sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Da humanização dos animais

Por motivos de força canina, passei ontem uma parte da manhã sentado num veterinário. Uma vez que a visita era de rotina, entretive-me sossegadamente a observar as pessoas que circulavam pelo consultório. Se tomarmos alguma atenção, há ali um microcosmos interessante, talvez porque 98% das pessoas leva cães. Não vi ninguém com uma tartaruga, um pinguim ou um melro. Cães, quase exclusivamente cães. Duas histórias:

Entrou um cavalheiro com um cão - talvez rafeiro - pela trela. Sentou-se sossegadamente. Dois minutos depois entrou uma senhora com dois cães - talvez rafeiros - pela trela, e percebi que havia um qualquer relacionamento entre ambos os humanos, pormenor que não interessa para a história. A senhora volta-se para um dos cães - que por acaso era uma cadela - e diz-lhe: então, princezinha, o que é que eu já te disse lá fora? Tens de te portar bem... Então, minha flor, estás com ciúmes, é?  

Entra uma senhora com um cão de uma raça que não sei identificar, mas que gera cães que, mesmo em adultos, são muito pequenos, muito vivazes, muito nervosos, muto suceptíveis de laçorotes. Volta-se para um cavalheiro que levava pela trela um labrador e pergunta-lhe: que idade tem o cachorro? Três meses? Eu tenho um irmão que também tem um labrador, mas já com seis anos... (Pausa nostálgica) São tão bonitos... Enfim, cada cão tem a sua beleza. Depois olha para a cadelinha e diz-lhe: já viu ali um cão igual ao seu primo? Pega nela ao colo, dá uma explicação à veterinária quanto às dores do animal e, fitando-a bem nos olhos (à cadelinha, não à veterinária), diz-lhe com um ar ternurento: agora a mãe vai-se embora, que a mãe tem de trabalhar... 

Se um dia não tiverem nada para fazer vão a um veterinário. Pode ser óptimo ou péssimo, tudo dependendo do que quisermos ver na raça humana.

JdB

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Textos dos dias que correm

Férias: Dieta da alma para o encontro com Deus, consigo e com quem está esquecido

Logo na primeira página da Bíblia, também Deus, após ter trabalhado seis dias a erigir essa grandiosa arquitetura que é o universo, descansou (cf. Génesis 2, 1-4). Surgia, assim, esse “repouso” que na tradição judaica e cristã teve a sua expressão no sábado/domingo e que foi codificado no terceiro mandamento do Decálogo, a magna carta da moral.

O descanso, porém, não é uma espécie de página em branco a preencher com o mesmo frenesim do resto do ano (o Algarve ou a Caparica de verão serão diferentes de uma convulsa Lisboa ou Porto de um qualquer dia de semana fora das férias?). As imagens que se depositam sobre essa página são conhecidas: uma lenta coluna de automóveis e de mãos indignadas ao volante, as visitas turísticas esgotantes oscilando entre museus e praças, o “fast food” para engolir uma sandes ou uma bebida e o dedo sempre no telemóvel a deslizar e a digitar…

“Descanso”, todavia, também não é inércia vazia (a preguiça é um dos sete vícios capitais) (…). Por isso, porque não fazer uma pausa durante uma viagem diante de uma paisagem, estar mais demoradamente à frente de uma tela de um museu ou no silêncio gótico de uma catedral, seguir a trama de um livro, sentar-se debaixo de uma árvore como Newton ou imergir numa banheira como Arquimedes a refletir, ou no terraço a observar as estrelas como os magos, escutar uma música ou mesmo o silêncio?

A este último propósito, o escritor Alberto Moravia, que não era decerto um diretor espiritual, propunha no verão de 1964 aos seus leitores este conselho: «Para reencontrar uma verdadeira fonte de energia, é preciso redescobrir o gosto da meditação. A contemplação é o dique que faz subir a água na bacia e permite aos homens acumular de novo a energia interior que o ativismo lhe privou». Nesse silêncio, que elimina o excesso de decibéis, da gritaria, da tagarelice, pode praticar-se uma espécie de dieta da alma, que volta a ser capaz de rezar.

A pessoa consegue, então, olhar para o fundo da consciência, onde talvez se aninhem algumas víboras. No silêncio a leitura de um livro pode despertar o sono da razão, e se se trata do livro por excelência, a Bíblia, transforma-se também em «lâmpada para os passos no caminho» de vida.

Neste horizonte pode igualmente insinuar-se a presença implícita de um familiar ou de um conhecido idoso, doente, estrangeiro, isolado no calor sufocante de um condomínio, sem ninguém que se recorde dele, com o seu intercomunicador sempre mudo. Jesus diria hoje que um telefonema ou uma visita feita a esse irmão solitário seria como se fosse destinada a Ele mesmo: «Tudo aquilo que fizerdes a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mateus 25, 40).


Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana
Trad. / edição: Rui Jorge Martins 
Publicado em 28.08.2018

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Vai um gin do Peter’s?

Miguel Esteves Cardoso (MEC) dedicou um dos seus artigos(1) divertidos à bizarra toponímia nacional, com demasiada falta de sentido estético, a institucionalizar expressões castiças e exageradas, que algum maduro, um dia, usou para destrinçar determinado lugar: Venda-das-Raparigas (na acepção, de mercado de mulheres comerciantes), Fogueteiro, Alguidar-de-Baixo, Vale de Esfaquinhas, A-dos-Loucos, A-da-Gorda, Casal da Coxa são exemplos de nomes infelizes para nomear sítios. Recomendava o MEC, que rectificássemos os casos mais desengraçados, antes de nos abalançarmos a integrar o clube de Bruxelas, em 1986… Como pouco ou nada foi feito, neste capítulo, a crónica mantém actualidade e humor, convidando-nos a uma visita-relâmpago a uma faceta recôndita e provinciana de um país quase milenar. Para tornar a situação mais caricata, MEC aborda a questão sob o ponto de vista pessoal, discorrendo sobre o trauma da morada: 


«DIZ-ME ONDE MORAS
Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada. Por exemplo, há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios, comprou um andar em Carnaxide. Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável, tem árvores e cafés. Só tinha um problema. Era em Carnaxide. Nunca mais ninguém o viu. Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia!

Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e Moscavide. Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide. Um palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que umas águas-furtadas em Cascais. É a injustiça do endereço.

Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por curiosidade, onde é que vivemos. O tamanho e a arquitectura da casa não interessam. Mas morre imediatamente quem disser que mora em Massamá, Brandoa, Cumeada, Agualva-Cacém, Abuxarda, Alfornelos, Murtosa, Angeja, ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola. Para não falar na Cova da Piedade, na Coina, no Fogueteiro e na Cruz de Pau. […]

Ao ler os nomes de alguns sítios - Penedo, Magoito, Porrais, Venda das Raparigas, compreende-se porque é que Portugal não está preparado para entrar na Europa.

De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa o Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?

Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses.

Imagine-se o impacto de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar.

Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a menina de onde é?", e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).  E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde mora, presentemente?", só para ouvir dizer que a senhora habita na Herdade da Chouriça (Estremoz).

É terrível. O que não será o choque psicológico da criança que acorda, logo depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade de Vergão Fundeiro? Vergão Fundeiro, que fica no concelho de Proença-a-Nova, parece o nome de uma versão transmontana do Garganta Funda. […]

É evidente, na nossa cultura, que existe o trauma da "terra". Ninguém é do Porto ou de Lisboa. Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer mentir.

Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela indicação de naturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do Bairro).

É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza a amigos estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink and Go Away..."). Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como sendo originário de Filha Boa. Verá que não é bem atendido. [...] Não há limites… Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros. Há que dar-lhes nomes civilizados e europeus, ou então parecidos com os nomes dos restaurantes giraços, tipo : Não Sei, A Mousse é Caseira, Vai Mais um Rissol. […]

Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do Bogadouro (Amarante), depois de ter parado para fazer um chichi em Alçaperna (Lousã).»

Miguel Esteves Cardoso

 
Claro que um país antigo como o nosso também tem topónimos bonitos, marcados por uma história multi-secular, como Alcácer, Avis, Belver, Alcoutim, Lagos, Évora, Elvas, Montemor, Golegã, Ourém, Tomar, Belmonte, Porto, Santar, Guimarães, Ponte de Lima, Rio de Onor, Arcos de Valdevez, etc. já sem falar da maioria dos que adoptam nomes de santos – São Martinho, os incontáveis S.Pedro de … e S.João de… Uns ajudam a contrabalançar os outros.


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) Não consegui saber a data nem se foi publicado no «EXPRESSO»  ou no jornal «PÚBLICO».

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Textos dos dias que correm

O Belíssimo Sonho do Preguiçoso Português

Quem se importa porém com isso? Trabalhar o menos possível sob a tutela do Estado que lhe garanta o suficiente à vida —, eis o sonho, o belíssimo sonho do preguiçoso português!
Do preguiçoso português, não digo bem, do preguiçoso latino; porque em todos os países desta família se estão notando, em flagrante oposição aos anglo-saxónios, as mesmas tendências as quais, no que particularmente respeita à França, não há muito vi afirmadas num livro dum escritor daquela nacionalidade que vós talvez conheçais — Gustave Le Bon.
Eu quero admitir, meus senhores, que sobre nós influi o clima, a raça, as tradições, o passado, em tanto quanto a geografia e a história podem influir no carácter dum povo. Não podemos então transformar-nos completamente, e utópico mesmo me parece o desejo dum dos homens a quem o ensino secundário em França mais deve, Demolins, expresso na sua obra sobre as causas da superioridade anglo-saxónica: — inglesa, se assim me posso exprimir, as sociedades latinas.
Mas sem essa conversão completa, sem mudarmos mesmo grande parte das nossas ideias, sem irmos de encontro a algumas das nossas tendências, e pormos de lado alguns dos nossos sentimentos, nós podíamos, parece-me a mim, melhorar extraordinariamente a nossa condição.
Para isto porém, grande reforma deve ser feita em tudo. Mas nós somos o país das reformas e estamos cada vez pior! É certo, e não admiramos isso, se considerarmos que a reforma de hoje é essencialmente pior que a que vigorava ontem.
Tudo se tem reformado, menos aquilo que na realidade o devia ser primeiro — os homens.

António de Oliveira Salazar, in 'Imprensa (1909)'

***

O Chicote e a Preguiça

Há loucuras matemáticas e loucos que pensam que dois e dois são três? Noutros termos, - a alucinação pode, se estas palavras não uivam [serem acasaladas juntas], invadir as coisas de puro raciocínio? Se, quando um homem adquire o hábito da preguiça, do devaneio, da mandriice, ao ponto de deixar incessantemente para o dia seguinte as coisas importantes, um outro homem o acorda uma manhã com grandes chicotadas e o chicoteia sem piedade até que, não podendo trabalhar por prazer, trabalha por medo, este homem - o chicoteador -, não seria realmente amigo dele, seu benfeitor? Aliás, pode afirmar-se que o prazer chegaria depois, com muito mais justo título do que se diz: o amor chega depois do casamento.
Do mesmo modo, em política, o verdadeiro santo é aquele que chicoteia e mata o povo, para bem do povo.

Charles Baudelaire, in "Diário Íntimo"

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A África vista por DaLheGas *

Queres o quê? Ir embora. Para onde? Para casa. Mas aqui é a nossa casa Gui. E a outra nossa casa pai? Ficou lá Gui, ficou lá. Então podemos ir no avião pai. Ficou tudo lá Gui.

Emília Tomásia, orgulhosamente cabo-verdiana, dava colo e costas na hora de varrer ou de correr entre as casas e cubatas do Alto Catumbela, um lugarejo erguido para os trabalhadores da Celulose, onde o rio Catumbela tinha duas pontes; a de betão e a de madeira - pedestre, com frestas tão largas que era borra uma criança atravessar. Lá em baixo, na correnteza brava do rio, os jacarés viviam atentos, e a Emília contou que eles imitavam o choro de miúdos, só para apanhar gente.
Tínhamos um clube que exigia cartão de sócio com fotografia, uma grande piscina pública, um recinto para farras memoráveis, a Cooperativa, mercado exclusivo dos colonos, e um colégio. Património respeitável, constituía as Casas 1 e 2, com belos relvados e arbustos, que instalavam os Administradores da fábrica. De resto, pouco mais figurava naquele lugarejo no meio do mato, fundado há umas décadas por brancos da Pátria, além dos hectares e hectares de eucaliptal onde o meu pai passava os dias.
Depois, veio Benguela, cidade maravilhosa. Carros, machimbombos, bicicletas, flores nunca vistas, cachos de dém-dém, gente, mar e ondas, tudo pertences da Praia Morena e do prédio onde calhámos. Coqueiros, acácias, areia, água... e de novo à areia, quente, quente até ao pescoço. Às vezes, todos se estendiam no alcatrão, brancos e pretos, como gatos ao sol. Benguela era os rapazolas das mini-hondas, a bomba de gasolina com uma onça a fazer vezes de cão e a esplanada do Tan-Tan, onde meu pai me esperava no fim das aulas a beber cucas. Na grande escola dos Professores do Posto leccionava minha mãe e lá em casa toda essa classe de pessoas se sentava à mesa de jantar, sacava papéis das malas e ficavam a falar até de madrugada. As coboiadas do Trinitá Insolente, em Benguela, aconteciam debaixo das estrelas, acompanhadas de vozes suplicantes: "cuidaaaado meu, ele vai-te matar!". Cinema Calunga, viagens para lá de minimoke, sempre em pé, cantando hinos promissores e emocionados: "sob a bandeiraaaa do MPLAAA, nós faremos a revoluçãããão". Mas domingos, era missa certa na catedral, reencontrando um ror de gente que sempre combinava grandes convívios, incluindo o Senhor Padre, até a guerra rebentar e parar com toda a dança daquela vida.
Foi-se a cor, o calor, o riso e até o olho vivo da nossa Emília Tomásia, que numa choradeira sem fim embarcou num navio com destino a Cabo Verde, ainda antes de passarmos duas noites num aeroporto cheio de famílias pelo chão que também esperavam um lugar no Jumbo rumo ao desconhecido.

Pai, aqui é frio e as pessoas estão escuras. É outro clima Gui. Lá em Benguela pai, é mais bonito. Mas é aqui que estamos agora Gui. Qualquer dia vamos voltar pai. Talvez Gui.

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* publicado originalmente em 10.09.2008. Republicado agora, porque hoje, mas há 10 anos, estava por África. 

domingo, 26 de agosto de 2018

21º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,60-69

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram:
«Estas palavras são duras.
Quem pode escutá-las?»
Jesus, conhecendo interiormente
que os discípulos murmuravam por causa disso,
perguntou-lhes:
«Isto escandaliza-vos?
E se virdes o Filho do homem
subir para onde estava anteriormente?
O espírito é que dá vida,
a carne não serve de nada.
As palavras que Eu vos disse são espírito e vida.
Mas, entre vós, há alguns que não acreditam».
Na verdade, Jesus bem sabia, desde o início,
quais eram os que não acreditavam
e quem era aquele que O havia de entregar.
E acrescentou:
«Por isso é que vos disse:
Ninguém pode vir a Mim,
se não lhe for concedido por meu Pai».
A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se
e já não andavam com Ele.
Jesus disse aos Doze:
«Também vós quereis ir embora?»
Respondeu-Lhe Simão Pedro:
«Para quem iremos, Senhor?
Tu tens palavras de vida eterna.
Nós acreditamos
e sabemos que Tu és o Santo de Deus».

sábado, 25 de agosto de 2018

Pensamentos Impensados

Decibelas
Tudo leva a crer que a SIC vai fazer um programa para surdos pois já lá tem a Júlia Pinheiro aos
gritos e agora vai ter a Cristina Ferreira aos berros.

É um desatino
Tino de Rans é um grande pensador; até pensou em concorrer contra Marcelo.

Como Pilatos
Uma vez, em Nova Iorque, apertei a mão a Donald Trump, mas posso garantir que a seguir fui lavar as mãos.

Chapéus há muitos
Há  uma chapelaria especializada em chapéus com mangas para maridos enganados.

Diabólico
O Diabo, se tem chifres, é porque foi casado. Como se chamaria a mulher?

Respirações
Muito se tem falado da inspiração de Chopin; já da expiração nada consta.

Cozinhados
Fazer correr muita tinta será espremer chocos?

SdB (I)

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Pensamentos dos dias que correm

A Idade não nos Torna mais Sábios

As pessoas imaginam que precisamos de chegar a velhos para ficarmos sábios, mas, na verdade, à medida que os anos avançam, é difícil mantermo-nos tão sábios como éramos. De facto, o homem torna-se um ser distinto em diferentes etapas da vida. Mas ele não pode dizer que se tornou melhor, e, em alguns aspectos, é igualmente provável que ele esteja certo aos vinte ou aos sessenta. Vemos o mundo de um modo a partir da planície, de outro a partir do topo de uma escarpa, e de outro ainda dos flancos de uma cordilheira. De alguns desses pontos podemos ver uma porção maior do mundo que de outros, mas isso é tudo. Não se pode dizer que vemos de modo mais verdadeiro de um desses pontos que dos restantes.

Johann Wolfgang von Goethe, in "Conversações com Johann Peter Eckermann"

***

Ignorância Sábia

Aconteceu aos verdadeiros sábios o que se verifica com as espigas de trigo, que se erguem orgulhosamente enquanto vazias e, quando se enchem e amadurece o grão, se inclinam e dobram humildemente. Assim esses homens, depois de tudo terem experimentado, sondado e nada haverem encontrado nesse amontoado considerável de coisas tão diversas, renunciaram à sua presunção e reconheceram a sua insignificância. (...) Quando perguntaram ao homem mais sábio que já existiu o que ele sabia, ele respondeu que a única coisa que sabia era que nada sabia. A sua resposta confirma o que se diz, ou seja, que a mais vasta parcela do que sabemos é menor que a mais diminuta parcela do que ignoramos. Em outras palavras, aquilo que pensamos saber é parte — e parte ínfima — da nossa ignorância.

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Pensamento Impensado

Animalescos
Os animais abandonados são abandonados por animais.

SdB (I)

Duas Últimas

Soube, através de um artigo no Observador, da história do Hey Jude, uma das músicas mais famosas dos Beatles mas que, nem por isso, é uma das minhas preferidas. Não obstante, gostei de ler o artigo, porque acho sempre interessante saber porque e como nascem músicas ou letras, perceber que não é uma simples obra do acaso, mas que há uma motivação qualquer, mesmo que não seja Jude, mas Julian...

Deixo-vos com várias versões de Hey Jude, inclusivé a entoada pelos fãs do Manchester City. Uma música, a original, que fez 50 anos de idade...

JdB



quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Imagem e poema dos dias que correm

Mélancolie (Albert György) *
* dada a conhecer por mão amiga. Na internet, de onde tirei a imagem, está escrito o seguinte: "Eis honestamente a condição do homem sem Deus. Bom é quando nos rendemos e descobrimos que só Deus é grande o suficiente para preencher o vazio que há em nós. De nossas próprias forças nada podemos."

***

Ignoto Deo

Desisti de saber qual é o Teu nome, 
Se tens ou não tens nome que Te demos, 
Ou que rosto é que toma, se algum tome, 
Teu sopro tão além de quanto vemos. 

Desisti de Te amar, por mais que a fome 
Do Teu amor nos seja o mais que temos, 
E empenhei-me em domar, nem que os não dome, 
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos. 

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano 
Que por demais tresanda a gosto humano! 
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim, 

Desisti de Te achar no quer que seja, 
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja... 
– Tu é que não desistirás de mim! 

José Régio, in 'Biografia' 

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Duas Últimas

Estamos na silly season embora, de alguma forma, em Portugal a vida seja sempre um pouco tonta. Agora, ou noutros tempos menos silly, cumpro rotinas de leitura dos jornais digitais - notícias, grandes títulos, artigos de opinião. Depois, porque tenho de me divertir, num ou noutro caso vou ver os comentários, que nunca deixam de me impressionar. Não porque haja quem queira acrescentar um detalhe ou uma informação, mas porque a grande maioria dos comentaristas quer derramar a sua bílis no espaço público: insultos, ordinarices, graçolas de oportunidade. Vão ver e ouvir, que vale a pena - uma gente tragicómica, num país não muito diferente.

Deixo-vos com Nina Simone, para combater a ralé e a rasteirice das educações.

JdB 

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Textos dos dias que correm

Comandar e obedecer

«Sabereis comandar quando tiverdes aprendido a obedecer.» «Quanto mais alto um homem sobe, de mais alto cairá.» Um leitor pede-me para comentar estas duas citações clássicas.

A primeira é uma máxima atribuída a Sólon, legislador ateniense e um dos “sete sábios” da antiga Grécia. A ideia será muitas vezes repetida: Platão, nas suas “Leis”, advertia que «quem não serviu, não pode tornar-se chefe digno de louvor».

Há, portanto, um aprendizado no saber guiar os outros: na família, no trabalho, na sociedade. E esse tirocínio não está no mandar, mas no servir e obedecer. Só assim nos formamos e estamos preparados para sermos capazes de suportar as dificuldades.

Só se estivermos em baixo é que conseguimos, uma vez no alto, compreender quanto é penoso o serviço diário, humilde e simples.

Por esta via chegamos à segunda frase, que na sua substância se refere a muitos autores clássicos e cristãos: a fórmula mais próxima é de S. Pedro Crisólogo, bispo de Ravena do século V.

O aviso toca, antes de mais, os poderosos que, muitas vezes do altar, são lançados para o pó, mas vale um pouco para todos e é um saudável antídoto para a ilusão do orgulho. Um antigo moto dizia: «Quanto mais alto é o monte, mais profundo é o vale».

A vida reserva surpresas a cada instante, e não raro desagradáveis. Por isso é preciso estarmos conscientes de que a glória e o sucesso são «como uma sombra que passa, como um navio que vai cortando as ondas agitadas, sem deixar rasto da sua passagem nem vestígio da sua quilha nas ondas» (Sabedoria 5, 9-10).


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 18.08.2018

domingo, 19 de agosto de 2018

20º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar é minha carne,
que Eu darei pela vida do mundo».
Os judeus discutiam entre si:
«Como pode ele dar-nos a sua carne a comer?»
E Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a carne do Filho do homem
e não beberdes o seu sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha carne é verdadeira comida
e o meu sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em Mim e eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou
e eu vivo pelo Pai,
também aquele que Me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram:
quem comer deste pão viverá eternamente».

sábado, 18 de agosto de 2018

Pensamentos Impensados

Mezinhas
SORO MARIANA ALCOFORADO, à venda nos melhores conventos.

Guerra é guerra
Trump ameaçou a Europa e eu ameaço Trump: vou à Casa Branca e corto-lhe a gravata encarnada que lhe chega aos joelhos, fecho-lhe as pernas quando está sentado, aperto-lhe o casaco quando está de pé e pinto-lhe o cabelo cor de burro quando foge.

Marcelices
Marcelo, devido  ao seu cargo, já não pode dar pareceres; agora dá palpites e bitaites.

Crendices
Sigo o campeonato de atletismo e vejo que os atletas não se benzem; será que não são supersticiosos
como os toureiros?

Testes
PARECE-TE MOLE - droga destinada a avaliar a textura do queijo da serra.

Afectos
Quem diz o meu melhor amigo será que também tem o pior amigo?

SdB (I)

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Poemas dos dias que correm

Utopia
 
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
   Lança o teu
      Desafio

Homem que olhas nos olhos
Que não negas
O sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
O nada disto custa
Será que existe
Lá para as margens do oriente
   Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
         Na minha rota?

Zeca Afonso, in 'Textos e Canções'

***

Verdade e Mentira

Neste livro do mundo
      Quase perfeito
Preto e branco irmanados
      De igual jeito
Quem não foi a tribunal
      Quem teve mão
      Nos juizes da Santa Inquisição?

Em menino te ensinaram
Mentiras que a morte leva
Para outra morte bem longe
De pensares que outra contrária
Com a tua se aglomera
Neste livro de concórdia
Só tem guarida o Infinito
Por Giordano Bruno amado
Como se fora seu filho
Acima da besta fera
Que na fogueira o lançava
Aquela verdade brilha
A morte à morte diziam
Os que não adivinhavam
Que era verdade a mentira
Até o Mar se acomoda
E paciente requebra
Enquanto gritas à toa
A tua verdade cega
Conta as areias da praia
O grande mago do mundo?
      Só não mente quem não sente
      Que o mistério não tem fundo

Zeca Afonso, in 'Textos e Canções'

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Vai um gin do Peter’s?

ARTISTA DE 4 ANOS PINTA UM COSMOS EM FESTA

Parecendo inspirar-se, literalmente, na abóboda celeste, antevemos nas telas de Advait Kolarkar um festival de estrelas dançantes e cometas coloridos. Como se tivesse absorvido o manancial portentoso de imagens da Nasa, ora a apontar para o céu, ora para o nosso magnífico Planeta Azul:



Nascido na Índia profunda (Puno), aos oito meses já se entretinha a manusear as aguarelas da irmã mais velha, horas a fio, sentado no chão. Apesar das suas figurações abstratas, mostrava uma destreza de traço e uma combinação de cores impressionantes. Os pais não duvidaram que havia ali uma centelha especial. Para ajudar à sua formação e abrir as portas a uma carreira internacional, a família mudou-se para o Canadá, tinha o mini-pintor dois anos. Quando desembarcou em Saint John, a fama de que gozava, facilitou a radicação na nova pátria –  terra de oportunidades, como todo o hemisfério Norte do Novo Mundo, para quem transborde de talentos. 



Tendo completado os quatro anos, em Janeiro de 2018, viveu novo êxito com as telas a atingirem o patamar dos dois mil euros. O seu currículo inclui exposições em galerias norte-americanas, canadianas e indianas, somando ainda o recorde do participante mais jovem no badalado certame ArtExpo, de Nova Iorque. Mesmo sem frequentar, ainda, a escola, é considerado e tratado como prodígio. 

Um génio precoce, com a simplicidade e as explosões de alegria de
qualquer criança da sua tenra idade

No início de 2018, coincidindo com o dia dos anos, Advait inaugurou uma exposição, a solo, em Saint John. Chamou-lhe «Colour Blizzard» e atraiu visitadores de todas as latitudes. Em dias, tinha quase tudo vendido. Explicava uma das fãs, que lhe comprou 5 quadros: «Quando olho para o seu trabalho, faz-me sentir feliz.» No estilo motivacional da América do Norte, a notícia sobre a criança-artista focou-se no calor humano que ressalta da harmonia fresca e vibrante das suas pinturas. Esqueçam os líderes carismáticos e os craques do negócio, porque é neste infante indiano que podem reaprender a seguir o coração: «Forget entrepreneurs, businessmen and leaders, this toddler can give you a lesson in following your heart!»



Uma combinação de cores especialmente invulgar, na primeira infância

A fortuna já acumulada por Advait K. servirá para financiar a sua educação, embora uma maquia contemple actividades caritativas, como as da Children’s Wish Foundation.

O fulgor policromático da obra do pequeno pintor emanam uma alegria e uma serenidade maravilhosas, ideal para desintoxicar o olhar, em tempo de férias. Aliás, o próprio céu – onde poderia inspirar-se infinitamente A. Kolarkar – promete um Agosto pejado de fenómenos cósmicos lindos, com afinidades com as telas daquele menino vindo do Oriente. A noite de Domingo ofereceu uma chuva de estrelas e a festa promete continuar.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)
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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Das desilusões das viagens

"Há há lugares que todos querem visitar e experiências que muitos querem ter por serem bastante populares. Mas as imagens podem enganar e nem tudo é tão maravilhoso como parece na internet e nas fotografias das agências de viagem.

https://viagens.sapo.pt/viajar/viajar-mundo/artigos/as-50-atracoes-turisticas-mais-superestimadas-do-mundo-vai-ficar-desiludido-quando-as-visitar

O site Reader's Digest fez uma lista com 50 atrações turísticas que podem ser uma verdadeira desilusão para quem visita. Muito longe da perfeição que aparentam, estes lugares podem ser sinónimo de grandes filas, multidões, preços elevados e exploração turística."

***

Encontrei o artigo acima na página da Sapo. Gostei de saber que a Reader's Digest ainda existe, não porque me interesse a sua existência, mas porque é um mistério decifrado. Não fazia ideia se ainda existiam, de que viviam, o que publicavam. Pelos vistos publicam listas de atracções "superestimadas" que é um nível muito acima das atracções "sobrestimadas".

Fui ver, tal como o Augusto Gil. Curiosamente, grande parte da "superestimação" está relacionada com as enchentes ou, talvez em menor número, com a relação custo benefício, factor que também deriva das multidões que estão em todo o lado.

Viajar, já o disse no estabelecimento, perdeu grande parte do encanto que tinha quando eu comecei a viajar, há 40 e poucos anos. De lá para cá fui conhecendo sítios que estão listados no link acima. Alguns visitei-os duas vezes, num ou noutro caso (por exemplo a Fontana di Trevi) talvez quatro. Concordo com tudo - os sítios continuam a ser bonitos, a geografia humana é que destruiu muita coisa. Há mais gente a viajar, a conhecer o mundo, outras culturas e realidades, mas o planeta não está melhor, antes pelo contrário. Mais vale viajar-se menos, digo eu. Os outros, é claro.

JdB  

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Crónicas de um dourando tardio *

Leio O Enigma da Chegada. O livro de Naipaul abre-nos uma perspectiva desafiante: a distância com que olhamos para um objecto, sendo que objecto tem um sentido muito lato: pode ser uma bicicleta, uma flor, uma fotografia, uma cara, uma casa, uma sequência de casas, um momento ou uma sequência de momentos. E o que é a vida, se não todos estes objectos elencados?

Se mantivermos um olhar demasiado próximo do objecto, detectamos facilmente a imperfeição do contorno de uma letra impressa ou a implausibilidade de uma paixão que nasce numa franja negligente da violinista. É o olhar que vê a inutilidade do incenso que se queima numa cerimónia religiosa, a soturnidade de um coro de Bach a cantar a paixão de Cristo, o amor paternal exercido com uma disciplina extemporânea. Um olhar excessivamente próximo detecta facilmente a pequena falha que desfeia. Fixa a árvore, talvez o arbusto, seguramente a erva daninha.

Por outro lado, um olhar demasiado afastado do mesmo objecto só vê um ponto contra a linha do horizonte. A dissonância da cor dos olhos de uma criança numa aguarela é um ponto no horizonte, o cheiro a sardinha no estalar do Verão é um ponto na linha do horizonte, uma vida dedicada ao próximo é um ponto no horizonte. Tudo se esbate, se perde num ambiente de ruído e distracção. A lonjura não permite ver o belo nem a sua inversa, permite apenas imaginar sem encanto.

É preciso encontrar o espaço certo para observar estes objectos de que falo. Pode ser um milímetro, um hectómetro – ou dez anos. Ou pode ser outra medida de comprimento ou de tempo que ainda não tenham sido inventadas pelo génio humano. É importante referir, no entanto, que esta distância milimétrica ou temporal pode ser fruto de um acaso, isto é, não há garantia que seja definida por critérios de decisão, do tipo o sítio onde se vê bem o Cristo-Rei é o Chapitô. Há quem se sente no Chapitô e só veja palhaços, há quem se sente no Catujal e vislumbre com nitidez o encanto dos braços abertos de Cristo.

O que era Naipaul no remanso verdejante do Wiltshire? Em que se tornara o Naipaul, jovem indiano da ilha de Trindade, que aos 18 anos parte para Inglaterra para estudar e, posteriormente, se tornar escritor? Era um emigrante, um exilado, um explorador, um peregrino? O que somos, cada um de nós, num país que nos é relativamente estranho, com pessoas que nos são estranhas, a querer ser aquilo que queremos ser desde o princípio: escritor, médico, desenhador de moda? O que nos diz cada uma destas profissões, ou outras que possamos abraçar, sobre o que é ou foi a nossa vida? Diz-nos o mesmo, mas de um modo diferente, apenas. O emigrante, o turista, o peregrino ou o exilado fazem tudo para se sentirem em casa: o festejo da passagem do ano pelo fuso português, a colocação de artesanato alegórico barcelense nas varandas dos países da emigração, os estabelecimentos da restauração com as bicas e os pastéis de nata; mas também o acto de ir pelos campos aprendendo com os pés, ou, olhando para a paisagem envolvente, vislumbrar a sua casa.

Assim como foi a medicina que fez o médico, foi o trabalho da escrita que fez Naipaul ser (ou voltar a ser) de Trindade. Se no Catujal se pode ver o Cristo-Rei, também no Wiltshire se pode ver a ilha de Trindade. Naipaul, como tantos outros retirados do seu espaço vital, quis voltar para casa. O tempo todo em que ele viveu em Inglaterra foi de preparação, de meditação e de construção sobre a sua própria narrativa. “Os homens precisam da História. Mas a História, como a santidade, pode residir no coração; basta que o coração não seja um lugar vazio.”

Ironicamente, talvez a História de Naipaul tenha nascido quando ele escreveu a palavra morte – a da irmã -  palavra essa que determinou o seu regresso a casa que, no caso vertente foi um regresso físico, mas podia não tê-lo sido.

“O nosso mundo sagrado – o sentido do sagrado que nos tinha sido transmitido, quando éramos pequenos, pelas nossas famílias, os locais sagrados da nossa infância, sagrados porque os tínhamos visto quando éramos crianças e lhes tínhamos atribuído qualidades maravilhosas, lugares que, para mim, eram dupla e triplamente sagrados porque, na longínqua Inglaterra, eu viva neles imaginariamente em muitos livros e, na minha fantasia, localizara nesses lugares o início de todas as coisas, construíra a partir deles uma fantasia de lar, embora viesse a saber que aquela terra fora encharcada de sangue, que, outrora, houvera indígenas que tinham sido mortos ou deixados morrer até à total extinção -, o nosso mundo sagrado desaparecera. (...)”.

O que significa o título O Enigma da Chegada? De que enigma falamos? O enigma não se deve ao facto de nunca partirmos, mas ao facto de nunca sabermos onde e quando é a chegada. Viajar é partir para ver a casa com a distância certa. Viajar é partir para longe à procura do regresso.

JdB

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* excerto de um trabalho escrito no âmbito do doutoramento, repescado por alturas da morte de V S Naipaul

domingo, 12 de agosto de 2018

19º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,41-51

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito:
«Eu sou o pão que desceu do Céu».
E diziam: «Não é ele Jesus, o filho de José?
Não conhecemos o seu pai e a sua mãe?
Como é que Ele diz agora: ‘Eu desci do Céu’?»
Jesus respondeu-lhes:
«Não murmureis entre vós.
Ninguém pode vir a Mim,
se o Pai, que Me enviou, não o trouxer;
e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.
Está escrito no livro dos Profetas:
‘Serão todos instruídos por Deus’.
Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino
vem a Mim.
Não porque alguém tenha visto o Pai;
só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai.
Em verdade, em verdade vos digo:
Quem acredita tem a vida eterna.
Eu sou o pão da vida.
No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram.
Mas este pão é o que desce do Céu
para que não morra quem dele comer.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne,
que Eu darei pela vida do mundo».

sábado, 11 de agosto de 2018

Pensamentos impensados

Atletismo
Se há provas de fundo e meio fundo por que não há provas de superficie?

Natureza
Entre os animais, o sexo é uma actividade em que parece não estarem de acordo: patadas, coices, marradas e, quiçá, xutos e pontapés.

Vice-versa
Lavar dinheiro será o mesmo que sujar dinheiro?

Seja bem aparecido
Marcelo é uma pessoa discreta; está de férias e não se nota, todos os dias aparece na TV

Velho acordo
Antigamente as farmácias tinha um pH muito bom.

Poetas
Muito gosto eu daquela poesia do homem de mel em que diz negra me deixa ao vento e na minha frente estava um cão danado.

Letras mudas
Não à especulação / não há especulação.

SdB (I)

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Pensamentos dos dias que correm

Não precisamos de ler, estudar ou conhecer ninguém, quando produzimos nós próprios. Pois não basta que produzamos nós próprios? E gostemos de nós próprios? Que nos pode dar o espírito alheio, quando sobre o próprio nosso desceu em línguas de fogo a sabedoria de tudo? Melhor: A verdade é que nem precisamos nós próprios de produzir (toda a produção é uma limitação), ou mal precisamos de produzir, para usufruirmos as vantagens do criador e produtor. (...) Aprende a contar uma anedota; duas anedotas; três anedotas; quatro anedotas... uma anedota diverte muita gente; quatro anedotas divertem muito mais... aprende a polvilhar de blague todas essas ideias sérias, pesadas, profundas, obscuras, - ao cabo simplesmente maçadoras - com que pretendes sufocar (...); aprende a cultivar aquele subtil espírito de futilidade que ligeiramente embriaga como um champanhe, e a toda a gente agrada, lisonjeia todos, por a todos nos dar a reconfortante impressão de pertencermos ao mesmo meio... estarmos ao mesmo nível; não queiras ser nem sobretudo sejas mais inteligente ou mais sensível, mais honesto ou mais sincero, mais trabalhador ou mais culto, mais profundo ou mais agudo... numa palavra: superior. Sim, homem! aprende a ser como os outros, dizendo bem ou mal de tudo e todos - conforme - sem os excederes nem te comprometeres demasiado; e deixa-me lá esses Proustes e esses Gides e esses Dostoievskis e esses Tolstois (vem aí o tempo em que todos esses jarrões serão levados para o sótão!), deixa-me essa estética e essa mística e essa metafísica e essa ética (já o tempo chegou de se ver a inutilidade e o ridículo dessa pretensiosa decoração), deixa-me lá esses estrangeiros, e essas estrangeirices.

José Régio, in 'Presença, Folha de Arte e Crítica, 1927-1940'

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Textos dos dias que correm

Nada nos Faz Acreditar Mais do que o Medo

Nada nos faz acreditar mais do que o medo, a certeza de estarmos ameaçados. Quando nos sentimos vítimas, todas as nossas acções e crenças são legitimadas, por mais questionáveis que sejam. Os nossos opositores, ou simplesmente os nossos vizinhos, deixam de estar ao nosso nível e transformam-se em inimigos. Deixamos de ser agressores para nos convertermos em defensores. A inveja, a cobiça ou o ressentimento que nos movem ficam santificados, porque pensamos que agimos em defesa própria. O mal, a ameaça, está sempre no outro. O primeiro passo para acreditar apaixonadamente é o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condição ou as nossas crenças. O medo é a pólvora e o ódio o rastilho. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso.

Carlos Ruiz Zafón, in 'O Jogo do Anjo'

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O Medo como Orientador da Nossa Vida

Uma vez que estamos sós no mundo, ou pelo menos não tão sós como gostaríamos de estar, temos o dever de dominar as nossas explosões, de fazer com que as explosões inevitáveis da nossa maldade ou da nossa bondade paradoxais vão aproximativamente no sentido do fim aproximativo. Quanto ao fim, talvez não seja lá muito importante determiná-lo com a precisão sádica que encontramos no sistema do mundo e no destino quando ambos se associam para determinar a posição do homem no espaço e no tempo.
Devemos evidentemente batermo-nos contra os dois, e como o mais importante é manter a direcção justa do fim talvez errado, é-nos necessário aguçar a nossa lucidez a fim de a tornarmos cortante como uma lâmina, acerada como uma seta, percuciente como uma punção. É graças a essa lucidez que funciona a nossa consciência, que não passa afinal de uma transcrição idílica do nosso medo, porque o medo lembra-nos infatigavelmente a direcção justa, e se sufocarmos o nosso medo, perderemos a possibilidade de nos orientarmos numa direcção determinada e daremos aqui e ali lugar a uma série de estúpidas explosões privadas, causando os piores estragos para um mínimo de resultados. É por isso que devemos conservar dentro de nós o nosso medo como um porto sempre livre de gelos que nos ajude a passar o Inverno, e também como uma corrente submarina vibrando por baixo da superfície gelada dos rios.

Stig Dagerman, in 'A Ilha dos Condenados'

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Duas Últimas *

Escrevo sob o signo da nostalgia. Quoi de neuf?, perguntariam os franceses (aplaudidos pelo meu amigo ATM)...

Este estabelecimento festejou, sábado passado, três anos de vida. No meu modesto apartamento ao Monte do Estoril, o nosso embaixador no Zimbabwe mata saudades do solo pátrio enquanto a troika não limita as férias. Hoje, mas há três anos, faltavam dezasseis dias para eu embarcar com destino ao país de Mugabe, numa viagem que me marcaria para sempre.

É difícil - e talvez desinteressante, digamos mesmo - descrever o gosto que tive naqueles dois meses. Não foi só, obviamente, a simpatia e amizade inexcedíveis com que fui recebido. Foi conhecer uma parte significativa da África profunda, menos turística, menos devassada, menos invadida por hordas de turistas que passam por tudo sem se deterem em nada; foi sentir a fragilidade mais confrangedora na ala das crianças com cancro de um grande hospital em Harare; foi encontrar as paisagens mais deslumbrantes, os ocasos mais inesquecíveis, as cores e os cheiros que me acompanharão para sempre; foi conhecer o encanto dos jacarandás em flor e a ternura das crianças fardadas em bandos;  foi dessedentar-me com um gin tónico ao pôr-do-sol, quando a poucos metros um rinoceronte fazia o mesmo num charco; foi subir ao monte Ngomakurira e perceber onde está o infinito.

Escrevo hoje, tendo na memória esse tempo que ficou cá dentro como mais nenhum ficou. Dessa época guardo também o Mia Couto e uma frase com que me cruzei e que, como tantas coincidências significativas, não pode ser vista à luz de um tempo que é, mas de um tempo que vai sendo. Como se as coisas verdadeiramente importantes fossem um percurso, mais do que um destino, ou  o mistério dos encontros e desencontros fosse algo resplandecente e tivesse, só por si, um brilho que perdura e que ilumina a bacidez dos dias.

A vida é uma casa com duas portas. Há uns que entram e que têm medo de abrir a segunda porta. Ficam girando, dançando com o tempo, demorando-se na casa. Outros se decidem abrir, por vontade de sua mão, a porta traseira. Foi o que eu fiz, naquele momento. A minha mão volteou o fecho do armário, a minha vida rodeou o abismo.

Passado este momento de nostalgia críptica tendo o Zimbabwe como pano de fundo, fechem os olhos e imaginem a sensualidade africana, que foi sempre um misto de tentação e libertação.

JdB



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* publicado originalmente em 19 de Julho de 2011. As datas do texto têm de ser "lidas", obviamente,  à luz do momento. Não obstante, são actuais, já que hoje, mas há 10 anos, tinha chegado ao Zimbabwe há três ou quatro dias. Há dias, esses e outros posteriores, que desaparecem na espuma dos dias. Infelizmente.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Textos dos dias que correm

Uma injustiça social de Jesus?

«Estes últimos trabalharam só uma hora, e no entanto tratou-os como nós, que suportámos o peso do dia e do calor» (Mateus 20,12). A parábola evoca, como muitas vezes acontece na pregação de Jesus, a concretude de uma situação social amargamente constante na história da humanidade. A palavra de Cristo não é nem etérea nem aérea, plantando-se antes solidamente no terreno da existência humana. O desemprego e a precariedade são preocupações de sempre. Como é sabido, na praça do mercado, a principal da cidade, estacionavam os jornaleiros, à espera de que um proprietário de terras ou mediador os levasse para trabalhar ao dia.

Sabemos o desenvolvimento da parábola, narrada apenas por Mateus (20, 1-16), retalhada na subdivisão do dia segundo o “relógio” do tempo. Começa-se com a aurora, que é a última parte da noite e a primeira do dia, continua-se com a “hora terça”, ou seja, às nove, passa-se para a “sexta” (meio-dia) e para a “nona” (três da tarde), chegando-se à “hora décima primeira”, na prática as cinco da tarde, no umbral do entardecer e da noite. O pagamento combinado é de um denário de prata, a unidade monetária romana que representava o salário jornaleiro de um operário e o custo médio de um dia, como se diz na parábola do bom samaritano (Lucas 10, 35). O “denarius” tinha a efígie do imperador: explica-se assim a cena do tributo a César narrada nos Evangelhos (Mateus 22, 19).

Estritamente falando, aquele patrão que paga a todos um denário, reservando-o inclusive a quem trabalhou uma só hora da tarde, age, por um lado, corretamente, na base do contrato “separado” estipulado com cada um; mas por outro lado não é certamente um modelo de justiça nas relações industriais. Qual é, então, o sentido da parábola, tendo em mente que não pode ser orientado para a injustiça social? A lição é de índole religiosa e existencial. O proprietário da vinha abre caminho a Deus, que não lesa a justiça (o contrato era justo), mas nas suas relações com a humanidade introduz a superioridade do amor, cuja generosidade vai para além da rígida norma do que é devido.

A humanidade é, com efeito, constituída por pessoas diferentes quanto às qualidades e dons recebidos: desde quem tem cinco talentos àquele que só tem um, para usar ainda uma imagem monetária de outra conhecida parábola de Jesus. Há a pessoa simples que tem poucas capacidades, e quem, ao contrário, se destaca por dons extraordinários; há quem seja doente e frágil, e quem tenha uma saúde de ferro e seja um portento de força; há quem tem uma modesta dotação intelectual e quem é um génio; há a pessoa frágil, que cai em erros e pecados, e há o justo capaz de resistir firmemente às tentações; há quem pertence a uma nação evoluída e privilegiada (Jesus podia pensar nos judeus, «os primeiros»), e quem tenha nascido numa região deprimida e num povo miserável e de escassas disponibilidades culturais e sociais (os «pagãos», os «últimos»).

O importante, diz Jesus, é que se entre no campo da vida com pleno compromisso pessoal. Deus, na sua recompensa final, não adota o rígido critério que se funda nos resultados, mas escolhe a via do amor, que premeia inclusive quem avança trazendo nas suas mãos um pequeno fruto do seu modesto mas real trabalho. A verdadeira imparcialidade é a do amor que coloca ao mesmo nível que recebeu muito e quem pouco teve da vida mas que se consagrou autenticamente à sua vocação, ainda que simples.


Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 06.08.2018

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Da obesidade e do desporto

Volto ao tema do desporto o que, em mim, pode revelar uma perturbação preocupante: duas vezes no espaço de escassos dias!?

Uma ida ao Decathlon obedece a uma motivação principal e uma secundária: a procura de um determinado equipamento, seja para utilização própria, seja para cumprir uma encomenda ou manifestar uma generosidade. Ora, como a loja é de desporto, ninguém se dirige àquele estabelecimento para comprar courgettes biológicas, o último livro de um determinado escritor ou uma camisa de noite sensual. Quem vai à Decathlon vai à procura de artigos desportivos - isto parece-me um grande lugar-comum. Esta é a motivação principal.

A motivação secundária, que se agarrou a mim como um boia de salvação, foi a exploração sociológica. Arredado que estou, felizmente, do desejo de aquisição de capacetes de bicicleta, camisetas caviadas, bolas de futebol ou raquetes de praia, resta-me olhar para quem o faz. Quem são as pessoas, o que fazem, como se comportam, o que procuram? Vi gente local e gente estrangeira com interesses diversos aparentes - férias na praia,  substituição de equipamentos, subida de patamar ao nível da compleição física. Eram pessoas mais ou menos elegantes (até nas meninas da caixa não há adiposidades) e / ou musculadas, com ar de quem cultiva meticulosamente o físico (e cito um pensamento muito antigo).

Eis senão quando me confronto com uma família composta por (parecia-me) pai, mãe e filho. Nada disto é muito estranho, a não ser o facto de pesarem, cada um deles, bem para além dos 100 kg. Diz-me pessoa sabedora que aquela gordura é da comida, não de um desarranjo genético ou hormonal. E, confesso, gostei de os ver e de imaginar a cena: a compra de um aparelho que trabalha ao nível do abdominal, umas cintas que, presas no ramo alto de um pinheiro, permitem trabalhar vários músculos em simultâneo, dinamizar o equilíbrio e melhorar a postura, que as vidas de hoje são sedentárias. Os três, cada um com o seu carrinho, percorrem vagarosa e atentamente os corredores, procurando a melhor relação custo - benefício, ouvindo os funcionários que partilham a sua experiência de cross aos fins de semana, ou as histórias de uma prima que ganhou prémios numa agremiação dos arrabaldes da Chamusca.

Depois, gasto o subsídio de férias em artigos com hipótese de troca mediante apresentação do talão, dirigem-se ao shopping mais próximo, que já são horas de almoço. Aí, sentados a uma mesa de plástico, afagam o estômago como quem consola um órgão debilitado. Olham em redor, atentando com os olhos no que vão comer. Escolhem um hamburger com batatas fritas e refrigerante, mas não escolhem sobremesa, porque suspeitam que tem lactose e já lhes disseram que isso pode fazer mal. Escolhem antes um bolo com a bica cheia em chávena fria, que o folhado (disse-lhes um primo) não tem glúten. 

Há uma parte da minha vida que difere profundamente dos hábitos perniciosos desta família obesa e mal informada: eu nunca vou ao Decathlon.

JdB  

domingo, 5 de agosto de 2018

18º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
quando a multidão viu
que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago,
subiram todos para as barcas
e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus.
Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe:
«Mestre, quando chegaste aqui?»
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
vós procurais-Me, não porque vistes milagres,
mas porque comestes dos pães e ficastes saciados.
Trabalhai, não tanto pela comida que se perde,
mas pelo alimento que dura até à vida eterna
e que o Filho do homem vos dará.
A Ele é que o Pai, o próprio Deus,
marcou com o seu selo».
Disseram-Lhe então:
«Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?»
Respondeu-lhes Jesus:
«A obra de Deus
consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou».
Disseram-Lhe eles:
«Que milagres fazes Tu,
para que nós vejamos e acreditemos em Ti?
Que obra realizas?
No deserto os nossos pais comeram o maná,
conforme está escrito:
‘Deu-lhes a comer um pão que veio do céu’».
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu;
meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu.
O pão de Deus é o que desce do Céu
para dar a vida ao mundo».
Disseram-Lhe eles:
«Senhor, dá-nos sempre desse pão».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu sou o pão da vida:
quem vem a Mim nunca mais terá fome,
quem acredita em Mim nunca mais terá sede».

sábado, 4 de agosto de 2018

Pensamentos Impensados

Audições conjugação
Estava surdo e comprou umas próteses auditivas; continuou surdo. ABSURDO.

Pensares
Por que é que os pensamentos de Descartes são mais conhecidos do que os meus?
Eu pago impostos, logo existo.

Gramática.
Assumir - verbo da 3ª conjugação usado maioritariamente pelos homossexuais.

Bulhas
Jogar em casa tem vantagens, veja-se o caso de Aljubarrota.
Jogar fora de casa tem desvantagens, veja-se o caso de Alcácer Quibir.

Novo Acordo
Não às letras dobradas? Para cá vens de carinho.

Federações
Os pigmeus estão proibidos de jogar boxe; só dão golpes baixos.

Futebóis
Não falhava um penalty, era o general de golo.

SdB (I)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Do ciclismo e da estética

Ontem, por motivos prosaicos que não vêm ao caso, passei 30 minutos na Decathlon. Em bom rigor, há muito tempo - talvez mais de 20 anos - que não estava tão próximo de uma ideia de desporto ou de artigos de desporto. Não tive nostalgia, não tive horror, não tive desejos de nada - de flexões, de bíceps desenvolvidos, de resistência fantástica no teste de Cooper para sexagenários. Tive, muito simplesmente, um pensamento diferente sobre a actividade desportiva. 

São inegáveis as vantagens de se fazer desporto, acima de tudo uma melhor saúde física e mental. Pode haver quem defenda o convívio com amigos, com colegas, a troca de experiência ao nível da transpiração vs batimentos cardíacos, as virtudes do step ou do pilates, a qualidade deste ou daquele ginásio. Não nego nada disso. Há, no entanto, uma dimensão à qual os néscios não prestam atenção, como se o mundo se resumisse ao espaldar que já ninguém usa ou à cambalhota que já ninguém faz.



Ora, a actividade desportiva não se resume aos músculos trabalhados, ao emagrecimento saudável, ao endurecimento dos glúteos, ao gosto pelos sumos naturais e pela comida biológica. O desporto tem uma dimensão vedada aos incautos, aos distraídos - ou apenas aos arrojados. Atentemos na imagem acima, a de um ciclista. Podemos repetir o que alguém dizia do ciclismo, que é o único desporto em que a besta que puxa vai sentada. Mas vejamos melhor: os calções justos (short, na legenda), o capacete, a camisola (camiseta, na legenda) desafogada ao nível das axilas, feita em material que suscita a transpiração - ou não, sei lá eu...

Ontem, na Decathlon, estive com um capacete na mão, não para mim, mas para alguém que precisava de adquirir um. E pensei que o ciclismo estava arredado da minha lista de actividades físicas: vou a um prémio da montanha, vou a um contra-relógio, vou a uma prova de perseguição ou de resistência. Onde eu não vou é a uma camiseta e a um capacete daqueles, porque a minha noção de ridículo - obsessiva e sensível - não o permite. Não sou preguiçoso. À minha maneira sou um esteta, mesmo que ninguém (nem sequer eu) acredite...

JdB

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Poemas dos dias que correm

Poesia Depois da Chuva

                         A Maria Guiomar

Depois da chuva o Sol - a graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça.

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...)

Sebastião da Gama, in 'Pelo Sonho é que Vamos'

***

Cai a Chuva Abandonada

Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Vai um gin do Peter’s?

Já em ambiente de férias, partilho uma interpretação divertida de uma presidência que faz questão de estabelecer a máxima proximidade com os cidadãos. Disposto a mergulhar nos acontecimentos, procura estar sempre no terreno, acudindo a uns e a outros conforme a situação o dite. Num desempenho do cargo marcado pelo zelo e por um estilo garrido e efusivo, continua a somar recordes de popularidade. Chega a parecer incansável, sendo do domínio público que se contenta com poucas horas de sono. 

Num humor suave e apartidário, alguém concebeu um encaixe perfeito da personalidade hiperactiva dos nossos dias nas situações imortalizadas em telas antanhas, todas elas célebres e plenas de significado: ora em solidão, ora em dor escancarada, ora a contar com um afecto explícito. Nesta paródia acrescenta-se ao dom da ubiquidade, a capacidade de viajar no tempo ou para lá do tempo…  Segue-se a ordem cronológica das quatro telas postadas: 

1503-06, «A Gioconda», de Leonardo, a partir da modelo Lisa – possivelmente,
a mulher do rico comerciante de sedas florentino Francesco del Giocondo.
Nesta pintura sobre madeira de álamo, Leonardo estreia a técnica do “sfumato”
e concebe um retrato portentoso, de sorriso enigmático,  reservado e sedutor,
carregado de subtilezas difíceis de dissecar, até ao pormenor.
O desnível intencional na linha do horizonte, visivelmente mais baixo no lado direito
(mas truncado neste zoom), faz com que Mona Lisa pareça muito maior vista a partir da esquerda.
Napoleão Bonaparte ficou tão fascinado com a tela, que exigiu tê-la nos seus aposentos.
No Verão de 1911, foi roubada ao Louvre, seguindo-se um processo de interrogatórios
e prisões sumárias, que vitimou diversos artistas.
Os suspeitos incluíram, por exemplo, Picasso (preso durante meses) e o poeta Apollinaire.
Só anos mais tarde se descobriu o quadro e o ladrão – um italiano, ex-empregado do museu. 

1893, «O Grito da Natureza», do norueguês Edvard Munch.
Considerado «A Gioconda» da arte contemporânea.

1907-08, «O Beijo», do simbolista vienense Gustav Klimt,
numa profusão dourada que evoca a arte bizantina.
Os ornamentos curvos são, comummente, associados à feminilidade
e os rectilíneos à masculinidade. 

Jun.1937, «Guernica», de Picasso, com dimensões de mural: 3,49m X 7,76m.
Pulverizando as figuras do Presépio, ergueu-se como manifesto contra a guerra.
Em plena Guerra Civil espanhola, o pintor quis denunciar a razia causada pelos
bombardeamentos maciços da Legião alemã-nazi Condor sobre a povoação basca
de Guernica, na tarde de 26 de Abril de 1937.
Em apenas 2 horas, a cidade-bastião das forças republicanas ficou reduzida a pó.
Em termos bélicos, o ataque serviu para testar o alcance da Blitzkrieg,
aplicada dois anos depois pela Luftwaffe.

Óptimas férias aos que partem e bom trabalho aos que ficam, com maior sossego para aproveitar as cidades semi-esvaziadas dos residentes habituais. Na Gulbenkian, o ciclo de jazz tem uma programação apetecível (https://gulbenkian.pt/jazzemagosto). 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


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