terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Duas Últimas

Chega-se a esta altura do Carnaval e todo o meu corpo se arrepela de terror pela época. Felizmente já não me desafiam para festas, já não tenho filhos para mascarar e ainda não tenho netos que, eventualmente mascarados, sentirão todo o meu dó. Não obstante, desejo a todos os foliões a maior das alegrias e o maior dos agasalhos, que o tempo não está para corpos desnudos e sensuais que se torram ao sol e escorregam de tanta transpiração.

Repito a música que postei nesta mesma 3ª feira de Carnaval de 2016, qualquer que tenha sido o dia. Talvez não haja música mais apropriada para celebrar este dia em que todas as folias são possíveis antes das restrições quaresmais.

Deixo-vos com Manhã de Carnaval - a toada lenta retrata a energia com que celebro o dia.

JdB 

 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Dos possíveis preconceitos

Nos últimos 15 anos, talvez, e a respeito das mais díspares situações, falei abundantemente de parte significativa da minha vida pessoal - aquela que era claramente percebida por amigos e conhecidos e que se referia a um acontecimento dramático da minha existência: fi-lo no âmbito da minha paróquia, falando a jovens que iriam casar-se num futuro próximo. Fi-lo no âmbito da minha associação a uma IPSS, falando a grupos de voluntários. Fi-lo no âmbito de seminários ou encontros no estrangeiro, falando a médicos ou pais. Fi-lo no âmbito particular, falando a pessoas que passavam por experiências semelhantes à minha. Fi-lo no âmbito de entrevistas de televisão ou de rádio, de intervenções públicas enquanto presidente de uma associação, mas também o fiz de modo avulso, falando ou escrevendo aqui e ali, nomeadamente neste estabelecimento.

Nunca tive incómodos por falar de mim até porque, em muitas e muitas circunstâncias, as pessoas tiveram a amabilidade de ouvir o que eu tinha para dizer a mim próprio. Há quem ache que ensinar é aprender duas vezes. Em muitas circunstâncias, falar tinha essa dimensão dupla: falar de mim era reforçar o que era importante para mim. Eu falava para os outros mas falava, tantas e tantas vezes, para mim próprio. Os outros, vítimas amiúde de um aparente monólogo, eram o espelho que me reflectia o caminho a seguir. 

De que falava ou escrevia eu? De dor, de fé, de silêncio, de morte, de serviço, de um Deus que não era senão amor, de amigos especiais ou que se tornaram especiais, do olhar mais arguto sobre os outros ou, talvez, do olhar que temos de ter mais arguto sobre os outros. Falava de discernimento, de força e de fraqueza, de fragilidade, de crianças com cancro, dos pais das crianças com cancro, de emoções. Falava, acima de tudo, da absoluta necessidade de dar um sentido ao sofrimento e, com isso, encontrar um sentido para a vida. Falava, acima de tudo, desta certeza de que, perante um acontecimento que nos amarfanha emocionalmente, para cuja violência não existe nome pronunciável, há uma possibilidade de vitória sobre o destino que se veste de madrasta.

Na semana passada, a associação de que sou presidente, em nome da qual falo publicamente e que tanto tem feito por mim, pediu-me para ser entrevistado e fotografado para uma destas revistas a que chamamos cor-de-rosa. Falei sobre aquilo de que falo há 15 anos, talvez, reforçando a ideia de que devo à associação muito do que sou e do caminho que percorri. Não disse mais do que costumo dizer, mas a ideia de exposição numa revista deste tipo - e que me merece um respeito óbvio - deixou-me irrequieto, pese embora várias pessoas me dizerem que um rosto visível traz vantagens para estas associações. Será um possível preconceito, já que o único factor eventualmente estranho será o "casamento", no mesmo número de revista, do nosso jet-set com uma associação deste tipo?

JdB  

domingo, 26 de fevereiro de 2017

8º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 6, 24-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Ninguém pode servir a dois senhores,
porque ou há-de odiar um e amar o outro,
ou se dedicará a um e desprezará o outro.
Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.
Por isso vos digo:
«Não vos preocupeis, quanto à vossa vida,
com o que haveis de comer ou de beber,
nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento
e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu:
não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros;
o vosso Pai celeste as sustenta.
Não valeis vós muito mais do que elas?
Quem de entre vós, por mais que se preocupe,
pode acrescentar um só côvado à sua estatura?
E porque vos inquietais com o vestuário?
Olhai como crescem os lírios do campo:
não trabalham nem fiam;
mas Eu vos digo:
nem Salomão, em toda a sua glória,
se vestiu como um deles.
Se Deus assim veste a erva do campo,
que hoje existe e amanhã é lançada ao forno,
não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?
Não vos inquieteis, dizendo:
‘Que havemos de comer? Que havemos de beber?
Que havemos de vestir?’
Os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas.
Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso.
Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça,
e tudo o mais vos será dado por acréscimo.
Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã,
porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações.
A cada dia basta o seu cuidado».

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Pensamentos impensados

Última hora 
Zeinal vai chorar bava e ranho.

Figura de urso
O urso formigueiro mete o nariz onde não é chamado.

Gaforinas
Vejo o Trump e lembro-me de um fado:

Uma madeixa
De cabelo descomposta
Pode até ser a fateixa
De que uma varina gosta.

What's in a name
Marocas---maroscas.

Brancuras
Desde quando é crime ter um colarinho lavado?

Dias não são dias
Qualquer "dia mundial de", no Polo Norte, arrisca-se a durar seis meses.

Condimentos
O  gás mostarda e o gás pimenta são usados na culinária ao ar livre.

Linguajares
Se duas negações fazem uma afirmação, ser contra os contraceptivos é ser a favor dos ceptivos.

Deslocações
O meu mundo não é deste Mundo.

SdB (I)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Há entre mim... *

«Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são - como são para os outros» - Fernando Pessoa

Já dizia Fernando Pessoa, homem sábio, que a imagem construída à luz dos nossos olhos, não corresponde ao real, àquilo que de facto é e existe. Uma névoa densa, escura, equiparável ao muro de Berlim, separa tais realidades por si só tão distintas. E não há vento que a mova. Nem o vento capaz de levar um veleiro a desafiar furiosamente as leis do mar, ou a simples brisa que me traz o teu perfume são capazes de atenuar tal névoa.

Atrevo-me a híper dimensionar a metáfora utilizada pelo génio que era Fernando Pessoa e assim, arrisco comparar esta distinção entre a realidade real, perdoem-me o pleonasmo, e o cenário imaginário a um grande e profundo abismo de onde emana uma escuridão horripilante.

De um lado, o qual apelido de zona de conforto, estou eu, o Pessoa e a grande maioria dos seres humanos deste mundo que ainda não encontraram a coragem necessária para percorrer as frágeis tábuas de madeira, unidas por dois fios massacrados pelo tempo, a que chamo ponte. Refugiam-se, assim, no lado que já dominam e manipulam, fecham-se no seu porto seguro, evitando a novidade, o desconhecido, a realidade.  Vivem perante uma ilusão viciante, gratificante até, que os afasta cada vez mais da ponte e os embrenha na aliciante floresta que é o imaginário.

Do outro lado, contrastando, temos um universo de pessoas reduzido. Não admira, poucos são aqueles que optam por atravessar a tão frágil ponte que abana com uma ténue rajada. Para além de ser um acto de coragem extrema, é uma opção que envolve, impreterivelmente, choque, sofrimento, dor e lágrimas. Ao passarmos para o outro lado, ao escolhermos encarar a realidade, estamos a deixar para trás algo que já tínhamos como adquirido, um cenário que poderíamos adaptar a qualquer momento de forma a nos agradar. A passagem representa a aceitação do real sem contornos, nu e cru, dos factos como eles são e das consequências que deles advêm sem qualquer hipótese de um ajuste favorável à nossa situação.

Encontro-me do lado ilusório do abismo e por cá vou ficar até armazenar a coragem e a força necessárias para atravessar a ponte e, assim, enfrentar tamanho choque. Criei um mundo imaginário demasiado extenso para ser vivido em apenas 17 anos, porém tenho noção que o dia em que as minhas fantasias já não me saciarão e terei necessidade de passar para o outro lado, para o real, estará perto e quando fizer essa travessia espero que todos já estejam do outro lado, que tenham feito a escolha certa (e que a ponte não se tenha desmoronado!).

MTM

* publicado originalmente em 2.12.2011

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Das aulas de compensação


Goa, Janeiro de 2017

Há qualquer coisa que liga as aulas de compensação (e também as "explicações") à ida à missa dominical. Talvez haja algo que ligue uma formação em reiki, em programação neuro-linguística ou em áreas comportamentais de qualquer espécie a estas aulas de compensação. Por outro lado, e numa imagem mais ligada à meteorologia, todos nós somos uma espécie de caixa (embora possa ser uma bola, um triciclo ou um livro) expostos a uma ventania carregada de areia. Isto é, temos um formato, uma superfície, uma textura que representa aquilo que somos ou que gostaríamos de ser. Se nos deixarmos ficar ao tal vento carregado de areia, essa caixa (ou bola, ou triciclo, ou livro) enchem-se de areia, alterando o formato (visível) a superfície, a textura. Nesse sentido, há algo que liga a ida à missa, mas também a formação em reiki ou em programação neuro-linguística a esta metáfora da caixa.

Para algumas pessoas - nas quais me incluo - o cristianismo, sobretudo, é um referencial de qualidade. É nos ensinamentos de Cristo que me revejo, é aquilo que Ele disse e fez que eu quero seguir. Este é o meu modelo de comportamento perante a sociedade e os mais próximos. É no cristianismo (e por associação na Igreja Católica) que eu tento ser melhor. Outras pessoas haverá, cuja caminhada de melhoria com elas próprias e com o mundo que as rodeia é feita com outras ferramentas, já aqui referidas: é ali que encontram paz, ensinamento para a vida, correcção de falhas interiores ou no seu relacionamento com o próximo. 

Num certo sentido, vou à missa todos os domingos porque sou mau aluno. A missa é a minha aula de compensação. Conseguiria viver sem ir à missa? Sim, mas não seria a mesma coisa. Preciso da missa para melhorar - e preciso dela todas as semanas, como se contratasse um explicador matemática que me ensinasse a fazer integrais duplos. O que é a missa? É a limpeza regular de uma caixa que se foi tapando com a areia do tempo. Se eu não a limpar regularmente, um dia já não percebo quem sou e a minha natureza - ou aquela que eu gostaria de ter - foi de tal maneira tapada que não se recupera mais. Há quem vá à missa, quem faça cursos na área comportamental. Num certo sentido, é tudo o mesmo: sermos melhores, relacionarmo-nos melhor, aprendermos mais, sermos mais. Como somos maus alunos, temos de ter aulas de compensação: chama-se missa dominical ou aplicação regular do que aprendemos nos cursos. 

A visão acima é redutora, jocosa, pateta. Olhem, é o que é, quase às dez horas da noite.

JdB   

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Do S. Carlos (ou também uma espécie de Duas Últimas)

Dava-se a Lucia em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens não tinham vindo - nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de sudoeste, parecia penetrar ali, derramando o seu pesadume, a morna sensação da sua humidade. Nas cadeiras, vazias, havia uma mulher solitária, vestida de cetim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gás dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo também.

- Isto está lúgubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que ocupava o escuro da frisa.

Cruges, amodorroado num acesso de spleen, com o cotovelo sobre as costas da cadeira, os dedos por entre a cabeleira, todo ele embrulhado em crepes sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo dum sepulcro:

- Pesadote.

***

Voltei ao S. Carlos para ouvir uma ópera. Há um lado qualquer ridículo em mim, talvez de queirosiano de sempre, ou apenas de pessoa deslocada no tempo, que se encanta (impressiona talvez seja demais) com uma ida a esta sala específica - mas para ouvir ópera, note-se. Nos últimos dois anos convidaram-me para ir a S. Carlos ouvir outras peças. O repertório, interessante e bonito era, de uma das vezes, a Sinfonia Novo Mundo, de Dvorak, uma obra de que gosto muito e à qual, como já aqui escrevi uma vez, atribuo uma interpretação errada, porém mais interessante do que a real... Contudo, tenho de confessar - em S. Carlos é ópera.   

S. Carlos constitui-se, nestes dias de espectáculo aberto ao público, como um enclave perdido entre o passado e o presente, como se lhe faltasse uma directiva, uma instrução, uma norma que resolvesse um problema claro, ou respondesse de forma inequívoca a uma pergunta singela: onde me situo eu? Não há metafísica na inquirição - apenas um problema de dress code. Atrás de mim havia gente de gravata, à minha frente gente de calças de ganga. Viam-se senhoras arranjadas, senhoras mais à vontade. Eu próprio era o espelho desta indecisão, desta indefinição que transforma uma travessa bonita, onde se deitam umas perdizes, num recipiente remediado, onde se coloca uma chicharro. Fui de casaco, sem gravata - tentei apenas ser civilizado, não consegui ser nada.

Sou defensor do dress code em S. Carlos, mesmo que isso me obrigasse a apertar o pescoço com uma faixa de fantasia, porque esta sala requer uma boa estética - ainda que com um ouvido deficiente. Sei que ninguém ousará esse fervor determinativo, porque não é democrático, talvez seja elitista e o S. Carlos, como a cultura, o belcanto, o ar, a praia e os aviões, é de todos. E no entanto, ir a S. Carlos não é ir ao Meo Arena, por mais respeito que tenha por esse recinto onde nunca fui. Ir a S. Carlos, insisto, é uma atitude, não um destino. É - ou tem de ser - um prazer auditivo e visualmente estético, que exige moldura a condizer;

(infelizmente é perceber também, pelos piores motivos, que não houve evolução ao nível das cadeiras, algo que nos rebenta as costas e nos faz solicitar osteopatas...)

Por fim, pelo menos para alguns, é imaginar o Carlos da Maia a perseguir a Gouvarinho com o olhar, ou, da sua frisa elegante, lamentar a sua ausência. É, nalguns casos (e não foi este) plagiar o Cruges e, à pergunta sobre como foi a noite, responder com um ar sombrio: pesadote... Mas até o advérbio requer uma elegância que se não compadece com um casaco de cabedal por cima de uma camisa de manga curta. A linguagem, em determinados casos, não é apenas oral, mas cénica.

Deixo-vos, pelo segundo dia consecutivo, com ópera - neste caso com a ária mais bonita da obra que fui ver, e onde se prova que a infância, as memórias, são o refúgio que sempre escolhemos em momentos de aflição. E se aquele momento era de aflição para a segunda mulher de Henrique VIII, um homem ainda imberbe naquela sua voragem casamenteira...

JdB



Lyrics & English Translation

ANNA
Are you weeping?
What causes such tears?
This is my wedding day.
The King awaits me...
the candles on the altar, are lit,
it is decorated with flowers.
Give me quickly my
white robe; adorn my hair
with my crown or roses.
That Percy know nothing about it,
the King has ordered it so.

CORO
Oh tragic memory!

ANNA
Oh..who is grieving?
Who spoke of Percy?
Let me not see him;
let me hide myself from his
gaze. It is useless... He comes...
he accuses me... he scolds me...
ah! he scolds me, accuses me.
Ah!

Ah! forgive me, forgive me...
I am unhappy.
Take me away from
this utter misery
Are you smiling?
Oh joy!
Do not let me die abandoned here, no.
You are smiling? Percy?
Oh joy!

Lead me to the dear castle
where I was born,
to the green plane trees,
to that brook that still
murmurs to our sighs...
Ah!
there I forget Past griefs;
give me back one day of my youth,
give me back one day of our love.

Lead me to the dear castle
where I was born;
give me back one day
of our love..
just one single day of our love.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Duas Últimas

Um amigo pergunta-me pelos meus seminários de doutoramento. Falo-lhe num que tem por tema "Listas". Manifesta surpresa. Para o tentar elucidar (ainda que de forma fraca) e porque ele é melómano, falo-lhe na ópera Don Giovanni, onde há uma referência a listas. 

(Penso que não é preciso saber-se muito italiano para se perceber onde está a referência às listas, e que listas são essas).

Para Leporello, a importância está, não na beleza das senhoras ou na sua origem social, mas no enriquecimento das listas. É preciso engrossar as listas - o catálogo - e há uma dimensão geográfica neste livrinho. Não falamos, por isso, só de listas de supermercado. Há um mundo por trás das listas - e é disso que ouvirei atentamente, uma vez por semana, ao longo dos próximos meses.

JdB



Leporello

Eh! Consolatevi;
non siete voi, non foste, e non sarete
né la prima, né l’ultima. Guardate:
questo non picciol libro è tutto pieno
dei nomi di sue belle:
(Cava di tasca una lista)
ogni villa, ogni borgo, ogni paese
è testimon di sue donnesche imprese.

Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che amò il padron mio;
un catalogo egli è che ho fatt’io;
Osservate, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Almagna duecento e trentuna;
Cento in Francia, in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son già mille e tre.
V’han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V’han contesse, baronesse,
Marchesine, principesse.
E v’han donne d’ogni grado,
D’ogni forma, d’ogni età.
Nella bionda egli ha l’usanza
Di lodar la gentilezza,
Nella bruna la costanza,
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d’inverno la grassotta,
Vuol d’estate la magrotta;
È la grande maestosa,
La piccina è ognor vezzosa.
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista;
Sua passion predominante
È la giovin principiante.
Non si picca - se sia ricca,
Se sia brutta, se sia bella;
Purché porti la gonnella,
Voi sapete quel che fa.

(Parte.)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

A história dos meninos talentosos e cheios de ambição, que singram no MIT e em Harvard tem muitas semelhanças entre si, quase a corresponder à simplificação de Tolstoi, que dizia: as famílias felizes são todas iguais. Na tipificação do grande escritor russo, só as infelizes teriam uma história única, carregando um sofrimento irrepetível.

No lado dos felizes, um destes estudantes de sucesso no MIT e depois no MBA de Harvard, onde ficou a leccionar, nasceu em 1951, nos subúrbios nova-iorquinos, de pais judeus alemães fugidos à perseguição nazi. Educado na ortodoxia judaica, professava a fé dos antepassados com enorme afinco, chegando a passar uma boa temporada num kibutz, em Israel. Mal ingressou no MIT e se deixou contagiar pela mania da superioridade, a tomar-se por génio e a endeusar a ciência e a tecnologia como os demais (segundo a descrição do próprio, anos depois), a fé soçobrou como um castelo de areia. Acreditar numa religião  – excepto se muito exótica – era entendido como uma cedência passadista, entretém de gente ignorante. Só mais tarde contestou esse falso entendimento do espírito científico e esse arreigado desrespeito pelas diferenças, nos antípodas do que deveria respirar-se num ambiente académico saudável.   

Entretanto, a rápida ascensão na carreira, acompanhada de um enriquecimento fulgurante, tornaram-lhe evidente o vazio da sua vida, apesar do conforto e status adquiridos. Talvez na lucidez desta auto-avaliação, sem pejos em chamar os bois pelos nomes, se tenha começado a distanciar do padrão característico de muitos prodígios das universidades de economia e finanças dos EUA, precisamente por serem as melhores e mais prestigiadas do mundo. Isso dificulta-lhes (explicou depois) descerem ao reino do comum dos mortais, alimentando-se da crença de pertencerem à casta superior dos sobredotados. 

Há ainda um outro momento especial e diferenciador na biografia deste dito sobredotado: a maior desilusão da adolescência, aos 12 ou 13 anos, quando no ritual judaico de passagem para a idade adulta – Bar Mitzvá (filhos do mandamento) –  o prometido acesso a Deus não aconteceu. Tudo ficou demasiado igual.  

Bom, o menino já grande, chamado Roy Schoeman (numa simplificação dos nomes de origem germânica), começou a aguentar mal a falta de sentido de vida. Numa das tentativas desesperadas de fazer alguma coisa: resolveu ir meditar para o campo, a ver se reordenava ideias e ganhava serenidade. Curiosamente, alguma coisa aconteceu, ou melhor, começou a acontecer, pois abrira-se uma caixa de pandora, que tem sido tema de conferências dentro e fora dos EUA.   



Num testemunho interpelativo e bem articulado, munido das óptimas técnicas de comunicação aprendidas em Harvard, Roy Schoeman (RS) não se cansa de contar como deu a reviravolta. Quer dizer: os negócios, a azáfama e o êxito no trabalho continuaram iguais, mas por dentro rodou 180º… ou talvez um pouco menos, embora o efeito seja incrivelmente revolucionário.

No salto quântico dado, a história de RS é bastante atípica, para dizer o menos, embora feliz e por isso a contrariar q.b. a convicção de Tolstoi. De menos invulgar terá duas componentes: a experiência espiritual de contornos semelhantes aos breves estádios post-mortem em que surge uma luz maravilhosa e personificada de quem ninguém se quer mais afastar (considera-se sempre um azar ter de voltar à existência terrena); e considerar um privilégio a oportunidade de poder dialogar com a senhora mais bonita com que alguma vez se cruzou. 

Essa senhora –  compreensivelmente fulcral na sua mudança de rumo –  confidencia-lhe dados curiosíssimos, em concreto para os portugueses. Quando RS insiste em perguntar-lhe qual a oração preferida, a resposta foi dita em português (!), pelo que ficou ininteligível para Roy, que apenas conseguiu transcrever a sequência fonética e depois descodificá-la com uma portuguesa radicada nos EUA. Decifrado o enigma, descobriu que se tratava de uma das rezas ensinadas pelo Anjo de Portugal aos Pastorinhos de Fátima, mas cuja origem remonta a 27 de Novembro de 1830(1) (no filme, aos 23:24):


Por causa dessa grande Senhora, RS(2) tem a interpretação mais bonita do seu percurso de judeu, plenamente cumprido e aprofundado na passagem para o Novo Testamento, citando outros judeus convertidos – os irmãos Lemann: «The Jew become Catholic is the religious man par excellence, who has grown into his fullness, as the seed grows into the flower...  The religion was initially patriarchal, that is, identified with the family of the Patriarchs; then it was enlarged into a chosen people who were given the beautiful name People of God; and finally, in being universalized it became something even more beautiful, the Kingdom of God, the Catholic Church which is for all people.  This is always the work of the Eternal, the progression from the less perfect to the more perfect, from the particular to the general.»  

O melhor é ouvi-lo, porque os crack do MIT e Harvard explicam-se lindamente. RS tem ainda outras conferências com interpretações pessoais sobre os fenómenos da actualidade visivelmente turbulentos e incertos. 

Uma última notícia sobre a mesma Senhora: a comunidade do Estoril e Cascais angariou fundos para a (re)construção da Clínica de S.José em Erbil, no Curdistão Iraquiano e tomou ainda a iniciativa de oferecer àquela cidade massacrada por uma guerra feroz, uma imagem da Virgem de Fátima.  Bem que RS é um exemplo vivo dos benefícios da presença maternal de Maria, que agora se vão poder estender a uma multidão dilacerada pela dor. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

________________________________________
(1)  Data da aparição mariana a Sta Catarina Labouré, no coração de Paris, surgindo na inscrição do quadro oval que Nossa Senhora lhe revelou para ser reproduzido numa medalha, que pudesse ser veículo das graças que o céu quer derramar sobre os homens de boa vontade. Em Portugal ficou conhecida como medalhinha milagrosa. Na altura, a jaculatória — «Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós» – constituiu uma novidade absoluta, que contribuiu para a proclamação oficial do dogma da Imaculada Conceição, a 8 de Dezembro de 1854, por Pio IX.



(2) Site de Roy Shoeman – http://www.salvationisfromthejews.com.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

7º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 5, 38-48

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Olho por olho e dente por dente’.
Eu, porém, digo-vos:
Não resistais ao homem mau.
Mas se alguém te bater na face direita,
oferece-lhe também a esquerda.
Se alguém quiser levar-te ao tribunal,
para ficar com a tua túnica,
deixa-lhe também o manto.
Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha,
acompanha-o durante duas.
Dá a quem te pedir
e não voltes as costas a quem te pede emprestado.
Ouvistes que foi dito:
‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’.
Eu, porém, digo-vos:
Amai os vossos inimigos
e orai por aqueles que vos perseguem,
para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus;
pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus
e chover sobre justos e injustos.
Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis?
Não fazem a mesma coisa os publicanos?
E se saudardes apenas os vossos irmãos,
que fazeis de extraordinário?
Não o fazem também os pagãos?
Portanto, sede perfeitos,
como o vosso Pai celeste é perfeito».

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Pensamentos Impensados

Despedidas
Diz o médico para a sua paciente que acaba de morrer: alma minha gentil que te partiste.

Negociates
Se eu vender a alma ao Diabo tenho de passar recibo?

Mexidelas
António Costa, quando fala agita as mãos para cima e para baixo; chama-se a isto mani...pular.

Ignorâncias
Os esquimós não conheciam a religião Católica, por isso não tinham papas na língua.

Opacidades
Nevoeiro acusado de falta de transparência.

Feitios
Mulher despeitada não precisa de sutiã.

Tês-Vês
Ouvido na TVI: antes da tempestade chega a bonança.

Actividades
Perguntaram ao cangalheiro se gostava da profissão. Respondeu: é a vida.

SdB (I)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Crónicas de um doutorando tardio

Tópicos de Teoria Literária (Hermenegildo Fernandes)

Listas


Interroga-se aqui o conceito e a prática da “lista” através de experiências textuais e iconográficas precisas e historicamente situáveis, recusando-se a priori a ideia de chegar a estabelecer uma gramática universal (autónoma do espaço-tempo) da enumeração. Começa-se por definir um conjunto de semânticas para o conceito de “lista” através de um inventário preciso de possibilidades partindo-se entre outras da lista de listas elaborada por Umberto Eco (La Vertigine della Lista). Exploram-se de seguida algumas dessas possibilidades: a enumeração geracional enquanto história, da Bíblia aos Livros de Linhagens; a enumeração política, das listas de cônsules à seriação da Notitia Dignitatum; a enumeração espacial, dos Itinerários clássicos ao género geográfico árabe e às cartografias; a enumeração do desvio, dos penintenciais a Sade.

***

Tópicos de Teoria Literária (António M. Feijó)

Modernismo e província



“Modernismo” é geralmente associado a cosmopolitismo. Os autores por aquele termo designados muitas vezes têm uma fidelidade local que excede a ênfase internacional da designação. É o caso de Fernando Pessoa e W. B. Yeats, tal como é o caso de José Régio (ou de Teixeira de Pascoaes, se acolhido sob tal designação, e de Agustina Bessa-Luís, discípula dos dois últimos). O seminário analisará, na obra dos autores referidos, e em alguns outros, a natureza de tal tensão.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Duas Últimas

Na recente visita à Índia o primeiro-ministro português ofereceu publicamente ao seu homólogo indiano, de seu nome Modi, uma camisola de CR com o n.º7, presumo que assinada pelo jogador.

Achei a oferta bizarra e medrosa. Bizarra porque a Índia muito pouco liga ao futebol, para os indianos é mais críquete, hóquei em campo, buzinar e, no caso específico do hindu Modi, chatear o mais possível o vizinho e muçulmano Paquistão. Medrosa porque Portugal esteve na Índia, em várias cidades e áreas costeiras, mais de quatrocentos e cinquenta anos. Não haveria presentes mais adequados e que remetessem para essa presença, sem ofender os indianos, que dela também beneficiaram e a têm procurado preservar? Complexos que teimam em não nos deixar e que frequentemente nos apoucam nas relações com os países onde as caravelas nos levaram.

Deixo-vos com a bela voz de Rita Redshoes, no segundo caso em dueto com Rui Reininho, de quem se diz fã incondicional. Rita é filha de Carlos Pereira, antigo defesa esquerdo do SCP, depois treinador de futebol com passagem por várias equipas, sem que lhe conheça êxitos de maior. Curiosamente, irmão de Aurélio Pereira, esse sim, homem com grande sucesso na área da formação, também do SCP, cujo departamento de recrutamento chefia há muitos anos. Descobridor, senão de novos mundos, ao menos de craques como Figo ou CR!

Espero que apreciem as escolhas.

fq


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Poemas para o dia de hoje

Namorados do Mirante

ELES ERAM mais antigos que o silêncio 
A perscrutar-se intimamente os sonhos 
Tal como duas súbitas estátuas 
Em que apenas o olhar restasse humano. 
Qualquer toque, por certo, desfaria 
Os seus corpos sem tempo em pura cinza. 
A Remontavam às origens — a realidade 
Neles se fez, de substância, imagem. 
Dela a face era fria, a que o desejo 
Como um hictus, houvesse adormecido 
Dele apenas restava o eterno grito 
Da espécie — tudo mais tinha morrido. 
Caíam lentamente na voragem 
Como duas estrelas que gravitam 
Juntas para, depois, num grande abraço 
Rolarem pelo espaço e se perderem 
Transformadas na magma incandescente 
Que milénios mais tarde explode em amor 
E da matéria reproduz o tempo 
Nas galáxias da vida no infinito. 

Eles eram mais antigos que o silêncio... 

Vinicius de Moraes, in 'O Operário em Construção'

***

Os Namorados Lisboetas

Entre o olival e a vinha 
o Tejo líquido jumento 
sua solar viola afina 
a todo o azul do seu comprimento 

tendo por lânguida bainha 
barcaças de bacia larga 
que possessas de ócio animam 
o sol a possuí-las de ilharga. 

Sua lata de branca tinta 
vai derramando um vapor 
precisando a tela marinha 
debuxada com os lápis de cor 

da liberdade de sermos dois 
a máquina de fazer púrpura 
que em todas as coisas fermenta 
seu tácito sumo de uva. 

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Da conversão

Em Goa, pérola antiga do nosso império, fui à Igreja de Santa Mónica, personagem ilustra da Igreja Católica  e de quem sabia muito pouco, pouco mais do que ser mãe do Bispo de Hipona. Porque é santa?, pergunta alguém. Parece que rezou muito pela conversão de Santo Agostinho, responde outro alguém. 

O que era a conversão de alguém naqueles séculos oferece-me poucas dúvidas. Converter era colocar as pessoas do lado de cá da barbárie, dar-lhes uma alma, um baptismo, um temor, um conjunto de princípios e mostrar-lhes o salvador do mundo, sem o qual nada fazia sentido. Converter alguém era civilizar alguém, esconder-lhes o corpo pecaminoso no caso de África ou Brasil e revelar-lhes o amor. Não havia salvação fora da Igreja Católica.

O que é converter alguém nos dias de hoje, dado que ainda se fala em conversão? Não fará sentido colocar as pessoas do lado de cá da barbárie, porque não há garantia de que estivessem do lado de lá. Não é dar-lhes uma alma nem dizer-lhes que não há salvação fora da Igreja Católica, porque me parece que há. Parece-me então que converter alguém é mostrar-lhe o Bem, sendo que esse Bem não é exclusivo de uma confissão religiosa, mas de todos os homens de boa vontade. No caso dos cristãos, converter é mostrar aquilo que para nós é o supremo Bem, somatório de todas as perfeições e ausência absoluta de todo o mal. Esse bem chama-se Jesus Cristo. 

Ora, quando rezamos pela conversão dos povos, rezamos pela sua conversão a quê? À Igreja Católica? À religião cristã? Ou rezamos pela sua conversão a uma espécie de luz onde os princípios são harmoniosos, as vidas justas e rectas, onde impera a atenção ao próximo? A nossa "luz" tem um nome. E esse nome deve ser universal?

Dúvidas de um cansaço de fim de noite.

JdB 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

6º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 5,17-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas;
não vim revogar, mas completar.
Em verdade vos digo:
Antes que passem o céu e a terra,
não passará da Lei a mais pequena letra
ou o mais pequeno sinal,
sem que tudo se cumpra.
Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos,
por mais pequenos que sejam,
e ensinar assim aos homens,
será o menor no reino dos Céus.
Mas aquele que os praticar e ensinar
será grande no reino dos Céus.
Porque Eu vos digo:
Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,
não entrareis no reino dos Céus.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que se irar contra o seu irmão
será submetido a julgamento.
Quem chamar imbecil a seu irmão
será submetido ao Sinédrio,
e quem lhe chamar louco
será submetido à geena de fogo.
Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar
e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti,
deixa lá a tua oferta diante do altar,
vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão
e vem depois apresentar a tua oferta.
Reconcilia-te com o teu adversário,
enquanto vais com ele a caminho,
não seja caso que te entregue ao juiz,
o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão.
Em verdade te digo:
Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo.
Ouvistes que foi dito:
‘Não cometerás adultério’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a,
já cometeu adultério com ela no seu coração.
Se o teu olho é para ti ocasião de pecado,
arranca-o e lança-o para longe de ti,
pois é melhor perder-se um dos teus membros
do que todo o corpo ser lançado na geena.
E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado,
corta-a e lança-a para longe de ti,
porque é melhor que se perca um dos teus membros,
do que todo o corpo ser lançado na geena.
Também foi dito:
‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que repudiar sua mulher,
salvo em caso de união ilegal,
fá-la cometer adultério.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não faltarás ao que tiveres jurado,
mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor’.
Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum:
nem pelo Céu, que é o trono de Deus;
nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés;
nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei.
Também não jures pela tua cabeça,
porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo.
A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’.
O que passa disto vem do Maligno».

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Pensamentos Impensados

Juris? Prudência
De que assunto específico trata a Lei di dai?

Media
O Correio da Manhã na Islândia não se safava; quase não há crimes.

Esqueléticos
Era tão magrinho, tão magrinho, que foi posto em coma reduzido.

Vade retro
Rato Mickey - persona non rata.

Trânsito
Por que não se reboca o crédito mal parado?

BES sempre
O dinheiro reunido jamais será devolvido.

Religiões
Bem-aventurados os que não tiveram Revelação porque deles é o Reino dos Céus.

Trânsitos 
Há anos existia a Curva da Morte, que é o mesmo que recta final.

SdB

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Da dança

Gosto desta ideia construída em proporções incertas de arrojo e banalidade: a dança precede a música. Isto quer dizer, para quem tem mais dificuldade em perceber os meandros obscuros do meu pensamento, que antes de se ter inventado a música (e não sei bem quando se inventou) já se dançava. Melhor, já se abanava o corpo, movimento primitivo - sem acompanhamento musical - que deu origem, mais tarde, ao tango, ao bolero, ao rock, à valsa vienense ou inglesa, ao sapateado e à chula do Minho. A música, na sua ligação com a dança, eliminou o ridículo de uma agitação frenética e sem sequência lógica e conferiu a essa agitação um carácter sensual que os tempo modernos eliminaram de vez, como num tempo qualquer se fez com a varíola. Se a doença já só existe em frascos, a dança amorosa só existe em sítios obscuros, com tendência para a eliminação por via do ridículo e da idade avançada dos seus defensores.

A agitação do corpo é incivilizada e crente, desprovida de sentimentos nobres a não ser o temor, agradecimento ou pedido a uma transcendência que não se sabe o que é ou quem é, que forma tem, ou o que fez mais para além da suave rotina das estações do ano. Agita o corpo quem é religioso, isto é, aquele que quer religar-se a algo que o transcende. A agitação evoca o divino. A invenção da música, sobretudo aquela que suscita o pensamento pecaminoso decorrente de dois corpos que se tocam (e o slow dos anos 70 é o minuete do séc. XVII) veio eliminar essa religação, veio dar-lhe uma corporalidade que é a mãe de muitos vícios. Já não se dança (no sentido de agitação do corpo) por temor, devoção ou pedido. Dança-se por lascívia, luxúria, pecado da carne. A música que se dança, essa infâmia que se atravessa na civilização, é a culpa de muitos erros cuja gravidade foi escamoteada pelo surgimento do telemóvel, ipad, desaparecimento da casa de jantar, carreira da mulher, substituição do sexo por género e acesso generalizado aos aviões e às praias. 

Dançar a dois está na iminência da proibição, com um fervor idêntico ao que proíbe o cigarro electrónico, o consumo de açúcar em excesso, os castigos corporais e a caça com arco e flecha. Curiosamente, por um duplo motivo - o ridículo e o imoral, uma parceria que não é vulgar, um pouco como se D. Juan ou o Sr. Casanova fossem estrábicos, ou tropeçassem sempre que desafiam uma senhora casada à tentação da infidelidade. Dançar em grupo é possível, desde que ninguém toque em ninguém, ninguém olhe para ninguém, ninguém deseje ninguém. A cegueira do grupo, a impessoalidade da turba ululante é o que separa a dança primitiva de uma orgia ao som da cítara. 

Hoje deu-me para isto. Agitem-se sensualmente e freneticamente e pecaminosamente e ridiculamente com o vosso significant other ao som da música abaixo, cujo ritmo começa aos dois minutos. Não aceitem grupos, que é uma das pragas dos tempos modernos. Um com uma, que até o ridículo pode ser amoroso.

JdB

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Caminho Marítimo para a Índia (X)



Perguntam-me como classificaria, numa escala de 0 a 10, a minha viagem à Índia. Respondo sem pensar muito: talvez um 8. Quem me pergunta espanta-se, porque acha que dos vários posts ressalta uma classificação mais baixa. Admito que a impressão possa ser essa, talvez pelo fraccionamento das sensações. Globalmente não tenho dúvidas em classificar a ida à Índia com um 8 (e poderia ir sem pejo ao 9...), e retiro desta classificação pormenores logísticos do tipo hotel, residência onde ficámos, organização dos programas, etc. Esse campeonato é diferente, e já lá iremos. 



Dizem que se ama ou se odeia a Índia. Estarei seguramente mais próximo do amor, embora a adjectivação me pareça exagerada. No fundo, gostei de tudo, até dos aspectos de que gostei menos. Eu explico, sem grande preocupação de cronologia correcta. Gostei de ter ido a Deli, embora não tivesse gostado da cidade. O gosto não está na beleza, mas no caos, na absoluta diferença, numa certa hostilidade sonora. Gostei muito de ter tomado banho numa praia em Goa. Gostaria de repetir? Claro que sim. Mas esse gosto não me impede de achar que a praia não é extraordinária. O que é extraordinário é a experiência, o conhecimento, a diferença. Ainda em Goa fomos a 3 ou 4 igrejas. Uma delas, a última, é a Igreja de Santa Mónica. Gostei de lá ter ido? Claro que gostei, independentemente da igreja não ser interessante. O gosto está na experiência, na novidade, na diferença.  Por último, para não me estender muito: não sou fã incondicional do picante na comida; talvez tenha, mesmo, uma tolerância baixa ao picante (dizem-me que o picante na comida não é coisa para meninos...). No limite, toda a comida indiana saberá ao mesmo - a picante. No entanto, sempre que pude experimentei comida indiana das várias regiões (o biryani, por exemplo, é particularmente bom). Se a comida não é extraordinária, é extraordinária a impressão, a diferença, a experiência, o conhecimento.




A sensação global de uma viagem, a classificação final que lhe damos, não pode ser apenas avaliada pela soma ou média aritmética das classificações parciais: comida x; praia y, hotéis z, igrejas w, etc. A sensação global está na sensação, passe o pleonasmo, não na análise do facto, no ranking das coisas, na colocação em tabela do melhor e do pior. Há, para mim, uma apreciação geral, feita do que não é tangível - o que me impressionou, o que entrou dentro de mim, a emoção que tudo suscitou. Por isso, repito, a experiência do feio (a falta de limpeza), do desinteressante (um ou outro templo / igreja) ou mesmo do agressivo (o ruído do trânsito) pode ser um facto positivo, porque sensorial e distinto do que nos é habitual. Isto para não revelar tudo o resto que é extraordinário, quer seja de beleza (o Amber Fort ou a Igreja de S. Francisco de Assis, por exemplo), de nacionalismo (Pangim) ou de exótico (a praia). Para além dos contactos humanos, da simpatia das pessoas nas lojas ou nas ruas, do almoço indo-português ou de tanto mais. 

Viajar, em resumo, é a procura da experiência, da sensação, do conhecimento, e não forçosamente o contacto com o belo.  E é, sobretudo, a procura do regresso a casa.

***

Viajar em grupo é um desafio - é a gestão das sensibilidades e das preferências, das vontades próprias ou do grupo. É encontrar um menor múltiplo comum no que diz respeito à comida, aos hotéis, aos locais a visitar, às horas de partida e de chegada, à escolha entre um passeio no mercado, num museu, numa igreja ou num templo hindu. Viajar em grupo - e por maioria de razão na Índia, onde a autonomia de circulação é menor do que numa cidade do hemisfério norte - é a (quase) obrigatoriedade da circulação em conjunto, em uníssono, com a mesma passada. E a passada pode ser diferente: enquanto uns apreciam o facto, outros dão valor à sensação. E isso é particularmente palpável na relação com os guias turísticos (de que falarei em abstracto um dia): a grande maioria dos guias conta dados históricos - construção no século tal, rei x, guerra de tantos anos, percentagem de hindus. Eu, por exemplo, tenho pouca memória para factos. Enquanto os oiço distraio-me, tiro fotografias a uma arcada, apanho uma perspectiva, um grupo de chineses fardados de artistas de circo com um selfie stick, invento-lhes uma história, agarro uma emoção. O meu gosto é imenso - talvez apenas diferente.




Por último, mas não menos importante (até pelo parágrafo prévio) o nosso casal anfitrião tudo fez para conseguir um passeio homogéneo, equilibrado, eficiente e ligeiro numa proporção justa: visitámos áreas tão diferentes como a religião católica ou hindu, comemos de regiões díspares da Índia, fomos tratados de forma exemplar na casa que nos recebeu, proporcionando um equilíbrio excelente entre o luxo asiático e impessoal dos hotéis e a hospitalidade de um território português no qual a amizade masculina se orgulhava de uma antiguidade superior a 40 anos. Receber, organizar e acompanhar um grupo é mais desafiante do que viajar em grupo, porque se sente o peso injusto da responsabilidade. Por isso, gosto de reafirmar uma ideia explanada acima: o todo é superior à soma das partes.

À R e ao J fica o agradecimento que, por mais sentido que seja, é sempre curto de palavras. Para eles um 10, porque sou fiel aos meus raciocínios.

JdB





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Pensamento Impensado

Políticos

As carreiras de Donald Trump e Tino de Rans têm semelhanças e também diferenças. Ambos concorreram a Presidente da República, sendo que um ganhou e o outro nem por isso. Ambos são construtores civis, mas enquanto um constrói arranha-céus, o outro constrói calçadas. 

Quanto às diferenças, os vencimentos de Trump devem ser um bocadinho mais elevados. Quanto à maneira de ser e estar, enquanto o Tino é uma pessoa com um visual simpático, pois deve ser uma pessoa educada e bem disposta, Trump só me lembra a parte final do Primo Basílio, do Eça, em que o Conselheiro Acácio, referindo-se a um dos presentes, diz que deve ser pessoa da mais baixa extracção.

SdB (I)

Duas Últimas

Embora tenha regressado há dois dias da Índia, é de África que vos falo. 

Há algumas semanas, por alturas do meu aniversário, pediu-se a alguns amigos que me fizessem uma playlist de músicas. Umas da escolhidas foi "Africa" dos Toto. Quem a sugeriu - imagino eu - teve em mente a minha estadia no Zimbabwe, motivo pelo qual existe este blogue, e não o tempo em que esta música surgiu. Em bom rigor, não sei de que época é a dita música.

Esta semana mandaram-me a mesma música, mas numa versão diferente, cantada por um coro apenas - penso que religioso e amador. Contudo, a virtude do youtube que vos apresento não está na interpretação que uns gostarão mais ou menos face à original. A virtude, digo, está nos primeiros 2 minutos, durante o qual, de olhos fechados, poderemos ouvir a chuva a pingar, a cair mais intensamente, a cair ao som dos trovões, e a reduzir posteriormente. Tudo isto graças às mãos (e alguns pés) dos elementos do coro.

A chuva em África tem um impacto diferente do que tem na Europa. Talvez tenha um efeito regenerador, quase milagroso para culturas e comunidades. E por isso se repete tantas vezes "I bless the rains down in Africa...". 

Em podendo, oiçam os dois primeiros minutos de olhos fechados e com o som relativamente alto. Ouve-se tudo. Talvez se interiorize tudo, porque a chuva pode ser salvífica, e a alegria contagiante e ritmada do coro uma benção em dias mais sombrios.

JdB


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

Era uma vez um banqueiro muito rico e viajado, que convivia com os artistas, intelectuais e elite política do seu tempo. Gostava de receber os amigos na casa grande de Paris, situada perto do Sena e no meio de um jardim maravilhoso, que arquitectara com pontes japonesas, um pequeno bosque à inglesa e canteiros à francesa, além de caramanchões de rosas. Chamou-lhe Jardins du Monde, para simbolizar a possibilidade e a óbvia vantagem de misturar vegetação de habitats distantes. 

Poderia ter-se contentado com a vida confortável e animada que levava. Mas não. Preocupava-o a paz no mundo pois, aos 11 anos, já órfão de mãe, tivera de fugir com o pai e os 3 irmãos mais novos, porque a cidade linda onde vivia fora invadida pelo país vizinho. Apesar das privações desse tempo, aplicara-se nos estudos e depois no emprego, começando a enriquecer. Felizmente, o sucesso não lhe apagou da memória a pobreza em que crescera, antes lhe proporcionou os meios para tentar melhorar a vida das gerações futuras. A grande paixão da sua vida tornou-se, então, a busca da paz. Uma busca concreta, na qual investiu toda a fortuna, até uma crise financeira o levar à falência. 

Este banqueiro não é figura de ficção para exemplificar que também há milionários generosos, inclusive entre os que singram na alta finança. Este homem nasceu na Alsácia, em 1860, de família judia, com o nome de Abraham Kahn, depois mudado para Albert Kahn (A.K.). O país invasor da Alsácia-Lorena foi a Alemanha, em 1871, no rescaldo da Guerra Franco-Prussiana e para vingar as conquistas do belicoso Rei-Sol.

A.K. no escritório de Paris, no ano de início da I Guerra Mundial – 1914. 

Depois de prosperar, já homem feito, A.K. teve o mundo a seus pés. Como costumava dizer: lidou com a gente importante da sua época, que se preocupava com o ambiente de crispação na política internacional, a par da crescente interdependência dos povos, através da maior mobilidade trazida pela rede ferroviária, pelo aumento das trocas comerciais e dos fluxos financeiro, pela disseminação dos jornais, pelo irromper dos fluxos turísticos, por alguma democratização e divulgação da arte, que ajudou a reforçar a interligação entre os países. 

A.K. assistiu à Revolução Industrial. Conheceu de perto os irmãos Lumière. Esteve na estreia dos grandes inventos da altura, incluindo o cinema e os progressos na fotografia, que o entusiasmaram. 

As constantes viagens de negócio a clientes estrangeiros fizeram-no experimentar os benefícios do encontro com o outro, a utilidade de o conhecer cara-a-cara para o entender melhor e ganhar uma base de diálogo mais profunda e fluída. Serviu também para dar corpo à sua aposta em favor da paz, evidenciando-lhe a importância de aproximar as pessoas de todas as geografias. Percebeu que a humanidade inter-racial precisava de descobrir que os seres humanos formam uma família. O caminho a seguir comportava um duplo desafio: por um lado, mostrar quanto as afinidades suplantam as diferenças exteriores, ainda que as aparências mais exóticas sugiram o oposto; por outro, revelar o mérito da diversidade, per se, enquanto factor de enriquecimento universal, valendo a pena preservá-la. No justo equilíbrio entre estes dois princípios, aparentemente inconciliáveis, nasceu o espantoso projecto – Les Archives du Monde, levado a cabo entre 1908/09 e 1931, até a fortuna se esvair no crash da Grande Depressão, nos EUA. 

Os Arquivos do Planeta estão hoje disponíveis no Museu Albert-Kahn (1), situado na sua casa de Paris. O espólio abarca 72.000 fotografias a cores por aplicação da técnica das placas auto-cromáticas dos irmãos Lumière, além de 183Km de filmes coloridos.  

O arranque do projecto terá ocorrido a 13 de novembro de 1908, quando Albert Kahn aproveitou a deslocação em trabalho ao Japão e à China para levar o seu motorista e fotógrafo, Alfred Dutertre, e iniciar a recolha de imagens. Nessa altura, passou também pelos Estados Unidos. Em 1909, a dupla A.K. e Dutertre rumou à América do Sul, onde ficou meses para desbravar o Uruguai, a Argentina e o Brasil, surgindo as primeiras imagens a cores do Rio de Janeiro. 

England: In addition to his estate in France, Albert Kahn kept a house on England’s Cornwall coast. Photographer Auguste Léon posed Kahn’s guests on the cliff overlooking Carbis Bay on August 28, 1913

Sweden: In 1910, Albert Kahn and the photographer Auguste Léon, below, took a summer road trip through rural Scandinavia, documenting everyday Nordic culture.

Empolgado com o bom resultado inicial, nomeia Jean Brunhes como líder do mega-projecto e envia fotógrafos profissionais para os vários continentes com a incumbência de cobrirem toda a terra em imagens. Os focos privilegiaram os pequenos grupos, os povoados com as suas tipicidades, os episódios rotineiros do cidadão-comum, as paisagens de outras latitudes e ainda momentos emblemáticos da vida política, como o armistício da Grande Guerra, assinado no palácio de Versailles. Com a sofreguidão de quem adivinha ter pouco tempo para levar a cabo uma iniciativa originalíssima, a equipa de A.K. conseguiu a proeza de captar um mundo hoje praticamente desaparecido, com uma qualidade e uma perspectiva espectaculares. É sempre um privilégio rever aquele tesouro histórico, num mosaico que serve de aperitivo ao conjunto:




Também Portugal foi visado pelo Arquivo, através da ilha da Madeira, fotografada em 1909:

Ilha da Madeira – 1909

Além do mecenato, Kahn também concedeu bolsas de estudo, pois acreditava na boa preparação académica para completar o desenvolvimento humano e providenciar o sustento futuro.  

Várias cadeias de televisão, da BBC à RTP, têm dedicado documentários a A.K. e ao Arquivo com títulos eloquentes: «The Dawn of the Color Photograph: Albert kahn’s Catalogue of Humanity», «O Mundo Maravihoso de Albert Kahn», «Men of the World: Albert Kahn's Archive of the Planet», «A trip through time». Porém, a expressão que melhor encerra o valor incalculável daquele legado é: «A LOST WORLD SAVED», desvendável aqui (https://www.opendatasoft.com/2016/07/22/archives-of-the-planet-albert-kahn-open-data/)!

Ironia das ironias, o banqueiro magnata e filantropo conheceu os maiores reveses, sendo que o mais doloroso não fora a derrocada financeira, mas a hora da Partida, aos 80 anos: dia 14 de Novembro de 1940. Naquele Outono tenebroso, o mundo mergulhara na carnificina que A.K. tentara evitar. O seu projecto benemérito fora contraposto pela mesma potência que lhe ensombrara a infância. Paris estava ocupada pelas “invencíveis” tropas nazis, que apertavam o cerco aos judeus da Gália. Pior era difícil. A luta pela paz e a familiarização entre as gentes do planeta (décadas antes do programa Erasmo e afins) parecia ter dado em nada. Mais um profeta falhara a chegada à Terra Prometida… Mas só o tempo pôde mostrar quanto cada minuto da sua vida tinha valido a pena! Essa coordenada que acaba por favorecer os homens bons veio a revelar o alcance superior do presente que oferecera aos contemporâneos e às gerações vindouras, marcado pelo cunho da solidariedade. A própria forma de vida colheu frutos positivos: dos reveses soubera desencantar soluções brilhantes; para o trauma de infância descobrira uma “vacina” certeira. Afinal, a hibernação forçada da sua missão, no momento da morte, renascera oportunamente com o fulgor de uma Bela Adormecida. Lembrá-lo e divulga-lo é mais do que justo. Cabe-lhe a última palavra: 


« J’ai beaucoup voyagé, j’ai beaucoup lu et j’ai connu tous les grands hommes de mon époque {…} ; ce que j’ai cherché, c’était le chemin de la vie et les principes de fonctionnement ; or, plus j’ai avancé dans la vie et plus j’ai vu la hardiesse et l’extrême difficulté de cette tâche. {…} Essayer de tâcher d’y arriver, reste le plus noble devoir de l’homme.» 


 Albert Kahn In France Japon n°32 du 15 Août 1938


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
________________
    

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Caminho marítimo para a Índia (IX)

Taj Mahal, Sábado. Entre o painel de instrumentos e o monte de sapatos, é tudo verdade, tudo faz parte de uma realidade que circunda a beleza. Nada é lixo, tudo é aproveitado no fim da peregrinação, no regresso ao ponto de partida...

JdB












domingo, 5 de fevereiro de 2017

5º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 5, 13-16

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Vós sois o sal da terra.
Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se?
Não serve para nada,
senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
mas sobre o candelabro,
onde brilha para todos os que estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Pensamentos Impensados

Belezas
Desconfiava que o marido a traía porque o marido atraía.

Perdas e danos
No boxe ganha-se aos pontos, Saramago ganhou às vírgulas.

Realidades
Oh mãe, os reis Magos eram pimos dos reis Godos?

Linguajares
Cão de fila parece-me um brasileirismo, em português deve ser cão de bicha.

Peixeirada
Quem o feio ama tamboril lhe apetece.

Pronúncia do Norte
Gudevaie.

Política portuguesa
Nem tudo são rosas; às vezes são cravos.

Alta culinária
Um banho de sangue será arroz de cabidela?

SdB (I)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Caminho marítimo para a Índia (VIII)



Visitar Jaipur (no Rajastão) é visitar outra Índia. Como visitar Pangim é visitar outra Índia. Curiosamente, visitar "índias" que desapareceram, que não voltarão mais, fruto da modernidade, dos erros históricos, das tentativas de democratização. Jaipur e Goa vivem do que foram: a Índia dos marajás e a Índia dos portugueses. 

A Índia de hoje é melhor do que a Índia anterior a 67 ou a 61? Acredito que relativamente a Jaipur sim, mas tenho dúvidas se melhor relativamente à presença portuguesa. Em Jaipur, com o desaparecimento de uma hierarquia social composta por reis, rajás, marajás (de baixo para cima) desaparece também uma Índia feita de privilégios, de enormes assimetrias sociais ou de riqueza (seria mais ou menos isto: um marajá chefia dez rajás que chefia dez reis que chefia..., que chefia...) onde o topo da pirâmide, um clube para 100 ou 200 no Rajastão, gozava de um enorme poder económico. 

(É preciso lembrar que, segundo me dizem, a expressão "luxo asiático" se aplica à Índia).



Encontrei este sikh na visita ontem ao Amber Fort. Explicam-me que um sikh tem sempre cinco elementos consigo: um turbante, uma barba comprida, uma espada e um pente no cinto e uma pulseira. O esquema de castas na Índia é complexo, e ao que parece os sikhs são uma espécie à parte. Talvez este cavalheiro olhe (sou eu a fantasiar...) para um passado de que fez parte e que por agora existe nos filmes, nos saudosistas, nos programas de viagens ou numa raça de gente que ainda assoma à varanda de um forte para imaginar o que teria sido a vida se a História fosse outra.

JdB 

    

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Caminho marítimo para a Índia (VII)

Coisinhas da religião... Hoje partimos para Jaipur.







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