quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Vai um gin do Peter's?

A ARMA QUE DESARMA A MÃE DE LUTO E EM FÚRIA JUSTICEIRA. ATÉ VALE ÓSCARES.

Com "TRÊS CARTAZES À BEIRA DA ESTRADA"(1), aterramos e já não saímos da América profunda, num lugarejo perdido do Missouri, rodeado de campo e bosques frondosos. Na povoação, os prédios baixos formam uma orla contínua de ruas amplas, ordenadas numa quadrícula simétrica por onde circulam jipes empoeirados e fords velhíssimos e agigantados. As bandeiras nacionais balançam ao vento, patrioticamente, cabendo a maior à super esquadra do sítio - repositório da ordem e da segurança. Respira-se alguma confiança. 

A parvónia pacata onde nada acontece…
Nos arredores, pululam as casas de madeiras em estilo pré-fabricado, com pequenas quintas imersas no arvoredo, no meio de nenhures. Percebe-se a tentação da arma, para legítima defesa, mas ao preço exorbitante da liberdade, que permite assistir a tenebrosos desvirtuamentos de um hábito antigo e perigoso.   

Um descampado atravessado por uma estrada vazia.

Ebbing - cenário do filme de Martin Donagh (candidato a Óscar) -- pertence à América rural e remota, mais próxima do faroeste do que de Manhattan. Trocando os carros pelos cavalos, pouco mais haveria a adaptar. Os cafés são sucedâneos dos saloons, em versão desengraçada; as lojas continuam a vender tudo o que faz falta; o espaço superabunda com uma escala agigantada nas casas, nos jardins, no estacionamento, etc. Acima de tudo, as pessoas sabem que podem fazer a diferença, pelo que se batem assertivamente por aquilo em que acreditam. .

Ebbing e esta comédia negra valem pelas pessoas, num despique de desfecho imprevisto.
Progressos tecnológicos à parte, talvez o maior avanço para se chegar ao faroeste actual tenha ocorrido no plano da justiça, com efeito directo no aumento da confiança comunitária, exigido por uma democracia participativa. Daí, adveio segurança, previsibilidade e maior igualdade de oportunidades no acesso e na aplicação da justiça. Vieram também ganhos para a economia, a saúde pública e a qualidade de vida. Longe ficou a figura do xerife de antanho, solitária e acossada na missão impossível de conter a lei da bala, quando pontificava o pistoleiro mais rápido e certeiro. Desse legado, ficou-lhes o voluntarismo e a tentação da justiça por mãos próprias, mas já contrariados por uma legislação e fiscalização robustas. Não por acaso, falamos da maior superpotência mundial (ainda), onde nem o ambiente provinciano de Ebbing escapou a um certo avanço das mentalidades, antevisto por Alexis de Tocqueville (1805-1859), mal desembarcou no novo país do outro lado do Atlântico.

Remontando ao ADN norte-americano: a consciência da individualidade e dos direitos vem da fundação da nacionalidade, prevalecendo o estilo reivindicativo de toque excessivo e até rude para o padrão europeu. Os sucessores dos cavaleiros solitários continuam a rondar, embora estejam mais balizados. No filme, as personagens são o expoente desse voluntarismo exacerbado, em especial a protagonista Mildred (interpretada eximiamente por Francis McDormand, candidata a Óscar e já muito premiada), cuja filha fora assassinada há um ano, enquanto o culpado tardava em ser identificado. Inaceitável para aquela impaciente mãe-guerreira.


Viciada em xeque-mates como se Ebbing fosse um mega tabuleiro de xadrez.
No argumento de Donagh, os múltiplos volte-faces começam bem ancorados nas mensagens telegráficas e sequenciais dos três cartazes encomendados por Mildred. Lembram a argúcia dos contos de Somerset Maugham, de enredo muito amadurecido e imprevisível, imune, quer aos simplismos, quer aos rendilhados espúrios de uma certa literatura feita de truques formalistas que camuflam a falta de reflexão profunda.

Uma sequência explosiva, numa via secundária, mais barata. Porém, deu tanto brado, que a estrada ganhou afluência e mediatismo.










Em "TRÊS CARTAZES…", o contexto humano é lúgubre e desleixado, o vestuário feio, as posturas quezilentas, a linguagem em vernáculo indigesto, acentuando a aspereza do dia-a-dia nos povoados periféricos. Mas não tenhamos ilusões de que aquele microcosmo de aspecto grotesco apenas escancara as feridas que as comunidades sofisticadas tão bem sabem esconder, arrastando-se na conhecida paz podre! Não será mais pernicioso um mal camuflado, menos fácil de diagnosticar e combater?

Os diálogos assumem um peso crucial (no tal linguajar cru), enquanto extensão natural do indivíduo que se comunica aos demais. Fluindo num argumento inteligente, as deixas estão recheadas de humor, embora muitas crivadas de sarcasmo. Domina uma combatividade agreste, de sabor amargo, num patamar de ferocidade próximo dos Coen.

Intencionalmente, é a miúda de pouca idade, parcos neurónios e nenhuma cultura que cita a frase mais sábia sobre a ilusão de lutar pela paz com as armas da guerra: a raiva só suscita mais raiva. Por ser tão burra, tem de aguentar a piada cómica, mas corrosiva, do pretendente-anão, que estranha o termo sofisticado da frase - "she said begets?" [suscita]. Uma situação duplamente caricata, que se aproveita dos limites óbvios da vítima, para depois desmontar os preconceitos e a pesporrência erudita dos que a atacam. O próprio gracejador fraquejava no papel de galã, destoando no restaurante caro. Aí, brilhava a ignorante de grandes olhos azuis.

Única vez em que a destemida Mildred estava visivelmente intimidada.
Em formato de comédia negra, expõe-se até ao tutano a massa frágil de que todos somos feitos, embora também haja amiúde ocasião para sublinhar os méritos únicos de cada um, nalgum momento.

O tipo de duplicidades irónicas - que se auto-vigiam e anulam - são recorrentes no filme, quer nas cenas de agressividade extrema, quer no erro assumido com coragem e no perdão logo oferecido com generosidade. É gente genuína e frontal, no melhor dos americanos, que interage abundantemente entre si e, por essa via, estimula no outro novas atitudes, mudanças. Ou não fossem os States a pátria onde não é suposto furtar-se a ir a jogo.

A mãe enlutada não se fica pelas lágrimas, quando urge fazer justiça. O polícia preconceituoso não assiste impávido às transgressões, esforçando-se por endireitar o mundo segundo o seu entendimento obnubilado pela fúria. O chefe da esquadra não pode deixar de responder aos ataques de que é alvo, ainda que de justeza discutível. E de que maneira reage, apesar de estar gravemente doente. Por junto, é transversal a toda a comunidade uma reactividade em cadeia, sem semelhança no padrão menos assumido do europeu da margem continental, onde a voz individual se atreve menos por falta de protecção e de transparência nas regras sociais. 

A grande jogada psicológica acabou por ser protagonizada por esse chefe da esquadra doente, visado nos cartazes. Desarmado, desarmou os mais arruaceiros de Ebbing. Bastou-lhe uma interpelação pessoal e muito amiga, que teve a sorte de ser reforçada pelo sucessor no cargo, a assumir a autoridade com o mesmo sentido de serviço público. Que exótico para este lado do Atlântico, uns agentes de autoridade mais pedagogos que fiscalizadores; mais paternais que punitivos!  No American way of life, o indivíduo antecede o distintivo que exibe. Sobretudo, se for mais graduado. Um general é convidado a elevar-se a herói para merecer em pleno as insígnias do cargo; o professor a corporizar a melhor combinação de entertainer e PT para merecer a atenção dos alunos.


Expectável, os dois zangados da vida acabarem por entrar em rota de colisão.
Sem estragar o suspense do filme: cabe ao primeiro chefe as mensagens incisivas dirigidas aos casos indomáveis  da comunidade, ambos de uma crueza a roçar o grotesco. Fiel à missão de paz, o xerife quis estendê-la para além da morte, aproveitando essa hora derradeira para aumentar o impacto de um gesto último.

Quem diria que os dois durões aceitariam abandonar os métodos mortíferos e anti-sociais para começar a cooperar construtivamente com os demais, abstendo-se de continuar a submetê-los a um julgamento impiedoso?

Quem diria que uma carta a recomendar "amor" [sic] no trabalho de detective encontraria eco num tipo virulento, precipitado e de ar primitivo? Até a falta de letras desaconselhariam recados escritos… Ou tê-lo-íamos subestimado?

O bom "xerife" era incansável a tentar demover uma e a conter outro. 
Quem diria que o alvo de determinada acusação truculenta se disporia a alimentá-la contra si, para amansar uma mãe cega pela dor? Empedernida e em rédea solta, tornara-se selvática aprisionada na própria espiral sanguinária.

O efeito pós-carta é surpreendente, pois os dois destinatários alteram o foco, o olhar, o comportamento. Percebemo-lo na maior abertura aos outros, largando as respostas ríspidas e cortantes. Vislumbra-se num arrependimento que pede perdão na hora de maior vulnerabilidade. Mas fica especialmente claro na viagem justiceira a outro Estado, quando colocam dúvidas sobre a melhor opção a tomar, eles que antes avançavam para a guerra, sem hesitar.

Era no terreno da Justiça que se digladiava a maior preocupação de ambos, pelo que enfrentavam ali o maior desafio para inovarem. No afã de exigirem uma Justiça em estado puro, acabavam por a descarnar do mais leve frémito de humanidade, comprometendo o fim maior por que algemavam. Esse erro fora bem diagnosticado pelo xerife. Não obstante, como fora possível instigar tamanha transfiguração? Primeiro, revestira-se de uma dose colossal de paciência para a árdua tarefa os perceber a fundo, até conseguir apanhá-los pelo lado positivo. Fora a pedra de toque para gizar ensinamentos tão personalizados, capazes de responder à ânsia principal que fervilhava descontroladamente num e noutro.

Outro encontro benigno, caído do céu, rasgou uma brecha no horizonte negro de Mildred, inundando-o de frescura e bondade. Junto aos cartazes, surgiu um gamo que se aproximou dela com uma naturalidade enternecedora. Comoveu-a até às lágrimas, tal presença suave e inocente, que não a evitava como os outros. Antes procurava a sua companhia. Um momento simbólico, que lhe relembrou uma harmonia maior, inalcançável através dos esforços humanos. Uma beleza incrível que reacordou nela um pouco de Esperança (disse-o), revelando também a medida curta dos seus estratagemas. 

Uma graça pacificante, que fez Mildred chorar como uma criança.
Mais gente seguiu as pisadas do animado Willoughby no esforço de acreditar nos dois casmurros, para lá das aparências. Espantaram, inclusive, quem está do lado de cá do ecrã. O caso mais paradigmático correspondeu ao segundo chefe da esquadra, que também pautava o trabalho pelo serviço ao próximo. Conhecia todos pelo nome. Dispensava a mesma atenção cuidada a cada um, acabando por afinar o olhar até conseguir ver para além da evidência palpável, dispondo ainda o coração a confiar acima do "admissível". Quantas vezes estes xerifes educativos tiveram a sabedoria de desvalorizar certas transgressões, quando não consideravam didático o castigo a aplicar? Assim aconteceu no ataque esparvoado às instalações da esquadra, ou na agressão ao dentista, percebendo bem quem os tinha perpetrado. Dois corajosos, que assim cumpriram a missão mais ousada de reabilitar os insurrectos. Uma modalidade de fé muito cívica e transfiguradora. Mesmo a propósito, na semana do Domingo da Transfiguração.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)

_____________
(1) FICHA TÉCNICA:
Título original: THREE BILLBOARDS OUTSIDE EBBING, MISSOURI  (candidado a Óscar)
Título traduzido em Portugal: TRÊS CARTAZES À BEIRA DA ESTRADA
Realização: Martin Mc Donagh (candidado a Óscar)
Argumento: Martin Mc Donagh
Produtor: Daniel Battseck
Banda Sonora Cartel Burwell
Duração: 115 min.
Ano: 2017
Países: EUA
Elenco: Francis McDormand (a temível Mildred Hayes; candidata a Óscar)
             Lucas Hedges (o filho de Mildred),
             Sam Rockwell (o polícia descontrolado; candidato a Óscar)
             Woody Harrelson (Willoughby, o chefe de polícia didático) 
              Clarck Peters (o novo chefe de esquadra), etc.
Local das filmagens:  EUA - Carolina do Norte: Sylva, Asheville, Black Mountain; Magie Valley.
Site oficial:           http://www.foxsearchlight.com/threebillboardsoutsideebbingmissouri/
Prémios:                   Baftas do Melhor Filme de 2018, da Melhor Actriz para McDormand e do Melhor Actor Secundário (Sam Rockwell, o outro zangado); arrecadou 4 dos principais Globos de Ouro (Melhor Filme, Melhor Argumento, Melhor Actriz e Melhor Actor Secundário); galardão máximo pelo desempenho (Outstanding Performance) atribuído pela associação de actores de Hollywood - o importante  "Screen Actors Guild Awards"; inúmeras nomeações para Óscares (só conhecidos no próximo Domingo)

OBSERVAÇÕES:
Nível de violência exacerbado e doses homéricas de calão.

TRAILER:





terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Textos enviados por mão amiga

BONECO/A(S) DE NEVE

Durante a noite e madrugada nevou bastante :

08:00: decido fazer um boneco de neve.
08:10: uma feminista passa e pergunta-me por que é que não fiz uma boneca de neve.
08:15: decido então fazer uma boneca de neve.
08:17: a miúda dos vizinhos ficou chateada porque acha que os seios da boneca são demasiado voluptuosos.
08:20: o casal gay lá do bairro resmunga que poderiam muito bem ter sido dois bonecos de neve.
08:25: os vegetarianos do nº 12 protestam por causa da cenoura que faz de nariz do boneco. As hortaliças fazem parte da alimentação e não devem servir para brincadeiras.
08:28: passam uns afros que me apelidam de racista porque o casal é branco.
08:31: os muçulmanos do outro lado da rua querem que eu ponha um lenço na cabeça da boneca.
08:40: alguém chama a polícia para vir ver o que se passa
08:42: dizem-me para retirar a vassoura que está nos braços do boneco de neve porque pode ser utilizada como arma mortal. As coisas tornam-se mais tensas quando replico "sim, sobretudo se meterem o cabo da vassoura no ...."
08:45: chega, entretanto, a equipe de TV local. Perguntam-me se sei diferenciar um boneco de uma  boneca de neve. Respondo: "Sim, pelas bolas". Em directo e ao vivo, tratam-me imediatamente de "sexista".
08:52: o meu telemóvel é apreendido , controlado, enfiam-me no carro da polícia e levam-me para a esquadra.
09:00: apareço no jornal televisivo da manhã. Suspeitam que eu seja um terrorista que se aproveitou do mau tempo para perturbar a ordem pública
09:10: perguntam-me se tenho cúmplices.
09:29: um grupo jihadista desconhecido reivindica a acção

Moral: Não há moral nesta história. É a França dos dias de hoje, mas também podia ser a Alemanha, a Áustria, a Suécia ou qualquer outro país onde neva.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Textos dos dias que correm

Os católicos podem ir ao psiquiatra?

Em que pode contribuir a psiquiatria para a vida dos católicos? Esta foi uma das perguntas abordadas numa conferência organizada esta quarta-feira pelos bispos italianos sobre a fé e a saúde mental.

A resposta foi a de que entre estes dois âmbitos do ser humano há uma «unidade psicológica e espiritual» que faz com que seja imprescindível que no momento de tratar as doenças psiquiátricas a abordagem «deva ser integral».

Falando à página Crux, o responsável do episcopado transalpino para a Pastoral da Saúde, P. Massimo Angelelli, afirmou que um dos objetivos da conferência de Roma, intitulada “Entre a segregação e o acolhimento”, foi o de superar os «mal-entendidos» que se produziram ao longo da história entre as autoridades da Igreja e os psiquiatras devido ao que consideravam um choque de competências.

«Temiam que uma parte entrasse no campo da outra, e isso foi um erro», explicou o sacerdote, acrescentando que as suspeitas e receios de épocas passadas foram substituídos pela «colaboração e um grande respeito mútuo».

As relações entre a Igreja e a psiquiatria receberam um estímulo importante no pontificado do papa Francisco, que não só tem sido um grande defensor das pessoas com doenças mentais, como também revelou, recentemente, que ele próprio consultava uma psiquiatra na Argentina, nos finais da década de 70.

«Consultei uma psicanalista judia», disse o papa numa conversa com o sociólogo francês Dominique Wolton. «Durante seis meses fui a sua casa uma vez por semana para aclarar algumas coisas. Ela era médica e psicanalista e manteve-se sempre no seu lugar.»

Francisco prosseguiu: «Um dia, quando ela estava prestes a morrer, chamou-me. Não para receber os sacramentos, dado que era judia, mas para ter um diálogo espiritual. Era uma pessoa muito boa. Durante seis meses ajudou-me muito, quando eu tinha 42 anos».

«A Igreja em Itália deu-se conta de que teve de dialogar com a psiquiatria, e a psiquiatria aceitou o convite», assinalou Angelelli. «Está claro» que há na pessoa humana «uma unidade psicológica e espiritual que já não pode ser tratada de forma independente». Pelo contrário, «o tratamento deve ser integral; o enfoque deve ser integral».

Os propósitos da conferência em Roma, em que participaram peritos de áreas como a psiquiatria infantil ou a reabilitação de reclusos, passaram por impulsionar a integração de pessoas com doenças mentais e a superação dos estigmas ligados a este género de enfermidades.

O P. Angelelli lamentou que as famílias com pessoas atingidas por problemas psiquiátricos se sintam «extremamente sós» e nem sempre disponham de redes sólidas de apoio, problemas que a Igreja pode ajudar a melhorar sempre que perceba que a fé não tem todas as respostas.

«Este é um grande risco e um grande erro», apontou o responsável, que foi capelão num hospital público. «Há muitas instituições laicas que oferecem bons programas de tratamento. A questão é entender que ninguém pode fazê-lo sozinho, que ninguém tem o remédio ou a solução definitivas.»

É preciso assumir que «não há rivalidade nem distância a partir do momento em que haja respeito pelos papéis» tanto da medicina como da Igreja, vincou o P. Angelelli.

«Certos tipos de pessoas estão a converter-se numa periferia», apontou por seu lado o cardeal arcebispo de Agrigento, Francesco Montenegro. «Numa sociedade que opta por colocar à frente os seus “melhores” e deixar para trás os demais, estes começam a ser uma periferia, e é precisamente por esta razão que merecem atenção», alertou.

«O número de pessoas com problemas psiquiátricos está a aumentar e precisa da ajuda de todos», realçou o prelado, explicando que o trabalho da Igreja perante esta epidemia, que se estendeu a mais de 300 milhões de pessoas que, segundo a Organização Mundial de Saúde sofrem de depressão em todo o mundo, é não deixar que elas «se sintam sós numa sociedade que com frequência as marginaliza».


Cameron Doody
In Religión Digital
Publicado em 23.02.2018

domingo, 25 de fevereiro de 2018

2º Domingo do Tempo da Quaresma

EVANGELHO – Mc 9,2-10

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João
e subiu só com eles
para um lugar retirado num alto monte
e transfigurou-Se diante deles.
As suas vestes tornaram-se resplandecentes,
de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra
as poderia assim branquear.
Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus.
Pedro tomou a palavra e disse a Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias».
Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados.
Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra
e da nuvem fez-se ouvir uma voz:
«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».
De repente, olhando em redor,
não viram mais ninguém,
a não ser Jesus, sozinho com eles.
Ao descerem do monte,
Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém
o que tinham visto,
enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos.
Eles guardaram a recomendação,
mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Pensamentos Impensados

Bicharada
O meu agregado familiar consta, além de mim, de duas aranhas, cinco moscas e um número incontável de ácaros.

Famílias
Adão foi um grande estudioso de genealogia.

Introdução do queque em Inglaterra
Quando D. Catarina de Bragança chegou a Inglaterra, Carlos II recebeu-a com um how are you?
D.Catarina disse: Queque eu digo?
Estava introduzido o queque.

Trabalheiras
O que era o Santo Ofício? Era a carpintaria praticada por S. José.

Destinos
Seca Severa é o nosso fado.

Adoeça com dignidade
Prefira os hospitais particulares, as melhores macas aos melhores preços.

Coisas do Lineu
Chamar a um bicho cefalópode, quando se está mesmo a ver que é um polvo, não tem pés nem cabeça.

Rectificação da História
Adão, como já aqui foi referido, não tinha umbigo; aquele buraco com que o representam deve-se a uma pega de caras a um unicórnio.

SdB (I)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Poemas para quem sabe a quem se destinam

Sísifo

Recomeça,
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

***

Poema do Fecho Éclair

Filipe II
tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro
com pedras rubis.
Cingia a cintura
com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.

António Gedeão

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Da curiosidade


Em 1933, Patrick Leigh Fermor encetou uma viagem a pé que o levaria de Roterdão a Constantinopla. Definira regras específicas para a viagem, uma das quais passava por nunca fazer de comboio, autocarro ou carro, uma distância superior àquela que faria a pé. Ir a pé é ir a pé e, embora haja motivos que possam levar à necessidade de apanhar uma boleia, esses motivos não devem falsear a intenção primária da viagem. Leigh Fermor tinha um casaco, umas botas resistentes, uma mochila (com peças de roupa, caderno e lápis e, extraordinário! um ou outro livro de poesia) e um bordão de peregrino. E fez-se à estrada até Constantinopla.

Este parágrafo é meu, pelo que me cito a mim próprio, o que não sei se é bom. Mas entusiasmo-me e mantenho-me na auto-citação: Leigh Fermor começou culto - citava Horácio em Latim, sabia tudo sobre Berlim sem nunca ter estado em Berlim, discorria sobre obras de arte ou História - mas acabou curioso, pelo que a curiosidade foi o ponto de chegada, não o ponto de partida. Leigh Fermor cresceu enquanto andava, cresceu com os pés.

Há uma ideia luminosa por trás desta frase: a ideia de se começar culto e acabar curioso. E como há luminosidade, há avanço, não o inverso: ser-se culto é, portanto, ser-se menos que curioso, ainda que ser-se culto seja bom. Mas é melhor ser-se curioso. Ser-se coronel é bom, mas ser-se general é melhor, assumindo isto que ser-se militar, hoje, tem uma valência de dignidade que é superior à dignidade intrínseca ao corpo por baixo da farda. 

Divago. 

Ser-se culto é saber-se muito, mas pode ser, como é muito o meu caso, um exercício circense, igual ao daquelas pessoas que dizem palavras ao contrário ou fazem contas de multiplicar muito rapidamente. Sim, o ser-se culto implica interesse; mas o ser-se culto é favorecido pela memória. Retenho informação inútil - frases do Eça, letras de fados, pormenores de tempos passados. Ser-se culto é ouvir (e ler é ouvir) e fixar. Quando se é mais velho e se viu já uma parte do mundo (o que está na figura, pontilhado a encarnado, e o outro, que não se vê com os olhos), a cultura permite-nos juntar um verbo: relacionar. Ouvimos, fixamos, relacionamos. Percebemos que tudo - ou quase tudo - se pode ligar, comparar, unir.

Porém, ser-se curioso é mais; é estar aberto à novidade, é arriscar no fracasso de numa noite preenchida com um concerto maçador, é encontrar o encanto dos espaços desconhecidos, não dos familiares. É procurá-los, não porque sejam bonitos ou interessantes, mas porque são desconhecidos; ser-se curioso é dar aos olhos a possibilidade de se abrirem de espanto, quando os olhos dos outros (até os dos cultos...) se abrem num alarde de certeza. Ser curioso é usar o ponto de interrogação até que a tinta se esgote ou a voz nos doa; ser-se curioso é reconhecer na ignorância um ponto de partida, não uma dimensão de vergonha. 

A peruana Yma Sumac fez do exotismo a sua marca. Autodidacta, desenvolveu uma voz capaz de chegar às quatro oitavas, quando a maioria dos cantores apenas atinge as duas. Ela sou eu a lembrar dispersamente os versos do Carlos Conde, o prefácio de Eurico, o Presbítero que li depois do tempo em que o devia ter feito, a rir-me com amigos sobre a relíquia que o Raposão trouxe da terra santa, e que tinha odor a sensualidade e não a martírio, ou a cantar tangos com se fosse do mundo onde os cantam. 

A cultura é circo; a curiosidade é arrojo. Que eu, e os que me rodeiam, seja menos aquele, para ser mais este.

JdB 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Disto, mas também de outros devaneios

Celebrou-se, no passado dia 15 de Fevereiro, o dia internacional da criança com cancro. Foi dia de artigos em jornais, de visita do Presidente da República, de uma ou outra notícia. E foi dia - por isso aqui estou - de fixar aspectos soltos da temática e de os trazer à vossa partilha.

***

A 16 de Setembro de 2008, vivia eu uns intensos dois meses no Zimbabwe, foi-me dada a oportunidade de visitar um grande hospital de Harare. Não sei se percorri corredores, se subi escadas ou se atravessei portas. Sei, isso sim, que desci até uma espécie de inferno que se intitulava, mesmo que não se intitulasse assim, ala das crianças com cancro. Uma ala destas é sempre uma visão de uma espécie de inferno, seja no Zimbabwe, onde nada se construía a partir de nada, ou do Canadá, onde há tudo para se fazer muito, desde que ao alcance do génio e da vontade humanas. Talvez no inferno estejam só os pecadores que não quiseram arrepender-se. Ali, naquela como noutras alas de outros países, o inferno advém da injustiça mais cruel - crianças com doenças que eram vistas como de velhos. Em África, tudo isto assume uma proporção que torna as nossas queixas sobre os hospitais portugueses uma obscenidade de burguesismo.

Fica o link (http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.pt/2008/09/sade-que-no-se-deseja.html) para o caso de alguém querer começar o dia com a visão que nos faz desejar ser ceguinhos (olhar ceguinho de choro, dizia o José Régio num das mais bonitas frases da poesia portuguesa) mas também com a visão que nos faz querer fazer algo mais pelo nosso próximo

(é verdade que o nosso próximo é sempre o mais próximo, mas por vezes devia ser alguém próximo mas desconhecido, que nos tire da zona de conforto)

Em querendo começar o dia com um outro nó no estômago, vejam o video abaixo, que me mandaram caprichosamente no dia 15 de Fevereiro, sobre o inferno que eu vi. Mas também sobre a Kidzcan, a Acreditar do Zimbabwe, de cuja responsável recebi um abraço forte enquanto ela me dizia que eu era um anjo, não se lembrando que não sou, mas que tenho, e que por isso é que lhe dava aquele abraço chorado e sentido. 




O assunto não se esgota aqui, e por isso continuo mais ligeiro. Dia 15 de Fevereiro tive o grato prazer de ouvir Ângelo Felgueiras, o homem que foi ao Pólo Sul, que lá pôs uma bandeira da Acreditar e que  nos deu um cheque bom e generoso. Falou aos nossos amigos que venceram a luta contra o cancro, elogiou a tenacidade deles (diminuindo a sua própria) e contou aspectos da viagem. E aqui é que as estradas se bifurcam: enquanto as pessoas normais (sim, isso) lhe perguntam pormenores práticos - como é puxar um trenó, quantos quilos disto ou daquilo, como cumpriam necessidades fisiológicas, eu só quero saber em que pensou ele no deserto gelado, se o deserto - o gelado ou o outro - é, de facto o local de encontro com Deus (não sei se ele é crente), o que significa imensidão, como se faz para estar em casa, ainda que longe de casa...

Nota final: ontem, eu e mais 15 colegas escrevemos a nossa definição de sublime e demos alguns exemplos de coisas sublimes.  Os exemplos dos meus colegas foram todos tangíveis: a música dos Pink Floyd, o começo do livro Lolita, o quadro deste ou daquele pintor, neve no campo ao amanhecer. Eu - sempre eu, com esta mania da originalidade - fui o único que dei um exemplo intangível de sublimidade: duas pessoas que se entendem perfeitamente numa multidão, sem trocar uma palavra. 

Devaneios...

JdB

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Textos dos dias que correm

Roma, Maio de 2011

A solidão necessária

«Uma só coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir para dentro de si e não encontrar ninguém durante horas: a isto é preciso chegar.

Estar só como está só a criança. Se nos aproximamos de uma criança absorta num jogo ou na exploração de um objeto, tem-se repentinamente da sua parte uma reação brusca: ele gosta de estar só consigo próprio, com as suas fantasias, os seus arabescos gestuais e mentais.

Depois, quando cresce, perde esta capacidade de estar consigo próprio e começa, sim, a vida em companhia, mas também a lógica do bando e do rumor de fundo, uma espécie de distração permanente do silêncio. Desta maneira perde-se a possibilidade de se encontrar a si próprio, de escutar-se, de penetrar no secreto da consciência.»

É isto que o grande poeta austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926) evoca numa das suas “Cartas a um jovem poeta”. Estar só contém em si o germe da reflexão, da maturação, da fineza espiritual, da própria contemplação de fé.

Infelizmente é um exercício que desapareceu do horizonte educativo e das práticas quotidianas, inclusive dos adultos. É assim que sobe o grau da superficialidade, da irritabilidade, da banalidade e da indiferença.

O silêncio para «ir para dentro de si» é uma espécie de dieta da alma que nos purifica das misérias, nos eleva das coisas, nos liberta do tagarelar, nos despoja das realidades inúteis.

Mas atenção: ainda que sejam parecidos exteriormente, a verdadeira solidão não é isolamento, porque este é uma prisão da alma e um terreno onde pode florescer a erva daninha da infelicidade ou acontecer a morte do amor.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Publicado em 15.02.2018

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Do globo reflector

M. C. Escher

Não sou muito dado a visitas guiadas, e essa característica já me garantiu graçolas ou críticas. As pessoas lêem o meu ar vagamente abstraído como desinteresse, mas não é. Acontece que a maior parte dos guias nos brinda com uma profusão de informações - datas, tendências, autores - que eu não consigo fixar. Nunca fui dado a pormenores, tenho dificuldades em fixá-los e, por isso, acho preferível olhar para um conjunto de obras e perceber uma atmosfera, uma mancha, uma impressão. Não fixo de quem é este ou aquele quadro, não decoro as datas. Apanho uma ideia geral - e não quero mais do que isso.

Vem este intróito a propósito do quadro acima, constante de uma exposição sobre M. C. Escher que recomendo fortemente, e que está patente no Museu de Arte Popular até fins de Maio, parece-me. Em frente a este quadro ouvi a explicação dada por um telefone que reproduzia o que teria dito o guia. Não me lembro do que disse, pelo que não sei se serei original no raciocínio que segue.

Do conjunto de dezenas de obras, esta foi uma das que mais apreciei, embora outras houvesse mais "criativas", nas quais não sabemos se as escadas sobem ou descem, porque parecem fazer o mesmo simultaneamente. Mas esta dá azo a um devaneio: o que vemos com os nossos olhos é inferior àquilo que vemos reflectido através dos olhos dos outros. Ou seja, o espelho reflecte o meu mundo, enquanto eu só vejo o espelho.

Não sei que explicação M. C. Escher deu a este quadro, e não fixo, distraído que sou nestas coisas, o que o guia disse através de um telefone moderno. Mas talvez a ideia principal seja a da necessidade de vermos o mundo através de uma imagem reflectida: a opinião do outro, a partilha do outro, a ideia do outro. Quando Escher olhou para o globo só viu o globo. Mas depois viu melhor, mais atento - talvez até tenha visto com os olhos que temos nos ouvidos, e não só no coração como diria uma certa raposa. E nesse minuto, com todos os sentidos atentos - apenas os sentidos que bebem no / do exterior, é certo - viu Escher, que é ver-se a si próprio, viu quadros, viu um conjunto de sofás e cadeiras. Os olhos do globo mostraram a Escher o mundo que era dele, enquanto Escher só via o globo.

Não somos nada sem outro; talvez não sejamos nada sem o outro, e cada um é livre de escolher esse outro significativo - o significant other, uma expressão adulterada pelo mundo moderno que lhe inclui parceiro, animal de companhia, cônjuge ou companheiro de sacramento. Olhar é ver dotado de alma; mas ver reflectido é discernir mais, porque é ver o nosso mundo todo, é ver o que está por trás de nós como se tivesse à nossa frente. M. C. Escher sabia o que fazia.

Onde está o meu globo?

JdB


domingo, 18 de fevereiro de 2018

1º Domingo do Tempo da Quaresma

EVANGELHO – Mc 1,12-15

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto.
Jesus esteve no deserto quarenta dias
e era tentado por Satanás.
Vivia com os animais selvagens
e os Anjos serviam-n’O.
Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a pregar o Evangelho, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo
e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Pensamentos Impensados

Sic...lismo
Holandês volta ao Algarve e encontra relógio.

Falem grego
Enquanto o Benfica persegue o penta, o F. C. Porto tem um que lhe deu o Liverpool.

Aforismos
Há filhos e há enteados; Jorge Jesus é fino e despenteado.

Hinos
Internacional - Avante oh vítimas da fome.
Nacional - Avante oh vítimas do fisco.

Leis
A Lei da Paridade é injusta para os homens: estes não podem parir.

Justiça à portuguesa
Ninguém sabe o que aconteceu ao Caim por ter morto o irmão; o processo deve ter sido arquivado.

Pausa
A prisão de ventre é uma pausa nas lutas intestinas.

SdB (I)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Do ADN



Carlos é cubano. Quando lhe perguntam o que não queria ser, se lhe detectassem as origens, era dominicano, argentino, francês. Quando lhe analisam o ADN, e recuam dois mil anos, Carlos percebe que tem "sangue" de países que não sabe o que são - não é não saber onde ficam, é não conhecer sequer a palavra. 

Carlos está pendurado numa ignorância legítima - a de que, olhando para a cor da pele, é dali de onde é, talvez como um bocadinho de algo parecido, nunca nada radicalmente diferente, menos ainda de locais cuja palavra é um neologismo no vocabulário dele. Entre a certeza, o gosto e um misto de desilusão e emoção há um fio de cabelo. É assim com a nossa genealogia. Falarmos numa característica que é muito da "nossa" família pode ser uma ilusão potencialmente destruidora. Todo o nosso mundo genealógico está assente em algo fino, que é sermos filhos de quem somos, que eram filhos de quem eram, que eram filhos de quem eram e assim sucessivamente. Só que, e este "só que" é mais frequente do que poderia parecer, há alguém, nesta corrente familiar, que não é filho de alguém, mas filho de outro alguém - um criado, uma criada, uma prima, um desconhecido. 

A nossa genealogia, como a genealogia geográfica do Carlos, pode não ser mais do que um desejo. Sermos filhos de, que era filho de que, era filho de e que, por isso nos torna descendentes de um papa, de um santo, de um pirata do mar báltico ou de uma princesa egípcia. Tudo se esfuma com uma análise de ADN - um bocado de cuspo arrastado por um esfregaço ou vertido num tubo de ensaio, pode ser o fim de uma ilusão - não somos descendentes de um rei, mas talvez do bobo que animava o rei... No caso do Carlos, ser descendente do que não sabia que existia.

JdB

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Vai um gin do Peter's?

COMO SE CHEGA A TERRORISTA-SUICIDA? UM FILME ALEMÃO PÕE O DEDO NA FERIDA

Chega-nos do coração da Alemanha um filme que transpõe para a tela o livro de um alemão dos quatro costados, nascido uns meses antes da II Guerra, em Maio de 1939, em Hamburgo e membro do Júri do Festival de Berlim - Hark Bohm. O realizador e co-argumentista é outro alemão, mas de pais turcos - Fatih Akin (1973-  ) - nascido na mesma cidade portuária alemã.



Em Portugal, adoptou-se um título menos feliz, de toque novelesco - "UMA MULHER NÃO CHORA"(1) - focado na legítima ânsia de justiça da protagonista - Katja. No Brasil, encontrou-se uma expressão mais forte: "EM PEDAÇOS", ainda demasiado centrado no desgosto. 

É o título original alemão - "A PARTIR DO NADA" (Aus dem Nichts) - que dá o arranque perfeito à intrincada narrativa, facilmente reduzível a mera denúncia da nova vaga racista que aumentou na Europa, quando se viu confrontada com o fluxo interminável de refugiados. Especialmente desafiador para a Alemanha, o país sonhado por quantos desembarcam no continente. Como explicava uma habitante da periferia da antiga URSS: ansiava por mudar-se para o colosso germânico, porque ali reinava a ordem, a previsibilidade. Estranho serem conceitos tão desvalorizados pela maioria dos europeus, que dá por adquirida toda a moldura de Estado de Direito que ainda prevalece no Ocidental (até ver). Porém, é miragem inatingível noutras latitudes, onde reina uma desordeira primitiva e boçal, baseada na lei do mais forte. Fogem disso e da guerra, aplicação prática da tal lei do mais forte, esses proscritos do mundo dos ricos.

Tendo por pano de fundo a dor limite de Katja, é o estado de espírito de uma Europa parcialmente em pedaços que acaba por fluir no ecrã. Gente de ânimo frágil, em contínua perda de laços afectivos estáveis e profundos. Quantos mortos-vivos por ali circulam, submergidos num dia-a-dia arrastado, desprovido de esperança. Quanta agressividade entre pais e filhos. Quanta distância entre amigos, também eles pouco encontrados. Ironicamente, a excepção é o advogado amigo da protagonista - um alemão de origem estrangeira. As feições e o nome não deixam margem para equívocos: Danilo Fava. 

Ao lado de Katja, era um sustentáculo amigo e profissional. 

A contrastar com essa maioria desmotivada, sobressaem as minorias fundamentalistas, estranhamente motivadas, que insistem em impor a toda a comunidade uma agenda destrutiva sem escrúpulos nem obstáculos. Sobeja ainda o pequeno enclave dos oportunistas obcecados pelo dinheiro e um certo carreirismo calculista, no filme ilustrado pelo assanhado advogado de defesa. Entalada entre terroristas, geralmente muçulmanos, e grupúsculos xenófobos violentos, a sociedade resiste a custo, desentusiasmada e meia perdida, apenas fincada nas leis e na ordem que as instituições do Estado ainda podem proporcionar. Enquanto o medo imobiliza quase todos, uns poucos replicam os mesmos métodos cegos e exacerbados dos extremistas de que foram vítimas, numa espiral que se autoalimenta. Nada como a raiva para se desembocar rapidamente no ódio.

A progressão negativa dos 4 D's é conhecida e tende a evoluir da pior maneira, se não houver nada de francamente positivo para contrapor a essa cavalgada derrotista. Vale a pena recordá-la: do Desgosto tende-se para a Decepção; daí, avança-se para a Desistência; e, se deixada sem freio, cede-se ao Desespero. Está formado o caldo onde medram as opções radicais, que reclamam gestos sanguinários. Os dois D's finais são os mais escorregadios, pois já se situam no terreno da vontade. 

No filme, Katja oscila entre uma amálgama de sentimentos dilacerantes, açoitados por desilusões em cadeia, que ajudam a explicar a decisão final. Tornara-se surda ao saudável contraditório, privilegiando antes as soluções sem-retorno. Trágico, mas menos raro do que gostaríamos. 

Aqui chegados [sem querer estragar o suspense do filme], surge a dúvida sobre a diferença entre uma caucasiana desesperada e qualquer imigrante-marginal que embarca facilmente em derivas kamikazes. Naturalmente, fazendo jus às hesitações que a assaltam, até vingar uma solução mortífera, mas com a lealdade possível, segundo um entendimento inquinado pela combinação explosiva de frustração e fúria. Viver tornara-se um fardo.  

É significativo o argumento focar-se naquela europeia muito loira, muito alta e esguia - exemplo perfeito da ocidental nada e criada no Primeiro Mundo. Era por mulheres desta estirpe que se batia a campanha nazi de apuramento da raça. O realizador percebeu-o bem e partiu da mesma base para descortinar a massa de que são feitas estas alemãs bonitas, livres, incrivelmente modernas, com um toque de rebeldia saleroso. Que sonhos as movem? O que faz bater o seu coração?  Quão tentador será presumirem-se superiores? Estarão fadadas para rejeitar outras raças, gentes de outros usos e costumes? 

Actriz e ex-modelo, nascida em 1976.

A personagem é desempenhada com mestria pela actriz alemã Diane Kruger, paradigma da abertura à diferença, como provou o casamento com um turco. Somava ainda uma faceta aventureira, pois esse turco tinha sido traficante de droga junto de universitários, até ser forçado a cumprir uma pena de prisão de quatro anos. Aliás, o filme abre com o casamento celebrado no cárcere. Num salto temporal de vários anos, deparamo-nos com um casal feliz, já com um filho amoroso, de óculos à Harry Porter - o Rocco. Tudo corria bem e o marido geria com talento uma empresa de viagens. Longe iam os comportamentos desviantes. 


Foi azar o alvo do atentado ter sido a agência do marido da alemã gira, que se tinha cruzado com a assassina e a bicicleta onde se escondia bomba. Tão germânica quanto ela!  Confirma-se, depois, quanto aquele racismo de inspiração neo-nazi funcionava como pobre argumentário pseudo-filosófico para alguém se sentir autorizado - talvez até "mandatado" - a decidir sobre o direito à vida. Sempre e só a vida dos outros, dispondo-se a assassinar quem chumbasse no teste.       

Sem dificuldade, a história aproxima-nos da perspectiva de Katja, suscitando simpatia, mesmo a quem desaprecie tatuagens, casamento com ex-presidiário, drogas, ainda que leves. Intencionalmente, a sua casa é moderníssima, imersa num arvoredo pacificador. As vidraças gigantescas e um traçado arquitectónico sofisticado ajudam a desmontar os preconceitos fáceis. Cultura, arte, bom gosto ou sabedoria desconhecem distinções de qualquer ordem, sejam étnicas, etárias, de sexo, poder de compra ou outra. Apenas se constata onde está, mas não onde despontará. Surge com a mesma liberdade incontível daquele Vento que sopra onde quer, muitas vezes em quem menos se espera…

Quanto mais o argumento flui, mais nos atinge a dor que brota da ferida insarável da protagonista. As recordações dos bons tempos das selfies e dos pequenos vídeos em família aumentam a amargura do Nada que a corroía, desde o atentado. Naquela hora de trevas, a corrida desenfreada de Katja ao encontro dos escombros, temendo o pior e fugindo à polícia, que não queria vivalma na zona atingida, dão bem a dimensão de um sofrimento sem consolo possível. 

Travada na zona interdita, mas igualmente amparada por um corpo policial humano.

Depois de derramado o primeiro sangue inocente, a vertigem sanguinária adensa-se continuamente: além da tentativa de suicídio com golpes nos pulsos que tingem por completo a água do banho, também a tatuagem maior leva um acrescento cor de sangue vivo. Percebemos a obsessão e tememos pela capacidade de vir a condicionar o rumo dos acontecimentos. 

Apesar de tudo o que desbravamos ao longo do filme, ficam por responder as perguntas mais misteriosas sobre os rumos de vida de uns e de outros. Como podem desembocar nos extremos opostos gente que partilha a mesma cultura? Onde Katja era exemplo de abertura em estilo alternativo, os compatriotas neo-nazis encarnavam a intolerância xenófoba, eivada de orgulho e violência. 

No fundo, embatemos de frente no mistério insondável da liberdade humana, que irrompe com frontalidade, bem à alemã. Serve de exemplo o testemunho desassombrado do pai que depõe em tribunal contra o filho transviado. Não percebia o que o fizera abraçar um ideário que o transformara num serial killer vulgar e odioso, como redundam todos. Outro exemplo de sinal positivo encontra-se no apoio generoso e incansável do advogado de defesa de Katja, que se bate pela justiça com as armas que uma democracia madura oferece… nem sempre eficazes. 

A obra recente de Akin termina em tragédia, numa praia grega batida pelo sol sob a copa aconchegante de um pinheiro manso centenário. A beleza suave da paisagem aumenta o drama de um desfecho evitável. A carnificina despoletada na Alemanha estendera metástases até ao sul da Europa. O ajuste de contas, em que todos saíram perdedores, resultou no último gesto de uma mãe mergulhada num vazio tenebroso, de onde perdera a vontade de se libertar. Nem o telefonema acalentador do amigo advogado a consegue resgatar daquele trilho justiceiro impregnado de morte. 

Face a um niilismo tão exasperado e enfurecido, o racismo ajuda, e muito, a atear uma fogueira que arde, há muitos anos, sem se ver. Sem se querer ver! Quo Vadis Europa? Quando haverá coragem para reconhecer e inverter a deriva arriscada em que nos deixámos embalar?

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)


(1) FICHA TÉCNICA:
Título original: "AUS DEM NICHTS" (A partir do nada)
Título traduzido em Portugal: "UMA MULHER NÃO CHORA"
Realização: Fatih Akin
Argumento: Hark Bohm (autor),  Fatih Akin (adaptação cinematográfica)
Banda Sonora original Josh Homme
Duração: 106 min.
  Ano:        2017
Países: Alemanha e França 
Línguas faladas: Alemão, grego e inglês
Elenco:           Diane Kruger (Katja) 
                                                Numan Acar (marido de K., Nuri Sekerci)
                                                Rafael Santana (o filho, Rocco Sekerci)
                                                Denis Moschitto (o advogado amigo, Danilo Fava)
                                                etc.
Local das filmagens: Costa grega; Alemanha, sobretudo a cidade de Hamburgo.
Prémios: Globo de Ouro e Palma de Ouro como Melhor Filme Estrangeiro; galardão do Critics' Choice Award. Diane Kruger arrecadou vários prémios de Melhor Actriz. 




quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Duas Últimas

O Evangelho de São Marcos do último Domingo, relatando a cura do leproso por Jesus, deu-me mais uma vez a oportunidade de relembrar um Santo cuja vida muito me impressiona, o Padre Damião, Jozef de Veuster por batismo, missionário católico belga nascido na Flandres em 1840.

Damião de Molokai, como também é chamado, chegou a Honolulu, Havai, com 24 anos. Poucos meses depois da chegada, foi ordenado sacerdote, passando a ser membro da Congregação dos Sagrados Corações.

O arquipélago do Havai era à época um reino "teoricamente" independente - o primeiro estado indígena não europeu a sê-lo, até 1893, quando o reino foi derrubado, tendo posteriormente sido anexado pelos EUA, que nunca reconheceram a independência, em 1898 - com graves problemas sanitários resultantes de doenças trazidas pelos europeus e que os locais desconheciam.

A lepra era uma delas, por certo a mais terrível. Os leprosos eram segregados e enviados para uma ilha do arquipélago chamada Molokai, uma colónia da morte onde não será difícil imaginar as condições de degradação, sofrimento e desordem em que as pessoas viviam.

Voluntariando-se face a um apelo do seu vigário apostólico, e conhecendo naturalmente os enormes riscos que corria, Damião chegou a Molokai em 1873. A sua obra na ilha, em cerca de 16 anos - morreu com a doença em 1889, com 49 anos - de (re)dignificação das condições gerais de vida dos seus habitantes, de promoção de actividades e da instrução, de apoio espiritual, é um exemplo absolutamente marcante de uma vida que é oferecida em prol dos outros, dos mais desfavorecidos e excluídos, dos que de facto não têm ninguém.

Foi canonizado em 2009 pelo Papa Bento XVI.

Pessoas como o Padre Damião não haverá muitas, mas há-as em todos os tempos. Inclusive nos tempos actuais, em que as situações extremas a precisar de auxílio serão diferentes mas não serão seguramente menores.

Por falar em tempos actuais, deixo-vos com 2 músicas de que gosto especialmente do recente novo álbum de Sérgio Godinho, compositor e interprete nortenho que se perpetua no tempo!

Espero que gostem das escolhas.

fq



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Poemas para 3ªfeira de Carnaval

Um Homem e o seu Carnaval 

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

Carlos Drummond de Andrade (Brejo das Almas, 1934)

***

Soneto de Carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Pensamento Impensado

Trump de vento em pôpa (fotografia do Observador)
SdB (I)

Do sexo nos recasados

Foi com alegria altruísta que recebi a notícia, de que dei conta aqui na passada 5ªfeira, que o Patriarca estabelecera orientações para admissão de “recasados” aos sacramentos, em alguns casos. Se a memória não me falha, é a terceira diocese, depois de Viseu e Braga (não sei qual foi a primeira). 

A expressão alegria altruísta não é uma construção meramente evangélica. Perto de mim, alguns amigos verão com bons olhos um caminho possível. Ou porque a declaração de nulidade não é aplicável, ou porque estes casais entendem não ir por esse caminho, a Igreja abre portas a um percurso de discernimento que, nalguns casos, poderá dar acesso a dois sacramentos que estão vedados aos casais recasados: a reconciliação e a comunhão. Como já aqui escrevi uma vez, estes casais de que sou amigos merecem-no: depois de primeiras relações (de um, de outro ou de ambos) que não correram bem, as segundas relações impuseram-se como a relação mais forte e mais duradoura: nasceram filhos, educaram-se filhos, lutou-se pelo projecto com unhas e dentes, não se desistiu, manteve-se uma prática religiosa com uma dimensão de dor, porque privada de uma parte sacramental importante e integral. Alguns casais optaram por seguir a consciência e comungam; outros optaram pela regra, e não o fazem.

A notícia deu azo a muitas notícias (e a repetição é propositada). Os jornalistas, essa classe profissional que tem tanto de elevação como de baixeza, pegou por aquilo que vende: não sendo o assassinato à machadada, não sendo a pequena corrupção do autarca desconhecido, não sendo a infidelidade do actor de telenovela, sexo e Igreja Católica é uma combinação que estimula os sentimentos mais desinteressantes, levianos - mas também reles - da opinião pública. Por outro lado, a Igreja (à qual pertenço e quero pertencer) tem uma capacidade ilimitada para se meter por caminhos difíceis quando fala do corpo. São séculos e séculos de diabolização do sexo ou do prazer, como se a satisfação que um casal sente na intimidade do acto sexual fosse infinitamente mais pecaminosa do que o prazer que esse mesmo casal sentirá a deglutir uma chanfana de cabra ou uma cabeça de garoupa. 

Sempre que falo ou penso neste tema dos recasados vem-me à ideia dois ou três casais próximos: não lhes conhecendo, obviamente, a vida íntima, estou certo de que são iguais a todos os outros. A intimidade serviu para o aumento da família, mas a intimidade serviu também para o prazer. Deitaram-se e beijaram-se e acariciaram-se. Talvez uma ou outra vez tivesse sido um acto mais carnal, porque somos seres humanos com necessidades; mas, estou certo, na maior parte das vezes foi um acto de amor, praticado por duas pessoas que se amam e que prometeram, na intimidade das suas consciências e frente a Deus sem um padre como testemunha, defender aquele (segundo) projecto contra todos os inimigos. Dar-se uma conotação negativa à vida sexual é dar-se uma conotação negativa à necessidade de equilíbrio de casais mais ou menos jovens, na força da vida ou num certo ocaso da vida. 

A Igreja lida mal com o corpo, fruto de uma tradição de séculos. O mundo mudou. Sexo é uma palavra com quatro letras, prazer tem mais duas. Pode pecar-se mais frente a uma parrilhada de marisco do que frente ao corpo desnudo da pessoa de quem se ama. Os jornalistas querem sangue, e o sangue está na relação da Igreja com o sexo, na incoerência do que defende e nos telhados de vidro que tem. Sou católico e, nalguns casos, lamento ver a Igreja em que acredito defender o indefensável - não porque deva estar em cima da onda mas porque, de facto, há posições que fazem pouco sentido hoje em dia. Com alguma classe jornalística que temos, a Igreja pôs-se a jeito, mesmo que as notícias de alguns jornais pecassem pela pela superficialidade.

Espero que este caminho seja irreversível, mesmo sabendo que deixa fracturas pelo caminho, que expõe o Papa a correntes muito antagonistas, como se nós, membros desta Igreja, nos esquecêssemos da presença do Espírito Santo na eleição, o que transforma aquele processo não 100% controlável pela vontade humana. E espero, daqui a uma semana ou daqui a um ano, ver alguns casais, de quem sou amigo, a comungar. E que a vida íntima deles seja a que entenderem ter, que não é isso que interrompe o caminho da santidade. 

JdB       

domingo, 11 de fevereiro de 2018

6º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 1 ,40-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
veio ter com Jesus um leproso.
Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe:
«Se quiseres, podes curar-me».
Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse:
«Quero: fica limpo».
No mesmo instante o deixou a lepra
e ele ficou limpo.
Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem:
«Não digas nada a ninguém,
mas vai mostrar-te ao sacerdote
e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou,
para lhes servir de testemunho».
Ele, porém, logo que partiu,
começou a apregoar e a divulgar o que acontecera,
e assim, Jesus já não podia entrar abertamente
em nenhuma cidade.
Ficava fora, em lugares desertos,
e vinham ter com Ele de toda a parte.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Pensamentos Impensados

Apetites
Estava com fome, comi duas cream crackers e fiquei saciado. Ainda dizem que o crime não compensa.

Leis
Os espanhóis com inveja de nós termos a operação LEX vão criar a Operación ABANICO.

Mostras
Tenho uma colecção de penas e vou expô-las numa moldura penal.

Paladares
O sabor não ocupa lugar.

Ortopedias
O joelho direito é sempre um joelho direito, mesmo quando está flectido.

Paternidades
Ficou célebre por ser pai do António Vieira.

Resquícios
Fiz umas análises e uma das informções era vestígios de sangue. Já não é mau, para quem deu sangue 39 vezes.

SdB (I)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Dos mistérios



Volto ao tema e ao filme, pois sou um descrente da ideia de que não podemos voltar aos sítios onde fomos felizes. Sou feliz a ver o filme, não pelo filme em si, mas porque vejo a Gwyneth Paltrow e oiço, por duas vezes (para meu grande gáudio imerecido) a frase redentora que hoje aqui me traz. Neste trecho que aqui apresento, é aos 1'30". Mas já fora antes, numa situação igualmente bicuda: I don't know, it's a mistery. Mistério, essa palavra que para os gregos significava cerimónia secreta.

Llorca, o malogrado poeta espanhol, entrou-me esta semana em casa pela pena sempre inquietante (para adjectivar benevolamente) de António Lobo Antunes. E cita ele o poeta: solo el misterio nos hace vivir. Sólo el misterio. O bom senso mandará que não se ligue levianamente Llorca a Shakespeare, embora não consiga dizer exactamente porquê. Só que, neste caso, ligo Llorca a uma frase de um personagem, pelo que serei perdoado pela minha ligação aparentemente impossível, hábito que fui adquirindo e que foi apreciado por quem achava, ingenuamente, que ler-me era aprender. Talvez fosse apenas aprender-me, e mesmo isso foi chão que deu uvas. 

Volto ao tema.

Por duas vezes o personagem do filme se confronta com situações aparentemente irresolúveis. E pelas mesmas duas vezes responde quando lhe perguntam como tudo se resolverá: não sei, é um mistério. E este personagem - digo eu, que não sei exactamente se existiu - leria Llorca uns séculos mais à frente, percebendo que era o tal mistério, o que resolvia tudo, que justificava a vida. Melhor, que era a única motivação para a vida. 

A confiança no mistério da vida é o exercício da confiança na vida. A frase não é uma espécie de anagrama incompleto, apenas um jogo de palavras que exprime o essencial, aqui e agora. O personagem não sabe como tudo se resolve, mas o facto é que se resolve. Há peça, quando parecia não haver dinheiro, e há Julieta, não um canastrão com voz aflautada e barba disfarçada, mas a Gwyneth Paltrow, essa mulher cujo encanto é, para mim, uma cerimónia secreta. Se ela é muito bonita? Não sei - é melhor. 

A vida é um mistério - porque nos apaixonamos, porque nos desapaixonamos, como resolvemos alguns problemas complexos e bloqueamos a resolução de outros mais. Tuo aquilo porque vale a pena viver é esse mistério, e nada mais do que o mistério. Como qualquer mortal, há alturas em que o mistério é uma montanha inexpugnável, e o que eu queria, mesmo, era saber o caminho que me leva à glória. E não, não seria com a Gwyneth, entretida a ser odiada pela comunidade dos seus pares.

JdB  

   

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Notícias dos dias que correm *

Patriarca estabelece orientações para admissão de “recasados” aos sacramentos em alguns casos

O Patriarcado de Lisboa dispõe a partir desta terça-feira de orientações que permitem, nalguns casos que os católicos em situação matrimonial irregular possam aceder aos sacramentos.

Depois de Braga, Viseu e Aveiro, agora é Lisboa que publica normas para regular o regresso aos sacramentos de pessoas em situação irregular, no seguimento da exortação apostólica "Amoris Laetitia", do Papa Francisco.

Nas normas publicadas esta terça-feira no site do Patriarcado, D. Manuel Clemente sublinha que estas normas não devem ser entendidas como uma abertura sem restrições e universal, recordando que o próprio Papa diz que se deve aplicar apenas a “certos casos” e que coloca a possibilidade na condicional, após um processo de discernimento.

Para além da própria "Amoris Laetitia", que no já famoso rodapé do seu ponto 351 fala na possibilidade de acesso aos sacramentos após o discernimento, D. Manuel Clemente baseia-se, nesta nota, na carta enviada por Francisco aos bispos da região pastoral de Buenos Aires, entretanto publicada como documento oficial do magistério e as indicações dadas pelo vigário-geral de Roma aos padres da sua diocese.

Aos fiéis do Patriarcado de Lisboa é feito o apelo a acompanhar as pessoas em situação irregular e “verificar atentamente a especificidade de cada caso” para ver, inclusivamente, se não será possível resolver a questão através do recurso ao tribunal eclesiástico, no caso de haver a possibilidade de declaração de nulidade do primeiro casamento.

De seguida, pede D. Manuel, deve ser proposto ao casal em situação irregular a possibilidade de viver em continência, isto é, sem a prática de relações sexuais, que a Igreja considera apenas serem adequadas num contexto de casamento. Contudo, caso nas situações em que isto não se apresenta como viável ou possível, deve-se “atender às circunstâncias excecionais e à possibilidade sacramental, em conformidade com a exortação apostólica e os documentos acima citados”.

Numa citação do documento da diocese de Roma, deixa-se claro que este processo de discernimento deve ser conduzido sempre por um confessor.

“Como deve ser entendida esta abertura? Certamente não no sentido de um acesso indiscriminado aos sacramentos, como por vezes acontece, mas de um discernimento que distinga adequadamente caso por caso. Quem pode decidir? (…) Não me parece que haja outra solução a não ser a do foro interno. De facto, o foro interno é o caminho favorável para abrir o coração às confidências mais íntimas e, se se tiver estabelecido no tempo uma relação de confiança com um confessor ou com um guia espiritual, é possível iniciar e desenvolver com ele um itinerário de conversão longo, paciente, feito de pequenos passos e de verificações progressivas. Portanto, não pode ser senão o confessor, a certa altura, na sua consciência, depois de muita reflexão e oração, a ter de assumir a responsabilidade perante Deus e o penitente, e pedir que o acesso aos sacramentos se faça de forma reservada”, lê-se.

Por fim, o patriarca recorda que esse regresso aos sacramentos, caso se dê, não seja visto como o fim do processo de discernimento, mas que este continue sempre no sentido de adequar “sempre mais a prática ao ideal matrimonial cristão e à maior coerência sacramental”.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Poemas dos dias que correm

Santiago de Compostela (?), Setembro 2014 


Exactidão

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá:
sentido do não-vivido
a que fica reduzido
o que, escolhido, não há.

Do imo do poder ser,
onde o não-sido se arrasta,
ouvi cadências crescer:
vaga música de ter,
na vida, quanto não basta -

quanto um sentido se entenda,
que nem verdade ou mentira.
(Que o que dele se aprenda
é como cobarde venda
para que a luz nos não fira.

Luz sem luz, brilho da treva
que tudo no fundo é;
e a certeza que se eleva
do fundo da própria treva,
de exacta que seja, é.)

Levam justiça consigo
as palavras que dissermos.
Por quanto sentido antigo,
nelas ficou por castigo
o futuro que tivermos.

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá.
É justo, injusto - o escolhido?
Como quereis que, vivido,
ele não seja o que será?

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

***

Antes do Nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o «de», o «aliás»,
o «o», o «porém» e o «que», esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado, in 'Bagagem'

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Pensamento Impensado

Mentirologia
Temperaturas nos zero graus; felizmente, para a semana, prevê-se o dobro.

SdB (I)

Duas Últimas

Tenho uma sugestão para as duas últimas, que são duas sugestões, de facto. Tem de ter mente aberta em relação às músicas. São duas que podem pôr-se de seguida, os genes comuns são óbvios mas tem graça a diferença. A primeira é uma gracinha que há-de achar graça; a segunda já não será tão óbvia, mas Dead Combo (e esta música em particular) é das melhores coisas que se tem feito na música portuguesa ultimamente. Opinião de leigo. Tenha mente aberta na segunda.

Foi com esta espécie de monólogo que um jovem profeta me abordou um dia destes. Depois disso já postei Roberto Carlos (o que provocou algum espanto...) mas agora aventuro-me. Assim sendo, se não gostarem reclamem, que eu encaminho a reclamação para quem de direito...

JdB



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Moleskine

Tratamentos
Um amigo da minha idade e cujo ar não é infantil, segue um tratamento no IPO. Esta 6ªfeira uma enfermeira dirigiu-se-lhe, admito que com competência e dedicação: o amiguinho vai almoçar? No dia em que fui à Câmara Municipal de Lisboa representar a Acreditar, a senhora da recepção, armada da sua maior simpatia, tratou-me por você. Um dia depois, um médico competente e jovem, armado também da sua maior disponibilidade, tratou o meu pai, com 92 anos, por você
As três histórias acima têm importância nula quando se fala de eficácia nos diversos serviços referidos: todos, na medida da sua esfera de actuação, foram irrepreensíveis. Mas não se trata um doente por amiguinho nem um senhor de 92 anos por você. Sobretudo quando há uma alternativa simples: o tratamento por senhor.  
Eu sei que estas histórias são velhas e desinteressantes, mas há um elemento de descortesia - não intencional - que é evitável. Porquê o você e o senhor João, ou senhor António quando nas cidades há uma tradição de tratamento pelo apelido?

***

Cinemateca
Almoço na Cinemateca com amigos, de pois de uma visita - que recomendo fortemente - à Fundação Medeiros e Almeida, pese embora não ter tido inveja por 99% das peças expostas. Tudo é muito bom - mas de um gosto que me é muito duvidoso. Regresso à Cinemateca. Há um grupo que chega depois de nós: num instante sentam-se numa mesa o Francisco Louçã, o José Manuel Pureza, o Fernando Rosas e a Caterina Martins, acompanhados de duas senhoras que não identifiquei. 
Duas notas para fechar a curiosidade: (i) um perigoso assassino (há 100 anos poderia ser um perigoso anarquista), com uma bomba só, tinha pela frente a enorme possibilidade de decapitar a clique pensante do Bloco de Esquerda. (ii) Confesso que quis escutar a conversa deste grupo. Não para descortinar segredos de Estado, mas para perceber de que falavam entre si: da conquista do poder, da alteração da lei laboral, da Mariana Mortágua ou, muito simplesmente, de sopas da Bimby, do último livro deste ou daquele escritor, ou das dificuldades conjugais de algum deles? Terá esta gente conversas ligeiras?

***

Buenos Aires, Maio 2017

Livros
Leio dois livros em simultâneo (normalmente não o faço, mas o tipo de livros que é permite-o): Crónicas: Imagens Proféticas e Outras (1º volume), de João Bénard da Costa, e Pó, Cinza e Recordações, de J. Rentes de Carvalho. O primeiro, como o próprio nome indica, é uma colectânea de crónicas publicadas no Público; o outro, um diário do escritor. 
Não comparo estilos. Vou presumir que J Bénard da Costa não era escritor, e J Rentes de Carvalho é. Por outro lado, nunca conheci nem um nem outro pessoalmente, tendo uma memória esbatida - se não mesmo nula - de alguma coisa que o director da Cinemateca tenha dito em televisão. J Rentes de Carvalho caracteriza-se várias vezes: pouco social, pouco paciente, apreciador da sua solidão. Bénard da Costa não se caracteriza. E no entanto, não seria preciso o escritor falar de si para se perceber o que é: a diarística revela secura, pouca emoção. Pelo contrário as crónicas de Bérnard da Costa têm algo de luminoso, fale ele e cinema ou de um quadro com que se cruzou em Itália. Tem uma escrita bonita e suave. Talvez a escrita revele o que ele era...

Exposição
Ao longo de um ano João Alvim, um amigo relativamente recente, pintou 18 retratos, sendo que um era de um amigo, e os outros 17 de amigos, também, mas comensais numa confraria que se junta uma vez por mês para almoçar. Não resisto a transcrever uma parte da texto que acompanha a exposição, intitulada "Do ver ao olhar, retratos", porque, de facto, pintar um retrato não é só pintar um retrato:  Ver é aquilo que no homem é mecânico. Olhar é discernir, perscrutar, interpretar. Do ver ao olhar, do animal ao ser humano, da máquina ao sentimento, a distância é a mesma. 
Retratar pode ser reproduzir com mestria: uma testa alta, um nariz adunco, umas orelhas assimétricas. A tela reproduz o que todos vemos. Mas retratar pode ser olhar para alguém e descobrir nesse alguém o visível e o invisível, fazer do rosto que sorri ou olha em frente não uma pessoa apenas, mas o lugar geométrico de humores, de felicidades e desejos, de angústias e memórias. Retratar pode ser só ver, mas também pode ser construir, decifrar. O artista pinta, não o que vê, mas o que descortina quando olha - encontra um traço de carácter onde outros vêem apenas uns olhos castanhos, percebe uma fragilidade onde outros detectam apenas uma boca bem desenhada.
O que une estes dezoito retratos? Um olhar imediato verá o óbvio: figuras masculinas, todas. Anatomias díspares, assemelhando-se, no entanto, naquilo que une a espécie humana. Dezoito pessoas que formam, na singularidade de cada quadro, um universo próprio, que estabelece com os outros um conjunto não inteiramente disjunto. Dos dezoito, dezassete juntam-se regularmente numa tertúlia a que chamaram "8 de Janeiro", unidos por factores diversos que agregam subconjuntos: passados partilhados, amizades duradouras, percursos académicos comuns, memórias de tempos e de lugares, que quase todos habitam no concelho de Cascais. Acima de tudo une-os, aos dezassete, o gosto da companhia mútua, o prazer da conversa e da gargalhada ou ainda, e sobretudo, esta ideia milenar de que à mesa de uma refeição não se envelhece. 
Desta exposição não constam dezoito retratos. Esta exposição compõe-se de dezoito olhares. Foi isso que fez o pintor, para quem o pincel e a tinta e a tela não foram mais do que extensões dos olhos e da alma com que viu cada um deles.  

JdB

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