domingo, 30 de maio de 2010

Bem-aventurados os que têm fome...

Fulano provinha de tudo: nascera numa terra que ficava entre os polos norte e sul, onde o sol se levantava e punha a desoras, onde as estações do ano se não regiam por critérios previstos, onde as rotinas mansas das marés se alteravam ao sabor de um capricho.

Fulano fazia de tudo: era dono de um companhia que se dedicava a tudo e a nada, que vivia de expedientes lucrativos, onde se vendia e comprava sem a regra lógica aprendida nos livros da especialidade, que era uma espécie de negócio branco, porque era o somatório de todos os negócios. Tinha dois sócios, Beltrano e Sicrano, contribuindo cada um com a sua área de competência para o engrandecimento da empresa.

Fulano tinha tudo: anéis de rubis e colares de diamantes que distribuía amiúde pelas namoradas; mordomos que circulavam com uma leveza de fantasma pela casa de duzentas e cinquenta e sete assoalhadas e que lhe ofereciam surpresa à mesa das refeições: faisões recheados com ervas raras, codornizes no seu ninho, peixes invisíveis pescados a horas certas em luas novas de Inverno, ovos de galinha alimentadas a estudos de Chopin e cantatas de Bach, crustáceos com cascas brilhantes e cores raras, sopas de legumes extintos aromatizadas com especiarias longínquas.

Fulano conhecia tudo: os desertos profundos da Mongólia, as praias raras da Polinésia, os vulcões da Islândia, a estepes russas, os museus do mundo onde os artistas plásticos expunham as obras que eram filhas de criatividade e da loucura, os escritores das academias, os pintores das belas artes, os músicos das emoções, os poetas dos sentimentos.

Fulano, no fundo, vivia tudo - e de tudo - numa imensa felicidade.

Um dia, a uma hora imprecisa - e num dia ainda mais incerto - os telexes, os faxes, os sms, as mensagens de correio electrónico, os telefonemas, as vídeo conferências, os sinais de fumo ou batuques, convergiram para um ponto específico do universo, que era onde estava Fulano, onde vivia Fulano, onde respirava Fulano. As notícias eram certas: um tsunami num país do interior, um vulcão numa planície desértica, uma chuvada onde se desconhecia a expressão água, um vendaval onde nunca uma brisa soprara.

No dia seguinte, Fulano não tinha nada: nem rubis, nem faisões, nem polinésias, nem museus, nem poetas, nem mordomos a flutuarem por cima do mármore raro, nem peixes pescados com linha de seda fina. Tudo se esvaíra num sopro, num golpe de asa, numa gota de água, numa cinza vulcânica que tombara na demonstração de resultados.

No dia seguinte ao seguinte - ou talvez fosse ao outro seguinte -, Fulano viu-se em frente à imensidão do nada, à totalidade do vazio, à vastidão da coisa nenhuma. Rodopiou pela única sala que lhe sobrava fechando os braços, a mente formatada ainda para a assoalhada que estivera cheia de tapetes raros, quadros imortais, fotografias do sucesso e do mundo. Foi abrindo os braços temendo a angústia do embate, até perceber que os seus membros fendiam o ar onde só existia uma mistura em doses alquimistas de gases raros e outras poeiras.

Fulano, o homem que provinha de tudo, tinha de tudo, fazia de tudo e tudo conhecia fechou os olhos e imobilizou-se no eixo da terra, segurando nas mãos o relógio que cronometrava o mundo, afagando o motor que permitia a rotação e a translação numa ordem austera. Sentia-se finalmente saciado.

JdB

Solenidade da Santíssima Trindade

EVANGELHO – Jo 16,12-15

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer,
mas não as podeis compreender agora.
Quando vier o Espírito da verdade,
Ele vos guiará para a verdade plena;
porque não falará de Si mesmo,
mas dirá tudo o que tiver ouvido
e vos anunciará o que está para vir.
Ele Me glorificará,
porque receberá do que é meu
e vo-lo anunciará.
Tudo o que o Pai tem é meu.
Por isso vos disse
que Ele receberá do que é meu
e vo-lo anunciará».

Precisamos de...

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Há pouco mais de uma semana vi, no auditório da Senhora da Boa Nova, no Estoril, o musical Woytila, encenado e interpretado voluntariamente por gente das Paróquias do Estoril e Cascais, em memória de João Paulo II - da sua vida e da sua obra.
O espectáculo, para além de ligeiro, é um misto de comovente, inspirador e fortalecedor da Fé na Igreja Católica que, não me canso de repetir, tem imensas falhas, mas que é a minha Igreja, onde me revejo e onde me sinto bem.
Neste Domingo da Santíssima Trindade não podia deixar de reproduzir um texto de João Paulo II que é fortemente inspirador quando nos tentamos convencer a nós próprios - e aos outros que nos querem ouvir - da inevitabilidade do caminho da santidade.

Precisamos de Santos sem véu ou batina.
Precisamos de Santos de calças jeans e ténis.
Precisamos de Santos que vão ao cinema, ouvem música e passeiam com os amigos.
Precisamos de Santos modernos, santos do século XXI, com uma espiritualidade inserida no nosso tempo.
Precisamos de Santos comprometidos com os pobres e com as necessárias mudanças sociais.
Precisamos de Santos que vivam no mundo, se santifiquem no mundo, que não tenham medo de viver no mundo.
Precisamos de Santos que bebam coca-cola e comam hot-dogs, que usem jeans, que sejam internautas, que usem disc man.
Precisamos de Santos que gostem de cinema, de teatro, de música, de dança, de desporto.
Precisamos de Santos sociáveis, abertos, normais, amigos, alegres, companheiros.
Precisamos de Santos que estejam no mundo; e saibam saborear as coisas puras e boas do mundo, mas que não sejam mundanos.

sábado, 29 de maio de 2010

Textos dos dias que correm...

De onde procede a energia do agricultor que não vê a árvore dar frutos imediatamente, mas que cava e rega, um dia após outro, e que poda e aguenta uma geada e recomeça de novo? É porque acredita na colheita que virá a seu tempo, é porque já a viu e percebeu isso da sua experiência. A experiência, a nossa historia pessoal, ajuda-nos a ter esperança. Já ter passado por dificuldades, ter ajudado outros a passar por elas, ter sofrido, tudo isso ajuda muito. Devemos aprender a ler a nossa história e perceber que não temos nada que deitar as mãos à cabeça, desesperados.


Texto do Pe.Vasco Pinto Magalhães, que mão amiga me enviou por sms.

Pensamentos impensados

A última coisa a dizer-se a uma viúva indiana que vai ser queimada viva é PIRA-TE.

Os supositórios têm efeitos rectoactivos?

Fractura de mão é manufractura?

Há partes do corpo das senhoras em que não se deve mexer seja por res...peito seja por re...seio.

Elogio a uma menina com namoro: espero que ele esteja à sua altura embora nem lhe chegue aos calcanhares.

Usava uns óculos com umas lentes tão fracas que dir-se-ia que as usava só para fazer vista.

...e o Espírito Santo também desceu sobre as cabeças de Mário Soares e de José Sócrates; o primeiro ficou a falar francês (franciú) e o outro ficou a falar espanhol (portunhol).

Quem, num exame, "apanha" 19 valores, deve ser burro pois não teve capacidade para estudar matéria que só valia 1.

SdB (I)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

presente mais que perfeito

um veleiro solar movido a espasmos,
cintilação mais pura, insana magia
- és meu sonho de vida.

como a flor intocada que permanece,
rasgando de amor a funda noite
até hoje ser já amanhã,
e a manhã de um novo dia.


gi.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, in honour of this weekend's 55th annual event, this week we are going to "celebrate" the "music" of the Eurovision Song Contest! Oh no, I hear? Oh yes! There really have been (a few) great popular songs that first serenaded our ears at this ridiculous but amusing circus extravaganza, where singers have represented countries that they are not nationals of, participating countries that are not European can be Eurovision for one night...and where one winning female singer happened not to be female! These days the transparently political voting (democracy at war?) of the Baltic and Balkan States ensures that the 'old guard' of the West can never win. So 'Nul Points' Norway have now won 3 times!
But established reputations were never respected. Some famous singers have taken part, but they usually do not win: did you know that Julio Iglesias, Nana Mouskouri, Amalia Rodrigues, Olivia Neutron-Bomb and Cliff Richard have all participated and lost? Only an unknown Celine Dion was a winner (for Switzerland, even though she is Canadian).
Eurovision has its historic moments: everybody remembers ABBA's Waterloo and, in Portugal at least, the significance of Paulo de Carvalho singing, in 1974.
Some other hugely popular songs started life in Eurovision: Volare (1958), Puppet On A String (1967), L'Amour Est Bleu and Congratulations(1968), Tu Te Reconnaitras (1973), Save Your Kisses For Me (1976)... I struggle to think of more recent ones.
Ironically perhaps, one of the most historic moments of Eurovision was not even a song: in 1994 part of the Riverdance show was performed for the very time during the interval before the voting - and received the longest and loudest standing ovation of that night, and every night when it plays around the world!
So here I present a few of my favourite Eurovision songs, strangely all by female singers, plus a video which celebrates Portugal's persistent participation, but which actually represents quite well the story of Eurovision.

Gigliola Cinquetti - Non Ho L'Eta - 1964 Italy (the winning song, and the earliest Euro song I remember as a child)


Vicky Leandros _ Apres Toi - 1972 Luxembourg (even though she is Greek, but she was anyway the winner)

Amina - Le Dernier Qui A Parle - 1991 France (the first time I can recall when a country tried to offer something different; she should have won and changed the face of Eurovision):


Friderika - Kinek Mondjam - 1994 Hungary (even though I don't understand a word; a beautiful simple song well sung; if the rules at that time had permitted her to sing in English or French, maybe she might have won)



Portugal 1964-2008 (well...funny to see how the fashions and haircuts changed through the years!):



So what about Eurovision 2010? Honestly, I don't really care, but maybe I will watch it and who knows, maybe there will emerge one memorable song, one bright comet among the asteroids. Which means almost certainly it will not win...

A proxima (centauri),
PO

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Textos dos dias que correm...

Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar… Jacinto ocupou a sede ancestral – e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro e a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e recendia. Provou – e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: – “Está bom!”
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
– Também lá volto! – exclamava Jacinto com uma convicção imensa. – É que estou com uma fome… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominava favas!… Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
– Óptimo!… Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia!

Eça de Queiroz in A Cidade e as Serras

E qual é a vossa "Comfort food"?



terça-feira, 25 de maio de 2010

Procissões dos dias que correm...

Campanha do Banco Alimentar

Good morning Sunshine

5th Must Have: Leather gloves


You may love your furry versions, but come bobbles, holes and stains, they just won’t do. Leather gloves will last – and look sophisticated. Choose a bright color to add sparkle to winter outfits.

Realmente as luvas fofinhas são muito mais quentes, mas é daquelas coisas que não se usa, como calças impermeáveis ou um boné caqui.

TdB

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Bem-aventurados os misericordiosos

Fernando Alcácer era juiz num tribunal nos arredores de Lisboa. Homem com vasta experiência na aplicação das leis, há muito que tinha as melhores classificações dentro da magistratura. Quando acontecia um réu recorrer da sua sentença, o tribunal de instância superior confirmava o que o Dr. Alcácer tinha determinado, sinal da justiça da pena aplicada. Não raramente recebia visitas de colegas que, dentro de uma ética que sempre regula as actividades humanas - lícitas ou não -, lhe vinham pedir conselhos, ouvir uma opinião, interpretar o espírito menos óbvio do legislador.

Além da consideração dos seus pares, o juiz era um homem apreciado por advogados, funcionários judiciais, procuradores. Todos lhe reconheciam o rigor, o sentido de humanidade, a atenção às agravantes e às suas inversas, o respeito por uma justiça presumivelmente caracterizada por um venda nos olhos. Reconheciam-lhe, além disso, uma característica que, não sendo inédita, no juiz assumia uma dimensão rara: a memória para matrículas de automóveis de colegas, advogados, funcionários, arguidos, fornecedores... Acontecia frequentemente o dr. Alcácer dirigir-se a uma secretária dizendo:

- Vi sua matrícula ontem no Centro Comercial, D. Arlete... Estivemos lá à mesma hora.

O povo, na sua imensa e pretensa sabedoria, entende que no melhor pano cai a nódoa. No caso vertente a mancha assentou numa fazenda que se chamava Fernando Alcácer, quando da sua boca saiu uma sentença que todos consideraram demasiado branda para o crime económico de um empresário local. Comentou-se o caso e o próprio juiz – naquele seu hábito obsessivo, quase, de fixar todas as matrículas, inclusivamente a do réu – questionou a sua própria brandura. Mas o facto é que vira qualquer coisa, embora não soubesse verbalizar o quê, nem onde, que o levara a decidir daquela forma. Só sabia que algo o impelira a isso, como se o juiz, para além de conhecer as leis e as matrículas, visse também, premonitoriamente, para além do desfocado das vidas reais e comezinhas do presente.

Metera-se no carro e seguira para casa. Com ele seguia um temporal como há muito não se via na região - uma chuva intensa, um vendaval de arrancar árvores, uma trovoada de ensurdecer - e um incómodo que lhe apertava o estômago:

Mas porque fui eu aplicar aquela sentença tão branda... Será que cometi o erro da minha vida? Será que beneficiei quem não devia? Mas o que me passou pela cabeça?

Embrulhado neste estado de espírito, o juiz passaria um sinal vermelho. Pela esquerda, na legitimidade do seu direito de passagem, viu um carro aproximar-se e fazer sinais intensos de luzes, mas o alerta não era mais do que a bateria de holofotes que iluminaria o horror que se aproximava. No último instante, quando o embate estava à distância de um fio de cabelo, Fernando Alcácer foi espectador da sua própria vida: viu-se como menino na escola a chorar uma mãe que desaparecia; como jovem no liceu a sentir o pulular das hormonas adolescentes; reviveu a arritmia cardíaca do primeiro beijo num vão de escada; olhou a imponência da escadaria no primeiro dia em que pôs os pés na faculdade; reviu-se como jovem licenciado em Direito e como estudante do Curso de Estudos Judiciários; suou de novo a angústia da primeira sentença. Reviu, no fundo, toda a sua vida.

Nestas magias que permitem que o tempo tenha uma duração indefinida, houve espaço suficiente para o juiz identificar a matrícula daquele carro e o condutor, um empresário local beneficiário de uma sentença ligeira. Teve a nítida sensação da ironia da situação quando percebeu que o réu culpado sorria para um juiz misericordioso, um instante antes de guinar o carro e embater com uma violência brutal num poste, desfazendo-se num estrondo de chapa esmagada e dor anunciada.

JdB

domingo, 23 de maio de 2010

Os dons do Espírito Santo

Sabedoria (ou sapiência)
En­tendimento (ou inteligência)
Conselho
Força (ou fortaleza)
Ciência
Piedade
Temor de Deus

Quem quiser uma descrição de cada um pode ir aqui.

Domingo ...... Se Fores à Missa

Evangelho segundo S. João 20,19-23.
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos
se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!»
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor.
E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.»
Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.»

Hoje é Domingo de Pentecostes e o tema é, obviamente, o Espírito Santo. No meu último post, de há 15 dias atrás, partilhei um pouco convosco a importância da 'presença' do Espírito Santo em aspectos concretos da minha vida do dia-a-dia. Hoje, se conseguir, gostaria de partilhar a importância da Sua presença no meu coração. Como é que o descreveria ? Como é que o sinto no meu coração ? Sem querer cair em clichés ou lamechices, atrevo-me a dizer que O sinto como um sopro que desce do Céu, um vento que me anima e me envia nos caminhos da vida. Não se trata de nada espectacular, nem de milagoroso, não pensem ! Não sou, nunca fui e nunca serei Santa. A Santidade, a meu ver, faz-se caindo e levantando. Cair ... caio muitas vezes, como é própria da minha condição humana; já o levantar é outra conversa. Aí, sim, entra o Espirito Santo, soprando, empurrando, pontapeando, se necessário for, para nos pôr de pé..... Vá, levanta-te ! Que fazes aí? Não vês que encobres, asfixias as pedras da calçada ? Vá, desinstala-te que essa quietude, essa cegueira te faz perder toda a riqueza da vida ! Vá, anda para a frente, não te fixes nas lamúrias. Ai, ai o Espírito santo não se compadece. É Ele que planta em nós o bichinho da missão, da ultreia, do ir mais além. É como digo .... um vento que nos empurra, às vezes brisa, às vezes furacão. Ás vezes é quase material, chego a pensar que é Ele quem incute coisas na minha consciência, que me faz sentir mal por ter dito ou feito isto ou aquilo; ou por não ter feito ou dito isto ou aquilo. Podem crer, a presença d'Ele no meu coração não passa despercebida e nem sempre é agradável :-)

Da leitura de hoje, fica-me uma ideia principal: os dons que recebemos do Espírito Santo não podem ser usados para benefício pessoal, mas devem ser postos ao serviço de todos.

Domingo se fores à Missa .......... deixa o Espírito Santo entrar.

MAF

sábado, 22 de maio de 2010

Pensamentos impensados

Que ninguém desista de resolver o problema da quadratura do círculo. Muito mais difícil era outro problema e resolveu-se:pôr uma esfera de perfil! Só não se publicaram os resultados em virtude de o número de soluções ser infinito e à escassez de papel.

Era um vinho da Madeira tão seco que nem precisava de copo, e para se beber tinha que se pôr de môlho de véspera, como o bacalhau.

Se "um" tem plural "uns", porque é que "dois" não há-de ter singular - "doi"?

Nos restaurantes a comida aparece por portas e travessas.

O primeiro "mano a mano" que a história regista foi o que opôs Caim e Abel: ganhou o mano Caim.

SdB (I)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

transumância

na ilha dos amores, camões escrevia já
o cântico dos cânticos,
epopeia lírica aos pés do altar-mor,
uma estátua ao que poderia ter sido.

terrível cousa esta, leitores futuros meus,
extirpar a espantosa dor
do que está mais do que morto, em nós,
mas algures, lá longe, transborda de vida.

fazer o luto de flores vivas,
carrear esse tráfego nocturno e viscoso
de animais mortos
que ainda caminham.


gi.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Deixa-me rir...

Hoje o tema é “Música e Pintura”. Para variar um pouco do formato habitual, apresento-vos um quadro que descobri há pouco tempo (desconhecia-o; mas não ao seu autor) e uma canção cheia de pasión que nada tem a ver com o quadro!
O quadro é de Gustav Klimt, intitula-se Lady with a Fan, e foi pintado (e não acabado) entre 1917-1918. Klimt morreu antes de acabar o quadro. Mas mesmo inacabado (ou aparentemente inacabado, porque não parece …), é impossível (digo eu) não se ficar rendido à sua sedução.
Em grande primeiro plano, uma senhora deixa deslizar um luxuriante quimono do ombro e segura um leque. A expressão é distante. Não está “lá”. Está de corpo, não está de alma. Será uma gueixa? Talvez. Klimt foi coleccionador de pinturas japonesas. O que fazia todo sentido numa época em que se dá a re-descoberta de países longínquos, suas culturas e manifestações. O orientalismo estava na moda no final do séc XIX - início do séc XX. E o conjunto do quadro evoca isso mesmo: nos padrões, nas texturas, no colorido e nas flores e aves do paraíso em background. Este quadro lembra-me o colorido do Bonnard ou do Vuillard, a delicadeza dos retratos do Renoir, e talvez (!), muito livremente, o Gauguin, pela força das cores e pelo gosto pelo exótico
À maravilha do traço, à sensibilidade dos contornos, acresce a vibração das cores e, para mim, o elogio ao estilo decorativo per se. Como diz um amigo meu, decorar, é “colocar com o coração” (de-corazione). Se é com o coração é para ser bonito à vista, agradável aos sentidos, confortável ao “estar”. Dito por outras palavras, privilegia-se a forma em detrimento do conteúdo. A forma é Bela e é isso que conta. O significado passa para segundo plano, não há grandes ilações a tirar. Interessa que há uma modelo que é bela, que tem a expressão e o enquadramento que o artista lhe quis dar e ponto final.
Estou convencida que muitos pintores do Impressionismo e seus contemporâneos não tinham a pretensão de imbuir os seus trabalhos de significados especiais. Os significados parece-me que ficaram mais lá para trás, para épocas em que a pintura, e a arte em geral, tinha uma carga religiosa e simbólica muito forte, em que cada quadro era uma narrativa com um intuito muito claro. A nítida quebra com essa simbologia e sacralidade deu-se com o início do séc. XX. Curiosamente, parece-me que é novamente a partir da Pop Art (late 50's) que os significados são redescobertos em obras que nem sempre agradam aos que privilegiam o belo, o estético, a harmonia.
Parece-me que o mesmo se passa, de outra forma, em relação a poetas/escritores. Quando estava no liceu e era obrigada a dissecar Bocage, Cesário Verde e Camilo, senti muitas vezes que estava a fazer um exercício interessante, sem dúvida, mas talvez excessivamente especulativo. Penso que muitas vezes somos nós, leigos, que, maravilhados com o que vemos ou lemos, nos sentimos impelidos a tentar descobrir sentidos e conexões que nos revelem o mistério do talento/génio ou a personalidade de alguém que admiramos. Do ponto de vista intelectual, estes raciocínios são interessantíssimos, maravilhosamente construídos, qual espiral de pensamentos cada vez mais profunda. Mas serão estes raciocínios válidos do ponto de vista da realidade, da real intenção do artista? Não sei ….
Mas isso não interessa nada agora. O que interessa é que me apaixonei por este quadro ….

…. e que gosto cada vez mais de tango. Aqui fica o nosso brilhante Rodrigo Leão com Luna Pena. E uma fabulosa e curiosíssima sequência de imagens desfocadas e cheias de “pasión”.



pcp

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Para ter um vislumbre da magnífica Exposição do Mundo Português (1940) e da agitação cosmopolita de Lisboa, durante a II Guerra Mundial, vale a pena ver o filme «FANTASIA LUSITANA». O documentário, apenas com imagens de arquivo, tem a assinatura de João Canijo, formado em história e iniciado no cinema com realizadores como Wim Wenders ou Manoel de Oliveira.

O insólito título do filme dá voz ao propósito, marcadamente político, de denúncia e até desmontagem da propaganda do Estado Novo, apregoando uma estabilidade e exibindo uma euforia não reconhecidas por alguns dos estrangeiros que deambularam pela Lisboa dos anos 40. Pelo menos, três dos que tiveram um discurso diferente do do regime, são aqui ouvidos em voz off, transmitindo experiências pessoais interessantíssimas (creio), mas assumidamente subjectivas: Antoine de Saint-Exupéry, a filha mais velha de Thomas Mann – a actriz Erika Mann e o autor de um dos romances mais transpostos para o cinema por realizadores alemães («Berlin Alexanderplatz») – Alfred Döblin.

As discrepâncias entre os seus testemunhos –aqui quase elevados a árbitros da história– e a narrativa de Salazar é, de facto, notória mas não tem a interpretação directa e simples de um discurso de oposição ao regime. Nem mesmo indirectamente. O traço mais evidente nos seus diários é o notável distanciamento de quem se sente, por um lado triste e nada inspirado para relançar raízes longe da terra que chora e, por outro, oriundo de uma cultura diversa, que parece considerar superior (pressente-se)... A distância entre eles e o que observam é a maior, porque é a da linha do
coração, que talvez não tenha chegado a aterrar em Lisboa... sobretudo nos casos de Erika e de Exupéry. O que é perfeitamente compreensível, com vidas dilaceradas pela guerra. Foi o próprio Exupéry a escrever: «O essencial é invisível aos olhos, porque é para ser visto com o coração

O interesse das suas experiências creio advir bem menos de qualquer pretensa autoridade moral a decifrarem os factos (até porque os erros nas previsões não sugerem grande discernimento para a análise histórica), do que da riqueza da sua expressão artística, que a uma mesma realidade associam encantos ou desencantos muito seus, a revelar-nos a história de almas intensas e inquietas.

Também o
cenário não podia ser mais bonito, sob a luz quente e única de Lisboa, o rebuliço colorido, mas dorido, dos muitos estrangeiros que se cruzam nas margens do Tejo, uns sorrindo e gozando a paz e o sol, outros demasiado destroçados e perdidos para desfrutar um oásis sem bombas, outros apressando-se a atravessar o Atlântico, rumo a Nova Iorque… Tudo compreensível, tudo a história irrepetível e fantástica de cada um!


Nau de Portugal exibida na Exposição do Mundo Português, 1940.
Fotografia de: Mário Novais

Pessoalmente, diria que o exercício político, visado na Fantasia Lusitana, poderá redundar numa leitura reducionista do documentário, até pelas disparidades de opinião entre os três, além de falhas de prognóstico manifestas. O caso mais evidente é a premonição, muito repetida por Exupéry e E.Mann, de que a invasão de Portugal estaria para breve! E é, basicamente, tomados por esse temor, dado como um facto adquirido, que concebem cenários de Blitzgrieg iminente, prevendo a derrocada a que se assistiu no resto da Europa continental! Exupéry usa uma imagem espantosa, brincando com o extraordinário desfile dos figurinos da história pátria e os monumentos da grande Exposição do Mundo Português, que elogia abertamente: o exército de pedra, de Salazar, para afugentar os inimigos. Naturalmente que Erika, antecipando os bombardeamentos da Luftwaffe, apenas se declara segura na única capital europeia que resistiu aos avanços nazis: Londres. Pudera! Acresce a essa ameaça assustadora, que os embala numa agitação poética lindíssima mas febril, o sofrimento indescritível após a fuga do seu país (Erika casara-se com um inglês para facilitar a instalação naquele país; Antoine estava isolado na luta anti-nazi por se ter demarcado de De Gaulle, que os Aliados apoiavam) e o luto recente por familiares e amigos. No fundo, o afã de contradizer Salazar restringiu a escolha a testemunhos críticos e forçou a colagem política ao legítimo desabafo q.b. dorido dos três, por motivos que se prendem mais com a sua situação de vida do que com Portugal. Nunca se faz jus aos poetas quando se instrumentalizam as suas dores!

Entendamo-nos que nesta redescoberta dos discursos do Estado Novo encontramos múltiplas declarações desfasadas, slogans ridículos como o do «Dia S» em vez do Dia D e tantas outras palavras-de-ordem horrivelmente simplistas. Claro que não ficaram imunes às gaffes, ao triunfalismo, ao tom festivaleiro da gramática da propaganda política, básica e imediatista. É mais do mesmo. Mas as
fantasias e os abusos de Salazar falam por si, dispensando o contraponto de estrangeiros tão pouco sintonizados com o país acolhedor, o que está longe de ter sido a voz corrente da multidão de viajantes que se apaixonou por Lisboa, nessa mesma altura. E muitos vindos de capitais magníficas. Como não lembrar o Gulbenkian (aterrou na Portela, em 1942) ou várias famílias reais em que alguns aqui ficaram até ao final dos seus dias ou escritores e jornalistas como a suíça Anne Schwarzenbach, amiga da família Mann: «Como me senti feliz, ao percorrer, pela primeira vez, as ruelas estreitas e íngremes (da capital). (…) A branca cidade de Lisboa, banhada em luz crepuscular, deveras resplandecente com as suas igrejas, telhados, monumentos, mercados, molhes e velhos palácios

São imperdíveis os travellings pela Exposição do Mundo Português:

Porta da Fundação, da autoria de Cottinelli Telmo. Exposição do Mundo Português, 1940.


Espelho de Água e Padrão dos Descobrimentos da Exposição do Mundo Português, 1940.
Fotografia de: Mário Novais

Se quiserem descobrir a Lisboa mansa e suave que reconhecemos (aposto!) em todas as épocas da história, se quiserem ouvir artistas que olham o dia-a-dia através da sua dor mas com aquela beleza em que as lágrimas também merecem ser cantadas, Fantasia Lusitana vale bem a pena.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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FICHA TÉCNICA:
Título: FANTASIA LUSITANA
Realização : João Canijo Produção: Periferia Filmes
País: Portugal Distribuidor: Midas
Género: documentário
Ano – 2010 Duração – 64 min.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Queima das Fitas

As semanas dos outros já não me dizem respeito. Quinzenalmente, à hora em que a noite começa a sossegar, lembro-me que é dia de escrever para o blogue e é esse o meu calendário. Estou sentado em frente ao computador há dias. Não sei quantas voltas a terra deu sobre si mesma, no seu baile de enganar parvos, nem quantas horas de jantar pulei, não me lembro se mudei de roupa, ou sequer de lugar. Aparentemente, a minha vida descobriu a sua vocação de pescadinha de rabo na boca e resolveu começar a devorar-se a si mesma, enquanto espera que venham devorá-la de vez.

Talvez não seja talhado para isto de ser estudante, ou talvez seja só irremediavelmente romântico, mas ainda guardo alguma esperança, escondida, para não me envergonhar, de encontrar alguém, neste caminho que é a universidade, que ainda se lembre do tempo em que os professores ensinavam, os alunos aprendiam e o mundo crescia.

Lembraram-me recentemente que já devia ter acabado o curso, que já devia estar a andar para a frente com esse negócio de ser gente, estenderam-me, meio a medo, meio ao desafio, fitas de tecido colorido, Escreve qualquer coisa, onde deixei, invariavelmente, uma versão escrita daquilo que é um abraço forte, ao invés do tradicional carimbo de notificação de entrada numa "nova fase" e da muito gasta "boa sorte".

Estou muito feliz por todos aqueles que souberam encontrar combustível para a alma no meio da rebaldaria dos dias de estudante, aqueles que souberam agarrar-se aos objectivos traçados e que agora, chegados ao fim, lhes brilham os olhos de satisfação.

Um exercício lógico trivial colocar-me-á, provavelmente, na gaveta dos pequeninos, ou na dos mandriões, ou na dos coitados, ou até na dos menos espertos. Não faço questão de me ver ao espelho aqui e agora, mas supondo que tenho uma extraordinária capacidade de me observar do lado de fora, como quem observa macaquinhos no zoo e perde a tarde toda a contemplar os seus embaraços e as suas vergonhas, eu diria que apenas ando a adiar o dia em que, Finalmente, chegarei ao fim do meu caminho de estudante. Não porque goste muito disto, nada disso, só não quero confirmar as suspeitas que o meu subconsciente subversivo vai gritando à consciência nas alturas mais complicadas, de que isto é tudo uma enorme perda de tempo.

Zdt

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ira

Alberto sempre fora distraído – na escola, na faculdade, no serviço militar, na empresa, em casa. Esquecia-se das aulas, perdia comboios e a espingarda, saltava compromissos e prazos de relatórios. Salvava-o a Francine, uma secretária dedicada e atenta cuja mente funcionava como um lembrete de agenda electrónica.

Paralelamente a esta característica desenvolvera um fetiche: o sexo angariado através dos anúncios dos jornais. Alberto, não sendo vaidoso, gabava-se, no entanto, de um controlo de qualidade preventivo sem falhas. Conhecia os verdadeiros atributos das raparigas através do fraseado do anúncio, sabia onde lhe venderiam gato por lebre, reconhecia virtuosismos escondidos atrás de palavras simples e aparentemente transparentes, conhecia os códigos de texto que revelavam fantasias de ir ao céu.

A noite tinha-se posto mansa e quente naquele Agosto lisboeta. Alberto tinha consultado os jornais e na véspera, com uma lua cheia que lhe entrava pela sala dentro, decidira contratar a Heloísa, uma moçambicana licenciada em relações internacionais há pouco mais de seis meses, com um livro de recibos verdes com uma virgindade que ela já não tinha e o nome inscrito no centro de emprego. Chamara-lhe à atenção a fotografia sensual, ligeiramente diferente das habituais que prenunciavam um erotismo barato regado a espumante à temperatura ambiente.

Alberto convidara-a a entrar e, como era costume, oferecera uma taça de champanhe, que Heloísa, no seu corpo bem tratado de mulher de vinte e poucos anos, aceitara de bom grado. Passava pouco das dez da noite quando ambos se dirigiram para o quarto onde já ardiam velas, e se ouvia o som constante e gravado de uma fonte que brota água num murmúrio da natureza.

Trocaram um beijo longo e húmido, carregado daquela ansiedade de quem beija pela primeira vez uma mulher desconhecida, porque a Alberto não lhe afligia a natureza comercial do encontro. Era uma boca nova, uns lábios entreabertos que o recebiam com as cores de África, os sons de África, os ritmos de África, e isso era o bastante para lhe provocar um ligeiríssimo aumento da frequência a que batia o seu coração – uma batida baixa e compassada, porque Alberto tinha sido um maratonista promissor na agremiação desportiva onde crescera.

Alguns minutos depois, com a lentidão de quem deseja que o tempo se arraste na eternidade de uma noite, a camisa de Heloísa caía no chão. O ex-corredor ainda só estava nos dez mil metros e o fôlego não lhe faltaria. O resto da roupa que separava Alberto da nudez africana cairia a seguir, sem ruído, sem perturbação - e sem pressa. A segunda contraente daquela noite onde se trocaria prazer por notas estava agora nua, integralmente nua, e Alberto tinha passado os vinte e cinco mil metros. O aumento do ritmo cardíaco era pouquíssimo, tão diminuto que Heloísa não dera por isso. És um atleta, diria Alberto de si para si, como quem se motiva à passagem difícil dos trinta quilómetros.

Nas duas horas seguintes o casal manteve a mesma passada, porque o primeiro contraente assim o desejou. Tudo fluiu num vagar sensual e calmo, como um sol que beija o Índico enquanto se põe no fio do horizonte moçambicano. O maratonista chegava ao fim, repleto de um orgulho vencedor, pronto para dar uma última volta à pista antes de receber a coroa de flores de uma multidão ululante.

O que te pareceu, Heloísa? Gostarias de voltar outro dia?

A moçambicana olhou-o nos olhos, deixando que os dele percorressem o seu corpo à procura das memórias, dos vestígios, dos sons e dos cheiros.

Sabe Dr. Alberto... O senhor deve ser muito distraído. Não sei se percebeu no anúncio que eu sou masoquista – gosto de alguma violência, de gritos, de agitação. O meu gozo atinge-se na cólera, na ira de quem me contrata. Mas o senhor deve ser católico – e a ira é um pecado mortal, não é?

JdB

domingo, 16 de maio de 2010

Solenidade da Ascensão do Senhor

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.
Quis o capricho de uma vida profissional nem sempre previsível que eu estivesse fora de Lisboa quando o Papa nos visitava. Acompanhei, por isso, o que pude pela televisão, entre trabalho e viagens.
Nestas poucas linhas que escrevo não quero entrar por temas que já são clichés, nomeadamente a imagem de Bento XVI versus a de João Paulo II. A imagem que eu gostaria que permanecesse no meu coração é a de uma igreja imperfeita, fragilizada pelos ataques internos, vítima de filhos rebeldes. Mas um igreja que se agrupa quando é preciso em torno do seu chefe, que se revê no que é verdadeiramente importante - a mensagem de Cristo. E essa perdurará porque, tal como aprendemos nos filmes da nossa infância, os bons vencem os maus.
Reconciliei-me com o Papa - não com o chefe da Igreja, por quem tive sempre respeito, mas pelo homem que nos guiará e inspirará.
Hoje é Domingo, e queira Deus que eu nunca me esqueça da minha condição de católico.


EVANGELHO – Lc 24,46-53

Conclusão do santo Evangelho segundo São Lucas

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Está escrito que o Messias havia de sofrer
e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia
e que havia de ser pregado em seu nome
o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sois testemunhas disso.
Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai.
Por isso, permanecei na cidade,
até que sejais revestidos com a força do alto».
Depois Jesus levou os discípulos até junto de Betânia
e, erguendo as mãos, abençoou-os.
Enquanto os abençoava,
afastou-Se deles e foi elevado ao Céu.
Eles prostraram-se diante de Jesus,
e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria.
E estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus
.

sábado, 15 de maio de 2010

Bento XVI - Encontro com o mundo da Cultura

Centro Cultural de Belém - Lisboa Quarta-feira, 12 de Maio de 2010

Venerados Irmãos no Episcopado, Distintas Autoridades, Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte, Queridos amigos,

Sinto grande alegria em ver aqui reunido o conjunto multiforme da cultura portuguesa, que vós tão dignamente representais: Mulheres e homens empenhados na pesquisa e edificação dos vários saberes. A todos testemunho a mais alta amizade e consideração, reconhecendo a importância do que fazem e do que são. Às prioridades nacionais do mundo da cultura, com benemérito incentivo das mesmas, pensa o Governo, aqui representado pela Senhora Ministra da Cultura, para quem vai a minha deferente e grata saudação. Obrigado a quantos tornaram possível este nosso encontro, nomeadamente à Comissão Episcopal da Cultura com o seu Presidente, Dom Manuel Clemente, a quem agradeço as expressões de cordial acolhimento e a apresentação da realidade polifónica da cultura portuguesa, aqui representada por alguns dos seus melhores protagonistas, de cujos sentimentos e expectativas se fez porta-voz o cineasta Manoel de Oliveira, de veneranda idade e carreira, a quem saúdo com admiração e afecto juntamente com vivo reconhecimento pelas palavras que me dirigiu, deixando transparecer ânsias e disposições da alma portuguesa no meio das turbulências da sociedade actual.

De facto, a cultura reflecte hoje uma «tensão», que por vezes toma formas de «conflito», entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro. Mas uma tal valorização do «presente» como fonte inspiradora do sentido da vida, individual e em sociedade, confronta-se com a forte tradição cultural do Povo Português, muito marcada pela milenária influência do cristianismo, com um sentido de responsabilidade global, afirmada na aventura dos Descobrimentos e no entusiasmo missionário, partilhando o dom da fé com outros povos. O ideal cristão da universalidade e da fraternidade inspiravam esta aventura comum, embora a influência do iluminismo e do laicismo se tivesse feito sentir também. A referida tradição originou aquilo a que podemos chamar uma «sabedoria», isto é, um sentido da vida e da história, de que fazia parte um universo ético e um «ideal» a cumprir por Portugal, que sempre procurou relacionar-se com o resto do mundo.

A Igreja aparece como a grande defensora de uma sã e alta tradição, cujo rico contributo coloca ao serviço da sociedade; esta continua a respeitar e a apreciar o seu serviço ao bem comum, mas afasta-se da referida «sabedoria» que faz parte do seu património. Este «conflito» entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. De facto, um povo, que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos claramente enunciados. Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade. Com efeito, a Igreja «tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação. […] A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 9). Para uma sociedade composta na sua maioria por católicos e cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o «Logos» eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objectividade: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras «verdades» ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade.

«A Igreja – escrevia o Papa Paulo VI – deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo» (Enc. Ecclesiam suam, 67). De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.

Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de «novos mundos ao mundo ir mostrando», como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíadas, II, 45). Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, «tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e colectiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. […] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Discurso no encontro com os Artistas, 21/XI/2009).

Foi para «pôr o mundo moderno em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho» (João XXIII, Const. ap. Humanae salutis, 3) que se fez o Concílio Vaticano II, no qual a Igreja, a partir de uma renovada consciência da tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo. Assim a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização – a «civilização do amor» - como serviço evangélico ao homem e à sociedade.

Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

romy schneider pour alain delon

tu que olhas para mim,
eu que olho para ti,
o instante em que nos cruzamos
contra as leis do tempo e da probabilidade,
este rectângulo digital,
o oráculo que resta em tempo de deuses descrentes
.

um imenso adeus, uma e outra e outra e uma vez.
e, contudo,
esse olhar teu em mim
e este olhar meu em ti,
faísca frenética,
metafísica amorosa ao final da tarde que finda,
amor fundo que se afunda
constelação que se apaga.

nenhuma beleza se mede
por possibilidades ou lucros imediatos
- antes pela louca certeza
de que somos absolutamente possíveis,
como este nosso amor
entre quem morreu há décadas, tu,
e quem vive quase morto, este metafórico e sulfúrico eu,
que ainda sou.


gi.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, Richard Hawley has been a professional musician for over 20 years but for most of this time he was happy just to be in a band, in the background, playing his guitar. Then fellow musicians discovered he could sing and heard some of his own private compositions and persuaded him to record something solo. In 2005 he recorded a CD called Coles Corner, a wonderful collection of mid-tempo and slow ballad songs with lush string orchestrations and retro 50's guitar, about his home city Sheffield. I happened to hear one day the title song, bought the CD and was hooked. He received much praise from music reviewers but the general public only started to take notice maybe a year later after he received some major award nominations.
He possesses a rich baritone voice, reminiscent of Elvis and Roy Orbison; his songs are romantic, melancholic, nostalgic, and in interviews he is quietly modest and unassuming. However on stage he can be wild, tell funny jokes as if among friends in a bar, and he plays fantastic rockabilly guitar with his band.
I hope you may like this introduction to his music.

Coles Corner is a popular area in his home city where friends and lovers like to meet:



For Your Lover Give Some Time: this is from his most recent CD:


Tonight The Streets Are Ours: I saw him play this acoustic version live last week in a tiny BBC theatre for a radio show and loved the simple interplay of the two guitars:



A proxima,
PO

quarta-feira, 12 de maio de 2010

12 de Maio

Foi hoje, mas há nove anos, na processão das velas em Fátima. Aos meus ombros ia uma criança que não voltaria lá, porque o mundo pode ser traiçoeiro. Talvez por isso, também, goste de lá voltar sempre que posso: para sentir nos meus ombros a criança que não pôde voltar.

Olho para dentro de mim e quero acreditar que há sempre alguma coisa que muda neste dia, que se modifica para melhor. Talvez dure pouco e daí a necessidade do regresso.

Nostalgicamente, fica aqui algo que escrevi a propósito desse dia de hoje, mas há nove anos. É como se eu me separasse de mim próprio e escrevesse sobre o eu que fui naquela noite.

Perceberão os que me conhecem, imaginarão os que não sabem da minha história.

JdB

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A quinze metros de mim, não mais, um grupo de peregrinos, tão igual e tão diferente de tantos outros, chamou a minha atenção. Eram pessoas relativamente novas, dos seus quarenta e poucos anos, com crianças de várias idades. Dei por mim a fixar a vista num pai que levava uma filha aos ombros. Porquê, não faço ideia. Não havia nada naquele quadro que merecesse uma atenção especial ou mais demorada. Um olhar farol sobre o recinto mostraria com certeza inúmeros pais com filhos ao colo, aos ombros, às cavalitas. Porquê aquele, meu Deus? Enfim, mistérios da mente para os quais nem sempre temos explicação. Alguém que estava ao meu lado apercebeu-se da minha curiosidade e murmurou-me ao ouvido, entre duas Ave-Marias, a história daqueles personagens anónimos. Confesso que fiquei perturbada. Não só porque a minha cabeça, dos milhares e milhares de peregrinos que ali estavam, se fixou especificamente naqueles – que quem estava comigo conhecia -, mas também pela própria história. Na realidade, há acasos na vida de uma pessoa que, de tão extraordinários, mais vale ficaram sem um entendimento lógico que lhes tire o encanto.

O terço continuava, rezado em várias línguas, dez ou doze nacionalidades irmanadas na mesma fé que não olha a fronteiras nem a classes sociais. Não é preciso ser-se devoto de Fátima para saber que o fenómeno ultrapassou de longe os limites daquela pequena terra, se estendeu à Europa mais a Leste. Deixei-me ir embalada naquela ladainha, mistério após mistério, Ave-Maria, Pai-Nosso, um sem fim de orações com os dedos a percorrerem lentos as contas do Rosário. A minha mente era uma confusão de sentimentos, as ideias como bolas percorrendo anarquicamente uma mesa de bilhar. Era a angústia devido ao estado de saúde do Joaquim, o pensamento desesperado ‘faço tudo o que for preciso para o salvar’, lado a lado com uma imensa perturbação por não saber com exactidão o que ali estava a fazer, as dúvidas de fé a contribuírem para o desassossego do espírito.

Findo o terço começou a procissão da velas, um dos momentos altos da Fátima do 13 de Maio. O andor continuava o seu percurso pelo recinto e, ao som de cada refrão, os peregrinos sentiam seguramente o mundo inteiro mais iluminado, vela ao alto, corações ao alto, os olhos postos no andor e a alma no Céu. Entrei mais uma vez naquele ritual de fé, como se quisesse mostrar a Nossa Senhora que eu estava ali, que precisava dela, sem na realidade ter uma opinião muito definida do seu verdadeiro poder e da sua influência na minha vida. ‘Rogai por nós que recorremos a vós’.

A minha atenção dividia-se de uma maneira quase ostensiva entre o ponto onde se encontrava a imagem de Nossa Senhora e aquele quadro familiar que, indiferente ao meu olhar e à minha curiosidade, prosseguia a sua jornada de devoção. O pai mantinha a filha aos ombros, esquecendo possivelmente o esforço físico, subjugado por um peso muito mais difícil de suportar. Mesmo na escuridão da noite iluminada por uma miríade de velas, consegui olhar ambos nos olhos. Surpreendeu-me como lhes consegui ver – no mesmo instante - o sofrimento e a esperança, a angústia e a confiança. Uma mistura de sentimentos que eu admitia não conseguir vislumbrar em toda a sua dimensão faltando-me, claramente, a experiência da maternidade para sentir o que é o verdadeiro amor por um filho. Naquela imagem tão singela estava o esplendor e a miséria das nossas vidas, o princípio e o fim de tudo. ‘Ave, Ave, Ave Maria’, pai e filha elevavam os braços e imagino que ambos gostariam, na diferença do entendimento de cada um, que o andor se voltasse para eles, que Nossa Senhora lhes desse um sinal – ainda que imperceptível para todos os outros – que os tinha visto e que tomaria conta deles. Para sempre.

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