domingo, 18 de agosto de 2019

20º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 12,49-53

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize.
Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra?
Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três.
Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

sábado, 17 de agosto de 2019

Pensamentos Impensados *

Publicidade
Gosto daquele anúncio em que uma velhota diz eu conto com a continência.

Asilo de 3ª idade
Diz uma enfermeira para a outra: eu conto com a incontinência.

Bola
Os 3 grandes do futebol português são o Porto, o Benfica e os outros.

Justiça
Isaltino Morais tem muitos recursos mas continua preso.

(des) Fiat lux
Os que decidem fazer apagões consideram-se iluminados.

Big foot
Calçava 45; era homem com P grande.

SdB (I)

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* publicado originalmente a 11.05.2013

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

EVANGELHO - Lc 1,39-56
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

CAPELA EM FORMA DE TENDA TORNOU-SE COQUELUCHE DE ARQUITECTURA

Portugal ganhou, este ano, o International Architecture Awards na categoria de culto espiritual, a par de quatro asiáticos: Japão, Singapura, Coreia do Sul e China(1). Foi, por isso, o único europeu distinguido, por mérito da originalíssima capela inaugurada, em 2017, para acolher um encontro de escuteiros decorrido em Idanha-a-Nova. Para esse concelho, sede do escutismo português, o atelier dos arquitectos Pedro Ferreira e Helena Vieira desenhou uma estrutura em forma de tenda fixa sem portas, orientada de nascente a poente para aproveitar bem os primeiros e os últimos raios solares. Tornaram-se os melhores momentos para estar na capela, iluminada por um sol mais dourado e subtil. Um fio de água corre por um rego em direcção ao altar, no alinhamento da cruz implantada do lado de fora, a Oriente. 


Entre as proezas da obra está o aconchego especial daquelas duas paredes inclinadas para compor um triângulo escancarado sobre o arvoredo esguio que o rodeia. O revestimento em madeira clara faz um contínuo com a mata circundante. Naquele planalto arborizado, a cabana rodeada de céu acolhe os forasteiros da região e os acampados que ali se reúnem, vindos de diferentes pontos do globo.   

A todas as horas, aquele ‘capuz’ forrado de ardósia escura no exterior consegue ser convidativo, no estilo alegre e desportivo dos escuteiros. Até à noite, a luz quente dos focos que iluminam a partir do chão mantêm caloroso o pequeno-grande templo dedicado a Nossa Senhora de Fátima. Respira-se a sobriedade e o encanto da Senhora Guardiã do espaço. A colecção de imagens no site do atelier dos arquitectos explica o efeito:

In https://planohumanoarquitectos.com/capela-de-nossa-senhora-de-fatima



Explicam os projetistas: «A água atravessa todo o espaço da capela, num trilho que se desenvolve em direção ao altar - o lugar central de todo o espaço celebrativo cristão -, e depois para a paisagem, direcionando o utilizador para a cruz, que fica do lado de fora da capela, no mesmo alinhamento».


O prémio mais recente corroborou o reconhecimento internacional da ousada construção, que continua a somar palmarés por todo o mundo. Há um par de anos, recebeu o do Museu de Arquitectura e Design de Chicago na modalidade de edifícios religiosos, e do Centro Europeu para a Arquitetura, Urbanismo, Arte e Design. Seguiram-se os três galardões ganhos no concurso internacional Architizer A+.

Lembrando a frágil tenda de Abraão, uma simples coberta em trapézio de traçado dinâmico continua a ser suficiente para receber quem vem rezar. Será com certeza mais alta e aberta que o resguardo antiquíssimo de há 4 mil anos, mas não menos sóbria nem menos disponível para receber quem se queira aproximar.  


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________

 (1)   Os premiados asiáticos foram: a igreja anglicana de Luoyuan (China), o templo Golden Pagoda (Singapura), The Spiritual Healing House (Coreia do Sul) e Hasshoden - Charnel House In Ryusenji Temple (Japão).
Curta-metragem à Capela:

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Textos dos dias que correm

O Valor do Silêncio

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

***

Ouvi-los a Todos, no Silêncio

Detesto a acção. A acção mete-me medo. De dia podo as minhas árvores, à noite sonho. Sinto Deus - toco-o. Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta e que tanta força tem...
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.

Raul Brandão, in 'Húmus'

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Duas Últimas numa espécie de saudosismo

Há cerca de 20 anos, talvez, fomos com os dois filhos mais velhos a Londres. Um dia desafiaram-me para ir jantar KFC, algo que nunca tinha experimentado e que, em abono da verdade, não sabia bem o que era. Impus uma condição preguiçosa: a de não ir para uma fila, pelo que me sentaria numa mesa e eles trariam o almoço. Quando o tabuleiro chegou limitei-me a perguntar: e onde estão os talheres? A risota foi geral e a gordura escorreu abundantemente pelos dedos das mãos.

Dois anos depois, talvez (não me lembro das datas certas) via-se muito o Rei Leão lá em casa. A minha filha mais nova via o filme, rebobinava a cassette (era o tempo do VHS) e via o filme outra vez; e outra vez e outra vez... Via-se muito Rei Leão, falava-se muito de Rei Leão e as memórias que todos temos dela também passam por esse filme.

Ontem fomos com três raparigas que me são próximas (10, 10 e 14 anos) a um programa familiar: jantámos KFC seguido do Rei Leão em 3D. Não tive de ir para a fila encomendar o jantar, voltei a perguntar, por graça, onde estavam os talheres e a gordura escorreu-me abundantemente pelos dedos, tal como tinha acontecido há 20 anos. E voltei a encantar-me, sobretudo pelas memórias, com o Rei Leão, com a história, as músicas, a mensagem, a tecnologia.

Ontem recuei 20 anos, mais ou menos. Num certo sentido o mundo era mais perfeito e, num certo sentido também, poderia lembrar-me de Pessoa, quando ele dizia "eu era feliz e ninguém estava morto." Ontem recuei 20 anos, levado pelo frango gordurento, pelo Timon, pelo Simba, pelo Zazu e outros personagens que fazem parte - ainda que forçosamente pequena - do meu ciclo da vida. Por isso este post lembra as pessoas que povoam essas minhas lembranças, em particular, mas não exclusivamente, os meus filhos.

JdB

   

domingo, 11 de agosto de 2019

19º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 12,32-48

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Não temas, pequenino rebanho,
porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino.
Vendei o que possuís e dai-o em esmola.
Fazei bolsas que não envelheçam,
um tesouro inesgotável nos Céus,
onde o ladrão não chega nem a traça rói.
Porque onde estiver o vosso tesouro,
aí estará também o vosso coração.
Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas.
Sede como homens
que esperam o seu senhor voltar do casamento,
para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater.
Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar,
encontrar vigilantes.
Em verdade vos digo:
cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa
e, passando diante deles, os servirá.
Se vier à meia-noite ou de madrugada,
felizes serão se assim os encontrar.
Compreendei isto:
se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão,
não o deixaria arrombar a sua casa.
Estai vós também preparados,
porque na hora em que não pensais
virá o Filho do homem».
Disse Pedro a Jesus:
«Senhor, é para nós que dizes esta parábola,
ou também para todos os outros?»
O Senhor respondeu:
«Quem é o administrador fiel e prudente
que o senhor estabelecerá à frente da sua casa,
para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo?
Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar,
encontrar assim ocupado.
Em verdade vos digo
que o porá à frente de todos os seus bens.
Mas se aquele servo disser consigo mesmo:
‘o meu senhor tarda em vir’;
e começar a bater em servos e servas,
a comer, a beber e a embriagar-se,
o senhor daquele servo
chegará no dia em que menos espera
e a horas que ele não sabe;
ele o expulsará e fará que tenha a sorte dos infiéis.
O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor,
não se preparou ou não cumpriu a sua vontade,
levará muitas vergastadas.
Aquele, porém, que, sem a conhecer,
tenha feito acções que mereçam vergastadas,
levará apenas algumas.
A quem muito foi dado, muito será exigido;
a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».

sábado, 10 de agosto de 2019

Pensamentos Impensados *

Os brilhantes são internos
O Sul da Europa está como está; será que se não houvesse tantos brilhantes economistas (classificação dos comentadores), a Europa seria uma colónia de Burkina Fasso?

Dependências
Os devotos de S. Joana d'Arc serão drogados? Pelo menos gostam da heroína.

Dinheiros
O Governo não consegue acabar com o enriquecimento ilícito e ajuda o empobrecimento lícito.

Restauros
Em 1 de Dezembro de 1640 houve 40 empresários restauradores que levaram a bom termo uma empresa, sem se preocuparem com o IVA da restauração.

Proibições
Se as armas químicas são proibidas, como é que mato as moscas e os mosquitos?

Metamorfoses
Fazer das strippers furacão, é objectivo dos treinadores das meninas.

SdB (I) 

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Publicado originalmente a 31.08.203

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Poema dos dias que correm *

Carpe Diem

Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido...

Walt Whitman, tirado daqui

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Textos dos dias que correm

Paredão do Estoril, ontem pelas 7.45h (tirada com telemóvel)

Paredão do Estoril, ontem pelas 7.45h (tirada com telemóvel)

Não Deixes Que Metam o Nariz na Tua Vida

Quando falas ou simulas falar de ti próprio e amalgamas passado, presente, futuro, há sempre os que perguntam se o que contaste é verdade ou não. Nunca indagam se vai ser verdade. O que lhes interessa é saber, com a curiosidade dos intriguistas, se o que se passou (ou parece ter-se passado) se passou mesmo contigo. É um erro de gente vulgar. Parasitários ou não, qualquer invenção ou patranha, qualquer «mentir verdadeiro» é acepipe biográfico, é pretexto para te enfileirarem na nulidade biográfica que é a deles próprios e tecerem incansavelmente histórias a teu respeito.
Não te deixes seduzir pelo gosto da conversa. Essa pequena gente não merece a mais pequena atenção, nem tu precisas de espectadores para o salutar exercício diário de falar por falar.
(...) Não deixes que metam o nariz na tua vida. Caso contrário, vais ficar cheio de gente, com a sua vida escassamente interessante. O tombo da vida vulgar já foi feito por escritores como Camilo. E tenho a impressão de que, no essencial, a vida vulgar continua a mesma.
Desunha-te a escrever (olha que já tens pouco tempo!), mas fá-lo com a discrição e a reserva de quem não se dá às primeiras. É outro exercício salutar.

Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Duas Últimas

Este post é uma manancial de dimensões verdadeiras e contraditórias: um esquimó pode cantar o fado? Uma menina de 7 anos consegue cantar o La Boheme do Aznavour? Saberá um português cantar adequadamente as vésperas  de Rachmaninov ou um escocês atirar-se ao fandango?

Taisia Finenkova e Dmitry Astafjev dançam um tango. Não têm nome argentino (ou mesmo uruguaio, para alimentar uma discussão). Não sei se o fazem bem, talvez o façam com garbo e eu seja apenas influenciado pelos nomes, que me soam a uma espécie de contradição em termos.

Por último, mas não menos importante. O nome do tango chama-se el gordo triste. Questiono-me de onde lhe virá essa tristeza? É pré-obesidade ou pós? Nasceu assim ou tornou-se assim? Olho para mim e sei o que digo: nem todo o gordo é triste, nem todo o magro é elegante. A única coisa que sei é que o Verão está estranho - e eu sigo a tendência.

JdB

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Versos dos dias que correm (ou fado, canção de vencidos)

Drama de uma velhinha

Senhor Juiz... o meu filho
Não me bateu nem roubou
Com alguém já disse aqui;
Tropecei num empecilho
E ele até me levantou
No momento em que caí

Não tem profissão marcada
Mas na sua triste rota 
Mal ou bem lá se governa
E nunca me exigiu nada
Para perder na batota 
Ou p’ra gastar na taberna

É mentira o que se diz!
Este arranhão sem valor
A marcar o meu desgosto
Não chega a ser cicatriz
É uma ruga maior
Entre as rugas do meu rosto

Senhor juiz... eu sou mãe
E juro que o meu menino
Não me roubou nem bateu
O cadastro que ele tem
Traduz o negro destino
Da sorte que deus lhe deu

Neste conto se adivinha
Mercê de frases tão frias
O destino dum ladrão
E o drama de uma velhinha
Que passa todos os dias
A caminho da prisão

Versos de Carlos Conde

***

Janela da Vida

Para ver quanta fé perdida
E quanta miséria sem par
Há neste orbe, atroz ruím
Pus-me à janela da vida
E alonguei o meu olhar
P´lo vasto Mundo sem fim.

Vi dar aos ladrões valores
E sentimentos perdidos
Nas que passam por honradas
Vi cinísmos vencedores
Muitos heróis esquecidos
E vaidades medalhadas

Vi no torpor mais imundo
Profundas crenças caíndo
E maldições ascendendo
Tudo vi neste Mundo
Vi miseráveis subindo
Homens honrados descendo

Esse é rico, e não tem filhos
Que os filhos não dão prazer
A certa gente de bem
Aquele tem duros trilhos
Mas é capaz de morrer
P´los filhinhos que tem

Esta é rica em frases ledas
Diz-se a mais casta donzela
Mas a honra onde ela vai
Aquela não veste sedas
Mas os garotitos dela
São filhos do mesmo pai

Por isso afirmo com ciso
Que p´ra na vida ter sorte
Não basta a fé decidida
P´ra ser feliz é preciso
Ser canalha atá à morte
Ou não pensar mais na vida.

Versos de Carlos Conde

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Textos dos dias que correm

Tiroide

«O homem é um ser espiritual que sonha a eternidade, e cria obras eternas, mas basta a perda da pequena glândula da tiroide para o transformar num idiota.»

É uma frase algo forte, esta do teólogo e filósofo suíço Emil Brunner, nascido em 1889 em Zurique e falecido naquela cidade em 1966, extraídas do seu ensaio “O homem em revolta”.

No entanto, estas palavras adquirem a sua trágica verdade quando, como várias vezes me aconteceu na minha já longa vida, se têm diante de si pessoas admiradas pela sua inteligência e capacidade, reduzidas a uma sombra humana, por causa de uma doença ou da velhice.

Comove-me sempre a exaustão daqueles que antes falavam em público brilhantemente, escreviam, viajavam de automóvel e avião, e que agora balbuciam com dificuldade palavras mínimas, assinam um documento quase como se fosse tarefa impossível, estão bloqueados numa cadeira de rodas.

A meditação sobre a fragilidade da criatura humana, nobre e gloriosa, mas também frágil como uma cana (para usar a célebre imagem de Pascal), deveria atravessar de vem em quando a nossa mente, sobretudo quando estamos satisfeitos pelo muito que temos e fazemos.

É ainda o grande Pascal a recordar-nos nos seus “Pensamentos” que é precisamente essa a nossa grandeza: «Conhecer-se miseráveis, enquanto a árvore não o sabe. O homem sabe que é miserável; é por isso miserável porque o é; mas é bem maior porque o sabe».

Se este autoconhecimento fosse mais vivo, seríamos mais capazes de dar o justo valor às coisas, cairiam muitas ilusões, atenuar-se-iam orgulho e egoísmo, e compreenderíamos que há valores que permanecem para além da nossa força física, a prestação intelectual, a beleza exterior.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 02.08.2019

domingo, 4 de agosto de 2019

18º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 12,13-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
alguém, do meio da multidão, disse a Jesus:
«Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo».
Jesus respondeu-lhe:
«Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?»
Depois disse aos presentes:
«Vede bem, guardai-vos de toda a avareza:
a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».
E disse-lhes esta parábola:
«O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita.
Ele pensou consigo:
‘Que hei-de fazer,
pois não tenho onde guardar a minha colheita?
Vou fazer assim:
Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores,
onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens.
Então poderei dizer a mim mesmo:
Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos.
Descansa, come, bebe, regala-te’.
Mas Deus respondeu-lhe:
‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma.
O que preparaste, para quem será?’
Assim acontece a quem acumula para si,
em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

sábado, 3 de agosto de 2019

Pensamentos Impensados *

Armazém de retém
Sempre quisera ser coleccionador, mas nunca passara de um ajuntador de coisas. Conseguira meter, entre dois vidros, uma dor de cotovelo; numa caixa de ferro (a cause des mouches) tinha três cabelos de Sansão; de dois pesos e duas medidas conseguira comprar um dos pesos; na garagem, rodeado de extintores, tinha o carro de fogo onde Elias subiu aos céus; numa gaiola tinha uma pena das asas de Ícaro; tinha uma lasca da pedra filosofal; ouvira falar em tim tim por tim tim e conseguira um tim; tinha a folha de figueira que tapara as "partes" de Adão; mas a peça de que mais se orgulhava era uma ferradura do cavalo de Tróia.

Guarda pretoriana
Ainda gostava de ver uma passagem de Aníbal sem guarda.

Falhas
As pessoas com memória fraca devem usar uma agenda; o mais natural é esquecerem~se de consultar a agenda.

Homem suite homem
A grande maioria das pessoas é de fabrico caseiro.

Levanta-te e anda
A morte é irreversível; para Lázaro não foi.

Crise
A Segurança Social fechou creches; é caso para dizer creche e desaparece.


SdB (I)

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* publicado originalmente a 22 de Fevereiro de 2014

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Textos dos dias que correm

Escutar o silêncio

Falar do silêncio. Dita assim, a frase parece um paradoxo, uma contradição dos termos. Por outro lado, acontece como para todas as realidades grandes e essenciais: só se compreende bem colocando-o em confronto/contraste. Como a vida se compreende bem à luz da morte, assim o silêncio assume sentido se confrontado com a palavra.

Com a qual, contudo, se reconcilia, porquanto silêncio e palavra são duas formas de uma mesma coisa, a linguagem, que é por essência modalidade da comunicação, da relação que se cria entre nós e qualquer coisa que é “outra”, até com aquela parte de nós próprios que sentimos como região “diferente” e obscura para a qual não encontramos palavras. Não falamos nós de “voz” ou “som do silêncio”? Recorda-me uma bela canção, porque o silêncio é também música.

Não quero começar com divagações pseudofilosóficas. Ao escrever sobre o silêncio, vêm à minha mente duas experiências.


Escrevi uma poesia…

A primeira tem a ver com os anos distantes e felizes quando ensinava nos meios de comunicação. Recordo que alguns alunos, quando de alguma forma entravam em confidências, traziam-me bilhetinhos, dizendo-me: «Prof, escrevi uma poesia». Eram uma ternura. Tratava-se quase sempre de textos onde de vez em quando se ia até metade da linha, ou onde por vezes apareciam aqui e ali rimas. Ingenuidade, certamente, mas por trás das quais havia duas intuições importantes.

A primeira é que para fazer uma “poesia” é preciso que as palavras respirem em “espaços de silêncio”, que era a zona “branca” em que estavam imersas. A prosa, a narrativa, e também a descrição, podem ocupar toda a linha: a poesia não, porque a emoção de que nasce precisa de ser “protegida” de espaços de não-palavra.

Também a rima – eis a segunda intuição – tem a sua importância, porque a poesia deve, de alguma forma, “cantar”, e como consegui-lo sem fazer tilintar as sílabas umas sobre as outras? Mais raro é o aparecimento naquelas folhinhas de vestígios de ritmo, mas o essencial estava lá: é o importante é que o silêncio é pedido para fazer cantar os momentos fortes que queremos confiar à poesia.

A outra memória é musical. Aconteceu-me duas vezes nestes meses de escutar na rádio, entre o ofício da Vigília e o das Laudes, um magnífico prelúdio de Debussy, sugestivamente intitulado “De spas sur la neige” (passos sobre a neve), uma música que parece feita de ar, macia como uma névoa luminosa, leve como a própria inconsistência da neve, e – sensibilizou-me pela primeira vez – uma pequena célula de duas notas que se repete com a insistência confortante de uma presença familiar, ou que talvez faz pensar numa pessoa que caminha com ligeireza na neve.

Uma “só” pessoa, todavia, como a pega negra que faz de fulcro à sinfonia de brancos na belíssima “Pie” (a pega) de Monet. Soube depois que o pianista era o grandíssimo Arturo Benedetti Michelangeli. Não me tinha enganado: a execução era demasiado bela, mágica, quase uma experiência visionária! E aqui a ideia do silêncio colou-se a mim sobre aquela de uma leveza delicada, de uma solidão feliz e, ao mesmo tempo, de uma profundíssima paz.

É tempo, agora, de tentar sintetizar alguns significados do silêncio, e portanto o lugar que tem, que pode ou que deve ter na nossa experiência de vida. Terminei recentemente um ensaio sobre a “retórica do silêncio” como “linguagem para dizer Deus” na poesia de R.S.Thomas, e não é difícil fixar algumas conclusões.


O silêncio como entorpecimento

Há momentos na vida em que nos tornamos “mudos”, diante dos quais é-nos instintivo dizer: «Estou sem palavras!». Podem ser uma grande alegria ou um grande sofrimento: o elemento comum é a intensidade da emoção que nos deixa como inebriados, dolorosamente ou alegremente.

Pense-se no que acontece quando um luto imprevisto, a morte trágica ou precoce de uma pessoa querida nos tira a palavra, e a comunicação é deixada para os olhos ou para os abraços.

Pense-se quando, quiçá numa volta da estrada, ou após uma curva na montanha, nos encontramos imprevistamente diante de uma paisagem arrebatadora, que nos deixa sem palavras, ainda que talvez se balbuciem ou se “exclamem” monossílabos sem sentido.

Que sentido tem este silêncio? Porque tem sentido. E diga-se já: recorda-nos a pobreza, a “miséria”, para o dizer com S. Bernardo, das nossas “palavras” (veja-se o esplêndido n. 111 dos “Sermões vários”), quando somos excedidos por alguma coisa de tão grande, que o vocabulário, por muito volumoso que seja, se revela um pobre trapo inútil. É um silêncio que nos ensina a humildade, e que denuncia desapiedadamente a radical futilidade de muito falatório que hoje grassa em todo o lado. Paradoxalmente, é o silêncio a ensinar-nos que a palavra é uma coisa séria.


O silêncio como opção

Se se faz a experiência dos “benefícios” do silêncio, chega-se ao ponto de o escolher até ao ponto, em certo sentido, de o programar. Entre as vantagens do silêncio, acompanhado como irmã natural da solidão, há a de nos fazer “atentos” e/ou de nos colocar à “escuta”, não só através dos ouvidos, mas também dos olhos, que nos fazem ler os outros no seu rosto e nos seus gestos, além do que nas suas palavras.

Silêncio como ir ao encontro. Seja evocada a família dos termos que têm o verbo “tender” (do latim “intedere”) como coração: “atender/atenção” (cuidar de, ter em consideração, estar com atenção), “estender” (do interior par o exterior), “entender” (tender para o interior, apossar-se do sentido), “protender” (estender para a frente, alongar), incluindo-se as versões negativas de “contender” e “pretender”, em que a “tensão” se torna belicosa e agressiva.

Este estender-nos para aquilo que é outro e fora de nós é protegido e bem governado só pelo silêncio, essa “pausa” que perscruta sentimentos, instintos, objetivos que evitem recontros ou equívocos, sobretudo com as pessoas para as quais nos “estendemos”.


O silêncio como antena

É outra modalidade da anterior, e trato-a à parte porque não diz respeito tanto à relação com as pessoas (escuta), mas com as coisas e os acontecimentos. Nasce da habituação ao silêncio físico e à solidão como lugar no qual se reencontra, por um lado, o seu centro, e, por outro, como capacidade de colher esses momentos imprevistos e imprevisíveis a que chamamos “epifanias”. Só se não estivermos distraídos pelo ruído, externo e interno, chegaremos sem esforço, impercetivelmente, a descobrir um raio de beleza numa florzinha amarela, grande quanto uma ponta de dedo que desponta da fenda de uma parede de cimento, e talvez nos sugira uma reflexão sobre a força da vida.

Recordo que há alguns dias, durante uma leitura bíblica, o olhar escapou-me para um vaso de flores aos pés do altar, sobre o qual naquele momento tinha chegado da janela um raio de sol que as acendeu, isolando-as da penumbra. Instintivamente disse-me: que belo! A “palavra de Deus” não me dizia nada naqueles instantes, mas Deus estava a falar-me nas flores acesas pelo Sol.

Gostaria de acrescentar que – é sempre o poeta R.S.Thomas que o recorda –, como a solidão, também a lentidão é irmã do silêncio, permitindo-nos dirigir o olhar “para o lado”, onde está a acontecer um milagre. Cada um pense em como, além do ruído, a pressa é outra desgraça do nosso tempo…


O silêncio “con-centração”

Ruído e pressa são duas das coisas, entre muitas, que nos trazem para fora (dis-traem-nos) daquele centro em torno do qual devemos construir a unidade interior da nossa pessoa. O remédio é encontrar a maneira de nos con-centrarmos, porque só assim é possível navegar entre as tempestades da vida.

Quando parece que nos afogamos, pode caminhar-se com a cabeça fora da água que nos envolve apenas se os pés se apoiam sobre um fundo sólido. Esse fundo é garantido pelo silêncio, um “lugar” a construir e enriquecer com uma série de recursos que cada um deve saber encontrar. Porque um “silêncio vazio” é insuportável, e tem como fruto apenas a procura espasmódica de distrações, num círculo vicioso sem saída.

Os recursos são aquelas formas de “contemplação” que permitem povoar o silêncio até o apreciar, até sentir dele uma necessidade física. São a arte, a literatura, a música, que chamam o silêncio e ao mesmo tempo o alimentam, epifanias de beleza saboreadas a sós ou em conjunto, para lhes partilhar o bem-estar que delas deriva, e cimentar assim a amizade.


O silêncio repouso

Quando se percebe toda a potencial riqueza do silêncio, não é difícil compreender que ele “envolve” a palavra no sentido que é o terreno fecundo que a gera e, simultaneamente, o ponto de chegada mais alto da comunicação, quando as “palavras” acabam por ser inúteis, e até fastidiosas.

Num belo livro dedicado à figura do Card. Martini, intitulado “História de um homem”, o autor, Aldo Valli, conclui reconhecendo quanto é verdade que «amigo é aquele com quem se pode estar em silêncio». Sem embaraço, sem necessidade de mais». É o silêncio em que a ausência de palavras define com felicidade não um vazio, mas um espaço de comunhão profundamente partilhado em que se está bem.

Na poesia “The gap”, R.S.Thomas evoca um Deus que se defende da “agressão” dos homens que pretendem chegar até ele com uma “torre de palavras”. Aqui o silêncio rima com “mistério”, a entender como aquele espaço de sentido que nunca acabaremos de explorar.


O tempo e as férias

Estamos em tempo de férias, e aqui surge-me outro paradoxo, que na realidade é apenas aparente, como o que se declarou ao início na expressão “falar do silêncio”.

E é esse duplo significado que tem em latim o verbo “vacare”, que em francês deriva em “vacance” e em italiano em “vacanza”. Enquanto hoje o termo indica, na maior parte dos casos, um “vazio”, ou um tempo “livre do trabalho”, no latim não se tratava só de uma “liberdade de”, mas sobretudo de uma “liberdade para”, como que a dizer que a primeira podia ser condição para a segunda.

E o segundo sentido de “vacare” era o de ocupar-se de alguma coisa com toda a concentração possível para criar/produzir alguma coisa de belo e de útil. Torna-se assim significativo o contraste tantas vezes evocado na literatura monástica medieval entre “vacatio” e “vagatio”: a primeira é condição para usar melhor o tempo, a segunda é um fútil e estéril perder-se e desgastar-se naquela vã curiosidade que contrasta com a sã.

Não será o caso, antes de ir “de férias”, de perguntar-se, talvez, no silêncio, que uso entendemos fazer do tempo?

Nico Guerini
In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 31.07.2019

Dos discursos



Talvez, em bom rigor, a vida só ensine coisas a quem queira aprender. Parece-me isto um raciocínio de uma vulgaridade indiscutível. Mas, de facto, a vida só ensina quem quer aprender. E como se faz esta aprendizagem? Estando atento como um menino numa aula, porque a professora fala na linha do Oeste para todos os meninos, cita os sábios a todos os meninos, fala no fim da monarquia a todos os meninos. O que acontece é que só uns percebem que um comboio ou uma estação são mais do que uma organização de equipamentos e de espaços, só uns vêm na dinastia brigantina a possibilidade de um chiste maldoso ou de uma devassa invejosa da família alheia.

Ouvir o discurso de Leonard Cohen pode ser apenas ouvir o discurso de Leonard Cohen, um cantor que suscita amores e sentimentos inversos em proporções desconhecidas. Mas ouvir este discurso, proferido quando o cantor recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias, é ouvir quase doze minutos de uma imensa sabedoria e delicadeza. Não é apenas um discurso de agradecimento, por mais bonitas que fossem as palavras; é ouvir um discurso de gratidão, que é um agradecimento do coração e da alma, mais do que do cérebro ou da educação; e é ouvir um discurso de partilha daquilo que eu disse acima, e que se descobre por volta do meio do discurso. 

Metaforicamente falando, Leonard Cohen começou numa aula com outros meninos. A professora falou disto e daquilo, e alguns meninos escreveram isto e aquilo. Mas ele foi mais longe, e descobriu que isto e aquilo, que para alguns pouco mais eram do que a banalidade da linha do Oeste ou o fim da monarquia eram, para ele, a chave de uma carreira. Melhor dizendo: tinham sido, no seu olhar sobre o passado, a chave de uma vida. 

Invistam 12 minutos da vossa vida - juro que não se arrependerão.

JdB   

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

FACETA E NOME DESCONHECIDOS, EM MARIA RUEFF

A actriz que trabalha há mais tempo com o Herman revelou, numa conversa(1) com a Maria João Avillez, decorrida no auditório da paróquia do Campo Grande  no final de Março de 2019, quanto Deus é marcante e presente na sua vida. 



Percebe-se o diálogo regular de Maria Rueff com Deus, o seu «amigo de almofada». Entram juntos em palco e atravessam juntos grande parte do dia-a-dia da actriz. Até o humor, que lhe corre nas veias, foi depurado pela fé, a partir de um livro esclarecedor, que intitulou de «O sorriso de Deus», apenas lembrando bem que o autor era jesuíta. Assim, é possível que o título seja antes «DEUS RI: Alegria, Humor e Riso na Vida Espiritual», de James Martin, SJ. Mas, qualquer que seja o canhenho, aprendeu naquelas páginas a esquivar-se da piada trocista, maldosa, que fere e humilha o caricaturado, para redescobrir o lado vitamínico e catártico da comédia, capaz de iluminar um pouco uma existência pejada de claros-escuros. Passou a destrinçar os dois territórios do cómico pela fronteira que as preposições demarcam: rir com, nunca rir de. E concluiu: «Sinto-me ao serviço do outro e foi assim que resolvi [a questão] no meu coração. Encaro o humor como espelho do outro e não como uma farpa». 

Como se cruzou com Deus? – perguntou-lhe a Maria João. Bebeu no berço, sobretudo com a mãe, a grande mestra em tudo, inclusive na fé. Conta que a mãe, preocupada com a saúde da filha mais nova, colocou-a sob a protecção divina, insistindo em ter um bebé que seria defeituoso. Como nasceu no Dia do Corpo de Deus, recebeu o nome de Maria de Deus Rueff!  



Lembra ainda um conselho maternal que mais ninguém da sua geração terá recebido, tal a originalidade da senhora: quando faltaram a Rueff umas décimas para entrar em medicina, disse à filha – ‘Ainda bem, porque a tua vocação é o teatro. Vai antes p’ró Conservatório’.  Identifica a marca de Deus na família pela facilidade em falarem uns com os outros: «Em casa, sempre mantivemos o hábito de conversar, que é das coisas que mais adoro na vida e nos fez ultrapassar a desgraça da descolonização. (…) Deus está muito, muito presente, é como se estivesse ao meu lado. É uma relação absolutamente íntima, próxima.» [citada por aproximação]

A conversa flui com ritmo, percebendo-se que Rueff reflecte a sério sobre a vida e a sua condição. Poucas ou nenhuma pergunta a terão apanhado desprevenida… 

Situa a origem mais profunda da comicidade no sofrimento, nas experiências trágicas, como aconteceu a Chaplin, Totó e a todos os comediantes mais filósofos. No seu caso e à parte da boa componente hereditária, associa-a ao calvário por que a família passou quando se mudou para Lisboa, fugindo à guerra no Norte de Moçambique, na mesma Beira que é hoje açoitada por tempestades calamitosas. Essa dor sublimada deu-lhe (e dá) forças para desencantar um prisma cativante e renovado da realidade, que repara no copo meio cheio. A «arte do ridículo» fê-la crescer humanamente, distanciando-a de uma dor devidamente relativizada, para transfigurar a percepção da vida através da «pirueta» saudável e discernida que o humor opera.

A sua personagem mais famosa – o Zé Manel taxista.

O pintas besuntado em brilhantina, «há 20 anos na praça» e irritantemente assertivo sobre todo e qualquer assunto

Ainda há nervos, quando entra em acção? Claro e são cada vez maiores, como aprendeu com outra referência do teatro – Eunice Munoz – porque há mais noção do que se faz e deseja-se cumprir melhor a «matemática de uma peça (…) com coragem e grande humildade. (…) Cada espectáculo é único.» 

Quando está sob os holofotes: «espero ser veículo de qualquer coisa; sei que não sou bem só eu (ali).» Empenha-se em «mostrar alma, humanidade e revelar os dois lados da vida: comédia e tragédia».

Adoptou o lema do Papa Francisco «levai a vida com humor», entendendo-o como a aceitação do outro, exactamente como ele é. Explicou-o com uma imagem tocante, ligando o Papa a um contratempo parvo com uma catequista da infância, quando veio para Lisboa, depois da família perder tudo em África. Queria excluí-la de uma procissão como figura de relevo, por não ter sapatos pretos! À data, a criatividade da mãe solucionou-lhe o problema. E hoje, Rueff vê Francisco como alguém que saberia sempre acolher aquela pequenina com os sapatos da cor que fossem. Foi a vez da experiente entrevistadora ser apanhada pela comoção, depois da ‘pirueta’ magistral feita a partir de um episódio apoucado de outrora, numa criatividade benigna.

O santo da sua devoção é, naturalmente, uma escolha pessoal, muito pensada, que lhe serve de bússola no trabalho: o pouco conhecido S.Filipe Nery (1515-1595), à parte da rua junto ao Largo do Rato – um italiano jocoso, ‘buffone’, nas suas palavras,  que não se coibiu de brincar com o Papa e Santo Inácio de Loyola. Nem acha suficiente ser conhecido por o ‘santo da alegria’ alguém que levou bem mais longe a graça. Maria chegou a ir à Igreja dedicada a Nery, em Roma, onde lhe pediu ajuda para saber ultrapassar a dor e depois manter-se nesse trilho exigente e sub-reptício da comédia bondosa. Evocou a bondade inúmeras vezes, procurando-a e convocando-a constantemente. 
  
O que Deus lhe pede? «Acho que Ele nos pede escuta. E a comédia é uma arte muito barulhenta.»

O que lhe falta fazer?  «Deus sabe! Agradeço tanto a Deus. Não fiz nada, só recebi, embora trabalhe muito. Tenho de estar atenta a tudo, tudo. Não sou ambiciosa. (…) Os meus pais acreditavam mais em mim do que eu própria. (…) As coisas vão-me acontecendo. Mas tudo o que faço é com paixão. Tenho de pôr o coração nas coisas.» 

Está preparada para um dia partir? «Faço muito o exame de consciência, dos jesuítas, e o exercício do perdão. Já pedi perdão a figuras com quem brinquei e poderei ter magoado… Também agradeci a quem devia. Estou preparada para Deus me dizer ‘vá, está na hora’.»

O que pede à vida? «Só peço para a minha filha uma estrada que possa ser tão florida como foi a minha.»

Correm em acelerado aqueles 50 minutos de flashes sobre uma vida com garra, graça e enorme atenção aos outros. O olhar lúcido e meigo dá uma imensa frescura ao seu humor, que entra naquele registo raro, imune ao cinismo que cede à piada fácil e amargo-corrosiva. Em Rueff, a vontade de viver aproxima-a de quem a rodeia, para «amar o outro como ele é. É isso que o humorista faz de alguma forma».  Afinal, parte tudo do mesmo Epicentro.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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terça-feira, 30 de julho de 2019

Duas Últimas

Sou fã de Anne Hathaway. Há qualquer coisa nela que me encanta - e não será, seguramente, uma beleza óbvia que não tem. Domingo, ao fazer zapping, cruzei-me com um concurso onde uma concorrente imitava a actriz a cantar uma parte da peça Les miserables. Ontem fui ver o original e gostei muito: pareceu-me uma interpretação poderosa, num texto igualmente poderoso (convém seguir a letra) suportado por uma música muito bonita.

JdB


segunda-feira, 29 de julho de 2019

Da (falta de) limitação

Na sua crónica de sábado, no Observador, Alberto Gonçalves diz: "[r]ecentemente, deparei na internet com uma senhora que se considera “guerreira”, casada com um “marido guerreiro” e mãe de dois “filhos guerreiros”.

No seu livro 12 Regras para a Vida, com subtítulo Um Antídoto para o Caos (Lua de Papel, 2018), Jordan B. Peterson diz a dada altura: "[c]ontei-lhe uma antiga história judaica, que acredito ser parte do comentário à Torá. Começa com uma pergunta estruturada como uma máxima zen. Imagine um Ser que é omnisciente, omnipresente e omnipotente. O que falta a tal Ser? A Resposta? Limitação." 

***
Os dois excertos - um de um artigo de jornal, outro de um livro - têm mais em comum do que possa pensar-se. Não comparo Jordan Peterson com Alberto Gonçalves (estão em planos distintos), menos ainda comparo a senhora guerreira, que não sei quem é, com Deus (estão em planos ainda mais distintos). Em que se intersectam então ambos os textos? Na ideia de limitação ou, melhor ainda, na ideia de falta de limitação.

Há um certo horror à limitação nos dias que correm. Por um lado, as revistas cor de rosa estão cheias de pessoas felizes, guerreiras, com sucesso, a viverem permanentemente o seu grande amor, a terem dias de grande cumplicidade com o(a) último(a) parceiro(a) ou com o filho que lhes dá uma sensação de completude, de alegria e de proximidade. Isto aplica-se, obviamente, àquilo que as pessoas dizem de si, não o que as revistas dizem dessas pessoas.

Num certo sentido falta limitação à sociedade. Falta pessoas que digam que não conseguem, que têm dificuldades, que erraram, que escolheram caminhos inadequados, pessoas incertas, carreiras desajeitadas. Falta pessoas que digam que desistiram, ou que não desistiram, não porque eram lutadoras, mas porque tiveram ao lado alguém que não as deixou desistir. 

Já vivi a idade do sucesso profissional; a minha rede social é composta por muita gente que está reformada ou que para lá caminha. Mas houve o tempo em que as conversas eram sobre as promoções, sobre os benefícios, sobre as respostas que inpunham respeito ou, como me disse um gestor de conta com um gabinete com vista para um beco: ainda ninguém percebeu que...  

A propósito de limitação, ou de falta dela, vale a pena reler os primeiros versos do Poema em Linha Recta, de Fernando Pessoa. Até porque o que aproxima as pessoas são as fragilidades, não são os sucessos.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
(...)

JdB  

domingo, 28 de julho de 2019

17º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 11,1-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Estava Jesus em oração em certo lugar.
Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos:
«Senhor, ensina-nos a orar,
como João Baptista ensinou também os seus discípulos».
Disse-lhes Jesus:
«Quando orardes, dizei:
‘Pai,
santificado seja o vosso nome;
venha o vosso reino;
dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência;
perdoai-nos os nossos pecados,
porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende;
e não nos deixeis cair em tentação’».
Disse-lhes ainda:
«Se algum de vós tiver um amigo,
poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer:
‘Amigo, empresta-me três pães,
porque chegou de viagem um dos meus amigos
e não tenho nada para lhe dar’.
Ele poderá responder lá de dentro:
‘Não me incomodes;
a porta está fechada,
eu e os meus filhos estamos deitados
e não posso levantar-me para te dar os pães’.
Eu vos digo:
Se ele não se levantar por ser amigo,
ao menos, por causa da sua insistência,
levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa.
Também vos digo:
Pedi e dar-se-vos-á;
procurai e encontrareis;
batei à porta e abrir-se-vos-á.
Porque quem pede recebe;
quem procura encontra
e a quem bate à porta, abrir-se-á.
Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe,
em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente?
E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião?
Se vós, que sois maus,
sabeis dar coisas boas aos vossos filhos,
quanto mais o Pai do Céu
dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».

sábado, 27 de julho de 2019

Do tempo real *

- Compadre! Sabe como se chamam os habitantes de Évora?
- Todos todos na sê!

***

Antes de se ter inventado, nas suas múltiplas vertentes, o conceito de tempo real, já existia o conceito de tempo real - eram os maçadores. Esta ideia de tempo real está mais divulgada como operações que são executadas e mostradas no exacto instante em que ocorrem. Podemos falar de uma videoconferência, mas podemos falar de um programa de televisão em directo.

A anedota acima talvez seja, de entre as divertidas que vou ouvindo, a mais curta. Nunca uma anedota - género humorístico que deveria ser usado parcimoniosamente, como o tamarindo - atingiu um patamar tão elevado na relação custo benefício: é curta e faz rir. Mais do que isto maça e prejudica a saudável relação entre as pessoas que se querem bem.

Ora, se imaginarmos este diálogo em tempo real, e não como anedota contada ao café, ele demora mais tempo. Dois velhos reformados à sombra do toldo no café central local, uma mão lenta a enxotar as moscas na fase poisante, o cumprimento à vizinha, o cigarro que se acende, a pergunta que se faz e a resposta por que se espera. Ia dizer anseia, mas talvez seja demais. Há, no diálogo, um vagar que o Saint-Exupery apreciaria. 

Um homem saudável, no domínio das suas funções cerebrais - pelo menos essas - conta a anedota em 10 ou 15 segundos. O maçador socorre-se do conceito de tempo real e torna-se num manoel de oliveira da tradição oral. Enquadra, agita os braços, corrige a anedota a meio (o que será o meio de uma piada com duas frases) indaga se os presentes imaginariam a temperatura, faz alusões jocosas aos possíveis nomes dos intervenientes. Quando chega ao fim, há cortes de veias e esgares de ódio. Mas ele - o maçador - usou em pleno o conceito de tempo real, porque a anedota, na sua mente, demorou o mesmo tempo que o diálogo entre os velhos, com o toldo, a sombra, a mosca e o vagar de tudo...

Escusado será dizer que o raciocínio se aplica igualmente ao contar de histórias. Enquadrar uma história sobre o avô que bebeu, a tia que caiu ou o primo que era herói é enquadrar uma história brevemente. Não precisamos do tempo real, da lentidão com que o vizinho empurrava o barco, do cão que ladrava, do gelado que derretia nas mãos de uma criança feliz ao longe. Enquadrar é enquadrar, porque uma história não tem - nem deve ser - uma ópera de Wagner.

Quando perceberem que eu agarrei o conceito de tempo real dêem-me uma palmada nas costas. Se eu não reagir, batam-me com uma pá de ferro. Obrigado.

JdB

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* publicado originalmente a 20 de Novembro de 2014

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Duas Últimas

Cascais, 24 de Julho de 2019
Graças à generosidade de alguém próximo, fui ver Diana Krall ao vivo em Cascais. Sou fã dela, e nunca a tinha visto ao vivo, o que foi uma boa experiência, não fosse o tempo de espera e o barulho de uns americanos (que mandei calar, confesso o arrojo) que não paravam de falar durante a actuação do artista que abriu o concerto. 

O que tenho a dizer? Coisas positivas, obviamente: uma grande intérprete, uma grande pianista, interpretações fantásticas, de cujo repertório retiro A Case of You, de Joni Mitchell, da qual retiro estas linhas:

I met a woman, she had a mouth like yours, she knew your life
She knew your devils and your deeds and she said
Go to him, stay with him if you can
But be prepared to bleed

 Do que não gostei? Do saxofone (não nesta música) demasiado presente. O saxofone é invasivo, quanto a mim. Bastava-lhe o piano, o contrabaixo, a bateria. Se Diana Krall me perguntar a opinião, não hesitarei em dizer-lhe isto...

JdB  

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Textos dos dias que correm

A teologia da prosperidade

Em abril de 2016, no Rio de Janeiro, atravessávamos de automóvel a cidade de automóvel com o arcebispo, o cardeal João Tempesta Orani, em direção ao célebre Cristo do Corcovado para uma cerimónia inter-religiosa, quando fiquei surpreendido ao ver a construção de uma espécie de imponente catedral. A resposta do cardeal foi ainda mais surpreendente: tratava-se do templo que estava a erigir Marcelo Crivella, “bispo” da Igreja Universal do Reino de Deus, um milionário brasileiro então candidato a presidente da câmara da metrópole, cargo que obterá nas eleições de poucos meses depois.

É sabido que uma das fontes de votos mais amplas para a ascensão ao poder do presidente brasileiro Jairo Messias Bolsonaro foi precisamente esta área religiosa em forte expansão um pouco por toda a América Latina. Trata-se de uma constelação de grupos espirituais que nascem como cogumelos sobretudo nos bairros pobres, e que têm à cabeça proprietários ricos, dotados de redes de rádio e televisão, como no caso da Rede Record, fundada por um pastor da mesma “Igreja” de Crivella, Edir Macedo, também ele milionário

Estamos na presença de um fenómeno em expansão, que tem como matriz o protestantismo “pentecostal”, dito também “evangélico”, que não deve ser confundido com as confissões “evangélicas” clássicas (no Brasil denominadas também “de missão”), como os luteranos, os presbiterianos, os metodistas, e assim por diante.

A galáxia pentecostal, fluida e difusa em mil ramificações e agregações, tendencialmente de matriz conservadora e integralista, tem simbolicamente um início já nos séculos XVIII-XIX, com o chamado “Despertar”, uma reforma na Reforma protestante de cariz espiritual e carismático.

O nascimento mais ou menos lendário do fenómeno tem como berço uma data emblemática, a noite de 31 de dezembro de 1990 para 1 de janeiro de 1901, quando uma aluna da escola bíblica de Topeka (Kansas) começou a “falar em línguas”. Trata-se de um fenómeno extático, diversamente interpretado, que remontaria às origens cristãs sob o termo equivalente grego de “glossolalia”. Na realidade, fazia-se então referência não tanto a um perfil poliglota, mas sobretudo à capacidade de propor discursos de intensa e alta espiritualidade, com uma linguagem complexa e algo esotérica.

A par desta componente, registava-se o poder de realizar prodígios, sobretudo terapêuticos, acompanhados por uma oralidade emotiva intensa que privilegiava o corpo, com cantos, danças, pregações enfáticas segundo modalidades de génese afro-americana.

Do ponto de vista mais teológico, incluíam-se outros dois temas. De um lado, a “holiness”, a “santidade” – evocada já no protestantismo clássico metodista (com o fundador John Wesley) –, colocada em paralelo com a famosa doutrina luterana da “justificação da fé”, e que se exprimia através do “batismo no Espírito Santo”.

Por outro lado, as comunidades pentecostais eram atravessadas por frémitos milenaristas: Cristo voltaria rapidamente à Terra, no meio de epifanias catastrófico-apocalípticas, para inaugural um reino de mil anos, destinado a desembocar no Juízo Final.

É curioso notar que uma enciclopédia das religiões, publicada em Itália em 2001, elencava e descrevia nada menos que 95 denominações de matriz pentecostal presentes no país. Mas a especificidade dos grupos latino-americanos (em particular brasileiros) está ligada a uma teoria que é habitualmente classificada como “teologia da prosperidade”.

A ela fizemos referência há algum tempo nesta página, no contexto da apresentação da figura de Gustavo Gutierrez, fundador da “teologia da libertação”, que daquela é o exato antípoda. Já então um nosso leitor nos tinha pedido para particularizar esta conceção que exerce grande atração em contextos sociais pobres, e dá vigor ao crescimento dos movimentos pentecostais.

É incrível, mas a citada “catedral” do autarca do Rio, como me fazia notar o arcebispo Tempesta , surge numa avenida com o nome de Hélder Câmara (1909-1999), bispo de Recife, conhecido defensor da justiça e da libertação social.

A “teologia da prosperidade”, por seu lado, canoniza uma conceção neoliberal e meritocrática, segundo a qual a riqueza seria o sinal de uma bênção divina que premeia a fé do sujeito com bem-estar, o sucesso económico-social, a saúde, a prosperidade precisamente. Pobreza, doença, miséria, infelicidade são, ao contrário, expressões do juízo e da maldição divina, pelo que é necessária a conversão e o discipulado diante daqueles que são exaltados por Deus com a riqueza.

Por isso, não deve haver empenho nas mudanças sociais, na redenção das classes miseráveis, na libertação da opressão económica, mas dedicação ao seguimento dos protegidos de Deus, à procura do lucro pessoal, na prevalência do individualismo sobre o bem comum.

A espiritualidade destes grupos religiosos (chamá-los “Igrejas” é teologicamente incorreto) é em determinados elementos alienante e ilusória, mas fascina muitas pessoas simples, que se sentem orgulhosas por serem acolhidas num ambiente tão prestigiante, e desejosas de imitar estes personagens de sucesso tão triunfal.

As raízes da “teologia da prosperidade”, que esvazia as igrejas católicas e protestantes clássicas, são remotas, e, através da mediação de uma certa visão calvinista, remontam a uma tese presente sobretudo no Antigo Testamento, e conhecida como “teoria da retribuição”. Tratava-se de um expediente rápido para resolver o escândalo do mal e do sofrimento: estes mais não eram do que uma punição divina por uma culpa do sujeito atingido. Na prática, os binómios “delito-castigo” e “justiça-prémio” determinariam com uma simples mudança de rota ético-teológica o desconcerto que o mal gera na história.

A esta visão reagirá veementemente Job, no seu diálogo com os amigos teólogos no célebre livro bíblico homónimo. E o próprio Jesus será claro ao rejeitar esta teoria simplista quando, perante o caso limite do cego de nascença, à pergunta segundo o cânone “retributivo” dos seus discípulos - «quem pecou, ele ou os seus pais, para que tenha nascido cego?» -, replicará invertendo a asserção: «Nem ele pecou nem os seus pais, mas é para que nele se manifestem as obras de Deus».


Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Cortile dei Gentili
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 24.07.2019

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Crónicos de um doutorando tardio - ofertas para o 1º semestre 2019 / 2020

Questões canónicas (João Figueiredo)

A partir de exemplos práticos de análise literária, a realizar nas sessões, e da discussão de textos habitualmente classificados como teóricos, o curso pretende discutir um conjunto de questões centrais ao estudo da literatura. Algumas das perguntas a que se tentará dar resposta são:
     -Qual a diferença entre descrever e interpretar?
     -O que fazemos quando tentamos perceber um poema?
     -O que torna uma interpretação boa?
     -Há factos nos estudos literários?
     -Como escolhemos entre várias interpretações de um mesmo texto?
     -O que é, afinal, a teoria da literatura?
O conjunto dos textos a discutir, composto por ensaios críticos e ensaios que reflectem sobre o que fazem os críticos, propõe um cânone mínimo da crítica e da teoria literárias, e entre os autores a estudar encontram-se I. A. Richards, Frank Kermode, E. D. Hirsch, Stanley Fish, W. K. Wimsatt & M. C. Beardsley, Michael Riffaterre, T. S. Eliot, Stanley Cavell, Steven Knapp & Walter Benn Michaels, Richard Rorty.


Shakespeare e dívida (Miguel Ramalhete Gomes)

Na sequência da crise financeira de 2007/2008, o peso da dívida veio a sentir-se não apenas nos orçamentos dos estados, mas também na literatura e no seu estudo. Contudo, a dívida é uma das relações económicas mais antigas que conhecemos: está na linguagem que usamos e na literatura que lemos. Neste seminário discutiremos a presença e implicações da dívida em três peças de Shakespeare: The Merchant of Venice, Timon of Athens e Coriolanus (assim como em duas fontes desta peça, Plutarco e Tito Lívio). Partindo da experiência contemporânea da dívida e do trabalho de Marc Shell e de David Graeber, entre outros, exploraremos o efeito do dinheiro que é devido na conceptualização do valor, nas relações sociais e nos corpos dos endividados. A frequência do seminário não depende de literacia financeira prévia.


Teoria geral da interpretação (Miguel Tamen)

A maior parte das teorias sobre interpretação defende que a palavra designa uma única actividade; tal actividade será linguística, quase de certeza mental, possivelmente “artística.”  A palavra ‘interpretação’ designa porém muitas coisas diferentes, nem todas linguísticas ou mentais ou artísticas.  O seminário será dedicado aos vários sentidos em que falamos de interpretação; a partir deles tentará encorajar uma imagem mais geral do tópico e das suas dificuldades.

Procederemos em cada sessão por analogia com actividades ou descrições familiares; os assuntos serão apresentados por uma ordem crescente de complexidade que permitirá relações com discussões anteriores.  Não será usada bibliografia específica, ou expostas teorias bem-conhecidas sobre o assunto; embora possa eventualmente vir a ser indicada bibliografia de apoio a propósito de questões particulares.

No fim de cada uma das primeiras dez sessões cada participante será convidado a escrever um ensaio de menos de 500 palavras: esses ensaios não serão classificados.  Quem tiver entregue dez desses ensaios poderá depois escrever um ensaio final, de cerca de 2000 palavras, durante as últimas quatro semanas do semestre.   Além disso, cada participante terá que formular pelo menos uma objecção oral a uma das analogias usadas para motivar a discussão.  A nota do seminário será o resultado da ponderação do ensaio final e da participação oral.


Analogical Words and Analogical Thinking (Brett Bourbon)

The most basic and powerful mode of thinking proceeds by means of analogy. Analogy drives poetry, creativity, and human insight.  Analogical thinking is literary thinking. And it is much more.  It remains, however, poorly understood, linked somehow with metaphor it remains suspect.  On the other hand, much of what we imagine we know depends on analogy (the idea that we have a mind, e.g., we know only by analogy).

In this course, we will explore analogy as a mode of thinking and as an aspect of language and art.  We will begin with ancient Greek modes of thinking and then jump forward into ideas of language and poetry in the 18th century and in modernity.  We will also examine examples of analogy in science, in poetry, in philosophy, and in our everyday lives.  We will also explore the following four related concepts—metaphor, caricature, parody, and salience.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Música e poema para os dias de hoje



Lugares da Infância

Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.

Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Da ideia juvenil de casa comum

Aqui há algumas semanas falei com alguém que me é próximo sobre a ideia de casa comum. A ligação ao texto do papa Cuidar da Casa Comum foi óbvia, ainda que o horizonte da minha dissertação mental fosse mais modesto... Mas o facto é que o conceito - sei lá eu por que motivo - me andava a pairar no espírito até ter aproveitado um momento para sair da mente para fora.

A ideia de casa comum é aplicável a muitas dimensões: os sócios de uma empresa, os habitantes de um mesmo espaço, os cuidadores de uma mesma pessoa, uma relação conjugal. Ter presente a ideia de casa comum pode dar uma conotação diferente a muito do que fazemos. Dito de uma forma simples, a aplicável a uma dimensão familiar pode transformar uma tarefa num gesto de amor. Num instante, levar um velho a um médico, fazer um jantar, engomar umas calças ou substituir alguém que está cansado deixa de ser algo de maçador, e que pode não apetecer, para ser o cuidar de algo que é comum - e uma camisa que é preciso lavar-se para que outro vá a um evento importante pode ter essa dimensão. 

Recuo 45 anos para os anos de uma juventude normal, com paixonetas adolescentes que variavam equilibradamente entre o sucesso e o insucesso. Hoje, por uma associação qualquer de ideias, veio-me à memória uma rapariga por que me apaixonei com 15 ou 16 anos. Estávamos numa casa de amigos comuns e eu pedi-lhe para me guardar os cigarros, a chave de casa, uma caixa de fósforos, não sei. Podia ter posto tudo isso em cima de uma cómoda, que por aí ficariam. Não obstante, quis entregar-lhe a ela. Foi há 45 anos, mas foi - olhando para trás - a primeira ideia que tive de casa comum: alguém que olhava por algo que era meu, por mais insignificante que fosse esse algo.

JdB

domingo, 21 de julho de 2019

16º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou em certa povoação
e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa.
Ela tinha uma irmã chamada Maria,
que, sentada aos pés de Jesus,
ouvia a sua palavra.
Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço.
Interveio então e disse:
«Senhor, não Te importas
que minha irmã me deixe sozinha a servir?
Diz-lhe que venha ajudar-me».
O Senhor respondeu-lhe:
«Marta, Marta,
andas inquieta e preocupada com muitas coisas,
quando uma só é necessária.
Maria escolheu a melhor parte,
que não lhe será tirada».

***

Marta e Maria: Deus não procura servos, mas amigos *

Enquanto estavam a caminho… uma mulher de nome Marta hospedou-o na sua casa (Lucas 10, 38-42). Tem a exaustão da viagem nos pés, a fadiga da dor de muitos nos olhos. Por isso, repousar na frescura amiga de uma casa, comer em companhia sorridente é um dom, e Jesus acolhe-o com alegria.

Imagino toda a variada caravana recolhida na mesma sala: Maria, contra as regras tradicionais, senta-se aos pés do amigo, bebendo uma a uma todas as suas palavras; os discípulos, à volta, escutam; Marta, a generosa, está sozinha na sua cozinha, acocorada ao braseiro encostada à parede aberta do pátio interior. Alimenta o fogo, controla o caldeirão, levanta-se, passa e volta a passar diante do grupo, a preparar pão e bebidas e mesa, só ela afadigando-se por todos.

Os hóspedes são como os anjos junto aos carvalhos de Mambré, por isso é preciso oferecer-lhes o melhor. Marta teme não o conseguir, e então adianta-se, com a liberdade que lhe dita a amizade, e interpõe-se entre Jesus e a irmã: «Diz-lhe que me ajude!».

Jesus tinha observado longamente o seu trabalho, seguiu-a com os olhos, viu o reverberar das chamas no seu rosto, ouviu os ruídos do espaço ao lado, sentiu o odor do fogo e da comida quando Marta passava, era como se tivesse estado com ela, na cozinha.

Naquele lugar que nos recorda o nosso corpo, a necessidade do alimento, a luta pela sobrevivência, o gosto das coisas boas, os nossos pequenos prazeres, e depois a transformação dos dons da terra e do sol, também aí habita o Senhor (J. Tolentino).

E Jesus, afetuosamente, como se faz com os amigos, chama Marta e acalma-a («Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas»); não contradiz o coração generoso, mas a agitação que a “distrai” e a impede de ver de que é Jesus tinha verdadeiramente necessidade.

Jesus não suporta que a amiga esteja confinada num papel subalterno de serviços domésticos, queria partilhar com ela muito mais: pensamentos, sonhos, emoções, sabedoria, beleza, até fragilidade e medos. «Maria escolheu a parte boa»: Marta não se detém um minuto, Maria, ao contrário, é seduzida, completamente absorta, olhos líquidos de felicidade; Marta agita-se e não pode escutar, Maria, no seu aparente nada fazer, colocou no centro da casa Jesus, o amigo e o profeta (R. Virgili).

Teve de queimar-lhe o coração naquele dia. E ela tornou-se, como e antes dos discípulos, verdadeira amiga; e depois ventre onde se guarda e de onde germina a semente da Palavra. Porque Deus não procura servos, mas amigos; não procura pessoas que façam coisas para Ele, mas gente que o deixe fazer coisas, que o deixe ser Deus.


* Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 18.07.2019

sábado, 20 de julho de 2019

Pensamentos Impensados

Acordo, esse aborto
Se o Adão e a Eva andavam nus, como é que tiveram uma relação de "fato"?

Dandy
Era tão requintado que a pasta de dentes tinha de condizer com os atacadores dos mocassinos.

Tãobalalão
O martelo que bate nos sinos das torres sineiras chama-se moca-sinos.

Avarias
O meu telemóvel ficou sem bateria; empurrei-o mas não pegou.

Frase desfeita
Não há pior cego do que aquele que quer ver.

Recatados
Cidadãos "low profile" vão fundar o Grupo Onomástico Os Anónimos, sendo padroeiro o Soldado Desconhecido.

SdB (I)

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* publicado originalmente a 9 de Novembro de 2013

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Textos dos dias que correm *

Ser si mesmo como outro

«Nunca está só quem é pessoa. [O ser humano] torna-se pessoa numa correspondência de reciprocidade e de relação. É ser si mesmo como outro que torna o ser humano uma pessoa.»

Por mais de meio século, o filósofo francês Paul Ricoeur foi um ponto de referência nobre do pensamento contemporâneo. Entregamo-nos a estas suas palavras para comentar uma locução, o si mesmo como outro, que indica a relação que intercorre entre duas pessoas.

É famoso o apelo de Cristo: «Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei» (João 15,12). A mulher do Cântico dos Cânticos exprime de maneira fulgurante este ligame: «O meu amado é meu, e eu sou sua. Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu» (2,16; 6.3).

Não se é ainda plenamente pessoa humana se não se sai de si mesmo para encontrar o outro. A mónada fechada em si mesma, ou a porta blindada que te isola dos outros na suspeição e no medo, são imagens que representam uma situação bastante comum.

É verdade que há riscos de cada vez que se abre a porta do coração ou se estende o braço a um outro, mas desgraçado de quem decide optar pelo isolamento e pelo autismo espiritual.

Já Qohélet, sábio bíblico deveras cético no que diz respeito ao próximo, reconhecia que «é melhor dois do que um só:tirarão melhor proveito do seu esforço. Se caírem, um ergue o seu companheiro. Mas ai do solitário que cai: não tem outro para o levantar! E se dormirem dois juntos, dormem quentes; mas se alguém está só, como se há-de aquecer?» (4,9-11).

O egoísmo, a solidão forçada, o fechamento como um ouriço, no fim, tornam o ser humano já não uma pessoa, mas um prisioneiro de si mesmo, um infeliz autorrecluso, um segregado sem amor.


* P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 18.07.2019

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