sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

lost cause(s)

as pessoas lutam por causas perdidas,
porque são as únicas causas pelas quais vale a pena lutar.

e, sim, as pessoas morrem por causas perdidas.
e, sim, as pessoas vivem, ao morrerem por causas perdidas.

e pessoas que vivem, ao morrerem,
são pessoas
quê?

digam comigo:
são pessoas vivas!

vivas.

vivas.


gi.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, after many weeks of nostalgic remembrance of established and famous artists, I think it is fitting to celebrate the New Year with a new upcoming artist from London.
Rumer is her name. She sings her own compositions of soulful jazz, jazzy soul. She has a gorgeous soft deep-toned voice reminiscent of Karen Carpenter, but I hear also Dusty Springfield. In other words, impeccable, classy. Burt Bacharach paid for her to fly to California so that he could hear her sing, and has now written some songs especially for her. He is the epitome of good taste.
Rumer has a special talent which deserves to become very well known and appreciated during 2011.








I wish you all a happy, exciting, healthy, fulfilling...and musical... 2011.

A proxima.
PO

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Moleskine

Natal. Oiço que as pessoas presenteiam menos, reduzem o furor consumista em nome da crise e do verdadeiro espírito natalício, transformado numa romagem comercial na demanda do ouro, talvez, mas seguramente não do incenso e da mirra... No entanto, leio também que se levantaram e transaccionaram centenas de milhões de euros no multibanco, mais 50 milhões do que no ano passado. Dizem-me que são os portugueses a gastar os últimos cartuchos antes que a crise se apodere dos despojos. A mim, afigura-se-me tudo uma espécie de última refeição mas, ao contrário do que é habitual, quem a paga é o condenado que sobe ao cadafalso...

Outro olhar. O evangelho do último Domingo fala da fuga da sagrada família para o Egipto. Durante anos este texto pouco me disse. Mais tarde li o episódio à luz do Evangelho Segundo Jesus Cristo, livro escrito pela pena azeda do ainda não nobelizado Saramago. Eis senão quando uma homilia inspirada me elucida – ou me proporciona um outro olhar - sobre aquele acontecimento. O apelo do padre foi claro: fugi de tudo o que possa perigar a vossa família. O meu raciocínio é muito ingénuo? Olhem...

Notícia. Li ontem, num jornal, que Elton John e o marido foram pais de um rapaz. Questiono-me se não devia integrar esta informação no texto sobre aquilo que ameaça a família. Elton tem 62 anos e o companheiro 48. Como crescerá esta criança, filha de uma barriga de aluguer, e que se chamará Zachary Jackson Levon Furnish-John?

O mundo. Parte da minha vida rege-se por um burguesismo moderno e desinteressante – se bem que confortável. Ontem jantava um resto de perdiz que mão amiga teve a infinita caridade de me ofertar. O telejornal debitava minudências: em Lisboa, uma marca espanhola decidiu chamar os clientes ao primeiro dia de saldos oferecendo-lhes benesses. Requisito? Virem de roupa interior. A perdiz é esplêndida, mas o espectáculo televisivo não deslustra. Não sinto sensualidade, mas curiosidade sobre as boxers, sobre a lingerie - mas também sobre o despreconceito de quem as usa, ao léu, num hall de centro comercial para ganhar umas calças de ganga. Na ponta do meu garfo, num equilíbrio instável, uma castanha cozinhada a preceito. Fico a saber que num outlet em Vila do Conde, dezenas de pessoas esperaram mais de oito horas para receber um vale que poderia ser de apenas 25 euros. Requisito? Traje a rigor, um conceito subjectivo, por aquilo que vi... O soutien e o smoking para tapar uma nudez em crise. Sinto um sobressalto e penso que é a minha senilidade idosa a reagir aos despautérios do tempo. Afinal é apenas um chumbo entalado no peitinho da perdiz...

Televisão. Faço zapping. Na BBC, o fim de uma entrevista com Ingrid Betancourt. Fala de uma passagem da Bíblia em que, depois de atravessado o vale das lágrimas, Deus nos presenteia com a recompensa: não é a glória, a riqueza ou a fama. É o descanso, a paz interior, para usar a sua expressão. Mais tarde, na RTP Memória, depois de no dia de Natal ter revisitado a Música no Coração, delicio-me agora, talvez pela centésima vez, com o Casablanca. O mundo não está perdido, afinal.

Música. O Moleskine despede-se de 2010 com um tom crooner. Bom Ano, para quem me lê.


JdB

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ano-Novo

O protocolo da passagem de ano é apertado e rigoroso. Atrevo-me mesmo a dizer que, ao lado deste, as regras a cumprir nas recepções da Rainha de Inglaterra são pouco mais que recomendações vagas. E quem não o seguir à risca está condenado a ter de suportar um ano cheio de fracassos e desilusões.

É imperativo que se salte de um sofá e se aterre com o pé direito. Quem por qualquer razão não conseguir cumprir este requisito, os meus sentimentos, porque quem não começar o ano em queda livre com o pé direito em riste está condenado a nunca mais acertar o passo.

A segunda etapa é as passas. Doze. Uma por cada badalada. Eu aqui tenho um truque. Em qualquer ajuntamento de passagem de ano há pelo menos uma pessoa que não gosta de passas. Chego-me sempre à frente e ofereço-me para as comer. O sucesso do novo ano é proporcional ao conjunto de doze passas que se ingere. Não posso oferecer garantias científicas, mas mal não faz, até porque estas escorregam muito bem com o champanhe!

Por fim temos as resoluções de ano novo. Toda a gente as faz, e depois ninguém quer saber delas. Têm um tempo de vida muito curto. Geralmente entre as 23:45 e as horas a que uma pessoa acorda com uma cabeça mais lúcida e menos eufórica. A partir de 2011 vou tentar alterar isto. Uma das minhas resoluções será certificar-me de que as pessoas cumprem as suas.

E, para o caso de isto ter inspirado algum leitor, aqui ficam as outras: vou deixar de roer as unhas, vou ler 200 livros durante o ano inteiro, vou buzinar para demonstrar a minha irritação ao volante apenas uma vez por dia, vou correr pelo menos uma vez por semana e vou deixar de me exaltar enquanto vejo futebol.

Espero que toda a gente cumpra o protocolo descrito acima, porque só assim o país vai conseguir sair desta crise em que está.

Bom Ano Novo!

SdB (III)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Fórmula para o caos

Têm estado a decorrer os debates entre os candidatos a Presidente da República. Se o interesse que os portugueses demonstram pelas eleições presidenciais 2011 já é quase nulo, com a fraca qualidade, curta duração e falta de entusiasmo patente dos debates, o nível atinge a nulidade.

Francisco Lopes. Trata-se de uma candidatura cujo único objectivo é o de cumprir a agenda comunista. O comité central impõe um candidato. Este bota um discurso elaborado por Marx em 1848, executado por Lenin em 1917 e continuado por Mao em 1949, para à posteriori ser designado como sucessor de Jerónimo de Sousa no cargo de Secretário-geral do PCP. Assim foi com Carvalhas.

Fernando Nobre. Até Fevereiro último, era considerado um dos heróis da sociedade civil. Com todo o seu espirito humanista e altruísta. No entanto, cometeu o erro da candidatura e tudo que isso acarretou. Demonstrou uma manifesta falta de humildade e uma insuportável sobranceria relativamente aos restantes candidatos. O fundador da AMI (assim se espera que venha a ser recordado) quer convencer o eleitorado que a retórica anti-política e anti-sistema vai contribuir para a uma melhoria de vida das pessoas. Fica-lhe mal frases como : “ Eu estive no Líbano em 1982...”, “ Eu vi crianças a correr atrás de galinhas para lhe tirarem o pão que levava no bico..”, “ Eu conheço a pobreza, e o Cavaco não..”.

Defensor de Moura. Até a data do debate com Cavaco Silva desconhecia-se a razão da sua candidatura. Agora, continua a desconhecer-se. Porém, e apesar de as sondagens apenas lhe atribuírem 0,5 %, foi capaz de desferir o ataque mais sujo e inqualificável contra Cavaco. Todas as insinuações relativamente ao BPN são infundadas e carenciadas de conteúdo. Apenas se lhe concede o mérito de ter tirado o PR do sério. Cavaco sobe responder-lhe à altura das circunstâncias, apesar da baixeza do ataque.

Manuel Alegre. As expectativas eram baixas. Contudo, que diabo de campanha é esta? Apesar de ser, como para muitos parece uma virtude, um profundo desconhecedor dos dossiers, pensava-se que a sua vasta experiência política chegaria para melhor. Como se vem a constatar, a indefinição ideológica, da candidatura e não de Alegre, castram todas as possibilidades de promover uma luta pela segunda volta. Na situação actual não se pode juntar Socrates e Louçã na mesma comissão de honra.

Cavaco Silva. Apenas me ocorre uma ideia. Uma palavra a mais, um voto a menos. E vice-versa. Sendo um dos desapontados pelo primeiro mandato do Presidente, espero que logre a a reeleição e a legitimidade de dissolver o parlamento para que se possa, finalmente, materializar o sonho de Sá Carneiro. Um maioria, um governo, um Presidente.

Pedro Castelo Branco

domingo, 26 de dezembro de 2010

Domingo ….. Se Fores à Missa (Conto de Natal)

Cipriano observava, de longe, o Menino e os seus pais. Tinha os pés enterrados na neve mas não sentia frio. Na noite anterior, já deitado, ouvira alguém bater à porta da casa onde morava e escutara uma conversa murmurada, entre-dentes, entre o seu pai e aquele outro homem: “ ….. já batemos à porta de tanta gente ! nem a estalagem nos quis receber. não temos para onde ir… “ Percebeu que o seu próprio pai, a resmungos, acabou por ceder e indicou-lhes o estábulo. Cipriano manteve-se muito calado mas gravou na sua mente que amanhã logo de manhã iria ao estábulo ver quem estava.

Eram 6 da manhã e Cipriano espreitava, agora, o estábulo do pai. Cipriano tinha 5 anos e o que viu deixou-o fascinado. Perante os seus olhos desenrolava-se um bailado de cores e formas coloridas, brilhantes, como nunca antes tinha visto. Cada cor transmitia-lhe uma sensação de plena paz e alegria, cada forma deixava transparecer sentimentos de contentamento e euforia. Nunca, durante a sua curta vida, tinha Cipriano visto algo assim. O estábulo do pai, sempre tão escuro e sombrio, era um verdadeiro arco-iris. No centro do arco-iris, Cipriano viu três raios de luz dourada que se debruçavam para ele, como que a chamarem-no. A única vez que tinha visto a cor dourada, lembrava-se, foi quando, aos 3 anos de idade, caíra numa gruta com 8 metros de profundidade e a queda, como que por milagre, tinha sido amparada por uma luz dourada que o envolveu e poisou no chão com toda a suavidade. Cipriano é cego de nascença, mas não o sabe. Vive com os seus pais na montanha e para ele o mundo compõe-se de cores. Azul escuro quando mãe o chama para comer; amarelo quando vai tomar conta do rebanho; verde quando tem de ajudar o pai a plantar as batatas; branco quando a mãe o envolve com um abraço; vermelho quando o pai se zanga; a cada situação do seu dia-a-dia corresponde uma cor. Uma única cor, às vezes duas; mas nunca, nunca nada o tinha preparado para a explosão de cores que, nesse dia, via no estábulo do pai.

Aproximou-se mais da luz dourada que o chamava e estendeu a mão, com o indicador espetado. A Mãe do Menino percebeu, de imediato, que o rapaz era invisual e estranhou aquele gesto. Não percebeu porque razão o rapaz estendia a sua pequenina mão, tão segura, tão certeira na direcção do seu bebé. Estupefacta, viu o seu próprio Menino, que nem 24 horas de vida tinha, estender também o seu dedinho, seguro e certeiro, e uni-lo ao dedo do rapaz. Os dois permaneceram assim durante alguns segundos, dedo com dedo, como que a partilharem algo invisível. Cipriano sorria, os seus olhos, sem vida, brilhavam quase tanto como aquela estrela que, desde há dias, teimava em segui-los. A Senhora, habituada que estava já a viver coisas muito para além do seu entendimento, encolheu os ombros, sorriu para o marido fazendo-lhe sinal, com um dedo na boca, para que não dissesse nada.

Cipriano levantou-se e saiu. Foi aos seus afazeres. Nunca mais deixou de ver a luz dourada. A luz acompanhou-o pelo resto dos seus dias. Continuava a ver o azul, o verde, o amarelo, o castanho e todas as outras cores que definiam cada tarefa do seu dia, cada sentimento, cada decisão, cada hesitação, mas a partir daquele dia, todas essas cores passaram a ter um brilho dourado que o faziam lembrar o arco-iris que vira, naquela manhã, no estábulo do Pai.

Domingo, Se Fores à Missa ……… Procura a Luz Dourada !

Maf

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto e ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pelo Profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e voltou para a terra de Israel. Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Assim se cumpriu o que fora anunciado pelos Profetas: «Há-de chamar-Se Nazareno».

Palavra da salvação.



sábado, 25 de dezembro de 2010

Pensamentos impensados

A todos os que me lêem desejo um Santo Natal (aos outros também). Se os meus "non sense" vos arrancarem um sorriso, fico satisfeito.

SdB(I)

Pensamentos impensados

Resposta à pergunta da semana passada
Madeiro vertical stipes, horizontal patibulum.

Pergunta da semana
Quando um Papa morre, é exposto na Basílica de S. Pedro, virado para o público; se fôr outra qualquer pessoa, fica virado para o altar. Por quê esta diferença?

Não deve ser novidade para ninguém a existência duma pequena estátua, em Bruxelas, que representa um menino a fazer chi-chi; essa estátua chama-se Manneken Pis; talvez não saibam que essa estátua inspirou Leon Tolstoi a escrever War and Piss. Será que essa estátua pode ser considerada uma master piss? Os hippies também se inspiraram na estátua quando disseram "love and piss"..

Devido à crise mundial este Natal vai ser o pior dos últimos 2500 anos. Mas nem tudo sobe; o poder de compra vai descer.

Os "media" têm medo de serem chamados à pedra e por tudo e por nada usam a palavra alegado.
Agora, uma mãe, alegadamente, matou o filho; por que não dizem alegada mãe? Têm a certeza que é mãe?

Mais uma bicada nos "media".
Quando acontece algo muito fora do normal, logo vêm dizer que o país está em estado de choque.
Desde já previno os "media" que os processarei se me incluírem sem me perguntarem se estou em estado de choque.

O acordo ortográfico, esse aborto que não merece maiúsculas, entende que as consoantes mudas devem desaparecer; assim, haja Deus, (um desejo) passa a ser aja Deus, ou seja uma ordem, para Deus agir.

Lido numa entrevista
Já viu a morte de perto?
Não, mas já vi a Odete Santos.

SdB(I)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Votos do dia de hoje

Adoração dos Pastores (Josefa de Óbidos, 1630 - 1684)

Um Santo Natal para todos

breve blague melancólica

erros individuais,
má fortuna,
amor ardente.

porque raio havia
de ser diferente
com a gente?

gi.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Deixa-me rir...

Sempre gostei do Kris Kristofferson. Escritor, actor, cantor e intérprete de vários géneros musicais (folk, rock, country), fui seguindo, ainda que muito esporadicamente, a carreira deste artista relativamente desconhecido do público português. Para além de sempre o ter achado bem giro e de gostar do seu sorriso franco e aberto, lembro-me do seu romance com a Barbara Streisand e de ter sido casado com a Rita Coolidge, uma cantora “do meu tempo” (muito famosa na América, aqui francamente menos). Hoje em dia já não é (nada) novo – nasceu em 36 – mas teve uma vida incrivelmente cheia: desportista nato, 8 filhos, 3 mulheres, uma passagem honrosa pela vida militar, intelectual (tem um degree em Literatura pela Universidade de Oxford), dado às drogas e aos excessos durante largos anos, foi autor de canções de grande sucesso, privou com n artistas do seu tempo, ganhou Emmys e Grammys … enfim, uma vida rica de conteúdos. (e se dúvidas houvesse quanto a isso, reparem na letra da canção abaixo).
Desta vez, procurando músicas alusivas ao Natal, encontrei esta balada country que achei particularmente bonita e comovente. Da sua autoria (1972), foi reinterpretada mais tarde por Johnny Cash, artista de quem o PO já falou há muitos meses atrás.
Ora ouçam:



why me lord?
what have i ever done,
to deserve even one,
of the pleasure i've known,
tell me lord,
what did i ever do,
that was worth lovin' you,
for the kindness you've shown,
lord help me Jesus,
i've wasted it so help me Jesus,
i know what i am,
but now that i know,
that i needed you so help me Jesus,
my souls in your hand,
try me lord,
if you think there's a way,
i can try to repay,
all i've takin' from you,
maybe lord,
i can show someone else,
what i've been through myself,
on my way back to you,
Jesus, my soul's in your hands


À primeira vista, esta canção não tem nada a ver com o Natal. E, no entanto, tem. Tem porque se não fosse o nascimento de Jesus, dessa figura divina e humana que veio ensinar a Paz e dar um sentido mais profundo à existência humana, nem o Kris Kristofferson (nem ninguém) poderia ter escrito uma canção tão doce, tão humilde, tão cheia de gratidão e abandono absoluto (curiosamente, fez-me lembrar os escritos de Santa Teresinha do Menino Jesus!). Não sei, talvez seja meu problema, mas não estou a ver nenhum budista, hindu ou muçulmano a escrever uma canção tão “doce”! E tem a ver com o Natal por uma segunda razão: é que todo o nascimento (e o Natal é O nascimento por excelência) é sinónimo de renovação e de abertura ao futuro. Que, por definição, encerra todas as potencialidades. O futuro é fresco, é puro, é uma tela branca onde podemos pintar o que quisermos. Ainda que as experiências passadas nos tenham tingido e quebrado. O Natal representa a possibilidade de nos renovarmos e de podermos reescrever a nossa vida interior e história pessoal. Talvez não com a alegria espontânea das crianças, com a esperança da juventude, com o entusiasmo dos 20’s, mas com a certeza das conquistas interiores: que o Amor não é uma abstracção e que “my (our) soul's in your hands”.

Um Santo Natal para todos.

pcp

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Texto para o dia de hoje

Já houve um tempo em que rezava o Magnificat numa base mensal (do Evangelho de hoje):

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.

Moleskine

Blogue. Quando comparado com outros, este Adeus, até ao meu regresso... tem uma expressão mínima. Mas, quando comparado com outros outros, este blogue mantém uma constância há mais de dois anos que seria injusto desprimorar. A que se deve isto? Aos bloguistas e aos visitantes, sobretudo os mais habituais, que vão ajudando a esta dinâmica. À Maria Zarco, ao Pedro Castelo Branco, ao ZdT, ao PO e PCP, ao gi, à MAF, desejo um Santo Natal, e deixo aqui expressos os meus agradecimentos pelo valor que acrescentaram a este espaço. Ao clã dB agradecerei pessoalmente...

Sábado. Festa da Acreditar na Academia Recreativa de Santo Amaro. Tempo para algum divertimento, lanche e entrega de presentes às crianças. Tinha sido convidado para jantar, nesse mesmo dia, em casa de gente que não conhecia, que eram amigos de amigos. No minuto em que entrei percebi que poderia sair cinco minutos depois, que ninguém daria nem lamentaria a minha ausência. Sabia o problema pessoal que afligia o anfitrião mas, por motivos óbvios, não abordei o assunto. Já à porta, nos minutos que antecedem as despedidas, uma palavra puxou outra palavra. O dono da casa tem um filho com seis anos que, no IPO, luta contra um leucemia. Falou-me nisso – nos tratamentos, nas possibilidades, no optimismo, nas condições – naquele monologar catártico de quem encontrou alguém que se expressa na mesma linguagem. Abordámos a Acreditar, o mecenato, as sinergias. Quando entrei naquela casa não fazia tenções de me identificar como pai de uma criança com cancro, porque as pessoas querem ser confrontadas com a felicidade, não com o infortúnio. Quando saí desta mesma casa pensei, presunçosamente, que eu tinha sido convidado para dar oportunidade àquela conversa final. O resto era paisagem.

Mudança de idade. Há quem pense que são as borbulhas, a pilosidade, as hormonas saltitantes, o despontar das formas, a alteração na voz, o armário onde queremos enfiar os nossos filhos. O engano é tremendo – não é nada disto. A idade muda quando a nossa indiferença pelo Natal dos Hospitais é visível a olho nu. Fui possuído por um angústia quando realizei que o evento que marcou a minha juventude televisiva me deixava tão frio como o debate entre o Fernando Nobre e o Defensor de Moura – a bem dizer entre todas aquelas combinações de quatro dois a dois... Uma parte de mim morreu e, passe a contradição, estou certo de que sobreviverei com dificuldade a este falecimento.

Música. Revejo-me em quase tudo o que o Jansenista referiu. Ouvir Bach é entrar em contacto com a transcendência...




JdB

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Queijadas de Limão

Tens de ir buscar três ovos. São especiais, os ovos, muito distintos e singulares por diversas razões. São comida para todas as mesas, das mais ricas às mais pobres, ou não fizessem eles par perfeito tanto com a mais ordinária das chouriças como com a mais refinada das trufas. Traz um limão pelo caminho, bem grande. O limoeiro está enorme, muito maior que no dia em que esgravatei o meu nome nele, com o canivete em que não se podia mexer. A memória dos cheiros é uma faculdade soberba, se me encostasse aqui, tinha lembranças para a tarde toda. Tens de raspar o limão todo, de medir duas canecas de açúcar e uma de farinha. Nada que leve mais açúcar que farinha pode dar errado. Agora, o cheiro lembra-me o meu avô, que vai observando atentamente, sem nunca falar, e o tempo em que o ficava a ver amassar o pão. Sempre achei que os meus horários de padeiro são coisa de família. Só faltam duas canecas de leite e uma colher grande de manteiga derretida. Mistura-se tudo, sem contemplações piegas nem segredos misteriosos. Usa a varinha da sopa, para ficar tudo bem suave.

Liga o forno a cento e sessenta graus. Ou cento e setenta. Não te queimes Zézinho. A espera, de trinta ou quarenta minutos, conforme o tom dourado da crosta crocante que se vai deixando formar em cada uma das formas do tabuleiro, cuidadosamente untadas com manteiga antes de terem sido enchidas, até cima, serve para ir recordando o tempo em que o Natal brilhava nos olhos dos mais pequenos. Agora são vocês que fazem os doces, já viram?

Vamos tentar tirá-las. Calma avó, quando nós éramos pequenos, esperar era um martírio, agora é a avó que tem pressa? Sou, tira-as agora que o avô não está a ver.


zdt

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Vem a propósito do Natal o óptimo filme francês – O CONCERTO(1) – com muito Tchaikovsky, músicos eslavos sem amarras, q.b. excêntricos e, sobretudo, maximamente livres. Aliás, pagaram com a vida o preço da liberdade de consciência, na Rússia implacavelmente comunista e anti-semita de Brejnev.

A paixão pela música, que levara o maestro do Bolshoi a proteger uma genial violinista judia, valeu-lhe a obstrução de um concerto promissor e já em curso, a destituição imediata do cargo, a dissolução da orquestra e um emprego humilhante no serviço de limpezas do Bolshoi!

Mas a sorte que coubera à solista judia tinha sido bem mais radical: deportada para a Sibéria com o marido, foram consumidos, como fósforos, pelo frio e pelo desgosto, simulando com as mãos a sua actuação magistral no concerto que ficara a meio. «Louca» fora a alcunha recebida no Gulag. Pois ninguém mais ouvia aquele sonho musical a que ela e o marido se tinham devotado, extraindo da sua paixão artística forças para sobreviver. Só que no inferno branco das estepes russas, apenas os flocos de gelo e as tempestades de neve tinham som. E venceu o silêncio...

Toda a narrativa flúi com leveza e imenso humor, parodiando tudo o que era, insiste em ser mas, simplesmente, já não é, logo a começar pelo comunismo ou o oportunismo dos do Partido, que se instalam nos postos que outros merecem, alavancados por uma pseudo-fidelidade ideológica.

Nas encruzilhadas da vida, tudo mudara, e adivinhava-se a hora de voltar a haver tempo de antena para o concerto interrompido pela KGB. Ironicamente, era no mesmíssimo KGB em quem podiam confiar a possibilidade de realização do sonho de outros tempos, beneficiando do seu empreendedorismo e do francês à LaFontaine… que só mesmo o escritor de há 4 séculos reconheceria. Aquele implacável agente dos serviços secretos era, afinal, o primeiro favorecido pela política anti-segregacionista do bom maestro, castigado por se ter recusado a excluir os talentosos elementos judeus do Bolshoi dos anos 70.

O KGB e os músicos do antigo Bolshoi do mesmo lado da barricada

Assistimos, então, ao despertar da antiga orquestra – qual Bela Adormecida– reacordando em cada músico o gosto que sempre lhes ficara pela arte e, mais ainda, pela memória da violinista ostracizada, ou a legítima desforra de concluir o concerto inacabado. Desta vez, era na Cidade das Luzes que o sonho se poderia concretizar, apesar das incontáveis peripécias que quase deitavam tudo a perder, até ao último segundo (com algumas cenas inverosímeis mas cómicas, como a dos ciganos a intimidarem a polícia russa, no aeroporto de Moscovo – obviamente, pura fantasia). A história oferecia-lhes uma nova oportunidade de ser feita justiça, talvez em condições ainda mais gloriosas, guindando-os a um palco maximamente cosmopolita e mediático.

Trailer: http://www.europacorp.com/dossiers/leconcert/

O grande realizador italiano, Roberto Rosselini, dizia que a humanidade se dividia em dois tipos de pessoas: as que têm esperança e as que não têm! De facto, esta película confirma como o tempo pode jogar sempre a favor de quem acredita. Por isso, vale a pena espreitar e explorar janelas de oportunidade, voltar à luta, reconciliando-nos com tudo e com todos, em nome de valores mais altos.

Os talentos mais imprevistos e multiétnicos

Ainda a propósito do Natal, no Dia D da tão desejada actuação em Paris, há um crescendo de gaffes e de momentos burlescos, que são bem o retrato da amálgama de ingredientes que compõem a trama da vida, com possibilidade de happy-end. Num momento especialmente expressivo, o indefectível KGB (que estava de manager) levanta os olhos ao céu, em misto de prece e de desafio: Se existes, oh Deus, faz um milagre. Ele bem precisava, porque as primeiras notas da orquestra faziam temer o pior. Sobretudo é gira a volta dos acontecimentos, a mostrar como a realidade é tão surpreendente que até o impossível, por vezes, acontece. O próprio usurpador do lugar do Maestro estava, naquela noite histórica, nas masmorras do Châtelet a testemunhar (contra vontade) o êxito rotundo do Concerto. Um concerto que acabaria por atingir mais do que uma harmonia musical suprema, condensando harmoniosamente a história adversa de inúmeras vidas, pois reunira muitos homens de Boa Vontade. Tornara-os assim capazes de recuperar o sentido de quase tudo, até da dor mais injusta e cruel. De redimir os reveses do passado. De reabrir o futuro à esperança.

E que outra coisa é o presépio?



O mítico concerto de Tchaikovsky para Violino em Ré Maior, Op.35 (1878)

Que melhor posso desejar a cada um, nesta quadra, do que a noite de estrelas de há dois mil anos, para nos iluminar a alma de Esperança e caminharmos a favor do tempo, sempre que confiamos? Também nas palhinhas de Belém, Alguém espera por nós conhecendo-nos por dentro, como dizia Vinicius de Moraes a propósito da amizade: «Os Amigos não se fazem, reconhecem-se».

BOAS-FESTAS,

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda)

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(1) FICHA TÉCNICA

Título original: Le concert

Realizador: Radu Mihaileanu (judeu romeno, radicado em França)

Elenco: Mélanie Laurent, Aleksei Guskov, Dmitri Nazarov Valeriy Barinov François Berléand,

Argumento: Radu Mihaileanu e Matthew Robbins

Línguas: Francês | Russo

Ano: 2009 Pais: França Duração: 120 min

Prémios – Melhor Banda Sonora nos Césares de 2010.

Locais de filmagem: Moscovo, Paris (Hotel Le Bristol, Théâtre du Châtelet) e Bucareste.

Banda sonora: de Armand Amar, com uma ária composta pelo realizador: “Le Trou Normand”, o concerto para Violino de Tchaikovsky, além de peças de Mozart e Mahler.



domingo, 19 de dezembro de 2010

4º Domingo do Advento

O Presépio somos nós


O Presépio somos nós


É dentro de nós que Jesus nasce


Dentro destes gestos que em igual medida 
a esperança e a sombra revestem


Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação


Dentro do dom e da demora


Dentro do redemoinho e da prece


Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos


O Presépio somos nós


É dentro de nós que Jesus nasce


Dentro de cada idade e estação


Dentro de cada encontro e de cada perda


Dentro do que cresce e do que se derruba


Dentro da pedra e do voo


Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo


Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece


O Presépio somos nós


É dentro de nós que Jesus nasce


Dentro da alegria e da nudez do tempo


Dentro do calor da casa e do relento imprevisto


Dentro do declive e da planura


Dentro da lâmpada e do grito


Dentro da sede e da fonte


Dentro do agora e dentro do eterno


(José Tolentino Mendonça
 In Agência Ecclesia
 15.12.10)

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EVANGELHO – Mt 1,18-24

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo:
Maria, sua Mãe, noiva de José,
antes de terem vivido em comum,
encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo.
Mas José, seu esposo,
que era justo e não queria difamá-la,
resolveu repudiá-la em segredo.
Tinha ele assim pensado,
quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor,
que lhe disse:
«José, filho de David,
não temas receber Maria, tua esposa,
pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo.
Ela dará à luz um Filho
e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus,
porque Ele salvará o povo dos seus pecados».
Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o senhor anunciara
por meio do Profeta, que diz:
«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho,
que será chamado ‘Emanuel’,
que quer dizer ‘Deus connosco’».
Quando despertou do sono,
José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara
e recebeu sua esposa.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Pensamentos impensados

Pergunta da semana
Segundo pinturas, desenhos, esculturas, etc, Nosso Senhor Jesus Cristo aquando da subida ao Calvário transportou uma cruz: está errado pois os condenados só transportavam um madeiro (aquele onde as mãos eram pregadas ou atadas); o madeiro vertical já lá estava.
Como se chamavam os dois madeiros?

Fiz uma sondagem para saber quais os melhores bifes e as respostas foram: bifes do cacém, bifes da vazilha e bifes de alcantara.

Quando dizemos "temos o caldo entornado" não estamos forçosamente a referir-nos a um fenómeno meteorológico.

Os flambeados também se podem fazer com aguardente; neste caso chama-se lume brandy.

Numa entrevista é raro não se fazer uma pergunta calista: o que faz nos tempos livres? A pergunta é estúpida pois se se fizer alguma coisa o tempo deixa de estar livre.

No assunto imediatamente atrás, foram usadas, seguidas, duas palavras iguais se.
Venho pôr à vossa consideração uma frase em que a palavra se aparece três vezes seguidas; digam-me se está correcta ou é mais uma patetice.
Pergunta-se, se se pode........

SdB (I)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

driving licence

sentir a impermanência
escalar a pele
desde a ponta dos pés

sentir a finitude
descer a pele
desde a ponta dos cabelos

intuir o seu exacto
ponto de encontro:
ali mesmo junto ao coração.

sempre
em contra-mão

sempre
atropelado

por si próprio
e por alguns outros.

quem dera ter tirado
em tempo certo

a universal
carta de condução

não é fácil de conduzir não
um destemperado coração.

gi.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this week I wish to add to recent posts by JdB and PCP by also commemorating John Lennon.
Millions of words have been spoken and written about him and I cannot really add anything more inspired.
A few years ago I happened to be in New York on an anniversary of his death, not a particular one like the 30th just passed, and so decided on that cold winter evening to walk along Central Park to the Dakota building where he had lived and to look for the Strawberry Fields garden memorial nearby. I did not expect that there would be much activity, perhaps a few admirers, some bouquets of flowers, some messages of love and thanks. But actually there were at least 300 people, some with guitars singing together, some holding candles, praying, remembering, bringing a heart-warming sense of communion and community. I suppose I should not have been surprised, especially in the city where he made his life after The Beatles and where he was killed.
The Beatles had been a phenomenon, still remain so. But John Lennon tried to burst the balloon of this global mania, to claim that they were just four ordinary but talented guys from Liverpool who had been very very lucky. He wanted to move away from this thing called "The Beatles" constructed around them. And so, it seems to me, after the Beatles, he came back down to earth, to find a life more personal, more spiritual, yet still using his influence to try to fight for the things he believed in.
This capacity for reflection and rebellion was already apparent during The Beatles in songs such as Help and Revolution, and the first song I choose is In My Life which he himself considered to be his first serious song, a meditation on his past life experiences, which of course now sounds a little fatalistic and most poignant in the light of his own death.



I think John Lennon's sincerity, his willingness to express his own feelings into his songs (whereas Paul McCartney prefers to create abstract stories), his rebellious spirit and his humanity are the characteristics which make him so loved, as a human being as much as for his music.
Elton John composed a wonderful eulogy to his good friend, which captures the essence of the man and our sense of loss:



And finally, since Christmas is around the corner, here is John Lennon's eternal Christmas wish for love and peace in our hearts and around the world:



I wish you and your families um Bom Natal.

A proxima,
PO

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