quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Textos dos dias que passam

Os capotes russos

«Muitos dos capotes russos distribuídos aos pobres têm um pequeno remendo no peito ou nas costas. Um pequeno remendo redondo que fecha o buraco através do qual entrou uma bala e saiu uma alma.

O meu capote tem um pequeno remendo precisamente no lugar do coração. Está bem cozido e de pano grosso, mas no pequeno buraco que cobre entra um subtil sopro de ar gelado, mesmo quando não há vento. E o coração dói, perfurado por esse alfinete de gelo.»

No seu “Diário clandestino” (1946), o escritor italiano Giovanni Guareschi conta este episódio da sua experiência durante a guerra na Rússia.

O aspeto simbólico é evidente: aquele pequeno remendo atinge o coração de quem está vivo, trespassando-o com o alfinete da memória, da solidariedade, do amor por quem está morto, mas vive através daquele dom.

Na verdade, todos, de certa maneira, trazemos o capote protetor de um outro que já não está entre nós. Recebemos em herança preciosa não tanto alguns bens de quem nos precedeu, mas sobretudo alguns valores que aquecem a alma, mais do que quanto pode fazer um tecido ou um muro para o corpo.

Já escasso é o reconhecimento que temos por aqueles que nos apoiam e nos ajudam agora em vida. Bem mais desvanecida (se não extinta) é a gratidão por quem nos amou no passado e agora está distante de nós.

Com efeito, recebemos dons de afeto, de estima, de ensinamento, de valores, que revestiram a nossa vida, deram-lhe frémito e calor. Mas a nossa superficialidade sepultou tudo no esquecimento.

Na narrativa de Guareschi há, porém, outro aspeto a sublinhar. Cada morte pode ser uma semente de vida, como dizia Jesus do grão de semente. Mas para que isso aconteça, é preciso ter vivido deixando atrás de si um rasto de luz, de generosidade, de bondade, de amor.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 26.02.2019

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

O CINEMA ESCOLHEU-O POR MUSICAR BEM O SOM DA REALIDADE – ENNIO MORRICONE 

Há 90, nasceu em Roma o grande músico Ennio Morricone, que se considera – antes de mais e acima de tudo – «cidadão romano» («civis romanus sum»), sublinhando-o como forma de estar na vida. É no sossego do escritório que escrevinha as partituras, quase sem ver vivalma até completar a empreitada. Só se ausenta da Cidade Eterna para cumprir obrigações no estrangeiro. De resto, adora viver com a sua «mentora» (sic) e mulher, num palacete junto à magnífica Praça de Espanha e Trinitá dei Monti.

Leitura atenta de uma partitura no seu palacete romano. O piano domina um enorme compartimento de estilo barroco, mas é sentado à secretária que compõe com sofreguidão e disciplina férrea, aproveitando as manhãs. Em mais novo, respondia à encomenda para um filme, numa semana. Agora, já precisa de um mês.

Embora seja conhecido pela produção prolífica, conseguindo a proeza de compor para um filme no espaço de uma semana, diz que comparado com Mozart ou Bach perde em toda a linha, incluindo no ritmo de trabalho frenético. 

Morricone teve a inteligência e ousadia de trazer a realidade para a música: «Eu gostava de trabalhar o som da realidade, o que ouvimos todos os dias. Esses ruídos que nos cercam têm a sua própria música e [por isso, os realizadores] poderiam obter outra [banda sonora] comigo.» Aliás, precisa que escreve música para o cinema, e não tanto ‘bandas sonoras’. 

O gosto pela música tinha-lhe sido incutido pelo pai, que o ensinara a ler as pautas e lhe oferecera uma trompete com a responsabilidade de quem estava a passar o testemunho à nova geração. O momento mereceu uma declaração solene: «Criei a minha família com este instrumento. Tu farás o mesmo com a tua». Aos 12, Ennio entrou no Conservatório de Santa Cecília, para dali sair formado no instrumento oferecido na infância, além de composição e música coral. O piano tornou-se no segundo instrumento da sua expressão musical. 

Compositores de referência? Não se fixa em nomes, por ter ficado vacinado pela paixão de um colega talentoso, cuja criatividade acabou tolhida pelo fascínio que nutria pelo génio renascentista Giovanni de Palestrina. Ennio, ao invés, confessa-se apreciador de muitos e de diferentes épocas, incluindo o rock (caso claro com os Pink Floyd), mas evitou apaixonar-se por uma figura maior da história. Como típico italiano, cultivou um estilo muito pessoal e poucas vezes cedeu às alterações pedidas pelos que lhe encomendavam as obras. No cinema, os exemplos multiplicaram-se, a começar pelo realizador amigo que o lançou na Sétima Arte – Sergio Leone.       

Tinham-se conhecido nos bancos da escola. Depois de Leone ouvir os primeiros êxitos de Ennio, passados no media mais popular da época – a rádio – e de assistir ao primeiro filme que musicara, não hesitou em desafiá-lo para compor as bandas sonoras dos seus western spaghetti. Após dois, de enorme sucesso, Morricone pediu um interregno, porque temia tornar-se repetitivo. Mais tarde, retomou a parceria, que se estendeu ao famoso «Era uma vez no Oeste» (1968) e ao premiado «Era uma vez na América» (1984).

Em 1968, a introdução de apitos e de outros sons recriaram com uma nitidez invulgar o ambiente do faroeste. A ponto de Leone reconfigurar parcelas do filme segundo a sonoridade extraordinária de Morricone. Por exemplo, na abertura, em que um bando de pistoleiros espera o homem da gaita (Charles Bronson) para o assassinar, Leone mudou a posição da câmara e todo o plano da cena. Com a ajuda da música de Ennio e do excelente desempenho de Eastwood, o realizador italiano acabou por revolucionar os western. Esta recriação do faroeste por Morricone consta de outra película de Sergio Leone -- «The Good, the Bad and the Ugly», interpretada pela Orquestra Sinfónica Nacional da Dinamarca: 



Pelo caminho, Morricone compôs para Bertolucci («1900»), Pasolini e outros conterrâneos, até que a fama chegou a Hollywood, que começou a bombardeá-lo de encomendas. Sucederam-se décadas de novos projectos e novos êxitos com Terence Malik, John Carpenter, Roland Joffé («A Missão», 1986), Tornatore («Cinema Paraíso», 1987), Almodóvar, Franco Zeffirelli, Brian de Palma («Os Intocáveis», 1987), Oliver Stone , Warren Beatty e, mais recentemente, Tarantino («The Hateful Eight»), que lhe valeu o primeiro Óscar de Banda Sonora (2016). Nem a géneros mais diversos se esquivou, musicando filmes de terror: «Exorcista II» (1977) e «O Enigma do Outro Mundo» de John Carpenter. Também compôs para rockers (Pet Shop Boys), para o tenor Andrea Bocceli e é referência dos Metallica, Radiohead, Bruce Springsteen, Arctic Monkeys. Os U2 dedicaram-lhe «Magnificent», do álbum «No line on the horizon».  

Até no futebol Ennio marca presença, pois é ao som do tema central de «Era uma vez no Oeste» que o Real Madrid guarda um minuto de silêncio, no Estádio de Santiago Bernabeu.


Traduzir a sua carreira em números é impressionante: compôs para mais de 500 filmes e séries de televisão, das quais 60 foram premiadas. Os galardões também se acumularam, embora Óscares só conte 2, sendo um de carreira (2007), recebido das mãos de Clint Eastwood. Somou Baftas, Leões d’Ouro, Globos de Ouro, Diapasão d’Ouro e até o Nobel da música – o Polar Music Prize – a par da islandesa Björk, em 2010:

O prémio foi criado, em 1989, pelo letrista e manager dos Abba –  Stig Anderson, para distinguir figuras que fizeram progredir a produção musical.

Tarantino apelidou-o de Mozart da actualidade: «As far as I'm concerned, he's my favorite composer. And when I say favorite composer, I don't mean movie composer, that ghetto. I'm talking about Mozart, Beethoven, Schubert. That's who I'm talking about». 

Discorrendo algumas das árias emblemáticas: uma curta-metragem pelos canais de Veneza flui ao som da ária principal de «Cinema Paraíso». Regido pelo próprio Morricone, reporta-se ao concerto decorrido a 10 de Novembro de 2007, na cidade mais oriental de Itália:



O tema maior de «Missão» é outro colosso musical, com letra escrita pela mulher:



E ainda uma dupla fantástica – Yo-Yo Ma a tocar Morricone – numa hora de música que sabe a pouco: 



Mais raro que o talento artístico, Ennio consegue também ser craque noutro campeonato, eloquente do seu carácter sólido e íntegro. Aqui entra um rosto feminino, que ele escolheu há perto de 70 anos. Logo que a conheceu, apaixonou-se por Maria Travia, que não lhe correspondeu, segundo contou ao Corriere della Sera, numa entrevista antiga [citada em espanhol(1)]: «‘Nos conocimos en Roma en el Año Santo: 1950. Era amiga de mi hermana Adriana.´ El compositor se enamoró inmediatamente de Travia, pero ella quiso esperar. Fue un cruel giro del destino [desastre de automóvel] lo que sellaría su amor para siempre.» Morricone aproveitou a longa convalescença dela, a recuperar de um acidente grave, para a conquistar: «dia a dia [à sua cabeceira], gota a gota, fiz que se apaixonasse por mim». Já diz tudo, o empenho em conquistar alguém imobilizado numa cama, semanas a fio. Não se considera um romântico, mas ligado a Maria por razões fundas, que permanecem e aguentam a passagem do tempo. Sublinha o fio condutor da sua relação, desde o casamento, a 13 de Outubro de 1956:  «No amor, como na arte, a constância é tudo. Não sei se existe amor à primeira vista ou intuições sobrenaturais. Mas sei que a consistência e a seriedade sim. E, obviamente, a lealdade.» Gradualmente, a relação do casal estendeu-se também à parceria intelectual e artística, porque Maria tem escrito as letras das árias mais conhecidas e é o primeiro crivo das suas composições. Se as chumba, Ennio descarta-as liminarmente, não sendo sempre tão dócil com a opinião de realizadores e de outros patrocinadores da sua obra. Curiosamente, Roger Waters, dos Pink Floyd, funde o retrato humano com o artístico, dizendo de Morricone: «[é] um génio, um senhor, um ser humano maravilhoso».

Os media são os primeiros a lembrar a referência maior e mais constante nos discursos de Morricone –  Maria Travia. No discurso do Óscar de 2016, repetiu o esperado: «Dedico-o à minha esposa, Maria, e minha mentora».

Aos 90, Ennio continua a inovar. Em 2019, percorrerá grandes palcos internacionais para ir ao encontro dos milhões de europeus que o conhecem das salas de cinema, à parte dos italianos, que o ouvem com regularidade em concertos regidos pelo próprio, por todo o país. Em 2011, no dia de Itália (4 de Novembro), tive a sorte de o ouvir conduzir a Orquestra Roma Sinfonietta, na Piazza del Popolo! Até a noite estrelada e morna ajudou a essa festa memorável.

A 6 de Maio, estará em Lisboa para saborearmos, junto ao Tejo, o génio que ousou preencher a sua música com realidade! O que torna ainda mais extraordinário ser tão tranquila, nostálgica e subtil, seguindo a sua fórmula preferida para enriquecer um filme: «entrar em cena silenciosamente, sem que o ouvido do espectador se aperceba e sair do mesmo modo suave e discreto.» Intui-se que aquele som lindo cruzou o coração de um grande senhor e grande artista.


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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 (1) Citado na revista Vanityfair (www.vanityfair.es) de 8 de Janeiro de 2019, num artigo de Mónica Parga.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Da privacidade e do povo Sakalava

Há uma linha quase imperceptível que une as redes sociais ao povo Sakalava, de Madagáscar: essa linha chama-se privacidade - e ambos (tribo e redes) estão do mesmo lado da barricada, o lado que diz não à privacidade, ainda que por motivos diferentes. 

Para os Sakalava, dizem-me, as cercas são desaprovadas, as portas são um tabu e as pessoas passam a maior parte do tempo fora de casa. Nesta tribo, secretismo e separação indicam, no mínimo, falta de generosidade. E se alguém pretende manter-se escondido e quieto num espaço não público é porque está a tramar alguma. A escuta, esse hábito que tem tanto de pernicioso como de interessante, faz parte do instinto de sobrevivência desta gente. 

As redes sociais mataram, penso já o ter dito de forma maçadora neste estabelecimento, uma certa de ideia de privacidade. Mas foram mais longe no seu furor destrutivo: a morte da privacidade foi acompanhada pela morte de um certo interesse pela vida do próximo. Hoje subsiste a curiosidade, que é um parente pobre, e quiçá bastardo, do interesse. E desapareceu, sobretudo, o conceito de interesse militante, aquele que nos leva a perguntar, a querer saber, a dar tempo para que uma resposta nos chegue aos ouvidos. Hoje tudo é disponibilizado, nada é indagado. E a ideia de que ser é ser percebido é substituída pela ideia de que mostrar é ser percebido. Hoje tudo chega por via de um telefone: quem veste o quê, quem foi pai de quem, que restaurantes estão na moda, que cursos estamos a frequentar, o que jantámos na semana passada ou onde estivemos ontem - ou onde estamos naquele preciso instante. Já não existe a pergunta onde foste? porque se presume que não estando nas redes sociais não tem interesse. Ou não tem existência, que é o mesmo.  

O problema, obviamente, não está nas redes sociais, mas na utilização que lhes damos. O telemóvel é um artigo pessoal, tal como um sapato. Mas se este não impede a conversação, aquele sim. No telemóvel está tudo - e o que não está lá não tem valência utilitária, não justifica uma atenção. O isolamento promovido pela utilização (quase) obsessiva do telemóvel para consultar o facebook, o instagram, o whatsapp, impede a conversa, e nesse afundamento de uma arte milenar condena-se também o ponto de interrogação, esse pequenino sinal gráfico que abre as portas ao comércio entre as pessoas. Não perguntamos, porque temos informação crucial (e virtual) que chegue e, com isso - ou por causa disso - matamos mais um pouco das competências sociais que nos vão restando. Sabemos tudo de toda a gente, mas não perguntamos nada a ninguém. Ao contrário do povo Sakalava, a nossa falta de privacidade destrói. E talvez torne obsolescente a utilização da voz como elemento de comunicação entre as pessoas.

Olhemos para a História: é verdade que algo se perdeu quando a vida dos Homens começou a fazer-se em casas com paredes e portas fechadas. Ouvirmo-nos uns aos outros, sabermos que nós próprios somos ouvidos pode ser uma fonte de conforto, mais do que de ansiedade; de confiança, mais do que de medo. Assim o reconheceu uma habitante de Londres que, no final do séc. XIX, reportava todos os sons que ouvia no seu prédio: a senhora do primeiro andar que a horas certas lava o fogão, o senhor do segundo andar que pede chá e uma torrada, a criança que chora mais acima ou as conversas das manhãs preguiçosas. O som ambiente pode ser reconfortante, pode dar-nos a sensação de não estarmos sozinhos. Porém, ao contrário desta londrina que identificava as rotinas do prédio pelos sons humanamente audíveis, a modernidade tecnológica eliminou o som que permitia o equilíbrio fino entre privacidade e ausência de. A privacidade desapareceu, mas cada um vive barricado no seu forte insonoro. Identificamos as rotinas sem ver nem ouvir.

Num certo sentido, entre o nosso mundo e o do povo Sakalava talvez não haja diferenças substanciais. Para a tribo malgaxe a ausência de privacidade significava a manutenção da vida; para o mundo ocidental talvez seja, pelo contrário, o fim de uma certa vida.  

JdB

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Textos dos dias que correm *

Somos como o filho pródigo que dissipou a herança do pai: Penitência no encontro sobre a proteção de menores na Igreja

Todos conhecemos a parábola do filho pródigo. Repetimo-la muitas vezes, e muitas vezes fizemos homilias delas. Ela é dada praticamente como adquirida nas nossas congregações e nas nossas comunidades: é narrada aos pecadores para os induzir ao arrependimento. Talvez o façamos tão rotineiramente, que esquecemos uma coisa importante. Esquecemo-nos facilmente de aplicar esta Escritura a nós próprios, para vermos como somos, isto é, filhos pródigos.

Precisamente como o filho pródigo do Evangelho, pedimos a nossa parte da herança, a recebemo-la, e agora estamos diligentemente a dissipá-la. Esta crise dos abusos é uma expressão disso. O Senhor confiou-nos a administração dos bens da salvação, confiando que cumpriremos a sua missão, proclamaremos a Boa Nova e contribuiremos para estabelecer o Reino de Deus. Em vez disso, o que fazemos? Fazemos justiça ao que nos foi confiado? Não poderemos responder a esta pergunta com um “sim”, disso não há dúvida.

Demasiadas vezes ficámos parados, olhámos para o outro lado, evitámos conflitos – estávamos demasiadamente comprazidos para nos confrontarmos com o lado escuro da Igreja. Por isso traímos a confiança que nos tinha sido depositada, em particular no que diz respeito ao abuso no âmbito da responsabilidade da Igreja, que é substancialmente a nossa responsabilidade. Não garantimos às pessoas a proteção a que têm direito, destruímos a esperança e as pessoas foram brutalmente violadas no corpo e no espírito.

O filho pródigo do Evangelho perde tudo: não só a sua herança, mas também o seu estado social, a sua boa posição, a sua reputação. Não nos devemos surpreender se nos coubesse um destino semelhante, se as pessoas falam mal de nós, se há desconfiança em relação a nós, se alguns ameaçam retirar o seu apoio material. Não devemos lamentar-nos disso; antes, devemos perguntar-nos o que deveremos fazer de maneira diferente. Ninguém se pode eximir, ninguém pode dizer: mas eu, pessoalmente, não fiz nada de mal. Nós somos irmãos (no episcopado), e não somos responsáveis só por nós próprios, mas também por cada um dos outros membros da nossa irmandade e pela irmandade em si mesma.

O que devemos fazer de maneira diferente, e por onde devemos começar? Olhemos ainda o filho pródigo do Evangelho. Para ele, a situação começa a melhorar quando decide ser muito humilde, quando decide realizar tarefas muito simples e não pretender qualquer privilégio. A sua situação muda quando ele se reconhece e admite ter cometido um erro, confessa-o ao pai, fala disso com ele abertamente e está pronto a sofrer as consequências. Desta maneira, o Pai experimenta a grande alegria pelo regresso do seu filho pródigo, e ajuda a fazer com que os irmãos se aceitem mutuamente.

Seremos capazes de fazer isto? Queremos fazê-lo? O atual encontro revelá-lo-á, deve revelá-lo se queremos demonstrar que somos dignos filhos do Senhor, o nosso Pai celeste. Como escutámos e discutimos hoje e nos dois dias anteriores, isto implica assumir responsabilidade, dar conta do dever de prestar contas e instituir a transparência.

O caminho diante de nós para concretizar verdadeiramente tudo isto de maneira sustentável e apropriada é longo. Obtivemos vários progressos caminhando a diferentes velocidades. O encontro atual foi apenas um passo de muitos. Não acreditamos que só porque começámos a mudar alguma coisa entre nós, todas as dificuldades estão eliminadas. E como para o filho do Evangelho que regressa a casa, nem tudo está resolvido – pelo menos terá de reconquistar o seu irmão. Nós deveremos fazer a mesma coisa: devemos reconquistar os nossos irmãos e irmãs nas congregações e nas comunidades, reconquistar a sua confiança e voltar a obter a sua disponibilidade para colaborar connosco, para estabelecermos juntos o Reino de Deus.


* D. Philip Naameh, arcebispo
Presidente da Conferência Episcopal do Gana
Intervenção na celebração penitencial do encontro "A proteção dos menores na Igreja", Vaticano, 23.2.2019
Trad.: Rui Jorge Martins 
Publicado em 23.02.2019

domingo, 24 de fevereiro de 2019

VII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 6, 27-38

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus falou aos seus discípulos, dizendo:
«Digo-vos a vós que Me escutais:
Amai os vossos inimigos,
fazei bem aos que vos odeiam;
abençoai os que vos amaldiçoam,
orai por aqueles que vos injuriam.
A quem te bater numa face, apresenta-lhe também a outra;
e a quem te levar a capa, deixa-lhe também a túnica.
Dá a todo aquele que te pedir
e ao que levar o que é teu, não o reclames.
Como quereis que os outros vos façam,
fazei-lho vós também.
Se amais aqueles que vos amam,
que agradecimento mereceis?
Também os pecadores amam aqueles que os amam.
Se fazeis bem aos que vos fazem bem,
que agradecimento mereceis?
Também os pecadores fazem o mesmo.
E se emprestais àqueles de quem esperais receber,
que agradecimento mereceis?
Também os pecadores emprestam aos pecadores,
a fim de receberem outro tanto.
Vós, porém, amai os vossos inimigos,
fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca.
Então será grande a vossa recompensa
e sereis filhos do Altíssimo,
que é bom até para os ingratos e os maus.
Sede misericordiosos,
como o vosso Pai é misericordioso.
Não julgueis e não sereis julgados.
Não condeneis e não sereis condenados.
Perdoai e sereis perdoados.
Dai e dar-se-vos-á:
deitar-vos-ão no regaço uma boa medida,
calcada, sacudida, a transbordar.
A medida que usardes com os outros
será usada também convosco».

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Pensamentos Impensados

Remodelações
António Costa, seleccionador Nacional.

Português
Assim como há descobrimento e descoberta, deveria haver achamento e achamerta.

Anatomia
A raça humana tem cá dentro uma cama de cavalo; chama-se hipotálamo.

Início
O princípio de Arquimedes foi quando os seus pais se deitaram juntos.

Madurezas
À condição de Maduro prefiro a minha condição de sorvado.

Marujos
Portugal já teve uma Marinha marcante.

SdB (I)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Da importância do testemunho

4ª feira à noite, a convite de um amigo, fui ouvir o Fernando Santos. Saí de casa numa noite fria para  ouvir o cristão, não o treinador. Fernando Santos Falou-nos da sua vida, da sua história, do seu percurso. Sempre que abordou o tema futebol foi para contar uma história relacionada com fé, com missa, com a Bíblia. Mais do que falar dele - e falar de si já é bom - ele falou-nos de testemunho: da carta que leu quando nos sagrámos campeões europeus (e que é pública) da forma como aborda as amizades com agnósticos ou como lida com jovens futebolistas que são muçulmanos, judeus - ou apenas nada.

Vem este texto muito a propósito do texto que publiquei ontem e dos comentários que algumas pessoas tiveram a amabilidade de fazer - no blogue ou por mail. Nada me levaria a escrever duas vezes seguidas sobre um tema semelhante, mas a expressão testemunho, tão usada por Fernando Santos, a isso me impele. 

Acredito, como comentava ontem alguém, que há uma campanha para destruir valores que são essenciais a um conjunto alargado de pessoas, valores que estão por trás - e foram o suporte - da Europa que se construíu e que se vai destruindo com uma alegria que confrange. Acredito que há uma campanha para destruir a Igreja Católica. Acredito ainda que muitos dos inimigos da Igreja estão intra muros, não são apenas os comunistas ou os bloquistas ou os pretensamente ateus. Muitos tiros - e tiros graves - são dados nos próprio pés.

Talvez, portanto, esta ameaça requeira uma defesa diferente da Igreja Católica e dos verdadeiros valores de solidariedade e atenção aos mais desfavorecidos que ela defende, valores esses que se revelam nas pequenas igrejas domésticas ou locais, nas inúmeras ipss de inspiração cristã, nos milhares e milhares de membros do clero que, no anonimato de vidas santas, fazem do mandamento novo o seu ideário. 

Testemunhar tem de ser mais do que fazemos - seguramente muito mais do que eu faço. Testemunhar tem de ser defender o forte, uma árvore fundamentalmente sã, ainda que vergada ao peso de maçãs podres. Testemunhar é afirmarmo-nos católicos apesar de tudo, é defender a credibilidade da igreja mesmo em tempos de grande falta de credibilidade. Testemunhar é afirmar que nada de tão bondosamente revolucionário se "inventou" depois de Cristo. Testemunhar é também, nas possibilidades de cada um, estar presente, falar dentro da Igreja, colaborar, ajudar, criticar e sugerir e, se necessário, por a nu. Testemunhar tem de passar por escrever ao Observador a criticar e a manifestar indignação. Testemunhar tem de passar por denunciar textos como o do José Diogo Quintela pela sua falta de respeito (e o respeito tem de vir antes da gargalhada alvar). Testemunhar tem de ser dizer o que somos por onde passamos. 

Nunca o testemunho dos católicos e dos cristãos foi tão importante como agora. A nossa consciência e o futuro não nos perdoarão se perdermos por falta de comparência.

JdB

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Da pedofilia na Igreja e do Observador

O jornal Observador tem vindo a publicar, desde há algumas semanas, uma investigação muito exaustiva sobre o problema da pedofilia (ou efebofilia, ou homossexualidade) na Igreja Católica em Portugal. Têm, inclusivamente, solicitado aos leitores que revelem histórias de que tenham conhecimento ou que possam ser contadas na primeira pessoa. Por outro lado, José Diogo Quintela, conhecido como humorista (talvez mais correcto do que dizer conhecido humorista) escreveu um texto a que intitulou Vade Retro, Sr. Padre! (em condições normais poria aqui o link, mas confesso que não me apetece). Porém, apetece-me dizer meia dúzia de palavras sobre o tema, respigando ideias que vou apanhando ou que vou redigindo mentalmente.

Nota previa: Tenho a declarar que um dos fundadores do jornal me é próximo e que eu próprio já escrevi 4 artigos, parece-me, que ali foram publicados. 

***

Do ponto de vista jornalístico pouco tenho a apontar ao Observador. O que membros da Igreja Católica fizeram com, ou a crianças ou jovens indefesos, é grave, ofende a nossa consciência e, estou certo, afastará muita gente dos bancos das igrejas. Há seguramente uma perda de credibilidade, não só pelo facto de alguns membros do clero se terem portado abominavelmente mas, acima de tudo, porque a hierarquia lidou com o assunto de forma desajeitada (para ser brando...). Como católico não gosto de ver a minha igreja nestes preparos, mas não posso pedir a um jornal que se cale perante esta barbaridade. Conto que os orgãos de comunicação social denunciem estes escândalos na Igreja Católica, como conto que os jornais denunciem escândalos (semelhantes ou diferentes) noutras igrejas. Como foi, aliás, o caso da TVI na sua investigação ao escândalo das adopções e dos luxos da IURD. 

Diz a sabedoria popular que a notícia é o homem que mordeu no cão. E, de facto, a notícia que vende não é a alma saudável da esmagadora maioria dos membros do clero; a notícia que vende não é o volume inigualável de ajuda humanitária da ICAR em África; a notícia que vende não é o labor silencioso e cristão das ordens religiosas que se dedicam a tomar conta dos mais pobres de entre os mais pobres, ou a acarinhar aqueles que a sociedade não tem onde colocar, porque são velhos e cegos, são velhos e deficientes, são improdutivos e desconfortáveis; a notícia que vende não é o bem que se faz, a paz que se promove, a ajuda que se dá. O que vende, o que representa o homem a morder o cão é isto: o escândalo, a porcaria, o desvio, o nojo, a vergonha. Devemos noticiá-los? Sim, devemos, sem qualquer sombra de dúvida. Mas também devemos noticiar o cão que mordeu no homem - se não for em nome do número de visualizações, que seja em nome da mais elementar justiça. Ser-se jornalista não é apenas vender, é também informar - e informar é partilhar as boas notícias, não apenas o que rebaixa a nossa condição humana.

***   

Sobre o artigo de José Diogo Quintela pouco tenho a dizer, a não ser que é uma porcaria. Mais do que lamentar que o Observador lhe dê guarida a troco de uma tença, tenho a lamentar que o cavalheiro, conhecido como humorista, se preste a isto, não saiba para mais, não queira mais, não possa mais. A Igreja põe-se a jeito? Sim, põe-se. Mas as pessoas correctas não se aproveitam disso, sob risco de se ofender quem não deve ofender-se (e não falo das avós do cavalheiro, que não sei se ainda são vivas). Bater na Igreja é uma tentação, mas escrever-se "instituição [ICAR] que anda há dois mil anos a convencer milhões de pessoas que é possível uma virgem dar à luz" é ofender dogmas, é apoucar. Pior ainda, é apoucar-se. Espero um dia poder imaginar-lhe a bonomia quando alguém, na sua competência de humorista, gozar com José Diogo Quintela e com aquilo que para ele é mais sagrado.

***

Uma nota final para o meu estimado amigo ATM, que durante o dia de ontem me deu conta dos seus protestos junto do Observador, usando argumentos justos e fortes, próprios de um católico que se indigna com as indignidades. Protestos que mereceram uma resposta correcta e pensada por parte do jornal

JdB 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Duas Últimas *

A música escolhida faz-me regressar aos idos tempos do liceu, na outra banda, antes de Abril de 74. A talhe de foice, convém esclarecer que provenho de uma família (conservadora) em que essa arte não desempenhava um papel central: não tínhamos pick-up, ouvíamos programas musicais numa telefonia manhosa e desafinada, à mistura com relatos do Belenenses, na época o clube com mais adeptos naquela zona. E que, podem crer, ganhava então uns joguinhos!

Como era, e sou, o mais velho de vários irmãos, coube-me ir desbravando vários caminhos. Um deles o musical. Eram tempos fortes de contestação e atrevimento, sobretudo naquela margem esquerda do Tejo, que não eram acompanhados pela família, pouco ou nada propensa à revolucionarite em acelerado curso. Lembro-me bem das discussões políticas sobre questões de que mal ouvira falar em casa, das livrarias em que, por detrás de uma porta escondida, se vendiam livros proibidos, dos cantores de protesto, dos discursos inflamados de alguns colegas nos intervalos das aulas…..

Essas ideologias pseudo-vanguardistas nunca me encantaram e, basicamente, prevaleceram nessa matéria os princípios familiares em que fui educado. Acho que os tempos que se seguiram me deram razão nessa escolha. Vinda dessa área, privilegio sobretudo alguma música popular portuguesa, da melhor que se fez neste cantinho do mundo, e alguns dos seus magníficos intérpretes, a que me dedicarei qualquer dia.

Também fui tomando contacto com grupos estrangeiros. Os Procol Harum foram um deles, tendo-me sido oferecido por um dos meus colegas desse tempo, hoje em dia político de renome, o single “Conquistador”, o primeiro disco a entrar no meu quarto. Passados uns tempos, chegou um pequeno gira-discos, que muito nos alegrou.

Como gosto mais de “A Salty Dog”, fiz uma pequena batota.

Espero que gostem!

fq

* publicado originalmente a 22 de Março de 2011


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Textos dos dias que correm *

O tempo social e a reconfiguração das nossas sociedades

A maneira como os membros de uma determinada comunidade vivem e organizam a sua vida social está diretamente relacionada com a sua conceção particular de tempo. Mas o tempo não é apenas a realidade objetiva que configura e organiza a vida social. É também a maneira pela qual cada sociedade se desenvolve e dá sentido à sua existência, vivendo numa temporalidade que ela própria configurou. Por outras palavras, não é que “cada sociedade tenha o seu próprio modo de viver o tempo, mas que cada sociedade é também uma forma de fazer o tempo e de dar-lhe existência” (Castoriadis). Deste ponto de vista, pode afirmar-se que o tempo não é apenas um facto externo que é assumido pelos sujeitos como um “dado adquirido” (Berger e Luckmann, 1997), mas é criado e recriado através de múltiplos processos e relacionamentos que vão tecendo a vida social. Essas duas dimensões da temporalidade, uma mais objetiva e externa e outra mais subjetiva e apegada às coisas da vida, são experimentadas no nosso tempo com uma consciência e intensidade que não têm antecedentes históricos.

No entanto, assim como as sociedades não são homogéneas, também os tempos que as compõem não são uniformes. O mais comum é que diferentes conceções e experiências de tempo coexistam na mesma sociedade, e que nem todas têm a mesma oportunidade de se impor, mas apenas aquelas associadas aos grupos sociais dominantes. Estas últimas passarão a fazer parte da estrutura de legitimações para institucionalizar e validar a sua dominação. Neste sentido, podemos afirmar que todas as formas de poder existentes ao longo da história criaram e estabeleceram uma determinada temporalidade. “O tempo assume um particular interesse - escreveu George Dumezil - para quem queira - deus, herói ou líder - triunfar, reinar ou criar: não importa quem quer que seja, ele deve procurar apropriar-se do tempo, assim como o faz em relação ao espaço”.

Esta apropriação do tempo varia em função do sistema de legitimações vigente em cada sociedade. Nas sociedades industriais, os tempos sociais dominantes são os que se vinculavam ao mundo laboral, que é a principal forma de legitimação e estruturação dessas sociedades. Essa conceção de tempo é a que configura e dá sentido à moderna ética do trabalho.

Por essa razão, quando, nas últimas décadas, nos países industrializados, as estruturas laborais e produtivas transformaram a representação do tempo, vinculada aos anteriores cenários laborais, teve também de ser reconfigurada a ética de trabalho, agora, mais motivadora e mobilizadora.

As principais instituições políticas internacionais, como a UE ou a OCDE, assim como os autores do management, enquanto principais legitimadores da nova ordem laboral, desempenharam um papel protagonista na reconstrução dessa nova temporalidade. Neste contexto, o tempo surge com essa dupla dimensão, objetiva e subjetiva, à qual nos referimos acima. Por um lado, apresenta uma vertente claramente disciplinar, ao vincular-se aos poderes políticos e empresariais; por outro lado, apresenta-se como uma oportunidade para que os sujeitos construam as suas biografias laborais em ambientes mais abertos e livres.

Para entender o significado dessa temporalidade, propomos uma análise diacrónica estruturada em três partes. No texto que se seguirá a este, procurar-se-á descrever a conceção predominante do tempo nas sociedades pré-industriais. Um tempo vivido fundamentalmente como uma realidade objetiva e imutável. Em seguida, procuraremos mostrar como as representações do tempo, que emergem com o início da Era Moderna, estão em clara rutura com a temporalidade anterior e diretamente relacionada com mundo do trabalho. Essas representações contribuíram essencialmente para legitimar a ordem social moderna. Uma ordem que exigia sacrifícios, mas que também concedia recompensas pessoais institucionalizadas. No terceiro texto, analisar-se-á o processo de transformação dessa temporalidade relativamente à mudança experimentada pelas estruturas laborais e produtivas das sociedades industriais, desde meados dos anos setenta do século passado. Neste contexto, surgiu uma nova conceção de tempo, coberta pelas principais instituições políticas nacionais e internacionais e pelos ideólogos da nova gestão empresarial.


* Eduardo Duque
Diretor do Departamento para a Cultura da Arquidiocese de Braga
Publicado em 18.02.2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Pensamento Impensado

No rescaldo da derrota por 10 - 0 contra o Benfica, Costinha, treinador do Nacional da Madeira, terá afirmado: não foi para isto que se fez o 25 de Abril...

SdB (I)

Dos moinhos e dos gigantes

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão

***

Gosto sempre de citar estes versos, dos quais só a primeira quintilha sei de cor, para explicar poeticamente esta certeza que assenta numa dúvida: as coisas são o que são ou são o que vemos nelas? Ou, de outra forma, a beleza está sempre nos olhos de quem vê?

Não tenho respostas para nada, nem deambularei para as procurar. O que sei - e isso sei - é que nem sempre as coisas (entenda-se, por coisas, quadros, cidades, pessoas, relações) são aquilo que nos parecem ser, e por vezes ficamos com o olhar viciado. O grande desafio, na linha do que dizia Proust e eu citei neste estabelecimento há alguns dias, é munirmo-nos de um olhar diferente, mais do que esperar que aquilo que vemos se altere. Por vezes vemos obsessivamente da mesma forma, e Badajoz será sempre feio, Paris sempre bonito, alguém sempre antipático ou arrogante. 

Por vezes temos de aprender a olhar e, com isso, vermos beleza onde antes víamos fealdade. Mesmo que Gedeão nos diga  Vê moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes, nem sempre é assim. Por vezes moinhos são gigantes e gigantes são moinhos.

JdB

domingo, 17 de fevereiro de 2019

6º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 6, 17.20-26

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus desceu do monte, na companhia dos Apóstolos,
e deteve-Se num sítio plano,
com numerosos discípulos e uma grande multidão
de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidónia.
Erguendo então os olhos para os discípulos, disse:
Bem-aventurados vós, os pobres,
porque é vosso o reino de Deus.
Bem-aventurados vós, que agora tendes fome,
porque sereis saciados.
Bem-aventurados vós, que agora chorais,
porque haveis de rir.
Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem,
quando vos rejeitarem e insultarem
e prescreverem o vosso nome como infame,
por causa do Filho do homem.
Alegrai-vos e exultai nesse dia,
porque é grande no Céu a vossa recompensa.
Era assim que os seus antepassados tratavam os profetas.
Mas ai de vós, os ricos,
porque já recebestes a vossa consolação.
Ai de vós, que agora estais saciados,
porque haveis de ter fome.
Ai de vós, que rides agora,
porque haveis de entristecer-vos e chorar.
Ai de vós, quando todos os homens vos elogiarem.
Era assim que os seus antepassados
tratavam os falsos profetas.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Pensamentos Impensados

Enlace
Um cego quando casa dá um nó cego.

Pi...ada
3,1416 + faro = pífaro.

Máfia
Em Itália, o polvo é quem mais ordena.

Adágio
Água mole em pedra... dura até se evaporar.

Selfies
Muitas deve ter feito o Marcelo para estar sempre a retratar-se.

Poesia
A poesia que só tem um verso chama-se universo.

SdB (I)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Poemas dos dias que correm

Como se Morre de Velhice

Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

Cecília Meireles, in 'Poemas (1957)'

***

Estamos Agora em Paz

Estamos agora em paz
sabendo simular o esquecimento

sentados

com os olhos no vento
lá de fora atirado para antes
de nós as mãos caídas
nos joelhos mas nada suplicantes
só esvaídas

conformados
com não nos conformarmos

resignados
a esperando não esperarmos

como se tudo fosse um imenso tanto faz

Mário Dionísio, in 'Terceira Idade

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

De uma ida a Paris

Estive em Paris três vezes: por volta de 1982 em prazer, por volta de 2000 em trabalho, em 2019 por motivos de voluntariado. Digamos que há uma (quase) progressão aritmética. Mais ou menos de 18 em 18 anos vou a Paris, cidade para onde olho, percebo agora, com olhos sempre diferentes: os olhos de um jovem de 24 anos, os olhos de um adulto preocupado com a carreira, os olhos tranquilos de um homem cujas ambições são moderadas. Paris é a mesma, mais ou menos (indiscutivelmente uma cidade muito bonita) mas eu não sou, e olho para tudo com um olhar diferente, talvez mais sossegado e sem preconceitos por ser capital de franceses. 

***

Passamos um dia inteiro em reunião com a equipa da L'Oreal (mais precisamente da Fundação La Roche-Posay) que promoverá uma campanha que beneficiará (não financeiramente) as crianças com cancro. Falamos de tudo: de taxas de sobrevivência (80% no mundo ocidental, 20% nos países menos desenvolvidos ou pobres), de casos pessoais, de perspectivas de futuro, do estigma social da doença, da importância do contacto físico com as crianças doentes (um dos grandes objectivos da campanha). Retenho duas frases que foram projectadas num ecrã:

- a maior perda é nunca vir a saber-se como é não ser doente de cancro ou sobrevivente (de uma sobrevivente).
- Do not go where the path may lead, go instead where there is no path and leave a trail (de Ralph Waldo Emerson) [Tradução livre: não vás por onde o caminho te leva; vai antes por onde não há caminho e deixa um trilho].

***

O dia de ontem é dedicado ao lançamento do projecto: uma médica, um psico-oncologista, o testemunho de dois pais, a presidente do CCI (Childhood Cancer International), pessoas da Fundação,  uma especialista em massagens, jornalistas. A ideia é explicar as virtudes das massagens a uma criança doente com cancro, não só o bem físico, mas, acima de tudo, a possibilidade de restabelecimento do contacto físico entre pais e filho doente. Explicam-nos que todos os movimentos devem ser feitos três vezes: à primeira o corpo estranha, à segunda aprende, à terceira aprecia. Bom era que tudo na nossa vida fosse isso - e por essa ordem: estranheza, a aprendizagem, gosto.

Segue-se um momento de aplicação prática entre adultos. Escolhem-se parceiros, com algum constrangimento, porque os homens não quererão ser massajados por homens e têm algum pudor em aproximar-se de uma rapariga / senhora que não conhecem. Quando dou por mim estou a apertar suavemente o braço do Anton, um russo esguio, alto, simpático e competente que estava sentado ao meu lado. Mas Anton, não obstante... Acabo a massajar e ser massajado (na base do máximo respeito) pela directora-geral da Fundação, uma quase jovem francesa, simpática e com sentido de humor.

***   
3ª feira é dia de jantar de confraternização e vem-me à memória os jantares das minhas reuniões internacionais: excesso de vinho para algumas pessoas, comida mais cuidada, animação, boa disposição, informações sobre as vidas pessoais, sentimento de pertença a algo comum, promessas de contactos futuros. Curiosamente, nessa noite sonhei dolorosamente com os meus últimos tempos de multinacional: ambiente tenso, secretismo, desconhecimento do futuro profissional, dependências hierárquicas inesperadas. Talvez fosse o destino a punir-me ou, quem sabe, o fraco rosé do jantar...

Ao meu lado senta-se uma jovem parisiense de 27 anos: bonita, bem arranjada, simpática, típica colaboradora recente de uma empresa do ramo da beleza pessoal. Falamos de trivialidades: de viagens, de Portugal, da (não) simpatia dos parisienses, de comida local, de onde estivemos ambos no país do outro. Digo-lhe que gosto muito de música francesa, falo-lhe do muito que eu ouvia numa determinada época. Ela sorri, orgulhosa da sua nacionalidade, e responde: gosta de música francesa? De quem, por exemplo? Mozart? Jacques Brel? Podia explicar-lhe que Mozart era austríaco e que Brel era belga, mas opto pelos petits riens. Noutra ponta da mesa, um rapaz brasileiro grande, nada apreciador de futebol e com os braços muito acima da cintura, fala alto para um telefone que não está colado à orelha. Diz-me, com os braços sempre acima da cintura, que a etiqueta manda que se coma peixe com a faca na mão esquerda. Explico-lhe que não, que não é possível. Duvida, manda-se vir uma faca de peixe. Reconhece, alegre, sempre com os braços acima da cintura.

Mozart, Brel, facas de peixe. Sou um velho.  

JdB

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

HOMENAGEM DE UM HOMEM ÀS MULHERES MERECE FILME

Na pole position para os óscares do Melhor Filme e da Melhor Realização está «ROMA»(1), marcante e profundo em múltiplos aspectos. Ou não fosse realizado por Alfonso Cuarón, que goza de uma carreira sólida e premiada por Hollywood. Só «GRAVIDADE» valeu-lhe 7 óscares. Mas este é diferente: falado em espanhol e a tomar por cenário o México da sua infância. Tempo e lugar recuperam as memórias dos seus 10 anos, em homenagem pura, sem sentimentalismos nem hipérboles. Recorda o que é capaz por gratidão e justiça à história. Pessoal mas real, impregnada pela bondade de uma fada boa, chamada Libo e empregada de casa dos pais. Percebe-se por que lhe dedica, em película, um bom pedaço da sua vida. Pormenor: no filme, o diminutivo é mudado para Cleo. 

Ao arriscar uma reconstituição autobiográfica, Alfonso C. acarretou as dificuldades inerentes. Demorou uma década a maturá-lo e perto de um ano a desencantar a protagonista (ia desesperando), agora candidata a Melhor Actriz, apesar de ser amadora. Durante as filmagens (2016), no México, foi retardado por ataques violentos à equipa, pelo que só no Verão de 2018 estreou no Festival de Veneza. Arrecadou logo o principal Globo de Ouro. Desde então, tem somado distinções e galardões dos media e cinematográficos, sendo candidato a 10 Óscares. Neste fim-de-semana, em Londres, ganhou o melhor Bafta.

Cuarón com Libória (Libo), inspiradora do argumento. Na cerimónia dos Bafta, sublinhou a tentativa de ligar tempos e gentes de lugares distantes, fazendo do planeta a casa de toda a família humana. Na entrevista ao «The Guardian» (21-Dez-2018) confessou-se demasiado cinéfilo para se emancipar dos grandes cineastas e conseguir realizar um filme de autor, com originalidade. Disse que as melhores imagens [também está nomeado para Melhor Fotografia] são lindas porque replicam os mestres; nem tanto por mérito seu! Afinal, fez escola com Libo /Cleo… 

O título adopta a toponímia de um bairro situado a Oeste do centro histórico da capital mexicana, residência de uma burguesia com estudos e dinheiro, embrião da nova classe média emergente. Os carros têm a escala agigantada dos norte-americanos, cabendo mal nas garagens de uma cidade de dimensões mais modestas.

Mas Roma é também o caso mais expressivo dos anagramas, pois o inverso da palavra desagua no termo “amor”. Ora, este passado de Cuarón surge ferido por rupturas familiares e a turbulência correspondente, sendo em parte salvo pelo amor. Libo (ou Cleo, na película) terá sido o alicerce mais forte e subtil desse contexto familiar onde o amor melhor se deu, até ao limite.

Yalitza Aparicio no papel de Cleo e Marco Graf como Pepe. O mais novo dos irmãos usava a expressão enigmática: «Quando eu era velhinho…», sempre conjugado no pretérito imperfeito.  Fotografia de Carlos Somonte/PR

No ecrã, a trama flui num flash-back ordenado cronologicamente e caldado pela poesia do preto-e-branco, para mergulharmos numa época anterior. A câmara assume o olhar lúcido de um adulto empenhado em revisitar um tempo antigo, apenas sustentado pela memória, mas atento aos factos. Torna-se, por isso, numa viagem afectiva, que é marca d’água da memória.

O argumento centra-se em 1970/71 e na maternalidade incansável da empregada de infância. Com base nessas duas coordenadas factuais, Alfonso C. desfia uma existência de alegrias, angústias, surpresas e feridas fundas. A partir da protagonista, a história desenrola-se em círculos concêntricos, gradualmente maiores, que parte da família com quem Cleo vive, estende-se aos amigos e vizinhos, amplia-se ao país... e saberá o espectador até onde chega.

Daquela casa, situada naquele bairro, pertencente àquela metrópole, capital de uma potência latino-americana, antevemos uma metáfora que serve a muitos outros lugares do planeta, invertendo-se ciclicamente o zoom para regressarmos à dimensão mais pequena e concreta, onde cabe alguém. Alguém, ainda que diverso do perfil ímpar de Cleo: meiga, despojada, corajosa, diligente, imersa no silêncio e na sabedoria dos simples. Como se fosse banal. É nessa simplicidade humilde e pragmática, que assume gestos heróicos, dos quotidianos aos excepcionais, ao alcance de poucos.

Salvou as crianças de um afogamento, apesar de não saber nadar. Cuarón confidenciou que Libo se comove ao ver «ROMA», por causa das crianças: «The beautiful thing is that when she cries [ao rever o filme] it’s not because of what is happening to her, it’s because she’s concerned about the children. She’s not focusing on her own pain»

Ao «The Guardian», que elegeu «ROMA» o filme de 2018, Cuarón dissertou sobre esta dimensão do filme, em espiral (21.Dez.2018): «It’s a year [de 1970 para 1971] in the life of a family and a country … For me, this film has always been difficult to describe. It was a process of following the character of Cleo [the maid to a middle-class family, based on his own] and through her exploring wounds that were personal – family wounds. Then I realised these were wounds that I shared with many people in Mexico. And then I came to the conclusion that they are wounds shared by humanity.»

Nesse deambular entre espaços e modos de vida, acompanhamos o contraste entre o frémito fervilhante da cidade e a nudez de meios rurais sub-desenvolvidos, onde coabitam bolsas de luxo que são fincas magníficas. Numa delas, Cleo, mãe e filhos Cuarón festejam a passagem de ano, comprovando quanto as condições de vida confortáveis e seguras convertem a maioria dos incidentes em aventuras divertidas e cheias de adrenalina. Assim acontece, quando têm de domar o perigoso incêndio que devora o restolho seco, altas horas da noite, à vista da casa grande.

A simplicidade narrativa do argumento preserva a candura de quem viveu à época e encarou a realidade sem chaves de leitura ideológicas, que tendem a reduzi-la a um contínuo despique entre grupos/classes. É na finca, a acompanhar a correria entusiasmada das crianças pela pradaria, que Cleo lembra o cheiro saudável do campo pobre da sua infância. É a pura constatação da mesma terra húmida e da mesma erva fresca que cobre a crosta terrestre, cruzada por ricos e pobres, caucasianos e descendentes de índios, novos e velhos. No seu olhar despido de preconceitos, não há raiva, apesar das desigualdades em geografias tão próximas.

Dois mundos paralelos, entre a indigência dos povoados indígenas e a superabundância nas quintas.

Aliás, a mansidão de Cleo, e também a amizade da família com quem vive, tornam-na alheia à turbulência social e política que já agita a capital. Curiosamente, mais do que gente revoltada (com bons motivos para querer mudanças), vemos miúdos brigões, cujo principal fito é especializar-se em artes marciais para fazer carreira como mercenários sem escrúpulos. Naquele tempo, esses marginais infiltrados entre os estudantes valiam-se da ideologia para encher as ruas de slogans, reivindicações e desacatos. Hoje, preferem os circuitos da droga, melhor remunerados, mas impondo-se pela mesma lei do mais perigoso. Esse era o namorado de Cleo, que a tinha abandonado no momento (grávida) mais egoísta, descendo ao pior dos machismos. Impunha-se, descaradamente, pela intimidação cruel, que medra bem em sociedades onde o Estado de direito é frágil.

Os arruaceiros, que prosperam nos ambientes de guerrilha das sociedades mais vulneráveis.

Se Cleo é uma super “nanny” e o esteio-mor da afectividade da casa, também aquela mãe sobressai, apesar de gestos precipitados e descompensados, aqui e ali, sendo o mais inócuo e espalhafatoso a aselhice a estacionar o carro descomunal numa garagem acatitada. Porém, o osso duro de roer foi a gestão difícil de uma casa de quatro crianças sem pai, quando o marido corta com a família e desiste de ajudar no sustento dos filhos, entretido em viagens de luxo com outra. Isso obrigou-a a uma superação constante, até ao clímax vivido no fim-de-semana na praia. Percebe-se que a serenidade no jantar ao pé do mar correspondia à bonança depois da tempestade de lágrimas, por desgostos e receios. Conseguira renascer e alcançar aquele grau de calma livre e meigo, que lhe permitia dar a notícia aos filhos de modo construtivo. Tornara mais credível a proposta de transformarem o rol de perdas – menos pai, menos dinheiro, menos mãe que iria ter de trabalhar fora, intensamente – numa aventura aliciante e descobrirem graça nesse futuro incerto. Seria a agenda ousada do Novo Ano, com vida nova. Estava também preparada para o segundo round, das dúvidas e revoltas sob a forma de pergunta: o pai já não gosta de nós? nunca mais o vemos? então, quando? porque nos deixou, magoámo-lo?  Uma a uma, respondeu-lhes pela positiva, sem fantasias. Por fim, no terceiro round, deixou-os desabar em choro, com o desespero das crianças que sentem o chão fugir-lhes debaixo dos pés. Respeitou em pleno a sua hora de dor, com a coragem de os deixar ter (e exteriorizar) medo e revolta, sem receio de reacordar os seus próprios fantasmas. Invulgar, até pela tranquilidade.

Conseguiu gerir todo o serão em favor das crianças, como se fosse fácil.

A super avó é mais um rosto feminino bondoso e disposto a tudo para dar alegria às crianças e valer a quem precisa… segundo os seus limites. Claro que forra os netos de presentes e guloseimas, como todas as boas avós. Assim como aguenta o pior dos frissons, ao acompanhar o final da gravidez de Cleo, numa manhã traumatizante, onde se viram encurraladas numa manifestação sangrenta, pistola apontada à cabeça, início do trabalho de parto, trânsito infernal até ao hospital… Mesmo apavorada e chorosa, nunca arredou pé nem abrandou na ajuda! 

Falta a ginecologista que acompanha Cleo, a pedido da mãe Cuarón, conciliando profissionalismo com uma especial delicadeza para lidar com aquela empregada tão suave, pouco erudita mas incrivelmente sábia, de um pudor em filigrana. 

Talvez por gosto pessoal, parece-me especialmente tocante a homenagem às mulheres vir de um homem. Em tempos de #MeToo! terá a vantagem de mostrar que há gente diferente (homens incluídos, claro), com outras perspectivas e outras atitudes, a sugerir que é irrazoável querer interpretar a realidade com filtro único, necessariamente simplista e redutor. Acaba-se mais a medir forças que a solucionar, num círculo vicioso de confronto. Por junto, é lapidar e ligeiramente irónico vir de um filme a preto-e-branco a homenagem aos milhares de tons e facetas da vida, que não cabe nos padrões humanos, por mais bem intencionados que sejam. Por isso, ROMA é tão livre e libertador, procurando tomar a realidade por bússola. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________

(1) FICHA TÉCNICA

Título original: ROMA
Título traduzido em Portugal: idem 
Realização: Alfonso Cuarón
Argumento: Alfonso Cuarón
Produzido por: Alfonso Cuarón, Gabriela Rodriguez e Nicolas Celis
Direcção de Fotografia: Alfonso Cuarón
Banda Sonora: Cantores mexicanos e norte-americanos, da época.
Distribuidora: NetFlix 
Duração: 135 min.
Ano: 2018
País: EUA / México 

Elenco:
Yalitza Aparicio (Cleo, a fantástica empregada de ascendência índia)
Marina de Tavira (Sofia, a dona da casa e mãe dos 4 filhos), 
Marco Graf (o filho mais novo)
Daniela Demesa (a filha, de petit-nom Sofi)
Verónica García (a avó)
Nancy Garcia (Adela, a segunda empregada)
Latin Lover (o mítico prof. Zoveck que conclui a aula de karaté)
Jorge Antonio Guerrero (Fermín, o namorado de Cleo),  etc.

Local das filmagens: México

Prémios: Bafta de Melhor Filme na edição de 2019; Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2018; após o lançamento, pela Netflix (Dez.2018), foi aclamado pela  crítica como uma obra "dolorosamente bela" e "atraente"; escolhida pelo National Board of Review para o Top Ten dos melhores filmes do ano. Nos EUA, a  revista Time e o sindicato New York Film Critics Circle deram-lhe o primeiro lugar. Na Grã-Bretanha, o The Guardian considerou-o o melhor filme de 2018. Está nomeado para 10 Óscares.  

OBSERVAÇÕES A preto-e-branco; autobiográfico. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Textos dos dias que correm

A Lucidez da Velhice

A mocidade é noivado, como a velhice é viuvez. Um jovem, por mais marido que seja, é noivo ainda; e um velho, embora casado, é já viúvo... um solitário guardando as cinzas duma flor. Mas dessas cinzas o seu espírito se alimenta. Alimenta-se de pureza, pois a cinza é o que resta dum incêndio, essa purificação suprema. Por isso, a consciência é um atributo da velhice, e também a ciência. A consciência é a ciência connosco, a ciência identificada ao nosso ser, que entra no pleno conhecimento de si mesmo, e do seu poder representativo do Universo. A velhice é uma noite maravilhosa em que brilham as nossas ideias, uma atmosfera límpida ou varrida pelo zéfiro da morte, a única Deusa verdadeira.

Teixeira de Pascoaes, in 'A Saudade e o Saudosismo'

***

Lucidez sem Ignorância nem Sobranceria

Possivelmente não é sem razão que atribuímos à ingenuidade e ignorância a facilidade de crer e de se deixar persuadir: pois parece-me haver aprendido outrora que a crença era como uma impressão que se fazia na nossa alma; e, na medida em que esta se encontrava mais mole e com menor resistência, era mais fácil imprimir-lhe algo. Assim como, necessariamente, os pesos que nele colocamos fazem pender o prato da balança, assim a evidência arrasta a mente (Cícero). Quanto mais vazia e sem contrapeso está a alma, mais facilmente ela cede sob a carga da primeira persuasão. Eis porque as crianças, o vulgo, (...) e os doentes estão mais sujeitos a ser conduzidos pelas orelhas (ou seja, pelo que ouvem). Mas também, por outro lado, é uma tola presunção ir desdenhando e condenando como falso o que não nos parece verossímil; esse é um vício habitual nos que pensam ter algum discernimento além do comum. Outrora eu agia assim, e, se ouvia falar de espíritos que retornam, ou do prognóstico das coisas futuras, de encantamentos, de feitiçarias, ou contarem alguma outra história que eu não conseguisse compreender, vinha-me compaixão pelo pobre povo logrado por essas loucuras. Mas actualmente acho que eu próprio era no mínimo igualmente digno de pena; não que posteriormente a experiência me tenha feito enxergar acima das minhas primeiras crenças, o que no entanto não dependeu da minha curiosidade (não resultou de uma falta de curiosidade minha); mas a razão ensinou-me que condenar assim resolutamente uma coisa como falsa e impossível é atribuir a si mesmo o privilégio de saber as fronteiras e os limites da vontade de Deus e do poder da nossa mãe natureza; e que não há no mundo loucura mais imensa do que reduzi-los à medida da nossa capacidade e inteligência.
Se chamarmos de monstros ou milagres aquilo a que a nossa razão não consegue chegar, quanto disso se apresenta continuamente à nossa vista? Consideremos o quanto é pelo meio do nevoeiro e às apalpadelas que somos conduzidos ao conhecimento da maioria das coisas que temos em mãos: sem dúvida descobriremos que é mais o hábito do que o conhecimento que nos elimina a estranheza delas, Enfadados e saciados que estamos do espectáculo dos céus, ninguém mais se digna levantar a cabeça para esses templos de luz (Lucrécio). e que, se essas coisas nos fossem apresentadas pela primeira vez achá-las-íamos tanto ou mais inacreditáveis que quaisquer outras, Suponde que agora pela primeira vez elas se manifestem subitamente aos mortais e de golpe se apresentem a seus olhos: não se poderia citar algo mais admirável, e antes de vê-las os homens não teriam podido acreditar em algo semelhante (Lucrécio).

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Duas Últimas

Uma grande música, uma belíssima actriz, um ritmo fantástico, um filme que nunca vi por inteiro e que, aprece-me, é violento. Um textozinho curto, estou de viagem para Paris (em serviço...) uma capital aonde não vou há muitos muitos anos. Divirtam-se e dancem, se vos aprouver.

JdB

domingo, 10 de fevereiro de 2019

5º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 5,1-11

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
estava a multidão aglomerada em volta de Jesus,
para ouvir a palavra de Deus.
Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré
e viu dois barcos estacionados no lago.
Os pescadores tinham deixado os barcos
e estavam a lavar as redes.
Jesus subiu para um barco, que era de Simão,
e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra.
Depois sentou-Se
e do barco pôs-Se a ensinar a multidão.
Quando acabou de falar, disse a Simão:
«Faz-te ao largo
e lançai as redes para a pesca».
Respondeu-Lhe Simão:
«Mestre, andámos na faina toda a noite
e não apanhámos nada.
Mas, já que o dizes, lançarei as redes».
Eles assim fizeram
e apanharam tão grande quantidade de peixes
que as redes começavam a romper-se.
Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco
para os virem ajudar;
eles vieram e encheram ambos os barcos
de tal modo que quase se afundavam.
Ao ver o sucedido,
Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe:
«Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador».
Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele
e de todos os seus companheiros,
por causa da pesca realizada.
Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu,
que eram companheiros de Simão.
Jesus disse a Simão:
«Não temas.
Daqui em diante serás pescador de homens».
Tendo conduzido os barcos para terra,
eles deixaram tudo e seguiram Jesus.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Pensamentos Impensados

Novo fado das algas
Eu  quero agar-aga perdidamente.

Rimas
Eu só queria uma rima
Para búzio ou macambúzio
Tem dicionário de rimas?
Então use-o.

Critérios
No avião, a mochila pode ser considerada bagagem de mão?

Pinturas
Aquela  maja desnuda
Pintada pelo grande Goya
Ou é a Duquesa de Alba
Ou uma grande lambisgóia.

Frente a frente
Q que tinha a dizer dizia na cara. Um dia conheceu outro do mesmo  estilo e morreram ambos. De choque frontal.

Obediências
À voz de abre-te Sésamo, a porta abria-se. Autêntica porta-voz.

SdB (I)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Dos cuidadores informais

Estive ontem presente, na minha qualidade de presidente da Acreditar, na sede do CDS em Lisboa, para participar como orador numa conferência sobre o estatuto do cuidador informal. A minha participação é demonstrativa, sobretudo, da boa imagem positiva da Acreditar, uma vez que o estatuto do cuidador informal tem uma importância muito superior para outras associações / outras realidades, confrontadas com problemas, num certo sentido, mais graves. Algumas notas, apesar de tudo:

1) Não entrava na sede do CDS há mais de 40 anos, seguramente. Foi no CDS que fiz a minha introdução à política embora, vivendo fora de Lisboa, as minhas idas à sede se destinassem, maioritariamente, a recolher tinta, pincéis, cola, cartazes. A minha militância fez-se na rua, pintando paredes, ou num ou noutro episódio como elemento de uma equipa constituída para proteger alguma coisa. Nunca vivi momentos de aperto, salvo alguns encontrões no liceu. Mas eram tempos definidos, com barricadas e inimigos definidos. Em perigo estava a liberdade (ou o nosso entendimento de liberdade) de ser conservador, de manter propriedade privada, de ser católico. Agora, parece-me, é tudo mais vago: luta-se pelo conforto, pela regalia, pelo direito adquirido.

2) Ouvir alguns relatos de cuidadores é por as nossa pequenas preocupações burguesas em perspectiva. Ouvir pessoas que cuidam de filhos deficientes há mais de 50 anos, ou que tomaram conta de uma irmã a quem foi diagnosticado Alzheimer aos 48 anos, ou que são mãe de uma criança de 4 anos com 90% de incapacidade e uma doença rara é, de facto, um pontapé de realidade. Estes cuidadores, como não se constituem em grupo de pressão, não são ouvidos, não têm férias, não têm onde por as pessoas (dizem-me que os lares especializados em Alzheimer satisfazem 1% das necessidades, e que nos outros lares os idosos dementes são amarrados e postos a dormir o dia todo)  ou, se houver sítio, não tem dinheiro. Dizem-me que a estatística de divórcios numa casa onde um filho é deficiente pode atingir os 90%, com graves prejuízos das mulheres. Falam-se das pessoas que perderam carreiras contributivas e perspectivas de carreira, que anularam sonhos e devaneios. Dizem-me muito, e também me dizem da total desilusão com o Estado social, com os apoios da Segurança Social. E falam-me de idoso de 80 anos que tomam conta de idosos de 80 anos.

3) O último período da conferência é dedicado a perguntas e respostas. Entregam, sucessivamente, o microfone a 5 pessoas. Nenhuma delas faz perguntas,  uma ou outra faz intervenções pertinentes. Os outros - e para mais não houve tempo - relatam o seu caso, contando histórias suas em discurso directo, falando da sua vida, das suas dificuldades, das suas alegrias ou dos seus problemas. Na verdade, as pessoas vêm-se com um microfone na mão e sobem a um patamar diferente. Mas também acontece que as pessoas querem deseperadamente falar do seu caso, talvez porque não há ninguém que as queira ouvir. Seja por falta de compaixão, seja por falta de solução...

JdB  

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Poema e comentário dos dias de hoje *

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny, “Pastelaria”, Nobilíssima Visão. Assírio & Alvim: Lisboa, 1991.

***

Este poema não devia ter sido esquecido porque. Mas afinal o que importa não é o esquecimento. Afinal o esquecimento é sem porquê. O que importa é que a rosa é sem porquê. Assim como assim, a rosa não foi esquecida… Afinal pela palavra afinal começa a alegoria, perdão, a pastelaria, e lá fora a alegoria ri-se de tudo. A pastelaria é sem porquê: alegoria, fantasia, poesia. Três teorias: a da produção, a da inspiração, a da câmara escura. Convém não esquecer que a câmara escura também é sem porquê. Não é verdade, menina? Afinal amanhã é sem porquê. O riso admirável é sem porquê. Cerne: mergulhar verticalmente no vício da estante. De poesia? Frente ao precipício. Este precipício não devia ter sido esquecido porque. O vício é sem porquê? Close reading diz-se no feminino? A charola, a estante, a bola, o cinema e a close reading… Burlescas, sentimentais. As teóricas não deviam ter sido esquecidas. Não foram, é verdade, assim como assim. Mas isso afinal não importa. Afinal cantante, compondo uma estante, a rima é sem porquê. Os homens comprazem-se no imitado. As mulheres também. O leite do gerente está quente. Azedo, o leite está azedo. E não é do gerente. A rima não tem de quê. Sem medo. Com medo. Cedo: este poema sabe e gosta. Verticalmente no vício: lavados e muitos dentes brancos à mostra. Sabe e gosta: o riso é sem porquê. Este poema não devia ter sido esquecido porque. O poema é sem porquê. Afinal, assim como assim, faz falta. Faz falta todos os dias. Todos os dias sem porquê. Ter o poema ao lado de ter horas de ócio. Afinal o que importa. Pela palavra afinal começa afinal o que importa. Não é verdade, rapaz?

Abel Barros Baptista

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* retirado daqui

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Textos dos dias que correm

Os Mesmos Erros

Mesmo um exame superficial da história revela que nós, seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados, começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam. Temos botões de fácil acesso que, quando carregamos neles, libertam emoções poderosas. Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer - mesmo coisas que sabemos serem erradas.

Carl Sagan, in "O Mundo Infestado de Demónios"

***

Erros da Inteligência e do Coração

Os erros e as dúvidas da inteligência desaparecem mais depressa, sem deixar rasto, que os erros do coração; desaparecem não tanto em consequência de discussões e polémicas como graças à lógica iniludível dos acontecimentos da vida viva, que às vezes trazem consigo o verdadeiro escape e mostram o caminho adequado, senão logo, na primeira altura, num prazo relativamente breve, em certas ocasiões, sem haver necessidade de se esperar pela geração seguinte. Com os erros do coração o mesmo não sucede. O erro do coração é de maior monta; significa que o espírito frequentemente, o espírito de toda a nação, está doente, sofre de qualquer contágio e não poucas vezes essa enfermidade, esse contacto, implicam tal grau de cegueira, que toda a nação se torna incurável... por mais tentativas que se façam para a salvar. Pelo contrário, essa cegueira desfigura os factos a seu talante, deforma-os segundo as delirantes visões do espírito doente e até pode suceder que toda a nação prefira ir para a ruína conscientemente, quer dizer, conhecendo já a sua cegueira, a deixar-se curar... pois já não quer que a curem.

Fiodor Dostoievski, in "Diário de um Escritor"

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Da monarquia inglesa como metáfora para a vida

Nesta minha recém-chegada à Netflix comecei a ver uma série que me tem sido elogiada por muita gente próxima: The Crown, que retrata a vida da família real inglesa desde pouco tempo antes da morte de Jorge VI até não sei onde, porque estas séries são dinâmicas. 

Há, quanto a mim, três motivos para se seguir a série: (i) como entretenimento puro, (ii) como documento (algo) histórico, (iii) como metáfora para a vida. O primeiro motivo é auto-explicativo - as vidas modernas são tristes, pouco temos para dizer uns aos outros, e realeza é realeza. Sempre é mais glamoroso (como se diz agora) ver o quotidiano da casa de Windsor do que do Jamaica. Pode ver-se a série como um documento histórico: como se vivia no palácio, como eram as rotinas e as relações da Rainha com os primeiros-ministros, as tensões políticas dentro do governo, os jogos de bastidores, a resolução de crises internas ou externas. Há um terceiro motivo, seguramente menos óbvio, que passa por olhar para a série como uma metáfora para a vida. 

Viver é perigosíssimo, diz repetidamente João Guimarães Rosa no seu livro Grande Sertão: Veredas. E a vida não é, de facto, coisa fácil, nesta luta constante entre passado e futuro, entre saber agir e saber não agir, entre silêncio e voz. Num certo sentido, a ideia de ser-se Rainha de Inglaterra (porque é disso que falo agora, e porque a monarquia inglesa se reveste de especificidades)  é uma espécie de lugar geométrico de todas as tensões da vida, de todas as escolhas da vida.

Na nossa existência há sempre caos e ordem como representando o território inexplorado e o território explorado. A tradição é ordem, a mudança é caos (Jordan Peterson, no seu 12 Regras para a vida, um antídoto para o caos espraia-se mais sobre este assunto, mas fiquemos por aqui) e em todos os reinados, como em todos os momentos da nossa vida, há esta tensão entre um e outro - e por vezes uma tensão muito forte. Na série há três exemplos muito flagrantes: (i) o desejo da Princesa Margarida em casar com um plebeu divorciado; (ii) a vontade da Rainha Isabel escolher um secretário pessoal mais júnior; (iii) a ideia, defendida pelo Príncipe Filipe, de que a cerimónia da coroação deve ser transmitida pela televisão. Todas as situações são caos, são território inexplorado, são rompimentos com tradições. Num caso vinga o caos, nos outros dois vinga a ordem. Mas em todos a decisão não foi fácil, provocou desgosto, constrangimento, dúvida, perplexidade.

***

Dois momentos (entre muitos outros) que retenho da série: num, o secretário pessoal da rainha, na iminência da reforma, sugere para seu sucessor alguém mais sénior (para manter uma tradição) enquanto a rainha prefere alguém específico, mas mais novo. O secretário ainda em vigor fala (embora não o mencione) de território inexplorado: Eduardo VIII rompeu com a tradição ao não querer morar em Buckingham; a rainha quer romper com a tradição de um plano de sucessão antigo e eficaz. É por aqui, por esta cedência ao caos, que a podridão (e a expressão é dele) entra e que a instituição acaba por morrer.

O segundo momento: o Duque de Windsor, que chegou a ser Eduardo VIII, assiste, com amigos, à transmissão pela televisão da coroação da sua sobrinha como Isabel II. A cerimónia desenrola-se acompanhada pela explicação que o Duque vai dando sobre o que se passa e o que está por trás de cada gesto. Nota-se, nele, conhecimento histórico, informação detalhada - talvez alguma nostalgia por não ser ele o protagonista daquela cerimónia. Depois, a um dado momento, um pálio cobre o trono onde a rainha será ungida com o óleo santo. A rainha desaparece do campo de visão das câmaras. Alguém pergunta o motivo pelo qual não pode ver-se o que se passa, por que motivo a unção com o óleo não é visualmente acessível a todos. O Duque de Windsor responde: porque somos apenas humanos.

JdB 

domingo, 3 de fevereiro de 2019

4º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 4,21-30

Evangelho de Nosso Senhor Jes
us Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo:
«Cumpriu-se hoje mesmo
esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».
Todos davam testemunho em seu favor
e se admiravam das palavras cheias de graça
que saíam da sua boca.
E perguntavam:
«Não é este o filho de José?»
Jesus disse-lhes:
«Por certo Me citareis o ditado:
‘Médico, cura-te a ti mesmo’.
Faz também aqui na tua terra
o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum».
E acrescentou:
«Em verdade vos digo:
Nenhum profeta é bem recebido na sua terra.
Em verdade vos digo
que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias,
quando o céu se fechou durante três anos e seis meses
e houve uma grande fome em toda a terra;
contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas,
mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia.
Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu;
contudo, nenhum deles foi curado,
mas apenas o sírio Naamã».
Ao ouvirem estas palavras,
todos ficaram furiosos na sinagoga.
Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade
e levaram-n’O até ao cimo da colina
sobre a qual a cidade estava edificada,
a fim de O precipitarem dali abaixo.
Mas Jesus, passando pelo meio deles,
seguiu o seu caminho.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Pensamentos Impensados

Pobrezas
Pouco depois de ter sido expulso do Jardim, Adão foi visto a pedir esmola para comprar um fato.

Nudezes
Os índios do Amazonas andam nus e não sentem vergonha; não devem ser considerados descendentes
de Adão e Eva.

Amizades
Adão pediu a Deus uma companhia, Deus deu~lhe uma mulher e foi o que se viu.
Devia ter-lhe dado um perdigueiro português, que é uma óptima companhia.

Maneiras de ver
Quando morre, o homem mais velho do mundo passa a ser o morto mais novo.

Béu-béus
De que raça é o teu cão? Não sei, não sou racista.

Natalidades
Quem nasce depois da meia-noite nasce no dia seguinte.

SdB (I)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Das coisas que são estas coisas e não outras

Num certo sentido, nada fez tão mal a um determinado fado do que a expressão novas sonoridades; num certo sentido nada fez tão mal a uma determinada gastronomia do que a expressão novos sabores.  Ambas se incluem numa campanha mais vasta - e por isso potencialmente mais perigosa - que assenta na ideia de novas experiências.  

Muitos de nós cresceram a ouvir fado interpretado de uma certa forma: um conjunto de guitarras e uma voz, pese embora algumas variantes. Muitos de nós cresceram a comer pastel de nata de uma certa forma: massa folhada e um creme, seguramente sem grandes variantes.  

Amália rompeu a tradição quando começou a cantar poetas eruditos e se fez acompanhar ao piano e ao saxofone. Nenhuma das duas variantes vingou marcadamente - pessoalmente regozijo-me com o fim do saxofone - e talvez o piano nem tivesse surgido não fosse a criatividade de Alain Oulman. Hoje, o fado, graças às novas sonoridades, é acompanhado com contrabaixo, aqui e ali com bateria e, sabe Deus, se com guitarra eléctrica. Hoje o pastel de nata leva queijo da serra, e talvez uma ou outra inovação

A minha relação com a inovação é egoísta: gosto de alguma inovação tecnológica, ligo menos à inovação gastronómica. Quanto à inovação musical, tem dias.  Mas um pastel de nata é um pastel de nata e um fado é um fado. Se alterarmos muito as receitas por trás de ambos os produtos, um dia não saberemos o que é o quê. E se pedirmos um fado teremos de explicar que gostávamos que tivesse guitarra e se pedirmos um bacalhau à braz teremos de explicar que é com ovos mexidos, e não com infusão de santola.   

Até onde pode ir a inovação? Não sei, é uma discussão sem fim. Talvez seja a usura do tempo que acaba por apurar a definição - talvez não fosse fado e, por isso, o saxofone não vingou, e talvez não seja iscas com elas e, por isso, a salada de rúcula não vingue. Mas não podemos deixar que a expressão novas experiências (que no caso dos fadistas é, muitas vezes, um expediente para cativar plateias) desvirtue tudo, sob risco de, daqui a 2 gerações, ninguém saber o que é um fado, porque actualmente tem sintetizadores, ou umas sardinhas assadas, porque agora são enroladas em escargots.

A mudança de uma poesia popular no fado para uma poesia erudita não mudou a sonoridade da música. Mudou a história que se contava - ou deixou de contar-se. Porém, tirar a guitarra ao fado é dar-lhe uma roupagem de tal forma diferente que falamos de outra coisa. Até pode ser a melodia do fado Lopes, mas se for uma orquestra já não sei se é fado. Pastel de nata não tem queijo da serra - chamem-lhe outra coisa.

O mundo pode tornar-se perigoso - não é só o exército islâmico ou a voragem dos impostos e dos virus mais resistentes. O perigo pode vir de uma confusão tal que já ninguém sabe o que é o quê, ou vale tudo o mesmo. Como dizia um amigo, comentando um texto que postei esta semana, não há fado afro, nem afro fado; nós queremos ter à força uma identidade. Para estes palermas, não é a língua que é a minha patria, mas sim o Martim Moniz, e o parlamento o mercado que lá há. A portugalidade tornou-se numa caldeirada.

JdB 

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