quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Deixa-me rir...

Li, nestas férias, um livro de auto-ajuda. Intitula-se Soul Mates - Honoring the Mysteries of Love & Relationship. O seu autor, Thomas Moore, é americano, ex-monge e actualmente casado. Os seus interesses assumidos são a poesia, a filosofia, a religião, a psicologia… tudo o que se prende com a alma, a imaginação, o tao, o eros, os arquétipos, Jung, Freud, Ficino, Platão, you name it. Não achei o livro brilhante, já que tinha lido um outro dele anteriormente – O Sentido da Alma – que achei francamente melhor. Este é um pouco a repetição do anterior mas mais focado nas relações humanas. Não tendo a profundidade dos tratados – trata-se dum livro para o grande público - dá para perceber que o autor sabe do que fala. Não há uma dúvida que o livro apresenta insights muitíssimo interessantes sobre a linguagem da alma na vida humana. Linguagem que por ser tão encriptada, é trabalho (e que trabalho) para uma vida inteira!

Por junto, Thomas Moore defende que a linguagem da alma deve ser honrada, não-julgada e sempre seguida. O que significa que sempre que seguimos a nossa alma (que em muitos casos se confunde com o coração ou com a intuição), estamos no bom caminho. Independentemente do resultado. Que pode ser, aliás, catastrófico. Por outras palavras, Thomas Moore defende a teoria da fidelidade a si próprio. Até aqui tudo bem. A questão é que TM defende um tipo de fidelidade livre (tanto quanto se pode ser) de convenções sociais, morais ou religiosas. Sistematicamente livre, fazendo da “liberdade” o “verdadeiro” caminho. Mas uma fidelidade vivida, subentende-se, com responsabilidade, maturidade e lucidez. Depreende-se, portanto, que o sujeito da escolha tem plena consciência que acção gera resultado, que o que sentimos, fazemos e dizemos tem consequências no Outro e no mundo.

O outcome do viver na fidelidade a si próprio é o abandono ao mistério, é a construtiva (ou destrutiva?) expansão de nós próprios, é o viver a vida duma forma plena, intensamente criativa, alternando luz e sombra (às vezes profunda sombra, profundo sofrimento), num let it flow permanente. Mas sempre num espírito de aceitação, de entrega e de confiança que a Vida é muito maior e poderosa do que nós próprios.

Impressionaram-me várias partes do livro. Transcrevo uma das mais intensas e polémicas: If we imagine ourselves as being every bit as huge, deep, mysterious and awe-inspiring as the night sky, we might begin to appreciate how complicated we are as individuals, and how much of who we are is unknown not only to others but to ourselves. Our natures will always be largely uninterpretable. If we were only to stop interfering with this vast potentiality of the soul, there would be no telling what we could achieve or how much life would flow through us.

Não acho simples defender esta teoria que parece colocar o Homem no centro da Vida, pleno actor e arquitecto da sua própria existência, removendo Deus para um plano distante, para um papel de mero observador e, sobretudo, de não-Pai. Sim, não, talvez? Cada um sabe de si, cada um tem o seu olhar sobre Deus. Mas também não é fácil viver seguindo consciências excessivamente balizadas que, no limite, podem ser castradoras e não favorecedoras da plena expansão e expressão individuais.

Estou em crer, no entanto, que os Santos e gurus por esse mundo fora e ao longo da História, após anos de reflexão, estudo e sofrimento libertador, chegaram ao ponto que Thomas Moore defende. Naturalmente, e sempre, em total liberdade e consciência, optar pelo Bem, fazer o Bem, gostar do Bem. É chegar a um ponto em que o ego deixa de existir e se funde com o plano divino. Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. Esta mensagem de São Paulo é, evidentemente, cristã. Mas extravasa a Cristandade se entendermos o significado das grandes religiões. Todas falam nessa vivência de profundidade, de comunhão com Algo de maior.

No fundo é como se estes homens tivessem eliminado a cegueira que impede os olhos do coração de verem mais longe (não era disto que tratava a tragédia grega?). É como se estes homens tivessem sintetizado em si a essência de Deus e a essência da Vida. Que, no campo metafísico se fundem, mas que, no plano físico, se tendem a dispersar. Nas palavras de Gandhi, numa felicíssima descrição do que é a Felicidade: Felicidade é quando aquilo que pensamos, sentimos e fazemos se encontram em perfeita harmonia.

Mas quantos de nós estão neste ponto? Quantos de nós chegarão a este ponto ao longo desta vida? Sim, porque não acredito, de todo, na reincarnação e em aprendizagens em vidas subsequentes.

Entretanto, faz-se o que se pode: ouvir, ou não, a voz da consciência. Fazer o que nos apetece ou aquilo para que fomos “programados”. Viver pelo princípio do prazer ou pelo do dever. Viver umas vezes egoisticamente, outras deixando os outros falar mais alto. Ser animal, ou ser espiritual. Resumindo, nas palavras dum amigo muito querido: todos os dias Nossa Senhora me fala, e todos os dias eu escolho não a ouvir.

Verdadeiramente, a liberdade é um mistério, a vida é um mistério, nós somos um mistério (para os outros e até para nós próprios). Por isso, se calhar, é melhor mesmo carpe diem, let it flow, e acreditar que tudo isto da vida é excessivamente grande, bom e felizmente inexplicável para que tentemos dominar ou sequer perceber (nas palavras de outro amigo muito querido).

Meu Deus, cheguei ao início do meu raciocínio! Se calhar Thomas Moore está coberto de razão…ou não estará?

E agora a música, porque é de música que as quintas-feiras tratam. Uma repeater da qual não me canso (tal como do Rui Veloso). Amy Winehouse e a sua forma inconfundível de estar, cantar e sentir a música.



pcp

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Moleskine

Divagações. Há uns dias, no meio de uma vaguíssima tensão, alguém me dizia que actualmente só as coisas verdadeiramente importantes lhe provocavam stress. Dei por mim a pensar que o raciocínio estava errado, não só por conhecer a pessoa em questão, como porque sim. Eis senão quando me deparo com um pensamento de Charles Bukowsky que, de uma forma bem mais elucidativa, corrobora o que eu penso (e o que pensa o meu interlocutor, não fora o calor do momento): não são as coisas importantes que levam um homem ao manicómio. Está preparado para a morte ou para o assassínio, para o incesto, o roubo, o incêndio, a inundação. Não, é a série contínua de pequenas tragédias que leva um homem ao manicómio... Não é a morte do seu amor, mas sim o atacador do seu sapato que se rompe quando tem pressa.

Concerto. 23 de Setembro, 19.00h, Gulbenkian. Mão eternamente amiga oferece-me dois bilhetes para assistir ao Cosi Fan Tutte, de Mozart, pela Orquestra Barroca de Freiburgo, com um naipe de solistas (para além de parte do coro local) verdadeiramente excepcional. Fica um vídeo de uma das árias mais bonitas, mas numa versão ligeiramente diferente, cantada pelos Swingle Singers. Casa cheia, como não podia deixar de ser. Há horas felizes e amizades fortes a quem se deve sempre um gesto importante.



Serralves. Meio fim de semana no Porto para actividades diversas. Hotel na Boavista, a dois passos da estátua onde, há muitos anos, o avô do meu querido amigo FQ me explicou a simbólica: acima de tudo é o leão a pôr-se na águia... Era um homem encantador, mas pouco previsível nestas coisas do futebol... Tempo ainda para ir a Serralves deliciar-me, sobretudo, com o esplendor dos jardins, se bem que valha sempre a pena visitar as exposições de momento. E o Porto aqui tão perto.

Cruz. Troca de impressões, via mail, com quem vive um momento menos intenso de fé – se bem que esta não lhe falte. Falamos da Cruz e algo nos separa – se não ao nível da certeza conceptual, pelo menos ao nível do que cada um sente: a cruz é um símbolo de Amor ou de Dor? Há uma resposta certa para a dúvida, ou a interpretação tem a ver com a nossa educação, com a nossa história de vida, com a forma como vivemos e nos foi transmitida a religião?

Tolerância. Esta virtude talvez seja como a definição de sucesso que aprendi nos bancos da multinacional: é um percurso, não é um destino. É um exercício diário, porque há truques de pequena magia que nos fazem pensar que somos tolerantes quando, afinal, o somos viciadamente. Se temos uma adição, por mais ligeira que seja, somos tolerantes com quem também a tem; o raciocínio é igual quando pensamos nos nossos pecadilhos ou defeitos – somos tolerantes com quem se nos assemelha. É mais difícil exercer a virtude no confronto com gente substancialmente diferente de nós - nas opções, nos princípios de vida (quando não envolve carácter...), na politica, na religião, no feitio ou no comportamento. Escrevi, neste mesmo espaço, um texto dedicado ao encanto do segundo olhar: a forma como olhamos para alguém e nos desafiamos a ir mais longe, ver além do desfocado, entender os verdadeiros motivos por trás de uma atitude qualquer.

JdB

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tostão Contado

Escada acima, escada abaixo. Tapetes levantados, almofadas do sofá incomodadas, cadeiras arredadas do seu lugar de repouso habitual, esquinas de salas esquecidas que tiveram direito a ser olhadas segunda e terceira vez. Nada dentro de casa escapou a esta busca impiedosa pelo tostão perdido.

Os cortinados foram mexidos, remexidos e abanados que, estando sempre tão fechados sobre si próprios, são o esconderijo perfeito para um tostão transviado. Tantas dobras e tanto pano oculto só podem servir para esconder o que não se quer mostrar.

As molduras foram rodadas ou deitadas, quem sabe se por trás dos sorrisos das fotografias não se esconde alguém que gosta de ficar com o que não é seu. Houve mesmo algumas que, por distracção ou vingança, quem sabe?, foram deixadas voltadas para uma parede vazia, ou ainda pior, voltadas para fotografias de pessoas de quem não gostam.

Nem mesmo o piano, avô de todos os móveis da casa, foi poupado a esta violação de privacidade. Espreitaram para dentro dele, sem pedir licença, sem bater no tampo para anunciar que iam entrar. Levantaram e afastaram as cordas, já frouxas e moles devido ao abandono e esquecimento a que foram votadas, como os velhos que vão contando o tempo que têm, com dedos que já não mexem e articulações que rangem.

Em lado nenhum se encontrou a moeda. Evaporou-se. Desapareceu. Fugiu sem deixar morada nova. Já não havia pedaço de chão que não tivesse sido esquadrinhado. A casa tinha sido toda passada a pente fino.

Amanhã viria o leiteiro fazer contas, e como reagiria quando lhe fosse dito, Olhe, eu até tinha o dinheiro que lhe devo, mas o tostão decidiu fazer pouco de mim e saiu de casa sem me dizer para onde ia. Como seria paga a manteiga para dar sabor às torradas? O pão para a torradeira? A electricidade que dá vida, não só à torradeira, mas também ao resto da casa? E se nós sem comida corremos o risco duma fraqueza, o que acontecerá a uma casa sem electricidade que, vendo bem, é a sua fonte de alimentação?

Bem diz o Evangelho que devemos ir sempre em busca da dracma perdida, mas, nessa parábola, a dona da moeda desaparecida tinha outras nove guardadas em lugar seguro. Essas não iam a lado nenhum, estavam fechadas a sete chaves dentro de um cofrezinho de madeira que, por sua vez, estava guardado dentro de um baú, esse fechado não a sete mas a nove chaves. Uma por cada dracma. Com tanta tranca não há, realmente, o perigo de desaparecimento de mais dinheiro.

Mas neste caso a moeda era exemplar único. Não havia mais nove dentro de um cofrezinho, dentro de um baú. Por isso, esta busca tinha mais de necessidade que de misericórdia.

Mas, seja quais forem as razões por trás da busca, parece que o dinheiro levou a melhor. Partiu para parte incerta, lançou-se ao mundo, foi descobrir novos porta-moedas. Ou então, talvez esteja só bem escondido dentro de casa, amuado num esconderijo secreto, a descansar de todas as transacções a que tem sido sujeito, e toda esta busca furiosa pelo tostão perdido seja um pouco exagerada.

SdB (III)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Uma amiga, num almoço inspirado na esplanada da Gulbenkian a estender-se jardim adentro, onde nos esquecemos que continuamos no centro de Lisboa, recomendou-me um livro imperdível: as entrevistas a escritores de renome, publicadas na revista «The Paris Review» (http://www.theparisreview.com), criada em 1953 por escritores americanos radicados em Paris.

Um dos objectivos era dar voz aos próprios artistas, para contrapor ao excesso de audiência dada, já nessa altura, aos críticos literários. Assim arrancou um periódico único, que gravou grandes reflexões de grandes nomes da literatura do século XX.

O livro editado em Portugal o ano passado(1) registou os encontros com 10 escritores: E.M. Foster, Graham Greene, William Faulkner, Trumam Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges e Jack Kerouac. Os próprios entrevistadores circulavam no meio artístico, ajudando-nos a conhecer os entrevistados sem ser intrusivos nem banais… Tudo parece decorrer com alguma naturalidade, apesar de nem todos gostarem de ser observados, como Hemingway ou G.Greene.

Os recantos para escrever não podiam ser mais díspares e excêntricos: do gabinete vazio, a escassos centímetros quadrados numa prancha a abarrotar de papéis para ali escrever de pé na maior das austeridades, ou o sofá onde a escrita flúi na horizontal e de copo na mão, ou sentado em quarto escuro sem janelas ao jeito de uma cela... Quase não encontramos denominadores comuns. A regra parece ser a circunstância e o gosto exclusivos de cada escritor!

Em termos artísticos: uns superlativizam a ideia original perseguida pelo artista, enquanto outros assumem que escrevem para sobreviver, como qualquer outro trabalhador.

Uns consideram-se inspirados e embalados pelo prazer da escrita, enquanto outros dizem entregar-se ao árduo dia-a-dia, guiados pela disciplina férrea de quem tem de produzir páginas preenchidas em prazos muito apertados.

Uns curtem uma vida boémia e eclética, enquanto outros se sujeitam a uma agenda bem modesta e regrada.

E, ao contrário do que esperaríamos, não são os mesmos a somar o prazer das farras ao prazer da escrita!

Ainda no terreno das improbabilidades: também não são os palavrosos os mais abertos. Nem os comunicativos os mais interessantes. Nem os simpáticos os menos egocêntricos. Nem os antipáticos os menos afectivos. Nem os irreverentes os mais sinceros. Nem os faladores os mais profundos. Talvez porque a substância das coisas se comunique melhor nas entrelinhas.

E aqui deter-me-ia em dois dos gigantes que por ali desfilam, coincidentemente premiados com o Nobel, whatever it means: Boris Pasternak e Ernest Hemingway.

Nenhum é de contacto fácil, embora em Pasternak as manifestas dificuldades em ser entrevistado (a conversa reparte-se por 3 visitas diferentes) sejam atenuadas pelo facto de a entrevistadora ser de ascendência russa, filha de artistas com quem o escritor privara.

São ambos de uma agudeza de espírito indisfarçável. Nem mesmo os remoques resmungados por Hemingway turvam o jacto muito límpido da sua genialidade transbordante. Como uma ferida em carne viva que aguenta mal superficialidades. Uma alma causticada pela dor e pela incompreensão, que esgotou a tolerância à mediania. Sente-se, em ambos, que o tempo lhes foge, enquanto o caminho até ao cume permanece uma longa e penosa caminhada… a sós. Provavelmente, inatingível.

Este gin já vai longo pelo que deixarei para o próximo a entrevista memorável ao velho lobo do mar.

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda-feira)

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(1) Título: Entrevistas da Paris Review

Autor: vários

Data de edição/reimpressão: 2009

Editor : Tinta da China

domingo, 26 de setembro de 2010

26º Domingo do Tempo Comum

Este trecho de Lucas pode levar-nos a presumir, numa primeira leitura seguramente precipitada e ligeira, que os ricos vão para o Inferno e os pobres para o Céu. Do modo de viver do abastado, sabemos apenas que “se vestia de púrpura e linho fino
e se banqueteava esplendidamente todos os dias”. No extremo oposto da qualidade, Lázaro, um pobre, que “jazia ao seu portão, coberto de chagas”. Muitos, interpretando os ensinamentos de Cristo à sua maneira, entendem que condenação daqueles que têm riqueza é um dado adquirido.

Uma segunda leitura pode guiar-nos à identificação do trecho como sendo uma descrição do homem na morte. O rico, “na mansão dos mortos”, mergulhado no sofrimento e no tormento, flagelado pelo fogo do inferno, ergue os olhos e vê Lázaro no seio de Abraão, inundado de uma paz celeste e recompensadora, sarado finalmente das feridas e da miséria, libertado dos “cães que vinham lamber-lhe as chagas”.

A perspectiva de que após a morte os condenados poderiam ver os que se salvaram, não seria totalmente descabida. Afinal, na Sua infinita bondade, Deus só não acolhe os que não querem, os que recusam o arrependimento – nem que seja no último instante. Um inferno com vista para o Céu seria uma provação mais. O nosso imaginário poderá até sugerir-nos que não há excesso de castigo para quem se condenou, levando uma vida de opções erradas, mantendo a obstinação de não arrepiar caminho, ainda que com a morte à vista.

Rodemos, então, o nosso olhar e o nosso raciocínio. Assumindo que quem se perdeu vê os que se encontraram, podemos conceber que o inverso é verdadeiro? Quem sobe para o Pai vê os que descem às trevas? É concebível que uma eternidade de felicidade passe pela visão da mesma eternidade de sofrimento? Seguramente que não. O nosso bem-estar, sobretudo quando elevado à dimensão e à intemporalidade divinas, não se compraz com, nem suporta a infelicidade alheia.

O que se oferece dizer em primeiro lugar parece ser de uma simplicidade cristalina. Na sociedade de hoje, o poder, a fortuna, o estatuto social, o sinal exterior de riqueza, têm uma enorme importância. A nossa competência profissional enche-nos de uma satisfação saudável ou de um orgulho vazio, garantindo promoções e aumentos que presumimos sempre justos e merecidos. O sistema internacional – que antes definia o metro padrão – adoptou, no Portugal contemporâneo, uma medida para avaliar a qualidade das nossas vidas – a percepção do sucesso. Não a realização pessoal, a satisfação ou o gozo, na sua expressão mais pura – apenas a percepção do sucesso.

S. Lucas alerta-nos bem: as grandezas social, profissional ou financeira de que dispomos na Terra não nos garantem um lugar cativo no Céu; não são, por si só, palavra chave para a vida eterna; não descodificam, automaticamente, o segredo que nos dá acesso à morada celeste. Os “critérios” de Nosso Senhor não assentam numa lógica de poder ou influência, riqueza ou poder de compra, notoriedade pública ou mediatismo.

Não sejamos tentados, no entanto, pela simplificação em excesso - a direita do Pai não nos é devida porque somos importantes ou temos dinheiro. Mas também não nos é vedada pelos mesmos motivos. O Paraíso não está povoado, apenas, por uma imensidão de ‘Lázaros’, atirando os ricos para uma condenação eterna indiscriminada.

O apóstolo vai mais longe no transmissão dos ensinamentos: o Céu ganha-se na Terra. É aqui, no nosso dia-a-dia, nas pequenas rotinas, na interacção com os outros, no modo como olhamos o próximo, que ganhamos a justa aspiração à Salvação. Há 2000 anos que temos um referencial – Jesus Cristo –, e um manual de boa conduta – os Evangelhos. Usemo-los como exemplo. Abraçar o projecto é fazê-lo na totalidade, e não nas partes que mais nos convêm ou menos incómodo nos provocam; a nossa disponibilidade só pode ser vencida pela fraqueza humana inerente a cada um.

Ser-se rico pode ser resultado de sorte, mérito ou ambos. Herda-se um património, cria-se um negócio do nada, desenvolve-se o legado dos antepassados. Ascender a cargos relevantes pode ser sinónimo de competência profissional, ambição ou alinhamento favorável de condições aleatórias. Parte do que temos ou somos é consequência de factores que nem sempre dominamos, para os quais não contribuímos de forma decisiva ou não emprestámos o nosso esforço, como sejam a aptidão natural ou a sorte. É, de alguma forma, uma dívida que temos - com a vida, com os outros. Com Deus, quiçá.

Simplifique-se e encurte-se a argumentação:

P: O que faço então com o dinheiro que recebi ou ganhei, fruto da sorte ou do esforço? O que faço então com a posição profissional ou social dominante a que ascendi, fruto da sorte ou do esforço? O que faço então com as qualidades pessoais que tenho, fruto da genética ou do meio ambiente? O que faço então com os talentos de que disponho, fruto de características que são minhas?

R: Ponho-os ao serviço das pessoas, do bem comum, do meu próximo.

Ser-se Feliz, verdadeiramente Feliz, é tocar a vida dos outros, É sentir que deixamos um mundo melhor, mesmo que nesse mundo caibam poucas coisas e poucas pessoas. É sentir que usámos o que temos e o que somos para ajudar os que precisam – não só os que tornam o sofrimento visível, mas também os que padecem da pobreza e solidão envergonhadas. É olhar para as crianças, para os idosos, para os marginalizados, para as vítimas da violência ou da fome. É fazer o possível e o alcançável.

Este Homem Novo que pode despertar está acessível a todos – pobres e ricos, influentes ou anónimos, cada um na sua dimensão. Aceitemos, no entanto, a ironia do destino: sermos detentores de fortuna, influência ou talento não nos proporciona mais regalias - dá-nos mais responsabilidades.

Concluamos: quando todos exercermos esse tal olhar, talvez a nossa vida seja medida pelo grau de felicidade que irradiamos, e a percepção do sucesso tenha de ser validada com uma pergunta simples, mas demolidora: ele / ela aparentam ter sucesso. Mas serão realmente Felizes?

O Céu ganha-se na Terra. Só que, ao contrário do que diz o célebre filme, o Céu não pode esperar.

JdB

Nota: Texto (muito) baseado num escrito em 2006 para comentário a este mesmo evangelho.

EVANGELHO – Lc 16,19-31

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
disse Jesus aos fariseus:
«Havia um homem rico,
que se vestia de púrpura e linho fino
e se banqueteava esplendidamente todos os dias.
Um pobre, chamado Lázaro,
jazia junto do seu portão, coberto de chagas.
Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico,
mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas.
Ora sucedeu que o pobre morreu
e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão.
Morreu também o rico e foi sepultado.
Na mansão dos mortos, estando em tormentos,
levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado.
Então ergueu a voz e disse:
‘Pai Abraão, tem compaixão de mim.
Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo
e me refresque a língua,
porque estou atormentado nestas chamas’.
Abraão respondeu-lhe:
‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida
e Lázaro apenas os males.
Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado,
enquanto tu és atormentado.
Além disso, há entre nós e vós um grande abismo,
de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós,
ou daí para junto de nós,
não poderia fazê-lo’.
O rico insistiu:
‘Então peço-te, ó pai,
que mandes Lázaro à minha casa paterna
– pois tenho cinco irmãos –
para que os previna,
a fim de que não venham também para este lugar de tormento’.
Disse-lhe Abraão:
‘Eles têm Moisés e os Profetas.
Que os oiçam’.
Mas ele insistiu:
‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles,
arrepender-se-ão’.
Abraão respondeu-lhe:
‘Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas,
mesmo que alguém ressuscite dos mortos,
não se convencerão’.

sábado, 25 de setembro de 2010

Pensamentos impensados

Cidades com mais de um nome:
Bizâncio, Constantinopla e Istambul
S. Petersburgo, Leninegrado, Petrogrado e S. Petersburgo outra vez.

PCP-Bingo ou, se quiser, meio Bingo.
MAF- Nasci em Lisboa, vivo em Lisboa e não posso gostar mais de Lisboa; no entanto não me lembrei, miseravelmente, de Lisboa; sabe que também já se chamou Allis Ubo, Olissipo e Felicitas Julia?

O cocktail é uma bebida inventada pelos Sheiks.

Um português que jogava roleta em França, quando saiu o 16, número em que tinha apostado, não se conteve e gritou: a "seize o que é de seize".

INJUSTO- O futuro dum homem está nas mãos duma criança.

Um habitante de S. Francisco estava no Japão e chamou oriental a um japonês; este olhou para o americano e gritou-lhe: oriental és tu!

Passado presente e futuro
Pensando bem, só existe passado; o presente, mal acabamos de dizer presente, já é passado; o futuro, até prova em contrário, não existe (este pensamento sobre o futuro não é meu, e tenho pena).

SdB (I)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

cadernos andaluzes

I. no dia no teu aniversário

toda a poesia é guerra, disse alguém
e quem sou eu para desdizê-lo?
por exemplo: hoje.
aqui, à sombra das laranjeiras e dos limoeiros,
bebendo nos lábios a fina luz da manhã,
contemplo séculos de história
e um complexo edifício-síntese,
combinando a memória do islão e do cristianismo
numa coexistência pacífica, comovente até.
qual o segredo?, perguntas-me.
e eu respondo-te: a ausência de seres humanos,
daqueles que estão ainda verdadeiramente vivos.
quer dizer: não é a completa ausência,
mas antes esse papel secundário
que todos os turistas desempenham
no grande esquema do mundo.
esta memória religiosa, arquitectónica,
mutuamente incrustada e indissolúvel,
faz-me lembrar eu próprio,
outra forma de dizer que me lembra a forma incontornável
como tomaste conta de mim.
por exemplo: hoje.
hoje, dia do teu aniversário, a centenas, talvez milhares,
de quilómetros de distância,
não deixas de estar aqui, e portanto de seres eu próprio,
tal como tudo o que ficou para trás e o que há-de vir
são extensões de uma essência presente qualquer,
como todo o amor que já morreu não deixará nunca de ser.
como tudo o que não há e que um dia houve ou um dia virá a existir.
nesta mesquita-catedral que me acolhe
em seus frondosos e intemporais braços,
é a ausência de vida quotidiana que permite um olhar doce,
desabitado de fantasmas e morticínios.
toda a poesia é uma jihad, uma guerra santa inclemente,
e agora sou eu que o digo.
entretanto, o dia entra em combustão,
o sol da andaluzia dá sinal de si,
regressam os passarinhos e o seu canto embalsamado.
cheira a verão, apesar de ser já setembro.

no dia dos teus anos, eu estava em córdoba,
e, tenho quase a certeza, um pedaço de ti também.

gi.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this week I was thinking again about some early musical memories. When I was about 9 years old our family had a nanny/au pair to help my mother look after her four young children. I no longer remember clearly her features or her personality, although I imagine her to be slim with long blonde/brown hair like Francoise Hardy. But I do remember that she used to spend her evenings in her bedroom playing her guitar and listening to vinyl LPs on her little record player. These were the days of the acoustic singer/songwriters, people like Bob Dylan, Simon & Garfunkel, Joni Mitchell, John Denver and James Taylor. Sometimes she would invite me to her room to hear her music. And there was one LP record in particular that I discovered there, that I fell in love with, and have always cherished since. A record which she gave me when she left our family.

Tea For The Tillerman is the album in question. This and its following album Teaser & The Firecat remain timeless classics of the singer/songwriter genre. Beautiful melodies, deceptively simple guitar playing, lyrics full of passion and compassion, of human insight and humanity, of personal searching and universal social conscience.
The first video has the song which remains my favourite of all. I don't know why, even at 9 years old, this song struck such a chord with me. I don't think I was ready to leave the safety of my home! There must be some of the melancholic saudade in my maternal Portuguese blood, some nostalgia for a future that was still to happen.
Evidently the video presents a very early performance of the song, before it becomes famous. It is funny to hear such a humble introduction, our singer recognising its universal theme but not its future classic status:



The second video is a surprise to me. If you know the cover sleeve of Teaser & The Firecat you will recognise the animation, but I did not know there existed an animated film.



What a sad loss to our ears and hearts when Cat Stevens disappeared into a wilderness and became Yusuf Islam. Following a strict orthodox Muslim code he apparently for many years denounced music as something blasphemous unless it was sung or played in the service of praise to Allah.
Did he not realise that so much of his music spoke of universal themes, of universal tolerance and love? Well, thank goodness he has returned. And even if his new songs cannot compare to his early masterpieces, it is nice to see him back, almost like a prodigal son, reclaiming his heritage and helping to bridge the Christian and Muslim worlds:



A proxima.
PO

Moleskine

Festejos (I). Chamo-lhe Anacleto por amizade, ternura e graça, se bem que o seu nome não seja esse. Tem síndrome de Asperger e festejou os 18 anos no passado Sábado, rodeado de amigos, primos, tios, professores, colegas de escola. Já lá vamos... Conheci os pais do Anacleto (a P. e o N.) no terrível ano de 2001. Tendo na alma um propósito definido, um grupo rezava semanalmente o terço, e a P. foi desafiada. Ninguém lhe levaria a mal uma recusa, conhecendo-se-lhe a vida ocupada e difícil. Não hesitou, no entanto, alegando que para isso uma mãe arranja sempre tempo. Isso não era rezar, simplesmente, mas era fazê-lo com quem, apesar de desconhecido, passava um mau momento. Comecei a perceber que quanto mais se faz pelos outros mais tempo se tem para os outros. Regresso à festa: missa, lanche, o Anacleto a tocar magnetofone (?) num misto de concentrado e mirando al tendido, acompanhado por dois professores. Palmas, risos, lágrimas, o aniversariante numa felicidade contagiante, a família num orgulho comovido. Noutro lugar, com outros Pais, talvez o Anacleto fosse um analfabeto torcido numa cadeira, olhando, sem futuro nem alegria, para uma vida vazia de sentido. Noutro tempo, com outros Pais, talvez o Anacleto não existisse, fruto de uma gravidez que se interrompe porque este mundo não é para quem tem problemas. Hoje, com a P. e com o N., o Anacleto é tudo o que poderia ser, face à sua circunstância. Mas o Anacleto é mais: é a evidência de uma vontade, de uma fé que tem dias, de uma luta que se faz diária. O Anacleto é o ponto de união de uma miríade de pessoas. O Anacleto é, acima de tudo, o lugar geométrico do Amor.

Festejos (II). No mesmo dia, separado por poucas horas, o festejo dos 50 anos da minha querida amiga ETM. Olha-se para ela, para os filhos, e questionamo-nos se não terá sido mãe adolescente... Quando o marido derrama um olhar apaixonado sobre a aniversariante, tem a certeza de se sentir sortudo – para além de inteligente. Está tudo óptimo é o título de um livro que a E. ajudou a fazer e que se aplica à festa. Mas, acima da qualidade do repasto e da alegria da noite gostaria de realçar o que é menos tangível: a amizade que me une ao casal. Nos últimos anos fui convidado para festas onde era o amigo mais recente dos festejados. Nalguns casos muito mais recente. A minha ligação ao casal remonta, também, a 2001. O que poderia ser apenas uma amizade improvável e jovem tornou-se num sentimento forte, partilhado e que, estou certo, resistirá à erosão do tempo. Devo-lhes muito: a companhia, a solidariedade, a crítica, o apoio, a abertura, o incentivo. Se podia viver sem a amizade da E. e do A.? Poder podia, mas não seria a mesma coisa. Não seria, seguramente, a mesma coisa.

Livro. Leio O Bom Inverno (João Tordo, Ed. D. Quixote). Cito: “Se estiver a dizer disparates, corrige-me. Mas cada vez mais acredito que só vale a pena ler um romance – neste caso um bom romance – quanto temos uma pergunta na cabeça para a qual não sabemos a resposta. Ou, mesmo que tenhamos encontrado a resposta, se precisamos de confirmação”.

Kátia Guerreiro. Concerto, 5ªfeira passada, no auditório da Senhora da Boa Nova, no Estoril, com o ensemble da Orquestra da Baixa Normandia. Fica um videoclip (ainda se chama assim?) de um fado cantado por ela. Não é do concerto mas, para quem é fã como eu, já basta para recordar. Casa quase cheia, com vários encores, entre eles um dueto improvisado com Ricardo Ribeiro, que também aqui disponibilizo. Quem gostar que se deleite. Quem não gostar, que tenha lá paciência...






JdB

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Férias grandes

Este vento fresco até ajuda e, se me concentrar, consigo alinhar a respiração com o acelerar da passada. Mais depressa. A calçada é tão bonita, toda entalada de improviso, mas não é tempo de passeios, que o balanço é precioso e não tenho paciência para lidar com o prejuízo de abrandar por um capricho. Mais depressa. As esquinas são traiçoeiras, custa dobrá-las à confiança que não vem ninguém do outro lado, não que me assuste a previsível violência de uma hipotética colisão, só estou desconfortável com o facto de não ter todas as variáveis sob controlo. Mais depressa. Deixo cair o casaco de capuz, a falta que me vai fazer é insignificante, comparada com o arrasto aerodinâmico que produz. Mais depressa. Sorrio por defeito, não tenho presença de espírito para esconder o meu entusiasmo dos transeuntes, sorri-me de volta um velho, Corre, corre por ti e por mim, rapaz. Mais depressa. Não esperava ter que dar mais de duas voltas ao prédio, afinal, e apesar de ter desprezado as pequenas hesitações das esquinas, os cento e sessenta e três metros, medidos a passo largo, deviam ser mais que suficientes. Mais depressa. Talvez tenha sobrestimado o meu poder de aceleração, ou talvez seja das sapatilhas. Mais depressa.

A calçada é mais simpática com a vista que com os joelhos. Custa abrir os olhos, assim a olhar para cima, Levanta-te rapaz, ouvi o velho rir enquanto me endireitava com uma força surpreendente, Para onde ias tu, a correr dessa maneira?

Não sei bem para onde ia, mas se as contas estiverem certas, sei bem para quando ia. A última coisa que recordo é ter sentido as pernas a ficar para trás, como seu eu estivesse a fugir de mim mesmo, deve ser isso que se sente quando se está prestes a conseguir. Acho que a tua mãe está a chamar, disse o velho enquanto me sacudia. Tinha ficado muito sério de repente e tinha ar de quem sabia exactamente o que eu estava a fazer, apesar de eu não ter dito nada.

Vou ter de viajar no tempo amanhã, hoje não vai dar, que já é hora de jantar, disse-lhe ao desafio. Amanhã vai estar mais vento respondeu, Talvez ajude.

ZdT

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Fórmula para o caos

Esta semana, a Fórmula para o caos, apresenta-se num estilo ligeiramente diferente do habitual.

Tendo como base um trabalho universitário, e devidamente adaptado a um post bloguistico, escrevo um primeiro texto relativo à perca, por Portugal para a União Indiana, do Estado português da Índia (Goa, Damão e Diu).

Numa próxima oportunidade, serão apresentados as seguintes fases do processo.

A mais velha aliança da história

Para fazer uma análise aprofundada e rigorosa sobre o fim do estado português da Índia (causas e consequências), é necessário, ou mesmo fundamental, relatar os factos e acontecimentos históricos que antecederam esse evento, nomeadamente a convivência entre portugueses e ingleses no sub-continente indiano, tendo como ponto de partida a velha aliança Luso-britânica.

Em 1373 D. Fernando I de Portugal e Eduardo III de Inglaterra estabeleceram que os seus respectivos países seriam aliados. A sua primeira formalização sucedeu em 1386 com a assinatura do Tratado de Windsor.

Segundo muitos analistas histórico-políticos, tratou-se mais de um “ Casamento de conveniência” do que propriamente uma “ Relação amorosa”.

Um dos principais fenómenos do pacto entre Portugal e Inglaterra foi o facto de ter sobrevivido a todas as vicissitudes da história, tais como: guerras, revoluções, golpes de Estado, etc. Poderá considerar-se um autentico case study que uma aliança estabelecida no século XIV tenha perdurado até ao século XX.

Aquando da sua assinatura, o Tratado baseava-se essencialmente num acordo de trocas comerciais, portanto uma relação estritamente económica. Em 1703 procedeu-se à assinatura do Tratado de Methuen, este com moldes mais do foro bélico. Portugal obtinha assim um forte aliado no caso de um hipotético conflito com a vizinha Castela, por seu turno os ingleses conquistavam a amizade de um ponto de apoio para possíveis ataques de alguma outra potência europeia.

Um dos momentos altos da aliança foi o casamento de D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV de Portugal, com Carlos II de Inglaterra. Uma das consequências desta união foi a cedência dos territórios de Tanger e Bombaim à coroa Britânica. A cidade de Bombaim, situada na Índia, foi a porta de entrada dos ingleses no sub-continente.

Na altura da implementação em Portugal da Monarquia constitucional, Lisboa servia como ponto de apoio ás navegações da marinha inglesa na rota indiana, sendo que as matérias ultramarinas eram a base das relações entre os dois impérios. Os momentos, talvez, de maior turbulência aconteceram em 1877 quando Portugal solicita, sem sucesso, a ajuda do seu velho aliado para a protecção de Goa, e em 1890 com o ultimato inglês na sequência do projecto do mapa cor-de-rosa.

Depois da passagem de Portugal do regime Monárquico para o Republicano, o primeiro Conde do Almirantado, Winston Churchill, colocou algumas reservas à aliança. Isto sucedeu devido ao estreitamento de relações entre Londres e Madrid, que poderia provocar um conflito diplomático, dado à animosidade patente entre o Portugal republicano e a Espanha monárquica. No entanto, essas reservas desapareceram quando o Foreign Office reiterou que o pacto com os portugueses era de extrema importância tendo em conta os arquipélagos de Cabo Verde e Açores, locais estratégicos do globo.

Outra grande base de suporte foi o constante apoio demonstrado pelo Reino Unido à ascensão de António de Oliveira Salazar, consagrando a este, o mérito de combater o Comunismo.

Um dos pontos de viragem no mundo, foi a segunda grande guerra que deixou a Inglaterra com vários danos a nível financeiro, situação que se fez sentir em Portugal, visto que a economia nacional assentava fortemente na presença Britânica.

O nascimento da União Indiana: Estado português da Índia em perigo de sucumbir

Não obstante a existência da aliança Luso-britânica, a falta de convergência em matéria de política colonial de Portugal e Inglaterra era bem vincada. Do lado inglês vigorava uma visão mais progressista, sempre com a noção que, mais tarde ou mais cedo, os seus territórios ultramarinos se tornariam independentes, apostando assim, numa relação diplomática com os representantes das colónias. Do lado português, seguia-se à letra o que estava escrito na Constituição de 1933 (principio da não alienação de qualquer parcela do território abrangido pelo império com sede em Lisboa).

Em 1947 o persistente lema “ Quit Índia “, iniciado por Gandhi, deu finalmente os seus frutos, com a obtenção da independência. Nascia assim o novo Estado: União Indiana. Este acontecimento colocou em cheque a soberania portuguesa em Goa, com o surgimento de movimentos nacionalistas que advogavam a anexação do Estado português da Índia por parte do mais recente pais independente.

Começou-se então a viver um clima de instabilidade em Goa, com Portugal permanentemente atormentado por uma possível invasão indiana. Posto isto, Salazar tinha sempre em mente a Declaração de Windsor, que “ obrigava “ o império Britânico a auxiliar militarmente o seu velho aliado em caso de alguma conflito com outra qualquer nação.

O recém-eleito Primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nerhu, opunha-se determinantemente à presença de forças soberanas estrangeiras na península indiana. Não se afigurava pacifico a convivência entre o anticolonialista chefe do governo da Índia e o ultra-colonialista Presidente do Conselho de Ministros de Portugal. No seio das autoridades portuguesas temia-se que a presença de Portugal no sub-continente pudesse estar a chegar ao seu termo, e que apenas teria durado tanto tempo devido à soberania inglesa no resto do território. Recorde-se que Goa nunca havia sido palco de qualquer manifestação independentista. Os líderes dos movimentos a favor da anexação estavam radicados fora das fronteiras goesas, nomeadamente em Bombaim. Essa facção da população era um produto do Congresso Nacional de Goa, criado em 1928 que, atente-se, não surtiu grandes efeitos junto da comunidade, tendo sido alvo de forte opressão portuguesa.

Para Nehru, Goa não era considerado um assunto prioritário, visto que na altura a grande parte das forças estavam concentradas no impasse em que se encontrava Caxemira, factor que jogava a favor de Salazar, concedendo-lhe mais tempo para delinear uma estratégia de defesa dos interesses nacionais. O chefe do governo português já reconhecera que a partida dos britânicos provocava uma “ crise moral “ em Goa. Refira-se que ao longo de todo o processo os indianos deixaram patente a diferença de atitude entre Portugal e Inglaterra, valorizando a maior abertura britânica. Em resposta a essas criticas, o Ministro do Ultramar, Marcelo Caetano menciona assimilação cultural vigente em Goa, contrariamente ao que se sucedia na Índia inglesa. Pouco antes do seu assassinato, Mahatma Gandhi (histórico líder espiritual dos indianos), apelava ao bom senso português, fazendo alusão ao sinal dos tempos, em que o colonialismo deveria ser extinto.

Um dos alicerces de apoio de que Portugal dispunha, provinha da comunidade católica goesa, que temia a possível agressão hindu e muçulmana, em caso de fusão.

Ao mesmo tempo que confiava no fundo pacifista de Nehru (principio da não violência), Salazar fortalecia os laços diplomáticos com o eterno inimigo da Índia, o Paquistão. Esta aproximação entre Lisboa e Islamabad irritou substancialmente os dirigentes indianos, vindo a acentuar a animosidade entre as duas nações. Contudo, o governo português não se retraiu e intensificou os contactos com Hyderabad, província sob administração muçulmana, cuja propriedade era disputada pelas forças paquistanesas. Salazar acreditava no sucesso do Paquistão, e colaboração da Grã-Bretanha, tendo em vista o enfraquecimento da agressão nacionalista. Com isto, a tensão entre Nova Dehli e Lisboa era cada vez maior. Todavia, a persistência da União Indiana teve êxito e Hyderabad foi anexado, com o patrocínio Britânico. Num conflito que opunha duas nações amigas dos ingleses, prevaleceu a sustentabilidade da Commonwealth.

Apesar de todos os ventos soprarem em sentido contrario, em 1948 Portugal e Índia estabelecem relações diplomáticas, esperava-se que de aqui surgissem bases para um entendimento pacifico. Do lado do Foreign Office era reiterado a sobreposição da Commonwealth a qualquer tratado com o império lusitano, anunciando que o governo português não deveria esperar qualquer ajuda proveniente do Reino Unido. Salazar relembra o Tratado de Windsor e a cedência de Bombaim, deixando o aliado numa posição desconfortável. Não passando pela cabeça de ninguém que um personalidade tão experiente como António de Oliveira Salazar estaria a cair no fosso da ingenuidade, este aviso aos britânicos apenas poderia servir para posteriormente, em caso do mais que provável insucesso português, a Inglaterra servir como bode expiatório para a perca de Goa. No sentido de não perder a amizade de nenhum dos intervenientes da crise de Goa, Londres prontifica-se a ajudar diplomaticamente, considerando esta, a única solução. Simultaneamente, Nova Delhi denuncia a intransigência de Lisboa em negociar, contrastando com a de Paris, aludindo ao avanço nas negociações relativas ás possessões francesas no sub-continente.

Em 1949, na sequência da vitória de Mao Tse-Tung na China, o governo inglês intensifica a sua participação no conflito Indo-português. Uma revolta em Goa poderia promover uma revolta em Macau (parte do império português) e pôr em perigo Hong Kong (território britânico). Em caso de invasão a Goa, os diplomatas britânicos levariam o assunto à ONU. Entretanto, Nehru ordena o encerramento da legação indiana em Lisboa, como resposta à recusa de Salazar de conceder a Goa o estatuto de autonomia.

Pedro Castelo Branco



domingo, 19 de setembro de 2010

Domingo …… Se fores à Missa !

“NÃO PODEIS SERVIR A DEUS E AO DINHEIRO”

Desde pequenos nos habituámos a ouvir que Deus e o dinheiro são como azeite e água. Que o dinheiro é pecado, é luxúria. Que o dinheiro nos faz mal. que não se deve ter muito dinheiro, etc.

Confesso que eu própria tenho uma má relação com o dinheiro. Acho que é “trauma de infância” (expressão muito fashion, hoje em dia :-)); o meu Pai sempre fez questão em não nos dar muito dinheiro, recebíamos vinte e cinco tostões de semanada, quando todos os nossos amigos já recebiam cinco escudos. Hoje em dia, agradeço ao meu Pai e aos vinte e cinco tostões, pois de facto a vida está mais para os 2$50 do que para os 5$00 !!!

Mas voltando ao tema do Evangelho. A mensagem de Cristo (a qual, infelizmente, nem sempre coincide com a mensagem dos - alguns - padres que ouvimos) tem, obviamente, a ver com partilha. Cristo pede-nos que usemos o dinheiro com sabedoria e que o usemos segundo a sua doutrina e não segundo os nossos caprichos. O dinheiro, em si mesmo, não é um mal. Termos dinheiro, termos MUITO dinheiro não é pecado, naturalmente. O problema está na forma como o usamos. Os muito ricos não “pecam” mais que os menos ricos só porque têm mais; nem os menos ricos “pecam” mais que os pobres porque estes não têm. Não ! A questão está na forma como sentimos poder quando temos dinheiro; a questão está na forma como tratamos os outros quando temos dinheiro; na forma como nos achamos imunes, só porque temos dinheiro. A questão está nos nossos corações e não no dinheiro. Quem tem um coração bom, pode até não ter dinheiro nenhum para partilhar com os outros, mas pode dar do seu tempo, pode fazer render os seus talentos, pode partilhar experiências, pode dar um simples abraço ou um olhar atento. Eu iria um pouco mais longe, até. Quem tem MUITO dinheiro, deveria ter mais responsabilidade cristã, porque além do tempo, dos talentos, da experiência e do abraço, tem ainda o dinheiro que pode partilhar, se quiser.

Se Cristo vivesse connosco, na sociedade actual, não seria certamente o dinheiro que o chocaria mas sim a aridez do coração dos homens. Não é o dinheiro que tem de mudar de mãos, mas sim o nosso coração.

Domingo Se Fores à Missa ..... Muda o teu Coração !

MAF

EVANGELHO – Forma breve Lc 16, 10-13

«Não podeis servir a Deus e ao dinheiro»

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não fostes fiéis no bem alheio, quem vos entregará o que é vosso? Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedica a um e despreza o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro».

Palavra da salvação

sábado, 18 de setembro de 2010

Pensamentos impensados

SANTO E SÃO
A resposta à pergunta da semana anterior é Santo Tirso e Santo Quintino, que é uma povoação perto do Sobral de Monte Agraço. Como a pergunta visava nomes próprios, nunca seria de aceitar Santo Condestável, Santo Graal ou Santo Sepulcro. Quanto a santos contestáveis, ou sejam, santos que a Igreja contestou e por isso os retirou do Hagiológio, lembro-me de Santa Filomena, Santo Expedito, São Jorge e São Cristóvão.

Comprei uma embalagem de papel higiénico onde se lia PAPEL RECICLADO. Sem comentários.

Tinha uma colecção bizarra: coleccionava água; onde quer que fosse trazia sempre um frasquinho que depois era rotulado. Gabava-se de ter os primeiros pingos do dilúvio.

Histórias que ouvi a uma pessoa que não primava pela inteligência, mas que eram divertidas.
- Ir a Paris de automóvel é facílimo; é sempre a direito e há um sítio onde se vira à esquerda e eu sei onde é.
- Alá jacta est, provérbio árabe.

Há uma cidade que já teve 3 nomes; qual é?
Há uma cidade que já teve 4 nomes sendo um repetido; qual é?

SdB (I)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

quero(-te), quero(-me)

no tempo das suaves raparigas, às vezes a vida torna-se (quase) insuportável
de tão furiosamente bela, mesmo se esculpida por impossibilidade e ausência.
eu, que de mim há séculos não sei, rodeio-me de feminis enredos ou regaços
forma de me esconder do mundo, de mim próprio, de tudo o que é contingência.
quero o absoluto, quero o amor, o erotismo que dá vida e mata, quero tanto o
que é impossível, o que ata e desata, o que desatina e desbarata, o que me mata.
quero a vida salgada, a ternura que é brasa, quero o mundo como minha casa,
quero o final da perda continuada, das pessoas que dizem adeus, acabar com
esta personagem que é só caravana que passa (antes ser cão ou ser tua poeira
cósmica, sublime e devassa), quero o amor absoluto, a flor na ponta da espada,
quero respirar o tempo que passa, quero suor erótico na ponta do meu cabelo,
alcançar estrelas, mandar-me de cabeça, renascer de novo com outro coração,
matar de vez esta fome, esta sede, a insana loucura desta temível sofreguidão.

gi.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Deixa-me rir...

Na revista How to Spend It, suplemento do Financial Times aos Sábados, de que já falei aqui com entusiasmo, existe uma rubrica intitulada The Aesthete. Trata-se de uma simples entrevista, que ocupa uma página inteira, género pergunta-resposta, que visa dar a conhecer os interesses, gostos e hábitos de pessoas consideradas aesthetes (estetas, portanto). São, evidentemente, pessoas ligadas à cultura, à arquitectura, ao design, à moda, aos livros, aos museus. Não necessariamente pessoas muito high-profile, com fotografias nas revistas, mas pessoas que dão cartas nas suas áreas de especialização. Gente com gostos sofisticados e muito dinheiro, habituada a viver num mundo semi-paralelo, onde a fealdade, o desconforto e demais preocupações materiais são coisas do além (nas palavras duma amiga minha…).

Não sei se alguém viu o filme A Single Man, do Tom Ford, o ex-estilista da Gucci. Nunca vi nada tão aesthete na minha vida (nem o filme Io Sono l’Amore, até há muito pouco tempo nos cinemas, o suplanta). Este filme, combinado com uma entrevista que li dele há uns anos, fazem-me crer que TF, pura e simplesmente, não sabe, não convive, não fala, não vive, não quer saber de nada que não seja perfeito, lindo, requintado, caro e extravagante. Uma opção (e uma possibilidade) de vida.



Aqui há uns tempos, no tal suplemento, li uma entrevista a um destes aesthetes (já não me lembro quem) que coleccionava Peter Doig. Tinha-se apaixonado pela obra deste pintor escocês de 51 anos, que viveu parte da sua vida em Trinidad e Tobago e no Canadá. Como nunca tinha ouvido falar neste artista, fui explorá-lo ao Google. Achei muita graça a este vídeo e por isso passo a reproduzi-lo. Um artista simpático, nada vedeta, altamente valorizado (em 2007, o quadro White Canoe foi vendido http://en.wikipedia.org/wiki/Sotheby%27s na Sotheby’s for $11.3 milhões, um record para um artista europeu ainda vivo), fala sobre a sua pintura por ocasião da montagem duma exposição.


Finalmente, só podia escolher uma canção cool, e também intensamente pop, para o meu espaço de hoje. As foi escrita por Stevie Wonder e incluída no seu álbum Songs In The Key Of Life. Aqui é reinterpretada e acho-a bem gira (sobretudo na parte dos coros). Espero que gostem.



PCP

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