segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Pensamentos dos dias que correm

O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo. Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.

Marguerite Yourcenar, in "Sistina"

domingo, 30 de agosto de 2009

Poema para um Domingo

Colhe o Dia, porque És Ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in "Odes"

Músicas para um Domingo



XXII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 7,1-8.14-15.21-23
Naquele tempo,
reuniu-se à volta de Jesus
um grupo de fariseus e alguns escribas
que tinham vindo de Jerusalém.
Viram que alguns dos discípulos de Jesus
comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.
– Na verdade, os fariseus e os judeus em geral
não comem sem terem lavado cuidadosamente as mãos,
conforme a tradição dos antigos.
Ao voltarem da praça pública,
não comem sem antes se terem lavado.
E seguem muitos outros costumes
a que se prenderam por tradição,
como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –.
Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus:
«Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos,
e comem sem lavar as mãos?»
Jesus respondeu-lhes:
«Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas,
como está escrito:
‘Este povo honra-Me com os lábios,
mas o seu coração está longe de Mim.
É vão o culto que Me prestam,
e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’.
Vós deixais de lado o mandamento de Deus,
para vos prenderdes à tradição dos homens».
Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão
e começou a dizer-lhe:
«Ouvi-Me e procurai compreender.
Não há nada fora do homem
que ao entrar nele o possa tornar impuro.
O que sai do homem é que o torna impuro;
porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos:
imoralidades, roubos, assassínios,
adultérios, cobiças, injustiças,
fraudes, devassidão, inveja,
difamação, orgulho, insensatez.
Todos estes vícios saem lá de dentro
e tornam o homem impuro».

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Músicas dos dias que correm

Porque há jantares particularmente divertidos, interessantes e de aprendizagem permanente. Les beaux esprits se rencontrent.

jeanne moreau

no tempo em que o mundo estava ainda por inventar,
quase que me apaixonei por ti, jeanne,
como é timbre dos adolescentes em qualquer lugar.

no tempo em que barcos sedentos se lançavam ao mar,
eras a mulher-fatal, negra e perfeita,
inventada por marinheiro qu'em terra só queria navegar.

no tempo dessas manhãs-sem-igual-belas-de-pasmar,
esperava-te à porta de todos os sonhos.
e tu chegavas e tu eras minha..

(diz-me, jeanne, devagarinho:
chegaste mesmo a chegar?)

gi

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Músicas



(Há sugestões que são fortes...)

In memoriam de Londres, 2006

De mais ninguém senão de ti preciso
do teu sereno olhar, do teu sorriso,
da tua mão pousada no meu ombro.
E ouvir-te murmurar: espera e confia.
E sentir converter-se em harmonia
o que era, antes, confusão e assombro."

Carlos Queirós

(Nota: Por sugestão de PCP, bloguista frequente neste Adeus..., que escolheu o título do post e o poema)

Músicas dos dias que correm

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Poemas dos dias que correm

Tenho uma Grande Constipação

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Músicas dos dias que correm

terça-feira, 25 de agosto de 2009



Quem acampa cinco dias de livre vontade num festival de música assume, perante o mundo, que gosta de porcaria.

TdB

Músicas dos dias que correm

Poemas dos dias que correm

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm

As recordações em amor não constituem uma excepção às leis gerais da memória, também ela regida pelas leis do hábito. Como esta enfraquece tudo, o que mais nos faz lembrar uma pessoa é justamente aquilo que havíamos esquecido por ser insignificante e a que assim devolvemos toda a sua força. A melhor parte da nossa memória está deste modo fora de nós. Está num ar de chuva, num cheiro a quarto fechado ou no de um primeiro fogaréu, seja onde for que de nós mesmos encontemos aquilo que a nossa inteligência pusera de parte, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando se esgotam todas as outras, sabe ainda fazer-nos chorar.


Marcel Proust, in 'A Fugitiva'

domingo, 23 de agosto de 2009

As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os cânticos da terra.

No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira bússola nos seja,
Senhor, tua palavra.

A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que há de abrir à estância eterna
O fulgido caminho.

Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
Vê quanto vale a terra;

Quando das glórias frias
Que o tempo dá e o mesmo tempo some,
Despida já, — os olhos moribundos
Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos lábios,
No coração, na mente põe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
No seio do infinito.

Machado de Assis, in 'Crisálidas'

Músicas dos dias que correm

XXI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,60-69
Naquele tempo,
muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram:
«Estas palavras são duras.
Quem pode escutá-las?»
Jesus, conhecendo interiormente
que os discípulos murmuravam por causa disso,
perguntou-lhes:
«Isto escandaliza-vos?
E se virdes o Filho do homem
subir para onde estava anteriormente?
O espírito é que dá vida,
a carne não serve de nada.
As palavras que Eu vos disse são espírito e vida.
Mas, entre vós, há alguns que não acreditam».
Na verdade, Jesus bem sabia, desde o início,
quais eram os que não acreditavam
e quem era aquele que O havia de entregar.
E acrescentou:
«Por isso é que vos disse:
Ninguém pode vir a Mim,
se não lhe for concedido por meu Pai».
A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se
e já não andavam com Ele.
Jesus disse aos Doze:
«Também vós quereis ir embora?»
Respondeu-Lhe Simão Pedro:
«Para quem iremos, Senhor?
Tu tens palavras de vida eterna.
Nós acreditamos
e sabemos que Tu és o Santo de Deus».

sábado, 22 de agosto de 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm

Eis aí uma maneira de perpetuar as ideias de um homem que eu afoitamente aprovo - publicar-lhe a correspondência! Há desde logo esta imensa vantagem: - que o valor das ideias (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquele que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de críticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além disso uma Correspondência revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e isto é inestimável para aqueles que na Terra valeram mais pelo carácter do que pelo talento. Acresce ainda que, se uma obra nem sempre aumenta o pecúlio do saber humano, uma Correspondência, reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporâneo e o ambiente, enriquece sempre o tesouro da documentação histórica. Temos depois que as cartas de um homem, sendo o produto quente e vibrante da sua vida, contém mais ensino que a sua filosofia - que é apenas a criação impessoal do seu espírito. Uma filosofia oferece meramente uma conjectura mais, que se vai juntar ao imenso montão das conjecturas: uma vida que se confessa constitui o estudo duma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem, único objecto acessível ao esforço intelectual. E finalmente como cartas são palestras escritas (assim afirma não sei que clássico), elas dispensam o revestimento sacramental de tal prosa como não há...

Eça de Queirós, in 'A Correspondência de Fradique Mendes'

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

da geografia interior

conduzes pelas estradas do alentejo,
a cidade mágica para trás,
a teu lado o companheiro de sempre,
ângulo generoso e terceiro
dessa figura geométrica que a amizade
pode, em dias largos, ser.

o teu amigo fez quarenta anos,
o que, feitas as contas por alto,
dá a esse nobre triângulo a três
uns trinta anitos - sobressalto.

o tempo passa, sempre o soubeste,
mas era mais, como dizer, em abstracto.
ver os quarenta anos de um amigo
faz de matéria vaga matéria de facto.

que fazes dos teus dias, rapaz?
que segredos deixarás aos vindouros?
o zénite está já a teus pés, foge-te,
as horas escasseiam, faltam, doem-te.
estes teriam sido os anos de ouro,
fosses tu outro. ou mais tu

- mas mais capaz.

gi

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O Barqueiro e o Erudito

Conta-se que uma vez um homem erudito aproximou-se da margem de um rio, para que o barqueiro lhe permitisse atravessa-lo. O erudito parecia que carregava toda a sua importância junto com o seu conhecimento, como se temesse perde-lo. E assim, com soberba de letrado, disse ao humilde e serviçal barqueiro:
- Podes passar-me para a outra margem?
- Sim, claro, são duas rupias.
E o letrado temendo sujar-se ao tocar o barqueiro, entregou-lhe essas moedas.
Quando já estavam a atravessar o rio, e enquanto o barqueiro fazia o seu trabalho, o erudito perguntou:
- Barqueiro, estudaste Sânscrito? A língua em que, sabes, foram escritos os Vedas, os Upanishads, as epopeias do Mahabharata e o Ramayana, todos os Puranas e Upapuranas, a língua de Valmiki e Vyasa, a língua em que foi escrito o glorioso Bhagavad Gita, resumo de todo o conhecimento?
- Não senhor, nada sei de dita língua
- Oh, que desperdício de vida, então nada te posso dizer da beleza de suas estruturas sintácticas, dessas formas sublimes analisadas pelo ilustre Patanjali.
- E sabes, por acaso, Latim? A língua de Virgílio e de Cícero, tão belamente sonora e rítmica, como dizia em seus discursos o grande pretor romano, Quo usque abutere patientia nostra, que significa “Até quando abusarás da nossa paciência”? Oh, Oh, perdeste sem nenhuma dúvida metade da tua vida inutilmente.
- Não senhor, disso também não sei nada.
- Oh que tristeza de vida, então também não terás lido os versos amorosos de Ovídeo e Catulo, ou as tragédias de Séneca. Oh, Oh, Oh, perdeste sem duvida metade da tua vida.
E conheces os mistérios da Geometria?, que permite medir as distancias e as superfícies, classificar os ângulos, reconhecer os tipos de triângulos e fundamentar o cálculo diferencial para, claro poder estudar a Dinâmica dos Fluidos, tão necessário num trabalho como o teu?
- Oh, senhor, nada sei de Geometria
- Bem, bem, bem, oh, vida miserável e arruinada, perdeste metade da tua vida.
E Aritmética?, para distinguir os números racionais, os transcendentes, os imaginários?; sabes que Pi, o número que resulta da divisão da circunferência pelo diâmetro é um numero transcendente, tal como o número que permite calcular a forma de uma Ciclóide, que é como a forma que assume esta corda estendida na tua barca?
- Não, não, nada sei de Aritmética
Nisto as águas do rio começaram a agitar-se, movidas por uma tempestade, que de repente e com surpreendente violência começou a agitar a barca. Porem o erudito estava tão possuído de seus conhecimentos e com tanta soberba para com o humilde barqueiro que não se apercebia. Repetia, perdeste metade da tua vida inutilmente. E continuava instigando o nosso barqueiro com perguntas com as quais demonstrava orgulhosamente o seu saber.
- Ah claro, e seguramente também não sabes nada de Metafísica, dos mistérios da ontologia e as categorias do Ser….
- Ah, desculpe, desculpe, senhor, e você sabe nadar?
- Eu, Eu, e porque me pergunta isso, eu não sei.
- Pois nesse caso, vai perder a sua vida inteira, porque esta barca afunda-se, afunda-se, afunda-se.
Mais importante que acumular conhecimentos é encontrar o sentido da vida, como um fio mágico que conduz a nossa existência. O grande sábio Pitágoras dizia que melhor que um tonel de conhecimento é uma gota de verdadeira sabedoria, e a sabedoria que já é a alma da vida, é quem nos pode orientar no meio das tempestades do mundo. A nossa vida é uma barca frágil, o barqueiro é a consciência.
O que é mais importante que chegar, a tempo e bem, ao porto sonhado, e não fundir-se nas enganosas águas do que não somos, não cedendo aos cantos de sereia do mundo? O mais importante de aprender é a Arte De Viver.

Músicas dos dias que correm

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Pensamentos dos dias que correm

Das ocorrências indesejadas, falando de maneira genérica, algumas acarretam naturalmente dor e vexação, mas, na maior parte dos casos, é falsa a noção que nos habituou a nos enfadarmos com elas. Como específico contra este tipo de ocorrência, é conveniente ter à mão um dito de Menandro: «Nada te aconteceu de facto enquanto não te importares muito com o ocorrido». Isso quer dizer que não há motivo para o teu corpo e a tua alma se mostrarem afectados se, por exemplo, o teu pai é de baixa extracção, a tua mulher cometeu adultério, tu mesmo te viste privado de alguma coroa honorífica ou privilégio especial, pois nada disso te impede de prosperar de corpo ou alma.

Para a primeira categoria - doenças, privações, a morte de amigos ou filhos -, que parece acarretar naturalmente dor e vexação, esta linha de Eurípedes deve estar à mão: "Ai! por que ai? É o quinhão da mortalidade que nos coube". Nenhum outro argumento lógico pode romper de forma tão efectiva a espiral descendente das nossas emoções, do que a reflexão de que somente através da compulsão comum da Natureza, um dos elementos da sua constituição física, é que o homem se torna vulnerável à Fortuna; nos seus aspectos principais e essenciais, permanece seguro.

Plutarco, in 'Do Contentamento'

Músicas dos dias que correm

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm

Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro. O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?

Jean-Paul Sartre, in 'Situações I'

domingo, 16 de agosto de 2009

XX Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Evangelho segundo S. João 6,51-58.

«Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu:
se alguém comer deste pão, viverá eternamente;
e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo.»
Então, os judeus, exaltados, puseram-se a discutir entre si, dizendo:
«Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?!»
Disse-lhes Jesus:
«Em verdade, em verdade vos digo:
se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem
e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós.
Quem realmente come a minha carne
e bebe o meu sangue tem a vida eterna
e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia,
porque a minha carne é uma verdadeira comida
e o meu sangue, uma verdadeira bebida.
Quem realmente come a minha carne
e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele.
Assim como o Pai que me enviou vive
e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os antepassados comeram,
pois eles morreram;
quem come mesmo deste pão viverá eternamente.»

Desejar ser

"A mais poderosa inclinação e o mais poderoso apetite do homem é desejar ser. Bem nos conhecia este natural o demónio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ruína a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (Gén. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser sábios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. Só uma coisa devem os homens desejar ser, que é ser santos. Assim emendou Deus o sereis do demónio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum . O demónio disse: Sereis como Deus, sendo sábios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do demónio não só nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos também o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele é, não só nos restitui o ser como Deus, senão também o ser. Quando Moisés perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (Êx. 3,14): Eu sou o que sou — porque só Deus tem por essência o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Moisés: Se sois tão amigos e tão ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que não é ser santo, é não ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se não sois santo, não sois nada. Pelo contrário, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que só é e só tem ser, que é Deus. Todo o outro ser, por maior que pareça, não é, porque vem a parar em não ser. Só o ser santo é o verdadeiro ser, porque é o que só é, e o que há-de permanecer por toda a eternidade."


Padre António Vieira

sábado, 15 de agosto de 2009

Músicas dos dias que correm

Lembranças do dia de hoje


Há exactamente um ano estava eu no Zimbawe, e escrevi um post de que copio parte abaixo. Onde está 14 anos leia-se 15. O resto permanece actual.

Hoje é 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, e eu não esqueço a minha condição de católico e mariano.

Neste mesmo dia, mas há 14 anos, baptizava-se no Estoril uma criança aparentemente igual a tantas outras. Há evidências fotográficas de ter rido 24 horas depois de ter nascido, talvez por ter ouvido o princípio de uns versos que lhe foram dedicados:

Na Sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu

Esteve pouco tempo connosco, vítima das leis de um mundo nem sempre perfeito. Mas quem de nós não acredita que há vidas cujo tamanho e impacto nos outros se queda para lá da finitude das horas, minutos, instantes, existências que se não reduzem a cronologias humanas?

Àqueles que a viram nascer, dela se afeiçoaram e a lembram com saudade resta a dimensão da memória e o desafio de viver o melhor possível.

JdB

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

domingo à tarde

ao domingo à tarde,
saímos de casa.
gola semi-arrebitada,
que pintarola,
apanhor sol de outono
na magistral e douta tola.

que linguagem, menino,
onde ficaram seus modos?
deixei-os em coimbra,
entre outros destroços.

ao domingo à tarde,
como no livro do fernando,
- o fernando namora -,
saímos de casa,vamos à bola,
qu'arejar é preciso
diz aqui o artola.

menino, menino,
heresias em dia santo?
a vida corre-lhe mal,
mas é razão para tanto?

ao domingo à tarde,
que se lixe o escritor,
passeamos pela cidade,
à falta de melhor,
(ia escrever: de calor).

menino, menino,
mas não fazia sol soalheiro?
o menino procura coisas
como agulha no palheiro.
não lhe basta o solzinho,
queria por acaso milagre maior?
diga lá: que acabasse a fome?,
diga cá: encontrar o amor?

menino, menino,
onde ficou a educação, respeito, etc e tal?
dizer assim mal do país,
dizer mal de portugal?

ao domingo à tarde,
ensandecidos da semana,
que cansaço, que torpor,
esquecemos qu'em nós manda:
a nossa algibeira
(mai-la do senhor doutor).

menino, menino,
que poeta tão limitado,
erra na métrica e no verso,
faz impressão,
ainda morre de fome,
tenha cuidado.

Deus-lhe pague o aviso,
e do chão erga o mendigo
que qual Cristo ajoelhado
pedia a quem passava:
- tenho fome, piedade.
essa agora, mendigo do diabo,
estragas assim o domingo,
pensas qu'isto é o quê?!
(apenas mais um domingo na cidade,
bem se vê..)

menino, menino,
que mal disposto anda,
homem feito por fora,
mas vê-se à légua a criança.
herança de livros e discos,
de mãe e pai e tudo,
feche-se em casa ao domingo,
saia só no entrudo.
que isto de aturar humores
de poetas mal arrimados
é dos piores terrores
alguma vez inventados.
claro que falo de mim,
acredite se quiser,
olho-o, faz-me pena,
lembra-me a minha mulher.
coisa assim nunca vi,
essa incapacidade de ser forte,
tome juízo, menino,
apanhe de vez o norte.

ao domingo à tarde,
petece morrer.
ou então espantar a dor,
no corpo de uma mulher.
se é isto o domingo,
dia santo de guarda,
ou perdemos toda a fé
ou a gente anda parva.
shopping mall e internet
passeios e futebol
eis a nossa condição:
trocar a vida por nada
e agradecer com devoção.

menino, menino,
insiste na diabrura?
olhe que gente que pensa e sofre e sente
lugar já aqui não tem,
moram todos no cemitério

ou no coração de sua mãe.

gi

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pensamentos e músicas para o dia de hoje

Não consigo fugir ao lugar-comum: controlamos pouco a vida que vivemos, somos donos de algo mais do que nada. Os planos de uma mulher desfazem-se quando, no espaço de um instante, lhe é comunicada a sua infertilidade; a alegria quase incontida de uns pais é cortada se, numa observação de minutos, realizam a deficiência do seu filho ou são confrontados com uma doença grave que o atingiu; a carreira de um jovem termina numa curva da estrada e numa cadeira de rodas. No reverso da medalha, dois olhares estranhos que se cruzam na impessoalidade de uma festa podem dar origem a um encontro de almas; a leitura, inexplicável aos olhos da estatística, de uma carta surpreendente dá lugar a um novo encantamento; uma fotografia, um excerto de filme, uma música, pedaços de coisas que se ouvem ou vêem abrem um sorriso numa tristeza que se instalou sem regresso aparente. Em tudo - na luz e na sua ausência - há espaço para uma segunda oportunidade e para a pergunta: o que faço eu com isto que me aconteceu?

O post de hoje é dedicado a quatro pessoas (A, T, A e M) que sentiram bem esta ausência de domínio sobre os acontecimentos. Entre o contentamento e o desgosto, entre a gargalhada e o choro, entre a mão que acena numa alegria de regresso e a que vai à garganta para conter um soluço, há um instante, um fio de cabelo. Para elas vai a minha lembrança, a minha oração, e a confiança na capacidade que todos temos de reiventar o caminho e de olhar a vida de frente, na certeza de que o futuro é uma carta fechada que nos pede para ser aberta.

JdB



A morte nada é.
Eu estou apenas noutro lado,
Eu sou eu, tu és tu.
Aquilo que éramos um para o outro
Continuamos a ser.
Chamem-me como sempre me chamaram.
Falem-me como sempre me falaram.
Não mudem o tom da vossa voz.
Nem façam um ar solene ou triste.
Continuem a rir daquilo que juntos nos fazia rir.
Brinquem, sorriam, pensem em mim,
Rezem por mim.
Que o meu nome seja pronunciado em casa
Como sempre foi;
Sem qualquer ênfase,
Sem qualquer sombra.
A vida significa o que sempre significou.
Ela é aquilo que sempre foi.
O “fio” não foi cortado.
Porque é que eu,
Estando longe do vosso olhar,
Estaria longe do vosso pensamento?
Espero-vos, não estou muito longe,
Somente do outro lado do caminho.
Como vêem,
Tudo está bem.

Henry Scott Holland

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pensamentos dos dias que correm


Em todos os males que nos acontecem, olhamos mais para a intenção do que para o efeito. Uma telha que cai de um telhado pode ferir-nos mais, mas não nos desola tanto como uma pedra atirada de propósito por uma mão maldosa. O golpe, por vezes, falha mas a intenção nunca erra o alvo. A dor física é a que menos se sente nos ataques da sorte e, quando os infortunados não sabem a quem culpar pelas suas infelicidades, culpam o destino, que personificam e ao qual atribuem olhos e uma inteligência disposta a atormentá-los intencionalmente.

É o caso de um jogador que, irritado com as suas perdas, se enfurece sem saber contra quem. Imagina que a sorte se encarniça intencionalmente para o atormentar e, encontrando alimento para a sua cólera, excita-se e enfurece-se contra um inimigo que ele próprio criou. O homem sábio, que em todas as infelicidades que lhe acontecem só vê golpes da fatalidade cega, não tem essas agitações insensatas; grita na sua dor, mas sem exaltação, sem cólera; do mal que o atinge só sente os ataques materiais, e os golpes que recebe podem ferir a sua pessoa, mas nenhum atinge o seu coração.

Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

Músicas dos dias que correm

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm


Dirigirmo-nos a alguém com a missão de que se transforme noutro, é irmos com a embaixada de que ele deixe de ser ele. Cada qual defende a sua personalidade, e só aceita uma mudança na sua maneira de pensar ou de sentir, na medida em que esta alteração possa entrar na unidade do seu espírito e enredar-se na sua continuidade; na medida em que essa mudança se puder harmonizar e se conseguir integrar com tudo o resto da sua maneira de ser, pensar e sentir, e possa, por outro lado, enlaçar-se nas suas recordações. Nem a um homem, nem a um povo - que, em certo sentido, também é um homem - se pode exigir uma mudança, que desfaça a unidade e a continuidade da sua pessoa. Pode-se mudá-lo muito, quase até por completo; mas sempre, dentro da continuidade.


Miguel de Unamuno, in 'Do Sentimento Trágico da Vida'

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm


Às vezes também é preciso chegar até a embriaguez, não para que ela nos trague, mas para que nos acalme: pois ela dissipa as preocupações, revolve até o mais fundo da alma e a cura da tristeza assim como de certas enfermidades. E Líber foi chamado o inventor do vinho não porque solta a língua, mas sim porque liberta a alma da escravidão das inquietações; restabelece-a, fortalece-a e fá-la mais audaz para todos os esforços. Mas, como na liberdade, também no vinho é salutar a moderação. Crê-se que Sólon e Arcésilas eram dados ao vinho; a Catão, reprovou-se-lhe a embriaguez: mais facilmente se fará honesto esse crime do que Catão desonroso.

Séneca, in 'A Traquilidade da Alma'

Músicas dos dias que correm

domingo, 9 de agosto de 2009

XIX Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Há muitos anos, seguramente quase 25, pessoa que me era próxima por via familiar e de amizade afirmou, com um ar, talvez, de algum orgulho, que nunca tinha discutido com o noivo. Lembro-me de ter achado a frase perigosa, porque entendia, já nessa altura de jovem inexperiente das coisas conjugais, que havia uma enorme importância na forma como recuperamos de uma altercação: como gerimos o ganhar e o perder, a raiva, as desculpas que se pedem e aceitam, o orgulho que se feriu, a humildade, o remorso, a aprendizagem, a vingança ou o esquecimento, os gestos de paz e de concórdia. Ontem, passado um quarto de século sobre a frase, falava com um amigo sobre esse mesmo assunto. Para chegarmos à conclusão de que numa relação qualquer, o tema da discussão e da forma como a enfrentamos é quase determinante na continuação harmónica de uma vida a dois. 25 anos depois do pensamento verbalizado com uma ingenuidade natural, tenho esta certeza, pouco científica, metafórica - e com alguma tristeza -, de que podemos não morrer na bebedeira, mas agonizar na ressaca.

EVANGELHO – Jo 6,41-51
Naquele tempo,
os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito:
«Eu sou o pão que desceu do Céu».
E diziam: «Não é ele Jesus, o filho de José?
Não conhecemos o seu pai e a sua mãe?
Como é que Ele diz agora: ‘Eu desci do Céu’?»
Jesus respondeu-lhes:
«Não murmureis entre vós.
Ninguém pode vir a Mim,
se o Pai, que Me enviou, não o trouxer;
e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.
Está escrito no livro dos Profetas:
‘Serão todos instruídos por Deus’.
Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino
vem a Mim.
Não porque alguém tenha visto o Pai;
só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai.
Em verdade, em verdade vos digo:
Quem acredita tem a vida eterna.
Eu sou o pão da vida.
No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram.
Mas este pão é o que desce do Céu
para que não morra quem dele comer.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne,
que Eu darei pela vida do mundo».

sábado, 8 de agosto de 2009

Cresceram lá na avenida, na Avenida da Liberdade, e por ali aprenderam o melhor da mocidade

Joaquim era pequenito, mas um prodígio na fala. Da janela do seu quarto, num alto rés-do-chão, o menino saciava-se. Abordava toda a gente e fazia mil perguntas. “Boa tarde!” “Onde vai?” “Fazer?” “Mas olhe...” “E onde mora?” “Tem Mãe?” Queriam as almas seguir marcha e o Quinzinho não dava tréguas. Um dia caiu doente. Uma infecção pulmonar. E de dia para dia, a janela sempre vazia e a rua tão intrigada... A campainha tocou, a rua não aguentou. O que é feito do menino?! Transeuntes de horas certas trouxeram-lhe um lindo carrinho. E ao Quinzinho, ao Quinzinho, foi a rua que o curou.

Belo rancho na Avenida era o do Senhor Pompeu. Trigueirinhas as meninas, louro e claro o rapazinho. Tinha um gosto no petiz, que no dia em que ele nasceu, pagou ginjas, o Pompeu! E agora, fecho a loja. Vai fechar a drogaria?! Nãão, homem! Quero é ver se não vêm mais filhos. Vocemessê tá ciente do que é casar três moçoilas? São duas cousas terríveis, em simultâneo: o trabalho e a despesa. Fora a fúria da criada, de cuidar da pequenada. Diz sentir-se enfastiada. Coitadinha. Não faz nada! Não dê ouvidos Pompeu. Isso é conversa fiada, alfinetada. Tem razão. Dá outra ginja, ó Leitão.

Tão serena a Amélinha, que criança encantadora. No Passeio com a madrinha, quem se lembra de as ver, nunca houvera de dizer. Que o anjinho ao crescer viria logo escolher fraco caminho na vida. Tanto se empenhou o pai, viúvo novo demais, em proteger a menina, para ela depois teimar, que queria ser dançarina. Há quem diga que foi birra, outros, força do talento, e, tivesse a pequena mãe, dissipava-se o tormento. Mesmo contra as vontades, no Teatro triunfou, plena de engenho e arte, o seu nome ecoou. Amélia passou a estrela, era amiga de escritores. Um dia o pai foi vê-la e elogiou-lhe os valores.

DaLheGas

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

o rapaz raro

um rapaz raro,
diria dele outro rapaz dourado - rimbaud.
um rapaz que guardava um tesouro,
diria, aqui ao lado,
o muito nosso josé miguel silva.

um dia foi só um rapaz
como os outros:
sorridente,
travesso,
luminoso.

como são todos os rapazes.

quando hoje, em busca de magia,
nos ajoelhamos perante as canções,
é a catedral que veneramos.
mas, antes e depois e além da catedral,
houve um rapaz.

como todos os rapazes.

nos
que existiram,
nos
que existem,
nos
que existirão:
em todos eles há,
preciso e precioso,
um derradeiro gosto a verão.

depois foi nick drake,
mas esse já conhecemos
(wikipedia e bibliografia).
o que nunca saberemos
é onde o olhar do rapaz
se perdeu para sempre,
em que margem ficou,
essa coisa que no ainda rapaz vemos
essa coisa a que chamam alegria.

gi

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Memórias dos dias que correm

Hoje, mas há um ano, mais dia menos dia, chegava ao Zimbabwe para aí permanecer dois meses. Preparava-me para uma travessia longa - não só o percurso aeronáutico, como também a duração da estadia, além do estado de espírito com que me atirava à jornada. Dizer que adorei lá estar não traduz, nem pouco mais ou menos, as lembranças que me ficaram desse tempo - o fascínio de uma África que eu só imaginava, o conhecimento de gente com quem faria facilmente amizade, uma vida ao mesmo tempo intensa e sossegada que me foi fundamental. Durante estas próximas semanas relembrarei, aqui e ali, episódios mais interessantes desse Verão. Hoje, deixo-vos com o excerto de uma crónica que escrevi sobre sobre a minha primeira experiência de Karaoke. Fica também a toada que atirava toda a gente para a pista de dança.
Adeus, até ao meu regresso...

(…)
Ontem, pela hora de jantar, éramos cinco à volta de uma mesa redonda no Pointe, um estabelecimento de diversão nocturna propriedade do Sr. Quintas, que assegura ter sido, em tempos mais idos, o cantor romântico de maior sucesso na África Austral.

Posso assegurar que foi o local mais interracial que conheci em toda a minha vida: encontrei angolanos, locais brancos e pretos, portugueses, um médico da ex-Jugoslávia, um advogado grego, alemães, brasileiros, iranianos, gente da polícia, indianos, diplomatas, pessoas com ar de leste, homossexuais, um chinês e tantos outros cuja proveniência me é desconhecida.

O estabelecimento serve jantares (classificado, no Michelin que me habita os sentidos, como satisfaz / satisfaz pouco). É um restaurante arquitectonicamente algo degradado, esteticamente indefinível, com pormenores curiosos: no cimo da parede, junto à sanca, um friso de lâmpadas verdes e encarnadas brilha em contínuo, revelando um nacionalismo iluminado; nas paredes, quadros diversos, variando entre o impressionismo, marinhas inglesas, tapeçarias ou óleos locais pendurados sem rigor de esquadria nem de cota; a um canto, um sistema traiçoeiro electrocuta insectos esvoaçantes num ruído de fritura; ventoinhas diversas e em profusão, lutando contra a estagnação dos aromas; no topo do salão principal do estabelecimento, dois semáforos grandes, projectando sem qualquer regularidade uma luz avermelhada forte. Indaguei, curioso, se estaria relacionado com algum código entre patrão e empregados, um morse luminoso que agilizasse o serviço, apressando a rotação das mesas. A resposta de um dos meus colegas de repasto veio imediata:

- não! Indica apenas casa de banho cheia…

Perguntar-me-ão, então, o que lá fui fazer, o que leva ao Pointe todo o mundo de Harare, sem qualquer distinção do que quer que seja. Eu explico numa palavra simples – mas demolidora: o karaoke! Na realidade, é esta espécie de semi-playback com legendas que impele dezenas de pessoas, todas as 6ªs feiras para, à volta de uma feijoada, de uma garoupa, de um chicken piripiri ou, simplesmente, de uma cerveja, se divertirem até ao limite da (sua) decência.

A sala não estava ainda quente – embora cheia – e já eu me abalançava para o primeiro teste, sabendo que o clima mundial se altera quando canto. Olhei para uma lista infindável de canções e não encontrei o Requiem de Mozart, espécie musical onde me sinto como peixe na água. Optei por uma toada que conheço, que tem uma letra (na minha imaginação, “assexuada”) que se adequa aos vários mundos em que vivo e que permite aos espectadores cantar em uníssono com o herói que se chega à frente: Che sera, sera.Quando dei por mim, era um artista no palco, com 1,86m, barbudo, um peso a rondar (para cá ou para lá) os três dígitos, pronto a enfrentar o possível arremesso de loiça e de vegetais sobrantes. Quando dei por mim cantava, simplesmente:


When I was just a little girl
I asked my mother, what will I be
Will I be pretty, will I be rich
Here's what she said to me.


Imaginei nos espectadores aquele olhar de espanto que antecede o do nojo ou da fúria – ou simplesmente o da estupefacção. Não sei se terá sido um sonho, mas o facto é que supus alguém, ao ver-me cantar uma música de mulher, a gritar da penumbra do salão:

- canta o like a virgin…

No fundo, dentro de nós vive um cançonetista em permanência, pronto a emergir ao menor sinal de despudor, de descontracção – ou excesso de vinho. Percebi, aos 50 anos, que quem habita o meu canto esmagado de entertainer se chama Doris Day…É isto, meus amigos. O karaoke levou-me, mais tarde, a enfrentar o la bamba e o obla di obla da num dueto de amigos e no recato da mesa.

Entre séries de voluntários (JdC levou uma multidão ao rubro entoando o Here comes the Sun e o Like a Rolling Stone) havia música diversa, para animar uma pista sempre cheia, mista, onde ocupei o meu lugar com a ligeireza que Nosso Senhor me quis dar. No espaço de um instante dançava com gente local e desconhecida uma toada sul-africana, sensual, batida, que me levou ao encanto de uma escultura dengosa e próxima – muito próxima, mesmo - que se contorceu com o à-vontade de quem tem estes sons dentro de si. Entre mim e ela chegou a haver, apenas, os meus óculos de meia-lua. Posso arrimar-me na dança com quem não conheço, roçar o corpo por uma beldade local, mas o facto é que já não vejo bem ao perto.




quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Músicas dos dias que correm

Hoje é quarta-feira, e habituámo-nos ao Largo da Boa-Hora. Porque há férias, e necessidade de descanso e de recuperar inspirações, ficamo-nos com um largo vazio, sem quem nos revele o seu olhar pelo mundo. Fica a língua francesa (ainda que com sotaque) cantada pela boca de Jacques Brel, porque há gente que gosta muito de França, de Paris, dos franceses, de Napoleão, de Laurent Gaudet, sei lá eu! Sim, sim, o Brel não é francês, mas é a língua sabem...

Pensamentos dos dias que correm

Para a generalidade das mulheres, ter um amante significa ter uma quantidade de ocupações, de factos, de circunstâncias a que, pelo seu organismo e pela sua educação, acham um encanto inefável. Ter um amante não é para elas abrir de noite a porta do seu jardim. Ter um amante é ter a feliz, a doce ocasião destes pequeninos afazeres - escrever cartas às escondidas, tremer e ter susto: fechar-se a sós para pensar, estendida no sofá; ter o orgulho de possuir um segredo; ter aquela ideia dele e do seu amor, acompanhando com uma melodia em surdina todos os seus movimentos, a toilette, o banho, o bordado, o penteado: é estar numa sala cheia de gente, e vê-lo a ele, sério e indiferente, e só eles dois estarem no encanto do mistério; é procurar uma certa flor que se combinou pôr no cabelo; é estar triste por ideias amorosas, nos dias de chuva, ao canto de um fogão; é a felicidade de andar melancólica no fundo de um cupé; é fazer toilette com intenção, o maior dos encantos femininos! Etc. Estas pequeninas coisas, que enchem a sua existência, que a complicam em cor-de-rosa, que a idealizam - são a sua grande atracção. É o que amam. O homem amam-no pela quantidade do mistério, de interesse, de ocupação romanesca que ele dá à sua existência. De resto, amam o amor. Havia muito deste sentimento nas místicas e nas antigas noivas de Jesus. Amavam a Deus porque ele era o pretexto do culto.

Eça de Queirós, in 'Uma Campanha Alegre'

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Poemas dos dias que correm

O Mundo não se Fez para Pensarmos Nele

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema II"

Lembranças dos dias que correm

Para duas ALA's, em lembrança do dia 29 de Julho último. Porque há dias felizes...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Poemas dos dias que correm


Aqui na orla da praia

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer

(Fernando Pessoa)

Casamentos dos dias que correm

domingo, 2 de agosto de 2009

Oração

Com um abraço para o meu amigo FQ, que teve a clarividência de me mandar este texto.

***

«Em tudo somos oprimidos, mas não esmagados;
confundidos, mas não desesperados;

perseguidos, mas não abandonados;
abatidos, mas não aniquilados.»
Assim escrevia São Paulo aos cristãos de Corinto.

A experiência dos momentos mais duros da vida
pode levar-nos a sentimentos como os dos Coríntios,
parecendo que Deus Se esqueceu de nós.

Pelo contrário, São Paulo relembra
que o mal e a dor, a doença ou a injustiça,
não têm a última palavra sobre a nossa vida
porque transportamos connosco a certeza de que o Senhor ressuscitou.

É esta certeza, e só ela, que pode mudar a nossa maneira de viver,
o modo como enfrentamos a pressão dos problemas, as dúvidas sobre o futuro,
a solidão dos dias de aridez ou o cansaço de um caminho sofrido.

E esta mesma certeza de que o Senhor ressuscitou,
leva-nos mais longe e traz consigo
uma alegria que nos surpreende e aos que vivem ao nosso lado.

Porque alarga o nosso olhar e não nos deixa reféns do que não temos,
libertando-nos dessa fixação na falta
e revelando-nos tudo o que de bom e grande nos é dado e prometido.

Só esta certeza, que é Graça, consegue converter
a desesperança em confiança e o desconsolo em gratidão.
E haverá maior paz do que a de um coração grato?

Com São Paulo, também eu arrisco dizer:
«Acredito, por isso vos digo isto».


Rui Corrêa d'Oliveira

XVIII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,24-35
Naquele tempo,
quando a multidão viu
que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago,
subiram todos para as barcas
e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus.
Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe:
«Mestre, quando chegaste aqui?»
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
vós procurais-Me, não porque vistes milagres,
mas porque comestes dos pães e ficastes saciados.
Trabalhai, não tanto pela comida que se perde,
mas pelo alimento que dura até à vida eterna
e que o Filho do homem vos dará.
A Ele é que o Pai, o próprio Deus,
marcou com o seu selo».
Disseram-Lhe então:
«Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?»
Respondeu-lhes Jesus:
«A obra de Deus
consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou».
Disseram-Lhe eles:
«Que milagres fazes Tu,
para que nós vejamos e acreditemos em Ti?
Que obra realizas?
No deserto os nossos pais comeram o maná,
conforme está escrito:
‘Deu-lhes a comer um pão que veio do céu’».
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu;
meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu.
O pão de Deus é o que desce do Céu
para dar a vida ao mundo».
Disseram-Lhe eles:
«Senhor, dá-nos sempre desse pão».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu sou o pão da vida:
quem vem a Mim nunca mais terá fome,
quem acredita em Mim nunca mais terá sede
».

sábado, 1 de agosto de 2009

Músicas dos dias que correm

Em lembrança do concerto de ontem à noite em Cascais. Uma boa companhia, que me desafiou a ir, mas cuja simpatia não foi suficiente para eu deixar de reconhecer a minha profunda ignorância em termos de música "moderna". Gostei muito de ir, porque este saber continua a não ocupar lugar.

JdB

À “oração pagã”, de gi

Do meu antecessor, aqui debaixo, da sexta-feira, a pagela infra – tomei-a de assalto e escrevilhei, libertinamente, para ela.

É obra minha a morte própria
Mas “que assim seja”, terás razão
No teu conselho sereno, sem pressa,
De palavras fortes,
Marés altas,
Luas cheias,
Levanto-me, pueril e sem tormento!
Nem sei se foi verdade o que escreveste.
Tu ris-te.
Depois, faço só nosso o tal momento.
E parece-me que o tempo não existe.

DaLheGas

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