sábado, 31 de março de 2018

Pensamento (im)Pensado

Aleluia
Pensamentos Impensados deseja a todos os seus leitores uma Santa Páscoa.

SdB (I)

sexta-feira, 30 de março de 2018

6ª Feira Santa

"O homem é um aprendiz, a dor o seu mestre:
ninguém se conhece a si próprio até que sofra."

"Nada nos torna tão grandes como uma grande dor."

Alfred de Musset in Noite de Outubro




ORAÇÃO

Ouvi a Tua voz – que Te buscasse,
Que eras vida e caminho ardente e santo,
Aqui me tens, Senhor, beijando-Te na face,
Mordido de vergonha, angústia e pranto.

Cruz, lança, espinhos, pregos, fel, vinagre,
Não são adereços para um corpo humano.
Faze em mim, meu Senhor, o Teu milagre:
Sofrer, morrer e ressurgir em cada ano.

Perdoa à minha carne o desejar sem norte,
Porque vivo no mundo e sou pecado.
E recebe-me puro, quando a morte
Me levar p’ra o Teu lado.

(Um Cristo de perdão,
Sereno como é fria a madrugada,
Veio cravar-me, por amor, no coração,
Uma nova espada.)

António Manuel Couto Viana

quinta-feira, 29 de março de 2018

Vai um gin do Peter's?

COMO A CATEDRAL SURFOU MODAS E REVOLUÇÕES

Reviravoltas de regime, modas e revoluções deixaram marca na Catedral de Estrasburgo – ex-libris da capital da Alsácia-Lorena. Situada num enclave especialmente rico e erudito da Europa ocidental, cidade e templo apanharam-se no epicentro da rivalidade franco-alemã, em zona de fronteira demasiado elástica, reivindicada à espada por germânicos e franceses.

O exemplo mais caricato do choque de poder com ecos na Catedral de Estrasburgo ocorreu durante a Revolução Francesa. Naqueles anos de terror e mortandade sem freios, os republicanos gritavam por «igualdade, liberdade e fraternidade», enquanto se afanavam em usar a guilhotina, massificando o homicídio. Especializados em destruir, propunham-se fazer tábua rasa do património histórico e artístico de França, derrubando estátuas, rasgando telas, queimando palácios e igrejas, ou reduzindo-os a funções menores, humilhantes.

Demasiado visível e imponente no planalto fronteiriço, a Catedral alsaciana transformou-se em alvo a abater. Consideravam-na o expoente da sobranceria e uma afronta ao igualitarismo, com aquela torre octogonal muito esguia – a mais alta do mundo, até meados do séc. XIX.


A parte superior da catedral é visível a kilómetros de distância

Ao saber que o templo encabeçava a lista negra, o hábil mestre serralheiro Stultzer conseguiu convencer a turbamulta de que seria mais útil aproveitar a altura da torre para mostrar aos estrangeiros os méritos da Revolução, uma vez que era avistada de território germânico. A proposta foi bem acolhida, tendo ficado decidido enfiar no campanário um gigantesco barrete frígio, em cor púrpura, a replicar o dos revolucionários. 

Medalha da revolucionária Marianne com o gorro frígio

Durante nove anos, a ridícula cobertura manteve-se em posto, entrando de imediato para o anedotário dos locais, que o cognominaram em língua ininteligível para os republicanos: «Kaffeewärmer» (abafador de cafeteira/bule). Sabendo-lhes a pouco, em 1793, transformaram-na em «templo da deusa da razão». Ainda saquearam inúmeras imagens e fundiram os metais para fabricar canhões, que depois serviram às tropas napoleónicas. Só em 1801 voltou ao culto católico, recomeçando o restauro, em 1813, até cair em mãos alemãs, a mando de Bismarck – 1870.

Os mistérios que rondam a catedral, estendem-se à inexistência de uma segunda torre; à coqueluche tecnológica instalada logo na primeira construção gótica – o gigantesco relógio astronómico; à riqueza acumulada nos cofres da pequena e poderosa Capela de Nossa Senhora durante o primeiro quartel do séc. XV; à longevidade invulgar dos vitrais da rosácea na fachada ocidental – jóia do arquitecto mais antigo de Estrasburgo que apaixonou Goethe e Claudel – Erwin (séc. XIII). Nem um toque isotérico lhe falta, por causa de um misterioso raio verde, que aponta à uma imagem do Crucificado num dos púlpitos, duas vezes ao ano, nos equinócios de Março e de Setembro, pouco depois do meio-dia. A pontualidade do feixe verde surpreende, percebendo-se que emana do pé da figura de Judá pintada num vitral. Só não é certo se o efeito era intencional ou feliz coincidência. 


O feixe dos equinócios da Primavera e do Outono

O Cristo iluminado pelo reflexo verde

Além do divertido raio verde, há outras notas de humor como os cães esculpidos em nichos estratégicos ou monstros exóticos em poses desconcertantes, que não chegam a assustar.

O sentido cívico dos estrasburgueses perpassa na escolha das figuras homenageadas nas estátuas gigantescas, que não privilegiou reis nem conquistadores, mas os maiores obreiros da Catedral. Excepção para o libertador de Estrasburgo – Rodolfo de Habsburgo (1218-1291) –, que lhe concedeu o estatuto de «Cidade Livre». O grande arquitecto Erwin até mereceu ter a sepultura num patamar intermédio da torre, para espanto de Goethe, que o elegeu como seu herói medievo.


Das poucas rosáceas originais que ainda se preservam, em França.

Num gesto de precocidade democrática, desde o séc. XIII que a administração da catedral passou a ficar confiada a um leigo, incumbido de prestar contas, regularmente, ao conselho dos cidadãos. Era recrutado com critérios de alguma meritocracia, pelos dotes artísticos e aptidões na gestão e na contabilidade, conforme reza nos documentos de época. Curiosamente, enquanto na catedral mandava um leigo, a autoridade máxima do município era exercida pelo Bispo. 

Sucederam-se 3 relógios astronómicos, todos eles proezas tecnológicas e artísticas do seu tempo: o da fundação; o do matemático Conrad Dasypodius (1570); e o que persiste, desde 1842, mantendo o invólucro do quinhentista repleto de imagens que se movem a horas determinadas. O seu mecanismo astronómico permitiu prever o eclipse de 2006

Se a sofisticação cultural e tecnológica da cidade impregnou a Catedral até ao âmago, como o demonstra o extraordinário relógio astronómico, também os preconceitos e segregações ressoaram templo adentro. Descontando o vandalismo dos exércitos conquistadores que não poupavam a Catedral, é lamentável a tradição anti-semita, que recorria a um dos 16 sinos – em geral, o que também tocava às 10h da manhã – para avisar a comunidade judaica da hora de abandonar a cidade, mal o sol descia. A cada poente, o repique metálico soava por más razões, que se prolongaram por longos séculos, até ao último quartel do séc. XVIII. Também uma imagem feminina representativa da Sinagoga, aparece de olhos vendados e posição curva, espelhando como se encarava o judaísmo.

Antes de concluir, uma referência ao enigma da torre única: quando a catedral gótica começou a ser erigida sobre um antigo templo românico (início séc.XIII), inspirou-se na Notre-Dame de Paris, absorvendo o novo estilo pontiagudo, de arcos quebrados, fachadas gigantescas com grandes rosáceas, frestas avantajadas para entrar a luz, abóbadas, colunatas, naves. Os trabalhos de aperfeiçoamento estenderam-se por três séculos, acompanhando as últimas modas, a ponto de ficar conhecida por «laboratório artístico» do Ocidente. Nesses primórdios, teve duas torres de tamanho médio que, por motivos de segurança, foram absorvidas por um módulo central a preencher o intervalo entre as duas. A meio do séc. XIV, houve a intenção de abrilhantar a fachada demasiado quadrangular, dotando-a de novas torres descomunais. A encomenda dada ao alemão Ulrich d’Ensingen resumia-se a «transparence et jusqu’au sommet». Numa acrobacia arquitectónica e de engenharia, o mestre edificou a altíssima torre octogonal, depois terminada por Jean Hültz, em 1439. Entretanto, veio a Reforma, a conquista de Luís XIV, a Revolução, o I Reich e uma segunda torre tornou-se inviável. Até por este handicap, a Catedral manteve-se fiel a coleccionar singularidades.     


O maior desafio e segredo do sucesso da torre residiu na distribuição do peso colossal

Quando as armas foram depostas e a bandeira suástica banida, Estrasburgo e a sua catedral respiraram, finalmente, em paz. Num gesto generoso e pleno de simbolismo, o Conselho da Europa fez questão de contribuir para o restauro do templo, oferecendo-lhe (1956) o vitral de Nossa Senhora, incrustado na fachada oriental. Um carisma especial, a Catedral ter conseguido acumular sete séculos de presentes… em pedra rendilhada, vidrilhos coloridos, pinturas murais, tapeçarias e peças decorativas em metais nobres. 

«Vierge en majesté», de Max Ingrand, rodeada dos Apóstolos no mural a nascente
Votos de Santa Páscoa a todos, com um presente muito europeu, inclusive na sua fragilidade!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)

quarta-feira, 28 de março de 2018

Duas Últimas

A revolução de Abril de 74, que vivi quando já era grandinho, teve naturalmente aspectos positivos e outros que Deus meu. Ampliados ad nauseam, os primeiros, estrategicamente silenciados, os segundos. O que também acaba por ser natural, pois sabemos que a história são os vencedores que a escrevem. "Ai dos vencidos", como disse o velho chefe celta, o que no caso até deve ser parcialmente relativizado, pois que efeitos sérios e deixando sequelas foram sobretudo os sentidos no sul do País e no Ultramar.

Os músicos que hoje aqui trago, Mariza e Miguel Gameiro, nasceram por altura do 25/4. Ela em Moçambique, filha de português e moçambicana, donde regressou a Portugal muito pequena - uma vítima da descolonização exemplar - ele em Lisboa.

Miguel começou a sério com os Polo Norte, que de facto são de Belas, e lançou-se a solo em 2010. Além de músico, ouvi por aí, mas sem conseguir provar, que é também um excelente cozinheiro.

Mariza aprendeu com o pai, grande apreciador de fado, e cresceu no Sr. Vinho. Geralmente não gosto muito das suas interpretações, embora não ponha em causa a qualidade da voz, mas neste dueto acho que vai muito bem.

Espero que também gostem da escolha.

fq

terça-feira, 27 de março de 2018

Das forças iguais e opostas

O diabético tem diabetes. Sabe que os tem, sabe o que tem de fazer para os contrariar ou, na pior das hipóteses, para não os agravar. Sabe o que lhe está proibido, o que lhe é permitido. Tudo nele - a sabedoria, a informação, o conhecimento mais equilibrado de si - vai no mesmo sentido. Ter diabetes e não injectar a insulina quando deve injectar-se é como querer andar-se de carro em contramão - pode fazer-se, mas é insensato. 

O raciocínio acima pode replicar-se para um sem fim de situações: o preguiçoso que sabe que é preguiçoso, o alcoólico que sabe que não pode beber álcool, o violento que sabe o que nele faz disparar um potencial ataque de violência, o asmático que desconfia muito certamente que a poeira lhe provocará incómodos. Tudo isto vai num mesmo sentido, que é saber-se o que provoca alterações e contrariá-las. Diabético -> insulina; violento -> trigger.  Podemos andar em contramão, mas sabemos que estamos a andar.

Há uma situação em que os raciocínios acima não funcionam, como se a contramão não fosse bem a contramão. Falo do convicto equilibrado. Este tipo de pessoas, cuja raridade só advém de um potencial déficit de auto-conhecimento, vivem uma contradição. Por um lado, estão certas, estão convictas de uma determinada posição. Por outro lado, embora saibam que sabem, têm consciência de que pouco sabem. Em que ficamos, então? Sabem ou não sabem? E chega dizer que sabem pouco?

O convicto equilibrado pode entender, muito sábia e correctamente, que tem razão numa discussão. Porém, como é equilibrado, sabe que pode não ter razão. É plausível que não tenha. Ora, nesse aspecto, tem duas convicções contraditórias: sabe que tem razão mas sabe que pode não ter razão. No fundo como se o diabético soubesse que não precisa de injectar insulina mas que precisa de injectar insulina. Não se trata de quanta insulina nem com que frequência. Não se trata de saber se tem muita razão ou pouca razão: há uma contradição insanável no convicto equilibrado: a certeza que tem e a certeza que não tem é uma tragédia no sentido aristotélico do termo, porque há duas forças em oposição. A tragédia, no sentido real do termo, é que as forças são iguais e de sentidos opostos, suscitando uma impossibilidade.

Aquele que sabe que nada sabe levou uma vida para perceber isso. A sabedoria advém-lhe da consciência da ignorância. Acontece o mesmo com o forte que pede ajuda e só é forte porque pede ajuda. O convicto equilibrado pode ser um lúcido com anos de estudo de si próprio. Ao fim de anos, especialista credível na leitura da vida, sabe que tem razão na forma como olha para um problema. Mas sabe que pode não ter razão, porque tem consciência da sua falibilidade sobre as coisas não exactas.

Este raciocínio, tal como a poesia, faz bem. Não percebi ainda bem a quê...

JdB     

segunda-feira, 26 de março de 2018

Poema para a semana que entra

As armas de Jesus são essa penúria,
E essa carne expostas à intempérie,
E os cães devoradores e a matilha boquiaberta;

As armas de Jesus são a cruz de Deus,
Ser um vagabundo que se deita sem fogo e sem lugar,
E as três cruzes levantadas e a sua ao meio.

As armas de Jesus são essa pilhagem
Do seu pobre rebanho, essa lotaria
Do seu pobre enxoval às mãos dum soldado;

As armas de Jesus são essa frágil cana,
E o sangue que corre do seu lado como um rio,
E o antigo lictor e o antigo feixe;

As armas de Jesus são esse escárnio
Aos pés da cruz, são esse zombar
Aos pés da cruz e a brusquidão

Do algoz, da tropa e do governo,
São o frio do sepulcro e o enterro,
As armas de Jesus são o desarmamento,
A injúria e a afronta, eis o seu engenho,

A cinza e as pedras, eis o seu minifúndio
E os seus aposentos e o seu ducado;
As armas de Jesus são o tenro arbusto
Entrançado sobre a sua bela fronte como uma frágil rede,

Selando a sua realeza com um selo de paródia;
Os discípulos covardes, eis a sua confraria,
Pedro e o canto do galo, eis a sua senhoria,
Eis a sua tenência e capitania.

Charles Péguy, Oitavo dia de La Tapisserie de sainte Geneviève et de Jeanne d’Arc, 20 de novembro de 1912

Retirado daqui

domingo, 25 de março de 2018

Domingo de Ramos

LEITURA II – Filip 2, 6-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

sábado, 24 de março de 2018

Pensamentos Impensados

Sar...coisices
A propósito da detenção de Sarkozy, aqui vai um pensamento com muitos anos: por princípio, os políticos devem ser considerados culpados até que se prove a sua inocência.

Novo acordo
Há patos mudos e foram eles os percursores do pato de silêncio.

Sustos
Adão, quando viu Eva pela primeira vez, assustou-se e pensou que era uma alma do outro mundo.

Do contra
Os anarquistas deviam dar, no teatro, bons contra-regras.

Restauração
Meia dose é uma medida de colação.

Dá-dos
Oiço dizer "tratamento de dados"; deve ser qualquer coisa relacionada com dados viciados.

Oh Dores!
Vai ser lançada uma linha de desodorizantes para lagosta suada.

Pavilhões
Vejo barcos com a bandeira helvética; estão a preparar-se para descobrir o caminho marítimo para a Suíça.

SdB (I)

sexta-feira, 23 de março de 2018

Poemas dos dias que correm

Elegia a uma pequena borboleta


Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!


Cecília Meirelles, in Retrato natural

quinta-feira, 22 de março de 2018

Artigos dos dias que correm *

Deus tem planos B?

Quando falhamos o caminho, quando seguimos por uma direcção errada, será que Deus tem "planos B" a partir do ponto em que agora nos encontramos por culpa nossa? 

Que sucede quando Deus nos diz para irmos por um lado e nós desobedecemos e vamos por outro?

Vem-me à cabeça uma situação que me aconteceu da última vez que guiei um carro com um GPS falante. Estava numa cidade estrangeira, num bairro cheio de pequenas ruas. A voz disse para eu virar mas eu estava distraído e não virei. Imediatamente recebi a ordem: “Fazer inversão de marcha”. Tentei mas estava um trânsito enorme e não conseguia. “Fazer inversão de marcha”, repetiu a voz. Para além do trânsito havia chuva. Não consegui.

Continuei em frente, aflito por ter saído fora dos planos e ter estragado tudo. A voz calou-se. O seu silêncio pareceu-me uma eternidade. Eu não sabia sequer onde estava. Então a voz fez-se ouvir de novo e disse algo como “Recalcular rota”. Em poucos segundos um novo trajecto apareceu no mapa do GPS. E a voz voltou ao seu “daqui a 200 metros”, agora segundo o novo trajecto. (E sem o mais ligeiro tom de reprovação!).

E Deus? Tem “planos B”? Ou seja: quando falhamos o caminho, quando seguimos por uma direcção errada, será que Ele tem “planos B” a partir do ponto (errado) em que agora nos encontramos (por culpa nossa)? Recalcula a rota?

Tomo como adquirido que Deus primeiro tenta sempre que façamos inversão de marcha. Mas nem sempre é fácil… Às vezes já não dá, a asneira já fez trajecto. Será que então aí Deus tem uma nova rota? Em relação a esta questão, tenho ouvido duas opiniões opostas:

Opinião 1 – Quando estragamos o caminho que o Senhor nos aponta, o caminho ficou estragado. Frustrámos o sonho de Deus e nem Ele pode fazer nada… Deus não tem “planos B”.

Opinião 2 – Claro que Deus tem “planos B”! E tem também planos C e D… Com Deus é sempre tempo para recomeçarmos. Devemos tentar acertar mas não há nenhum problema grande quando seguimos por outro caminho.

Qual das 2 hipóteses parece mais acertada? (Escusado será dizer que são ambas “modelos”, “maneiras de falar”, já que a realidade de Deus e da Sua acção está muito acima da nossa capacidade de a “explicarmos” a partir das nossas experiências e capacidade).

Não concordo com a Opinião 1. A Bíblia está cheia de exemplos de pessoas que seguiram caminhos contrários ao da vontade de Deus e, no entanto, Deus seguiu viagem com eles nesse novo caminho.  Logo a começar com Adão e Eva que desobedeceram (a história do fruto que Deus lhes proibira comer). Certamente Deus tem “planos B”.

Mais: quando agimos contra a Sua vontade, Deus não só não nos abandona mas ainda – quando nos arrependemos – nos ajuda a tirar partido disso para caminharmos melhor. É o perdão, essa Graça maravilhosa que Deus dá e que permite tirar “mais” do “menos” e fazer-nos recomeçar. É assim na Parábola do Filho Pródigo e nas nossas vidas. O perdão é a Graça para o recomeço. O perdão é a oferta permanente de um “plano B”.

Talvez Deus até só tenha “planos B”!  Ou pelo menos devemos dizer que, se Deus tem planos para nós, deve passar a vida a refazê-los pois constantemente fazemos escolhas contra a Sua vontade. Deus está permanentemente a recalcular a rota a partir do ponto onde realmente nos encontramos, diferente do ponto onde nos deveríamos encontrar. (Para quem ama, o ponto onde se encontra a pessoa amada é muito mais importante que qualquer outro ponto – mesmo que “ideal” – sobre a face da terra…)

Não concordo, por isso, com a Opinião 1. Por outro lado, também não sei se estou totalmente de acordo com a Opinião 2 quando diz que não há nenhum problema grande quando (livremente) vamos contra o que Deus nos pede. Ainda que Deus perdoe sempre, ainda que nos queira dar tudo para podermos recomeçar, parece-me que nós, por vezes, O conseguimos deixar de mãos atadas. Deus faz tudo o que pode por nós… dentro do espaço de manobra que Lhe damos. Aqui é que está a questão…

Vamos a um exemplo concreto. Quando senti o chamamento para ser jesuíta, um homem que eu não conhecia ouviu falar de mim e pediu-me para eu escutar o seu caso. Em mais novo ele tinha sido seminarista. Parece que até se estava a sentir bem mas um dia apareceu uma rapariga… Provavelmente não tinha muita experiência de namoradas e, de um impulso, sem muita ponderação, deixou o seminário. Casou-se mas não foi preciso esperar muito tempo para perceber que tinha feito asneira.  A sua vocação era mesmo a de ser padre.

Quando me contou a sua história já tinham passado muitos anos. Continuava casado com a mesma mulher. Tentava ser o melhor marido e o melhor pai que conseguia. Mas confessou-me que não era feliz. A sua vida teria sido a outra…

Fiquei sempre com este homem bom na minha cabeça e no meu coração. Tinha consciência que tinha estragado a sua felicidade e a dos que o rodeavam e quis prevenir-me. Nem me conhecia, apenas soube que eu ia começar o caminho que ele tinha abandonado 20 anos antes. “Talvez o sacerdócio nem seja a sua vocação – disse-me ele – mas não saia assim de repente como eu saí”.

Creio que somos hoje ingenuamente optimistas em relação a nós mesmos e em relação à vida. Achamos que está sempre tudo em aberto para ser revisto e recomeçado, quaisquer que sejam as opções que fizemos. Achamos que podemos sempre voltar ao ponto de partida e ser o que éramos antes da viagem. Acho esta ideia muito ingénua. As nossas opções entretanto fizeram história, criaram ligações, responsabilidades, tiveram as suas consequências, abriram ou fecharam possibilidades para o nosso futuro… Enfim… deixaram-nos em lugares diferentes dos lugares em que estávamos antes. Piores ou melhores; mas certamente diferentes.

E, ao longo do caminho, nós próprios ficámos pessoas diferentes devido às atitudes que fomos alimentando: pessoas mais livres ou mais mesquinhas, mais altruístas ou egocêntricas, pessoas com fé ou à defesa, generosas ou calculistas, pessoas mais humanas ou mais desumanas… As nossas decisões não decidem só a estrada que fazemos; decidem também as pessoas em que nos tornamos. Quando, no estrangeiro, meti pela rua errada, as consequências foram apenas uns minutos de atraso. Indiferente. Mas na vida nem sempre é assim. O homem que veio falar comigo tinha perfeita consciência disso. Por isso é que veio falar comigo.

Creio firmemente que a vontade de Deus coincide sempre com o nosso maior bem e que procurar fazer o que Lhe agrada (seja casar, seja ser padre, seja o que for nas pequenas e nas grandes coisas) é sempre a opção mais inteligente quando temos de tomar decisões.Digo “procurar” e não “fazer” porque muitas vezes nem sabemos bem o que é o melhor e por onde passa a vontade de Deus. Nem Deus nos pede que acertemos; pede-nos apenas que o tentemos fazer de todo o coração. Com essa nossa generosidade e boa vontade, Ele fará tudo o resto. E até poderá “escrever direito por linha tortas”, como diz o povo. Vezes sem conta. Ou seja: Deus tem sempre “planos B”. Para Ele, hoje é sempre o primeiro dia das nossas vidas. Mas não escreve por nós a nossa história.

Padre Nuno Tovar Lemos

* enviado por mão amiga

quarta-feira, 21 de março de 2018

Dos puritanos e dos comunistas

"Not a whit. We defy augury. There’s a special providence in the fall of a sparrow. If it be now, ’tis not to come. If it be not to come, it will be now. If it be not now, yet it will come—the readiness is all."

Shakespeare (Hamlet, Acto V, Cena II)

***

Atiremo-nos ao silogismo: se A = B e B = C então A = C. Atiremo-nos agora ao devaneio: se os comunistas não jogam aos dados e os puritanos não jogam aos dados, então os comunistas são puritanos. Ou vice-versa.

***

Alguém me dizia, um destes dias, que gostava de conhecer o camarada Jerónimo de Sousa. A vontade, vinda de um cavalheiro com alguma idade, não tem por trás um qualquer interesse em discutir o fracasso da primeira internacional, a incapacidade de Marx em ter uma conjugalidade civilizada ou mesmo os encantos de viver em Pirescoxe. Há um interesse quase zoológico, sem desprimor pelo visado, em querer almoçar com este operário metalúrgico em quem se descortina qualquer coisa de simpático ou de educado. 

Há em mim uma dimensão socialmente curiosa. Quando os ventos internos correm de feição, gosto de conhecer gente diferente. Por vezes muito diferente, categoria em que enquadraria o secretário-geral do PCP. O meu temor é sempre um, formulado em duas perguntas: terão interesse? Irão maçar-me? Quando respondi que não e que sim às perguntas anteriores (a ordem dos factores não é arbitrária) percebi que devia dizer ao cavalheiro com alguma idade para não se meter nisso. Porquê? Porque nos comunistas o riso é algo de burguês que deve ser usado o menos possível em público - talvez mesmo combatido ferozmente em público. Dentro de cada comunista (englobando-se, neste sentido, a rapaziada do Bloco de Esquerda) há um frade assassino do mosteiro d' O Nome da Rosa, descrente que Aristóteles tenha, de facto, escrito um tratado sobre o riso, ou se o fez, foi para provar a menoridade da comédia face à tragédia  - esta última sim, próxima do sublime. Um comunista não ri, porque a seriedade da vida e a luta de classes não o permitem, nem sequer o suscitam. O divertimento não monta barricadas, não alimenta o campesinato faminto, não faz cantar os amanhãs - o riso é contrário aos ideais da revolução. Os comunistas não serão, assim, boas companhias de almoço.


Foi com base nesta ideia que me debrucei - ou talvez me tenham debruçado, sei lá eu - sobre os puritanos, esses protestantes radicais de confissão calvinista, vestidos de preto e detentores de faces patibulares nas quais não se esboça um sorriso - ou nem sequer se esboça a possibilidade de um sorriso. Talvez eles, como os comunistas, não sorriam, porque a vida é difícil e o riso é indutor de luxúrias e insultos à paixão do Senhor, que nunca riu, talvez nunca tenha sequer sorrido muito. E depois soube que os puritanos não jogavam aos dados, esse jogo que pratiquei muito no quartel porque nunca me chamaram para a guerra, mas sim para a messe de oficiais. E depois achei que era pelos mesmo motivos que os comunistas não sorriam (e talvez os comunistas eruditos não reconheçam em público que jogam aos dados) porque não agrada ao Senhor ou não agrada à memória dos fundadores do movimento operário. E, nesse sentido, puritanos eram iguais a comunistas (ou vice-versa): se A = B e B = C então A = C.

Fui elucidado pelos versos de Shakespeare que encimam este devaneio. Pode ler-se o parágrafo, mas deve fixar-se a frase a negrito: há uma providência especial na queda de um pardal. Isto é, nada há de fortuito e a mão de Deus está por trás de tudo - até da queda de um pardal. Ora, se assim é, a proibição do jogo de dados torna-se, para os puritanos, de uma elementar clareza indiscutível. Se perdermos aos dados foi a mão de Deus - e para os puritanos esta mão está por trás de tudo - que entendeu assim. Se ganharmos, o raciocínio é o mesmo. Contudo, o mundo está repleto de problemas bem mais graves do que não sair o terceiro valete à segunda jogada. Lançar dados é, por isso, obrigar Deus a desviar o Seu olhar das necessidades prementes, para se ater nos divertimentos frívolos. É obrigar o Santíssimo a horas extraordinárias. E os puritanos não o fazem, entregando-se mais ao treino das caras sérias.

O que separa os puritanos dos comunistas (ou ice-versa)? O verso de Hamlet, nada mais do que o verso de Hamlet, pese embora o interesse díspar que exibam pelos pardais. Quando alguém vos disser que, se A = B e B = C então A = C, desconfiem. Sobretudo se nas premissas houver gente que não ri.

JdB

terça-feira, 20 de março de 2018

Porta 19 *

Era uma vez uma gaveta. Era de madeira, como todas as outras. Tinha puxadores trabalhados, bem presos e um forro de papel velho e desgastado com o uso.
Naquele mundo não havia justiça. Havia gavetas preferidas. Havia outras que se tentavam fechar para que nunca mais se abrissem. Mas era impossível.
As gavetas abriam, os seus moradores saltavam e gritavam, brincavam, choravam e até se zangavam uns com os outros.
Para melhor organização daquele mundo complexo a que os humanos chamavam cabeça, as gavetas tinham números.
Quando o mundo foi criado, algumas gavetas vinham incluídas no pacote, outras foram sendo adquiridas ao longo dos anos, outras nunca chegaram a abrir (provavelmente não seriam usadas para nada).
Havia uma gaveta em especial, que por fora era igual às outras. Madeira, puxador branco, mas com um habitante que moía o juízo aos outros. Lá dentro vivia a solidão. Como companheiro, uma dose enorme de pó, que chorava todos os dias, e de cotão, que gritava sem ninguém dar por isso.
Tentaram várias vezes fazer trocas. Esconder a solidão numa gaveta que não fosse aborrecer mais ninguém, fechá-la, calá-la mas... a solidão não se cala, as gavetas não têm chave e ela dali não saía.
Levaram a situação a um ponto tão grave que tentaram expulsar a solidão do mundo. Mas nada, nem os humanos conseguiam resolver o assunto.
Nem com talão, reclamação e justificação plausível a troca seria feita. Os moradores do mundo até discutiram com quem lhes impingiu aquilo. Disseram que não servia para nada, só para desarrumar as outras gavetas. Perceberam então que, quando se adquiriam os outros produtos, a solidão estava anexada, era um género de brincadeira de mau gosto.
A maioria das outras gavetas (conformadas com aquela presença estranha) pouco ou nada queria saber daquela que tinha a solidão. Ignoravam-na a maioria dos dias, iluminadas com a luz do sol, todas funcionavam bem. Entre o abrir e o fechar, os saltos e piruetas do que estava dentro das outras gavetas e armários, ninguém dava muito pela solidão.
A sabedoria e a inteligência brincavam uma com a outra. O sentido de humor, uma criatura pequenina e sorrateira, escondia-se e pregava sustos às convenções sociais e ao silêncio. O mau feitio era estranho, disfarçava-se e dava-se muito mal com o sentido de humor. Aparecia só de quando em vez, e quando não aparecia, fechava-se na sua gaveta com os amiguinhos: os gritos e a arrogância, e às vezes também se juntava a raiva.
Na minha cabeça tenho as gavetas do cérebro bem organizadas. Mas há uma vazia, forrada com um papel velho e gasto, entreaberta, com cotão, pó e um ser estranho a viver lá. Já pensei, mas ainda não sei o que fazer com ela.

All the lonely people, where do they all come from?
All the lonely people, where do they all belong?

TdB

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publicado originalmente em 2.12.2009

segunda-feira, 19 de março de 2018

Duas Últimas

Ontem fui aos 40 anos de casados de amigos recentes, mas cuja amizade prezo. Embora sejam pessoas mais velhas do que eu, e tenham casado relativamente cedo, são gente da minha geração. Mandaram celebrar missa no mesmo sítio onde casaram, rezada pelo mesmo padre que os casou - agora com 86 anos. Nestas bodas de esmeralda (aprendo ontem) estava gente que não estava há 40 anos, gente que repetiu as cerimónias, faltavam pessoas - porque morreram - que estiveram ali ontem, mas há 4o anos. Nada de muito surpreendente na dinâmica da vida. 

40 anos é mais do que uma vida. Daquele casamento nasceram filhas e netos. Daquele casamento, como de outros que vou conhecendo mais ou menos com a mesma idade, nasceram ideias de casamentos perfeitos - não porque isentos de discussões e zangas, mas porque isentos de desistência. Tal como um santo é um pecador que não desiste, um casamento perfeito é aquele do qual não se desiste, em busca de uma felicidade que é um caminho, não um destino.

A longevidade destes casamentos representa tudo - uma dimensão de sorte, de esforço, de cedência mútua, de negociação, talvez até de vontade de mandar tudo às malvas.  Mas significa, acima de tudo, a ideia de exequibilidade, de possibilidade. Sim, é possível nos dias de hoje festejarem-se 40 anos de casados, contra todas as ideias que vão em sentido contrário. Não significa isto que o fim de alguns casamentos não tenha sido um inevitabilidade. Sim, alguns acabaram porque tinham de acabar, assim como outros acabaram sem que isso fosse uma inevitabilidade. 

40 anos é uma vida. E pode ser uma vida cheia, assim as pessoas queiram e o destino ajude. 

Deixo-vos com uma dupla que já por aqui passou, talvez mesmo com este belíssimo poema de Pedro Homem de Mello. "Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu."

JdB


domingo, 18 de março de 2018

5º Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Jo 12, 20-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
alguns gregos que tinha vindo a Jerusalém
para adorar nos dias da festa,
foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia,
e fizeram-lhe este pedido:
«Senhor, nós queríamos ver Jesus».
Filipe foi dizê-lo a André;
e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus.
Jesus respondeu-lhes:
«Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado.
Em verdade, em verdade vos digo:
Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só;
mas se morrer, dará muito fruto.
Quem ama a sua vida, perdê-la-á,
e quem despreza a sua vida neste mundo
conservá-la-á para a vida eterna.
Se alguém Me quiser servir, que Me siga,
e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo.
E se alguém Me servir, meu Pai o honrará.
Agora a minha alma está perturbada.
E que hei de dizer? Pai, salva-Me desta hora?
Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora.
Pai, glorifica o teu nome».
Veio então uma voz do céu que dizia:
«Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l'O».
A multidão que estava presente e ouvira
dizia ter sido um trovão.
Outros afirmavam: «Foi um Anjo que Lhe falou».
Disse Jesus:
«Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir;
foi por vossa causa.
Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado.
Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo.
E quando Eu for elevado da terra,
atrairei todos a Mim».
Falava deste modo,
para indicar de que morte ia morrer.

sábado, 17 de março de 2018

Pensamentos Impensados

Encontros
Tango - Choque frontal sem feridos.

Acordo ortográfico
Trampolinice - Qualquer atitude de Donald Trump.

Termos antigos
- Como é a sua graça?
- Graça.
- Eu perguntei o seu nome.
- Graça

A braços com...
O polvo terá braço direito? O polvo terá sete braços direitos? O polvo terá 8 x 7 braços direitos?

Tradu...som
Oh tempo volta para trás, em inglês diz-se weather come back.

Tinham química
O princípio de Arquimedes foi quando o pai e a mãe dele se juntaram na mesma cama.

SdB (I)

sexta-feira, 16 de março de 2018

Poemas dos dias que correm *

Em Todas as Ruas te Encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny, in Pena Capital

***

Nocturno

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão…
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy….
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança…

David Mourão-Ferreira, in Infinito Pessoal

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* escolhidos por TdB

quinta-feira, 15 de março de 2018

Pensamento Impensado

Ingrata Pátria, não possuirás meus ossos

Vi na televisão Marcelo Rebelo de Sousa a elogiar o Museu de S. Miguel de Odrinhas, que havia visitado.

Há uns 50 anos, eu e um primo meu, ambos apreciadores de "pedras", fomos ao referido museu; a porta estava fechada mas uns populares informaram que era a Sra. Maria quem tinha a chave mas estava no campo a cavar. Contactada a dita senhora, lá apareceu. O museu, a céu aberto, constava de pedras romanas, lápides, colunas partidas e até um sarcófago com um esqueleto. Pelo museu passeavam dois cães. Chamei a atenção da "conservadora" que respondeu: pois, às vezes abalam com os ossos...

Espero que tenha sobejado algum fémur para ser acariciado pelo Senhor Presidente da República.

SdB (I)

Orações dos dias que correm *

Oração escrita por São Tomás More e rezada diariamente pelo Papa Francisco, oferecida à comunidade da Capela do Rato pelo P. José Tolentino Mendonça, como gesto de agradecimento pela oração da comunidade durante o retiro ao Papa Francisco e à Cúria Romana.

Oração a pedir o bom humor

Dai-me, Senhor, uma boa digestão,
mas também qualquer coisa para digerir.
Concede-me a saúde do corpo e o necessário
bom humor para mantê-la.

Dai-me, Senhor, uma alma simples,
que saiba aproveitar tudo o que é bom
e não se assuste demasiado perante o mal,
mas encontre maneira de recolocar
as coisas no lugar devido.

Dai-me uma alma que não fique refém do tédio
nem de resmungos, impaciências ou lamentações,
e não permitais que me atormente
para lá do razoável
com essa coisa turbulenta chamada “eu”.

Dai-me, Senhor, um sentido de humor apurado
e a capacidade de receber o que aí vem a sorrir
vivendo o que me cabe com alegria
e partilhando-a sem custos acrescidos
com os outros. Ámen.

in in http://www.capeladorato.org

* enviada por mão amiga

quarta-feira, 14 de março de 2018

Vai um gin do Peter's?

O PREÇO EXORBITANTE DA BELEZA CONFIRMA-SE EM ESTRASBURGO

No enclave rico e estratégico da Alsácia-Lorena, Estrasburgo brilha pela arquitectura harmoniosa das ruas que serpenteiam os braços de um afluente do Reno, formando canais semelhantes a uma pequena Veneza repleta de pontes, palacetes e pracetas acolhedoras.  Em 1988, o centro histórico foi declarado Património da UNESCO. 



Fadada para ser próspera e culta, nasceu na linha vital do Reno como encruzilhada dos negócios, das relações diplomáticas internacionais e dos exércitos imperiais. Demasiado cobiçada pelas grandes potências, tornou-se palco regular de combates encarniçados, seguindo-se depois um esforço homérico de reconstrução, ora em posse germânica, ora francesa. Apesar de hoje pertencer ao território galês, a influência alemã predomina.



Os ciclos de destruição e restauro reflectiram-se, em primeira instância, na magnífica catedral gótica - jóia arquitectónica na ilha urbana recortada pelo circuito sinuoso dos esguios canais. Com o palmarés de quarto templo cristão mais alto do mundo, com uma única torre, a sua história atribulada será tema do próximo gin.

Terminada em 1284, está dedicada a Nossa Senhora.
Os vitrais, a perfeição da estatuária e o famoso relógio astronómico são ex-libris da magnífica catedral

O conforto e a modernidade de Estrasburgo atraíram figuras maiores da cultura e ciência europeias, que ali passaram grandes temporadas: Gutenberg (1400-1468) - inventor da impressão mecanográfica, o humanista Erasmus de Roterdão (1467-1536), o reformista protestante Calvino (1509-1564), o genial escritor alemão Goethe (1749-1832), o compositor austríaco W.A. Mozart (1756-1791), o cientista Louis Pasteur (1830-1895) e o médico-filósofo Albert Schweitzer (1875-1965).

Bem localizada num planalto 140m acima do nível do mar, começou por constituir o bastião fronteiriço do Império Romano junto às margens protectoras do Reno, logo nos primórdios do séc. 12 a.C. 

- Logo no século III, foi elevada a sede episcopal, beneficiando mais tarde do estatuto de Cidade Livre no seio do Sacro Império Romano-Germânico (962-1806). Aliás, a partir do século X, a autoridade máxima passou a ser exercida pelo Bispo, que adquiriu o título de príncipe. 

- No século V, foi integrada no Império franco. 

- Entre os séculos IX e XVII, manteve-se sob domínio germânico. Em 842, dois netos de Carlos Magno tinham-na escolhido para firmar uma aliança militar, que resultou no primeiro documento escrito em francês e alemão, designado "Juramento de Estrasburgo". Essa confluência das duas línguas fixou, por perto de mil e quinhentos anos, o destino da metrópole. 

- Em 1520s, aderiu à Reforma de Lutero e de Calvino, acolhendo uma universidade de cunho protestante. 

- Em 1681, foi conquistada por França, retomando a confissão católica. Para impressionar os derrotados, Luís XIV encomendou a Jacques François Blondel obras monumentais, que incluíram o Palácio dos Príncipes de Rohan, pontes cobertas e uma nova cidadela burguesa no lado virado para a Alemanha. 

Entrada monumental do palácio inaugurado, em 1742, pelo Cardeal Armand-Gaston de Rohan-Soubise,
príncipe-bispo de Estrasburgo

Visão geral do Palácio Rohan que, desde o séc. XIX, alberga os 3 museus:
Arqueológico, de Artes Decorativas e de Belas Artes

Fachada fluvial do majestoso edifício barroco setecentista, próximo da catedral, cujo pináculo se avista atrás.


- Em 1871, integrou o I Reich e, a mando de Bismark, voltou a ser embelezada para vincar a supremacia cultural da recém-constituída Alemanha. 

- No final da I Guerra Mundial, com a derrota alemã, tornou-se domínio galês. 

- Em Junho de 1940, as tropas de Hitler anexaram a cidade-troféu, elevando-a a capital da Alsácia-Lorena. Protagonizou a campanha conhecida por "Malgré nous" para aludir aos recrutamentos forçados da população masculina, a partir de 1942.

- A 23 de Novembro de 1944, parcialmente devastada pelos bombardeamentos da aviação aliada, as forças anglo-americanas libertaram-na do jugo nazi. 

- No final da II Guerra, voltou a ter hasteada a bandeira tricolor, embora constituindo o lugar, por excelência, da reconciliação franco-germânica. Com esse fito, em 1946, converteu-se na sede do Conselho da Europa, que respondia ao anseio verbalizado por Churchill para a criação dos Estados Unidos da Europa. Antevia, nesta união política, o melhor garante da paz, fundada num modus operandi cooperativo entre os povos europeus. Antecipou-se em mais de uma década à UE, para oferecer a um número vasto de países - 47 - um espaço de diálogo e defesa dos três pilares do bom convívio internacional: democracia, direitos humanos e primado da lei/Estado de direito. 

Edifício do arquitecto Henry Bernard, foi inaugurado em 1977.
Está decorado com obras de arte dos países-membros, sendo a portuguesa um um painel de azulejos

- Mais tarde, Estrasburgo recebeu ainda o Parlamento Europeu e o Tribunal dos Direitos Humanos. 

Ao assumir o cariz transnacional, que melhor se adequa à sua condição de ponto de convergência de culturas e poderes, Estrasburgo pôde, finalmente, prosperar em paz. A sua história espelha o melhor e o pior da Europa, numa atractividade que pagou avultadamente pelo sangue derramado por tantas gerações. Carrega, no fundo, os mesmos séculos de belicismo que assolaram a Europa, apenas apaziguados há 70 anos pelo novo estatuto de europeísmo.

As cicatrizes herdadas dessoutra concepção agressiva e dramaticamente próxima no tempo, acabam por prestar homenagem às perdas incalculáveis em vidas humanas e materiais, fruto da cedência à mais primária tentação do poder: a avidez da posse a qualquer preço, descambando facilmente em guerra. Dá que pensar a longevidade longuíssima de uma mentalidade tão nefasta. Por outro lado, indicia a eventual fragilidade deste novo pensar pluralista, que merece e precisa de vigilância, se quisermos evitar o reacender do espírito fracturante e nacionalista de outrora.

Como costumava afirmar o catedrático de História Jorge Borges de Macedo (BM): na riqueza da Europa reside também o ponto mais vulnerável - a diversidade, inscrita na sua matriz judaico-cristã. Testemunhei a acutilância da observação do Prof. BM em viagem recente a Estrasburgo, que reúne a excelente planificação alemã com o glamour e bom gosto franceses. Tudo lindo mas um pouco frágil, a evocar igualmente o aforismo de Oscar Wilde sobre a beleza: Dura apenas 5 minutos...  

Concluindo com uma nota de esperança: foram (e costumam ser) evidentes os méritos do diálogo e da troca de experiências entre povos, a constituir o ponto alto das constantes reuniões multinacionais realizadas na cidade da Europa. Além de contribuir para a aproximação de gentes de latitudes e hábitos distintos, lança pontes inimagináveis e viabiliza complementaridades que o tempo, depois, ajuda a sedimentar. O tempo - esse grande mestre - joga sempre a favor de quem está bem-intencionado (uma convicção pessoal). 


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
  


terça-feira, 13 de março de 2018

Duas Últimas

Soube desta versão - ou foi-me relembrada esta versão - ouvindo telefonia numa manhã chuvosa de trânsito. Fui à procura dela - e gostei. Ao meu lado alguém me dizia, aos primeiros acordes, que já estava desinteressada.

Há vários factores que me fazem gostar:

1) ser a Carminho, de quem sou apreciador;
2) ser acompanhado por um acordeão. Sou bastante conservador em termos de fado (a bem dizer em termos de quase tudo...) mas gostei do contraste. 
3) fiz uma associação que para mim funcionou - o espectáculo era de solidariedade por uma desgraça (enfim, por que outro motivo seria...?), e a versão conferiu ao fado uma (talvez) tristeza suplementar que me pareceu casar bem. 
4) gosto que se use a expressão "anelos" [ó meu amor marinheiro / ó dono dos meus anelos / não deixes que à noite a lua / roube a cor aos teus cabelos] que o dicionário diz que significa desejo ardente, ansiedade. 

A tristeza, como saberão os que me conhecem ou vão tendo paciência para o dono e editor do estabelecimento, não me entristece. Dá apenas uma certa rugosidade macia à vida.

JdB





segunda-feira, 12 de março de 2018

Da confiança ou do optimismo

"No melhor dos mundos possíveis, todos os acontecimentos andam encadeados; porque, afinal, se o senhor não tivesse sido expulso de um belo castelo com grandes pontapés no traseiro por amor da menina Cunégonde, se não tivesse sido encarcerado pela Inquisição, se não tivesse corrido a América a pé, se não tivesse dado uma boa estocada ao Barão, se não tivesse perdido todos os carneiros do bom país do Eldorado, não estaria agora aqui a comer pistácios e cidra cristalizada."

***

"- Strangely enough, it all turns out well.
- How?
- I don't know, it's a mistery..."

***

A primeira citação é de Cândido ou o Optimismo, de Voltaire [1694 - 1778]. A segunda citação, que já visita este estabelecimento ad nauseam, é do filme A Paixão de Shakespeare. [o escritor viveu entre 1554 e 1616]. Embora as citações pareçam ter semelhanças, são diferentes. E no entanto, embora pareçam ser diferentes, são muito semelhantes. Não nos autores (se bem que a frase "it's a mistery" não deva ser do dramaturgo), um inglês e um francês que nunca se cruzaram no tempo e no espaço, pois nasceram com 150 anos de diferença. 

A primeira citação fala de optimismo; a segunda de confiança. Ao longo do livro, o sábio Pangloss afirma repetidamente que "este é o melhor dos mundos possíveis". O personagem do filme não sabe como tudo se resolverá, mas sabe que se resolverá. "É um mistério" constitui uma manifestação de confiança no futuro - seja no alinhamento dos astros, seja na mão divina que tudo rege.

Consegue ser-se um sem o outro? A minha intuição inicial é que, talvez não sendo irmãs, confiança e optimismo são, ou primas direitas, ou filhas de primos direitos, que é uma espécie de fim-de-curso de interesse na genealogia dos tempos modernos - não ligamos pessoas mais afastadas. Mas a minha intuição - e por isso não assente em nada vagamente demonstrável, menos ainda científico, é que a confiança é um sentimento com uma profundidade diferente, seguramente maior. Não a confiança no médico e na mão que não treme, mas a confiança que é precedida pela certeza "não sei". 

Optimismo pode ser uma fezada, uma característica de gente muito alegre, contente, que entende, como Pangloss, que este é o melhor dos mundos possíveis. Mas a confiança e a fé são irmãs, talvez siamesas, seguramente de braço dado, sempre. O que define o personagem do filme não é o optimismo, mas a confiança, e esta confiança assenta no desconhecimento, não na ignorância, pois são coisas diferentes. Parafraseando um pequenino texto que me enviaram um destes dias, é como andar de avião: entregamo-nos à confiança, não ao optimismo. Desconhecemos como "aquilo" voa - se soubéssemos éramos apenas engenheiros aeronáuticos, e não mortais crentes.

Pode ser-se confiante sem optimismo? Não sei, mas se tiver de escolher um dos conceitos para me dar o braço já escolhi. Mesmo que ninguém se interesse pelo tema, o que se afigura pensamento de grande inteligência. A actualidade está repleta de temais mais interessantes - mas talvez não tão desafiantes, digo eu...

JdB

domingo, 11 de março de 2018

4º Domingo da Quaresma

EVANGELHO: Jo 3, 14-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Assim como Moisés elevou a serpente no deserto,
também o Filho do homem será elevado,
para que todo aquele que acredita
tenha n'Ele a vida eterna.
Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n’Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n’Ele não é condenado,
mas quem não acredita já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus.
E a causa da condenação é esta:
a luz veio ao mundo
e os homens amaram mais as trevas do que a luz,
porque eram más as suas obras.
Todo aquele que pratica más ações
odeia a luz e não se aproxima dela,
para que as suas obras não sejam denunciadas.
Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz,
para que as suas obras sejam manifestas,
pois são feitas em Deus.

sábado, 10 de março de 2018

Pensamentos Impensados

Pensador
Não sei como ainda tenho cabeça para pensar em coisas sem pés nem cabeça.

Águas turvas
A Atlântida jaz no fundo do oceano; é o que se chama a fundo perdido.

Tremuras
Cismo o que fazer em caso de sismo.

Prolongamentos
Mais depressa se acaba com a guerra dos 100 anos do que com o processo Sócrates.

Climas
Portugal precisava de chuva e não de um tornado; assim tivemos o caldo entornado.

Pavimentos
Moro num res-do-chão direito.
Que sorte, o meu está todo ondulado devido a uma inundação.

Maningâncias
A serpente do Paraíso, quando quis negociar com a Eva o negócio da maçã, como não sabia que linguagem esta falava, usou  a linguagem gestual.

Males que vêm por bem
Tinha um carro tão pequeno que o estacionava num buraco da rua.

SdB (I)

sexta-feira, 9 de março de 2018

Experiências dos dias que correm



Não só nunca tinha lido nada de Hilda Hilst como desconhecia por absoluto a sua existência. Vivo tranquilo com esta evidente - ainda que relativa - ignorância. Afinal, ao que parece, a poetisa brasileira é muito pouco divulgada em Portugal. Tomei conhecimento de alguma poesia dela na 4ªfeira, através da oratória tranquila, ligeira, mas sabedora, do Professor Gustavo Rubim, que foi, por coincidência, meu professor numa pós-graduação na Universidade Nova. Naquela altura eu era ignorante. Agora também sou - mas sei que sou, se é que me faço entender na nuance do raciocínio. 

Colegas académicos desafiaram-me para recitar algumas coisas dela. Não sei declamar - nem os meus colegas de performance de ontem, mas acho graça o desafio. Lendo fixo mais do que ouvindo...  Eram 13 poemas e os declamadores não se conheciam, tendo-se encontrado 5 minutos antes da sessão. Como decidir quem lê o quê? Simples: privilégios académicos. Em primeiro lugar uma colega já doutorada, depous um colega que defende a tese daqui a 2 meses e depois eu, o novato. Coube-me ler o poema que reproduzo abaixo e que me deu muito gosto ler em voz alta. Afinal, o silêncio diz-me muito, passe a curiosidade da frase, e é uma forma de despojamento. 

De facto o nosso silêncio - o bom e o mau - pode ser maior do que o silêncio do mundo. 

JdB

***

Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.

Hilda Hilst, in Roteiro do Silêncio, 1959

  

quinta-feira, 8 de março de 2018

Textos dos dias que correm

A arte dos pequenos passos

«Não te peço milagres ou visões, mas a força para enfrentar o quotidiano. Preserva-me do temor de poder perder alguma coisa da vida. Não me dês o que desejo, mas o que preciso. Ensina-me a arte dos pequenos passos.»

Esta é uma oração aparente mínima, quase sussurrada por um escritor conhecido sobretudo pelo sucesso constante de um seu romance, “O principezinho”.

Antoine de Saint-Exupéry, que era também aviador e que morreu em voo em 1914, aos 44 anos, pede a Deus um dom raramente evocado, o da simplicidade e da fidelidade pacata e serena nas pequenas opções de cada dia.

É a mesma atitude orante do salmista na deliciosa cena materno-filial do Salmo 131: «Não vou à procura de coisas grandes, superiores às minhas forças. Estou tranquilo e sereno como criança desmamada, nos braços da sua mãe».

Estamos nos antípodas do estilo do nosso tempo que prefere o excesso, o grito, a exasperação. Uma atitude que se infiltra também na espiritualidade, com a procura de visões e milagres, com a predileção pelas expressões exteriores e o abandono da paciente e constante formação interior.

O desejo vai muito além das necessidades reais e, portanto, queremos ter sempre cada vez mais, tanto no bem-estar quanto no sucesso, e também na religião. Eis, então, a sugestiva expressão do escritor francês: «a arte dos pequenos passos».

Em vez de fazer saltos clamorosos e, muitas vezes, ruinosos, é preciso optar por um caminho lento e progressivo. Um passo após outro em direção ao objetivo é muito mais eficaz do que uma corrida desenfreada e extenuante que, no fim, nos deixa à beira do caminho.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 05.03.2018

quarta-feira, 7 de março de 2018

Duas Últimas

O meu avô paterno almoçava de segunda a sexta (quase) sempre no mesmo restaurante lisboeta, na mesma mesa situada a um canto, com as mesmas companhias, a discorrer sobre negócios familiares ou política, terminando invariavelmente o demorado repasto com o indispensável xiripiti e os cigarros sorvidos até ao filtro.

O meu pai almoçava muitas vezes num club, igualmente lisboeta, com usos francamente incompatíveis com a agora tão propalada igualdade de género (e afins), num ambiente propício a agradáveis e picantes conversas, com boa comida caseira e uns dados para testar a sorte e tentar passar a conta do almoço a amigo mais azarado.

Eu almoço em média umas três vezes por semana na cidade (?) onde trabalho, na margem sul do Tejo. Umas vezes bem, muitas vezes assim-assim. O assunto de que se fala é quase sempre trabalho pelo que, em calhando estar sozinho, não vem mal ao mundo por isso.

Os meus filhos "trabalhadores" almoçam à pressa, tenho até duvidas se chegam a sentar-se para, sendo optimista, atacar um bitoque e bebericar um fino.

Enfim, uma sequência pouco auspiciosa no que respeita ao aproveitamento do tempo para almoçar. A velha máxima de que "trabalhar é também almoçar", com tudo o que tinha aderente, está em acentuado declínio, nestes tempos de pressas, ânsias e competição desenfreada. Aliás, como ouvi ainda há pouco a pessoa recomendável, "se anseias muito é porque rezas pouco".......

Aos nossos ancestrais faltavam certamente muitas das facilidades e meios que temos hoje em dia. Mas tinham tempo e faziam por "estar", e valorizo muito isso, talvez porque tenho grande dificuldade (muitas recaídas....) em lhes seguir os bons exemplos,

Deixo-vos com o grupo "Os Quatro e Meia", nascido em 2013, e uma música com uma assertiva letra sobre as mães, pessoas desde sempre com pouco tempo para almoços, sejam eles grandes ou pequenos.

Espero que gostem da escolha.

fq


terça-feira, 6 de março de 2018

Poemas dos dias que correm

Acordar na Rua do Mundo

madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme
da joalharia, os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos, assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário

Luiza Neto Jorge, in 'A Lume'

***

O Êxito Parece a Mais Doce das Coisas

O êxito parece a mais doce das coisas 
A quem nunca venceu na vida. 
Ter a compreensão de um néctar 
Exige a mais dolorosa necessidade. 

De entre o purpúreo Exército 
Que hoje empunhou a Bandeira 
Nenhum outro poderá dar uma tão clara 
Definição da Vitória 

Como o vencido - agonizante - 
Em cujo ouvido interdito 
A distante ária triunfal 
Ressoa nítida e pungente! 

Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas" 
Tradução de Nuno Júdice 

segunda-feira, 5 de março de 2018

Para a T, para o F e, obviamente, para o A

Com o mal dos outros posso eu bem... (da sabedoria popular)

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Nos últimos dias, pelo quarto de um qualquer hospital pediátrico, passaram os seguintes agregados familiares:

  1. Uma criança pequena, penso que ainda bebé, com meningite. A mãe, de baixa, passa os dias no quarto do hospital. O pai dorme naquele quarto todas as noites, porque durante o dia trabalha. Quando entraram tinham a expectativa de lá ficar uma semana. Saíram ao fim de um mês.
  2. Uma rapariga nova, de sete anos, talvez, com um problema cardíaco. A mãe, cabo-verdeana e solteira, trabalha a dias, pelo que naquele curto período que pernoitou no quarto deixou a filha sozinha com as enfermeiras, porque se não trabalhar não ganha.
  3. Uma criança indiana com um vírus, que chorou toda a noite e com quem a mão se zangou toda a noite na língua de ambos, uma vez que não falam português.
  4. Outra criança de dois anos, com artrite reumatóide, que entrou com um pai furioso porque o peluche da filha tinha desaparecido, o que devia ser motivo de inquérito. No dia seguinte, mais calmo, disse a uma das mães que também lá tem um filho: podemos começar de novo? 
  5. Uma criança de sete anos com um físico de dois, que geme baixinho e com dores. Diz a mãe que é um milagre da natureza (ou da vida ou da força ou da fé) porque não era suposto ter sobrevivido.
Se este texto fosse escrito daqui a dois dias, certamente que acrescentaria mais casos à lista. Há naquele quarto uma dinâmica própria dos hospitais: entram alguns doentes, saem outros (quase) curados que dão lugar a outras crianças que entram para ficarem um dia ou um mês ou, quase sempre, um prazo indeterminado.

Um hospital pediátrico é tudo: é uma violência, um desafio, uma desestruturação familiar, um sufoco, uma esperança ou um drama. Entra-se como se é, mas sai-se o que a vida naqueles dias faz de nós. Não se sai mais infantil, mais puro, mais ingénuo, mais crescido, mais sabedor, mais confiante ou mais iludido, com mais vocabulário técnico ou a saber manejar uma seringa. Sai-se mais, sai-se maior. Sai-se mais atento, mais pessoa, com uns olhos rasgados para o nosso semelhante. Ali, naquele quarto onde entram crianças doentes e que sofrem, e pais tensos, desesperados, sofredores, ali, naquele quarto, a igualdade é absoluta e o ser humano purifica-se. Não há apelidos, riquezas pessoais, estatutos profissionais ou conhecimentos importantes que valham a quem quer quer seja. Ali só há crianças doentes, algumas muito doentes. Ali só há vidas perturbadas, crianças arrancadas às escolas e pais arrancados às rotinas. Ali há - ou existe a possibilidade - da generosidade da ajuda mais altruísta, porque não espera nada em troca. Ali há - ou existe a possibilidade - do entendimento de pessoas que não se conhecem mas que falam a linguagem comum, a dos filhos pequenos que estão doentes.

Um hospital pediátrico é o mundo no seu pior mas, estranhamente, na possibilidade do seu melhor. No microcosmos de um quarto a interacção é muito próxima, não obedecendo a regras sociais de convivalidade que governam cada um de nós. Está-se pelos piores motivos e com isso pode fazer-se muito: abraçar a chorar quem não se conhece, dar-se a mão a uma criança de quem não nos aproximaríamos na rua só porque está sozinha e tem medo da trovoada, perceber que os gritos furiosos de um pai podem não ser mais do que uma manifestação de puro pavor, confiar um filho pequeno a um estranho enquanto se vai fumar um cigarro com travo a desespero e força. 

Um hospital pediátrico é um mundo onde tudo coexiste com sentido: a confiança nos médicos e a fé em Deus. Não no Deus que cura quem sofre, mas no Deus que, não sendo senão amor, vela por nós, mesmo que nós não saibamos como nem em que moldes. Um Deus que nos pode dar força, que está ao nosso lado para celebrar a alta que permite retomar a normalidade, mas que também está ao nosso lado para suster o desaire que é um internamento prolongado. Um Deus que tudo aceita e abraça: um pai que chora, uma mãe que ri, um casal jovem que encontra naquele sufoco uma escada que os faz crescer, que os ajuda a relativizar, que os leva a olhar para o provérbio que encima este texto e a dizer que sim, que está bem, mas que viram vidas muito difíceis de solidão e falta de entendimento básico, de ausência de rede social, de futuros pintados de preto indelével.

Há fases da vida que são uma prova ou que nos mostram, como se fosse um filme muito rápido mas ao mesmo tempo muito nítido, o que são as dificuldades sérias, fundas, por vezes permanentes. O que é a pobreza hoteleira do nosso serviço nacional de saúde e o que é a competência dedicada, mas também irritada e injustiçada, de alguns profissionais de saúde. Há fases da vida que nos mostram um mundo que não sabíamos que existia, porque estávamos acantonados nas nossas vidas burguesas e confortáveis, numa redoma de sossego e vagar de quem sabe que há dor, mas que deve ser no prédio ao lado. 

Não se sai de um hospital pediátrico como se entrou. Sai-se mais, mesmo que entre a entrada e a saída a prova seja difícil e a angústia muita. Mas sai-se pensando - ou tendo a possibilidade de - que o provérbio é uma treta naquele hospital. Relativizar é bom, sobretudo se soubermos que naquele hospital pediátrico os filhos dos outros são um pouco nossos filhos também.

JdB

domingo, 4 de março de 2018

3º Domingo do Tempo da Quaresma

EVANGELHO – Jo 2, 13-25

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Estava próxima a Páscoa dos judeus
e Jesus subiu a Jerusalém.
Encontrou no templo
os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas
e os cambistas sentados às bancas.
Fez então um chicote de cordas
e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois;
deitou por terra o dinheiro dos cambistas
e derrubou-lhes as mesas;
e disse aos que vendiam pombas:
«Tirai tudo isto daqui;
não façais da casa de meu Pai casa de comércio».
Os discípulos recordaram-se do que estava escrito:
«Devora-me o zelo pela tua casa».
Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe:
«Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?»
Jesus respondeu-lhes:
«Destruí este templo e em três dias o levantarei».
Disseram os judeus:
«Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo
e Tu vais levantá-lo em três dias?»
Jesus, porém, falava do templo do seu corpo.
Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos,
os discípulos lembraram-se do que tinha dito
e acreditaram na Escritura e nas palavras que Jesus dissera.
Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa,
muitos, ao verem os milagres que fazia,
acreditaram no seu nome.
Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos
e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém:
Ele bem sabia o que há no homem.

sábado, 3 de março de 2018

Pensamentos Impensados

Dactilos
Há pessoas que escrevem tão bem à máquina que pode dizer-se que é mesmo ao correr da pena.

Linguajares
Oiça na TV qualquer coisa parecido com pó de casta, que não sei o que é. Será pó de casca que pode
ser serradura, ou talvez pó de caspa que são aquela películas brancas que algumas pessoas têm nos ombros? Cada vez oiço pior...

Plágios
Até uma cópia é um original.

Meteo
O tempo já não é o  que era. Em Moscovo zero graus negativos e em S. Petersburgo zero graus positivos.

Dietas
As mulheres vegetarianas podem casar com  patos-bravos?

Desastres
Do acidente resultaram cinco feridos ligeiros, dois pesados e sete obesos.

Bok-se
Portugal está parecido com o boxe: tem assaltos e problemas de luvas.

SdB (I)

sexta-feira, 2 de março de 2018

Poemas dos dias que correm

Homem para Deus

Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera
Se é ele o portador do grande coração
e sabe abrir o seio como a terra
temei não partam dele as grandes negações
Que há de comum entre ele e quem na juventude foi
que mão estendem eles um ao outro
por sobre tanta morte que nos dias veio?
E no seu coração que todo o homem ri e sofre
é lá que as estações recolhem findo o fogo
onde aquecer as mãos durante a tentação
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre
Não leva mais de seu que esse pequeno orgulho
de saber que decerto qualquer coisa acabará
quando partir um dia para não voltar
e que então finalmente uma atitude sua há-de implicar
embora diminuta uma qualquer consequência
O que deus terá visto nele para morrer por ele?
Oh que responsabilidade a sua
Que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra
que faça mais do que crescer e ir perdendo vestes

Oh que difícil não é criar um homem para deus

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

***

Nós os vencidos do catolicismo

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
”Meu deus meu deus porque me abandonaste?”

Ruy Belo, in "Homem de Palavra[s]"

quinta-feira, 1 de março de 2018

Moleskine católico

Declaração de interesses (repetida quase ad nauseam): sou católico, voluntário, na medida das possibilidades, na paróquia que é minha desde há mais de quarenta anos. Já conheci seis ou sete priores e / ou coadjutores, e alguns acompanharam um período importante e desafiante da minha vida. Vivo numa situação conjugal que a Igreja classifica de irregular.

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Muito se tem escrito sobre este tema do sexo nos recasados. Aquilo que leio oscila entre a defesa de D. Manuel Clemente, a defesa da posição que o patriarca apontou como um caminho (a abstinência sexual), a crítica mais ou menos equilibrada desta ideia - normalmente por jornalistas / colunistas  -  e a pestilência opinativa que brota da boca dos comentaristas, normalmente não católicos, mas a entenderem poder - e dever - perorar sobre um problema que é dos católicos, porque a um agnóstico não se lhe pede que se abstenha de ter relações sexuais com o seu significant other.

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Durante alguns anos participei em Cursos de Preparação para o Matrimónio na minha paróquia. Pela minha frente, para ouvir o que eu tinha a partilhar, passaram dezenas e dezenas de casais que pretendiam receber o sacramento - algo ligeiramente diferente de casar... No meu entendimento, mais de metade, e talvez esteja a ser obsequioso, não tinha a menor condição para casarem pela Igreja e a escolha dessa modalidade obedecia a dois critérios: tradição e beleza. Mais de metade daqueles jovens não tinha ido à missa no domingo anterior ao casamento e não faziam a menor tenção de ir à missa no domingo a seguir. Não tinham prática religiosa, mas azulejos do século XVIII fazem um fundo fotográfico mais bonito do que o busto semi-desnudo da Ilda Puga que adorna as conservatórias. E para muitos outros, alguns dos quais conheço bem, era a tradição, a ideia de que faz sentido, mesmo que nem sempre tivessem a noção do que estavam a fazer ou do desafio que enfrentavam.

Um famoso político socialista, parece-me, disse um dia: não são os salários que estão em atraso; são as falências que não estão em dia. Aplica-se o mesmo, diria, aos casamentos pela igreja: não há excesso de divórcios; há é excesso de casamentos. 

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Li alguns textos de opinião sobre o tema em apreço. Li, em particular, dois que foram publicados no Observador, um dos quais escrito por alguém que conheço superficialmente, com quem partilhei tardes de convívio com jovens (e futuros) casais. Da autora de outro texto não sei nada; não conheço a senhora, sou amigo de quem a conhece. Ambos defendem com vigor a ideia da abstinência sexual e dão-lhe uma dimensão (quase) divina. Discordo de ambos - no conteúdo e na forma. Incomoda-me que um católico escreva que os recasados "relegam Deus para um segundo lugar", porque isso confere a quem o escreve uma superioridade moral e religiosa abusiva, para além de se constituir como juiz genérico de comportamentos que não podem ser analisados genericamente. Incomoda-me que um católico escreva que "[a abstinência sexual] ... é levar a sério as frases de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimónio".  Os recasados não discutem a indissolubilidade dos casamentos - talvez mesmo a discutam menos do que alguns sectores da Igreja que vêem com bons olhos a facilidade, por vezes questionável, dos processos de nulidade. 

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Conheço vários recasados, como conheço vários casados. É um lugar-comum afirmar-se que sei de muitas situações ditas irregulares em que, na minha opinião, os intervenientes estão mais bem preparados para comungar do que outros que o fazem porque não incorrem em escândalo público. As "misérias" dos primeiros são visíveis, as dos segundos nem sempre. Qual é a miséria dos primeiros? Recasamento com sexo. 

Cada caso é um caso - e há casos que merecem um segundo e um terceiro olhares. Fazer o caminho que o papa Francisco preconiza não é abrir portas à barbárie civilizacional, mas oferecer uma possibilidade compassiva. Quem fizer esse caminho revela vontade de o fazer e, estou certo, fará o seu discernimento acompanhado, chegando à conclusão, em consciência, se deve ou não comungar. Não serei eu, nem os comentadores que escrevem sobre esse tema como se fossem polícias de costumes, a relegar os recasados para o gueto dos desgraçados que colocaram Deus em segundo plano, ou que não levam a sério as frases de Jesus. Cada pessoa saberá, ou quererá saber de si. E o assunto não fica exclusivamente à sua consciência, mas ao critério acompanhado de um padre.

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Gosto da ideia de castidade. Não porque tem o significado que se costuma dar-lhe (e o cinto não engana...), mas porque eleva o acto sexual a uma manifestação de amor. Ser-se casto não é praticar-se a abstinência. Ser-se casto é ser-se equilibrado, fazer do acto sexual com a pessoa com quem se vive um gesto de afecto, de equilíbrio, de construção de um projecto (igualmente) divino. A falta de castidade atinge todos - os casados, os recasados, os solteiros. A castidade é, por isso, para todos. Não perceber isto, ou usar frases retumbantes carregadas de fundamentalismo, mas desprovidas de humanidade, é não perceber a vida; ou é transformar o caminho da santidade na inscrição num clube de eleitos de onde os aparentemente virtuosos públicos excluem os certamente pecadores públicos. 

JdB

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