domingo, 29 de novembro de 2009

1º Domingo do Tempo do Advento

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
A inevitabilidade feliz de não vivemos numa redoma, de não sermos uma ilha, de não sofrermos de uma cegueira egoísta faz-nos olhar à volta, atentar no mundo em nosso redor, ouvir histórias e ser protagonista de histórias.
Para alguns dos nossos amigos, familiares, vizinhos, colegas de trabalho, este tempo que se adivinha é um tempo de dor. Não obstante as luzes, a alegria ingénua das crianças, a paz na terra aos homens de boa vontade, há quem seque lágrimas por aqueles que partiram das suas vidas.
Há quem passe esta quadra na saudade de uma ausência sem remédio, no sufoco de uma doença difícil, no vislumbrar de uma porta que se não abre nunca mais.
Há quem passe esta quadra na angústia de uma árvore de Natal vazia ou de uns presentes que só existem nas mãos dos Reis Magos, porque é a dificuldade, é a crise, é o desemprego.
Há quem passe esta quadra na lembrança de tempos felizes, de casas cheias, de vidas fagueiras, de estradas que não tinham curvas.
Neste primeiro Domingo do Advento peço por todos eles, para que não lhes falte a fé, a força e a esperança.
Neste primeiro Domingo do Advento peço para que todos saibamos erguer o facho das nossas vidas compostas para iluminar a estrada sofrida do nosso próximo.
***
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas
e, na terra, angústia entre as nações,
aterradas com o rugido e a agitação do mar.
Os homens morrerão de pavor,
na expectativa do que vai suceder ao universo,
pois as forças celestes serão abaladas.
Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem,
com grande poder e glória.
Quando estas coisas começarem a acontecer,
erguei-vos e levantai a cabeça,
porque a vossa libertação está próxima.
Tende cuidado convosco,
não suceda que os vossos corações se tornem pesados
pela devassidão, a embriaguês e as preocupações da vida,
e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha,
pois ele sobrevirá sobre todos os que habitam a terra inteira.
Portanto, vigiai e orai em todo o tempo,
para terdes a força de vos livrar de tudo o que vai acontecer
e poderdes estar firmes na presença do Filho do homem».

sábado, 28 de novembro de 2009

Fatal é o destino?

Deixa-me viver. Não te entrances nos meus dias, estou-te a pedir. Não vês que não consigo carregar-te? É muito peso, é longa a história, e duro lamber as chagas. Na verdade, nem sei se sou capaz de te enfrentar, de te olhar nos olhos, de te ver de frente. Fazes-me pena, trazes-me raiva, mostras-me coisas que eu não quero, lembras-me o que eu gostava de esquecer. Lembras-me, eu já sei. Deixa-me lá continuar a disfarçar que sou mais um, igual a tantos outros da manada. Que gosto de andar aqui na multidão, de ser um cidadão progenitor, um empregado disciplinado e cumpridor. Larga-me, rogo-te. Fecha-te a sete chaves em sossego, esconde-te, não me forces a fazer-te a vontade. Não posso, sinto isso, não consigo. Tem dó alma perdida, pára de segredar constantemente a mesma coisa, que nada querias com esta vida. Não vês que eu era fraco e nem te ouvia? Como hei-de consolar-te, já não sei. Como hei-de dominar-te, ainda talvez... um dia, se lá chegar, vou procurar-te. E tentar saber ao que chegaste, o porquê, a razão de tanta urgência. Prometo, juro e quem sabe, firmamos um acordo. Que eu viva inteiramente ao teu jeito, que te ame loucamente como anseias, sem as reservas desta mente maltrapilha, carregada de obtusos pensamentos, que adiam e adiam os tormentos. Aguenta-te alma, mais um pouco. Espera que chegue o tempo que nos junte. Que haja coragem para termos esse encontro. Fatal, eu sei, como o destino.

DaLheGas

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

those thin lines between light and shadows

escrever palavras sem fundo,
loucas como o mundo,
feitas de um sonho imenso,
ardendo agora como incenso.
(espécie de verbo afirmativo,
negado em definitivo?)

aqui
jazem
todas
as flores
e outros perpétuos amores.

stop. restart.

aqui
nascem
novos
amores
e outras pungentes flores.

inscrever palavras no mundo,
sedentas lá no fundo.
vida e luz e fermento,
assim por extenso.
(espécie de verbo negativo,
esconjurado em definitivo?.)

oh..
those thin lines between light and shadows.

gi.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Deixa-me rir...

Hoje a minha proposta é ligeiramente diferente. Gostava de mandar os parabéns aos muitos Sagitários (o signo mais giro do Zodíaco!) que conheço. É, a meu ver, um signo de gente com brilho, gente divertida, animada, expansiva, de bem com a vida. Positivos, inteligentes, muito criativos, generosos, meigos, distraídos, algo voláteis, fazem-me lembrar borboletas multicolores esvoaçando sobre flores num imenso prado a cheirar a Primavera (as flores são os projectos, as ideias, as paixões).

Os Sagitários que conheço são, graças a Deus, muitos. Começam logo no dia 23 de Novembro, continuam pelo dia 25 (o meu afilhado fez ontem 18 anos!), hoje, 26, faz anos uma amiga minha originária da Tasmânia ... e ainda 28, 30, 1 de Dezembro, 2, 3, 6, 11 (conheço 7 pessoas neste dia!), 16 e 21 de Dezembro … mas não vos canso mais com a minha memória para datas de anos …

Assim sendo, a todos os Sagitários que conheço, aqui vão os Happy Birthday’s mais famosos do planeta. Enjoy.



pcp

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Coimbra tem mais encanto...

Hoje, mas há uma semana, a Acreditar inaugurava a sua Casa de Coimbra. Ficam algumas das palavras ouvidas durante essa cerimónia.


Vista de fora, esta casa não é mais do que uma casa: tem quartos, salas, cozinhas; vista de fora, com a ligeireza e imediatismo com que vemos algumas coisas, esta casa não é mais do que um conjunto harmonioso de divisórias, servida por um conjunto funcional de equipamentos. Uma casa, apenas.

Mas esta casa tem de ser vista com outros olhos, com os olhos do coração, talvez; quando o fizermos, veremos mais do que chão, parede, tectos. Veremos 20 crianças que farão desta casa a sua casa. Veremos 20 Pais que, apesar de toda a diversidade de origem geográfica ou social, falarão a mesma língua e revelarão, nuns olhos que choram ou numa cara que ri, aquilo que os junta a todos: a doença de um filho e a esperança de uma cura. Para estas famílias, que aqui viverão o tempo que for necessário, sem qualquer preocupação financeira, este espaço será, na expressão feliz de alguém, uma casa longe de casa.

Esta Casa é um desafio novo para a Acreditar. Não só porque exigirá um esforço económico, laboral e logístico maior, mas porque receberemos aqui crianças com outras patologias para além do cancro. Em Lisboa estamos em frente ao IPO; em Coimbra estamos ao lado do futuro Hospital Pediátrico, e não faria sentido ser de outra forma. O convívio de todas estas realidades será, no mínimo, interessante e, seguramente um espaço de aprendizagem da diferença, da tolerância, da entreajuda. O caminho será novo, mas, no rosto de cada um que se cruza connosco, veremos essencialmente o mesmo: crianças doentes, Pais que sofrem, a esperança que nunca os abandona.

A Acreditar patrocinou, em tempos, um livro que tocava o tema das Obras de Misericórdia, algo que é caro à tradição cristã, e que inspirou a Rainha D. Leonor quando, em 15 de Agosto de 1498, fundou a primeira misericórdia de Lisboa. Uma das obras consiste, precisamente, em dar pousada aos peregrinos. Neste olhar cristão que gosto de derramar sobre as coisas, sinto que, entre muitos outros serviços, é isso que aqui faremos: dar pousada a quem se aproxima de nós, albergar aqueles que percorrem os campos da doença, da recuperação e da confiança no futuro.

À semelhança, talvez, de todas as instituições de solidariedade social, a Acreditar encerra em si uma quantidade inevitável de paradoxos. Há 16 anos, um conjunto de Pais juntava esforços e, sob o lema tratar a criança com cancro e não só o cancro na criança, fundava a Associação; hoje, como ontem e como amanhã, profissionais e voluntários entregam-se, de alma e coração, a uma luta esforçada e dedicada para encontrar formas de melhorar a qualidade de vida das nossas crianças, seja através da angariação de fundos, de campos de férias, de publicações; hoje, 18 de Novembro, reunimos uma quantidade imensa de amigos e celebramos a abertura desta Casa. Estou certo de que ninguém se surpreenderá com esta afirmação: reside, no mais fundo dos nossos corações, a secreta esperança – talvez mesmo a certeza – de que um dia assinaremos todos a declaração de cessação de actividade da Acreditar. No fundo, no fundo, aquilo que todos desejamos é poder fechar a Associação, dedicar Casas e pessoas a outros fins. Celebraremos esse dia com uma alegria redobrada, porque a expressão oncologia pediátrica terá sido atirada para o baú das doenças extintas.

Até lá continuaremos o nosso trabalho com o mesmo entusiasmo de sempre. Pensaremos numa futura casa, adaptada às necessidades e às tendências dos tratamentos; continuaremos a lutar por uma legislação que proteja os Pais; manteremos a publicação de livros que ajudem todos os intervenientes a lidar com o problema; faremos campos de férias, excursões, encontros, reuniões; estaremos presentes nos fóruns indicados para aprender e influenciar; seremos a linha da frente de tudo o que for importante para as nossas crianças. Acreditar é isto.

(...)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Musiquitas

No quarto de esquina fazia casa, há já algum tempo, um homem a quem tinham posto a alcunha de Musiquitas. Era um personagem despenteado, com o cabelo sempre em desalinho e diferente de dia para dia. Passeava-se, de mãos atrás das costas, pelos corredores dessa casa de gente estranha.

Essa casa de gente estranha era um manicómio. Para muitos dos que lá moravam, era a única casa que alguma vez tinham conhecido. E era, realmente, um universo feito de pessoas excêntricas, e de outras que esticavam tanto esse adjectivo, que para esses só mesmo o estranho se adequava. O Musiquitas era um dos que saltitava de um lado para o outro nessa fronteira. Dependia dos dias.

Certo dia, vindo de um dos passeios diários pelo exterior, trouxe um pedaço comprido de cartolina. Tinha desenhado em cima as teclas de um piano. 84 teclas, pretas e brancas, 7 oitavas, de Dó a Dó. A partir desse dia a casa silenciosa tinha concertos diários. Na sala comum, pelas oito horas, quando os enfermeiros começavam a recolher as tigelas sujas de gelatina ou de mousse de chocolate (conforme o dia), substituindo-as por copinhos com comprimidos de várias cores e feitios, o Musiquitas desdobrava o seu teclado por cima da mesa encostada à janela. Desligava-se a televisão e calava-se todo o burburinho de fundo.

E a essa hora o silêncio instalava-se, grave e solene, na sala. Os enfermeiros, habituados a demonstrações de loucura de todos os tipos, não ligavam. Mas os pacientes estavam absortos, quase que hipnotizados pela música que saía das teclas de cartolina.

O concertista anunciava o que ia tocar antes de cada música, esperava que as palmas, os uivos e os assobios se calassem, e agradecia sempre de pé, curvando-se várias vezes perante o peculiar público.

Isto repetia-se quase todos os dias. O Musiquitas tocava com um ar tão compenetrado e tão envolvido, que as notas pareciam fugir dos dedos que passeavam na cartolina. E o público parecia também realmente ouvi-las, pois alguns, de olhos fechados, abanavam a cabeça a ritmo. Havia mesmo quem, nas músicas de ritmos mais solarengos, assobiasse a melodia.

Os enfermeiros, intrigados por este espectáculo que parecia ter cada vez mais fãs, decidiram preparar uma surpresa ao Musiquitas. Trouxeram-lhe um teclado verdadeiro. Conseguiram-no convencer a trocar a habitual cartolina por esse. Mas ele não gostava nada destas teclas novas. Eram frias e moles. Não tinham sentimento quando as empurrava para baixo. Mas mesmo contrafeito deu o concerto habitual.

O mesmo silêncio dos outros dias se instalou, e os enfermeiros, mal ecoou a primeira nota no ar, abriram todos os olhos de espanto. Saía do piano uma música tão leve como a noite lá fora. O pianista, concentrado no seu ofício, fechava os olhos. E desse piano as harmonias ficavam, por instantes, suspensas no ar, como o fumo dos cigarros, até se dissolverem.

Perplexos, os enfermeiros foram dar os parabéns ao Musiquitas no fim do seu concerto. Tinham gostado muito, e insistiram para que ele tocasse habitualmente. Ele olhava-os, naquele ar desalinhado e vago. Não percebia o porquê desta conversa só agora, quando já há tanto tempo que ali tocava. O teclado era diferente, mas a música era a mesma.

SdB (III)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O diálogo

(...)
- Sabe que mais?
- Diga…
- Há muito tempo que vivo do sexo. E, como deve calcular, não é com o meu marido…
- Quer especificar?
- Sim.
- Diga, então.
- Desde há um ano que trabalho na Lanterna Vermelha…
- Lanterna Vermelha? O que é isso?
- Como posso explicar-lhe… é aquilo que se chamaria uma casa de senhoras.
- Sim, já percebo. Continue.
- Fui contratado para lá trabalhar, como lhe disse.
- E gosta?
- Podemos falar de várias dimensões.
- Quais?
- A financeira, a sociológica.
- Fale-me da segunda.
- Pois muito bem. Sabe, durante muitos meses fui mais do que a pessoa que está aqui a falar consigo, e isso já é, só por si, um aspecto interessante.
- Como assim?
- Olhe, durante vários meses fui a Honória, uma moçambicana que recebera o pai crivado de balas e sem uso para o afecto de que precisava; fui a Joana, cuja simetria física perfeita excitava alguns clientes e a Georgette, que tinha das cartas de amor uma visão própria e carregada de mentira. Fui ainda Esperanza Morales que, vinda de Pipinas, na Argentina, dançava nua ao som de tangos dolentes, e Carmelinda, natural de Bencatel, cujo sotaque cerrado provocava desvairos e olhos revirados num conde falido. Fui ainda a Gervásia, uma beirã que tirava o palhaço do sério, assim como fui a Solange e a Rosário, encantando jogadores de futebol falhados ou homens sombrios de uma qualquer repartição de Finanças. Fui ainda, entre outras, a Yuni Siyu, uma chinesa que fazia do trapézio uma volúpia circense.
- Estou impressionado.
- E pode ficar que não é para menos.
- Quer continuar?
- Claro, porque não quero ficar na explicação de quem fui ao longo destes meses; quero falar-lhe, também, da visão sociológica dos clientes.
- Diga então.
- Podia falar-lhe do tal conde falido que só queria ouvir alentejano cerrado enquanto revirava saudosamente um bocado de cortiça no bolso do casaco; podia falar-lhe no Sr. Marcolino, um anão com desejos de alpinismo e que escalou uma escultura em forma de mulher; talvez valesse a pena referir o Martim Moniz, Miranda da parte da mãe, que se iniciou nas artes do prazer trazido pela mão de um avô; gostava que lhe falasse no Dr. Guimarães e Costa que se encantou, não pelas curvas sensuais de uma rapariga, mas pela sua arte no jogo do crapaud? Ai, havia tanto para lhe contar…
- E diga-me: na verdade, o que a traz por cá?
- A bem dizer não sei. Uma vontade imensa de falar deste assunto, sei lá eu. Foi uma vida muito intensa, sabe? Muitos personagens, muitos clientes, muito erotismo, muito afecto, muito asco, talvez... Muitas vidas dentro da mesma vida. Como será que aguentamos tanto personagem a conviver no mais íntimo de nós?
- Eu percebo.
- Dá-me a absolvição, senhor Padre?
- Está arrependida?

(...)

Conheço-os bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

domingo, 22 de novembro de 2009

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Pilatos a Jesus:
«Tu és o Rei dos judeus?»
Jesus respondeu-lhe:
«É por ti que o dizes,
ou foram outros que to disseram de Mim?»
Disseram-Lhe Pilatos:
«Porventura eu sou judeu?
O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a mim.
Que fizeste?»
Jesus respondeu:
«O meu reino não é deste mundo.
Se o meu reino fosse deste mundo,
os meus guardas lutariam
para que Eu não fosse entregue aos judeus.
Mas o meu reino não é daqui».
Disse-Lhe Pilatos:
«Então, Tu és Rei?»
Jesus respondeu-lhe:
«É como dizes: sou Rei.
Para isso nasci e vim ao mundo,
a fim de dar testemunho da verdade.
Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».


***

É um dos encontros mais espantosos do Evangelho: Pilatos e Jesus. O representante do império mais poderoso e o profeta do reino de Deus, o primeiro na sede onde dita as sentenças, Jesus preso como um delinquente. Que realeza é essa que Jesus reclama? Sem trono, sem poder, sem ambição de dinheiro, sem nenhum sistema injusto que o sustente, sem legionários que lutem por ele? “O meu reino não é deste mundo”! Porquê então a sua condenação? “Sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo a fim de dar testemunho da verdade.”
Toda a vida de Jesus é uma interpelação: “aquele que é da verdade escuta a minha voz”! E isto incomoda os grandes poderes em todos os tempos. Porque a sua maior ânsia é possuir a verdade. E em nome dela justificar, tantas vezes, o injustificável. Quem segue Jesus não é dono nem guarda da verdade, serve-a testemunhando-a. Por isso não pretende derrotar os adversários, nem impor uma doutrina, nem controlar a fé de outros ou ter razão em tudo. Porque vive em união a Jesus procura converter-se a Ele, quer transbordar o amor que sente por Ele, olhando tudo com os olhos do Evangelho, em tudo semeando a verdade de Jesus. Fazendo seu o programa das bem-aventuranças.
Jesus fala de um reino novo. Que não tem fronteiras porque o seu terreno é o coração dos homens. Que tem uma linguagem que todos entendem, a do amor. Um amor que radica no “amor das entranhas”, a “hesed” bíblica, traduzida depois por ágape e caridade. Assim se referia o P. Peter Stilwell à “compaixão”, a propósito da “Carta pela Compaixão”, uma iniciativa de várias confissões religiosas e não-crentes: “Trata-se de uma emoção delicada: um transbordar do coração perante as alegrias e sofrimentos dos outros. É um movimento profundo que arranca das raízes do nosso ser, antecedendo a reflexão da razão e a inclinação da vontade. Mais do que uma atracção "química" pelo outro, ou sequer um sentimento psicológico de afinidade, é uma virtude ou força espiritual. Os cristãos lêem-na como brotando do próprio Deus, e por isso lhe chamam "virtude teologal"
Se queremos viver neste reino, talvez seja necessário um primeiro exercício: destronizarmo-nos a nós próprios, deixar de ser o centro das preocupações e colocar aí Deus e os outros. Valorizar os sentimentos, as atitudes, as palavras, o sofrimento e a alegria, que generosamente partilham. Despojarmo-nos dos mantos e vestes que aparentam auto-suficiência e olhar os outros nos olhos. Gostando mais de quem vemos. Escutando a verdade que também testemunham.

(Texto do Pe. Vitor Gonçalves, enviado por mão amiga)

sábado, 21 de novembro de 2009

Gostas do cheiro a capim?


Hoje acordei, tratei da minha prole e como sempre seguimos às respectivas escolas, esses depósitos de miúdos cheios de gente adulta a quem nunca poderei agradecer na totalidade o bem que me fazem, nem apontar a mediocridade, a falta de imaginação e até de responsabilidade. Sim, uma mãe não consegue revolucionar o sistema. Nem um professor, quanto mais uma mãe. Em quase todas as profissões somos paus mandados e a cobardia é a alternativa ao desemprego.

De volta a casa, sabendo que tinha de apagar um fogo editorial, percebi que o meu poço estava praticamente seco. E agora? Posso bater a porta e fugir, meter-me na cama e fingir-me doente. Ficar frente ao ecrã a debitar frases batidas, ou pôr a inteligência a cavar até sentir a água fresca das entranhas da terra. Mas a minha inteligência é estuporada. Lúcida demais para se distrair com ilusões, insensível ao prestígio e à novidade, e a terra, ohh, a terra anda tudo menos repleta de nascentes. Resta o valor da solidariedade, e o tema, a merecer um digno destaque.

Há dias assim, em que a secura trava a palavra, a boa vontade não chega, e a obra meritória não inspira. Até que o telefone toca e o inesperado acontece. O plano modifica-se, a carga alivia-se e a correria abranda. A correria, o tempo contado, tanto para tão poucas horas. Afinal, talvez sejas capaz. Respira. Pensa na água. Lembra-te do fogo. Abre um documento, dá-lhe um nome, salva-o, põe título, faz a entrada ou deixa-a para o fim, mas regala-te, vá, regala-te a descrever esse cortiço virado ao vale. Anda. Imagina-te nele. Tu, ele, o cheiro a capim...

DaLheGas

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

lovely theresa

pediu desculpa ao mundo, a todos, aos que amara acima de tudo,
pelo modo deselegante que escolhera como porta de embarque,
rumo a esse imenso vazio / devir (riscar o que não interessa)
que pode ser o infinito, especialmente se projectado no tempo,
isso a que se chama também eternidade, como bem sabemos.

pediu desculpa a todos, a tudo, ao mundo, às lovely girls que amara,
pelo modo que escolhera para sair do mundo, do espaço, do tempo.
ensaiara as últimas linhas com a serenidade do artesão que sabe, e sente,
que um dia a jóia nas suas mãos será a última, a derradeira saída
dessa linha de desmontagem que foi a sua vida (qualquer uma).

i love(d) you all, lera um dia numa sofisticada revista de upper manhattan,
era a mais terna e sincera das frases de despedida. ainda hoje, anos depois,
sabia que a lovely theresa que, ainda viva, assinara o bilhetinho seria decerto
inultrapassável, nesse desesperado e radical campeonato (ou arte suprema?)
dos que, em surdina, escolheram escolher a morte, em plena vida.

porém algo nele resistia. influência de obscuros filósofos lidos na juventude,
gritando ao seu ouvido: nenhuma negação pode ser uma opção livre.
e ele queria acreditar, tal como queria acreditar que não se morre de amor,
nem por delicadeza, nem por generosidade, nem por qualquer acto de grandeza.
morre-se, tão-só, quando não se aguenta a dor, a vida tornada intolerável.

por isso mesmo, por ser uma contradição extrema, algo nele resistia
a aceitar que da livre escolha possa resultar a aniquilação auto-infligida.
mas se o que se mata, não é a vida, afinal - o que se mata é antes a dor -
demonstrado está, e adormeceu veramente contente, o axioma maior:
não se morre por somenos, morre-se para matar para sempre essa dor,

que, às vezes, é vida,
outras vezes, medo.
que, às vezes, é vertigem,
outras vezes, ferrugem.
que, às vezes, é nervo,
outras vezes, tudo o que fica

depois de esgotada e finda a derradeira possibilidade do amor.


gi

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, this week I present something light-hearted, some will perhaps say superficial, frivolous...but I think quintessentially British.

The Ukulele Orchestra of Great Britain sound very grand but they are a group of friends who came together in 1985 through a shared love of an instrument neglected since the George Formby era of the 1940s and since the dawn of rock n roll. They discovered, however, that many other people still 'secretly' loved the ukulele (it was a favourite of George Harrison who owned a large collection). And so from small clubs they now travel on "world tours with only hand luggage".

I experienced them joyously for the first time, but definitely not the last, this summer during the popular Promenade Concerts at the London Royal Albert Hall.

It was a late-night concert, normally not so well attended, but the Hall was completely full, an audience of 6000 enthusiastic music fans. And in what has apparently become a tradition, about 1000 had brought their own ukuleles, a riot of technicolour pink and green and blue and red instruments, in order to play along during one piece of music. Anarchy in the UK-ulele!

The UOGB play every kind of musical style. Classical of course, but also folk, pop, disco, rock, jazz, blues, They play Bach, Tchaikovsky, Ennio Morricone, Cat Stevens, Led Zeppelin, Nirvana... they are very good musicians, they are not-so-good singers, but they perform always with a sense of fun.

This video is taken from a tv show. The serious intention was to illustrate how classical music has influenced other musical genres, how certain motifs repeat themselves in unexpected places. In this case, the Orchestra start with a melody composed by George Freidrich Handel which metamorphoses into...well, you will see.



I hope you are entertained! And I hope you will investigate other videos and their website to hear better examples of their virtuoso musicianship.

A proxima,
po

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Jardim Interior

O segundo andar das traseiras foi, na altura em que me mudei para cá por causa do emprego, uma novidade extravagante. Tinha ouvido falar dos esquerdos e dos direitos, mas nunca dos de trás.

Não fiquei triste, a sério que não, duas tardes de equilibrista foram suficientes para me livrar de todo o verdete da marquise e, no fim da trabalheira, fiquei com vista para duas laranjeiras, mirradas pela sombra daquele poço esquecido entre prédios anónimos. Concluí sem pressa que ninguém, de entre todos os vizinhos anónimos empilhados à minha volta, se virava para aquele buraco e assumi, com assinalável alegria, que a escada de incêndio tinha sido ali colocada pela mão de alguém raro, com olho para o encanto das pequenas coisas.

Não fiquei triste, a sério que não, quando uma das janelas mortas dos segundos andares, a do prédio a norte, o único com acesso à escada que, todos os dias, me leva ao meu jardim bafiento, se acendeu num desassossego. Gosto de pessoas e sei fazer o meu silêncio mesmo em lugares onde o barulho não descansa. Para ser franco, não percebi ao certo quando é que as laranjeiras deixaram de ser exclusivamente minhas e passaram a ser um bem comum e, se não fosse o Carlos enroscar-se na cadeira com almofadas floridas que surgiu ao lado da minha, eu nem teria reparado nela.

Não fiquei triste, a sério que não, quando na semana passada o Carlos miou num sobressalto, acordando-me da minha leitura, porque o assustaste com a tua acesa discussão sobre coisas pesadas e dores entaladas, enquanto descias as escadas, numa distracção que quase te custou um tornozelo magoado, não fosse eu ter-me levantado para te receber, acabando por facilitar o amparo improvisado à pequena queda que deste. Agradeceste-me com os olhos e eu resolvi deixar o jardim para ti. Quando cheguei à marquise tentei não escutar, eu que sou tão bom a fazer silêncios, mas uma sensação que, a ser arrumada numa gaveta, iria para a mesma que a dos apartamentos das traseiras, a das novidades extravagantes, segurou-me a atenção.

Não fiquei triste, a sério que não, quando tive a certeza que choravas, enroscada na minha cadeira de pau, porque o Carlos havia ficado pela tua cadeira de primavera, num novelo de compaixão e tu, ou por indiferença ou por bondade, não o quiseste enxotar. Fiquei apertado por dentro, desconcertado e desvalido, conseguia ouvir cada soluço engasgado, e estremecia sem saber o que fazer, mas não fiquei triste.

Desculpa aquilo de ontem, disseste de olhos vermelhos, a meio da tarde de sábado, Não tinha reparado que estavas aqui. Sorri um Não há problema enquanto te sentavas ao meu lado. Ficámos muito tempo sem dizer nada. Não te preocupes, está tudo bem, já passou, começaste a dizer sem eu ter perguntado nada. Tinha um mundo de emoções estrangeiras atadas num nó, à porta da boca, e suponho que uma expressão interrogativa, porque continuaste, Adoptei este jardim sem saber que era teu, precisava de um lugar, agora que fiquei sozinha, Sabias que eu tinha escutado tudo e não estavas zangada, Não te importas? Sorri, não estava capaz de sequenciar palavras de forma lógica.

Hoje desceste com lanche para mim, Como haveria de me importar, vizinha? É uma alegria ter movimento por aqui, atirei-te eu, num descompasso do coração que até um tolo alienado conseguiria notar. Tinha-te espreitado a roubar laranjas, descalça, de manhã, mas nem os meu delírios mais ousados impediram que ficasse desarmado, Andei a roubar laranjas para te fazer um sumo! A conversa perdeu-se nas horas e eu dei por mim num remorso incontrolável, Não fiquei triste, a sério que não, expliquei-te eu. O teu silêncio fez-me cair dez vezes a altura daquele poço estreito e escuro onde, ainda há momentos, levitávamos contentes e só sosseguei quando me abraçaste. Não disseste mais nada até ires para casa e eu não consigo sair cá de baixo, com medo que me falhem as pernas.

ZdT

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O consultor (Cont.)

O calendário religioso avançava a um ritmo certo e previsível, como o alinhamento dos astros, os eclipses e as marés, ou a inevitabilidade dos impostos e da morte, estes dois últimos acontecimentos constituindo, ao que dizem, a única certeza da vida. Tal como numa célebre viagem de comboio entre a velha Sevilha e Guadalquivir, o Bem e o Mal, Deus e Satanás disputavam as almas com argumentos fortes: o céu, o prazer, o momento presente, o futuro, a construção, a facilidade, o imediato. E a contabilidade era uma guerra feita dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, sendo que o resultado final só se saberia no fim dos tempos, no apocalipse da vida, no estertor da existência.

O Rúben continuava a aparecer, a disponibilizar-se, a colaborar, a ouvir, a opinar, a olhar, a sorrir, a comover-se, a discordar. Entrava-se na Igreja, fosse em que dia ou hora fosse, e olhava-se à volta para descortinar onde andaria o Rúben, o que estaria a fazer, o que pensaria disto ou daquilo. E o homem da gaforina loira atirada para trás surgia do nada, de uma penumbra, de uma discreção. E cumprimentava, sorria, ajudava, olhava à volta de forma perscrutadora.

Um dia o Rúben desapareceu.

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Ok. A história fica por aqui. Porquê?, perguntarão os meus leitores mais fiéis, aqueles que aqui vêm semanalmente para deixar uma palavra simpática ou um olhar curioso. Por uma razão muito simples: não faço a mais leve ideia de como a acabar. Já quando a comecei, tarde e a más horas, não tinha um fim suficientemente interessante para lhe apor nos últimos parágrafos. Criei o subterfúgio do continua na próxima semana na ilusão de mais um tempinho, uma folga, um adiar da execução; na expectativa vã, talvez, de um golpe de asa com o qual me cruzasse nas minhas rotinas diárias. O facto é que nada surgiu. Nada de nada de nada. Ideias vagas, fins previsíveis, desenlaces sem brilho. Optei por esta confissão…

Alimentar uma coluna semanal com uma história ficcionada minimamente interessante tem sido obra. Herdei, do MTS, a 2ªfeira neste Adeus, até ao meu regresso… Também ele terá fechado o Lanterna Vermelha (depois de algumas dezenas de episódios) pelos mesmos motivos: falta de imaginação, o terror do dia fixo, a angústia do prazo a cumprir, o enjoo pontual de um teclado que é, oito horas por dia, uma ferramenta de trabalho.

Lamento desiludir os meus queridos e fiéis leitores. Eu, cronista, me confesso, poderia ser o tema deste post. Mas ele há dias, sabem? Talvez me surja uma ideia num repente; talvez a minha imaginação continue um deserto a perder de vista, talvez algum visitante tire um coelho da cartola e mo presenteie num repente generoso. Para já é isto... Ainda hesitei na continuação da novela O Consultor, escrevendo frases interessantes e que me entretinham, envolviam o freguês do blogue numa trama com final misterioso. O facto é que o Rúben estava condenado, porque tudo o que me ocorria tinha o triste odor do lugar-comum ou do déjá vu...

Olho para o MTS, para o JdB, para outros que sei terem sentido, aqui e ali, o mesmo cansaço criativo e só me ocorre uma frase:

Conheço-os bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

domingo, 15 de novembro de 2009

33º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 13,24-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Naqueles dias, depois de uma grande aflição,
o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade;
as estrelas cairão do céu
e as forças que há nos céus serão abaladas.
Então, hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens,
com grande poder e glória.
Ele mandará os Anjos,
para reunir os seus eleitos dos quatro pontos cardeais,
da extremidade da terra à extremidade do céu.
Aprendei a parábola da figueira:
quando os seus ramos ficam tenros e brotam as folhas,
sabeis que o Verão está próximo.
Assim também, quando virdes acontecer estas coisas,
sabei que o Filho do homem está perto, está mesmo à porta.
Em verdade vos digo:
Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.
Passará o céu e a terra,
mas as minhas palavras não passarão.
Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém os conhece:
nem os Anjos do Céu, nem o Filho;
só o Pai».

sábado, 14 de novembro de 2009

Sobe a montanha, vê a vista

Traz-me outra, que não seja essa. Dignifica a tua luta. Ou vai com as ondas, vai com os ventos. Descobrir onde te dói. A vida dir-te-á quanto. Do que sente, nunca mente. Ganhei, parece-te, como foi? Deitar fora a amargura? Oh, é o tempo que o consegue. Já nem a saudade a cura. Nem ela, a saudade, vem. Íngreme caminho esse. Remédio de toda a ferida.

DaLheGas

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

on certain things

some things must be spoken
in order to better be silenced.

some things must be murdered
in order to become truly loveable.

some things are equal to some other things
in the very same way
as love and hate
are simply a question of
8 interchangeable letters.

some things shall remain silent
to better become alive
whilst
some other things shall remain in language
only to better be buried.

i murder speechless words,
i bury boneless bodies,
just for the sake
of feeling some love
nurtured
within hate.

that's my one and only faith.
much better than no faith at all.


gi

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Deixa-me rir...

Uma sala, duas grandes janelas paralelas e uma árvore lá fora. Um céu permanentemente acinzentado, luz a entrar dum lado e doutro e um sofá às riscas com almofadas espalmadas de tanto uso. Dobrada, a um canto, uma manta de pelo falso, muito quentinha, para os dias passados em frente a uma televisão velha e temperamental. Um espelho de moldura dourada e livros, muitos livros. Em estantes, em pilhas pelo chão e espalhados em cima duma mesinha de café. Fotografias desbotadas, uma mesa de casa de jantar coberta com um pano indiano acastanhado, e muitos recortes de jornais e livros de palavras cruzadas. Em cima dum aparador com algumas garrafas de whisky vazias, encontra-se um rinoceronte-candeeiro em terracota pintada. Do outro lado da parede, uma gravura de Lisboa antiga. Alcatifa esverdeada, alguns tapetes semeados por cima das peladas e toneladas de sabor.

Nessa sala, a música é rainha. O DVD, que passou a funcionar como aparelhagem a partir do momento que esta se avariou, emite sem cessar, a partir das 7 da tarde, e de acordo com o apetite do dono da casa, todo o género de música anglo-saxónica a partir da década de 50. Percebe-se que o dono da casa tem um gosto educado e sabe bem o que ouve. Há nessa escolha musical uma certa tendência para a boa pop, para os velhos blues, algum rock n’ roll menos estridente, muitas baladas com letras cheias de poesia e, esporadicamente, um fado, um Javan, uma Rita Lee ou alguns clássicos franceses.

Mas nessa tarde, nessa mesma sala, aproveitando a ausência do dono da casa, uma mulher chora. Sentada no chão, de pernas cruzadas e a cabeça enterrada nas mãos, chora ao ouvir a Sade: “… you think I’d leave your side, baby, you know me better than that; you think I’d leave you when you are down on your knees, I wouldn’t do that …”.

Mas porque chora esta mulher? Pode-se chorar por tantos motivos .... será que está perdidamente apaixonada e a suavidade, a doçura, do By your Side a invade até à alma? Terá perdido um amigo especialíssimo, daqueles que deixam um vazio insubstituível para o resto da vida? Terá sido despedida e não tem dinheiro para pagar o quarto em que vive, sendo obrigada a voltar à sua Ucrânia natal? Estará feliz porque acaba de entrar em Harvard concretizando assim um sonho de toda a vida? … Nunca o saberemos. Do sítio onde estamos, não lhe podemos ver a expressão…



pcp

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Pensamentos impensados

Tinha uma colecção de CD's, com música clássica, a todos os títulos notável; até se gabava de ter as obras completas de Schubert.

Quase toda a gente sabe que Fernando Pessoa foi contactado para escrever um "slogan" para a Coca Cola, mas muito poucas pessoas sabem que Alexandre Herculano também foi contactado para fazer uma frase publicitária para o Quitoso, que não foi publicado pois só lhe saiu Lendeas e Narrativas.

Se quiser comprar um avental será que posso fazê-lo na Loja do Grande Oriente Lusitano?

O Dr. Watson passava a vida aboletado em casa do Sherlock Holmes; para agradecer dizia: Holmes sweet Holmes, there is no place like Holmes.

Seccionista é o sexo dos judeus.

Para se abrir a gruta de Ali Babá devia dizer-se "abre-te sésamo". Já para a morgue é ABRACADAVER.

SdB (I)

Livros dos dias que correm...

O último livro de Rita Ferro. Para divulgarem como quiserem e puderem.

Anúncios dos dias que correm...

Tem de ser visto até ao fim...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O baile dos sem-ninguém

Toda a gente sabia o que lá acontecia, mas ninguém falava sobre isso. Alguns já lá tinham ido, mas não comentavam. Quem por ali passava sem conhecer, via mais uma porta fechada no meio de prédios deixados ao abandono, quem passava conhecendo, via os sonhos que se abriam para lá dessa porta.

Chamavam-lhe o baile dos sem-ninguém. E não era nem mais nem menos que isso. Uma banda debitava ritmos que apelavam à dança, e quem lá estava dava-lhes uso. Tango, para os mais arrojados, gavotte para os mais conservadores. Samba, para os animados, valsa para os cabisbaixos. Foxtrot, para os americanos, paso doble para os europeus.

Havia de tudo para todos os gostos. Ali, cada um podia ser quem quisesse, não havia olhares julgadores nem segredos sussurrados entre dentes.

Iam lá para fugir do ingrato de uma busca que parece não ter fim, ou apenas para tentar encontrar alguém igual. Alguns, por sua vez, iam lá arejar o coração e tirar o pó a algumas vergonhas.

As portas estavam sempre abertas e todos eram bem-vindos ao baile. Não era preciso convite ou cartão de sócio, só conhecer alguém que já lá tivesse ido e estivesse disposto a partilhar a morada. Não vinha anunciado nas páginas amarelas. Não por vergonha, apenas como tentativa de tentar manter o local como uma espécie de segredo bem guardado que só se revela em confissões ciciadas, e que começam por ‘o que vou dizer-te não podes repetir a ninguém’.

E porque nesse baile nem tudo é ciúme ou desencontro, foram muitos os que de lá saíram com alguém pela mão. Havia noites em que uma estrela brilhava para alguns e, entre os passos de dança e os compassos da banda iam-se juntando, até que a certa altura deixavam de pertencer ao baile dos sem-ninguém. Porque essa era a única condição de entrada.

SdB (III)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O consultor

O nome dele surgiu por puro acaso num jantar social. Há instantes que são marcantes, porque determinam o fluxo de uma conversa que parece inexistir na mente dos interlocutores. Num minuto, o Rúben era alguém que não fazia parte das probabilidades de conversa; num repente, alguém menciona o seu nome a propósito de uma ninharia e já toda a gente o conhecia, afadigando-se em comentários que gravitam entre a curiosidade e o elogio.

Ninguém sabe exactamente de onde veio este homem dos seus quarenta anos, engenheiro de formação, com uma cabeleira longa e loira toda penteada para trás. Olhando para ele, poderia sugerir-se um encontro fortuito num espectáculo de música alternativa, numa peça de teatro levada à cena por um grupo rebelde, numa exposição de pintura que olha para o abstracto com um ar de ligeiro enfado, porque a entende demasiado conservadora.

Mas o Rúben, por mais estranho que possa parecer, surgiu na Igreja. Ao princípio sentava-se na penumbra de um lugar discreto, tendo avançado posteriormente para o centro do palco, se assim se pode dizer sem que o desrespeito atinja foros de exagero. Ao fim de algumas semanas, este homem das ciências, a trabalhar numa empresa de consultoria, oferecia-se para a segunda leitura dominical, cujas características próprias casam melhor com uma voz masculina.

Um fiel novo na casa de Deus é sempre motivos de alegria. Ninguém conhecia o passado do Rúben, e ninguém falava nisso, como se fosse um tema de conversa que devesse ficar na meia-luz de uma qualquer reserva. Há vidas que não queremos esmiuçar, e essa decisão é uma entremeada composta pelo respeito da privacidade alheia e pelo temor da caixa de Pandora.

O Rúben tornou-se conhecido pela disponibilidade para ajudar, pela farta gaforina e, também, pela presença repetida nos vários serviços dominicais. Era visto na missa das nove e das dez, ou do meio-dia e meia e das seis da tarde, ou das onze e das treze. O Rúben era visto, e esta expressão não é apenas o arrumar livre de palavras singelas. Ele era, de facto, visto, porque não passava despercebido. Para completar este ramalhete de características, o Rúben era simpático, conversador, discreto mas presente, exaustivamente democrático nos seus contactos, pois falava com toda a gente por igual, fossem ricos e pobres, condes e operários, padres e leigos, cultos e ignorantes. Como se tivesse o gene da abertura humana no seu esplendor, ou como se lhe faltasse a enzima que, em todos nós, faz marcar a diferença com que olhamos os outros e materializamos a abordagem.

Toda a gente gostava do Rúben, e não hesitavam em lhe manifestar esse apreço. Apreciavam-lhe a educação e a disponibilidade, a afabilidade e a prontidão, a generosidade e o sorriso. E o Rúben sorria numa humildade contida, como se todos os elogios fossem um exercício de um exagero de generosidade imerecida e embaraçante.

Nota: Continua na semana que vem

JdB

domingo, 8 de novembro de 2009

A viúva

EVANGELHO – Mc 12,38-44

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus ensinava a multidão, dizendo:
«Acautelai-vos dos escribas,
que gostam de exibir longas vestes,
de receber cumprimentos nas praças,
de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas
e os primeiros lugares nos banquetes.
Devoram as casas das viúvas
com pretexto de fazerem longas rezas.
Estes receberão uma sentença mais severa».
Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro
a observar como a multidão deixava o dinheiro na caixa.
Muitos ricos deitavam quantias avultadas.
Veio uma pobre viúva
e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava,
mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha,
tudo o que possuía para viver».

sábado, 7 de novembro de 2009

Sim, são os homens

Não. Não estou zangado com ninguém. Nem cansado dos homens, nem desesperançado deles. Não vim ver o mar, nem esquecer o mundo, sentir o silêncio ou carpir a solidão. Fazei o regabofe que quiserdes. Ri de mim, ri de todos, dai ouvidos a quem vos apetece. Se vos alegra a notícia de que tudo está perdido, dançai gaivotas, à vontade, essa canção.

Olhai atentamente para nós. Todos farinha do mesmo saco. Carne e osso, alma e coração, medo e ambição, tentando apanhar o melhor grão. Como vós, aves do céu. Como vós, gente com asas. Como vós, atraídos para um alvo. De peito aberto, acreditando. Picando o voo, caímos na emboscada, mergulhamos na tentação. É só isso, gaivotas. E então?

DaLheGas

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

sim, isto era um homem

eras jovem, nesses dias.
descobrias o mundo como nos versos adolescentes que agora mimetizas,
recordação na ponta dos dedos de qualidades há muito perdidas
- como a inocência.

eras jovem, nesses dias.
cada disco novo era, para ti e para os teus amigos, uma quase epifania,
a mais bela das mais belas catedrais há muito esquecidas,
- uma religião inteirinha ready made.

eras jovem, nesses dias.
rezavas ao ian, ao jim, a todos esses heróis geracionais,
que os mais velhos passavam aos mais novos,
- o santo graal mais precioso

bebido em volta das colunas de som.
(e tu,
crente entre os crentes,
como anos mais tarde
perante o amor.)

eras jovem, nesses dias.
o mundo ajoelhava-se perante ti (here come the young men!),
e era tudo o que precisavas de saber,
- mesmo que o verbo certo fosse, sabes hoje, sentir.

eras jovem, nesses dias.
e, descobrias maravilhado,
que ainda eras um homem.

um homem,
nesses dias.

um homem,
por uns dias.


gi

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, this week I present an American icon, a legend in his lifetime, the Man In Black. Perhaps it is difficult for non-Americans to fully appreciate the impact Johnny Cash had in his own country. Certainly he did not appeal to everyone, he was full of contradictions, devoutly religious and a family man, but a hell-raiser, a drinker, a drug abuser. He was an anti-authority rebel, but he was a friend of every US President.

But he had an ability, through his songs, to be a spokesperson for more than one generation, for farmers, for immigrants, for the human rights of prisoners, for the ordinary god-fearing working class American. And he embraced many musical styles: country, folk, rock & roll, rockabilly, blues, gospel. The Man In Black had soul, empathy, a brutal honesty, a humanity that recognised and could be recognised by anyone.

The 2 songs I have chosen are from his final year, suffering ill-health and the recent death of his wife when he was reflecting on his long hard life.

The first song, Hurt, is not a comfortable song. It is full of regret and pain, but it is such an honest and powerful meditation on his life and imminent death. Some people have said that this song and video is his perfect epitaph.


I hurt myself today to see if I still feel
I focus on the pain the only thing that's real
the needle tears a hole the old familiar sting
try to kill it all away but I remember everything

what have I become?
my sweetest friend
everyone I know goes away in the end
and you could have it all, my empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns upon my liar's chair
full of broken thoughts I cannot repair
beneath the stains of time the feelings disappear
you are someone else
I am still right here

what have I become?
my sweetest friend
everyone I know goes away in the end
and you could have it all, my empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

if I could start again a million miles away
I would keep myself
I would find a way



The second song, I Hung My Head, is also a sad story, about a young man who makes a stupid unintentional mistake and has to pay the ultimate penalty. And yet it is full of the empathy and humanity that Johnny Cash embodied, and carries his personal conviction of remorse and redemption. I think this is a perfect poetic lyric, and a greater epitaph for what JC stood for.




I hope you enjoy.

A próxima...

po

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Morte nada é...

Foi hoje, mas há oito anos.

A leitura seca de um papel oficial diz-nos que foi ao primeiro minuto desse dia de hoje, mas há oito anos. Sinal, quem sabe, de que a ocorrência importante – eternamente importante – abria o dia, como que a marcar o ritmo da jornada que se seguiria, como que a assegurar a secundaridade de todos os outros acontecimentos.

Já me passaram pelo coração, pela alma, pelos olhos e pelas contas de vários rosários oito quatros de novembro. Durante muito tempo misturaram-se a convicção e a descrença, a esperança e o desencanto, o sossego e a angústia, como se fosse difícil discernir um certo entre tantos sentimentos que nos enchem o íntimo. No fundo, como se fosse possível discernir…

Salva-nos, acima de tudo, a Fé, essa firmeza inquebrantável de que nada acaba, porque a eternidade não se compadece com dimensões humanas. Foi cheio dessa certeza num Deus que não é senão amor que escrevi, a um grande amigo, uma frase revestida de uma convicção profunda e inabalável:

Nada se esgota no corpo vivo de onde se vê a energia a sair; nada se anula na mão que se deu e onde os dedos não fazem força porque agarraram já outra realidade.

Sabes, estou certo – estou absolutamente certo – de que em momento algum desse minuto um do dia quatro de novembro de hoje, mas há oito anos, houve um vazio, uma ausência, um nada. Para os mais cépticos ou mais desejosos do que se prova, do que se palpa, do que se mede, houve apenas uma passagem do lado de para o lado de lá, qulquer que ele seja. Mas não para mim, porque vivo inundado dessa felicidade imensa de crer em algo mais, porque caminho bafejado pela Graça de acreditar no que não vejo. Quando franqueaste a porta que dava acesso a uma realidade que só podemos imaginar, tinhas tudo à tua espera: o amor infinito, a paz de uma dimensão superior, Nossa Senhora, Mãe de todos nós, que abraça os mais pequenos a quem chama sempre seus.

Hoje, apesar de tudo, olho mais para o Céu, esse destino último da santidade que se constrói na terra, lugar etéreo onde vivem os que me foram mais importantes. O paraíso está ali, ao estender de uma mão, na recitação tantas vezes apressada de uma oração improvisada, no olhar que se derrama por aqueles que são os nossos próximos, na certeza de que a Morte se vence com um sorriso de esperança e uma certeza de dias mais radiantes.

Não rezamos por ti, mas rezamos-te. Não pedimos por ti, mas pedimos-te. Certos do Pó do Amor que não cessas de nos derramar, vivemos confiantes no discernimento e na força que nos ofereces, sempre que te lembramos com a saudade mansa de quem vive dentro do nosso coração. Nunca nos pertenceste; foste sempre uma dádiva, e só somos verdadeiramente donos das coisas quando delas sabemos abdicar.

Obrigado por teres passado pela nossa vida e, também, por nos teres mostrado a face visível de um Deus que não é senão amor.

Foi hoje, mas há oito anos.

JdB

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Varredor de escadas

Sei, desde a segunda classe, que não sou esperto que baste para nada de jeito. A garantia foi da professora Maria Arminda que, entre as reguadas exímias com que comummente me presenteava a seguir aos ditados, cantava na sua voz fininha e pouco reveladora do poder do seu bíceps, Para presidente só vai gente inteligente, hás-de ser varredor, e há-de ser por favor!

Da escola, para além do desenho das letras do meu nome, só me ficaram os números. Acabei por aprender à força de contar as reguadas, que Quem não souber quantas apanhou, vai apanhar a dobrar.

Gosto de pensar em mim como um contador de escadas, de dias e de pessoas. Isso é lá alguma coisa de jeito?, perguntou-me o Sr. Albino padeiro, Se varres, és varredor.

Entre os dias, conto os Domingos, que são quando fico em casa a ver televisão. Ver televisão é intervalar sestas com idas ao armário dos biscoitos e à janela da cozinha espreitar a hora do banho da Marília, filha do Sr. Albino. Antes da minha avó morrer, criei o hábito de sair sempre a tempo de não perder o início da bola em casa dela, de onde voltava sempre com uma marmita cheia de sopa prá semana. Ando mais magro, mas ainda não sei se é por causa do Benfica ou se é pela falta que a sopa tem feito e, ao fim das tardes de Domingo, ainda parece que falta fazer qualquer coisa.

Além disso, faço contas aos dias em que há mais pessoas a pedir licença para descer as escadas que aquelas que não dizem nada, e aos dias em que acontece o contrário. As contas dos dias são iguais às contas das pessoas que me sorriem, portanto.

Os primeiros são uma soma fácil, apesar de eu fazer batota nas contas quando a Marília passa, conto-a quando desce e quando torna a subir, como se fossem duas. As contas aos outros já devem andar enganadas, que eu levei muitas reguadas, mas não a bastantes para números tão grandes.

As escadas, conto-as para me entreter. Nunca tinham sido tantas que eu não soubesse dar-lhe número, tirando na terça-feira, a primeira vez que varri a escadaria que vai da Fonte da Ribeira à Igreja Matriz. Bom dia Quim Janeiro, sorriu-me ela lá de cima, toda flores de tecido esvoaçantes, Porque é que estás aí parado a olhar para o degrau? Respondi-lhe num gaguejo que estava a contar as escadas, mas que não sabia se o número que vinha a seguir ao cinquenta e nove era o sessenta ou o setenta, que são muito parecidos. Sessenta, claro! Não devias contar degraus, devias era escutar o meu pai.

O Sr. Albino tinha-me convidado para ajudante na padaria, És mais esperto do que pensas Quim, contas as pessoas pelos sorrisos, de todos os rapazes do bairro, só tu davas para meu ajudante, na semana em que fiquei sem a minha avó.

A Marília sentou-se comigo depois de desenhar, no degrau, um sessenta, com um bocado de telha, e disse-me ao ouvido, O meu pai tem razão, és o rapaz mais esperto que nós conhecemos, sabes contar as pessoas pelo que valem, não pelo que aparentam valer.

Desde terça-feira que vou esticando o meu, outrora classificado de curto, fio de raciocínio, para tentar perceber o Sr. Albino e, sobretudo, a Marília.

Hoje fui entregar a vassoura de verga e o colete verde à sede da Junta, agradeci ao senhor presidente, que devia ser esperto quando andava na escola, a amabilidade com que fui tratado desde que comecei a trabalhar como varredor, ao que ele, soberano, respondeu, Tu lá sabes Janeiro, sempre me fez confusão, aquele Albino, é mais preto que a barriga do forno onde coze o pão, tem o cabelo enrolado como o das vergonhas da gente e tem mãos de urso, eu não confio nessa gente, mas tu lá sabes, tu lá sabes.

Também fiquei sem perceber o presidente, mas pouco me importo, afinal, posso sempre contar pãezinhos, prevejo que vá recuperar o peso que tenho perdido e, no fim de contas, acabaram-se as somas difíceis de gente que não sorri nem pede licença para passar, que na padaria só moram o Sr. Albino e a doce Marília.

ZdT

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O músico

Habituei-me a vê-lo, nos últimos dois ou três anos, numa das ruas mais movimentadas da zona onde vivo. Relativamente novo, pelos quarenta anos, aparentou sempre um ar distinto, para o qual contribui o ar lavado e as roupas em bom estado, não obstante algum desenquadramento com a moda.

Entabulei conversa com ele um dia, quando o vagar do meu fim de tarde o permitiu. O cão ao seu lado sorriu-me num abanar de cauda afável e o Alberto - assim se chama o rapaz - agarrou na bengala para que não houvesse o risco de ela ficar fora do seu alcance. Rodou a cabeça para captar melhor o som da minha voz e, perdoe-se a contradição, olhou-me por detrás de uns óculos escuros de cego. Trocámos meia dúzia de palavras de circunstância e afastei-me rapidamente, porque o Alberto tinha de trabalhar para poder facturar, passe a expressão demasiado economicista para quem está incapaz de ver o mundo, limitado a uma imaginação cuja fertilidade tem dias.

Durante cerca de uma hora ouve-se fado tocado com o maior sentimento. De guitarra na mão, o Alberto percorre as melodias que revelam a alma portuguesa funestamente melancólica. A qualidade é francamente elevada, pelo que as pessoas param, encostam-se a uma parede, ouvem com deleite. No fim, aproximam-se do músico, elogiam-lhe a arte, afagam o cão, deixam uma recompensa generosa na caixa da guitarra.

Quando o sol se põe e o movimento diminui, o Alberto recolhe, acompanhado do cão e de uma bengala, auxiliares que lhe tacteiam os obstáculos e o guiam na selva urbana. Ao chegar a casa, um apartamento herdado num bairro de classe média, cumpre religiosamente as suas rotinas: um bom prato de comida que o cão chamado Esperto merece recompensa; uma música suave para acalmar a tensão do dia e, por vezes, um banho quente e longo que revigora e relaxa.

Quando o noticiário das nove da noite está quase a terminar, chega a Marília, a quem o Alberto beija com uma sensualidade e um ardor que ganhariam foros de erotismo no cinema. Percorre-lhe o corpo com uma mão ávida e carregada de desejo, como se o tacto assumisse foros de grandeza, alcandorado ao mais importante de todos os sentidos que a natureza nos oferece.

Correu-te bem o dia, Alberto?

Não me posso queixar…

Percorrem então, lentamente, os canais de uma televisão maçadora e repetida. Comentam as notícias, as pessoas, as roupas, os cabelos, as actrizes. Alberto fala dos espectadores que o ouvem tocar, dos visitantes assíduos, dos esporádicos, da dimensão das esmolas.

Ao fim da noite, o homem que domina a guitarra portuguesa, cujos dedos reproduzem melhor do que ninguém o Mouraria e o Menor, já não tem óculos escuros, e os seus olhos azuis apreciam a geografia física da namorada.

Estás melhor do que nunca, Marília.

Abraçam-se e riem muito os dois, numa voragem de emoções fortes. A Marília enamorada doentiamente por um homem vocacionado para o teatro e que sempre enganou toda a gente. O Alberto, com uma cegueira só de paixão, sem conseguir imaginar o que seria não ver o que as mãos sentem.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

domingo, 1 de novembro de 2009

As bem-aventuranças

EVANGELHO – Mt 5,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

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