domingo, 31 de março de 2019

IV Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 15,1-3.11-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra,
que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância,
e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
encheu-se de compaixão
e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».

sábado, 30 de março de 2019

Textos dos dias que correm

O automóvel

«Os homens metem no seu automóvel tanto amor-próprio como gasolina.» «O automóvel tornou-se agora como um artigo de vestuário, sem o qual nos sentimos nus, incertos e incompletos.»

Juntei hoje duas afirmações de autores diferentes que cruzei na leitura de um só ensaio. Ambas as declarações, apesar de terem origens diferentes, convergem para um único símbolo, típico da nossa civilização, o adorado automóvel.

Quer o escritor e jornalista francês Pierre Daninos, quer o famoso investigador canadiano dos “mass media” Marshall McLuhan delineiam o aspeto mítico deste objeto de grande sucesso na publicidade e que se tornou emblema do nosso tempo, além de componente decisiva para a economia e, infelizmente, também da degeneração ambiental.

Como sugere Daninos, ao automóvel muitos reservam um amor que muitas vezes não dedicam aos seus semelhantes. Basta apenas assistir ao ritual da manutenção da sua máquina, à histeria que os atinge quando se avaria, à mutação humana que se regista quando estão ao volante e se abandonam a furores homéricos dirigidos aos outros que atentam contra a sua majestade.

O automóvel faz de tal maneira parte da vida de uma pessoa, que McLuhan tem razão quando diz que ele é uma roupa sem a qual não se entra no mundo e não se tem segurança.

Tudo isto faz-nos compreender um elemento de ordem geral, o da dependência das coisas, que, se por um lado, é justa e real, por outro pode transformar-se em subordinação e em servidão, ao ponto de confundir a escala dos valores e a própria dignidade. Uma consequência, portanto, mais séria do que à primeira vista pode parecer.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 26.03.2019

sexta-feira, 29 de março de 2019

Poemas dos dias que correm

Alguns Poemas Com Endereço

Venha cá você, palavra alma! 
Diga "boa-noite!" a esta senhora
Não lhe mexa na mala
Não lhe toque na lama.
Não lhe faça mal!
(Estas crianças!) Vá-se embora...

Jorge
Podes vir.
Mamã, enfim, morta.

O homem que pedala, que ped'alma
Com o passado a tiracolo
Ao ar vivaz abre as narinas:
Tem o provir na pedaleira.

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Vigiado' 

***

A Morte, esse Lugar-Comum

É trivial a morte e há muito se sabe 
fazer - e muito a tempo! - o trivial. 
Se não fui eu quem veio no jornal, 
foi uma tosse a menos na cidade... 

A caminho do verme, uma beldade 
— não dirias assim, Gomes Leal? — 
vai ser coberta pela mesma cal 
que tapa a mais intensa fealdade. 

Um crocitar de corvo fica bem 
neste anúncio de morte para alguém 
que não vê n'alheia sorte a própria sorte... 

Mas por que não dizer, com maior nojo, 
que um menino saiu do imenso bojo 
de sua mãe, para esperar a morte?... 


Alexandre O'Neill, in 'Abandono Vigiado' 

quinta-feira, 28 de março de 2019

Da estranheza de ouvir Shakespeare em francês

Na semana passada fui ver Romeu e Julieta de Gounod à Gulbenkian. Do alto da minha ignorância, e se me tivessem perguntado o que compôs o músico francês (Paris 1818 - 1893), teria respondido sem hesitar: uma ave-Maria... Compôs mais, muito mais, mas não é a contabilidade musical que aqui me traz. 

À saída perguntei a opinião a amigos que também haviam assistido ao concerto. Nenhum dos dois gostara, e um deles disse-me uma frase enigmática que não explorei, porque entretanto se interpôs uma multidão e, posteriormente, uma ceia: Faltou ali Shakespeare... 

Romeu e Julieta é, de facto, uma obra de Shakespeare. Na ópera de Gounod, no caso vertente com uma encenação moderna e uma história que pode desviar-se um pouco (muito ligeiramente, penso eu) do original, os protagonistas falam em francês. Por outro lado, para mim ópera tem três línguas: italiano, alemão e russo, cada uma com as suas peculiaridades. O francês associo-o à opereta. Assim sendo, ouvir uma ópera em francês já pode ser um motivo de estranheza. Se lhe associarmos a estranheza de ouvir uma peça de Shakespeare em francês...

Não tenho a certeza de o meu raciocínio estar certo. Ouviria de bom grado o Hamlet em português ou em inglês, mas estranharia ouvi-lo em francês. Não há lógica na estranheza, porque um francês poderia dizer o mesmo se ouvisse o Hamlet em português (presumindo que entenderia o texto).  O que significa, então, faltar Shakespeare à ópera de Gounod? Não sei, e talvez a frase nada tenha de críptico, mas apenas de desilusão inexplicável de forma simples. A língua em que uma determinada obra é cantada / falada afecta a percepção e apreciação que fazemos dela? O D. Quixote tem de ser sempre falado em castelhano, nunca em alemão? Mas o Guerra e Paz, obra russa, pode ser falado em inglês? E se for em americano? E para um japonês é esteticamente normal ouvi-lo na sua língua natal? 

JdB

quarta-feira, 27 de março de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

SALVA POR NAPOLEÃO E VICTOR HUGO  –  NOTRE-DAME DE PARIS

O grande escritor, que marcou o século XIX francês, usou a sua arma mais poderosa – a pena – para interessar os seus compatriotas pelo restauro da Catedral mais antiga e especial de Paris. Usou-a como metáfora de um apelo mais amplo, que se estendia também a França, empobrecida e humilhada pelos anos da Revolução e pela derrota nas Guerras Napoleónicas. Considerava que tudo deveria partir da Catedral e indignava-se com o estado de degradação a que chegara aquele templo precursor do gótico, citando o lema latino ‘Tempus edax, homo edacior,' que traduzia por «o Tempo é cego, mas o homem é insensível.»

Esse alerta deu corpo ao famoso romance de Victor Hugo – «Notre-Dame de Paris» –, publicado em 1831. Hoje, é mais conhecido pelo título que adquiriu, pouco depois, na tradução inglesa – «O Corcunda de Notre-Dame» (‘The Hundchback of Notre-Dame’). A trama mereceu filmes, inspirou músicas, animou palcos de teatro, pôs a Catedral na moda e fez mudar mentalidades. 

Ilustração do livro, a evocar um cenário para desfiar o romance, em palco.
A sua narrativa aventurosa evoca a história de França, com a Catedral no epicentro. 

Os próprios diálogos das personagens e as reflexões lapidares, ao longo do texto, fizeram furor e alastraram-se por toda a sociedade como fogo na pradaria. Seguem algumas apanhadas, ora no original, ora na versão inglesa:  

- Il ne suffit pas, de passer sa vie, il faut la gagner. 
- Les modes ont fait plus de mal que les révolutions.
- When a man understands the art of seeing, he can trace the spirit of an age and the features of a king even in the knocker on a door.
- When you get an idea into your head you find it in everything.
- Nothing makes a man so adventurous as an empty pocket.
- He reached for his pocket, and found there, only reality.
 - Il semblait au jeune homme que la vie avait un but unique: savoir.
- La beauté est parfaite, / La beauté peut tout, / La beauté est la seule chose qui n'existe pas à demi.


   SOBRE O SOFRIMENTO:

- Au dedans de moi est l’hiver, la glace, le désespoir, j’ai la nuit dans l’âme.
- L'excès de la douleur, comme l'excès de la joie, est une chose violente qui dure peu.
- A one-eyed man is much more incomplete than a blind man, for he knows what it is that's lacking.
- … Pour une mère qui a perdu son enfant, c'est toujours le premier jour. Cette douleur-là ne vieillit pas.
- ...Mothers are often fondest of the child which has caused them the greatest pain.
- He had preferred to incur her anger rather than cause her pain. He had kept all the pain for himself. 

Ilustração da primeira edição do romance, que conta com personagens nas franjas da sociedade:
a arrebatadora cigana Esmeralda e Quasimodo, o corcunda criado em Notre-Dame de Paris.

   SOBRE A CATEDRAL E O FITO DO LIVRO:

- Inspirons, s'il est possible, à la nation l'amour de l'architecture nationale. C'est là, l'auteur le déclare, un des buts principaux de ce livre ; c'est là un des buts principaux de sa vie. (…) Depuis l'origine des choses jusqu'au quinzième siècle de l'ère chrétienne inclusivement, l'architecture est le grand-livre de l'humanité, l'expression principale de l'homme à ses divers états de développement, soit comme force, soit comme intelligence.
- He therefore turned to mankind only with regret. His cathedral was enough for him. It was peopled with marble figures of kings, saints and bishops who at least did not laugh in his face and looked at him with only tranquillity and benevolence.

Como bom romântico, Victor Hugo (1802-1885) ousou tomar para heroína do seu romance aquela jóia arquitectónica debilitada, que urgia recuperar, em nome da História, da Cultura e da riqueza espiritual impregnada em oito séculos de pedra rendilhada. ‘Papa Hugo’ – como é carinhosamente chamado, no seu país – ainda conseguiu despertar a afeição dos franceses pelo legado da Idade Média, especialmente desvalorizado e até apoucado, durante os séculos XVII e XVIII.  

Mas V. Hugo não foi o primeiro, nem o último, a trazer a Catedral dos poetas para a literatura. Desde a sua edificação, serviu de musa a incontáveis escritores e artistas plásticos, sobretudo de língua francesa. Um, viveu ali uma experiência mística que lhe mudou a vida. Era o dia de Natal de 1886… como narra o artigo gentilmente cedido pelo autor:  

«A catedral de Notre-Dame, em Paris, construída há cerca de 850 anos numa ilha no meio do rio Sena é mais do que uma igreja e uma obra de arte, é um monumento da engenharia dedicado a Nossa Senhora.

Cada um é tocado por Deus a seu modo e a seu tempo. Por exemplo, o grande escritor francês Paul Claudel (1868 – 1955) escreve o seu encontro com esta catedral quando tinha 18 anos: «...o meu estado habitual continuava a ser a sensação de asfixia e de desespero. Eu era esse miúdo infeliz que, no dia 25 de Dezembro de 1886, foi a Notre-Dame de Paris ver as cerimónias do Natal. Tinha começado a escrever e pareceu-me que iria encontrar nos ofícios católicos, apreciados com superior diletantismo, a inspiração e o assunto para uns exercícios decadentes. Foi com essas disposições que, acotovelado e empurrado pela multidão, assisti, com um prazer medíocre, à missa solene. Depois, como não tinha nada melhor para fazer, voltei para as vésperas. Os meninos de coro de túnicas brancas e os alunos do seminário menor de Saint-Nicolas-du-Chardonnet cantavam o que, soube mais tarde, era o “Magnificat”. Eu estava em pé, no meio da multidão, perto do segundo pilar na entrada do coro, do lado direito da sacristia. E foi então que o acontecimento que dominou toda a minha vida ocorreu. Num instante, o meu coração foi tocado e ACREDITEI. Acreditei com tanta força de adesão, com tal arrebatamento de todo o meu ser, com uma convicção tão poderosa, com uma tal certeza que não deixava espaço para qualquer espécie de dúvida, que desde então todos os livros, todos os raciocínios, todos os azares de uma vida agitada, não conseguiram abalar a minha fé, nem, sequer, tocá-la. Experimentei, de repente, o sentimento inebriante da inocência, da eterna filiação de Deus, uma revelação inefável» (“Ma Conversion”, Oeuvres en Prose, 1913).

Para um escritor, está bem. Não serei eu a tirar valor a todas as conversões e a todos os acontecimentos históricos que tiveram lugar nesta catedral, mas ela tem igualmente uma faceta tecnológica que merece ser contada.

Até àquela época, os edifícios mais altos tinham 15 ou 20 metros de altura e estavam parcialmente abrigados por árvores ou pelas construções circundantes. Em contrapartida, o telhado de Notre Dame eleva-se a 43 metros de altura, as torres têm 69 metros e a flecha alta chega quase aos 100 metros. A subida de 20 para 43 metros foi a ocasião de os construtores descobrirem os efeitos do que hoje chamamos a camada limite atmosférica, isto é, o progressivo aumento da velocidade do vento com a altura ao solo.
Na Idade Média, o projecto de uma catedral já se baseava em cálculos relativamente sofisticados, mas a grandeza do desafio não dispensava a verificação experimental. Uma das técnicas consistia em pintar as paredes com cal, para detectar o aparecimento de fissuras: onde elas aparecessem, as tensões eram demasiado grandes e devia-se reforçar a estrutura. Em Notre-Dame, verificou-se que se produziam fissuras na base das paredes quando sopravam ventos mais fortes e compreendeu-se que isso era devido a uma força lateral aplicada na parte superior do edifício. Ao mesmo tempo, constatou-se que a catedral era mais escura que o habitual, porque as únicas janelas ficavam a grande altura.

Assim, decidiu-se apoiar lateralmente a parte superior do edifício com arcos botantes e abrir grande janelas mais abaixo. Tinha surgido o estilo gótico na arquitectura!

Os construtores de catedrais da Idade Média mantinham entre si um estreito contacto, de modo que a notícia correu por toda a Europa em poucos meses e as modificações de Notre-Dame começaram a ser aplicadas a todas as grandes igrejas em construção, incluindo algumas menos altas, que não precisariam deste sistema de apoio. Em poucos meses, em toda a Europa se passou a construir no estilo gótico. 

Os quase 850 anos da catedral de Notre-Dame presenciaram muitas histórias decisivas da vida da Igreja e do mundo. Durante a Revolução Francesa, em nome da cultura, deitaram abaixo a flecha de quase 100m de altura, destruíram 28 estátuas [correspondiam a reis, que foram decapitados] do interior e todas as estátuas do exterior à excepção de uma. Ao longo destes séculos, houve tempo para partir muita coisa, mas também houve tempo para reconstruir este triunfo do engenho humano sobre a força da camada limite atmosférica. Em honra de Nossa Senhora.»

José Maria C.S. André, publicado a 10-II-2019,
em media e blogs anglo-portugueses


Embora a Cidade das Luzes abunde em templos dedicados a Maria, designados também de ‘Notre-Dame’, apenas o da l’  Île de la Cité merece levar o nome da capital gaulesa. No terreiro em frente à sua fachada principal, está assinalado o ponto zero, referencial de contagem de todas as estradas de França. É caso para dizer que todos os caminhos vão dar a ‘Notre-Dame de Paris’.  

Na estrela de oito pontas, em bronze, está gravado o «Point zéro des routes de France», ali colocado em 1924.
Fotogr. de Jean-Pierre Bazard, Wikimedia Commons // CC BY-SA 3.0

Antes de Victor Hugo, Napoleão já tinha salvo parcialmente a Catedral, ao conter a onda de vandalização que se seguiu à Tomada da Bastilha. Além de a devolver ao culto cristão, depois de ter sido reduzida a armazém, elegeu-a para ali realizar a cerimónia onde se auto-proclamou imperador. Ajudou, assim, a pôr cobro à razia feroz dos anos da Revolução Francesa. 

Nas curiosidades da Catedral, iniciada em 1163, encontra-se a famosa «floresta» instalada no telhado, porque os toros que lhe dão forma transpuseram para aquele remate cimeiro todo um bosque das redondezas. Num gesto de modernidade muito precoce, reciclou pórticos românicos de outros templos, para os adaptar em estilo e dimensão à nova estrutura gótica. A maioria dos monstros nas gárgulas superiores surgiram nas obras de restauro do segundo quartel do século XIX – as tais instigadas por Victor Hugo. Já no século XX, após o fim da Primeira Guerra, foi decidido introduzir no galo catavento, situado no topo do pináculo a 93 metros de altura, relíquias dos Santos Patronos da cidade (S.Dinis e Sta.Genoveva) e uma partícula da coroa de espinhos, para servir de «pára-raios espiritual» (assim desejado e dito pelo Cardeal Verdier), no coração de França. O implante das relíquias no corpo do galo metálico só ficou pronto no agitado ano de 1935, já perto da outra Guerra Mundial. Na visita virtual, que segue, vê-se o arrojo e a beleza dos arcos botantes ao 4:56 minuto:


Quem não treme com o aviso forte de Victor Hugo à sua geração, confrontando-a com os tempos áureos dos fazedores de catedrais: «Nos pères avaient un Paris de pierre, nos fils auront un Paris de plâtre [gesso]»? Mais de cem anos depois da morte do romancista, aquele mau presságio ressoa com um realismo assustador. Resta-nos, ao menos, continuar a apreciar e cuidar do património maravilhoso que tivemos o privilégio de herdar, nós que deixaremos às gerações vindouras um mundo meio plastificado e demasiado virtual, abaixo de gesso… 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 26 de março de 2019

Desejar ser

"A mais poderosa inclinação e o mais poderoso apetite do homem é desejar ser. Bem nos conhecia este natural o demónio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ruína a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (Gén. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser sábios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. Só uma coisa devem os homens desejar ser, que é ser santos. Assim emendou Deus o sereis do demónio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum . O demónio disse: Sereis como Deus, sendo sábios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do demónio não só nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos também o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele é, não só nos restitui o ser como Deus, senão também o ser. Quando Moisés perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (Êx. 3,14): Eu sou o que sou — porque só Deus tem por essência o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Moisés: Se sois tão amigos e tão ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que não é ser santo, é não ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se não sois santo, não sois nada. Pelo contrário, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que só é e só tem ser, que é Deus. Todo o outro ser, por maior que pareça, não é, porque vem a parar em não ser. Só o ser santo é o verdadeiro ser, porque é o que só é, e o que há-de permanecer por toda a eternidade."


Padre António Vieira

segunda-feira, 25 de março de 2019

Dos cuidadores informais - um outro olhar

Há algumas semanas participei, na sede do CDS, num encontro sobre cuidadores informais. Fi-lo enquanto presidente da Acreditar, até porque eu próprio, devo dizê-lo, não tenho experiência nessa matéria, para além daquela que nos cabe enquanto filhos disponíveis para pais mais ou menos idosos ou necessitados. Do ponto de vista da carga do trabalho (e excluo, daqui, o gosto com que se faz tudo) realizar tarefas pontuais ou vagamente continuadas é diferente de cuidar. Também é cuidar, mas no entanto...

O Estado tem uma relação com os cuidadores informais que assenta, forçosa e naturalmente, em coisas tangíveis: tempo de reforma, possibilidade de subcontratação ou de recorrer a uma rede de cuidados existente, folgas, direitos, etc. Desse ponto de vista, a existência do cuidador informal tem uma coluna de deveres muitíssimo maior do que a coluna de direitos. É forçoso, portanto, que se faça algo para mitigar a grande fragilidade e sobrecarga (tantas vezes sem contrapartidas, a não ser o amor) a que esta "classe" de pessoas está sujeita. Pessoas (e convivo de muito perto com uma), como já o disse aqui no estabelecimento aquando do encontro na sede do CDS, sem tempo próprio, presas a um dever e a uma responsabilidade, a um gesto contínuo, permanente (e ironicamente desgastante) de amor que não é valorizado pelo Estado.

O cuidador informal apresenta-se à sociedade de duas formas - e é assim que devemos vê-lo. Em frente a uma repartição dos ministérios que o tutelam apresenta-se com um cartão de cidadão, com uma folha de horas trabalhadas, com um histórico de contribuições para a segurança social, com uma folha modesta no que toca à previsão de reforma. Leva as despesas de saúde não reembolsadas, os fins de semana registados como de trabalho, as consultas de psiquiatria ou os episódios de desgaste em que atirou um copo à parede ou se sentou no chão a chorar. O Estado regista o que há a registar, e contabiliza o número de consultas de psiquiatria, mas não as causas que as geraram. O cuidador informal fala de amor, mas o Estado não sabe bem o que isso é.

O cuidador informal também se apresenta a cada um de nós, essa massa imensa de gente que não faz parte da máquina burocrática do Estado, totalmente despido. Uma mão aponta para a cabeça, a outra para o coração. Atentar nas mãos do cuidador é identificar o que é importante na sua actividade: o discernimento e o amor. Com o primeiro toma as melhores decisões, rodeia-se de quem o ajude, define o caminho que parece mais certo. Com o segundo - o amor - toma também decisões, porque o cuidador informal não tem uma tabuada à frente, precisa do coração para decidir com a cabeça. O segundo, o amor, é o combustível que o faz seguir em frente.

Ora, olhar para o cuidador não é olhar para um prisioneiro do amor, para um refém do altruísmo ou do dever. Olhar para o cuidador é olhar para um ser humano cheio de boas intenções, crivado de falhas, tentado pelo egoísmo (a que cede) ou vencido pela exaustão. Só há cuidador quando há alguém de quem se cuida. Nesse sentido a palavra (ou a função) é relacional e envolve os dois numa espécie de dança em que ambos têm uma função - ainda que nem sempre clara ou definida. A nós, a quem está de fora, cabe-nos olhar para o cuidador e perceber que nem tudo deve ser feito em nome daquele de quem se cuida, ou que o cuidador é uma espécie de marioneta sem vontade própria, sem angústias próprias, sem dúvidas próprias ou cansaços próprios, porque o importante - o verdadeiramente importante - é aquele de quem se cuida. O cuidador não é uma simples peça numa máquina - mas uma peça sem a qual a máquina não funciona. No limite, proteger o cuidador é proteger a relação, é proteger, também, aquele de quem se cuida.

Sobre o cuidador não pode cair o peso de uma frase mortífera: tudo tem de fazer-se em nome de quem precisa.O cuidador tem necessidades que o Estado não provê. E por vezes precisa de coisas simples: um toque, uma palavra, um incentivo, uma concordância, uma disponibilidade.

JdB

domingo, 24 de março de 2019

III Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 13,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
vieram contar a Jesus
que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus,
juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes:
«Julgais que, por terem sofrido tal castigo,
esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens,
que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?
Julgais que eram mais culpados
do que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte parábola:
«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela houvesse,
mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira
e não os encontro.
Deves cortá-la.
Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano,
que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

sábado, 23 de março de 2019

Pensamentos Impensados *

Antigamente era costume pôr a roupa lavada, ao Sol a corar, isto é, para ficar mais branca; daí... a brancura dos nossos costumes.

O milho roxo é um cereal killer?

O Kama Sutra, se estiver em formato de "livre de poche" passa a ser livro deboche?

De uma pessoa que caia 10 vezes se diz que está em decadência.

Qual a diferença entre Luis XV e Noé? O primeiro disse "après moi le déluge"; Noé disse "après le déluge moi".

Parece que o vidro não pode ser considerado um sólido pois ao fim de séculos deforma-se; assim sendo, pode formular-se o seguinte postulado: afirmar-se que o vidro é um sólido, não é líquido.

Uma paisagem com vacas é sempre bucólica; é dessas vacas que se faz o osso buco.

SdB (I)

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* publicado originalmente em 11 de Janeiro de 2010

sexta-feira, 22 de março de 2019

Poemas dos dias que correm

Quero a Fome de Calar-me

Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único
Recado que repito para que me não esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete

A única glória no mundo — ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da vergôntea — a sombra com que jorras do rochedo

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separada. Cerco

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes
A flor — várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas — pequenos
Nenúfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas

Caem — quero fechar-me e cair. O silêncio
Alveolar expira — e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

***

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

quinta-feira, 21 de março de 2019

Sobre o destemor

Apanhei a notícia a meio, pelo que não afianço a fiabilidade da reprodução. Aparentemente os títulos de alguns livros estrangeiros estão a ser traduzidos de forma diferente do que já foram. Lembro-me de um exemplo: Three Man in a Boat, de Jerome K. Jerôme, estaria a ser traduzido por Três Homens num Barco, porque as gerações actuais já teriam dificuldade em perceber o título de sempre: Três Homens num Bote. O que é um bote?

Na mesma linha de raciocínio, já não faz sentido cantar-se o Fado das Caldas (letra de Vicente da Camara): quem sabe o significado de milorde aguisalhada?

***

Alguém terá dito (e talvez tenha sido um economista, um magnata ou ninguém, que posso ter sonhado) que os tempos de guerra são ideais para se fazerem grandes negócios - ou grandes fortunas. Mas também são um tempo ideal para a criação de uma linguagem própria e datada: obus, artilharia pesada, flanco, furriel, cavilha de granada. No dia em que o mundo for um sucedâneo infindo de tempos de paz, alferes miliciano e varíola serão termos pertencentes ao mesmo léxico, agrupados no mesmo verbete: palavras em desuso ou português arcaico. Acontece o mesmo com as palavras herói, destemor, audácia, só que, neste caso, o arquivo no verbete acima referido é injusto, porque a heroicidade não é monopólio das guerras. Poderá não haver furriéis, mas haverá sempre destemor, pese embora a expressão ter sido colada injustamente ao aspecto físico da situação. Na guerra o corpo conta muito.

***

Não tendo passado pela experiência da guerra (embora tenha convivido durante 18 meses com algum vocabulário de guerra) não tendo sido rapaz, jovem, homem dado a murros nem estalos, nem tendo sido posto à prova no que concerne à defesa física de alguém próximo, a ideia do destemor físico diz-me tanto como a baleia de bossa. Sei que existe, imagino que seja importante para o equilíbrio da natureza, mas gosto mais do meu cão, um setter inglês com uma mistura singularmente humana de alegria e necessidade de atenção. E, nessa linha de raciocínio, aprecio outros géneros de destemor claramente subvalorizados no mundo moderno: o destemor de reconhecer erros ou de pedir desculpa, o destemor de sair da zona de conforto, o destemor de reconhecer obsessões, manias incomodativas ou adições, o destemor de pedir ajuda ou uma opinião, o destemor do low profile por convicção (que não por feitio) numa era de evidências.

Em mim há ainda o gosto pela ideia aristotélica, expressa na Ética a Nicómaco, da posição virtuosamente intermédia entre dois excessos: a generosidade como intermédio entre o esbanjamento e a avareza, a coragem como intermédio entre o medo e a audácia. Um gosto que deriva, talvez, de ser uma ideia fora de moda, desfasada num tempo que desdenha o equilíbrio como maçador. 

***

Já não há milordes, já não se sabe o que é aguisalhada, um dia não se saberá o que é bote ou varíola. Mas destemor haverá sempre, mesmo em tempo de paz. Talvez sobretudo em tempo de paz.

JdB  

quarta-feira, 20 de março de 2019

Duas Últimas e poemas dos dias que correm

Camilo Pessanha nasceu filho ilegítimo em 1867. Era opiómano, viveu em Macau e escreveu (ou escreveram-lhe) um livro chamado Clepsidra, que era um relógio de água que, medindo o tempo através do escoamento de água de um vaso, servia para controlar o tempo de oradores ou de oradores, já não sei bem. De Piazzolla sei pouco, a não ser que era argentino e compunha tangos que, para mim, não chegam aos calcanhares dos cantados / compostos por Gardel, carregadinhos de sensualidade. Mas sei que compôs uma obra bonita, chamada Oblivion, que pode traduzir-se por olvido. Não me parece que Astor e Camilo se tivessem cruzado - talvez no céu em que ambos acreditariam de forma diferente, porque um bandonéon é diferente de um cachimbo de ópio. Ou não, sei lá eu...

JdB

***

Olvido

Desce por fim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como véu de luto.
Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.
A fronte já sem rugas, distendidas
As feições, na imortal serenidade,
Dorme enfim sem desejo e sem saudade
Das coisas não logradas ou perdidas.
O barro que em quimera modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor...
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...
Ias andar, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação...

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'




terça-feira, 19 de março de 2019

Textos dos dias que correm

Guerra santa

«A guerra santa é feita de dez partes: uma parte consiste em guerrear contra o inimigo, as outras nove estão na guerra contra si próprio.»

O termo árabe “jihad”, usado para indicar a “guerra santa”, tem na realidade uma génese “ascética”: denota, com efeito, antes de tudo, a luta contra si próprio.

É isto que nos ensina com aquele aforisma Sufyan ibn ‘Unaynah, grande mestre muçulmano que viveu em Meca, onde morreu em 814. Dele se diz que aos quatro anos sabia o Corão de memória e que vivia só de um pão ao dia.

Propus aquele seu moto porque se adapta bem à substância de toda a espiritualidade e à prática quaresmal, permitindo-nos também descobrir a genuína religiosidade do Islão, tantas vezes deformada por lugares comuns ocidentais e comportamentos insensatos de certos adeptos seus (minoritários mas turbulentos e, infelizmente, perigosos).

A eles (mas não só) poder-se-ia aplicar outra frase deste místico: «Um tempo em que as pessoas precisam de pessoas como aquelas, é um mau tempo».

Mas regressemos à advertência, sempre verdadeira e necessária, sobre o controlo de si, sobre o domínio das paixões, sobre a vitória em relação aos vícios.

Séneca tinha já declarado que «comandar-se a si próprio é a mais alta forma de comando». A ascese tem aqui o seu núcleo, e é um compromisso muitas vezes desatendido, na convicção de que são outros os deveres primários da espiritualidade.

«Vencer-se a si próprio é a mais bela vitória», dizia-se na antiguidade pagã. Esta deveria ser também a marca de uma moral cristã que tem em si motivações ainda mais altas para vencer orgulho e egoísmo.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 18.03.2019

segunda-feira, 18 de março de 2019

Do vegetarianismo como fonte de tristeza



Declaração prévia: a fotografia acima, que ilustra o texto abaixo, não é mais do que um exercício de tentativa de humor. Não pretende apoucar ninguém que tenha sido afectado pela anorexia, nem pretende diminuir as pessoas que fazem opções alimentares com base em juízos ponderados.

***

As teorias mais falíveis e, por isso, as que menos se prestam a discussões, são as elaboradas de forma impulsiva, baseadas em percepções, embirrações ou fetiches. Estas teorias não se combatem porque não se sabe onde está a argumentação que as sustenta.  O pensamento que desenvolverei abaixo podia, por isso, assentar numa patetice apenas, numa ideia vestida de embirração. Pelo contrário, tem por trás um raciocínio que, embora não infalível, tem o seu quê (ainda que pouco) de lógico e pensado, o que abre uma brecha na muralha... Eu explico:

Ontem ao pequeno almoço, lamentando não poder deglutir duas torradas de pão saloio barradas de generosa manteiga, dei por mim com uma certeza partilhada em voz alta: não conheço vegetarianos (menos ainda adeptos do veganismo) que aparentem um ar verdadeiramente feliz. Aliás, acho que revelam todos um semblante triste, talvez flácido, pouco enérgico, nada vivaz. 

O vegetariano (e incluirei aqui os adeptos do veganismo, por facilidade de exposição) assentam a sua conduta alimentar na recusa. Tudo neles está pendurado numa palavra: não. Poderão eles alegar que comem vegetais e frutas, e que isso é dizer sim - pelo menos aos vegetais e frutas. Acontece que estes dois alimentos, embora abundantes e propiciando uma abundância de receitas (falam-me no alho francês à Braz e no bife de tofu) são uma minoria de entre a variedade de géneros que podem comer-se. Significa isto que à maioria das coisas que existem na natureza, o vegetariano diz não. Diz não ao bife, diz não ao entrecosto ou às lulas, diz não à pescada cozida ou ao salmão grelhado, à chanfana ou ao franguinho da Guia. O vegetariano diz não, e não e não. Recusa quase tudo.  

Entre o vegetariano e a velha solteirona há semelhanças assinaláveis - a recusa feita quase religião. O vegetariano diz não às favas com chouriço como a velha solteirona diz não ao beijo carregado de paixão e demora. Ambos, acantonados cada um na sua trincheira, dizem não ao prazer saudável, ao pequenino excesso, àquilo que, num caso, une mais as pessoas - uma mesa onde se almoçou ou jantou. Ambos fazem da recusa, do não proferido com um ar de horror, um hábito de vida. São os animais que morrem para dar comida, são os corpos enleados para gerar prazer. A tudo isto se diz que não, em nome de uma ética forte ou de um combate da devassidão. Este combate, feito em nome de valores muito próprios, é um combate árido, que esmaece as feições porque o corpo e a alma, para se habituarem à recusa, hibernam em permanência, fogem do sol e refugiam-se numa aparente seriedade onde não entra a sensualidade, porque é pecado, ou o pargo legítimo, porque foi pescado ainda vivo.

Gostaria que me apresentassem um comediante vegetariano para, num exercício de humildade saudável, eu reconhecer a inutilidade da minha certeza. Até lá, até ser esmagado pelo peso da evidência, ergo bem alto a bandeira da minha convicção: ser vegetariano (como ser puritano) torna as pessoas tristes. 

JdB

domingo, 17 de março de 2019

II Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 9,28b-36

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago
e subiu ao monte, para orar.
Enquanto orava,
alterou-se o aspecto do seu rosto
e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente.
Dois homens falavam com Ele:
eram Moisés e Elias,
que, tendo aparecido em glória,
falavam da morte de Jesus,
que ia consumar-se em Jerusalém.
Pedro e os companheiros estavam a cair de sono;
mas, despertando, viram a glória de Jesus
e os dois homens que estavam com Ele.
Quando estes se iam afastando,
Pedro disse a Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Não sabia o que estava a dizer.
Enquanto assim falava,
veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra;
e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem.
Da nuvem saiu uma voz, que dizia:
«Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».
Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho.
Os discípulos guardaram silêncio
e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.

sábado, 16 de março de 2019

Pensamentos Impensados (versão convalescente)

Nova física
evacuar: ar misturado com vácuo

Invenção
Fez um aparelho lindíssimo todo polido, só não sabia para que servia. Ficou aparvalhado durante oito dias ate que percebeu que era um telefone. Só faltava inventar o outro...

SdB (I)

sexta-feira, 15 de março de 2019

Poemas dos dias que correm

Um Outro que Não Eu

um outro que não eu
bem mais voraz
concreto
e subtil
te poderá depois talvez contar
destes momentos cúmplices de agora
perfeitos na intimidade
da vaga dor de cabeça

não te posso adiar por minha culpa
não te posso invocar
por excesso de altruísmo ou de rancor

arquitectura fria
dum gesto quase orgulho
do que já lá não coube
se nutre a tua imagem

mais fácil do que tudo
seria perdoar-me

perde-se o vício
por falta de virtude

Luís Amorim de Sousa, in 'Signo da Balança'

***

Coisas

há coisas que vão ficando
fotografias   louças   contas antigas
                            não sei

debruçámo-nos tanto
sobre a minúcia do quotidiano
       que o dia a dia excedeu as nossas vidas

não sei como resiste o que perdura

olho o telefone de coração na boca
e aponto coisas para não me esquecer

Luís Amorim de Sousa, in 'Nadar no Escuro'

quinta-feira, 14 de março de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

SELO DE HOJE CELEBRA ENCONTRO INSÓLITO DE HÁ 8 SÉCULOS

Os Correios italianos entraram nas comemorações oficiais de um dos seus compatriotas preferidos, nascido no último quartel do século XII. Aquela vida muito distante no tempo mantém-se incrivelmente viva na memória de todo o Ocidente e de algum Médio Oriente, que continua a espantar-se com uma existência humana extraordinária, pontuada por gestos generosos e revolucionários, a ponto de ter operado um salto qualitativo na história europeia. Inimaginável, até para o próprio. 

O novo selo comemora um dos episódios mais ousados de S.Francisco de Assis. Replica um pormenor do fresco de Giotto (1267-1337) – o pintor-arquitecto, que gravou nas paredes da basílica superior de Assis uma biografia do santo, qual repórter de imagem da era medieval.  

O selo adoptou a designação do fresco de Giotto: «A prova de fogo perante o sultão».

Trata-se do encontro pedido por Francisco ao sultão egípcio Malik-al-Kamil, para aplacar a guerra que se avizinhava entre os cruzados e as tropas muçulmanas por causa do acesso aos Lugares Santos, em Jerusalém. Reza a história que o santo viajou para a Terra Santa com a Quinta Cruzada e fez-se acompanhar por um único frade, pois tinha bem a noção do risco do martírio. Quando contou aos cavaleiros cristãos a sua intenção de se reunir com o líder do Egipto para lhe pedir a paz, rebentaram em troça e incredulidade. Consideravam-na extemporânea e passaporte garantido para uma morte violenta e humilhante. Mas não houve maneira de o demover. Aliás, somou logo uma vitória notável: al-Kamil aceitou recebê-lo e agendou o dia 24 de Junho de 1219. 

Fresco total, de que o selo reproduz parte.  

Outra perspectiva do mesmo episódio, noutro fresco de Giotto. 

O encontro correu invulgarmente bem, porque o sultão apreciou muito a coragem de Francisco e terá mesmo percebido as suas razões. Mas, tal como o lado cruzado, achou irrealista o pedido de paz, quando as duas fações só pensavam em resolver os diferendos com espadas e cimitarras. A iniciativa acabou por ter o pior desfecho para Francisco, que estava pronto a sacrificar-se pela causa da paz, mas não para que tudo ficasse na mesma. Pouco lhe importava ter saído vivo daquela aventura, pois salvar a pele era a última das suas prioridades. Desgostoso e frustrado, restou-lhe regressar a Itália. 

Na altura, não pôde antecipar que a reunião inconclusiva de 1219 iria impressionar fortemente as gerações seguintes, percorrendo oito séculos sem perder a sua força inspiradora, ainda que tamanha audácia fosse quase inimitável! Afinal, aquele resultado desengraçado lançara uma semente revolucionária, que outras personalidades visionárias iriam ajudar a fazer crescer, aos poucos. 

Neste século, multiplicaram-se os gestos de aproximação ao Islamismo, na senda do franciscano. A 6 de Maio de 2001, S.João Paulo II entrou na mesquita de Damasco, para reforçar o diálogo inter-religioso, que se iniciara em Casablanca (1985). A 30 de Novembro de 2006, foi a vez de Bento XVI entrar na Mesquita Azul de Istambul, num dia especialmente festivo para ortodoxos e católicos, dedicado a S.André, fazendo o triângulo entre dois grupos da Cristandade e o Islão. Há um mês, no Domingo 3 de Fevereiro, o Papa Francisco aterrou em Abu Dhabi para a primeira visita de um pontífice à Península Arábica, que lhe concedeu as maiores honras. Começou por ser acolhido pelo Príncipe herdeiro e acompanhado pelo Grão Imame. Ficou hospedado no palácio destinado aos hóspedes mais ilustres dos Emiratos. O programa incluiu uma reunião com o Conselho Muçulmano de Anciãos, um encontro inter-religioso e a celebração de uma Missa pública num estádio de futebol, para comportar o número exorbitante de fiéis, naquelas paragens – 135.000 participantes. 


A 1 de Março, decorreu o lançamento oficial do selo comemorativo dos oitocentos anos do encontro de Francisco com o sultão, num convite directo à nossa geração para responder aos desafios do presente. A cerimónia teve lugar em Roma, no Ministério do Desenvolvimento Económico, para incentivar o diálogo entre as civilizações da bacia mediterrânica. Num dos discursos, frisou-se: «São Francisco despojou-se de tudo e com o seu exemplo reconduz-nos à importância do amor pelo próximo, reconduz-nos à importância do encontro, do respeito recíproco e à necessidade dramaticamente atual de servir a paz entre os povos, entre as religiões. (…) [Naquele] 24 de junho de 1219, [n]os anos da quinta cruzada, (…)  o cristianismo e o islão não tinham pontos de encontro, mas só de confronto.»

Entrada exterior do Ministério e escadaria interior com o magnífico vitral. Localização: Via Molise, perto da Piazza Barberini.

Nas voltas misteriosas da História, é frequente sermos surpreendidos pela actualidade de gestos e acontecimentos de outrora, que pareciam insignificantes, falhados, tipicamente para esquecer. Em igual proporção, assistimos ao esquecimento de atitudes e de feitos vistosos e espalhafatosos na sua altura (mas irrelevantes para o futuro), de gente poderosa e influente, que se esperaria terem a posteridade garantida. Só que poucas realidades escapam tanto às regras e às expectativas humanas quanto essa brisa fugidia e indomável que é o curso do tempo, onde se guarda uma memória do passado com boa dose de imprevisibilidade. Talvez isso explique por que ‘quem faz o bem, nunca sabe [pelo menos, todo] o bem que faz’. É espantosa a triagem do tempo, que não cessa de nos intrigar e ultrapassar!  

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

quarta-feira, 13 de março de 2019

Duas Últimas

Um destes dias, não sei rigorosamente porquê, lembrei-me de Vangelis. Fui ver ao blog e percebi que passara esporadicamente pelo estabelecimento também pela mão do meu querido amigo fq. Acrescentei-o ao meu spotify: não, seguramente a música que encerrava os comícios do PS, mas outras que me dão mais gosto - nomeadamente as que partilho convosco. 

JdB 

 

terça-feira, 12 de março de 2019

Textos dos dias que correm

O homem da porta ao lado

«Amar a humanidade não é grande esforço: extenuante é amar o homem da porta ao lado.» «Eu amo a humanidade. As pessoas é que não suporto!»

No comboio o passageiro que viajou ao meu lado deixou uma revista de banda desenhada, lida durante toda a sua viagem. Folheio-a, algo curioso, e encontro estas duas frases convergentes, ainda que em páginas diferente.

Ambas são ditas por duas personagens, queridas também a quem não lê este género de revistas: a primeira é de Mafalda, criatura impertinente mas divertida do desenhador argentino Quino, e a segunda é do delicioso Linus, o menino criado pelo norte-americano Charles Schulz, que morreu em 2000.

Aquilo que os pequenos nos ensinam é uma verdade sacrossanta. Todos encontrámos na vida que pessoas que enchem a boca de compromisso civil, de direitos dos povos violados, de justiça social, e depois são irascíveis e ferozes com o vizinho da casa.

Diz-se que Cesare Beccaria, italiano do século XVIII, grande paladino contra a pena de morte, era implacável contra os seus empregados domésticos, a tal ponto que arrastou para um processo judicial e para a prisão um servo que lhe tinha subtraído, nas suas palavras, um talher.

Cada um de nós, em todo o caso, deve reconhecer que é fácil fazer declarações de princípio, ensinar a justiça e o amor, ser apoiantes da magnanimidade, mas quando se tem uma pequena desavença com o vizinho de casa, ou um dissabor com um familiar, eis que subitamente o amor à humanidade se transforma em inflexibilidade e ferocidade na defesa dos próprios direitos.

Os miseráveis do mundo podem ser amados, mas dobrar-se sobre o pobre que se encontra na estrada é bem mais difícil, como nos ensinou Jesus na parábola do sacerdote e do bom samaritano.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 09.03.2019

segunda-feira, 11 de março de 2019

"A nossa música prevê o nosso futuro"

Em Outubro do ano passado escrevi um post, a que intitulei Da música e dos povos, em que me questionava o que tinha surgido primeiro, se os povos se as músicas. Isto é, eram os povos que faziam a música ou era a música que fazia os povos. Por uma questão de arrojo irresponsável achei que a hipótese mais interessante era a última: era a música que definia o que os povos seriam. O tema ficou adormecido dentro de mim, até porque não tinha mais sabedoria para acrescentar ao tema.

Ontem jantei num restaurante semi-taberna que disponibiliza fado amador. Nunca fui grande apreciador deste tipo de fado mas fui com gosto, até porque iria conhecer gente potencialmente interessante. O acompanhamento era de qualidade superior ao dos cantadores, todos eles populares, amigos da casa, que fazem desta actividade o cumprimento de um gosto genuíno onde talvez não haja dinheiro envolvido. O estabelecimento é familiar e, numa dada altura, o dono e a cozinheira (casados um com o outro) dançavam na cozinha enquanto um tocador de harmónica se entretinha com a ternura dos quarenta acompanhado à guitarra e à viola.  

Tive uma espécie de epifania modesta, toda nascida, desenvolvida e desaparecida dentro de mim - e de mim apenas. O que diria o fado - talvez mesmo este tipo de fado - a um marciano ou a um habitante de uma outra época a quem fizessem a mesma pergunta, agora adaptada: foi o povo português que fez o fado, ou foi o fado que fez o povo português? O que diz de nós -  independentemente de quem fez o quê - um género musical (neste caso) deficientemente interpretado, embora genuíno, com letras que falam de amores perdidos, de ciúme, de saudade ou de traição? O que diz de nós um género musical triste, dolente, do qual não exala genica ou fulgor, um género musical que Eça considerou uma comédia, que alguém propôs trocar-se pelo canto coral, ou que foi acusado de fazer mal ao fígado…? Somos o que cantamos ou cantamos o que somos?

No seu livro Noise - The Political Economy of Music, Jacques Attali, o autor, refere (tradução minha): (...) É por isso que a economia política da música não é marginal, mas premonitória. Os ruídos de uma sociedade estão à frente das suas imagens e dos seus conflitos materiais. A nossa música prevê o nosso futuro. Imaginemos este trecho escrito no século XIX, quando surgiu o fado: a nossa música prevê o nosso futuro. Será que podíamos perceber onde estaríamos no início do século XXI? 

JdB   

domingo, 10 de março de 2019

I Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 4,1-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus, cheio do Espírito Santo,
retirou-Se das margens do Jordão.
Durante quarenta dias,
esteve no deserto, conduzido pelo Espírito,
e foi tentado pelo diabo.
Nesses dias não comeu nada
e, passado esse tempo, sentiu fome.
O diabo disse-lhe:
«Se és Filho de Deus,
manda a esta pedra que se transforme em pão».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Nem só de pão vive o homem’».
O diabo levou-O a um lugar alto
e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra
e disse-Lhe:
«Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos,
porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser.
Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Ao Senhor teu Deus adorarás,
só a Ele prestarás culto’».
Então o demónio levou-O a Jerusalém,
colocou-O sobre o pináculo do Templo
e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus,
atira-te daqui abaixo,
porque está escrito:
‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito,
para que te guardem’;
e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Jesus respondeu-lhe:
«Está mandado:
‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação,
retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

sábado, 9 de março de 2019

Duas Últimas *

Quem me conhece sabe do meu gosto por música clássica, por fado, por algum jazz. Quem me conhece melhor sabe da minha "paixão" por tangos, que entendo ser uma forma superior de música. Superior a quê? perguntarão alguns. Superior a nada de especial - apenas superior.

Fica aqui um vídeo delicioso (3'38'', para os que têm uma agenda apertada) mesmo que a delícia se situe no domínio do possidónio ou do lugar comum: o olhar apaixonado ou deslumbrado, a pequena multidão que se aproxima, o homem que tira o chapéu como que à passagem de algo que é maior do que ele, a senhora de touca de bilros, o balcão que pára de aviar bebidas.
´
Não percam!

JdB



* publicado originalmente a 23 de Julho de 2008, hoje recordado por causa de um espectáculo de tangos a que assisti

sexta-feira, 8 de março de 2019

da interpretação de Ulisses, de James Joyce

A leitura em inglês de Ulisses, de James Joyce, vislumbra-se uma tarefa herculeamente impossível. A sua leitura em português, numa tradução (parece que cuidada, de mais de 700 páginas) de Jorge Vaz de Carvalho afigura-se uma tarefa extenuante. Devo reconhecer que não cumpri nenhuma das duas. No entanto, na minha condição de doutorando tardio, assisto a um seminário, ministrado pelo Prof. António Feijó, que se dedica à leitura acompanhada da obra (na edição usada, mais de mil páginas entre texto e notas).

É muito vulgar perguntarem-nos sobre que é determinado filme ou determinado livro. A resposta habitual é mais ou menos esta: então, é sobre duas pessoas que se encontram... Ora, essa é a história do livro ou filme. O tema é outro: pode ser o amor na terceira idade, uma metáfora da traição, a descrição do capitalismo moderno ou um libelo contra a feminismo. 

Nesta linha, não sei, em boa verdade, sobre que é Ulisses, de James Joyce. Tampouco saberia contar a história, pois são 700 páginas passadas num único dia. Mas, como ouvi, o maior interesse para algumas pessoas (nomeadamente eu) não é saber a história ou o tema, mas perceber as inúmeras (seguramente centenas) de referências em toda a obra. O que me interessa saber é o que está por trás de determinada frase: um pensamento de Santo Agostinho ou uma frase de Shakespeare, uma citação dos clássicos gregos ou da Bíblia, um episódio da vida do autor ou do irmão em Trieste. 

Com um pontapé abriu a porta gretada da casinha. Melhor ter cuidado para não sujar estas calças para o funeral. Entrou, curvando a cabeça sob o lintel baixo. Deixando a porta entreaberta, no meio do fedor a cal mofenta e a teias de aranha bafienta tirou os suspensórios. antes de se sentar espreitou através de uma frincha para a janela da casa ao lado. O rei estava no seu trono. ninguém.    

(...)

Leu calmamente, contendo, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio, cedendo a sua derradeira resistência, permitiu aos intestinos que se aliviassem calmamente enquanto lia, lendo ainda pacientemente, já passada aquela ligeira obstipação da véspera.(*) Espero que não seja tão grosso que traga hemorróidas de volta. Não, bom tamanho. Assi, Ah! Com prisão de ventre um comprimido de cáscara sagrada. A vida podia ser assim. Não o emocionava nem tocava mas era algo rápido e asseado. Agora imprime-se qualquer coisa. Época frívola. Continuou a ler, sentado calmamente sobre o seu próprio fedor ascendente. (...) Deu uma olhadela pelo que já tinha lido e, enquanto se sentia verter calmamente as águas, ele invejou amavelmente o Sr. Beaufoy que tinha escrito aquilo e recebera o pagamento de três libras, treze e seis. 

(...)

Rasgou metade da história premiada bruscamente e limpou-se com ela. (**)

---

* "Os actos de ler e defecar são aqui colocados juntos de forma perversa. O prazer de Bloom na contenção / libertação lembra a teoria de Freud de que, através destes meios anais, as crianças de três anos atingem gratificação sexual." (nota da edição inglesa, tradução minha.)

(**) parece que falamos de crítica literária...

JdB

quinta-feira, 7 de março de 2019

Poemas dos dias que correm

Quando o Amor Morrer Dentro de Ti

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti, in “Obra Poética”

***

Ofício de Amar

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras
                                             [galáxias, e
                                             [o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Al Berto, “O Medo”

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quarta-feira de Cinzas

EVANGELHO Mt 6, 1-6.16-18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a ecompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».


***

Sermão de Quarta-feira de Cinzas, do P. António Vieira (fim)

(...) 

Cristãos e senhores meus, por misericórdia de Deus ainda estamos em tempo. É certo que todos caminhamos para aquele passo, é infalível que todos havemos de chegar, e todos nos havemos de ver naquele terrível momento, e pode ser que muito cedo. Julgue cada um de nós, se será melhor arrepender-se agora, ou deixar o arrependimento para quando não tenha lugar, nem seja arrependimento. Deus nos avisa, Deus nos dá estas vozes; não deixemos passar esta inspiração, que não sabemos se será a última. Se então havemos de desejar em vão começar outra vida, comecemo-la agora: Dixi: nunc caepi.

Comecemos de hoje em diante a viver como quereremos ter vivido na hora da morte. Vive assim como quiseras ter vivido quando morras. Oh! que consolação tão grande será então a nossa, se o fizermos assim! E pelo contrário, que esconsolação tão irremediável e tão desesperada, se nos deixarmos levar da corrente, quando nos acharmos onde ela nos leva! É possível que me condenei por minha culpa e por minha vontade, e conhecendo muito bem o que agora experimento sem nenhum remédio? É possível que por uma cegueira de que me não quis apartar, por um apetite que passou em um momento, hei de arder no inferno enquanto Deus for Deus? Cuidemos nisto, cristãos, cuidemos nisto. Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte. Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz. E para que esta resolução dure e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora. De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma?

Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma. Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida. E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi? Terceiro: quanto posso viver? Quarto: como é bem que viva? Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva?

terça-feira, 5 de março de 2019

Textos dos dias que correm

Carnaval e Quaresma: Esquizofrenia? Não, porque «há tempo para chorar e tempo para rir»

«Em relação ao Carnaval, não seremos talvez algo esquizofrénicos? Por um lado, dizemos de muito bom grado que o Carnaval tem direito de cidadania mesmo em terra católica, por outro evitamos considerá-lo espiritualmente e teologicamente.

Fará então parte daquelas coisas que cristãmente não se podem aceitar, mas que humanamente não se podem impedir? Então seria lícito perguntar-se: em que sentido o cristianismo é verdadeiramente humano?»

Começa assim a reflexão do então cardeal Joseph Ratzinger sobre o Carnaval, período imediatamente anterior ao início da Quaresma, contida num livro publicado em 1974.

«A origem do Carnaval é sem dúvida pagã: o culto da fecundidade e a evocação de espíritos estão juntos. A Igreja teve de se insurgir contra esta ideia e falar de exorcismo que expulsa os demónios, os quais tornam os homens violentos e infelizes», escrevia o teólogo alemão.

E o papa emérito prossegue: «Mas após o exorcismo emerge algo de novo, completamente inesperado, uma serenidade demonizada: o Carnaval foi posto em relação com a Quarta-feira de Cinzas, como tempo de alegria antes do tempo da penitência, como tempo de uma serena auto-ironia que nos diz alegremente a verdade que pode ser muito estreitamente ligada à do pregador da penitência».

«Desta forma, o Carnaval, uma vez expurgado do demónio, na linha do pregador do Antigo Testamento, pode ensinar-nos: “Há tempo para chorar e tempo para rir” (Qohélet 3,4)», assinala.

Por isso, também para o cristão não «é sempre tempo de penitência. Há também um tempo para rir. O exorcismo cristão destruiu as máscaras demoníacas, desencadeando um riso espontâneo e aberto».

«Por isso, nós, cristãos, não lutamos contra, mas a favor da alegria. A luta contra os demónios e o alegrar-se com quem está alegre estão estreitamente unidos: o cristão não deve ser esquizofrénico, porque a fé cristã é verdadeiramente humana», escreveu Joseph Ratzinger.

Mais recentemente, há alguns dias, o arcebispo da arquidiocese brasileira de Passo Fundo, realçava, também a propósito do Carnaval, «o trabalho coletivo de um Escola de Samba».

«A vida social somente é possível com a colaboração de cada indivíduo. Vivemos numa sociedade marcada pelo individualismo onde os interesses privados atropelam o bem comum. Para chegar o dia do desfile a Escola vivenciou um imenso esforço coletivo que é educativo para todos os seus membros», salienta D. Rodolfo Weber na página dos bispos do Brasil.

E D. Roberto Paz, bispo de Campos, recorda a herança lusa naquele que é considerado o maior Carnaval do mundo, que «sempre foi, no Brasil, ressonância da espontaneidade da região do Minho, de Portugal».

Depois de vincar que a cultura cristã tem uma proposta otimista da vida, alternando momentos de exuberância festiva com momentos de penitência e comedimento», o prelado lembra que «nas últimas décadas, emergiram experiências de evangelização e inculturação da fé: pagode cristão, samba de fé, escolas de samba com enredos religiosos e espirituais».

Isto mostra «que há um terreno aberto e convergente em muitos valores com a proposta do Evangelho: solidariedade, alegria, beleza, encanto, e partilha, além de conteúdos especificamente religiosos e bíblicos».



Rui Jorge Martins
Fontes: Famiglia Cristiana, CNBB (1), (2)
Publicado em 04.03.2019

segunda-feira, 4 de março de 2019

Dos telefones como elementos de suspeita

Vi o filme na Netflix. Não me lembro como se chama, sei que é francês. Eu conto a história: 7 amigos encontram-se para jantar. São três casais (um dos quais anfitrião) e há um deles que vai sozinho, porque a namorada, que o grupo ainda não conhece, está aparentemente doente. Os casais são absolutamente normais, com filhos pequenos num caso, com uma filha de 17 anos noutro. Médicos, psicólogos, advogados (talvez numa empresa), professor de ginástica, motorista de táxi. São amigos de longa data, desde os tempos do liceu. Num casal nota-se uma tensão, noutro uma paixão mais unilateral, noutro uma paixão sensual e biunívoca. Nada de extraordinário, portanto.

Numa dada altura, a propósito de uma manifestação de desconfiança por causa de telemóveis bloqueados ou não, alguém propõe um jogo: todos os telemóveis são colocados em cima da mesa e todas as mensagens, mails, telefonemas são partilhados em voz alta. Nota-se um incómodo aqui e ali, e o jogo passa a ser quase uma arma de arremessso, uma estratégia para provar qualquer coisa.

Os telefones vão tocando com sms ou correio electrónico. Os donos disfarçam, brincam, inventam, tentam fazer trocas subreptícias de aparelhos para disfarçar fotografias que entram. No espaço de uma hora, numa mesa de casa de jantar, percebe-se tudo: as fotografias sensuais ilícitas, os jogos de sedução ilícitos, a infidelidade dupla, uma homossexualidade escondida dos amigos, uma filha que partilha em alta voz a possibilidade da sua primeira noite sexual, uma operação estética nunca revelada, o desejo, também nunca revelado de por uma sogra intrusiva num lar.

O fim do filme é algo surpreendente: afinal o jogo nunca se jogou. "Já viste se tivéssemos jogado o jogo? Ainda bem que não..." Mas fica a dúvida - ou a certeza - de que a infidelidade dupla existia, de que um deles é homossexual e que havia, de facto, jogos sensuais virtuais e ilícitos.

Um telefone cabe numa mão. E é numa mão, e com uma mão, que se suspendem vidas conjugais, fragilidades que são fruto de uma suspeição legítima, suposta, assassina. Um telefone é algo pessoal, onde pode não haver qualquer ilicitude, muito menos comportamentos menos correctos. Mas aquele objecto pode matar a confiança que temos ou devíamos ter em quem vive connosco. Num ápice, um código que não se partilha, uma password que não se revela, é um véu que cai sobre o casal com o peso de uma conjectura, de um pressentimento relativamente ao qual se descortina, olhando para trás, inúmeros comportamentos que confirmam. 

Num telefone cabe tudo: as fotografias dos filhos ou das viagens, as agendas diárias, as notas de coisas a fazer, as frases singelas e inócuas que, ao menor deslize, se tornam armas de arremesso e guilhotinas que caem sobre uma tranquilidade genuína ou apenas ingénua.

JdB

domingo, 3 de março de 2019

8º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 6, 39-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo.
disse Jesus aos discípulos a seguinte parábola:
«Poderá um cego guiar outro cego?
Não cairão os dois nalguma cova?
O discípulo não é superior ao mestre,
mas todo o discípulo perfeito deverá ser como o seu mestre.
Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista
e não reparas na trave que está na tua?
Como podes dizer a teu irmão:
‘Irmão, deixa-me tirar o argueiro que tens na vista’,
se tu não vês a trave que está na tua?
Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista
e então verás bem para tirar o argueiro da vista do teu irmão.
Não há árvore boa que dê mau fruto,
nem árvore má que dê bom fruto.
Cada árvore conhece-se pelo seu fruto:
não se colhem figos dos espinheiros,
nem se apanham uvas das sarças.
O homem bom,
do bom tesouro do seu coração tira o bem:
e o homem mau,
da sua maldade tira o mal;
pois a boca fala do que transborda do coração».

sábado, 2 de março de 2019

Pensamentos Impensados *

Em toda a sua vida nunca se tinha atrasado um minuto sequer; era um maníaco das "horas". Um dia chegou atrasado 5 minutos: foi considerado um caso pontual.

O primeiro homem a pôr a "boca no trombone" foi o Calígula; deu "calígula nos dentes".

Camões teria tido alguma premonição acerca de Taiwan quando escreveu "vai formosa e não segura"?

Os kamikases são pessoas em vias de extinção.

Diz um amigo para o outro: sabes, participei num concerto com o Barenboim.
Diz o outro: ah sim? E que instrumento tocaste?
Não toquei nada, era eu que virava as folhas da partitura.

Os sapatos de senhora, de salto alto, têm uma peça chamada alma; daí a frase "caiu-lhe a alma aos pés."

As cariátides são doenças que atacam os dentes das estátuas gregas.

E já que falamos em dentes, que tal um jogo para dentistas que se chamasse "ou cárie ou coroa"?

SdB (I)

* publicado originalmente em 4 de Janeiro de 2010

sexta-feira, 1 de março de 2019

Duas Últimas

O mail, vindo de mão amiga, trazia a seguinte informação: apreciem a voz de  Dimash Kudaibergen, do Cazaquistão, 23 anos. Tem uma extensão vocal de 4 tons e 9 semi-tons, vai do barítono ao soprano. É cantor, compositor, multi-instrumentista  e canta em nove idiomas!

Por motivos vários não consegui ouvir e não tenho capacidade técnica para avaliar as qualidade musicais do cavalheiro. Apreciem, se for aplicável...

JdB


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