quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Pensamentos impensados

A Inquisição fez inúmeras vítimas por queimaduras; ainda não tinham inventado os bronzeadores.

Bactéria atrai bactéria na razão directa da infecção, e na inversa do antibiótico.

O Limbo foi uma invenção da Igreja para descongestionar o Purgatório.

Tales, de Mileto, foi o primeiro a tentar construir a linha de caminho de ferro; mas devido ao seu estrabismo apenas conseguiu um paralelismo convergente que esteve na origem do seu famoso teorema.
SdB (I)

Filmes dos dias que correm

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pensamentos impensados

Eureka era uma estância balnear onde o Arquimedes ia amolecer os calos.

Pitágoras foi um grande promotor do triângulo Lisbo/Sintra/Cascais.

Atendendo a que o Conde de Andeiro foi morto na flor da idade poder-se-á dizer que foi desflorado?


SdB (I)

Cemitério de barcos

I.

Pudesse eu levar
Uma mão cheia de areia,
E outra cheia de mar,
Para que quando desaparecer
Para nunca mais voltar
Possa mais um dia cheirar
A praia que me viu nascer

II.

Há quem lhe chame cemitério. Aqui, os barcos não navegam. Ficam parados, a verem-se ao espelho da água. Não estão à espera de nada nem de ninguém. Estão só parados, mortos.

As redes foram arrumadas à cabeceira, os remos cruzados sobre as traves e os nós foram todos desatados das cordas. E é assim que ali ficam, para sempre.

Percebe-se que lhe dêem este nome. Estão lá as lápides com os nomes de quem ali conheceu a última casa terrena. Mas estas, ao contrário do mármore escuro e frio, são as madeiras dos barcos, ainda quentes do sol e roídas pelo sal, pintadas a cores de aguarela.

Não há flores, mas há conchas. Não há cheiro a árvores e a Outono, mas cheira a maresia. E, como em qualquer outro cemitério, o silêncio aqui é mais do que a simples ausência de barulho. Aqui, o silêncio é o som dos dias sem vento e sem sol. É a música das noites com estrelas e sem lua. Mesmo as ondas que embalam os barcos rebentam na costa sem qualquer som.

E naquelas rochas há um ponto que sobe mais alto do que os outros, e de onde se vê o mar até ao outro lado. Foi daí que se disse o último adeus aos barcos, e é aí que as gaivotas pousam e ficam paradas a ver o horizonte.

E cada vez que passo por aqui, ao olhar para este repouso, pergunto-me para onde vão os barcos quando são aqui sepultados. Porque o casco fica, mas o resto não...

SdB (III)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O homem do talho

- Dá-me 1 kg de bifes, Sr. Josué? Mas importa-se de os cortar fininhos? E de me tirar a gordura antes de pesar?

- E quer que eu lhes faça uma massagem também? Ou uma lipoaspiração? Se quer fininho fale com o Rui Veloso, que essa música era dele.

Ou então:

- A carne é boa, Sr. Josué? Queria uma peça macia mas barata, que o tempo não está para mais.

- Ah sim? E mais alguma coisa? Um bilhete premiado, talvez? Mas que eu lhe oferecesse, é claro, que o tempo não está para mais…

Os diálogos como o dono do talho não variam muito. Pedidos simples respondidos com frases agrestes, simpatias matinais retorquidas com azedumes permanentes. Ao Sr. Josué vale-lhe a qualidade da carne, além de não haver alternativa num raio de quilómetros. A freguesia no talho não diminui, só diminui a esperança de que o feitio do talhante melhore. Os dias passam e nada acontece, para além da carestia da vida, das pensões de miséria, do preço dos medicamentos, do desrespeito das gerações mais novas. No Sr. Josué, tal como na Nação, já muitos descrêem uma mudança.

Duas vezes por mês, às 4ªs feiras, o talhante despede-se da mulher com dois beijos rotineiros e um até logo indiferente. D. Lucília, sentada num sofá a descascar favas e a ver a novela do fim de tarde, repete-lhe a pergunta quinzenal com o interesse das coisas vagas:

- Vais jogar sueca?

- Sim, vou.

Por volta das onze da noite o Sr. Josué, comerciante agreste que tem do serviço ao cliente uma visão muito própria, entra em casa e saúda a mulher com outros dois beijos curtos, com uma intensidade e afecto só muito ligeiramente diferentes. As favas estão descascadas mas a saga da novela continua – outros personagens, outros cenários, outro enredo.

- Ganhaste?

O talhante não devolve o olhar porque D. Lucília não olha para ele, que o seu interesse está em saber se a outra do conde ascenderá a esposa legítima. O olhar do talhante atravessa paredes e pessoas e pára num ponto no infinito que só ele vê. Há uma hora, um local, um personagem e uma actividade que definem as coisas da vida de cada um, mesmo se resguardadas de olhares terceiros: entre as seis da tarde e as dez da noite, às 4ªs feiras e duas vezes por mês, o industrial das carnes cortadas a jeito, um lar de idosos perdido nos arrabaldes da sua freguesia. Ali, na miséria da terceira idade abandonada à sua sorte, há velhos a precisarem de banho, de uma muda de fraldas, de casas de banho lavadas, de camas mudadas, de sopas ralas dadas em bocas sem dentes.

- Ganhaste?, repete a esposa do Senhor Josué, esperançada na ascensão da amante a condessa com palácio e gelo permanente no balde.

Dos olhos do homem que retira a gordura antes de pesar os bifes rolam duas lágrimas grossas, pesadas, cheias de sentimentos contraditórios.

- Talvez mais do que mereça…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado Sábado no Porta do Vento

domingo, 27 de setembro de 2009

Só a verdade liberta

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Se bem que o comentário que segue, do Pe. Vitor Gonçalves, seja relativamente ao Domingo passado, não resisto a transcrever uma parte, pela sua actualidade.

É sempre a tentação de idealizar uma realidade assente sobre lógicas de poder e glória (que não estamos imunes de prolongar na sociedade, na família e na Igreja), fugindo do caminho da humildade e do serviço, do acolhimento dos mais insignificantes e desprezados. Só a verdade liberta. Só a alegria de servir pode mudar por dentro aquilo que está mal. Por isso, a mudança que Jesus quer fazer em nós, fortalece-nos para aquelas que é preciso fazer à nossa volta. Mas será que estamos dispostos a mudar o olhar, o pensar, e o agir segundo critérios de um amor sem medida, de uma verdade procurada e corajosamente praticada? Mesmo sabendo que isso tem a marca da cruz?

EVANGELHO – Mc 9,38-43.45-47-48

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
João disse a Jesus:
«Mestre,
nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome
e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco».
Jesus respondeu:
«Não o proibais;
porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome
e depois dizer mal de Mim.
Quem não é contra nós é por nós.
Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo,
em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.
Se alguém escandalizar algum destes pequeninos
que crêem em Mim,
melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço
uma dessas mós movidas por um jumento
e o lançassem ao mar.
Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a;
porque é melhor entrar mutilado na vida
do que ter as duas mãos e ir para a Geena,
para esse fogo que não se apaga.
E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o;
porque é melhor entrar coxo na vida
do que ter os dois pés e ser lançado na Geena.
E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo,
deita-o fora;
porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos
do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena,
onde o verme não morre e o fogo não se apaga».

sábado, 26 de setembro de 2009

Even so

Eu pedi-lhe e você disse que sim.
Depois esperou por mim e eu não vim.
Roubaram-me de si e você não disse nada.

O que se diz a quem vai e já não volta?
A quem passa do dia para a noite e esquece as horas?
E se deixa roubar vezes sem conta?

Eu pedi-lhe e você disse que sim.
Que fosse, que livrasse o coração de qualquer culpa.
Que aqui o que se faz é por amor.

Você esperou JdB e eu não vim.
Pela tarde mandou-me ir e eu lá fui.
Veio a noite JdB e eu segui.
Vi as estrelas desbotarem com a manhã.
Riscou-se o dia JdB, emudeci.
Só Deus sabe o que foi chegar aqui.
E só Deus sabe com que gosto eu sorri.

Tell me Jdb: – Do you still love me?


DaLheGas

Filmes dos dias que correm

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

lenga-lenga, lenga-lenta, lenta-lenta

na viragem do ano,
a formiga interroga-se:
a harpa ou as suas cordas?

na viragem do ano,
também a cigarra se pergunta:
tronco ou flauta?

a montanha condensada - diz a capa.
mão de criança hoje, pulso firme futuro.
ou será ao contrário?

à flor não se pergunta.
a verdade não se dilui,
chovam mil águas ou nenhuma.

o livro como a vida.
quantas páginas, mestre?
as que escreveres, rapaz.

escrever.
lavrar o campo.
esperar a estação certa.

sim, não, sim, não, sim, não..
lenga-lenga de inverno hoje.
escuta: já lá vem o verão.

gi

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Deixa-me rir...

"Imagine... a warm summer's evening, by a dark flowing river, under a magical moonlit sky. A stage bathed in purple light. The audience in hushed anticipation, some awaiting the return at last of a cherished hero, others curious to experience for the first time, like me... And then The Man appears, forever stylish in his tailored suit and tie and fedora hat. His band of musicians look equally chic.

This was the scene last summer by Lisbon's river Tejo. And I had the opportunity to re-live this experience once more this summer. No warm evening. No moon. Lots of rain. Well, this was England. But it did not matter.

He performs with the same grace and humility and charisma and humour, and respect for his audience and for his fellow musicians.

His band are exceptionally artistic instrumentalists, the arrangements rhythmic, spanish, cabaret, waltz...

Not everyone likes Leonard Cohen. At least, they think they don't, or they would not, happy to accept the stereotypical belief that his poetic music sounds and therefore must be depressing. Well, he is not a pop singer. But his deep and mellow voice carries the wisdom and sensibilities of a lifetime's experiences. When he speaks he is quiet, understated, the audience captivated in his presence, clinging to his every word, like a congregation to their bishop's sermon.

LC himself makes fun of his mournful image by skipping onto and off the stage and dancing during his band's instrumental solos. He jokes that it is 14 years since he last gave concerts, when he was 60 years old, just a kid with a crazy dream. In that time he tells us that he studied the religions and philosophies of the world, but cheerfulness, cheerfulness kept breaking through.

I think these worldwide concerts have opened the ears and eyes of some sceptical people. And of a new younger generation.

[If anyone is interested to discover more, I found a very good review with excellent pictures which expresses the whole concert experience much better than I can: http://www.lauraleanalle.com/Blog/leonard-cohen-review.html ]

If you are converted, or maybe you too were present, LC has released a new double cd, Live In London, which captures perfectly the aural magic of LC and his band. I hope there will one day be a dvd to capture the visual magic.

But if you still find his voice hard to listen to, I here offer you a compromise:

one of the most magical moments of all; one of the greatest in LC's Tower of Songs, introduced by The Man as a spoken prayer before taking heavenly flight on the wings of the angelic harmonies of his backing singers. Accompanied by a harp. Spell-binding. Sublime.



The Webb Sisters are just two of many wonderful backing singers employed through the years by LC. They are English; how LC discovered them I do not know; but I imagine and hope that they will find their own solo success. I suggest you find and listen also to one of their own compositions, Baroque Thoughts.

Until the next time...

po

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Pensamentos impensados

A problemática circunstancial dum paralelismo convergente obtém-se multiplicando o centrismo periférico pelo parafuso sem fim

Um organista é um anarquista organizado.

A temperança é um condimento ou um condicionamento?


SdB (I)

Filmes dos dias que correm...

Para quem já tem alguma idade (o filme é de 1971), para quem é fã dos Bee Gees e para quem não se importa de legendas em japonês.

É o meu caso...

JdB

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Memórias e Lembranças


Das memórias que fogem do tempo, a que seguro com mais afinco é a do olhar, que nunca uns olhos souberam dizer tanto como aqueles. Os anos foram rasgando afincadamente as rugas da idade, à força de muito sol e muito sorriso franco, do homem que, de entre todos os que nasceram naquele tempo difícil, se ergueria para caminhar sempre um passo à frente do mundo. Quase todas as vidas davam um livro, menos são, em verdade, as que dariam um bom livro, raras contudo, são as que não cabem em qualquer livro, por mais que se encolham as frases e se estreite o papel.Das mil e uma linhas que, escritas, não diriam tudo, escolho algumas que, pertinentes nesta altura, reproduzem o que outros, pegando no mesmo exemplo, o do meu avô, e procurando o mesmo fim que eu, já rabiscaram com contornos semelhantes.Defendo que a felicidade do Homem, na sua essência, reside num dos sentimentos mais corriqueiros e, sobretudo, mais desvalorizados dos dias que correm, o da utilidade. O Homem é feliz se sentir que é útil.

Levantar-se-ão, perante esta afirmação, vozes com acusações de ingenuidade, mas eu sei que os olhos bons do meu avô eram, com toda a certeza, rasgados pelo triunfo de se sentir útil. E desengane-se quem pensa que o reconhecimento é condição necessária, porque não o é, de todo.

Ficam estas linhas, para lembrar coisas que eu não gosto de esquecer.

ZdT

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Pensamentos impensados

O Adão foi a primeira pessoa a ser traumatizada pelo complexo de Édipo: gritou MAMÃ MAMÃ e apareceu-lhe um velho de barbas com um triangulo na cabeça.

A característica do improviso é o pensamento antecipado.

O peixe é um animal depauperado: não tem "pauperas".

SdB (I)

O Presidente da Junta

Roubara mobiliário para decorar sedes revolucionárias com cheiro a cigarros ilícitos; ajudara a sanear professores universitários cujo nome bastava para atemorizar o pessoal discente; lançara à rua obras de arte, num exercício de defenestração do burguesismo diplomático estrangeiro. A idade, os cabelos brancos, algum cansaço, talvez, levaram-no a caminhar para a direita, que é para onde corriam os bons nos filmes de cowboys. Resvalando de partido em partido, numa espécie de queda quase livre na direcção do extremo, aterrou na última agremiação do espectro partidário e que lhe serviu de batente. No esplendor da carreira política chegara a presidente da junta de freguesia.

Fruto de um discurso crescentemente inflamado – e de uma quase imperceptível perturbação do espírito - entrou numa rotazinha de colisão com a lucidez da mente. Fala-se em imigração e o cavalheiro abespinha-se, alegando que a calçada portuguesa já fala ucraniano, o ferro de engomar foi tomado de assalto por umas havaianas e calções, os pedintes na rua perturbam o sossego das mentes cristãs com gemidos em moldavo; menciona-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o presidente brama contra o nojo - o asco, mesmo - o pão e o circo, a porcaria de homens que por aí há; refere-se a adopção de crianças por homossexuais e o senhor leva as mãos à cabeça, sugerindo bengaladas queirosianas em público.

Senta-se todas as tardes junto à praia, num café onde só trabalham portugueses de terceira geração – no mínimo – envolvendo os correligionários com um olhar onde se sente determinação:

- Sabem? Existe a fogueira que purifica para sempre, o barco que parte sem regresso, a cadeia que amansa os vícios. Escolham o que quiserem, mas agora tragam-me uma sandes de queijo limiano num pão de Mafra. Nada de pãozinho aparado, que isso é para maricas.

O senhor presidente encerra a Junta e dirige-se a casa onde vive sozinho desde que a mulher o trocou por um rapaz de Ulan Bator, portador de cartas registadas. Fecha as janelas para manter uma privacidade impenetrável e veste uma tanga negra com um lustro que confunde. Liga o karaoke e, quando a música começa a tocar, todo ele se agita num frenesim de sensualidade

Quand il me prends dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose

Duas vezes por semana, quando os telejornais vão a meio, recebe a Roberta - uma negra de Porto Galinhas e que as más-línguas alegam já ter sido Roberto – para uma série de duetos exclusivos de George Michael e Ney Matogrosso. Faz amor com ela ficando sempre por cima, não porque aprecie os missionários, mas porque gosta de demonstrar que há posições de chefia a respeitar. Depois fuma um cigarro e retoma o discurso da cadeia, da fogueira, do barco sem regresso, da corja negra e de leste. A brasileira, dengosa e suada, vai à casa de banho e toma um comprimido, porque o médico disse que tinha de ser assim até ao fim da vida.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento.

domingo, 20 de setembro de 2009

As crianças

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
No tempo de Cristo, as crianças (pelo menos até uma certa idade) não tinham direitos. Representavam, por isso, também, os mais fracos, os mais débeis, os mais insignificantes, os que tinham poucos direitos, os indefesos. São esses que Jesus senta ao colo (metafóricamente falando). Cabe-nos a nós fazer o mesmo: olhar pelos marginalizados, estender a mão a quem precisa, não virar a cara aos que a sociedade condena - até porque os condena, tantas vezes, em nome de lógicas erradas e injustas.

EVANGELHO – Mc 9,30-37

Naquele tempo,
Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia,
mas Ele não queria que ninguém o soubesse;
porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes:
«O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens
e eles vão matá-l’O;mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».
Os discípulos não compreendiam aquelas palavras
e tinham medo de O interrogar.
Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa,
Jesus perguntou-lhes:
«Que discutíeis no caminho?»
Eles ficaram calados,
porque tinham discutido uns com os outros
sobre qual deles era o maior.
Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes:
«Quem quiser ser o primeiro será o último de todos
e o servo de todos».
E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles,
abraçou-a e disse-lhes:
«Quem receber uma destas crianças em meu nome
é a Mim que recebe;
e quem Me receber
não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

sábado, 19 de setembro de 2009

Voltem, estão perdoados

Setembro alonga-se, a cidade encheu-se e o Adeus não vê os seus escritores. Onde estão aquelas siglas misteriosas, que adivinhávamos em prosa? Setembro alonga-se, a cidade enche-se, ninguém aparece. Onde andam essas maiúsculas, JdB?

Se JCN não toca, DaLheGas não vem ao baile. ATM não prega, DalheGas não se levanta. E assim sucessivamente. Falando neles, devo saudar, louvar e agradecer, os novos redactores. A equipa de verão. E o JdB, sempre de olho na salvação. Juntos, o Adeus bem se fez, melhor se pagou. Enquanto o dono do estabelecimento não nos puser a andar, é tudo para ficar.

DaLheGas

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

na islândia

a vidraça é por vezes um recurso inestimável
espécie de filtro translúcido entre nós e o universo,
como essa porta de restaurante moderno
que hoje te separa da pequena multidão lá fora.

a mistura de negro e vermelho é perigosa,
como todos sabemos bem dos livros de história
e de outras coisas que rimam com a memória
do que já fomos, do que somos e sempre seremos.

mais uma manifestação burocrática, parece-te,
'já nem dá para um entusiamo à antiga sequer,
este sindicalismo on demand', diz a teu lado a mulher
e tudo revela a essência burocrática deste tempo.

dizem-te: desempregados de espadas desembainhadas?
é coisa muito pouco vista, mesmo nada habitual,
pois o país que sobrevive já não passa no telejornal
e estes desempregados são, já se vê, gente de bem.

engoles a sopa de grão, que não te cai como devia,
e perguntas-te se será desse moderno cozinhado,
embora sabendo que a razão não está no refogado,
antes na secreta arte de manipular a algibeira alheia.

tudo se compra, tudo se vende, tudo se corrompe,
verso bem a calhar, já que te acusam de nihilista-mor.
encolhes os ombros, bebericas o café sem sabor,
serei nihilista-mor ou só lúcido? (dandy era melhor).

dormes, na rotina dos justos que navegam à vista,
marinheiros de água doce e mares sem chama,
que isto de viver enquanto se refila e se reclama,
é como reconstruir um avião em pleno vôo sónico.

a rádio fala da crise, esse animal de desestimação.
de súbito, entra-te no carro esse país (existe?) branco
a que muitos chamam islândia - ilha de fogo, portanto -
onde o impensável afinal também parece acontecer.

as pessoas revoltam-se, há pedras a voar pelos ares,
e não, não é nenhum secreto ritual, nenhuma celebração
bizarra e ancestral, é mesmo, como dizer, a manifestação
pura e dura de um mal geral: como viver sem se poder?

direitos adquiridos, o welfare state, o milagre económico,
expressões de um presente garantido, de conforto, etc. e tal,
transformam-se em palavras bolorentas, mera poeira astral.
não pagam contas de anteontem, nem são passaporte feliz.

"então isto é assim".., deve pensar aquela gente por lá,
as regras mudam em pleno jogo, "passar bem e viver mal"..
"não esperam pela demora, estes fregueses em especial",
que "a impunidade não passará!", "abaixo o governo! "..(é cá?)

retomas o teu pensamento, são exactamente 9h05,
numa cidade conhecida e tua, bem longe da islândia.
abençoado és, rapaz, por essa geográfica circunstância.
aceleras o carro, outra mudança - que bom é viver em paz.

lá longe.. mas que te interessa esse lugar abstracto?
no futuro.. mas que te interessa esse tempo por acontecer?
mas e "se lá longe e no futuro" for "o aqui e agora"? - queres tu ver..
aceleras mais, mudança engrenada, pedal a fundo.

uma lágrima contida, quase ensimesmada,
contra um muro concreto, ali logo à frente,
procuras o travão ontologicamente ausente,
enquanto te despistas - tu e a branda islândia.

nuvens de chumbo, prédios a arder,
um travo amargo, uma visão alucinada.
depois uma dor insana, vertical, funda,
depois o muro

e depois nada.

gi

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Deixa-me rir...


Uma vez mais, a história de hoje reporta-se à minha vivência em Londres. Foi no Jazz Café de Camden que, em final de tarde luminosa e quente, descobri uma nova estrela no meu firmamento musical. Escrevi na semana passada sobre o Dr. John, elogiando a sua excentricidade e postura descontraída e relaxada. Esta semana elogio uma cantora com uma postura idêntica. Rickie Lee Jones, de seu nome. Americana, com uma infância particularmente turbulenta e instável, cresceu rodeada de música, num ambiente criativo e estimulante para uma imaginação sequiosa de se expressar. Percorreu os EUA à boleia, foi hippie, viveu com o Tom Waits, com quem teve uma relação de intensidade kármica, escreveu e interpretou canções pop, rock, rythm & blues, soul e jazz.

Confesso que a achei no mínimo curiosa ao vê-la entrar em palco nessa noite: atrasadíssima, provavelmente pouco se importando com os numerosos fãs que a esperavam de pé (não há praticamente cadeiras ou bancos neste famoso clube londrino), com a farta e longa cabeleira loira totalmente desgrenhada, botas pretas à punk, vestido indiano cor de rosa, com uns enfeites brilhantes, tipo camisa de noite… uma figureta! Atenção que era bonita quando era nova … mas agora ronda os 50 e muitos. Muita droga, noitadas, maluquice e vida bem preenchida daquilo que a nós, bloguistas, não nos atrai (penso eu de que…) sulcou-lhe a cara de rugas, alargou-lhe as formas e intensificou-lhe a expressão da voz, de si não particularmente distinta.

E que expressão! Estou a vê-la pequena, braços descobertos e flácidos, iluminada por um foco de luz no meio de um palco escuro, no fundo do qual se adivinhavam os músicos que a acompanhavam. Estou a vê-la a balouçar-se, pesadamente, de olhos fechados, imersa nos seus pensamentos e no ritmo dos primeiros acordes da primeira canção, alheia aos assobios e aos murmúrios provenientes dum público já ansioso … e a voz a soltar-se, surpreendentemente fresca, cheia de inflexões, algo entaramelada, sensual, expressiva como só são expressivas as vozes de quem ama a música e a sente no corpo e na alma …

Daí até ao fim do concerto foi sempre a crescer: ela em “estatura” musical, os músicos em virtuosismo e entrega, nós em tensão e em gozo … e a música a espalhar-se por cada canto esconso e escuro de um clube muito cool e repleto de gente com copos de cerveja de plástico na mão …

Deixo-vos com uma música que me marcou. Nem sei se é particularmente bonita ou do agrado dos bloguistas. Mas adoro a batida, os acordes, a voz para cima e para baixo, os arremessos súbitos e, muito, o título: We belong together, do álbum Pirates.

Agora imaginem-se neste clube lendário, numa noite de Verão, encostados a uma coluna, de olhos fechados, a sentir a presença de alguém especial ao vosso lado … é possível, eu senti-a! Estava lá, era quase palpável. É tão bom assistir a um concerto com alguém de quem gostamos!... A "materialização" dessa pessoa, neste contexto, é de somenos importância. O que interessa é o que se passa quando fechamos os olhos...

pcp + po

terça-feira, 15 de setembro de 2009

The Beauty and the Beast - hoje, mas há 1 ano, no Zimbabwe



Tal como indica o título, o meu post de hoje escreve-se sob o signo do Beauty and the Beast. Eu explico.

Sábado de manhã fomos ver a oficina e uma das lojas de venda ao público do Patrick Mavros, um zimbabueano de origem grega que se dedicou, originalmente, à escultura em marfim. Com as restrições a nível mundial de utilização desta matéria-prima virou-se para a prata, esculpindo magistralmente animais, árvores - tudo o que está relacionado com África. Quando chegámos ao local onde também mora e onde circulam animais selvagens, deparámo-nos com a vista que vêem nas fotografias. Não vi campo - vi um quadro pintado por mão prodigiosa.



O Patrick contou-nos que quando se instalou aqui não havia qualquer construção. Tinha comprado uma moldura de janela numa demolição, ou noutro sítio qualquer, e a loja nasceu à volta do ponto onde ele a decidiu colocar - e que se abre para a vista que partilho convosco.

Este texto revela a Beauty do meu post.

Hoje, segunda-feira, pelas dez da manhã, dirijo-me a Parirenyatwa (não estou certo da grafia) um hospital de Harare, para conhecer um pouco do drama das crianças com cancro. Depois de contactos que foram feitos por quem subiu comigo à montanha sagrada, recebi uma chamada e fiz outra, tendo como interlocutores médicos simpáticos, disponíveis, que agradeceram (pasme-se...) a visita que me propunha fazer. Terei contactos, ao que parece, com uma Acreditar de cá, de que não sei nada. Gostava de sentir a miragem de uma potencial ajuda - não faço ideia em que moldes - mas estou certo, mais uma vez, que receberei mais do que darei.

Este texto revela a Beast do meu post.

A beleza de uma paisagem, a monstruosidade do cancro infantil. Duas faces da mesma moeda, duas realidades com que me vou confrontando ao longo dos últimos anos e que me fazem ter a certeza de que nada é garantido, certo, duradouro ou eterno. A paisagem idílica que vos mostro desaparece fruto de um incêndio incontrolável, o sorriso de uma criança desvanece-se face à brutalidade de uma doença. Resta-nos (pelo menos para mim, que sou crente) a Fé, a Esperança e a Caridade: confiar no futuro, acreditar em dias melhores, estender a mão a quem precisa num gesto de amor.

Adeus, até ao meu regresso...


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O polícia

Chama-se Curdo, um nome assaz bizarro para quem é natural do Alandroal, mas há quem o apelide de Surdo. De facto, como agente da autoridade, é totalmente desprovido de audição quando toca a multas. Implacável e rigoroso ao limite, não tem contemplações nem ouvidos para as desculpas habituais. Foi só um instantinho, já me ia embora, deixe lá, senhor guarda, só desta vez.

Mora num rés-do-chão direito de um prédio velho e escuro, engavetado numa rua onde o sol se esquece de ir. Nos dias de serviço entra e sai de casa impecavelmente fardado, como se o aguardasse uma parada presidencial, ou a rotina da autuação fosse incompatível com o desleixo.

O agente Curdo gosta de manter rotinas. Durante o dia zela pelo fluxo saudável do trânsito e pelo desimpedimento escrupuloso dos passeios. Mantém um registo particular de multas por dia, porque gosta de indicadores desafiadores e potencialmente contraditórios: a atenção à infracção versus o grau de cumprimento do cidadão.

Ao fim do dia chega a casa, despe-se e arruma a farda com zelo. Pendura as calças pelos vincos e ajeita o casaco num cabide para evitar deformações que tirem o decoro que se requer à autoridade. Veste umas calças de fato de treino e uma T-shirt de alças, escorropichando uma mini para a qual dispensa copo.

O agente Curdo senta-se então ao computador e digita uma série infindável de endereços e palavras-chave, troca informações com um interlocutor cibernético, consulta auxiliares de memória. Durante as duas horas seguintes entreter-se-á com jogos informáticos nos quais as forças de lei travam uma luta sem quartel contra a delinquência: raptos, assaltos, tráfico de droga, assassinatos, terrorismo urbano.

Durante duas horas, repete-se, o agente Curdo gritará, agitará as mãos, vociferará, soltará palavrões, premirá a tecla enter com uma genica inusitada.

- Estúpido, não é por aí! Ah! Grande camelo que vais ser apanhado! Força, força, pela direita, rápido! Atenção que ele está ali, ao virar da esquina. Tem cuidado. Ah! sacana que estás feito, não percebes nada disto. Nada! Se fosse eu havias de ver…

São 120 minutos de combate árduo - ainda que virtual – contra o crime. E, durante todo esse tempo, acompanhado da sua mini e da sua ausência de mangas, o agente Curdo estará indiscutivelmente do lado dos fora-da-lei, pondo todo o seu saber ao serviço dos que atemorizam os cidadãos e zombam das regras.

Pela hora de jantar chega a Susana, empregada recente de uma empresa de vigilância. O agente beija-a com ardor, admira-lhe a farda e pede-lhe:

- Importas-te de não apertar tanto as algemas? Ontem aleijaste-me…

No dia seguinte voltará à multazita, à pequena reprimenda, à surdez ao apelo do infractor:

- O senhor automobilista reparou que o rodado dianteiro esquerdo passou por cima do traço contínuo? Vou ter de o autuar…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento

domingo, 13 de setembro de 2009

Perder e ganhar a vida

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Gostaria de ser simples, mais do que simplista. E, por isso, retenho (apenas) as últimas cinco linhas do Evangelho de hoje, que falam de renúncia, cruz, salvação, perda. Palavras na sua generalidade duras, difíceis, contraditórias com aquilo que o mundo actual persegue - os deleites tantas vezes sem critério, o gozo imediato, a satisfação oca, o contentamento egoísta.
Ninguém no seu perfeito juízo achará, hoje em dia, que a mensagem de Cristo nos condena a suportar cruzes sucessivas, nos impede dos pequenos e grandes prazeres, nos sugere que a virtude está no cumprimento cego e sem sentido de obrigações estéreis.
Temos todos, seguramente, um caminho de aprendizagem ainda longo: entender ao que podemos e devemos renunciar, qual a cruz que nos compete suportar, as renúncias que assumimos em nome de um bem maior, aquilo de que não faz sentido abdicar, os objectivos de plenitude e felicidade que perseguimos e que fazem de nós pessoas mais realizadas. Tudo isto, acredito, em nome do Céu, que é para onde os cristãos olham.
Perceber isto é um exercício desafiante, como desafiante é a tolerância com que devemos olhar a vida do nosso próximo, tantas e tantas vezes espartilhada entre vontades e deveres, desejos e obrigações, visões lúcidas e conceitos antigos. Vidas divididas, no fundo, vítimas amiúde de apreciações ligeiras.

EVANGELHO – Mc 8,27-35
Naquele tempo,
Jesus partiu com os seus discípulos
para as povoações de Cesareia de Filipe.
No caminho, fez-lhes esta pergunta:
«Quem dizem os homens que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns dizem João Baptista; outros, Elias;
e outros, um dos profetas».
Jesus então perguntou-lhes:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».
Ordenou-lhes então severamente
que não falassem d’Ele a ninguém.
Depois, começou a ensinar-lhes
que o Filho do homem tinha de sofrer muito,
de ser rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;
de ser morto e ressuscitar três dias depois.
E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.
Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O.
Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos,
repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás,
porque não compreendes as coisas de Deus,
mas só as dos homens».
E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes:
«Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,
salvá-la-á
».

sábado, 12 de setembro de 2009

Férias light, que o Inverno vai pesar


Regresso. Voltar é melhor que partir. Chega-se leve, iludido pelos dias sem lei e olha-se a casa, agradecido. Um tecto, a cama própria, uma sala com a tralha dos anos, e prateleiras que ganham livros.

Toma lá: o “deserto”. Junta-o ao “equador”. Não gostei mais, nem menos. Desilusão, como alguém disse, nem de longe. Dá febre baixa e no fim um soluço. Devolvo-te o Quintino Aires, que reli com outra atenção e espírito livre de perguntas. Aprendi muito mais, vê lá tu. Sabes que falar da vida alheia ou ver novelas ajuda tanto como os livros, a que cada Homem crie consciência da sua própria vida? Não se condene, portanto. Mas trago-te um novo autor. Afinal, o que nos interessa mesmo são os autores, que as histórias desvanecem-se. Ignora a chamada de capa. A escrita dele não tem “um charme inimitável”, seja lá o que isso for. O título, convenhamos, foi preciso ter coragem – “Amor à 1ª Vista”. O texto não merecia. Sim, tu também não. Mas prataleira, há coisas inevitáveis a suportar nas nossas vidas. E uma nova literatura que veio para ficar. “Light”. Chamam-lhe assim. E sabes que têm razão? Não podes ler Pessoa num areal à cunha. Nem Voltaire num catamaran carregado de espanhóis. Isto, lês de rajada, em qualquer lugar, descobri eu, sem perder uma entrelinha. Sabes porquê? Adivinhas todas as frases e todos os sentidos que ainda hão-de vir. É um exercício de oxigenação cerebral, como outro qualquer. Um Soduku para coxos do cálculo, como eu, claro.

Agora, sabes que mais? Vou celebrar. Sim, hoje fiz 41 anos! Que tal?! Melhor que nunca. Até falo com prateleiras.

DaLheGas

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

o último dia de agosto

faz hoje sete dias, rigorosamente cronometrados,
que quebrei a promessa de não mais vos escrever,
abusando de versos pobres e de tons desbotados,
abusando da paciência de quem ainda me teima em ler.

ia sentado num barquinho, que digo!, numa lancha,
entre ilhas, talvez de um contentamento algo infantil,
em frente, meus olhos bem focados naquela criança
e no seu papagaio, a quem sussurrava ternuras mil.

este poema, escrevi-o de memória, sem tal perceber.
estranhei, confesso, a mistura de mar salgado e lágrima,
escondida por entre a gola levantada e o anoitecer,
mistura improvável, agridoce, imparável - próxima -,

metáfora de tudo o que quero dizer e aqui se intromete
(esse sentimento intenso que nos rouba tino e razão),
esqueçam a figura de estilo que a este verso precede
- há milhentas por aí, sempre à nossa infeliz disposição.

o que interessa reter é todo um verbo: "sussurrar agosto",
três substantivos: "um rapaz", "um papagaio" e "um barquinho",
(a sintaxe, a ortografia, a semântica ficam a vosso gosto)
e aquele meu coração agora insular.. a voar baixinho.


gi

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Deixa-me rir...



Conheci o Dr. John por intermédio do PO. Vi-o, pela primeira vez, sentado a um piano, no vídeo The Last Waltz, sobre os The Band, um grupo canadiano que ao fim de 16 anos de tocarem juntos, resolveram juntar todos os amigos/artistas que os tinham inspirado ao longo do tempo e fazer um mega concerto/celebração no Winterland Ballroom de São Francisco no dia 25 de Novembro de 1976 (gosto muito deste dia!). O vídeo, considerado pelo New York Times como o mais belo vídeo de rock jamais produzido, foi realizado por Martin Scorcese (que já tinha feito um sobre o Bob Dylan e que, entretanto, fez outro sobre os Rolling Stones, o fabuloso Shine a Light, que passou nos cinemas há cerca de um ano).

E foi amor à primeira vista. Dos muitos e famosíssimos artistas que acompanharam os The Band naquele memorável concerto (basta fazer um google para ter uma ideia da “dimensão” dos intervenientes), nenhum me encantou mais do que o Dr. John. A voz, o talento, a figura, a descontracção, o puro gozo de quem sabe que tem graça, que é bom no que faz e GOSTA do que faz, conquistaram-me por completo.

Nasceu Malcolm John Rebennack, Jr, em 1940. Guitarrista durante algum tempo, sobretudo pianista, compositor e cantor, tornou-se conhecido pela sua excentricidade e por um estilo de música que, ao longo dos anos, se foi repartindo pelos blues, boogie woogie e rock n’ roll (com algumas fusões destes estilos, também).

Gris-Gris, o seu primeiro album a solo de 1968, que misturava, com grande criatividade, ritmos e sons voodoo com música tradicional de New Orleans, foi extremamente bem recebido pela revista Rolling Stone, que o colocou numa posição de destaque num ranking dos 500 melhores álbuns de sempre.

Tornou-se um cantor e músico de culto, tendo tocado com Mick Jagger e Eric Clapton no álbum The Sun, Moon and Herbs. Este álbum fez a ponte para uma nova fase, mais ligada ao rhythm and blues e ao funk. E que veio dar origem ao álbum seguinte, Dr. John’s Gumbo (1972), um dos seus álbuns mais conhecidos. Mais uma vez, foi aclamado pela Rolling Stone, que o colocou entre os 500 maiores álbuns of all times.

Em 1973 produziu um novo álbum, desta vez dedicado ao funk de New Orleans, In the Right Place, álbum que o transformou numa espécie de embaixador do funk produzido na Louisiana. Such a Night, a música interpretada no concerto dos The Band, faz parte deste álbum.

Ao longo da sua carreira trabalhou com músicos como Sonny & Cher, Bob Dylan, Brian Wilson, The Band, Lou Reed, Eric Clapton, Mick Jagger, Carly Simon, Neil Young, James Taylor e Rickie Lee Jones, entre muitos outros.

Entre 1981 e 1983, gravou dois álbuns a solo, sobretudo com composições suas, em que demonstrou o enorme talento enquanto intérprete de boogie woogie. Seguem-se vários álbuns gravados em 1998 (Anutha Zone), 2000 (Duke Elegant), 2001 (Creole Moon), 2004 (N’awlinz: dis, dato r d’udde), 2005 (Sippiana Hericane – a seguir ao furacão Katrina que arrasou a cidade de New Orleans), 2006 (Mercenary) e 2008 (City that care forgot).

Não pertencendo ao mainstream da música, nunca tendo tido uma projecção a nível global como tantos outros com quem colaborou, há quem o considere injustamente underrated. Na minha opinião, porque fui eu que o escolhi, totalmente underrated! O domínio das teclas, o ritmo, a originalidade das misturas, o reconhecimento que lhe foi dado pela major Rolling Stone … não percebo. Mas isso sou eu …

Para quem quiser saber mais, tem uma autobiografia, publicada em 1994, intitulada Under a Hoodoo Moon.

pcp + po

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Pero Soares


Pero Soares. Peeeeeerooooo Sooooaaaareeeees. Dito devagarinho até parece um nome cómico.

Pero Soares não é bem no mundo, é um universo paralelo que Deus criou para fazer os vinte habitantes da sua terra felizes.

Estes vinte habitantes, divididos entre meia dúzia de casinhas vivem bem, independentemente da história pessoal de cada um. Não inteiramente cientes do seu isolamento do mundo, os moradores contentam-se com o que para um metropolitano pareceria ridículo.

Vi sorrisos genuínos com o cheiro fresco dos coentros plantados no jardim. Vi felicidade imensa em comer figos tirados das árvores no momento e, até, numa rapariguinha que tinha como melhor amiga uma cabra que lá passava todos os dias.

Neste mundo maravilhoso os relógios não marcam horas, o dinheiro não tem importância nem valor e as conversas não têm fim.


Em Pero Soares não é preciso haver ruas, também não há conhecidos. São todos família e têm o exterior das casas como um jardim onde se juntam. Pode ser para trocar plantações individuais, para cochichar sobre o tempo, a roupa da vizinha ou o namorico do sobrinho. Também pode ser só para fechar os olhos e perceber o verdadeiro sentido do silêncio.

Não precisam de nada de extraordinário para serem felizes. Uma melancia até serve perfeitamente como bola de futebol e os portões da igreja como baliza. Desrespeitoso? De todo! Percebi que cinquenta por cento das maldades só são conhecidas e praticadas em grandes aglomerados.

Entre os vinte habitantes existe um mudo. Um dia, olhou para mim com os seus olhos muito grandes e expressivos e, se pudesse falar, tenho a certeza que me diria: “Aqui Eu Sou Feliz..!!”

Pero Soares, Agosto 2009.

TdB

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A menina dos Correios

São as meninas dos Correios, como numa dada altura eram as meninas dos Telefones. Sei do que falo, porque me dirijo amiúde ao posto mais próximo que tem um quadro de pessoal exclusivamente feminino. Compro selos, peço estampilhas de correio azul, levanto cartas registadas, atento nas últimas publicações. A menina lá está, fardada, com uns óculos tristes, um cabelo aloirado e desinteressante, um olhar irrequieto e envergonhado. Recebe simpatias com uma cara que ruboresce, enfrenta uma observação com desculpas que tendem para infinito.

Esta menina dos Correios é uma rapariga nova, pintada de forma displicente, que poderia usar um letreiro em forma de súplica: não olhem para mim, finjam que eu não existo. Chama-se Clotilde e é filha de uma professora primária e viúva precoce de um motorista da Câmara Municipal. Convicta da irreversibilidade do estado civil, a senhora devotou-se por inteiro aos meninos, a quem transmitiu valores que formam as mentes e salvam as almas. Clotilde cresceu entre um aviso de recepção e um luto permanente, com uma Mãe que assumiu um pensamento constante: para onde caminhas tu, com esse feitio tímido e invisível?

Um destes dias levaram-me a um recinto no lado oriental da cidade, recuperado para uma malta mais alternativa, desta que não se revê em lado nenhum da noite – ou que quer tudo em simultâneo. Celebrava-se o dia de África, pelo que o estabelecimento era o continente negro copiado e colado na União Europeia.

Numa das salas dançava-se o kizomba: pernas que cruzam, ancas que roçam lateralmente para depois encaixarem de frente; a sensualidade, os cheiros, o ambiente, os sotaques, as saudades das noites africanas, do pôr-do-sol e do espaço sem fim. À minha frente, uma mancha negra movimentava-se ao som de uma toada ritmada e lasciva. No meio da pista, com um menear irrepreensível do corpo, uns cabelos loiros a revelarem cuidado, e uma saia curta que mal tapava umas pernas esguias, vi a Clotilde, esquecida dos carimbos e das encomendas, da franquia e do registo, a descobrir uma África que só conhece da TV Cabo. Com ela, um jovem negro com mais de 1,90 que lhe percorre o corpo como um alfaiate afaga uma peça de caxemira: com um vagar sensorial, de mão aberta e a toda a extensão do pano.

Quando saí, ainda a vi beijando o Valter, empregado de uma oficina na margem sul - um beijo longo, húmido, carregado de desejo e erotismo, de fluidos trocados e cor de pele contrastante. O rapaz sente no corpo da Clotilde a geografia africana e mata as saudades com o tacto, porque a lonjura é uma cegueira, e mão que não toca é alma que não sente. Para ela, que tem o horizonte visual de um balcão ao nível dos olhos, o mecânico é um canal de viagens com interacção erótica.

No dia seguinte a jovem voltará a ser a mesma menina do Correio, tímida, envergonhada, com uma farda estilizada e um cabelo démodé. Almoçará jardineira de vitela com uma Mãe que fala de Deus às crianças – sendo que a inversa também é verdadeira. Engolirá, nostálgica, um pedaço de carne, porque é, também, de nostalgia que se faz a pergunta guardada num coração dividido: sabes fazer moamba, mamã?

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado no sábado no Porta do Vento

domingo, 6 de setembro de 2009

Surdos e mudos

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Realço, no Evangelho de hoje, aquilo que a minha sensibilidade entende ser o mais importante. Para mim, é claro, porque para ensinar aos outros pouco tenho que me qualifique.
Todos nós somos, seguramente - ainda que cada um à sua maneira - um pouco surdos-mudos. Porque somos "surdos" aos outros, àquilo que acreditamos ser a voz da Verdade, à nossa consciência, ao que dentro de nós apela ao serviço ao próximo, ao esforço, à dedicação, à vida plena. Também porque nos calamos na denúncia da injustiça, nos inibimos ao confronto, porque ser convicto, ter princípios e lutar por eles requer um desafio que não queremos combater. Entre o que é justo e a paz preferimos, tantas vezes, esta última.
Jesus ergueu os olhos ao Céu antes de proferir a palavra "mágica". Tal como Ele, também é no Céu que temos de por os olhos, porque é nesse "destino" que encontramos a felicidade suprema. Não aqui, nos nossos contentamentos comezinhos, no cumprimento de obrigações estéreis, numa caminhada sem sentido.
Aos surdos-mudos de alma e de coração resta um desafio: abre-te.


EVANGELHO – Mc 7,31-37
Naquele tempo,
Jesus deixou de novo a região de Tiro
e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia,
atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar
e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, afastando-Se com ele da multidão,
meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu,
suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,
soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar correctamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava,
tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam:
«Tudo o que faz é admirável:
faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

sábado, 5 de setembro de 2009

Eixo Norte-Sul

Duas guitarras, duas pranchas, três chapéus de palha e um do rato Mickey, um fogão avariado, uma bilha de gás, quatro sacos cama e dois colchões, duas tendas, uma frigideira e uma panela, um tupperware de temperos, quatro malas para quatro pessoas, um carro e um destino. Em direcção a Sul, encostados ao mar.

Foi nestes termos que se iniciou uma viagem que sempre se caracterizou pela ausência de mapa. De frente para o mar, seguíamos para a esquerda.

Foi uma mão cheia e mais dois dedos da outra de dias cheios de sol e sal. Dias que se perdiam nos acordes da guitarra e noites que se derretiam com as pedras de gelo.

Durante esta semana, a janela do quarto abraçava a costa inteira, e o mar fazia de cabeceira quando fechava os olhos. Não precisei de encostar um búzio aos ouvidos para ouvir as ondas rebentar. Bastou-me ouvi-las ali ao lado. Levei o sal comigo para todo o lado. Aquele que fica quando saímos da praia, a fazer comichão nas costas e a puxar os cabelos para cima.

Descobri nestes dias que o fim de tarde tem mais cores do que aquelas a que estava habituado. E não falo aqui de cores como metáfora para certos e determinados estados de espírito que nos fazem olhar para o pôr-do-sol com os olhos cheios de melancolia e saudade. Digo cores no sentido literal da palavra. Entre o fio do horizonte e o último resto de sol cabem todas aquelas a que alguém um dia deu nome, e muitas outras que nunca ninguém se importou de catalogar. Gostava de as ter trazido no bolso, ao lado das chaves e das moedas, para num desses dias em que os olhos se enchem de melancolia e saudade as poder atirar novamente lá para o fundo.

Tal como gostava de ter trazido o prateado baço da lua cheia que banhava as escarpas que encimavam a praia, ou as estrelas e outros pontos brilhantes que são primos das estrelas, para depois poder copiar para um caderno preto todas as formas que estas faziam, com a inocência das crianças que se desenham maiores que as casas.

Trouxe, no entanto, os sons e os silêncios que encheram esses dias. E deixei, para quando lá voltar, uma cadeira à beira-mar.



Muna

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

robert bresson

o meu nome é robert bresson, dizem-me aqui,
como se nesta nomeação fugissem eles mesmos
do risco possível de serem este eu que eu sou.

o meu nome é robert bresson e ninguém nunca
filmou ou filmará como eu filmei, há poucos anos,
nessa escala inclemente que é a da eternidade.

o meu nome é robert bresson e nos bosques de bolonha,
nas mãos dos carteiristas de rua, no recorte aguçado de uma nota,
no olhar petrificado da gente comum que elegi em vida,
pulsa, nem mais nem menos, do que um trevo da sorte,
desenhado a película granitada nos rostos pálidos
e orgulhosos que, uma e outra vez e para sempre,
zombam de ti e assim, fixos e petrificados, zombam afinal

dessa coisa viscosa e infilmável que é a morte.

gi

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Deixa-me rir...

Inicia-se hoje neste espaço, por grande amabilidade do dono deste estabelecimento, uma nova rubrica intitulada “Deixa-me rir …”. E como de uma rubrica musical se trata, nada melhor do que lhe dar um nome inspirado numa line de uma música de um cantor de que gosto muito – Jorge Palma -, que já tive a oportunidade de ver ao vivo num memorável, e afortunadamente interminável, concerto no Coliseu do meu querido Porto. Esta rubrica será produzida a meias em português (pcp) e inglês (po), pelo que se espera que a informação proveniente directamente de Londres, pela “mão” do po, grande amigo meu e imenso conhecedor (ainda que amador) de música anglo-saxónica, seja compreendida por todos os bloguistas.

Vamos então celebrar a Música, na sua forma menos erudita e clássica, ainda que esta definição tenha muito que se lhe diga, e começar com música do nosso Portugal. Concretamente com um famoso artista do meu (mais uma vez) querido Porto, o chamado “pai do rock português”. Não o dito cujo “Chico Fininho”, essa música cheia de ritmo e algo revolucionária à época, mas uma música cheia de soul e sentimento (como quase todas as músicas dele são, ou eram, aliás). A escolha foi difícil (podiam ter sido outras 10!), mas esta foi a contemplada. Espero que gostem. Até breve.

pcp + po


terça-feira, 1 de setembro de 2009

Poemas dos dias que correm

Foi um Momento

Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não ?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa

Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
‘Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Músicas dos dias que correm

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