagem de tanta facilidade?  

JdB        

terça-feira, 25 de junho de 2013

Duas Últimas


Um dos meus filhos, formado em gestão hoteleira, trabalha há cerca de um ano em Londres, num hotel vitoriano de referência. Começou a sua actividade profissional por Logroño (La Rioja), depois voltou e passou uma boa temporada no Douro, emigrou para a Escócia e agora labuta na capital inglesa. Tem 24 anos e já algum mundo, e a comparação comigo torna-se-me inevitável, eu que saí de Portugal a 1ª vez com mais ou menos a mesma idade, para ir até Badajoz com amigos alentejanos. Tempos estes sem dúvida diferentes, com aspectos positivos e outros nem por isso.

Estivemos uns dias nesse hotel, porque ele nos arranjou condições muito especiais. Caso contrário, ou alguma coisa de “estrutural” era sacrificada, pondo em risco equilíbrios já de si precários, ou então ni hablar….

Assim, pude reter do hotel a excelente localização, a beleza do edifício e das decorações, a irrepreensibilidade e profissionalismo do atendimento, a luz da casa de jantar, a sobriedade e conforto do quarto, a qualidade de produtos e materiais, a classe e alto custo dos automóveis que iam chegando. Ao melhor estilo inglês, embora sobretudo para estrangeiro (árabe, americano, russo) desfrutar, já que ingleses muito poucos. Aliás, a qualidade média dos hóspedes afigurou-se-me alarmante, o que, pelo menos em parte, não pude deixar de atribuir ao meu feitio antiquado e pouco maleável.

Além de Londres, estivemos também em Windsor, onde por pura sorte se desenrolava a Procissão do “Garter Day 2013” (dia da Ordem da Jarreteira, numa tradução livre). Ordem Militar de Cavalaria Britânica essa fundada pelo Rei Eduardo III no século XIV, de que o Soberano de Inglaterra é Grão Mestre, com apenas 25 membros e que tem como lema a famosa frase “honi soit qui mal y pense”, por ele proferida num episódio que ficou celebre. Um extenso e admirável cortejo a pé, em que se incorporam os Cavaleiros Militares de Windsor, marchando aos pares nos seus magníficos uniformes, os Oficiais de diversas armas, os tais Cavaleiros e Senhoras dessa Ordem, soberbamente vestidos nos mantos de veludo azul escuro e, claro, a Rainha, vários membros da Família Real e da realeza, entidades eclesiásticas e militares, os guardas da Rainha etc… Participa também a banda musical que, além do hino, vai interpretando marchas militares mais ou menos conhecidas, que a multidão presente acompanha com assinalável afinação. Tudo com uma apresentação, organização, rigor e bom gosto que só mesmo visto. Os ingleses gostam, respeitam e mantêm as suas ricas tradições e a sua história, qualidade distintiva que bastante aprecio.

A Procissão termina com um serviço religioso na Capela (de São Jorge), que apenas adivinhamos, designadamente pelo Te Deum que se vai ouvindo. O regresso dos principais personagens ao Castelo também é interessante, feito em carruagens puxadas por cavalos vibrantemente saudadas pelos presentes.

Uma das músicas/marchas tocadas na ocasião foi esta de Sir Edward Elgar, compositor inglês da 2ª metade do século XIX/1ª metade do X, expoente duma época em que o império britânico era especialmente forte e marcante.

Espero que gostem.

fq


segunda-feira, 24 de junho de 2013

comércio

há muitos, muitos anos,
no tempo em que íamos juntos
ao cinema e ao teatro,
a cidade era ainda feita
de nervo e de carne-viva,
sobressaltada matéria solar.

neste tempo em que nada já
nos faz saltar o arame-farpado,
cinemas e teatros são só memórias,
polaroids de figuras extintas,
exactamente como tu,
exactamente como a nossa carne.

os livros que agora lemos,
cada qual em sua distante latitude,
são a cerimómia possível,
alta cultura para corações baixos,
esconjuro destes lutos vários
que carregamos ao peito.

não espanta que a feira de outrora
seja apenas uma superfície comercial,
carrossel ridículo de cheiros coloridos
e de "hits" literários à espera da televisão.

livros, teatros, cinemas - tu e eu -
uma desconsolada irmandade de "has beens",
cartazes descolorados pelo tempo
e pelo manto da mais fria estação.

aquilino e camilo são gigantescos "pop ups",
inabitadas ilhas desertas cercadas 
pela espuma e pela ferrugem.

letras mortas que a maré traz.

gi.

domingo, 23 de junho de 2013

12º Domingo do Tempo Comum


EVANGELHO – Lc 9,18-24

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Um dia, Jesus orava sozinho,
estando com Ele apenas os discípulos.
Então perguntou-lhes:
«Quem dizem as multidões que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns, João Baptista; outros, que és Elias;
e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou».
Disse-lhes Jesus:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu:
«És o Messias de Deus».
Ele, porém, proibiu-lhes severamente
de o dizerem fosse a quem fosse
e acrescentou:
«O Filho do homem tem de sofrer muito,
ser rejeitado pelos anciãos,
pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas;
tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».
Depois, dirigindo-Se a todos, disse:
«Se alguém quiser vir comigo,
renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz todos os dias e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
salvá-la-á».

***

Todos os caminhos que fazemos com alguém têm  sempre encruzilhadas. São momentos e situações de escolha, que comprometem a ir juntos mais além, ou deixam cada um seguir vias diferentes. Em Cesareia de Filipe Jesus provoca um desses momentos. Com a aparência de um inquérito interpela os discípulos sobre a sua identidade. Gosto de imaginar este momento com a densidade dos apaixonados que se perguntam: “quem sou eu para ti?” Se foi importante saber as opiniões diversas que circulavam sobre Jesus, creio que foi essencial, para Ele, saber o que pensavam os seus amigos. E a resposta de Pedro tem um sabor doce e amargo: doce pois reconhece n’Ele o salvador, mas amargo, porque as ideias de salvação eram (e às vezes ainda são) muito distorcidas. 

As perguntas de Jesus foram duas mas uma terceira poderia ser colocada: quem dizem hoje as multidões que são os discípulos e amigos de Jesus? Quem não conhece o evangelho, e não tem nenhuma base religiosa, acaba por saber de Jesus apenas aquilo que transmitimos. E não são as diferentes opiniões àcerca de Jesus que originam as maiores confusões: são as atitudes que podem ser tão diferentes e, às vezes, pouco evangélicas. Pois o confronto com o evangelho será sempre o maior critério de autenticidade, e se até entre os discípulos, logo na igreja nascente, surgiram opiniões diversas àcerca de Jesus e da missão, o que ninguém punha em dúvida era o essencial do mandamento do amor, a centralidade dos pobres e a adoração a Deus em espírito e verdade.

Após a resposta de Pedro Jesus faz o primeiro anúncio da sua paixão. Os evangelhos sinópticos referem-no e Lucas concretiza ainda mais este seguimento de Jesus: “tome a sua cruz todos os dias e siga-me”. É verdade que não é aliciante esta linguagem da cruz, quantas vezes revestida de um dolorismo e de uma apologia do sofrimento, que têm tão pouco a ver com a libertação que Jesus traz. A cruz relaciona-se directamente com a autenticidade, com a vida dada por amor e dada até ao fim. Significa abraçar a totalidade do nosso ser, a fragilidade de criaturas e a grandeza de ser amados. Jesus não convida ao sofrimento mas a ultrapassá-lo pelo amor e a vencer as suas causas no empenho pela justiça, na coragem da verdade e da paz   

 Vivemos dias difíceis em Portugal e no mundo: guerra na Síria, manifestações na Turquia e no Brasil, greves e conflitos na educação no nosso país. Explicações? Muitas, e talvez em todas a mesma pergunta feita pelas populações aos governantes e que os governantes deviam fazer aos seus concidadãos: “Quem dizeis vós que nós somos?” Por aqui, ainda que muito de errado precise ser corrigido em direitos e benefícios extravagantes, também no campo da educação, desgosta-me o desprezo generalizado a quem abraçou o serviço de ensinar e é avaliado como mero parafuso de uma engrenagem. Afinal, talvez Jesus nos pergunte: “quem dizemos nós o que somos uns para os outros?”

P. Vitor Gonçalves
in Voz da Verdade 23.06.2013   

sábado, 22 de junho de 2013

Pensamentos impensados


Música
Pode fazer-se um acorde com uma só nota? Pode.
Chega-se ao pé dum tipo que esteja a dormir e grita-se ACORDE.

Mecânica
Empurrar um automóvel para que ele pegue chama-se auto-ajuda.

Bola
Com a época do futebol à porta, anuncio que tenho habilitações para treinador não executivo.

Política
Ouvido na TV: o partido está unido. Será que usaram super cola?

Dermes
Os crocodilos chamam-se assim por terem a pele crocante.

SdB (I)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Da tristeza

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Sou um homem dado a nostalgias.

Sou apreciador de uma música que muitos consideram deprimente, porque o fado e a música clássica triste podem parecer isso.

Gosto muito do Outono, dos dias que morrem mais cedo, dos nevoeiros ao som da ronca, das árvores abandonadas de folhas, do princípio da terra a cheirar a molhado.

Invejo algum isolamento. Gosto de grandes silêncios, de penumbras, das horas perdidas a olhar para uma paisagem que não acaba, do tempo que se despende a ver um mar que não se esgota nem se repete.

Não fujo do que me entristece ou me comove ao ponto das lágrimas; não procuro o bulício por gosto ou por defesa.

Há em mim, estou certo, uma dose grande de propensão para aquilo que muitos chamarão tristeza, neurastenia, falta de divertimento, carácter maçador, o que quer que seja. Para minha defesa – caso dela necessitasse – não apresento aliados poderosos a não ser o que mostro de mim, pese embora as escolhas que não se coadunam com o espírito da era moderna. De alguma forma sou o que fui consistentemente: um velho. Talvez tenha nascido assim, num desajuste frequente a uma época que nem sempre foi  a minha.

De há um tempo para cá venho conversando com uma pessoa por quem tenho uma amizade muito recente e que atravessa momentos pessoais menos pacíficos. Entremeia as conversas comigo – que eu aprecio pela abertura mútua – com as consultas num profissional. Contava-me um destes dias que o técnico (um alemão) lhe recomendara a escuta de fado para sentir a tristeza, para ir ao fundo da sua própria alma. E que remata o argumentário com a frase lapidar, talvez mesmo inesperada: já chorou hoje? O choro como terapia, portanto. Ou, talvez apenas, o choro como não repulsa.

Não saberia discorrer tecnicamente sobre este tema. Não sou especialista na arte, embora não desdenhasse ser nova-iorquino para que um psiquiatra por conta não fosse ideia que chocasse os outros. Olho à minha volta: há uma espécie de horror à tristeza como a natureza sempre o teve ao vácuo. As pessoas procuram com desvairo a folia, o riso, o ruído, as multidões, os grupos. Fogem da introspecção, das conversas a dois, da exposição da alma, das lágrimas furtivas, das confissões libertadoras ou das perguntas que se adentram no coração alheio. As conversas são feitas de monólogos, de afirmações que se proferem e de informações que se prestam, de histórias de sol e de neve. Devia ser só isto? Não, mas não tinha de ser só isto.   
   
Não faço a apologia da tristeza, não só porque não saberia defender a minha dama, como não me parece que seja uma aposta permanentemente certa. E, no entanto, estou absolutamente certo de que há por aí muito boa gente a precisar de tristeza, a necessitar de ouvir fado, a carecer de diálogos onde impere a intimidade e a partilha. A Amália canta-nos que o riso é sempre o começo/do sorriso que findou, a vida ensina-nos que quem foge sistematicamente ao choro fará uma vida a olhar por trás do ombro. A fuga é uma sombra que nos persegue. Talvez precisemos todos de mais tristeza, não para chorar, mas para perceber o que chorar faz por nós.

JdB

Nota: Com a devida autorização, junto um pequeno mas magnífico texto que mão amiga me redigiu na sequência de uma interpelação sobre esta coisa da tristeza. Talvez eu devesse ter estado calado e ter-me ficado pela dissertação alheia. Sempre revelava algum juízo.

***

Choro nos intervalos da vida e também nos do cinema; durante, só e sempre na ópera.

A tristeza tem uma singular beleza. É um admirável estado de alma, é mais do que a insípida melancolia e menos do que a temida mágoa.

A tristeza entusiasma o espírito, incentiva a imaginação, gera a saudade, é a confidente do amor e a mãe da esperança.

Gosto de estar triste, sinto-me bem quando apoquentado por aquele ligeiro sofrimento que nos tira a indiferença a tudo e a todos, em especial a nós próprios. 

Gosto de estar triste porque gosto de me consolar, que me consolem, de me mimar e que me mimem.
Estar triste é esperar pela alegria que aí vem, é prezar o estar no apeadeiro.

Mas, sobretudo, gosto de estar triste porque não gosto de estar sozinho. A tristeza e a solidão são incompatíveis. Estar triste é um apaixonado diálogo com os outros, é querer os outros e dos outros.

Gosto pois do choro, mas temo o pranto que me arrepia e magoa.

Não sou, nem gosto de ser, triste. Ser triste é não ser amor. Estar triste é amar.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Diário de uma astróloga – [54] – 19 de Junho de 2013


Guia de Sobrevivência para Mercúrio Retrógrado


Da última vez que Mercúrio esteve retrógrado, postei um aviso no Facebook. Recebi inúmeras reclamações por o ter feito muito em cima da hora. Desta vez faço-o com antecedência:

Durante estes dias, e mesmo nos que são limítrofes deste período, as áreas regidas por Mercúrio – mente, comunicação, deslocações – sofrem problemas, obstáculos, estorvos. 
  
Como sobreviver:

ANTES:
  • Copie TODOS os documentos informáticos, copie o disco duro.
  • Antecipe conversas ou negociações delicadas.
  • Tome as decisões de compras que se avizinham.
  • Se ainda tem coisas a mandar pelo correio, faça a expedição imediatamente.

DURANTE: Como a vida não pára, muitas vezes temos que ter conversas importantes, assinar contratos, fazer compras inesperadas e viajar com Mercúrio retrogrado. Com estas pequenas indicações vai sobreviver muito bem este período tão temido, minimizando os obstáculos, contrariedades.

  • Se tiver que fazer uma compra importante, tipo electrodoméstico ou automóvel, assine um contrato de manutenção e verifique o seguro.
  • Não se espante se tiver problemas informáticos.
  • Quando falar com as outras pessoas fale claramente, repita – não é altura para meias palavras ou partir do princípio que o outro entendeu.
  • Nada de precipitações com o portátil – casos de apagar totalmente a lista de contactos têm sido registados.
  • Arme-se de paciência ao telefone porque pode muito bem não encontrar as pessoas com quem precisa de falar.
  • Verifique se endereçou correctamente os mails – casos de mail privado para “todos” têm sido reportados.
  • Se for andar de avião – leve leitura / joguinhos suficientes.
  • Arquive documentos e limpe a caixa de mail
  • Acabe os projectos que ficaram para trás, e
  • Aproveite para repensar decisão que vai tomar no futuro; Mercúrio no seu movimento directo volta a passar pela mesma zona do zodíaco.

Para além da sobrevivência
Poderá até tirar algumas vantagens porque à força de pensar e repensar, matutar sobre determinados assuntos pode ter ideias brilhantes que serão reveladas quando Mercúrio volta a um movimento directo! 

Mercúrio passa três vezes entre os graus 13 e 23 de Caranguejo / Câncer, no primeiro movimento directo, no movimento retrogrado e no segundo movimento directo. Por isso os assuntos deste signo e da casa onde cada um de nós tem estes graus são os mais sensíveis ao processo de repensar e de serem encarados com novos olhos.

A mim, Mercúrio Rx afecta a minha casa 7 que se refere ao outro, aos parceiros em relações íntimas e contractuais. Vou aproveitar esta época para repensar a minha relação com o meu marido… é bastante boa… mas porque não hei-de usufruir desta oportunidade que o Cosmos me concede para melhorá-la?

Luiza Azancot

terça-feira, 18 de junho de 2013

Duas últimas

Graças à generosidade de mão amiga, fomos sábado à noite ouvir Gershwin. O concerto, no anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian, já nos tinha sido fortemente gabado. Um atraso na decisão atirou-nos para a frase detestável quando queremos muito uma coisa: os bilhetes estão esgotados...

A noite não estava fantástica, mas, mesmo assim, francamente boa. "Sala" à cunha, com muitas crianças à mistura, sempre bem comportadas. O maestro, Jorge Matta, que nos dá o gosto da sua amizade, esteve à altura, como sempre. Interagiu com o público, pôs toda a gente a levantar-se como uma mola numa cenografia boa para os músculos. Acompanhei sem deslustrar... Também pôs a audiência a cantar mais do que uma vez. Eu também cantei, ainda que baixinho, porque nunca se sabe o impacto da minha desafinação.

O coro da Gulbenkian - ou pelo menos aquela fracção de coro - está soberbo. Entusiastas, competentes, animados. Os solistas idem idem. Ouvimos obras diversas, do repertório surpreendentemente vasto de um compositor que morreu aos 37 anos apenas. Deixo-vos com obras diversas, cantadas por cantores diversos. 

Cantem. E se tiverem um pouco de inveja da nossa ida não faz mal. Nem sempre é pecado... 

JdB

  






segunda-feira, 17 de junho de 2013

Vai um gin do Peter’s?


Até 25 de Junho, a grande escritora de origem judia, russo-ucraniana, naturalizada brasileira – Clarice Lispector – é tema de exposição na Gulbenkian(1),  adoptando o mesmo título da sua obra mais conhecida e tardia: «A Hora da Estrela».

Num conjunto de frases interpelativas, tiradas de vários dos seus livros, as paredes e as mesas do espaço expositivo, junto ao átrio da biblioteca, mostram o pensamento literário de quase 57 anos de vida, entre 1920 (num povoado ucraniano) e 9 de Dezembro de 1977 (no Rio de Janeiro, na véspera dos seus anos). Às citações de Clarice juntam-se fotografias, facsímiles, cartas da escritora e dos amigos, vários deles também escritores, como Erico Veríssimo~, Drumond de Andrade e tantos outros. Numa antecâmara escura, ao fundo, passa em looping uma entrevista que concedeu nos finais da sua intensa vida, onde atravessou muitas geografias. Uma amiga escritora brasileira – Nelida Piñon – definiu-a lapidarmente: «(No) rosto de Clarice convergiam aquelas peregrinas etnias que venceram séculos, cruzaram Oriente e Europa, até que ancoraram no litoral brasileiro, onde veio ela afinal tecer ao mesmo tempo o ninho da sua pátria e o império da sua linguagem. (…) Estava nela, sim, estampada a difícil trajectória da nossa humanidade, …» (p. 62 do Catálogo da mostra).


Oriunda de uma zona remota da Ucrânia, fugiu com a família à primeira vaga de perseguições aos judeus pós Revolução bolchevique, de que pouco ou nada se fala. O primeiro porto de abrigo foi Hamburgo, de onde a família Lispector rumou até ao Brasil (1922), para se instalar em Pernambuco, vivendo com enormes privações. Orfã de mãe aos 10 anos e de pai aos 20, Clarice completou os estudo com a leitura dos clássicos na biblioteca regional, onde se familiarizou com Dostoievski, Proust, Jorge Amado, Herman Hesse, Eça de Queiroz ou Machado de Assis.

Curiosamente, numa carta espantosa que, aos 21 anos, dirigiu a Getúlio Vargas, a pedir a obtenção da cidadania brasileira, autodefine-se como russa, sem se deter no rigor geográfico de ter nascido num local situado na Ucrânia.

No curso de Direito conheceu o marido, que veio a ser diplomata e a fez percorrer diferentes países, entre Itália (1944), Suíça, Inglaterra e EUA. Em 1959, divorcia-se e instala-se, definitivamente, no Rio, onde traduz, faz reportagens e edita livros e contos, em contínuo. Inúmeras vicissitudes tornaram a sua vida marcada pelo sofrimento: desde a extrema carência na infância, ao incêndio provocado por adormecer com um cigarro aceso quando já vivia sozinha no Rio, que lhe deixa marcas nas mãos e em várias partes do corpo, a esquizofrenia de um dos filhos, que precisou de ter internamentos, etc. Nem ao ataque do seu cão Ulisses foi poupada, sendo obrigada a submeter-se a uma cirurgia plástica à cara. Sobretudo, a sua atitude reflexiva e inquieta, com um olhar bem pessoal sobre tudo o que a rodeia, denuncia uma personalidade atormentada e envolta em grande solidão interior, apesar da animação social e dos inúmeros amigos que a acarinham.   

Com o marido, Maury Gurgel Valente, Apolonio de Carvalho,
 Samuel Wainer e Daniel, cunhado de Apolonio. Paris, 1946.

Fazendo jus às suas raízes judaicas, pensa, escreve e pinta (nos dois últimos anos de vida) out of the box, com notável coragem, sem se furtar à constante auto-avaliação. A frontalidade algo áspera é das suas imagens de marca. Por exemplo, quando o entrevistador a interpela por ser popular entre os universitários, responde, sem rodeios, que a sua obra é de estudo obrigatório nos meios académicos! Percebe-se que isto não a honra, de tal modo é avessa a obrigatoriedades, mais ainda em terrenos onde aprecia o exercício da liberdade pessoal, como na escolha das leituras.

Exprimindo-se num estilo cristalino, maximamente depurado, com um mínimo de truques, privilegia a simplicidade na comunicação. Também na entrevista, as respostas são directas e sumárias, sem se alongar para além do estritamente necessário, como diz a dada altura: (quero) falar o menos possível. Tudo reduzido ao essencial, no osso. Nem sequer tem a preocupação de se explicar ou de defender posições. Prefere partilhar as dúvidas que a percorrem, a ensaiar respostas simplistas para as grandes questões da vida, num exercício que leva ao extremo. São suas as frases: «Sinto que sou muito mais completa quando não entendo» ou «O que parece a falta de sentido é o sentido» ou ainda «Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.» Questiona tudo! Até doer! Também nesta exploração quase obsessiva e profunda, crivada de combatividade e desconforto psicológico, revela o seu legado judeu.

Não se pense que seria pouco afectiva. Bem ao contrário. Nas cartas ao filho mais velho, que foi estudar para os EUA (1969), remata com imensa ternura: (dactilografado) «Deus te proteja e te guie, meu filho adorado. De sua mãe que o quer cada vez mais,» (manuscrito, como assinatura): «mamãe». Na lista de afazeres agendados para o dia mistura alíneas como: «2.luvas, … 5.ginástica, 6. Você magnética, 7. Morangos pessoa de idade, (…) 9.dar paz ao rosto».

O seu aguçado sentido de justiça fá-la correr sempre em defesa dos mais pobres, procurando dar-lhes voz. Na entrevista, desabafa que escreveu vários contos sem perceber como. Logo exemplifica com um, inspirado na morte de um criminoso brasileiro, baleado pela polícia com 13 disparos. Explica-nos a sua revolta: Qualquer que fosse o crime, uma bala bastava para matar o mineirinho (alcunha do cadastrado). Mais que uma bala é vontade de matar por matar! A primeira bala eu percebo, a segunda me questiona, a 12ª me atinge, a 13ª sou eu, partilhando a condição desprotegida do alvo de tanta carnificina perpetrada pelas forças de autoridade. Não por acaso, auto-descrevia-se assim: «Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco.»


Ler e escrever foram duas aprendizagens simultâneas, segundo nos conta, tendo uma peça escrita aos 10 anos de idade, intitulada «Pobre menina rica», e vários outros textos, desde os 7 anos.

Experimentalista e invadida por catadupas de interrogações, que a parecem assaltar a cada momento, vagueou por variados modus vivendi, algo à deriva, até se aventurar nos expedientes mais populares (e hiper disseminados pelo Brasil do candomblé) da cartomancia e até da bruxaria, num sub-continente onde coabitam religiões (cristã e de outros credos) com superstições ancestrais de sabor africano e dos índios da Terra de Vera Cruz. Mas tudo isto a par de uma certeza profunda do divino: «A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. (…) Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.»

Enquanto não correm até à Gulbenkian, onde se recomenda o próprio catálogo da exposição, com testemunhos bem interessantes de quantos se cruzaram com Clarice (ex: Caetano Veloso, Nelida Piñon), nada melhor para conhecer quem escreve do que passar-lhe a palavra:
o   «A arte, imagino, não é inocência, é tornar-se inocente.»
o   «O que atrapalhar ao escrever é ter de usar palavras.» (in Água Viva)
o   «(…) Escrevendo, pelo menos, eu pertencia um pouco mais a mim mesma.» (in À Descoberta do Mundo)
o   «Ver é a pura loucura do corpo.» (in Água Viva)
o   «… a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.»
o   «A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e não a acho.» (in A Paixão Segundo G.H.)
o   «Alegria de encontrar na figura exterior (reflectida no espelho) ecos da figura interna. Ah, então, é verdade não me enganei, eu existo.» (in À Descoberta do Mundo)
o   «Com perdão da palavra sou um mistério para mim.» (in À Descoberta do Mundo)
o   «Quero escrever-te como quem aprende. Fotógrafo (de) cada instante.» (in Água Viva)
o   «Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.»
o   «Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.»
o   «Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.»
o   «Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.»
o   «Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.»
o   «Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...]»
o   (Declaração de amor à língua portuguesa, na abertura da exposição) «Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter subtilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo. (…) Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega. (…) Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.» (in À Descoberta do Mundo)
o   «Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade.» (in A Paixão Segundo G.H.)
o   «Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.» (in Perto do Coração Selvagem)


Os dias à beira-mar, que aí vêm, convidam a ler. Clarice Lispector, no seu estilo incisivo e sincero, é uma boa opção, apesar de pairar sobre os seus escritos uma certa mágoa e angústia funda, que brotam de uma alma agitada, sem paz, apostada numa busca intrépida que nos ajuda a repensar tudo, a começar pelo dom da vida, magistralmente abordado pela escritora: «Meu cão me ensina a viver. Ele só fica ‘sendo’. (…) E ser é a minha mais profunda intimidade.» (in Um Sopro de Vida); «E descobri que não tenho um dia-a-dia. É uma vida-a-vida. E que a vida é sobrenatural.»  


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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 (1) http://www.gulbenkian.pt/object160article_id4117langId1.html. De 5 abr 2013 a 23 jun 2013  |  10:00 - 18:00  |  Encerra às segundas, junto ao átrio da biblioteca – na Galeria de exposições temporárias do Museu Gulbenkian.

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