terça-feira, 31 de maio de 2016

Das memórias superlativas

Nada no nosso corpo físico deve ser descurado, e é por isso que levamos vidas maçadoramente saudáveis, nos agitamos ao som de uma necessidade de arejamento da mente ou de uma obrigação de abate de peso. Protegemos o baço, o fígado, os pulmões ou o coração - este enquanto músculo, que enquanto coisa diversa o assunto fia mais fino. Não queremos inimigos internos com sinais de impaciência. Uma vesícula irritada ou uns rins incomodados são uma maçada que nos persegue como uma dívida fiscal. Faço o mesmo com a memória: não a posso controlar, e é impossível apor-lhe no frontispício uma placa com o fatal reservado o direito de admissão. Assim sendo, todas as minhas memórias são por definição pacíficas, porque não quero que sejam um inimigo interno que não vencerei jamais. Tenho uma memória demasiadamente forte para que seja minha adversária.

Vem este intróito críptico - ou apenas maçador - a propósito da morte daquele que o país artístico conheceu como D. Vicente da Camara e que eu, por via das circunstâncias familiares e sociais, conheci de outra forma. Convivemos durante 45 anos, talvez, porque ele era o Pai de pessoas que me foram muito importantes, o co-anfitrião das férias que foram as melhores da minha vida, se tirarmos todas as outras férias que foram, também elas, as melhores da minha vida.

Nalguns aspectos olho muito pouco para o futuro, que é imprevisibilidade com a qual nem sempre saberei o que fazer, até porque desconheço em que moldes me aparecerá. No fundo, domino muito pouco do que serei, pelo que o olhar persistente sobre o horizonte foi chão que deu uvas. Tenho desejos para os dias de amanhã, óbvio, mas a minha genica vai toda para o passado - para os vários passados - que constituem as lajes onde assenta a minha vida. Sobre tudo o que é a minha existência - pessoas que surgiram ou desapareceram, episódios felizes ou angustiantes, épocas exaltantes ou chorosas - construo uma memória duradouramente pacífica e pacificadora. Não abati nada ao efectivo: um amigo, uma música, uma rapariga que me disse que sim ou que não, um olhar nebuloso sobre um equipamento de hospital, a sombra dos plátanos num adro setembrino, a devoção aos anjos, as honórias que só eu sei. Guardo tudo, porque sou um bric-a-brac onde a inutilidade se junta ao fundamental.  

Lembrar-me de quem partiu inesperadamente este sábado é lembrar-me de muito mais do que cabe aqui neste estabelecimento. Não a lembrança dele, específica e exclusivamente, mas a lembrança dele com tudo o resto: os amores inocentes e apertados de verão, as primeiras amizades duradouras, a compota de amoras, as ferraduras comidas numa ilegalidade que a fome vencia, o passeio de santo antónio e um menino jesus vivo com quase hálito de cigarro escondido, as luzes persistentes de bencatel, a sopa de beldroegas ou de cação que eram delícias exclusivas de um sítio e de um tempo.

Toda a minha vida é feita de camadas verticais que se alimentam das que são horizontais. O que sou hoje está construído sobre espaços que são as minhas memórias, mesmo que sejam partidas sem retorno. Não tenho cemitérios, não tenho campos de guerra, não tenho prisões onde se cumpriram ou cumprem penas. O que sou hoje assenta naquilo que fui ontem e anteontem, com todos os cheiros, seres vivos, paisagens, sons, beijos dados e recebidos, toques subtis de mãos adolescentes. Por mais irónico que possa parecer, com o desaparecimento de sábado não desaparece nada. Num momento fugaz de infantilidade surgiram-me como nunca anos felizes, imensamente felizes - talvez mesmo os mais felizes, se tirarmos todos aqueles que também foram os mais felizes que vivi, noutros sítios e com outras pessoas.

Sou um superlativo das minhas memórias, até porque é delas que vivo. Se não fossem tão boas seriam apenas uma maldição.     

JdB         

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Quantos óptimos rockers musicaram letras que só colhem, porque deram pretexto a óptimas árias e orquestrações? Raros são os músicos talentosos que exigem qualidade equivalente no texto. Maria Betânia, Bob Dylan, Bono são honrosas excepções, mas há mais alguns, também dignos de nota. Por exemplo, o Boss, que até nas letras costuma ser rigoroso e inspirado.

O “mito urbano” do americano banal, patriótico, terra-a-terra que se lhe colou à pele está longe de corresponder à realidade, creio, da mesma forma que é pura ilusão achar que a aura casual chique que transborda de Steve McQueen é 100% espontânea e inata. Longe disso, apesar de num e noutro haver boa dose de verdade nessas percepções tão generalizadas.

Indo ao caso do músico: a normalidade em Bruce esconde um equilíbrio e uma sabedoria de vida que nada têm de comum. Aliás, toda por junto: a sua postura bem saudável é uma raridade, mais ainda no meio sombrio e decadente do rock, onde ele navega com uma perícia e alegria incríveis. Também o seu realismo e gosto pela vida são animadamente confundidos com um estilo terra-a-terra. A sua insólita combinação de lucidez & extrema simplicidade passa igualmente despercebida, ficando apenas a imagem do tipo pacato e mediano, que talvez se contente com pouco. O simples facto de a lucidez não o fazer resvalar para o cinismo nem para a mordacidade, antes lhe inspirarem ternura pelo próximo, convenhamos que não é frequente.

O segredo do Boss é que tudo lhe sai agradável, harmonioso e cheio de fluidez, como se fosse fácil. Cai-se na ilusão de achar que está ao alcance de qualquer um. Mas, basta revisitar as características que lhe estão acopladas para perceber que não quadram nadíssima com as estrelas pop. Que ele é, ainda por cima, como “boss”. Recapitulando, ser: saudável, simples, um puro, recusar estratosferas para ficar próximo do mais banal dos seres humanos, meigo, fiável, generoso, de irreverência soft… Mais parece o manual do escuteiro modelo do que o retrato de um artista de palco, que ganha a vida a galvanizar multidões.


Bruce Springsteen | Lisboa | 19.5.2016 | © 2016 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Os títulos dos artigos escritos sobre o Boss, a propósito da sua recente estada em Lisboa, no Rock in Rio, explicam bem como é um fenómeno atípico no universo do show-bizz. Cito alguns: «Bruce Springsteen é um ‘profeta bíblico’», «Bruce Springsteen: o macho sensível que nunca falha», «A teologia de Bruce Springsteen» ou ainda «o último inocente do Rock» segundo a Time que fez dele capa, em 1975.

Segue-se o artigo de título mais insólito, porque incide melhor sobre a carga poética e nostálgica do Boss, que só a sua alegria profunda e a gratidão pela vida explicam por que se empenhou com esmero em dar ritmo e salero a uma obra que se poderia ter ficado por baladas simpáticas para entreter. Mas não. Sempre generoso, Bruce impregnou-as de vitalidade. Por isso são tão contagiantes. Como aperitivo ao artigo, aqui vai uma dessas músicas onde tudo se entrelaça com ousadia e densidade, numa harmonia imprevista – The River:



«A teologia de Bruce Springsteen

Dizer que Bruce Springsteen é o rock é repetir preguiçosamente apenas o óbvio. Bruce é, sim, um visionário, um poeta, o grande narrador do romance americano. No conjunto da sua obra pode detetar-se uma indecisão entre versos a abarrotar de imagens abstratas, flashes picados sobre paisagens irreconhecíveis e golpes de pendor narrativo, que nos trazem histórias com uma precisão idêntica à da luz que os mineiros usam para escorregar fundo na escuridão. Numa coisa e noutra, porém, assistimos ao mesmo prodigioso trabalho de linguagem, à mesma sucessão oceânica, ao realismo solto por instinto como a lembrar-nos que ele é um rocker, claro, mas também um sobrinho de Walt Whitman, de John Steinbeck ou de FlanneryO’Connor.

A quem pareça excêntrico um título como este, “A teologia de Bruce Springsteen”, o que pensará quando descobrir, disseminado por várias geografias, a existência de um extenso repositório de ensaios teológicos sobre o assunto! E textos que vêm a lume não em micropublicações para fanáticos, mas em periódicos indiscutíveis como o “Theology TodayJournal”, da Universidade de Princeton, ou “Civiltà Cattolica”, a mais importante e icónica revista dos Jesuítas. Que interesse tem Bruce Springsteen deste ponto de vista? Há o informe biográfico, claro. As raízes irlandesas, a educação familiar, a escola católica em criança, o imaginário bíblico transmitido com naturalidade pelo contexto cultural, a rutura com esse mundo e um reencontro reconfigurado mais tarde, já com uma dicção ardentemente singular, mas regressando às referências religiosas de origem como gramática para exprimir isto que somos sobre a terra. Entalados no quotidiano urbano mais cru ou perdidos nos bosques, entre a infâmia, o sonho e a raiva, os protagonistas das canções de Bruce ganem a fome de resgate, a espera por aquele que os poderá livrar do mal. Ao mesmo tempo que declamam as suas (as nossas) minúsculas histórias de amor como monumentais epopeias de graça e redenção.

Penso que não interessa tanto catalogar religiosamente o universo do Boss quanto sentir nele a inclassificável trepidação de Deus. Lembro-me de várias passagens, onde a inquietude desenha a linha de fogo de uma salvação desejada, mesmo se não atingida. Penso no álbum “The River“ (1980), quando Bruce descarrega em labaredas lentas este fragmento de oração: “Quero que Deus me mande uma palavra/ mande uma coisa qualquer que eu sinta medo de perder”. Ou em “Nebraska” (1982), ao volante numa noite de chuva pedindo que alguém escute o grito: “livra-me do nada”. Ou em “Tunnel of Love” (1987), com o coração estilhaçado pelo fim de um amor, mas ainda assim disposto a transformar o drama em invocação: “Esta noite a nossa cama está fria/ Perdi-me na opacidade do nosso amor/ Deus tenha piedade do homem/ Que duvida daquilo que é seguro”. Nesse disco, Springsteen canta que uma parte dele tende a fazer coisas que ele próprio não entende. E as expressões que usa não estão longe do lamento de São Paulo na Carta aos Romanos: “Que miserável homem eu sou! Quem me livrará deste corpo de morte?” (Rom 7,24).

Sobre a luz, Bruce terá algo a contar mais tarde na coletânea “Lucky Town” (1992), quando a alegria da paternidade o empurrar para o verdadeiro salmo jubiloso que é a canção ‘LivingProof’: “Uma noite de verão num quarto às escuras/ entrou uma parcela mínima da luz eterna do Senhor/ gritando como se tivesse engolido a lua acesa/ Nos braços da sua mãe era toda a beleza possível/ Como as palavras que faltam a uma oração/ que não serei capaz de inventar”. Mesmo se no disco seguinte voltem a morder as velhas dúvidas: “Meu Jesus, o teu amor misericordioso e a tua piedade/ esta noite, perdoa-me, não conseguem encher-me o coração”. Escrever o poema de Deus para apagar o poema de Deus. Apagar o poema de Deus para escrever o poema de Deus. Ou, como ensina o mestre Bruce Springsteen, “it takes a leap of faith to get things going

José Tolentino Mendonça,  na revista Expresso de 14-05-2016


Sobre Bruce, logo depois do concerto, a 19 de Maio

«É um cowboy do asfalto. Um profeta bíblico. Um aborígene que vem até nós descendo o rio na sua jangada. Um sonhador insone. Um soldado cheio de ferimentos, a maior parte deles incuráveis, dos combates do amor. Um vigia da alegria e dos seus abismos. Um narrador para a solidão dos homens e para a invencível esperança. Ele é tudo isso. E também uma central alquímica de altíssima voltagem, uma rebentação de vida que não resigna, um incrível fenómeno estelar em expansão.

A noite é um veículo inventado para que o contrabando dos sonhos se dê. Oiçam-no a ele. A noite fala um a língua de veludo e de fogo. Oiçam-no. A noite é uma dança e um duelo. A noite deflagra com a sua matéria brilhante. Oiçam-no ainda. A noite é o espinho cravado na carne e, ao mesmo tempo, a rosa que flutua pelos séculos. Bruce Springsteen, o patrão da noite, sabe do que fala».

José Tolentino Mendonça


«Macho, sim, mas com sensibilidade. (…)  Springsteen (é) a força controlada, a energia brutal que nunca acaba em descarga eléctrica, comboio a alta velocidade que nunca sai dos carris. (…) A mistura de realismo e inocência, tal como a ideia de que conhecer o lado negro da vida não conduz necessariamente ao cinismo, é uma virtude americana e talvez explique por que razão canções com letras tristes como “Glory Days” ou “Born in the USA” sejam treslidas (ou tresdançadas) como hinos de alegria, marchas patrióticas. Há nelas, apesar da mensagem sombria, um invencível optimismo, uma inocência que não pode ser corrompida (...).»

Bruno Vieira Amaral (BVA) in observador.pt


Num mano-a-mano com outro dos que pensa muito bem naquilo que canta, Bruce acompanha Bono num dueto memorável neste gospel actualizado, saído do repertório dos U2 – I Still Haven't Found What I'm Looking For. Concerto em Madison Square Garden:


Intui-se, ao ouvir a sua voz quente, vigorosa, risonha, incansável, que Bruce gosta das pessoas, sentindo-se que canta talvez mais por nós do que por ele! Por isso, lança-se em concertos infindáveis, espectaculares, entregando-se com magnanimidade, sem artifícios. No fundo, em contracorrente, resulta num «homem real em época de máscaras», como observa BVA. Até nisso é autêntico e corajoso. Nada dos medos de desiludir, de envelhecer, de se esgotar. Sabe que a Arte lhe vem de dentro e, como a recebe de graça, faz questão de a partilhar como um dom. Tudo muito invulgar, em Bruce.

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

domingo, 29 de maio de 2016

IX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 7, 1-10

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
quando Jesus acabou de falar ao povo,
entrou em Cafarnaum.
Um centurião tinha um servo a quem estimava muito
e que estava doente, quase a morrer.
Tendo ouvido falar de Jesus,
enviou-Lhe alguns anciãos dos judeus
para Lhe pedir que fosse salvar aquele servo.
Quando chegaram à presença de Jesus,
os anciãos suplicaram-Lhe insistentemente:
«Ele é digno de que lho concedas,
pois estima a nossa gente
e foi ele que nos construiu a sinagoga».
Jesus acompanhou-os.
Já não estava longe da casa,
quando o centurião Lhe mandou dizer por uns amigos:
«Não Te incomodes, Senhor,
pois não mereço que entres em minha casa,
nem me julguei digno de ir ter contigo.
Mas diz uma palavra e o meu servo será curado.
Porque também eu, que sou um subalterno,
tenho soldados sob as minhas ordens.
Digo a um: ‘Vai’ e ele vai,
e a outro: ‘Vem’ e ele vem,
e ao meu servo: ‘Faz isto’ e ele faz».
Ao ouvir estas palavras,
Jesus sentiu admiração por ele
e, voltando-se para a multidão que O seguia, exclamou:
«Digo-vos que nem mesmo em Israel
encontrei tão grande fé».
Ao regressarem a casa,
os enviados encontraram o servo de perfeita saúde.

sábado, 28 de maio de 2016

Pensamentos Impensados

Sõx
Os homens têm voice male, as mulheres voice female

Abis-mos
A Venezuela está à beira não sei de quê (se soubesse tirava-a). Parece que o mal pode ser do Presidente Maduro. Em Portugal há 4 antigos presidentes sem nada que fazer, mas com experiência. A Venezuela não quererá algum deles? Sempre aliviava o nosso orçamento.

Médicinas
Foi ao urologista queixar-se de maus tractos.

Fidúcias
Hoje em dia, o equivalente a escudos humanos será os euros humanos.

É fartar vilanagem
Não há fome que não desapareça com uma fartura.

Libações
Quando um tipo está bêbado e tem modos grosseiros diz-se que está grosso modo.

Génios
O Ministro Santos Silva deve ser o maior político dos últimos três séculos: já abraçou uma pasta de Secretário de Estado e 5 ministérios. É OBRA. Como será isto possível? Penso que formar um governo não é brincadeira, pelo que estou a ver o primeiro ministro a perguntar: e para esta pasta? A resposta era sempre: manda o Santos Silva. Como não conheço nada de relevante deste penta-ministro, só posso concluir: este Fulano é um tapa buracos. 
Sugere-se que seja contratado pela Câmara Municipal de Lisboa.

SdB (I)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Das inteligências

Vivi o suficiente para me ter cruzado com gente muito diferente, de muitas proveniências sociais ou geográficas, com olhares diferentes sobre a vida, os princípios, os hábitos, as escolhas. Gente culta, com estudos, com interesses; mas também gente básica, gente que não lia um livro ou não via um filme, que não queria conhecer o mundo porque um jardim florido de coisas pequenas os entretinha. Gente arrojada, gente desafiante, mas também gente cumpridora, devotada ao serviço e à mansidão do caminho. Nisto não sou diferente de ninguém. 

Com o tempo fui vendo as inteligências de cada um, fui ouvindo sobre as inteligências de cada um: as mentes fulgurantes, rápidas, mecânicas, práticas, seguras, desafiantes ou voltadas para a ordem. Fui conhecendo gente com inteligências inúteis, gente desprovida de inteligência mas cheia de bom senso. Gente com inteligências rápidas que põem tudo em causa e outras que aceitam tudo. Gente que vive na beira do abismo, para quem o questionamento é o motor que faz andar o mundo e a sociedade.

Sou o que sou e no que me tornei. Num âmbito que se cruza com tudo isto, viajar já não é só conhecer outros mundos, mas ser confrontado com o desconhecido, o espaço para além dos muros que me dão segurança. Viajar é um salto no espaço, e por isso é que muitos repetem os destinos, habituados aos sons e às cores que são o conforto do que é habitual. Abro o portfólio de toda esta gente, penso nas viagens que não fiz e tudo isto me parece estranhamente parecido. Não quero arrojo, desafio, combate, avidez de mudar o mundo. Só quero bom senso, que é uma espécie de viagem inaugural já se sabendo quase tudo.

Acho que tenho bom senso, e talvez isso explique este post já tardio e falho de imaginação e cuidado.

JdB   

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Poemas dos dias que correm

Daniel Faria
Portugal 
10 Abr 1971 // 9 Jun 1999 
Poeta


***

Ausência

Fala

Ouvir-te-ei
Ainda que os segredos
As amoras me chamem

Diz-me
Que existirão lágrimas para chorar
Na velhice
Na solidão

Ainda que acordes os olhos dos deuses

Fala

Ouvir-te-ei
A coragem

Alguém de nós que já não está

Daniel Faria, in "Oxálida"

***

Há uma Mulher a Morrer Sentada

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

terça-feira, 24 de maio de 2016

Duas Últimas

Bruce Springsteen esteve de novo em Lisboa, mais uma vez no “Rock in Rio”.

Estive lá, como não podia deixar de estar, salvo imponderável de última hora. Desígnio cumprido com gosto e vontade, para contrapor às obrigações com que me vou confrontando no dia-a-dia, sobretudo às que têm hora e vida próprias…

Um concerto fantástico, na forma como BS interpreta e se entrega inteiramente, agarrando a multidão ao primeiro acorde, ou no desempenho instrumental da sua fantástica banda, com vários músicos que o acompanham há uma imensidão de tempo e se conhecem de olhos fechados. Faltou o grande – em todos os aspectos –  Clarence Clemons, já falecido, substituído no saxofone por um sobrinho igualmente talentoso mas com menos folego.. .

Uma actuação sem tempos mortos de perto de 3 horas, atestando a generosidade e profissionalismo de BS e companheiros (embora as línguas perversas digam que nos concertos realizados em Espanha terá tocado durante 4 h, mas sabemos que toda a comparação é odiosa!). Temi pelas minhas pernas, até porque cheguei bastante antes, a tempo de ainda ouvir 10 ou 12 músicas dos Xutos, mas nessa matéria felizmente nada de novo aconteceu. De realçar ainda que, embora em ambiente de casa cheia e vibrante, a (boa) educação e respeito pelo m2 de cada um imperaram.

A música que aqui trago tem o inconfundível contributo de C Clemons, daí a escolha.

Espero que a apreciem


fq

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Da vida militar

Fotografia tirada da net

Gosto de filmes de guerra, ou de uma espécie de filmes de espionagem, confesso. Mas, devo também afirmá-lo, não sou movido pelo jorro de sangue nem pelos ruídos de uma metralhadora que dispara sem cessar; não sou movido por um belicismo fardado, nem pela ideia do fundo moral dos filmes que manda que os bons acabem por triunfar; não sou movido pela tecnologia usada em combate nem pelos efeitos especiais do realizador. No fundo, o que me motiva, por mais estranho que possa parecer, é a dimensão fabril por trás de uma guerra ou de uma operação especial / militar. O que quero ver é a organização dos 4 M's - Men, Machine, Material, Method - ao serviço de um objectivo. Nesse sentido, tanto se me dá que sejam os bons a ganhar como os maus. Não há moral nem ética na ficção, pelo que a organização mais eficaz é a que me suscita maior interesse. 

(Vi duas vezes, uma por curiosidade e a outra por desfastio, o filme que retrata a detenção (?) e morte de Bin Laden. O que queria mesmo era ter visto a organização da operação militar algo que é, quanto a mim, muito pobremente retratado.)

Sempre pensei que uma parte do que sou conviveria bem com uma vida militar. Talvez até por isso havia quem achasse que eu tinha um ar empertigado e marcial. Não tendo nenhum antecedente próximo na vida castrense, sempre me questionei de onde poderia vir esta vaga tendência. Agora percebo: é o meu lado de engenheiro de fábrica. Não me interessam (no sentido de não ser uma motivação forte) as guerras, os mortos, a defesa da Pátria, a luta contra um inimigo manhoso e traiçoeiro que ameaça os nossos valores, a praxe ao recruta ou as ordens dadas aos gritos. Interessa-me a norma, o planeamento, a regra, a uniformidade voltada para a máxima eficácia, a flexibilidade dinâmica, ponderada e arrumada mentalmente, a rotina que dá segurança, a constância dos padrões. Ser-se engenheiro numa fábrica ou um oficial numa unidade militar são, para esse efeito, equivalências.  

Talvez nunca tenha querido ser tropa, mas apenas um elemento numa organização onde a hierarquia fosse uma virtude, a organização uma condição de sobrevivência e o rigor uma ferramenta imprescindível. Podia ser uma fábrica ou um quartel. Coube-me a fábrica.

JdB

domingo, 22 de maio de 2016

Domingo da Santíssima Trindade

EVANGELHO – Jo 16,12-15

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade,
Ele vos guiará para a verdade plena;
porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido
e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará,
porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará.
Tudo o que o Pai tem é meu.
Por isso vos disse
que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».

sábado, 21 de maio de 2016

Pensamentos Impensados

Adeus ou vai-te embora
Cavaco tem mais encanto / na hora da despedida.

Sem papas na língua
O único dialecto que não tem a palavra papa deve ser de alguns índios amazónicos ainda não descobertos.

Sem maestro
As baleias-de-bossa cantam; deve ser bossa nova.

Corrupção
Guarda-redes do futebol têm opiniões abalizadas e são acusados de receber luvas.

Chega a todos até ao maior
Jesus Cristo em dia de pouca inspiração: em verdade, em verdade vos digo, não sei que vos diga.

Castigos
Bruxelas suspende sanção contra Portugal; espera-se que também suspenda Dalila.

Tácticas
Que se saiba, antes das batalhas D. Afonso Henriques não contava espingardas.

Novo tradutor
Em inglês, prego no prato é nail on dish.

SdB (I)

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Poemas dos dias que correm

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.

A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são
É nesta mesma rua que eu                                                       [as vítimas.
ouço todos os sonhos passar desfeitos.

Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

***

Inscrição

Ama silenciosamente o teu destino.
Nem pátria nem palavras memoráveis
farão durar a luz nos teus sentidos:
alguns objectos que te lembrem, poucos livros
e versos que sílaba a sílaba transfiguras
até entardecer cada palavra.

Teces o teu tremor. E sobre a pedra
a marca que ficar será de ausência.  

Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros"

***

Sofro, Lídia, do Medo do Destino

Sofro, Lídia, do medo do destino. 
A leve pedra que um momento ergue 
As lisas rodas do meu carro, aterra 
             Meu coração. 

Tudo quanto me ameace de mudar-me 
Para melhor que seja, odeio e fujo. 
Deixem-me os deuses minha vida sempre 
             Sem renovar 

Meus dias, mas que um passe e outro passe 
Ficando eu sempre quase o mesmo, indo 
Para a velhice como um dia entra 
             No anoitecer. 

Ricardo Reis, in "Odes" 


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Crónicas de um pré-doutorando tardio (próximas leituras obrigatórias)


A Carta de Lorde Chandos, publicada em 1902, é uma missiva ficcionada a Francis Bacon, em que Lorde Chandos, atravessado por uma crise literária e filosófica, explica porque não é capaz de continuar a escrever. O texto corresponde a uma crise do seu autor. Em 1901, Hofmannsthal renunciara à carreira universitária, reviu a sua obra poética, casou com Gerty Schlesinger e foi viver para uma pequena povoação próximo de Viena. Debate-se com a falta de sentido da expressão poética e literária e com o absurdo dos conceitos abstractos, e pensa que um novo começo só pode surgir de uma atitude, a decência de ficar calado.

***


Lila, de quatro ou cinco anos, vive negligenciada numa casa de imigrantes algures no Midwest, na década de 1920. Ninguém parece preocupar-se minimamente com ela. Passa o tempo aninhada debaixo de uma mesa e quando não consegue conter o choro, mandam-na para fora de casa. 

Uma vez, ao anoitecer, Doll, uma jovem vagabunda de rosto desfigurado, decide levá-la consigo para longe. Ambas sobrevivem juntando-se a um grupo de nómadas em busca de trabalho pelos campos fora enquanto o país enfrenta a Grande Depressão. Os anos passam até que Doll desaparece misteriosamente, e Lila continua a fazer aquilo que parece ser o seu destino, deambular para sobreviver. 

Um dia para se abrigar de uma tempestade, entra na igreja de uma pequena localidade na altura em que o reverendo John Ames proferia o seu sermão. A partir deste momento, assistimos a mudanças profundas que marcarão para sempre a vida destes dois personagens.

***


Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso porque de certa forma o estudo e a contemplação retiram a nossa alma para fora de nós e ocupam-na longe do corpo, o que é um certo aprendizado e representação da morte; ou então porque toda a sabedoria e discernimento do mundo se resolvem por fim no ponto de nos ensinarem a não termos medo de morrer. Na verdade, ou a razão se abstém ou ela deve visar apenas o nosso contentamento, e todo o seu trabalho deve ter como objectivo, em suma, fazer-nos viver bem e ao nosso gosto, como dizem as Santas Escrituras. Todas as opiniões do mundo coincidem em que o prazer é a nossa meta, embora adoptem meios diferentes para isso; de outra forma as rejeitaríamos logo de início, pois quem escutaria alguém que estabelecesse como fim o nosso penar e descontentamento? 

Michel de Montaigne, in 'Ensaios' [De como filosofar é aprender a morrer

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Textos dos dias que correm

Milagre? Talvez. Mas antes de tudo, agradecimento

Uma menina de seis anos está em Lourdes com a mãe. Vive com aparelhos acústicos, é surda de nascença, depois de um grave parto prematuro. Brinca, depois corre para a mãe e tira os aparelhos. «Já não me servem, sinto-me bem», anuncia, alegre. A história, ocorrida a 11 de maio, é daquelas que deixam quem a ouviu entre a comoção e a cautela.

O episódio teve numerosas testemunhas, e um vento de júbilo e gratidão difundiu-se entre os peregrinos milaneses da União Nacional Italiana de Transportes de Doentes a Lourdes e Santuários Internacionais, a que a família da criança se tinha unido. A documentação médica será analisada pelo gabinete de medicina do santuário francês, que verificará o estado da criança, antes e agora. Quem testemunhou o acontecimento não fala, prudentemente, de milagre, que é evento inesperado e cientificamente inexplicável, mas de cura; e de curas, sobretudo espiritual, não ocorrem poucas em Lourdes, testemunham os sacerdotes que acompanham os peregrinos.

Enquanto se aguarda que o gabinete médico de Lourdes faça as suas inquirições, o que é tocante são as palavras da mãe da criança: «Uma manhã disse a mim própria: tenho de levar a minha filha a Lourdes. Para agradecer a Nossa Senhora que a protegeu: tinha a vida em risco, e hoje é uma menina serena e feliz. Mas também para pedir apoio, para encontrar a força para enfrentar, ela, eu, todos nós, este caminho de vida tão exigente». E assim a mulher decidiu ir a Lourdes antes de tudo para agradecer aquela filha, nascida com apenas seis meses de gestação no dia de Natal de 2009. Pesava 800 gramas. Os médicos conseguiram salvá-las, mas os medicamentos que se utilizam nesses casos têm efeitos secundários e podem conduzir à surdez.

E foi assim que aconteceu, a criança fala e brinca com os seus companheiros, mas foi-lhe diagnosticada uma surdez profunda. Uma deficiência grave, portanto. E todavia aquela mãe foi a Lourdes para dizer «obrigado». Talvez só quem teve um filho doente pode compreender profundamente como aquela que a outros é uma odisseia, para uma mãe pode ser já uma graça. Porque aquela filha, de quem se temeu que não vivesse, lentamente foi crescendo, um dia após outro, adquirindo força e peso. A afeição a um filho que se acreditou perdido e que nasce como uma segunda vez pode ser extraordinário. Antes de pedir uma cura, que talvez lhe parecesse petição demasiado grande, a mulher vai dizer «obrigada – obrigada por ma teres deixado». E pede ajuda para a ajudar a crescer. Não há, em qualquer palavra sua, vestígio de recriminação; pelo contrário, há o contentamento pelo que aconteceu.

A história de hoje lembra-me uma peregrinação a Lourdes, há alguns anos. No avião que tinha partido de Roma havia um padre ancião, que há quase trinta anos regressava a Lourdes. Perguntei-lhe sobre acontecimentos que tivesse visto, e o que pediam as pessoas à Virgem, e porque é que muitos voltavam, fiéis, ano após ano. «Repara, a maior parte daqueles que eu acompanhei» - respondeu - «foram e voltaram para agradecer. É este o segredo: a gratidão de quem, mesmo doente ou pobre, olha para a sua vida e reconhece nela o bem». O bem de um casamento que nas dificuldades da vida segue em frente, de uma doença que se suporta, de um filho ferido num acidente mas que continua vivo. Neste sentimento, dizia o padre de cabelos brancos, o coração alarga-se e alegra-se já por aquilo que a vida dá. E regressa-se a casa reconstituído, e como que abraçado.

Ou às vezes, neste húmus de felicidade alguma coisa dos males que afligem o peregrino alivia os seus nós, que se volta a pacificar. Há curas interiores que não podem ser chamadas milagres, mas que são uma bênção para quem as experimenta. Depois, um dia, em Lourdes, há uma criança surda que tira os aparelhos acústicos. Milagre, talvez, outros o dirão. Ao ler esta cura, fica-nos desde já o pensamento de uma mãe que foi, antes de tudo, dar graças pela sua filha, assim como lhe foi dada, e a consciência da grandeza desta simplicidade. Em quem, como numa terra fértil, a graça de Deus pode trabalhar. E, por fim, é preciso ter a humildade de permanecer em silêncio: gratos por aquilo que pode acontecer, diante da Virgem, sem que saibamos dar-lhe um nome.


Marina Corradi
In "Avvenire", 15.5.2016
Trad. / adapt.: Rui Jorge Martins
Publicado aqui em 16.05.2016

terça-feira, 17 de maio de 2016

Pensamento Impensado

Fim da linha
Rossio, estação terminal. 
D. Sebastião, estátua terminal.

SdB (I)

As escolhas do gi.

# 25 Ata Kak, Obaa Sima

Sendo impossível - ou ainda mais impossível - pretender fazer um escrutínio da chamada "música do mundo", tal a sua diversidade e a dificuldade de a mapear, ficamos apenas com um ou outro exemplo de, como diz o título desta resenha, "nos ficaram".. no ouvido, no coração e/ou no corpo. No corpo, já disse?



***

# 26 Neon Indian, Deadbeat Summer

Os Neon Indian fizeram a gentileza de nos brindar com esta musiquinha de Verão, em 2015. É grande música? Não, não é. Mas é daquelas coisinhas que, ao volante, num certo dia da nossa vida, com o sol numa determinada posição e os azuis dourados lá fora a brilhar.. nos faz acreditar em qualquer coisa. Ou quase. ;)

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Vai um gin do Peter’s?

É bem verdade que a brincar se dizem verdades daquelas lapidares, que tendem a ser ignoradas ou desvalorizadas, o que vem a desaguar no mesmo.
Um bom exemplar vem num cartoon, bastante viajado pela net, que denuncia as diferenças abissais entre países, i.e., entre pessoas, com disparidades de desenvolvimento e de condições de vida, que correspondem a um fosso (intransponível?) de mais de 100 anos de distância. O cartoon propõe-se registar o impasse numa sondagem, aparentemente inócua, levada a cabo nas Nações Unidas, onde supostamente todos comunicam bem em língua inglesa. Aliás, o problema é anterior à língua, descendo àquele patamar obscuro onde as palavras já não remetem para nenhuma realidade (re)conhecida. Todos iguais, mas todos, afinal, excessivamente diferentes, como alertava Orwell. Acrescentaria: todos demasiado afastados, perigosamente desencontrados. Até seria fácil, se fosse um mero entrave linguístico.
Dá que pensar como perguntas simples e elementares podem chocar com barreiras mentais que afectam dramaticamente a percepção da realidade. Segue a radiografia do cartoonista às zonas cegas de cada região do mundo, numa abordagem intencionalmente simplificada, mas directa ao busílis sobre o que falta a uns e a outros, criando uma autêntica Torre de Babel. Mais actual do que se possa julgar:    
Quando a falar só nos desentendemos, virando de pantanas a bem-intencionada divisa    

Chegados às dessintonias instaladas entre pessoas, vem a propósito falar de uma via de comunicação apostada em suplantar todas as discrepâncias, proporcionando uma linguagem universal – a Arte. De facto, é a linguagem de todos os tempos e lugares, sobretudo quando remete para a sua raiz fundacional – a Beleza – fazendo-a emergir inclusive das e nas realidades mais abomináveis. Nessa concepção clássica, o artista é desafiado como que a replicar aquela divisa atribuída pela sabedoria popular ao Criador: de escrever direito a partir das linhas tortas e disfuncionais que a realidade visível pode assumir.
A partir do fim do século XVIII, um surto de novas experiências artísticas começou a atribuir função diversa à Arte, nomeadamente preferindo-a para mensagem de alerta, se necessário permeável a (por vezes, empapada mesmo de) toda a fealdade que o artista quisesse plasmar nela. Exacerbou-se também a subjectividade e enfraqueceu-se o nexo multi-milenar entre o Belo e a expressão artística.
A erupção de novas perspectivas artísticas teve, pelo menos, o mérito de tornar mais consciente e fundamentada a opção pelo trilho clássico, tornando-o numa escolha mais livre e algo corajosa, frequentemente em contracorrente. Dostoievski concentrou-se nesse desafio sempiterno da Arte com notável eloquência, partindo do pressuposto de que: «a Beleza salvará o mundo». Mesmo que não o tivesse verbalizado, o Belo está omnipresente na sua obra. Recuando aos tempos do Império Romano (finais), Santo Agostinho chegou a ter a audácia de interpelar a própria Beleza, fonte e destino da Arte, pois não a tomava por conceito abstracto mas realidade personificada. Lavrou, assim, um dos clamores poéticos mais tocantes da alma humana:
Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava... Estavas comigo e eu não estava contigo... Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira.”
Saltando para o século XX, um outro esteta, à sua maneira, sem quaisquer pergaminhos que se conheçam no mundo artístico, a um mês de morrer, proferiu um discurso algo profético, confiando à poesia o papel de salvaguarda da liberdade da nação. Mais: de purificadora e balizadora do poder político. Naquele discurso, poesia, vida e poder surgem interligados e a Arte é apontada, por aquele governante, como a guardiã da verdade. Insólito? Trata-se da intervenção do Presidente John F. Kennedy (1917-22.Nov.1963), proferida a18 de Outubro de 1963, no Amherst College, aqui abreviadamente citada:
«(…) Poetry (is) the means of saving power from itself. When power leads man towards arrogance, poetry reminds him of his limitations. When power narrows the areas of man’s concern, poetry reminds him of the richness and diversity of his existence. When power corrupts, poetry cleanses. For art establishes the basic human truth which must serve as the touchstone of our judgment.
The artist, however faithful to his personal vision of reality, becomes the last champion of the individual mind and sensibility against an intrusive society and an officious state. The great artist is thus a solitary figure. (…)
If sometimes our great artists have been the most critical of our society, it is because their sensitivity and their concern for justice, which must motivate any true artist, makes him aware that our Nation fails short of its highest potential. I see little of more importance to the future of our country and our civilization than full recognition of the place of the artist. (…) 
Artists are not engineers of the soul. It may be different elsewhere. But democratic society–in it, the highest duty of the writer, the composer, the artist is to remain true to himself and to let the chips fall where they may. In serving his vision of the truth, the artist best serves his nation.
If art is to nourish the roots of our culture, society must set the artist free to follow his vision wherever it takes him. We must never forget that art is not a form of propaganda; it is a form of truth. (…)
I look forward to an America which will not be afraid of grace and beauty, which will protect the beauty of our natural environment, which will preserve the great old American houses and squares and parks of our national past, and which will build handsome and balanced cities for our future.
I look forward to an America which will reward achievement in the arts as we reward achievement in business or statecraft. I look forward to an America which will steadily raise the standards of artistic accomplishment and which will steadily enlarge cultural opportunities for all of our citizens.  (…) And I look forward to a world which will be safe not only for democracy and diversity but also for personal distinction.

Este ano, outro poeta-escritor, que tem procurado devolver à vida o Belo, foi galardoado com o Grande Prémio de Literatura da Associação Portuguesa de Escritores – o P.Tolentino Mendonça. Encarando de frente os horrores vividos por muitos e as situações pardacentas em que outros tantos se sentem atolados, o poeta esclarece ao que vem, quando escreve: «O dever humilde de um escritor é também testemunhar a beleza possível, hipotética, latente e arrepiante que é nossa companheira de todos os dias, mesmo quando nos parece que, historicamente, estamos afundados na lama, no conflito e nos bloqueios históricos. (…) É muito necessário fazer o gesto de levantar os olhos daquilo que nos parece o confuso da materialidade dos próprios acontecimentos, dos factos brutos da nossa pequena história e procurar outros pontos de vista, uma grandeza que, muitas vezes, se oculta no fragmento, no insignificante, naquilo que aparentemente não tem qualquer valor».

É reconfortante constatar que vão sempre reaparecendo artistas empenhados em desencantar beleza, até mesmo dos factos brutos da nossa pequena história. Para o provar, nada melhor do que a voz quente e brilhante de Prince (inesquecível), dedicada – claro – à Most beautiful girl in the world(1), onde aposto que cabe toda a população feminina do planeta:


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
__________________________
(1)  A letra de “The Most Beautiful Girl In The World”:
Parte inferior do formulário
[Verse 1]
Could you be the most beautiful girl in the world?
It's plain to see you're the reason that God made a girl
When the day turns into the last day of all time
I can say I hope you are in these arms of mine
And when the night falls before that day I will cry
I will cry tears of joy cuz after you all one can do is die, oh

[Chorus]
Could you be the most beautiful girl in the world?
Could you be?
It's plain to see you're the reason that God made a girl
Oh, yes you are

[Verse 2]
How can I get through days when I can't get through hours?
I can try but when I do I see you and I'm devoured, oh yes
Who'd allow, who'd allow a face to be soft as a flower? Oh
I could bow (bow down) and feel proud in the light of this power
Oh yes, oh

[Chorus]

[Verse 3]
And if the stars ever fell one by one from the sky
I know Mars could not be, uh, too far behind
Cuz baby, this kind of beauty has got no reason to ever be shy
Cuz honey, this kind of beauty is the kind that comes from inside

[Chorus]
Could you be (could you be) the most beautiful girl in the world?
So beautiful, beautiful
It's plain to see (plain to see) you're the reason that God made a girl

[Outro]
Oh yeah! (Oh, yes you are)
Girl (Could you be?)
You must be ... oh yeah!
(Could U be?)
You're the reason... oh yeah
(Could) [x3]

domingo, 15 de maio de 2016

Solenidade de Pentecostes

EVANGELHO – Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

sábado, 14 de maio de 2016

Pensamentos Impensados

Preces
A oração preferida dos políticos é o Acto de Contradição.

Mostarda ao nariz
A Polícia, quando zangada, lança gases lacrimaugénio.

Medidas
Hei-de chegar-lhe aos calcanhares nem que tenha de descer por ela abaixo.

Sigue-nos
Gostava de ter morrido virgem mas nasceu Caranguejo.

Linguajares
O historiador diz aqui há atrasado
O meteorologista diz aqui há adiantado.

Conversa com um cego
Os  altos e baixos e as pedras soltas nos passeios de Lisboa são uma espécie de escrita Braille para ser lida com os pés.

Redes
Vírus torna-se microbial.

Coceiras
Quando nos coçamos é sinal de comichão executiva.

SdB (I)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O Fado, canção de vencidos

Orfãzita

Ficara triste a orfãzita
Triste sete anos de vida
Tão airosa e tão bonita
Toda de luto vestida

Mas disse-lhe um dia o pai
Vives aqui tão sózinha
E o teu paizinho vai
Dar-te uma outra mãezinha

Outra mãe não pode ser
Nós temos uma só mãe
Morreu e se outra vier
Eu quero morrer também

Um dia, a outra chegou
Toda a gente em festa linda
Só a pequena chorou
Sózinha, mais orfã ainda

E triste, devagarinho
Sem dizer nada a ninguém
Foi procurar um cantinho
Na sepultura da mãe

Letra de Francisco Radamanto

***

Paizinho (ou Não batas na mãezinha)

Certa noite desditosa
No meu lar abençoado
Esta cena se passou;
Zanguei-me com minha esposa
E no momento irado
Bati-lhe, e ela chorou

Nesse momento, e por fim
Depois de tudo acabar
Entre lágrimas e ais
Alguém se abraçou a mim
E me pediu, a chorar
Paizinho não batas mais

Tive tanta piedade
Quando o ouvi dizer também
Olha que se ouve na rua
Paizinho, por caridade
Não batas na minha mãe
Tem pena, recorda a tua

Minha mãe, tanto me encanta
Foi ela que me criou /
Diz chorando, a criancinha
Não batas naquela santa
Que tantas vezes tirou
Da boca dela p´ra minha

Dôr igual nunca senti
Quando vi na criancinha
Tão nobre sentir aquele
Com mil beijos prometi
Não bater mais na mãezinha
Chorando abraçado a ele

Letra de António Fonseca

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Textos dos dias que correm

O destino

Ainda que um homem misture a cal, é sempre Deus o construtor. O destino mistura as cartas, mas somos nós a jogá-las.

Juntámos duas frases distantes entre elas quase três milénios, mas tematicamente complementares. A primeira provém da antiga cultura egípcia: trata-se de um dito da Sabedoria de Amen-em-ope, escrito do século IX-VIII a.C., que deixou um importante traço também na Bíblia (no livro dos Provérbios 22,17 - 24,22). A segunda citação está presente nos Aforismos da Sabedoria do Viver, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860).

São duas as perspetivas com que se examina o destino ou, para o crente, a Providência. De um lado, exalta-se a eficácia da ação humana, com a sua liberdade; do outro, reconhece-se que existe qualquer coisa, ou Alguém, que nos ultrapassa e que intervém no projeto da história humana.

Esta duplicidade deve conservar-se, segundo um equilíbrio que não é nem garantido nem simples. É preciso continuar a misturar a cal necessária para a construção do edifício da nossa existência, trabalhando com empenho e responsabilidade.

Mas deve ter-se também a consciência de que não somos os únicos árbitros do resultado: não só porque nos apoia a graça divina, mas também porque há um mistério no projeto global do ser e da história.

Temos, portanto, nas mãos cartas que não valem uma sequência lógica e definida, mas somos nós que as devemos jogar com inteligência e habilidade para que obtenham um resultado positivo.

Os extremos da resignação desencorajada, convencida de que os jogos já estão todos decididos, e da eficácia orgulhosa, certa de que tudo depende de nós, devem por isso ser evitados. A vida é dom e compromisso, é surpresa e certeza, é aceitação e reação ao mesmo tempo.


P. [Card.] Gianfranco Ravasi
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado aqui em 10.05.2016

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Da sorte das escolhas



Sobre alguém que nos é conhecido se disse: foi inteligente nas escolhas que fez. Pensei na frase e na possibilidade do raciocínio se poder aplicar a mim. Para o efeito, o adjectivo inteligente é irrelevante - a frase poderia incluir burro que eu me debruçaria sobre ela na mesma. O que me interessava era meditar sobre o tema as minhas escolhas

Definamos três colunas principais sobre as quais assenta uma vida corriqueira: as relações conjugais, as relações sociais e as relações profissionais. Portanto, cônjuges, amigos, emprego. Há mais colunas? Sim, seguramente, mas, olhando para dentro de mim, são estas as colunas que me suportaram e / ou que me formaram enquanto pessoa. Podia falar na fé, na espiritualidade, mas não se enquadra naquilo que são opções que podem fazer-se. Olho então para as três colunas e o que vejo? Vejo que não fiz escolhas, o destino (ou Deus, já agora) escolheu-me tudo.

Uma relação afectiva, que pode determinar uma vida inteira ou um pedaço importante de vida, pode estar dependente de um olhar dirigido ao acaso num instante específico numa sala cheia de gente; pode depender de um convite para jantar onde está alguém, ou de um amigo que nos fala de alguém. Uma vida profissional pode começar numa centena de curriculuns que se enviam com a esperança alimentada de uma mão pouco cheia de respostas. Por último, um amigo pode surgir da improbabilidade de um encontro, de um sofá partilhado num evento social ou da curiosidade interessada que nos toca e nos abre à revelação.

Não escolhi quem fez parte da minha vida sentimental: alimentei, com tudo o que sou e sei, um acaso encantador e fortuito, nada dependente de uma escolha racional. Não escolhi os meus amigos: acolhi os que se aproximaram, manifestei gosto em eu próprio ser acolhido; os três ou quatro mais importantes não são fruto de escolhas deliberadas. Por último, não elegi deliberadamente a multinacional onde trabalhei 20 anos e que fez de mim o profissional que sou. De 100 CVs mandados, foi aquela empresa que me respondeu.

Um amigo com quem partilhei esta dúvida, e a quem disse que não tinha mérito nenhum das escolhas - ou seja, no início do caminho - mas apenas na arte com que o prosseguia, respondeu-me:  de  facto o mais importante é o que fazemos com aquilo que nos acontece, e não tanto o como ou o porquê das coisas acontecerem. Muitas vezes, tal como tu, fico a pensar se as causas das coisas não são meros acasos, casos fortuitos, bambúrrios de sorte ou má mão de azar... na minha vida "foi por um triz"... 
     
Olho para a minha vida. Não fui inteligente nas escolhas que fiz, mas também não fui burro. Nas coisas mais importantes, tenho de reconhecer, tive sorte. O mérito, a haver, está apenas na inteligência com que segui a estrada que o destino (ou Deus, já agora) me ofereceu.

JdB


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