sábado, 31 de julho de 2010

Poema para o dia de hoje, em memória de quem partiu


Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.
Funeral Blues, por W. H. Auden

Músicas dos dias que correm...



A propósito de um jantar ontem, entre amigos e primos, onde se falou com um entusiasmo saudável desta música. Aí Benjamim!

Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
dizia ela tinha
um sorriso luminoso
tão triste e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
na fímbria do mar

Sua pele macia
era suma-uma
sua pele macias
cheirando a rosas
seus seios laranja
laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não

Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
'por ti sofre o meu coração'
num canto 'sim'
noutro canto 'não'
e ela o canto do 'não'
dobrou

Mandei-lhe um recado
pela Zefa do sete
pedindo e rogando
de joelhos no chão
pela Sra do Cabo,
pela Sta Efigénia
me desse a ventura
do seu namoro
e ela disse que não

Mandei à Vó Xica,
quimbanda de fama
a areia da marca
que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
bem forte e seguro
e dele nascesse
um amor como o meu
e o feitiço falhou

Andei barbado,
sujo e descalço
como um monangamba
procuraram por mim
não viu ai não viu ai
não viu Benjamim
e perdido me deram
no morro da Samba

Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sr. Januário,
mas ela lá estava
num canto a rir,
contando o meu caso
às moças mais lindas
do bairro operário

Tocaram a rumba
e dancei com ela
e num passo maluco
voamos na sala
qual uma estrela
riscando o céu
e a malta gritou
'Aí Benjamim'

Olhei-a nos olhos
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo
lá lá lá lá lá
lá lá lá lá lá
E ela disse que sim

(Música de Fausto e letra de Viriato Cruz)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Descendo a avenida

quanto a ti, não sei se sei; quanto a mim, sei que acredito
que quando o semáforo verde cai sobre esse teu rosto
o calendário desgoverna-se e os ponteiros (juro!) páram:
o dia? eterno; a hora? a mais exacta; o mês? eterno agosto.


gi.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, Les Miserables is my favourite stage musical drama. Based on Victor Hugo's epic novel, it focuses on the life journeys and struggles of several different characters who encounter each other against a background of huge political and social revolution during the first decades of 19th century France.
These human personal and universal social histories are documented through a tour de force of moving uplifting memorable songs and melodies of operatic tragi-comic intensity, arias of love and hope and despair, chorus songs of war and death and restoration. I would like to share some extracts.
The central character who binds the different elements together, is Jean Valjean. Arrested as a young man for stealing bread to feed his family, he is now released after 19 years in prison and searching for work. But no-one will employ a criminal. Desperate, he is caught one night stealing silver ornaments from a church, but he is saved by the priest who tells the police that he gave Valjean the pieces of silver out of charity. The priest then makes Valjean promise to change his life and serve God.
Years later, after changing his identity, we find Valjean has become a wealthy factory owner. One day he encounters one of his workers, Fantine, who is struggling to support her daughter Cosette after being abandoned by her lover. Fantine is ill and dying and Valjean promises to take care of her daughter. Fantine's story of lost dreams and despair is told in Les Mis' most famous song, I Dreamed A Dream:




However, Valjean's past life catches up with him in the form of local police inspector Javert, who years before was Valjean's guard in prison, an implacable defender of law and justice against social chaos who does not believe that any man can change his nature. Javert arrests a man believing wrongly that he is Valjean. The real Valjean is forced to question himself, balancing his obligation to his factory workers against his promise to God, and he decides to reveal his true identity to save an innocent man - Who Am I?




Valjean escapes with his adopted daughter Cosette to Paris. Here we encounter desperate people living in the city slums/favelas and also a group of middle class students who are preparing to fight in the streets against the authorities in anticipation of revolution. One of these students is Marius, who by chance meets Cosette and falls in love. He too is forced to question himself about his personal desires and the ambitions of his fellow student friends as they demand social justice and better living standards -
Red And Black / Do You Hear The People Sing?






Valjean joins the students at their street barricades, but only to try to protect Marius from danger. Javert, who now is the police commissioner of Paris, is discovered as a spy among the students. Valjean is entrusted to shoot him but secretly allows him to escape. The night before the battle Valjean prays that God may save Marius -
Bring Him Home:




Marius survives thanks to Valjean and returns to the cafe where he used to meet and discuss with his student friends. But he is the only survivor and wonders what has been achieved -
Empty Chairs At Empty Tables




Javert also is dead. He could not understand why his life was spared, could not accept his obligation to the criminal Valjean. Perceiving a new social order to which he does not belong, he commits suicide. Although the city revolution failed, not everyone has lost. Monsieur and Madame Thenardier, who earlier we encountered as inn keepers in the countryside, have taken advantage of society's turbulent times to become wealthy nouveaux riches in Paris, representing the new possibilities of climbing the social ladder.
As for Valjean, his hard struggle is over, he has fulfilled his promises and can look to a future for Cosette and Marius.
The videos I have selected are from the 10th Anniversary Concert (in 1995) which reunited many of the original cast actors. The audio is much better here and you have the benefit of subtitled lyrics. Les Miserables is now celebrating 25 years and I am sure will continue for another 25. It has been translated into many languages and performed all over the world. I am sure at some time it has been performed in Lisbon, maybe in Portuguese, I don't know. But I would urge you to see it!
A proxima,

PO

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vai um gin do Peter's?


É difícil imaginar que um contemporâneo das escolas de pintura mais vanguardistas, nado e criado em França, se tenha mantido constante no estilo mais próximo do objecto observado, tornando-se conhecido como o «pintor da verdade»


Constant Le Breton, oriundo da Bretanha, atravessou um século de vida, de 1895 a 1985, igualzíssimo a si próprio, imperturbável aos movimentos experimentais e progressistas da arte novecentista. Teve, assim, a ousadia de ser fiel à tradição, uma das características mais subestimadas do século em que o homem chegou à Lua:


A exposição, patente na Gulbenkian até 8 de Agosto (1), é uma boa mostra da produção clássica do pintor, permitindo-nos sobrevoar cem anos da história de França, na versão menos comum: os cenários familiares com acesso directo aos interiores das casas parisienses; as perspectivas captadas a partir do fantástico passeio pedonal que bordeja o Sena; as paisagens suaves, de luz sombria, na parte menos monumental do Loire, bem a norte dos Castelos; os retratos de crianças anónimas e de algumas (poucas) figuras públicas como Ingrid Bergman. Dos óleos às aguarelas, Breton foi também um exímio desenhador e gravador de litografias tendo-se, no entanto, celebrizado como retratista.


Em toda a sua obra perpassa um olhar doce e, simultaneamente, firme, que transporta para as telas uma paz e uma luminosidade extraordinárias. Raras no panorama das pinturas do seu tempo, onde as abordagens introspectivas, exploratórias das zonas mais remotas e indomáveis do subconsciente, se exprimem num tom angustiado e obscuro.




É frequente aplicar a Breton um tratamento de excepção e não dissociar a pintura da sua vida. É nessa senda, bastante incomum, que o grande realizador sueco, Ingmar Bergman, assume ter sido um fiasco como ser humano (2), com a lucidez que lhe admiramos nos filmes. Claro que estamos a falar de um homem superior, apesar de tudo. Não por acaso, seguia das bússolas mais fiáveis: a busca intrépida pela verdade tomando como meta o amor – «Tento dizer a verdade sobre a condição humana – a verdade como eu a vejo.» «A noção de amor (é) a única forma concebível de santidade (1968)


É também de Bergman a caracterização cirúrgica do artista contemporâneo, incrivelmente egocêntrico: «A mais insignificante ferida ou dor no ego é examinada à lupa como se fosse matéria de importância capital. O artista considera o seu isolamento, a sua subjectividade, o seu individualismo quase sagrado


Isto é tudo o que não se aplica a Breton. Por estranho que pareça, extravasa das suas telas a própria humildade, como uma tonalidade inédita na paleta cromática do século do showbiz. Na sua pintura, tudo se mostra mas nada se exibe. Impera a simplicidade. Os elementos coabitam harmoniosamente, sem hierarquias nem vedetismos. Das pessoas às paisagens, domina o mesmo rigor pictórico, sem a presença marcante do pintor-criador, fazendo-nos crer que recuámos mais de cem anos para épocas onde os holofotes incidiam sobre as obras e nem tanto sobre os artistas…




O seu extremo cuidado revela-se na abundância dos pormenores e da variedade de texturas. Breton costumava dizer que pintava por necessidade e por gosto, como quem respira. Mas embora a sua arte pareça fluir com naturalidade, adivinha-se-lhe um trabalho árduo, até ao mais ínfimo detalhe. A transparência da água de um insignificante riacho ou o entrançado de filigrana dos cabos na tela dos «3 Mastros» são exemplos de uma riqueza hiper discreta, de uma aparência invulgarmente despojada:


De facto, é notável que os críticos de arte associem a pintura de Breton à verdade. Notável e raríssimo, sobretudo numa época onde o relativismo já avançava a passos de gigante. No fundo, espantamo-nos com o impacto subtil de pinceladas de uma beleza muito depurada, gentil e humilde, que transbordam para lá dos limites da tela e da arte, parecendo plasmar a própria realidade. Experimentem ir até à Gulbenkian ver com os vossos próprios olhos.



Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


____________________________

(1) Constant Le Breton (1895-1985). Pinturas e aguarelas

  • Expo - Fora de Portas De 21/05 a 8/Agosto /2010. Das 10h00 às 18h00, Terça a Domingo, Entrada livre
    Galeria de Exposições Temporárias da Sede, piso 01 (junto ao bengaleiro), na Fundação Calouste Gulbenkian
    . http://www.gulbenkian.pt.

(2) «I was very cruel to actors and to other people. I think I was a very, very unpleasant young man. If I met the young Ingmar today, I think I would say, "You are very talented and I will see if I can help you, but I don't think I want anything else to do with you."» publicado no New York Times Magazine, 26 de Junho de 1983. Num outro desabafo, no final de vida: «(Fui) um péssimo marido e ainda pior pai.»


terça-feira, 27 de julho de 2010

Pensamentos impensados

Hoje as piadas foram de férias; está muito calor; em sua substituição contarei cenas passadas com cegos a que assisti.

Dizia um cego para outro: a Rua da Palma, bem batida, das 8 da manhã até ao meio dia rende 500 escudos.

Homem a pagar a um cego qualquer coisa que lhe tinha comprado: olhe que são 5 escudos, apalpe e veja bem.
(devo dizer que os cegos usam o verbo ver exactamente como nós; ouvi uma conversa em que um cego dizia a uma pessoa que lhe perguntou por um aparelho qualquer que ainda não tinha tido tempo para ver).

Em plena Guerra Colonial; ia eu a passar na Avenida do Brasil, (penso que na altura ainda se chamava Alferes Malheiro) e vejo / oiço um grupo de pessoas aos berros e com um ar agressivo contra um
preto que, com um ar assustadíssimo, tentava explicar-se; os agressores chamavam-lhe malandro, preto malvado, seu este, seu aquele, a fazer pouco do ceguinho, etc. Por fim, o preto lá conseguiu explicar-se: era professor de pessoas que tinham cegado recentemente e ajudava-os a dar os primeiros passo na rua; para isso atirava-lhes para a frente caixas, caixotes e outros objectos para para que os cegos se habituassem a defender dos obstáculos.

Já agora e para terminar: por favor não digam invisuais; será que quem não ouve é um inauditivo?

Resposta à pergunta da semana passada.
É a Rua Viriato.
A Travessa dos Inglesinhos só tem um sentido; aliás as ruas do coração do Bairro Alto, tanto quanto sei, só têm um sentido.

SdB (I)

domingo, 25 de julho de 2010

Domingo... se fores à Missa!

Este é talvez o Evangelho de que mais gosto. Sempre que leio ou oiço este texto, tudo encaixa. É-me tão natural, tão visceralmente óbvio, tão compreensível que acho devia lê-lo todos os dias, da mesma forma que tomo um duche todos os dias.

Conheço muita gente.... eu própria também já fui assim ..... que se inibe de pedir, tem vergonha, complexo de inferiodade, medo de não ser ouvido, acha que não é digno, acha que o Pai tem mais que fazer, enfim um sem número de razões (desculpas ?) para não pôr em prática a leitura de hoje. E se há leitura mais fácil e mais apetecível de pôr em prática, é esta ! Acreditem! Acho mesmo que é uma prova de total confiança e entrega num Ser que nos é superior, mas não distante. Um Ser que é omnipotente mas não prepopente. Um Ser que é omnisciente mas não arrogante. Deviamos aproveitar.

Quando somos crianças, temos a mania de pôr o nosso pai ou mãe nos píncaros: “Ah, o meu pai é mais forte que o teu !” ; “A minha mãe é professora na tua escola!”; “O meu Pai tem um carro que dá 250 km/hr”; “Ah, mas o meu sabe guiar aviões!”, etc..... Tudo o que nos falte, pedimos ao pai; se nos corre mal a vida, queixamo-nos ao pai. Queremos andar de bicicleta, pedimos ao pai para nos ensinar. No fundo, no fundo, tudo se resume a confiança.

Talvez o nosso maior mal seja não vermos o Pai como um pai. Chamamos-lhe Deus, Todo Poderoso, Santo, Criador de todas as coisas, Altissimo, 1ª Pessoa da Santissima Trindade e, sem querer, estamos a distanciá-lo, sem querer estamos a colocá-lo num patamar tão alto que nos distanciamos d’Ele. Ao invés, deviamos trata-lo por tu, deviamos pedir-lhe tudo e mais alguma coisa e deviamos fazê-lo com confiança. “Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á”.

De facto, nenhum de nós espera que o nosso próprio pai nos dê um escorpião, quando lhe pedimos um ovo ou que nos dê um tabefe, quando lhe pedimos um beijo. Quando conseguirmos acreditar e interiorizar esta verdade em relação ao Pai, pedir tornar-se-á tão natural quanto a nossa sede (passe a expressão :-) !)

Domingo se fores à Missa ......... Pede!

MAF

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, estava Jesus em oração em certo lugar. Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos». Disse-lhes Jesus: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’». Disse-lhes ainda: «Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa. Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á. Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».


sábado, 24 de julho de 2010

Pensamentos impensados

Rossini compôs aberturas: as Chaves do Areeiro compõem fechaduras.

Se "fait divers" significar feito no Inverno, quem nascer em Outubro é um "fait divers".

Há raparigas que têm tatuagens nos rins, que não podem ver; a única explicação que me ocorre é porque querem que os namorados as vejam pelas costas.

Há mulheres que têm estampado na cara o que são: mulheres de vida "facies".

Toda a gente se lembra da descolonização exemplar. Malhas que o Império tece? Não, são falhas que o Império entristece.

Aqui vai outra pergunta.
Há, em Lisboa, uma rua com dois sentidos, em que a circulação se faz pela esquerda.
Como se chama a rua?

SdB (I)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

num café de viana, jeanne moreau

sentado num café sob as arcadas
arriscava o trapézio das palavras
em busca de zénite e de perfeição.

ignorava, rapaz que era outrora,
que nenhum poema se aproximaria
do teu rosto - plenipotenciária faísca.

agora, que quase caí do trapézio,
(o que explica o longo vocábulo)
rio-me dessa inocência.. juvenil

que teimava em ganhar com palavras
um jogo especioso e caprichoso.
sol de inverno? poesia? maresia?

disparate, poeta. o jogo, como dantes,
é esse teu rosto, esculpido e feminil.


gi.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Deixa-me rir...

Esta música evocou em mim o mesmo que senti ao ouvir o Into my Arms do Nick Cave postado recentemente pelo PO: WOW... Perfeição em forma de música, de interpretação e de letra. Ainda mais perfeita será, na minha opinião, a versão de Nina Simone, gravada em Nova Iorque em 1965, que ouvi esta manhã na Antena 2 (aparentemente muito difícil de encontrar). Deixo-vos, assim, com a minha mais recente descoberta: Lilac Wine cantado por Jeff Buckley.



I lost myself on a cool damp night
Gave myself in that misty light
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree

I made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipe
It makes me see what I want to see...
And be what I want to be

When I think more than I want to think
Do things I never should do
I drink much more than I ought to drink
Because It brings me back you...

Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, I feel unsteady, like my love
Listen to me... I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here?

Lilac wine is sweet and heady where's my love?
Lilac wine, I feel unsteady, where's my love?
Listen to me, why is everything so hazy?
Isn't that she, or am I just going crazy, dear?

Lilac Wine, I feel unready for my love...

PCP

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Textos dos dias que correm...

Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;
tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;
tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

(Livro do Eclesiastes)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Joana

Deve ter sido o cheiro do quarto. Ou a cor da paisagem das janelas. Ontem lembrei-me de ti. No início nem foi lembrança, foi como se nunca tivesses existido. Foi como quem relê um livro esquecido e recorda vagamente que já tinha imaginado, a conta gotas, todos aqueles lugares. Todos aqueles sorrisos. Depois veio tudo de uma vez.

Cantavas com a tua imitação de sotaque baiano as músicas da rádio, muito afinadinha, e pedias-me que te ensinasse os acordes. Cheiravas sempre a protector solar e nunca me negavas um sorriso, a mim, o rei dos tolos. Abraçavas-me por trás sem pedir licença e ignoravas a minha indiferença. Tinhas um coração grande de mais no peito, grande demais para mim, pelo menos.

Nunca te deixaste cair, apesar dos dias insistirem em seguir a regra, apesar de eu continuar a arranjar maneira de te afogar as ideias em seco. Mandavas-me bilhetes a dizer que era eu que te dava asas e desenhavas joaninhas para explicar melhor. Não guardei nenhum.

Depois veio o vendaval que foi e eu percebi tudo. Levaram-te o coração, as asas e a música. Nunca me perdoei, sabes? Tu ainda me agradeceste, com os olhos a brilhar, e eu a saber que era tarde demais para te valer. Para nos valer.

Acabou por ser o medo a entalar-me as palavras na garganta e a arrumar-te no fundo da gaveta das recordações. Sempre o mesmo medo.

ZdT

segunda-feira, 19 de julho de 2010

É mais bonita, sabe...

Uma amizade forte e a dedicação profissional de quem me convidou levaram-me, há pouco mais de uma semana, a uma experiência nova: o chamado casamento pelo civil, na própria Conservatória.

(Abro um parêntesis fundamental: tenho amigos casados por esse regime e nada me move contra esta forma de casamento, que para uns será a desejável, para outros será a possível. Leia-se a croniqueta com os olhos da ligeireza, não com os do apoucamento - que não existe.)

A cerimónia realizou-se numa sala relativamente ampla. De um lado de uma mesa de reuniões a conservadora; à sua frente os noivos e, de lado, as testemunhas. Num renque de meia dúzia de cadeiras de napa encostadas a uma parede os restantes convidados da cerimónia.

Habituado, ao longo das dezenas de casamentos católicos para os quais fui convidado, a ouvir falar – e a acreditar - no sacramento e na Igreja, não esperem que não estranhe ouvir falar nas leis e na República.

Familiarizado com um crucifixo que representa o amor ate às suas últimas consequências, e com uma imagem de Nossa Senhora aos pés da qual tantos e tantos noivos consagram a sua união, não se admirem que me tenha feito confusão ver o busto do regime e o seu barrete frígio a velar pela legalidade daquele casamento de vontades.

Afeito ao ambiente musical próprio de uma cerimónia religiosa, com a Avé Maria de Gounod ou o Sanctus da Missa Alemã de Schubert – ou mesmo com a modernidade de uma viola e um coro de jovens – parece-me natural a surpresa por ouvir, como som de fundo, um aspirador que braço diligente e imigrante percorre pela alcatifa da Conservatória.

Data de 1974 o primeiro casamento para o qual me lembro de ter sido convidado. De então para cá acostumei-me ao desaparecimento dos noivos nas profundezas da sacristia para a assinatura dos documentos relevantes. No civil, queridos leitores, é o simplex: com uma vaidade toda feita de tecnologia e desprezo pelas canetas de estimação, a conservadora usa uma tecla chamada enter e declara os noivos casados, sugerindo-lhes que se beijem. Deus vela por todos e no entanto, à distância de um braço, está o busto da República.

É verdade que o mesmo padre que nos baptiza pode, se a longevidade o permitir, assistir ao nosso casamento e presidir ao nosso enterro, encomendando-nos a alma ao Criador. Mas ali, naquela 6ª feira quente, enquanto na sala ao lado funcionários empenhados faziam horas extraordinárias para preparar contratos, partilhas ou outras minudências jurídicas, só me ocorreu um pensamento: a conservadora pressurosa que efectua o casamento àquela hora pode ter decretado na hora anterior, e com o mesmo zelo de funcionária pública que deseja o excelente na sua avaliação de desempenho, um divórcio. E responderá, eficiente e dominadora da técnica, que já não são necessárias assinaturas. O enterzinho, está a ver? Ao perto, representando uma ética republicana, Ilda Pulga e o seu barrete frígio cobrem uma união cujo início e fim foram decretados com a mesma impessoalidade processual, onde o divino é apenas uma palavra não sujeita ao acordo ortográfico.

As igrejas de fim de semana são um corrupio sem fim de casamentos. Cristo Nosso Senhor protege todos os noivos: aqueles que o amam e que acreditam nos sinais, e aqueles que têm uma vaga ideia de quem Ele é, que respondem à pergunta sobre o porquê da festa religiosa com a força demolidora das coisas francas:

É mais bonita, sabe?

JdB

domingo, 18 de julho de 2010

Poder descansar

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico. Mas vou fazer batota e, no dia em que seria eu a escrever, prefiro postar um texto que mão amiga me enviou e que me parece particularmente adequado para o Evangelho de hoje.


Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso.
Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta.

Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco.

Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar!

Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é.

A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.

Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana.

Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano.

O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir. Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro.

Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe".

Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

(Card. J. Ratzinger, "Esplendor da Glória de Deus" Editorial Franciscana, 2007, pág. 161.)


EVANGELHO – Lc 10,38-42

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou em certa povoação
e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa.
Ela tinha uma irmã chamada Maria,
que, sentada aos pés de Jesus,
ouvia a sua palavra.
Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço.
Interveio então e disse:
«Senhor, não Te importas
que minha irmã me deixe sozinha a servir?
Diz-lhe que venha ajudar-me».
O Senhor respondeu-lhe:
«Marta, Marta,
andas inquieta e preocupada com muitas coisas,
quando uma só é necessária.
Maria escolheu a melhor parte,
que não lhe será tirada».

sábado, 17 de julho de 2010

Pensamentos impensados

Há dias veio-me à memória um fado cantado por Vasco Rafael e que começava por que povo é este, que povo. Claro que a lembrança se deve ao mediatismo dum polvo que, parece, adivinha o vencedor dos jogos de futebol para o Campeonato do Mundo. Não foi explicado se também adivinha o número de golos e de cartões. Foi pena o cefalópode não ter aparecido antes de Portugal ser eliminado, poupando crónicas patetas e patéticas em que chegaram a vaticinar a vitória de Portugal, ou então a acabar o campeonato nos primeiros lugares. Até a FIFA nos dá um honroso 3º lugar no "ranking" mundial.
Mas aligeiremos estes pensamentos.

Que polvo é este, que polvo
Que sabe de futebol
Problema que não resolvo
Mas sei que é o Puyol.

Veio na rede ou no anzol?
O mistério eu devolvo
Só sei que se chama "Pol"
E no resto não me envolvo.

Caso fosse em Portugal
'staria cortado em postas
Numas boas saladinhas

Ou então secando em sal
Em camadas bem dispostas
Como em latas as sardinhas.

SdB (I)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

uma forma de oração

em istambul, como em lisboa,
é para o mar que caminhamos,

enquanto imaginamos o olho de falcão
que pelas costas nos captura,

enquadrando-nos para sempre
num polaroid de figuras distintas

- palavra que nos salva dessoutra:
um polaroid de figuras extintas.

em istambul, como em lisboa,
a nossa vez já passou a livro encadernado.

mas de lágrima janota e flor ao peito
fingimos sóis e estrelas em formato digital,

mantemos aparências, dignidade,
calorífero em mínimos serviços mínimos.

entretanto, a tarde cai aqui bem perto
contra meu coração feito em farrapos,

e flutua em mim a memória próxima da menina da loja
que cheirava a passado, a felicidade, ao

teu perfume e cabelo, ao teu nome ao vento,
coisas assim - detalhes que mais ninguém vê.

homens como eu são lugares mal situados
- diria o daniel faria se fosse vivo sobre a Terra.

mas ele vive em mim, ao som dos the go-betweens.
apologies accepted, my Lord. e ajoelho.


gi.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, David Bowie is regarded as one of rock music's greatest innovators and is one of my favourite artists. From his beginnings as a strange alien-like Space Oddity, through his alter-ego rock superstar persona Ziggy Stardust and then Aladdin Sane, from "white soul" to experimentations with electronic music, Bowie kept changing, kept surprising. Consequently he would alienate some fans, but also he attracted new fans, People say that he is a chameleon. But a chameleon changes to fit the landscape. Bowie, always curious to look for and assimilate new musical ideas, created his own musical and visual landscapes. Probably more than anyone he introduced the idea of visual drama into rock music and especially into his stage shows. The chameleons were those artists that followed him.... (This must sound very pretentious. Oh well).

There are, as usual, too many songs to choose, many different styles throughout his career, but here I wish to focus more on an element that, I think, receives less recognition: David Bowie has an incredibly expressive, sometimes almost operatic, soaring voice.

Wild Is The Wind, even though he did not write it, is probably my favourite of his songs. This is not his brilliant original album version with his band but instead a solo concert version with just a beautiful piano accompaniment for the wildly romantic lyrics:



Love me, love me, love me, love me,
say you do
Let me fly away with you
For my love is like the wind,
and wild is the wind
Wild is the wind

Give me more than one caress
satisfy this hungryness
Let the wind blow through your heart
Oh wild is the wind, wild is the wind

You touch me, I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins
You're Spring to me, all things to me
Don't you know you're life itself!

Like the leaf clings to the tree,
Oh, my darling, cling to me
For we're like creatures in the wind,
and wild is the wind
Wild is the wind


Lady Grinning Soul is one of Bowie's less known songs but also a favourite. I always imagine it should have been the opening theme to a James Bond film, with the beautiful sensuous dancing women in silhouette and flames. Maybe this was his inspiration? I must ask him!



She'll come, she'll go
She'll lay belief on you
Skin sweet with musky oil
The lady from another grinning soul

Cologne she'll wear, Silver and Americard
She'll drive a Beetle car
And beat you down at cool Canasta

And when the clothes are strewn, don't be afraid of the room
Touch the fullness of her breast
Feel the love of her caress
She will be your living end

She'll come, she'll go
She'll lay belief on you
But she won't stake her life on you
How can life become her point of view?

And when the clothes are strewn, don't be afraid of the room
Touch the fullness of her breast
Feel the love of her caress
She will be your living end

And finally, two more of his best loved early songs. So if you don't like these, then I guess you don't like David Bowie.

Life On Mars?



Changes:


I still don't know what I was waiting for
And my time was running wild
A million dead-end streets
Every time I thought I'd got it made
It seemed the taste was not so sweet
So I turned myself to face me
But I've never caught a glimpse
Of how the others must see the faker
I'm much too fast to take that test

Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the stranger)
Ch-ch-Changes
Don't want to be a richer man
Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the stranger)
Ch-ch-Changes
Just gonna have to be a different man
Time may change me
But I can't trace time

I watch the ripples change their size
But never leave the stream
Of warm impermanence and
So the days float through my eyes
But still the days seem the same
And these children that you spit on
As they try to change their worlds
Are immune to your consultations
They're quite aware of what they're going through

Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the stranger)
Ch-ch-Changes
Don't tell them to grow up and out of it
Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the stranger)
Ch-ch-Changes
Where's your shame
You've left us up to our necks in it
Time may change me
But you can't trace time

Strange fascination, fascinating me
Changes are taking the pace I'm going through

Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the stranger)
Ch-ch-Changes
Oh, look out you rock 'n rollers
Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the stranger)
Ch-ch-Changes
Pretty soon you're gonna get a little older
Time may change me
But I can't trace time
I said that time may change me
But I can't trace time

A proxima.
Or, as Bowie sang, Wham Bam Thank You Mam.

PO

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

É uma lufada de ar fresco revigorante confirmar que as artes plásticas conseguem transfigurar desperdícios de telemóveis em instalações espectaculares evaporando, literalmente, o lixo electrónico que produzimos. Esse é dos méritos de Daniela Ribeiro.

Filha de pais portugueses radicados em Moçambique, ali nasceu em 1972, passando a maior parte da infância em Angola. Nos anos 80 viveu em Paris. Depois veio para Portugal, onde cursou pintura em Belas Artes e na ARCO. Actualmente, reparte-se entre Lisboa e Luanda, expondo com regularidade peças quase de ficção científica.

Na capital portuguesa, partilha o atelier com 12 artistas inovadores, que reciclam materiais desaproveitados no apetecível SPAZIO DUAL, onde se acumula também o stand da Alfa Romeo & Lancia, além de um restaurante simpático, instalado na mezzanine desse 41 da Av. da República. De facto, em cada m2 do Spazio, as ideias fervilham e materializam-se sob as formas mais variadas e saborosas: na arte culinária saída das mãos do Chefe italiano Guerrieri e no design & artes plásticas instalados nos subterrâneos do stand, sugestivamente designados por Art In Park (www.artinpark.com).

Ali trabalha, por exemplo, um dos artífices dos fantásticos acessórios da marca Ana Salazar – o Valentim Quaresma (www.valentimquaresma.com)– com peças em malhas metálicas extraordinárias, feitas a partir de molas, fechos ou outros despojos que povoam os guarda-roupas da nossa sociedade de consumo. Tudo muito colorido e metamorfoseado em jóias avant-garde, giríssimas, daquelas que dão um toque de festa ao mais insignificante trapinho.

Voltando a Daniela, conheci-a pelo catálogo lindíssimo das máscaras que pertenceram à mostra «A Unicidade do Tempo»(1), onde a antiga cultura angolana, das tribos Chokwe e Luba, inspiraram caras formadas por mosaicos de chips, ecrãs e teclados irreconhecíveis, que nos chegam com um misto de antiguidade e futurismo. Intrigante esta artista que escolheu uma divisa bem expressiva da sua sede de explorar os recursos da imaginação, encontrando complementaridades em civilizações muito distantes no tempo: «Desejo sem limites»


Máscara da tribo Luba


Recriação de máscara tribal

Nas palavras da artista: «Hoje é tudo dependente da inteligência artificial. O mundo está no telemóvel, na facilidade de comunicação. Nós ainda não estamos preparados. Por isso este meu trabalho é um apelo à reflexão sobre como se irá gerir este novo enquadramento

Nas citações do Catálogo, Andy Wharhol torna-se uma escolha expectável da curadora, Filipa Oliveira: «I think everybody should be a machine»

Cognomizada como «artista do futuro», Daniela desafia-nos para antevisões de ficção tecnológica. No Museu das Comunicações (2) tem expostas, até 31 de Julho, 14 OLHOS BIÓNICOS (menos impactantes que as máscaras, ainda disponíveis no catálogo digitalizado 1), imaginando um cenário onde os olhos são a via de comunicação das novas gerações. Quase lembra o grande título do filme referido no último gin «O Segredo dos seus olhos» ou, melhor ainda, «A pergunta dos seus olhos». Se dúvidas houvesse, esta focagem no olhar confirma-nos que a artista está longe de se ter desligado do humano. E é através da intensa actividade high tech do mundo industrializado que reflecte sobre o devir da humanidade.

O notável sentido estético da sua obra é outro dos traços bem humanizantes de todo o material robótico que dá corpo a muitas das peças que compõe. Até certo ponto, esta forma de analisar a sociedade a partir da ciência e da tecnologia, fixando-a sempre com enorme beleza, lança-nos numa reflexão mais profunda sobre o papel do belo na existência. Sophia traduziu-o com especial acuidade:

«Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
»
in O Nome das Coisas

É também nesta linha que Victor Hugo explora as manifestas afinidades entre beleza, verdade e bem: «Tudo o que é belo manifesta o verdadeiro.(…) Neste mundo a beleza é necessária. … (é) o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graça… A beleza basta ser bela para fazer bem.»

A acrescentar às pistas propostas na exposição «Olhos Biónicos» para se reavaliar a evolução da história e da comunicação à escala global (o catálogo é sugestivo), a oportunidade de descobrir uma arte apostada em tornar lindos meros resíduos inúteis, inspira-nos mais confiança no futuro.

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

___________________

(1) http://www.danielaribeiro.net/. Para aceder ao Catálogo: pt.calameo.com/read/00016384962225349cb2e

(2) Museu das Comunicações, perto de Santos, com entrada gratuita. Segue cartaz da exposição patente até 31 de Julho:

terça-feira, 13 de julho de 2010

Pénaltis no escuro

Quando, na primeira ou na segunda classe, a professora ensinou que cada pessoa tinha cinco sentidos, o Armando ficou confuso. Tinha o olfacto, que usava para encontrar o caminho até à cozinha, e também o paladar com que adivinhava o que era o almoço e o jantar. Tinha o tacto, com que descobria a forma das mesas e dos sofás da sala. A audição também lá estava, para ouvir a campainha no recreio.

Mas o último dos cinco sentidos sempre lhe faltou. Desde o dia em que nasceu até ao fim da sua vida. O que para os outros eram conceitos tão banais como as cores, ou como a lua e as estrelas, para ele eram exercícios de imaginação com que se entretinha quando se deitava de noite na cama.

Os pais deram-lhe o nome Armando, em honra do astro do futebol argentino. Quando souberam da sua condição resignaram-se com o facto de este sonho nunca se vir a concretizar, e culparam o destino por tamanha desfeita. Mas esse destino que tanto amaldiçoaram trocou-lhes as voltas, e o facto do Armando não ver não o impediu de vir a chutar uma bola.

Quando a campainha tocava para o recreio, todos os rapazes corriam para o campo de futebol. O Armando sentava-se na bancada a ouvir os gritos e o barulho da bola a raspar no alcatrão e a imaginar o que se estaria a passar.

E, enquanto alguns eram os últimos a ser escolhidos para as equipas, por culpa da falta de jeito, o Armando não chegava sequer a ser escolhido, por culpa da falta de visão. Para que quero eu um cego na minha equipa? Nem sequer serve para guarda-redes, não consegue ver os chutos! E a todos os intervalos a história repetia-se. Os rapazes corriam para o campo, gritavam uns com os outros, esfolavam os joelhos no chão atrás de uma bola, e o Armando ia andando devagarinho para a bancada.

Até ao dia em que, quando passava ao lado do campo para ir para casa, um colega de turma o chamou. Oh Armando!, anda cá dar um chuto na bola, para veres como é. E o Armando foi. Sempre tivera curiosidade em saber como seria jogar futebol, mas faltara-lhe a coragem para pedir. Nunca o disse, mas concordava com o que diziam dele. Se não conseguia ver a bola a vir, como é que podia jogar?

O colega pôs a bola à frente do seu pé esquerdo e disse-lhe que a baliza estava mesmo à sua frente. Era só rematar com a ponta do pé, a direito. Primeiro chuto, primeiro golo. Segundo chuto, segundo golo. E a partir daí, todos os remates que fazia iam invariavelmente até à baliza.

E todos os dias, depois das aulas e antes de ir para casa, ia treinar para o campo. Pousavam a bola no chão, diziam-lhe onde estava a baliza, e o Armando puxava o pé atrás. Chuto, golo.

Depois de tanto treino, passou a ser escolhido para as equipas do intervalo. Enquanto a bola estava em movimento, estava quietinho no seu canto, para não chocarem com ele. Mas, quando havia um pénalti ou um livre ao pé da baliza, já se sabia quem ia marcar. Diziam-lhe ao ouvido onde estava a baliza, o guarda-redes e a barreira, e a grande maioria das vezes a bola ia parar lá dentro.

O facto de ser cego não o deixava ver a bola chegar, mas quando a bola estava parada este problema já não se punha. E foi assim que o Armando, mesmo cego, se tornou no Maradona daquela escola.

SdB (III)

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