sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Textos dos dias que correm

Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Duas Últimas

Sem qualquer intuito de classificação de quem é melhor, vale a pena ouvir estes dois fados e compará-los naquilo em que são semelhantes: um (ou algum) acompanhamento ao piano. O primeiro, cantado por Amália e retirado do álbum "Busto" é acompanhado por Alain Oulman; o segundo, do disco "Aqui está-se sossegado", é cantado por Camané e acompanhado por Mário Laginha. O exercício, para quem lhe encontrar algum interesse, é ouvir o piano, mesmo que num caso haja um conjunto de guitarras também e no segundo ele seja o único instrumento.

JdB  





quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Textos dos dias que correm *

O Fernando Pessoa tem uma linha de um verso que diz assim: morrer é só não ser visto. Gostaria que a frase fosse apenas morrer é não ser visto para suportar melhor o meu raciocínio. Para o poeta seria quase indiferente; para mim não, pelo que vou apropriar-me da frase e tirar-lhe o .

Morrer é não ser visto pode ler-se de duas formas: (i) no acto de morrer nada mais há do que um desaparecimento da vista de uma comunidade; (ii) o desaparecimento da vista da comunidade é uma morte. Ambas as leituras se prendem com a ideia de uma não existência. O que significa, de facto não existir?

Um pêssego, tal como parte substantiva de artigos ao cima da terra - de máquinas de escrever a carros, passando por pessoas e jarras de flores - tem uma dupla valência: uma valência estética e uma valência funcional. A sua existência serve esses dois propósitos, e nesse sentido difere, ou pode diferir, de outros artigos que apenas tenham uma valência estética ou apenas uma valência funcional. A maciez da pele, a perfeição das formas ou da cor, a sua consistência ou a sua doçura são atributos do pêssego. Um parafuso não tem - ou tem-na em reduzida dimensão - uma dimensão estética; a sua funcionalidade domina tudo.

Qual é a diferença - grosseiramente falando - entre o parafuso e o pêssego? A dupla valência de um, a valência singela do outro. O pêssego surge-nos como estética e função; o parafuso apenas como função.

O que é uma pessoa? Esquecendo a biologia, a atendo-nos ao tema em apreço, uma pessoa é estética e função. Existe como ser e como fazer; existe como estar e como produzir. Ao contrário do pêssego, que é o que os outros vêem nele, uma pessoa é (também) o que quer revelar aos outros: num raciocínio mais arrojado, uma pessoa pode ser um pêssego ou pode ser um parafuso. Como é que essa pessoa se constitui? Como é que essa pessoa quer ser vista, lembrada para a posteridade?

O que significa, de facto não existir? Para o parafuso, a não existência deriva de uma cabeça romba, de uma ranhura esbeiçada, de um fio de rosca excessivamente desgastado. Não existir deriva da ideia de não funcionar. Para o pêssego, pelo seu lado, a sua não existência deriva da sua deglutição ou da sua eliminação fortuita ou intencional; isto é, mesmo azedo, o pêssego mantém uma forma aprazível, mesmo deformado mantém uma textura suave. O parafuso inexiste quando não funciona, o pêssego inexiste quando desaparece.

Como é que me constituo como pessoa? Como um parafuso ou como um pêssego? Se o fazer domina tudo, quando nada tenho a fazer, ou quando já não posso fazer tudo, inexisto. Se eu tiver uma dupla valência, consigo existir quando faço menos, ou fazer quando existo menos. Mas menos é comparação, não é eliminatório, não significa o vazio.

Sou para a comunidade o que quero mostrar à comunidade. Existo na medida em que me revelo; melhor, na forma como me revelo. Estar é tão importante como fazer. Ser é tão importante como produzir. A dupla valência é uma reserva, um plano B, um sistema em paralelo, uma redundância que confere segurança. Quando não faço, sou; quando não sou, produzo.

A não existência é a morte daquilo que nos constitui, daquilo por que nos constituímos, ou daquilo por que nos constituem os outros. A não existência é a morte daquilo que mostramos, daquilo que queremos mostrar, do que queremos apor no cartão de visita. Somos mais do que aquilo que fazemos, porque o fazer é um sucedâneo do ser. A mão mexe em resposta a um impulso do cérebro; o cérebro actua em função de um desejo. O importante, nesse sentido, é o desejo que motiva, não a mão que age. Movimento sem motivação intrínseca é desperdício de energia. Fazer sem porquê é não encontrar o porquê para fazer.

A transparência humana é, na sua grande maioria das vezes, estou em crer, uma construção do próprio; isto é, uma intencionalidade da intimidade, seja qual for a motivação. Não tenho o azar de ser transparente, disponibilizei-me para ser transparente ou, num caso mais extremo, quis ser transparente. E se sou transparente não existo enquanto ser, apenas enquanto fazer. Se não sou visto morri, na frase do Pessoa. Em bom rigor, não acontece sermos transparentes para os outros, quisemos ser transparentes para os outros, por mais frágil que seja o processo de decisão a montante.

Morrer é (só) não ser visto. Talvez precisemos, por isso, de ser pêssegos, e não ser parafusos. E talvez precisemos de dizer frente a um espelho: sou um pêssego, não sou um parafuso. Não precisamos de dizer que somos um pêssego bom, ou bonito, ou sumarento; basta dizer que somos um pêssego, que a beleza está nos olhos de quem vê. Não é a oratória de solilóquio do pêssego que lhe dá beleza, mas o olhar da comunidade sobre o pêssego.

* Alberto Collins de Carvalho, in Textos esparsos sobre a fluidez da vida 

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Daquilo que se diz ser verdade ou não

Uma destes dias, por causa da iminente partida de alguém que me era próximo, diziam-me: há-de ser quando Deus quiser. Fernando Pessoa, comentando a morte de Mário de Sá-Carneiro, começava um texto com as palavras: morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. É muito vulgar ouvir expressões como foi Deus que o quis salvar, ou foi Deus que assim o quis. A expressão mais corriqueira será até amanhã, se Deus quiser

Já há muito tempo que, enquanto católico convicto, me confronto com estas expressões. Em bom rigor, o problema não está nas expressões, mas no facto das expressões moldarem (ou poderem moldar) um pensamento. Quando uma amiga me disse há-de ser quando Deus quiser, não resisti a perguntar: acha que é Deus que quer? Quando, em diversas circunstâncias, me falam de crianças que se salvam, acrescentando foi Deus que a salvou..., não resisto a perguntar: falamos do mesmo Deus que não quer salvar outras crianças que morrem?

Deus quer que isto aconteça? Se Deus quer que sim, qual é o Seu critério? Basta-nos dizer que os caminhos de Deus são imperscrutáveis? Como discernimos a justiça que é deixar que malandros vivam até aos 90 anos e que crianças morram aos 7? E como discernimos a justiça entre taxas de sobrevivência em países ricos e em países pobres? Qual é, de facto, o critério de Deus para regular o mundo?

A pessoa que me era próxima morreu há dois dias; não morreu quando Deus quis, mas quando o seu corpo foi incapaz de sobreviver a uma doença grave e ao peso de 94 anos. A criança que morre com 7 anos não morre quando Deus quer, mas quando a técnica existente é incapaz de resolver um problema grave. Acreditar na mão de Deus em tudo o que nos acontece é, confesso, um exercício de enorme dimensão: como concebemos a mão de Deus por trás de um tsunami que mata milhares de pessoas? Onde está Deus no que concerne à Venezuela ou à Coreia do Sul ao à Alemanha nazi ou à Rússia estalinista? Onde está Deus nas disparidades económicas ou sociais ou nas mulheres que morrem vítimas de violência?

A ideia de um deus por trás de tudo não me é agradável. Acredito no Deus que pôs o mundo em movimento, que não está por trás do que acontece, mas que sofre com o que acontece. Dizer que é Deus que salva é dizer, também, que é Deus que não salva. Não sei se estou preparado para acreditar num Deus que permite que um homem doente, demente, ausente, por vezes violento e que desgasta uma família (pai de uma pessoa que me é próxima) viva até ao 80 e muitos, enquanto jovens morrem, bebés morrem, gente inocente morre.

O problema das expressões não está no facto de serem verdade ou não, mas no perigo de elas conformarem o nosso pensamento. Serei um mau católico?

JdB         

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Poema e música para o dia de hoje

Não Choreis os Mortos

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar... guardai, longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

Pedro Homem de Mello, in "Caravela ao Mar"

domingo, 24 de novembro de 2019

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

EVANGELHO - Lc 23,35-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo:
«Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo,
se é o Messias de Deus, o Eleito».
Também os soldados troçavam d'Ele;
aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».
Por cima d'Ele havia um letreiro:
«Este é o Rei dos judeus».
Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
insultava-O, dizendo:
«Não és Tu o Messias?
Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:
«Não temes a Deus,
tu que sofres o mesmo suplício?
Quanto a nós, fez-se justiça,
pois recebemos o castigo das nossas más acções.
Mas Ele nada praticou de condenável».
E acrescentou:
«Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza».
Jesus respondeu-lhe:
«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Poemas dos dias que correm

Presságio

Ela há-de vir como um punhal silente
Cravar-se para sempre no meu peito.
Podem os deuses rir na hora presente
Que ela há-de vir como um punhal direito.
Cubram-me lutos, sordidez e chagas!
Também rubis das minhas mãos morenas!
Rasguem-se os véus do leito em que me afagas!
— A coroa de ferro é cinza apenas...
E ela há-de vir a lepra que receio
E cuja sombra, aos poucos me consome.
Ela há-de vir, maior que a sede e a fome,
Ela há-de vir, a dor que ainda não veio.

Pedro Homem de Mello, in "Príncipe Perfeito"

***

A Dor Tem um Elemento de Vazio

A Dor - tem um Elemento de Vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -

Não tem Futuro - para lá de si própria -
O seu Infinito contém
O seu Passado - iluminado para aperceber
Novas Épocas - de Dor.

Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
Tradução de Nuno Júdice

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Sugestões (musicais) dos dias que correm *


Oitavo andar

Quando eu te vi fechar a porta
Eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar
Onde a dona Maria mora
Porque ela me adora e eu sempre posso entrar

Era bem o tempo de você chegar no T
Olhar no espelho o seu cabelo, falar com o seu Zé
E me ver caindo em cima de você
Como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer

E aí, só nos dois no chão frio
De conchinha bem no meio fio
No asfalto riscados de giz
Imagina que cena feliz

Quando os paramédicos chegassem
E os bombeiros retirassem nossos corpos do Leblon
A gente ia para o necrotério
Ficar brincando de sério deitadinhos no bem-bom

Cada um feito um picolé
Com a mesma etiqueta no pé
Na autópsia daria pra ver
Como eu só morri por você

Quando eu te vi fechar a porta
Eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar
Invés disso eu dei meia volta
E comi uma torta inteira de amora no jantar

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* sugerido por mão amiga

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

O PRIMEIRO MUSEU ARRANCOU COM ARTE E POLÉMICA A RODOS - VATICANO

A história tende a repetir-se, no melhor e no pior. É raro a audácia ser compreendida e devidamente aclamada, quando surge. Precisa de bastante tempo para ser digerida e reconhecida, quase sempre a título póstumo para os visionários, pois a maioria não costuma acompanhar, em tempo real, um rasgo diferente do padrão estabelecido. Aos audaciosos com talento cabe-lhes aguentar o desconforto de estar à frente do seu tempo. E assim chegamos ao primeiro museu público do Ocidente, por iniciativa do Vaticano, que se antecipou em vários séculos aos congéneres das grandes metrópoles europeias, com excepção de Florença, cuja décalage se ficou por sete décadas. 

O termo museu inspirou-se na expressão já conhecida em Roma para referir as grandes colecções de arte privadas – os «templos das musas». Na capital do Império, as casas e os sumptuosos jardins dos patrícios romanos rivalizavam em estátuas, fontes, pinturas e peças que deslumbravam os convidados. A alusão às 9 musas das artes e ciências provinha da mitologia grega, pois tinham sido geradas por Zeus para celebrar com sabedoria e sofisticação uma vitória marcante na vida atribulada dos deuses helénicos. 

O grande salto do coleccionismo de peças de elevado valor estético praticado na Antiguidade, para o serviço público, só foi dado no alvor do século XVI, por mérito de uma sequência feliz de Pontífices italianos, especialmente sensíveis ao potencial educativo da arte. A ousadia chegou à própria concepção do local, que não devia destoar do esplendor das peças exibidas. Assim, foi erigido um palácio para abrigar a magnífica colecção, que os Papas do Renascimento queriam partilhar com o grande público. Depois das catedrais góticas, o Belo voltava a impregnar o sentido missionário de uma cristandade cheia de contradições – marca d’água da presença humana – mas exigentíssima no que respeitava a saborear a beleza da criação – marca d’água do Criador. 

Pioneiros na arte aberta ao público, os Museus Vaticanos (Musei Vaticani) foram inaugurados em 1506. A outra grande iniciativa coube às Gallerie degli Uffizi, que abriu portas em 1581. Já o primeiro museu moderno, assim considerado porque se autoproclamou destinado à ‘educação universal’, despontou na Universidade de Oxford, em 1683, com o nome de Ashmolean Museum. O British Museum data de 1753, o Hermitage de 1764, o Louvre de 1793 e o Prado de 1819. Isto dá a medida do jet lag que os separa do Vaticano. 

Recuando a 1506, dir-se-ia que uma ideia tão feliz só podia colher aplausos e apoios… Mas não, há sempre expectativas diferentes, incluindo as legítimas divergências de gosto e objectivos. Curiosamente, no caso do Vaticano, o escândalo veio da audácia das poses nuas e da profusão de obras sobre temas pagãos concebidas por gentios. Este puritanismo descabido aos olhos da nossa geração deu brado à época. Felizmente que embateu nos critérios mais apurados dos Pontífices, que souberam privilegiar a qualidade artística das peças, numa ousadia pouco tolerada por grande parte da população. População que formava parte da cristandade. Já é famoso o episódio anedótico e real (!) dos pintores menores que Michelangelo colocou no lado do inferno pintado no tecto na Capela Sistina, plenamente reconhecíveis para humilhação deles, porque se tinham atrevido a acrescentar umas roupas às figuras despidas saídas do pincel do génio renascentista. Entenda-se que aqueles artistas tinham trabalhado a mando de cardeais, que achavam imprópria tanta nudez inundar o espaço da sala de eleição do sucessor de Pedro. Naturalmente que descartavam o sentido mais profundo de Michelangelo, a confrontar o espectador com os momentos cruciais da criação e do juízo final, onde apenas persiste e vale a essência do ser humano em corpo e alma.   

Dois textos gentilmente cedidos pelo autor – um com anos, outro com dias – relembram a polémica da novidade daquele primeiríssimo museu, bem como o brilhantismo que inspirou aqueles Papas italianos de gema:

Os primeiros museus do mundo

5-Nov-2015

Desde que o papado começou a ter influência na administração civil da cidade de Roma, as grandes preocupações foram os pobres, a instrução e a cultura. Os Papas queriam que o povo convivesse com a arte, em praças belas, decoradas com esculturas e fontes, em edifícios públicos com pinturas e tapeçarias de qualidade. No século XV, esta preocupação adquiriu um matiz novo, quando foi necessário proteger as obras de arte que não podiam ficar à intempérie, ou eram substituídas por outras mais modernas. Para que a população tivesse livre acesso a esses objectos, tal como contemplava as obras de arte espalhadas pela cidade, surgiram os primeiros museus do mundo.

Como é óbvio, foi preciso inventar o nome, porque a palavra «museu» não existia com este significado. Com sentido de humor, importou-se a palavra grega «muséon» (palácio das musas). Sem pruridos de linguagem sexista, o conjunto, incluindo os esplêndidos exemplares de Júpiters e de Apolos, ficou conhecido como «as musas», figuras femininas mitológicas inspiradoras das artes.

A arquitectura dos edifícios foi uma inovação, porque nunca se tinham construído edifícios para expor objectos de arte. Quando, mais tarde, apareceram outros museus na Europa, o modelo mais corrente foi aproveitar os palácios dos regimes depostos, por exemplo o Hermitage em S. Petersburgo, ou os palácios de coleccionadores ricos, por exemplo a National Gallery em Londres, para mostrar os respectivos tesouros. O museu do Louvre também se instalou num palácio antigo, como muitos grandes museus. O museu Vaticano e os outros museus construídos pelos Papas foram diferentes, porque nunca foram palácios, nunca morou lá ninguém, mas foram projectados de raiz para serem visitados pelo povo. Só séculos mais tarde, no século XIX e sobretudo no século XX, se construíram outros museus de raiz: por exemplo, o museu Calouste Gulbenkian em Lisboa, ou os Guggenheim de Nova Iorque ou de Bilbau.

Outra característica invulgar do museu Vaticano é que não tem peças roubadas. Pode dar vontade de rir constatar que esse sistema expedito (digamos assim) foi adoptado pelos principais museus. O museu do Louvre começou com uma colecção de pintura e escultura roubada às igrejas francesas; o museu nacional de Arte Antiga, em Lisboa, tem uma origem semelhante; outros grandes museus nasceram do saque dos tesouros do Egipto ou da Grécia. O próprio museu do Vaticano foi saqueado no princípio do século XIX por Napoleão Bonaparte. Fala-se em um milhão de caixas levadas para Paris, com peças de arte e arquivos. Com a queda do Imperador, aquilo que foi possível recuperar voltou para Roma.

O museu Vaticano e os outros museus que os Papas promoveram geraram polémica desde o início. Que desperdício oferecer arte ao povo! Os ateus de há uns séculos acusavam o Vaticano de hipocrisia, com o argumento de que expor divindades pagãs era fomentar a idolatria. Hoje em dia, diz-se que a arte é luxo e desafia-se o Vaticano a vender a arte aos ricos para dar o dinheiro aos pobres (os ateus da internet usam termos mais veementes, que me dispenso de reproduzir).

Está à vista que os católicos são tanto ou mais pecadores que as outras pessoas, contudo, também é verdade que a Igreja foi – e continua a ser – uma instituição muito especial.

Uma das alas das várias galerias de escultura antiga.

O Vaticano e as divindades pagãs

17-NOV-2019

A ideia de construir um museu nasceu há mais de cinco séculos na cabeça de alguns Papas. […] A ocasião surgiu por causa da abundância de obras de arte da época do império romano que os donos deitavam fora e corriam o risco de se perderem. Como se tratava sobretudo de uma colecção de divindades pagãs, o povo chamou à colecção «Casa das musas», ou «Museu». As musas eram as nove deusas gregas inspiradoras da arte e da ciência.

A intenção dos Papas não foi organizar um depósito fechado, onde só os eruditos fossem admitidos, o objectivo foi reunir uma colecção que pudesse ser visitada por qualquer cidadão e fomentar as visitas. Organizar todo aquele acervo deu imenso trabalho e exigiu a construção de um edifício invulgarmente grande, uma espécie de enorme palácio aberto a todos os visitantes. […]

Apolo Belvedere - estátua trazida para Roma pelo Papa Júlio II em 1508. 

A proposta de reunir uma colecção tão vasta e construir pavilhões tão gigantescos não foi bem recebida por todos. Alguns criticavam o que consideravam ser a promoção do luxo, do supérfluo, em contraste com a austeridade da vida de Cristo. Vários bispos eram desta opinião e inclusivamente um Papa interrompeu as visitas e mandou cobrir com tapumes algumas estátuas que decoravam as fachadas exteriores. Outra objecção tinha a ver com o conteúdo maioritariamente pagão das obras de arte, porque o Museu do Vaticano tinha algumas peças cristãs, sobretudo pinturas, mas a maioria das obras eram representações de divindades pagãs. Estas pessoas temiam que o museu se tornasse uma espécie de templo de uma religião sincrética.

Claro que os Papas que idearam o Museu do Vaticano não queriam favorecer o luxo mas o apreço pela beleza. […] Foi Deus quem impregnou o universo de beleza. A cor, a luz, o fogo, a música, até a eloquência do discurso e a emoção do amor. As obras de arte realmente belas participam na sinfonia cósmica da beleza. Segundo os Papas, toda a beleza tem origem em Deus e conduz as almas a Deus.

Também é evidente que o Museu do Vaticano não se destinava a ser um novo templo pagão e, de facto, a preocupação dos que temiam que isso acontecesse não correspondia a um perigo real. Tanto quanto se sabe, nenhum visitante do museu se tornou pagão no final da visita.

Nesta semana, um grupo de individualidades de todo o mundo interpretou a presença de um fetiche amazónico no Vaticano como atitude idolátrica do Papa Francisco e dos bispos que estavam com ele. 

Outubro de 2019 durante o Sínodo da Amazónia

O teor violentíssimo com que condenaram o Papa mostra o profundo sofrimento que aquela cena lhes suscitou. O tom exaltado do manifesto reflecte certamente um genuíno amor a Deus mas talvez aquela agressividade seja interpretada por alguns como falta de respeito e de amor ao Romano Pontífice. De certa maneira, a história repete-se. Não nos compete julgar ninguém. Rezamos por todos.

José Maria C. S. André


Se custa assistir à repetição de erros e de controvérsias talvez escusadas, a reincidência também ajuda a relativizar-lhes o peso. Outras gerações terem sobrevivido aos deslizes, faz-nos acreditar que também conseguiremos suplantá-los e melhor imunizar as gerações futuras contra as próximas recaídas. Se os antigos teriam muito a aprender connosco, também nós temos imenso a aprender com eles, sendo que a bola já só está do nosso lado… 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Duas Últimas

Para escolha da vossa preferida.

JdB



segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Do sucesso e da gentileza do coração

Aqui há uns anos, no seguimento da produção de uma obra intelectual / artística, perguntei à sua autora: o que vai fazer com este sucesso? Um destes dias, falando com alguém que está a colher com sucesso o que tem vindo a semear inteligentemente há uns anos, perguntei-lhe: o que vai fazer com este sucesso?

Não entrando numa discussão sobre se nascemos bons e é a sociedade que nos estraga, ou o seu contrário, acredito que a generalidade das pessoas pretende fazer um caminho de melhoria contínua. Ou, sendo mais rigoroso, afirma que pretende fazer um caminho de melhoria contínua. Todos, no fundo, aspiramos a ser boas pessoas - ou, pelo menos, melhores pessoas. Cada uma destas pessoas escolherá o seu modelo, a sua cartilha, o seu manual de procedimentos. Uns revêm-se em Cristo ou nalguns santos, outros têm por modelo um familiar ou um amigo, outros seguem um caminho espiritual qualquer que os levará à harmonia com o universo e com os outros.

Gosto de seguir uma teoria que só aparentemente provou estar errada - mas não é por isso que deixo de acreditar nela. Sou dos que tendem a achar que a cultura, a amplitude de horizontes, a saída da sua zona de conforto poderá ser um caminho de aperfeiçoamento. Isto é, quanto mais conhecemos do mundo, quanto mais viajamos ou lemos ou sabemos dos outros maior possibilidade teremos de ser melhores. Aparentemente a teoria está errada: há cada vez mais gente a viajar e o mundo está pior. Sim, percebo o sed contra. Talvez, então, as pessoas não viajem, mas piquem o ponto no globo através de uma selfie

Em cima desta teoria defendo outra: o sucesso pode ser um facto de crescimento pessoal, de caminho para um ser-se melhor. Eu explico: ter sucesso não é ganhar o totoloto, que é um jogo de azar. Ter sucesso assenta num conjunto de factores, o mais importante dos quais são as capacidades individuais de cada um - são essas, no limite, que permitem chegar-se a um determinado patamar. Mas, paralelamente, há um conjunto de outros factores: pessoas que permitiram que fôssemos o que somos; pessoas que nos ajudaram a ser o que somos ou que apostaram em nós, acreditaram em nós ou apenas nos estenderam uma mão ou disseram uma palavra certa. A pergunta o que vai fazer com este sucesso? não é uma pergunta óbvia para uma resposta óbvia. Não há, sequer, uma resposta certa. Talvez requeira uma resposta mais intangível, como ler a Bíblia ou viajar muito. Talvez requeira um agradecimento a este, àquele, ou apenas à vida.

Como dizia um dia destes a alguém, gosto que me digam obrigado. Não porque cumpri um serviço, mas porque isso revela uma gentileza do coração. Dizer obrigado é, por isso, terapêutico.

JdB

domingo, 17 de novembro de 2019

XXXIII Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
comentavam alguns que o templo estava ornado
com belas pedras e piedosas ofertas.
Jesus disse-lhes:
«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver,
não ficará pedra sobre pedra:
tudo será destruído».
Eles perguntaram-lhe:
«Mestre, quando sucederá isso?
Que sinal haverá de que está para acontecer?»
Jesus respondeu:
«Tende cuidado; não vos deixeis enganar,
pois muitos virão em meu nome
e dirão: "sou eu"; e ainda: "O tempo está próximo".
Não os sigais.
Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas,
não vos alarmeis:
é preciso que estas coisas aconteçam primeiro,
mas não será logo o fim».
Disse-lhes ainda:
«Há-de erguer-se povo e reino contra reino.
Haverá grandes terramotos
e, em diversos lugares, fomes e epidemias.
Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu.
Mas antes de tudo isto,
deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos,
entregando-vos às sinagogas e às prisões,
conduzindo-vos à presença de reis e governadores,
por causa do meu nome.
Assim tereis ocasião de dar testemunho.
Tende presente em vossos corações
que não deveis preparar a vossa defesa.
Eu vos darei língua e sabedoria
a que nenhum dos vossos adversários
poderá resistir ou contradizer.
Sereis entregues até pelos vossos pais,
irmãos, parentes e amigos.
Causarão a morte a alguns de vós
e todos vos odiarão por causa do meu nome;
mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.
Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Duas Últimas

Seguem, abaixo, duas letras de canções que, no seu tempo, fizeram sucesso: Cavalo de Corrida (cantado pelos UHF) e Fiz Leilão de mim, cantado por Tony de Matos. Vale a pena atentar nas letras, esta conta uma história, aquela diz coisas que não sei se fazem sentido.

É isto, no fundo.

JdB




Cavalo de Corrida

Agora é que a corrida estoirou, e os animais se lançam num esforço
Agora é que todos eles aplaudem, a violência em jogo
Agora é que eles picam os cavalos, violando todas as leis
Agora é que else passam ao assalto e fazem-no por qualquer preço

Agora, agora, agora, agora, tu és um cavalo de corrida, eh

Agora é que a vida passa num flash e o paraíso é além
Agora é que o filme deste massacre é a rotina Zé Ninguém
Agora é que perdeste o juízo, a jogar esta cartada
Agora é que galopas já ferido, procurando abrir passagem

Agora, agora, agora, agora tu és um cavalo de corrida, eh

Agora, agora, agora, agora tu és um cavalo de corrida
Agora, agora, agora, agora tu és um cavalo de corrida, eh

***



Fiz Leilão de Mim

Talvez de razão perdida
Quis fazer leilão da vida
Disse ao leiloeiro
Venda ao desbarato
Venda o lote inteiro
Que ando de mim farto
Meus versos que não são versos
Atirei ao chão dispersos
A ver se algum dia
O mundo pateta
Por analogia
Diz que sou poeta

Refrão:
Fiz leilão de mim
E fui por fim apregoado
Mas de mau que sou
Ninguém gritou arrematado
Fiz leilão de mim
Tinhas razão minha almofada
Com lances a esmo
Provei a mim mesmo
Que não valho mais que nada

Também quis vender meu fado
Meu modo de ser errado
Leiloei ternura
Chamaram-me louco
Mostrei amargura
E o mundo fez pouco
Depois leiloei carinho
E em praça fiquei sozinho
Diz-me a pouca sorte
Que para castigo
Até vir a morte
Vou ficar comigo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Poema dos dias que correm

Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Daquilo que é demasiado cedo para saber

Contam-me uma história de Xu Enlai, primeiro ministro chinês entre 1949 e 1976. Um dia ter-lhe-ão perguntado qual a influência da Revolução Francesa. A sua resposta foi enigmática: é demasiado cedo para saber. A história serviu para reflectir sobre o conceito de tempo no Ocidente e no Oriente, sobre o facto dos chineses pensarem em termos de séculos, por oposição ao imediatismo dos políticos ocidentais. Acontece, segundo vim a saber, que há um enorme equívoco nesta história. Ao que parece, a resposta do político chinês era, não sobre 1789, mas sobre 1968. Uma frase profunda tornava-se numa frase perfeitamente prosaica.

De alguma forma o twist da história destrói o meu raciocínio. Assim sendo, volto ao princípio.  Contam-me uma história de Xu Enlai, primeiro ministro chinês entre 1949 e 1976. Um dia ter-lhe-ão perguntado qual a influência da Revolução Francesa. A sua resposta foi enigmática: é demasiado cedo para saber

Há uma expressão que eu detesto particularmente: cumplicidade. A ideia de cúmplice não me afecta, mas a expressão cumplicidade bole-me com os nervos. E, no entanto, há uma ligação muito forte entre a frase de Xu Enlai - é demasiado cedo para saber - e a ideia de cumplicidade. Porquê? Porque ambas assentam no tempo. 

Imaginemos um jovem casal. Um dia, ao jantar, alguém pergunta ao marido o que ele acha de um determinado projecto de negócio. O marido responde: é interessante. No dia seguinte, esse alguém telefona à mulher e pergunta:  olha lá, o que é que o teu marido quis dizer com 'é interessante'? A mulher, precavida, dará uma resposta enigmática: é demasiado cedo para saber. Só mais tarde, com o conhecimento da conjugalidade, é que ela poderá dizer que interessante quer dizer interessante ou que interessante quer dizer é uma porcaria

Num certo sentido, não existem dicionários; ou os dicionários da conjugalidade - que assentam na decifração de palavras e gestos - são edições de autor com uma tiragem de um ou dois exemplares. Só num mundo asséptico é que as palavras querem dizer o que vem nos dicionários corriqueiros. Interessante, olha!, pois deixa-me pensar, significam tudo e o seu contrário. Há pessoas que decifram tudo num instante, têm este dicionários de gestos e palavras intuídos, sabem em que pensa o seu companheiro numa sala com 500 pessoas, afastados de 50 metros; outras recorrem ao espera um bocadinho, porque nunca saberão interpretar o companheiro, mesmo que ele esteja ao seu lado. Porquê? Porque quando se lhes pergunta sobre a influência da Revolução Francesa respondem logo com uma teoria, quando deveriam dizer é demasiado cedo para saber

JdB  

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Duas Últimas (ou na morte de Teresa Tarouca)





Fado dor e sofrimento com letra de D. António de Bragança.

Saudade, silêncio e sombra com letra de Nuno Lorena.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Textos dos dias que correm *

O meu nome é Andreia, e tenho 35 anos.

Para que precisamos dos olhos, se o essencial se vê com o coração?

Porque não assumimos o tacto como a extensão privilegiada da mente para identificar as coisas materiais e os contornos humanos?

Porque não escutamos com atenção, decifrando os ruídos que identificam os pássaros, as emoções audíveis, os movimentos da terra e das pessoas?

Porque não usamos o olfacto como o usam os animais que tudo identificam pelo cheiro, como se mais nada fizesse falta para deambularem pelo mundo na sua felicidade sem fingimento nem dissimulação?

O mundo é feito de excessos: dinheiro, comida, prazeres carnais, obras de arte, amigos, livros, publicidade, telenovelas, enganos da realidade, carros em circulação, níveis de radioactividade, fotografias digitais. Dentro de nós são os sentidos e os seus descomedimentos. Nada parece chegar para esta voragem colectora de bens e sentimentos.

Como conseguimos abarcar tudo isto num cérebro que definha sem retorno, numa memória que se esgota como bem precioso, numa alma cuja existência suscita dúvidas? Como arrumamos os cheiros, as texturas e as formas, os sons da natureza e dos gatos, dos motores potentes e das conversas? Como guardamos o contorno de umas costas ou de uma mão calejada se não for de olhos fechados? O que fazemos com esta panóplia de sensações que nos invade e ocupa os espaços livres de uma máquina envelhecida? Porque não conseguimos fechar uma assoalhada do cérebro, viver num espaço diminuto, alcançar tudo com uma mão aberta?

Cresci sem medo. Talvez um destemor, uma indiferença aos perigos que espreitam em cada esquina, em cada pessoa, em cada circunstância. Talvez uma ousadia no desafio à vida. ‘Uma imprudência’, dizem-me. Talvez. 

Toco, cheiro, oiço. Desenho imagens, adivinho sinuosidades do outro, encosto os barulhos a quem os produz, ligo os risos a uma boca bem desenhada, a uns dentes brancos com uma assimetria elegante. Passo os dedos por um corpo esculpido de humores e cheiros. Sinto-lhe o peito, as coxas musculadas, adivinho-lhe tudo.

Não tenho medo de nada. Não receio voar, nadar na imensidão do oceano, correr na direcção do precipício, parar um instante antes da queda. 

O meu nome é Andreia, e tenho 35 anos. Cega de nascença, a técnica devolve-me hoje, quando o sol se puser no fio do horizonte, a visão que nunca tive. Nada receio, nem sequer o meu destemor. Só tenho medo da desilusão. Ou do excesso.


JdB

* publicado originalmente a 11 de Dezembro de 2013, no âmbito de um concurso de escrita criativa em que participei

domingo, 10 de novembro de 2019

32º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 20,27-38

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
aproximaram-se de Jesus alguns saduceus
– que negam a ressurreição –
e fizeram-Lhe a seguinte pergunta:
«Mestre, Moisés deixou-nos escrito:
'Se morrer a alguém um irmão,
que deixe mulher, mas sem filhos,
esse homem deve casar com a viúva,
para dar descendência a seu irmão'.
Ora havia sete irmãos.
O primeiro casou-se e morreu sem filhos.
O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva;
e o mesmo sucedeu aos sete,
que morreram e não deixaram filhos.
Por fim, morreu também a mulher.
De qual destes será ela esposa na ressurreição,
uma vez que os sete a tiveram por mulher?»
Disse-lhes Jesus:
«Os filhos deste mundo
casam-se e dão-se em casamento.
Mas aqueles que forem dignos
de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos,
nem se casam nem se dão em casamento.
Na verdade, já nem podem morrer,
pois são como os Anjos,
e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus.
E que os mortos ressuscitam,
até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente,
quando chama ao Senhor
'o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob'.
Não é um Deus de mortos, mas de vivos,
porque para Ele todos estão vivos».

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Poemas dos dias que correm

Carta à Minha Filha

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas - é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.

E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Ana Luísa Amaral, in 'Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)'

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Textos dos dias que correm

Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, sendo a vida tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente ao ponto de pôr em debandada tudo o que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso.

(...)

A maioria dos luxos e muitos dos chamados confortos da vida não só são dispensáveis como constituem até obstáculos à elevação da humanidade. No que diz respeito a luxos e confortos, os mais sábios sempre viveram de modo mais simples e despojado que os pobres. Os antigos filósofos chineses, indianos, persas e gregos eram uma classe que se notabilizava pela extrama pobreza de bens exteriores, em contraste com a sua riqueza interior. Embora não saibamos muito a seu respeito, é de admirar que saibamos tanto quanto sabemos. O mesmo acontece com reformadores e benfeitores mais recentes, da nacionalidade deles. Ninguém pode ser um observador imparcial e sábio da raça humana, a não ser da posição vantajosa a que chamaríamos pobreza voluntária.
O fruto de uma vida de luxo é também luxo, seja em agricultura, comércio, literatura ou arte. Hoje em dia há professores de filosofia, mas não há filósofos. Contudo é admirável ensinar filosofia porque um dia foi admirável vivê-la. Ser um filósofo não é apenas ter pensamentos subtis, nem sequer fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver, segundo os seus ditames, uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança. É solucionar alguns problemas da vida não só na teoria mas também na prática.

Henry David Thoreau, in 'Walden'


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

TANTA GENTE MAIS PERTO QUE LONGE 

Veio da Dinamarca uma curta-metragem, que traz à luz ligações surpreendentes e ignoradas entre pessoas hoje desconhecidas e afastadas em todos os sentidos. Trata-se da quantidade imensa dos que parecem alheios à nossa vida, incluindo vizinhos de porta. O pequeno filme caloroso veio dessa Europa do Norte, onde o Inverno é longo e chuvoso, as noites compridas, os dias enevoados e reina um silêncio asséptico nos sítios mais improváveis, como uma estação de comboios cruzada por multidões que, a Sul, nunca se coíbem de ser comunicativas. 

A câmara começa por focar uma sala de espera anódina, desconfortável, cheia de gente variada na idade, na condição social, cultural, financeira e até na origem étnica. No ginásio imenso e mal iluminado para onde, depois, é encaminhado, aquele aglomerado humano mantém-se junto, provavelmente por razões fortuitas e pobres, habituado a movimentar-se em grupo, disciplinadamente, por razões defensivas e também por obediência a quem arquitectou a experiência. Já será sinal de alguma abertura alinharem numa experiência que ignoram. Ou serão naïves?

Os monitores nomeiam dois nomes, pedindo-lhes para avançarem e se arrumarem em frente um do outro. Acabam num face-a-face entre ilustres desconhecidos.

Perguntam-lhes se alguma coisa os poderia ligar, antevendo a resposta negativa, que se repetiu com os pares seguintes. Depois, escavando no passado deles, desencantam um tempo onde os dois chegaram a ser bastante próximos. É emocionante o reencontro com o compincha da praia, que já só era lembrado imberbe, completamente irreconhecível naquele adulto. 

Aos poucos, cada um é chamado a recuperar elos muito diversos, mas intensos, com outros, como o do salvador em hora crítica, a quem mal se viu a cara e de quem nunca se reteve o nome, apesar de se ser devedor da vida. 

Todos acabam por descobrir interligações fortes com quem era estranho, transfigurando caras anónimas e distantes em pessoas com nome. Misterioso tanta gente válida ter contribuído para a existência de alguém sem deixar quase rasto! Talvez por isso, o reencontro saiba ainda melhor. A amostragem confirma o mar de gente que valeria a pena rever e a quem haveria muito a agradecer. O apelo lançado é contagiante, porque todos partilhamos alguma daquelas histórias e percebemos quanto aquela teia simboliza apenas uma pequena gota do oceano de vida de cada ser humano: 


Experiências com o mesmo alcance têm sido pretexto de mais metragens, confirmando o potencial de afinidades profundas entre as pessoas, incluindo os aparentemente longínquos e inconciliáveis, como a vítima e o autor do bullying. Há uma experiência emblemática, realizada nos Estados Unidos, com título autoexplicativo: «Don’t put people in boxes». Tem o mérito de expor o lado multifacetado do indivíduo que, ao integrar grupos temáticos muito diversos – das preferências clubísticas, aos hobbies, dificuldades & traumas, talentos, etc. – acaba por se deparar com alguma área de afinidade com os mais inimagináveis. Fecha com uma pedagogia explícita, à americana: afinal, o que nos une suplanta o que nos separa ou não partilhássemos o mesmo Pai.   

Na Austrália, o filme sobre o estado da interligação humana revelou resultados preocupantes. Uma criança entre os 4 e os 5 anos foi deixada sozinha, desamparada, no meio de um centro comercial movimentado. Durante 8 horas, só 21 pessoas pararam para indagar o motivo da sua solidão óbvia e prontificar-se a ajudar, pois era visível a falta de uma presença adulta para o proteger. O vídeo termina com o alerta: há 43 mil crianças abandonadas, que reclamam a nossa atenção para as podermos resgatar de destinos desastrosos e perversos! Começar por as ver, é elementar.

Os apelos em todas as versões continuam a merecer documentários e filmes interpelativos. Na Dinamarca, o vídeo aqui postado foi um sucesso, convidando a um olhar mais empático e aberto aos outros, num movimento interior que – por dom, diria – não é estranho aos poetas: «Sou um pouco de todos os que conheci, um pouco dos lugares que fui, um pouco das saudades que deixei e sou muito das coisas que gostei» (Antoine de Saint-Exupéry). No fundo, sabermos aproximar-nos dos que nos rodeiam é uma arte. Poderia ser a oitava.


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 5 de novembro de 2019

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Carta a um anjo

Partiste hoje, mas há 18 anos, e talvez por isso, por esta espécie de maioridade que se atinge agora, esta carta vá diferente das que te escrevo há tanto tempo: tudo assenta numa pergunta recente que foi respondida alguns dias antes de ela ser proferida, como se o mundo pudesse andar ao contrário, ou começássemos viagens que acabam muitos anos antes.

Num dia da semana passada encontrei alguém que não via há muito tempo. Perguntou-me pela família e, tendo ficado a saber da tua passagem ao estatuto de anjo, fez uma pergunta aparentemente estranha: e conseguiste aguentar? A estranheza da pergunta decorria do facto de eu estar ali a responder, inteiro, vertical e, aparentemente, equilibrado, o que significava que sim, que conseguira aguentar aquilo que é da resistência humana. 

Ando para trás, para a conferência a que assisti em Lyon, onde uma comunidade alargada de pais, sobreviventes, profissionais ou voluntários de associações mundiais discute o estado da arte da oncologia pediátrica. Numa das sessões, alguém perguntou quantos pais ali estavam que haviam perdido filhos para esta doença. Levantaram-se 15, talvez: a chilena e a russa, o israelita, a indonésia, o francês, eu, e outros cujas nacionalidades não fixei. São caras familiares que percorrem os corredores destas conferências há um bom par de anos. São pessoas que riem e choram, que se comovem com as pequenas vitórias partilhadas, se entusiasmam com os avanços científicos que salvarão outras crianças que não as suas, que não as nossas, vítimas de gravidade maior ou da insipiência da técnica naquele tempo. São pais para quem a vida não faz sentido de outra forma. A cada um deles este meu amigo poderia ter perguntado e conseguiste aguentar? sabendo que a resposta era óbvia - estavam todos ali a lutar por qualquer coisa que já só beneficiará outros filhos de outras pessoas. Podiam ser gestores, passar férias nas Antilhas, arranjar ocupações prosaicas. Escolheram, no entanto, conviver com a oncologia pediátrica, com aquilo que personifica a dor.

Num século muito diferente do actual, num país diferente, o conde Tolstoy afirmava (e cito-o em francês por via da concisão da frase): tout comprendre c'est tout pardonner. É fatal, como já disse neste mesmo espaço, que eu olhe para estes pais sofridos com um olhar mais intenso: o que fazem? Como pensam? De que sorriem ou como recolhem ao leito depois de horas a falar do mesmo tema? De que forma reagem, o que os desequilibra? E eles, como olham para dentro de si próprios? A frase de Tolstoy está toda voltada para o outro. Isto é, perceber o outro é perdoar no outro aquilo que tem de ser perdoado. Mas a frase também pode ser lida numa dimensão introspectiva, ou seja, perceber-me é perdoar-me. Perceber de onde vêm as minhas fragilidades, as minhas obsessões, os meus fantasmas, é perceber quem sou, e ao perceber perdoo-me, no sentido, não do desagravo da ofensa, mas da pacificação da minha convivência comigo próprio e, obviamente, com os outros.

***

Nunca nos devemos esquecer que também podemos encontrar sentido na vida quando nos confrontamos com uma situação sem esperança, quando enfrentamos uma fatalidade que não pode ser mudada. O que interessa, então, é dar testemunho do potencial especificamente humano no que ele tem de mais elevado e que consiste em transformar uma tragédia pessoal num triunfo, em converter o nosso sofrimento numa conquista humana.
Viktor Frankl 

Ninguém me perguntou como aguentaste? Também nunca perguntei ao israelita ou à indonésia, à chilena ou à russa. Mas todos, estou certo, se cruzaram com Viktor Frankl, com o conde Tolstoy, com o Deus em que acreditarão, ou com o ensinamento sábio que nos manda perguntar para quê?, e não porquê?. Todos aguentamos, porque todos demos aquele sentido à nossa vida, porque olhámos para dentro de nós para nos pacificarmos com os nossos dramas.

JdB, em nome de todos os que te conheceram e amaram; mas também em nome dos que, não te tendo conhecido, te amaram através do afecto que nos deram.

domingo, 3 de novembro de 2019

XXXI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 19,1-10

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade.
Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu,
que era chefe de publicanos.
Procurava ver quem era Jesus,
mas, devido à multidão, não podia vê-l'O,
porque era de pequena estatura.
Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro,
para ver Jesus,
que havia de passar por ali.
Quando Jesus chegou ao local,
olhou para cima e disse-lhe:
«Zaqueu, desce depressa,
que Eu hoje devo ficar em tua casa».
Ele desceu rapidamente
e recebeu Jesus com alegria.
Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo:
«Foi hospedar-Se em cada dum pecador».
Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo:
«Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens
e, se causei qualquer prejuízo a alguém,
restituirei quatro vezes mais».
Disse-lhe Jesus:
«Hoje entrou a salvação nesta casa,
porque Zaqueu também é filho de Abraão.
Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar
o que estava perdido».

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Solenidade de Todos os Santos

Que aproveitam aos Santos o nosso louvor, a nossa glorificação e até esta mesma solenidade? Para quê tributar honras terrenas a quem o Pai celeste glorifica, segundo a promessa verdadeira do Filho? De que lhes servem os nossos panegíricos? Os Santos não precisam das nossas honras e nada podemos oferecer lhes com a nossa devoção. Realmente, venerar a sua memória interessa nos a nós e não a eles.

Por mim, confesso, com esta evocação sinto me inflamado por um anelo veemente.

O primeiro desejo que a recordação dos Santos excita ou aumenta em nós é o de gozar da sua amável companhia, de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem aventurados, de sermos integrados na assembleia dos Patriarcas, na falange dos Profetas, no senado dos Apóstolos, no inumerável exército dos Mártires, na comunidade dos Confessores, nos coros das Virgens; enfim, de nos reunirmos e nos alegrarmos na comunhão de todos os Santos.

Aguarda nos aquela Igreja dos primogénitos e nós ficamos insensíveis; desejam os Santos a nossa companhia e nós pouco nos importamos; esperam nos os justos e nós parecemos indiferentes.

Dos Sermões de São Bernardo, abade ((Sermo 2: Opera omnia, Ed. Cisterc. 5[1968], 364-368 (Sec. XII)



EVANGELHO - Mt 5,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

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