segunda-feira, 31 de março de 2014

Vai um gin do Peter’s?

O premiado com o óscar do Melhor Filme Estrangeiro «A GRANDE BELEZA»(1), do italiano Paolo Sorrentino, é de uma acutilância incrível no retrato à Europa rica e ciosa dos seus pergaminhos, elitista, viciada no ócio e enfeitiçada por um esteticismo estéril, que a lançou numa onda de mundanidade hedonista. Uma parada perigosa, sobretudo para quem, enquanto pai, seja suposto transmitir uma mensagem de vida aos filhos. Apanha-se de mãos vazias e deixa-os à toa! Na película, isto é por demais evidente, com desfecho tremendo.


Pouco a ver com o segundo candidato ao Óscar – o filme dinamarquês «CAÇA». Este último corresponde a uma narrativa simples, bem contada, com uma trama directa, num confronto de personagens próximo dos contos infantis, entre bons e maus, apenas adensado por haver vítimas apanhadas numa teia inexpugnável e os agressores se aproximarem do inimputável… O que reduz, tragicamente, as possibilidades de esclarecimento dos equívocos ou correcção dos erros. Habilmente construída sobre os efeitos terríficos da alegada fantasia de uma pequenina, rapidamente degenera em calúnia. O cerco que se aperta em volta do acusado de pedofilia assume, então, contornos de pesadelo. O risco de o filme contribuir para a descredibilização das testemunhas directas dos assédios pedófilos é notório. Mas claro que vale o alerta para as consequências devastadoras do que poderá não passar de um boato. Na comparação com o filme premiado, a distância na complexidade do argumento e no desenho das personagens é gritante, pois no italiano, o duelo trava-se entre a efemeridade do tempo e o desafio da eternidade imperceptível, bem ilustrado na própria banda sonora, com intermezzos estratégicos entre o pop e um repertório exigente (e lindo) de música antiga e sacra.

Em Sorrentino, assistimos aos confrontos radicais e enigmáticos da existência humana, ainda mais do que no mestre Fellini, omnipresente em «A GRANDE BELEZA». Defrontam-se aqui: o mundo visível até ao burlesco com a profundidade quase ininteligível do mundo interior; o prazer tão imediato quanto fugaz com a abnegação em favor do próximo apostando num outro tempo que não conhece o ocaso; o diletantismo niilista com a coragem de acreditar na vida; o egocentrismo com o altruísmo. Resume-se ao despique entre o que se vê e o que só a alma sabe existir, desconfortavelmente imaterial, e que trava o combate mais feroz (compreensível, num italiano) ao contrapor 2 concepções de beleza algo inconciliáveis: a exterior, exemplificada por Roma e os seus dandies estetas versus a interior, exemplificada pelas crianças que brincam nos canteiros palacianos do colégio de freiras, pelas interrogações extremistas e angustiadas de um jovem rico à beira do desespero, pelo testemunho desconfortável da anciã missionária, pelos flash-backs confusos aos anos de juventude onde os grandes ideais pareciam possíveis.

Na afronta entre a fruição ociosa e o esforço, o exemplo dado não se restringe à Irmã velhinha que contracena no filme. Qualquer atleta ou estudante ou artista (os Rolling Stone são um óptimo exemplo) sabe que não se pode esquivar a uma disciplina rigorosa no presente para poder colher frutos, no futuro. É significativo que o cenário mais recorrente seja o Coliseu romano, magno vestígio do divertimento levado às últimas consequências, quando a vertigem da adrenalina fere a alma humana, insensibiliza-a e inebria-a num turbilhão sedento de novas emoções ad nauseam. A peça de teatro da actriz louca e oca junto a este grande monumento, fingindo densidade filosófica numa sequência encriptada de clichés ideológicos e isotéricos, esboroou-se na entrevista trocista de Jep Gambardella, curtindo com alguma crueldade o desfazer do mito. Parece que haverá nela uma alusão a uma actriz conhecida em Itália – Marina Ibramovic. Como o empresário misterioso e chique seu vizinho, que acaba preso, evoca o padrinho da Cosa Nostra – Messina Denaro. O próprio protagonista inspira-se no amigo do realizador, jornalista e ex-craque do râguebi, aquele jogo de brutos jogado por senhores – Giuseppe d’Avanzo, que morreu antes das filmagens terminarem.

Giuseppe d’Avanzo, que inspirou a figura de Gambarella

A generalidade das personagens, assumidamente protótipos humanos a desfilar perante a câmara e perante a vida, são a encarnação do esvaziamento humano no seio de uma das cidades que melhor exibe a matriz europeia judaico-cristã – Roma. Pois é no coração do antigo Império que Sorrentino nos mostra o estado regressivo da civilização ocidental. No final, a lista dos actores está mais associada a caricaturas do que a personagens com direito a nome: o turista oriental, a convidada de rosão, o dançarino, etc.


A busca legítima da Beleza, como marca indelével do Ser – proeminente no povo italiano e no cenário de sonho que é Roma – atira-nos para a voragem de entretenimento de um grupelho próximo do jet-set, uma certa burguesia endinheirada e frívola, maximamente blasée, vaidosa mas desinteressada da vida, que se entretém a queimar tempo como se tudo não passasse de um jogo fugaz. Um «truque», nas palavras do protagonista.

Surge, então, para baralhar, a geração mais nova a assumir com crueza o niilismo que os adultos mascaram com algazarra alternativa e agitação social. Aterra ainda, em Roma, vinda do fim do mundo, uma velhinha em odor de santidade, com um rosto sulcado pela pesada austeridade e a muita idade, numa imagem (convenhamos) desagradável, que agride os cânones estéticos dos mundanos caprichosos. A propósito de choques com a fealdade visível dos desfigurados, é eloquente a breve visita do protagonista a uma tasca romana, onde as figuras de bairro se exibem com maquilhagens de mau gosto. Horrendos, portanto. O ar repugnado de Jep não seria diferente se estivesse numa leprosaria ou em trincheiras de guerra. Sem se dar conta, deixara cavar um fosso intransponível entre uns e outros, separados pela conta bancária e por catadupas de convenções artificiais e exteriores, que nunca poderão aguentar a hora do sofrimento, menos ainda a da morte. Bergman fartou-se de o denunciar e não apenas no magistral «O SÉTIMO SELO», onde a possibilidade de conhecer uma morte com rosto ajuda a reorientar a vida (por paradoxal que pareça), apesar do embate duríssimo de tal face-a-face.

Vida e morte interligam-se, aqui como na vida, sem a menor beleza para a maioria. São pouquíssimos os privilegiados para quem essa hora misteriosa poderá ser um pouco mais benigna. Começa que irrompe, normalmente, em altura indesejada, desmantelando a frágil arrumação humana. Para atrapalhar tudo, o evidente tédio (à Proust) da maioria acumula dois desconfortos, que redundam numa combinação explosiva: fartos de uma vida sem nexo, também se apanham acossados pela morte, como se fosse facultativa ou só para os corajosos. Sabe-lhes mal viver, pelo que se anestesiam. E sabe-lhes pior a ideia da morte, pelo que os analgésicos voltam a ser a mezinha possível. Simplesmente, o risco do colapso sem retorno e inoportuno paira sobre o horizonte dos vivos, qual ave de rapina. Na vida como no filme... Aliás, marca presença logo no início desta viagem à alma inquieta do hemisfério Norte, quando num grupo de turistas asiáticos, entretidos a disparar fotografias às colunatas lindas da fonte de Acqua Paola abrilhantadas pelo cântico inspirado de um coro feminino, um dos fotógrafos cai fulminado no chão.

O realizador dá-nos, assim, um primeiro instantâneo sobre a primeira concepção de beleza, museológica, petrificada e inesgotável na maravilhosa Cidade Eterna. Sedutora como uma Nefertite. Mas mumificada! Chato que os nossos encantos e fantasias em nada insuflem de vida memórias embalsamadas e, frequentemente, efabuladas. Essa a ironia (até ao ridículo) da visita a um palacete, convertido em museu, por uma romana obcecada por títulos, no afã de recriar a ilusão de intimidade com os antigos príncipes residentes, deleitando-se a apreciar a cadência mecânica do berço vazio, coberto das rendas originais. Mais um «truque» a que tantos cedem, viciados neste jogo do faz-de-conta.

Na materialização mais directa do «truque», o golpe de magia do prestidigitador que faz desaparecer a girafa, nas ruínas das termas de Caracalla, é o sonho do protagonista, cansado de nada fazer, na vida. Curiosamente, no final, repesca a mesma ideia do «truque», quando depois de ver o percurso tão especial e incompreensível da anciã de 107 anos a subir de joelhos a Escada Santa, numa preparação simbólica para a morte que pressentiria estar para breve, Gambardella descobre o que lhe faltava para voltar a escrever: um truque. No fundo, uma aposta pragmática em vender livros. Citando Jep (na tradução oficial inglesa, que me chegou): «This is how it always ends. With death. But first there was life, hidden beneath the blah, blah, blah... It's all settled beneath the chitter chatter and the noise, silence and sentiment, emotion and fear. The haggard, inconstant flashes of beauty. And then the wretched squalor and miserable humanity. All buried under the cover of the embarrassment of being in the world, blah, blah, blah... Beyond there is what lies beyond. And I don't deal with what lies beyond. Therefore... let this novel begin. After all... it's just a trick. Yes, it's just a trick.»

Impossível não referir o humor espantoso de todo o script, de finais amargos e desencantados como na citação de Jep, a converter «A GRANDE BELEZA» numa tragicomédia certeira. Deixas agudíssimas das personagens, repletas de perguntas, que raramente encontram resposta capaz. As poucas que se ensaiam, parecem nunca apanhar os interlocutores à altura, pois a maioria cultiva a objecção como desporto intelectual. Bom exemplo disso é a única intervenção da missionária no jantar muito social, em que é a convidada de honra, quando a questionam sobre a pobreza: «Minha senhora, fiz voto de pobreza. E sobre pobreza não se fala… vive-se.» Acumulam-se dúvidas, equívocos e, sobretudo, uma panóplia louca de alucinogénios. Puro e duro, com a tábua das drogas na mesa dos petiscos.


Algo felliniano, embora mais mordaz e triste, porque Fellini privilegiou uma postura de observador ditada pela sua militância da denúncia social, de alguma forma, a resvalar para o papel de educador do povo. Claro que munido de enorme perspicácia e lucidez. Ainda assim, ganhando distância para desferir as críticas. Sorrentino conta, a partir de dentro, partilhando a condição descendente dos seus conterrâneos. Assume-se no mesmo barco, sujeito à mesmíssima espiral kamikaze. Daí os breves momentos comovidos que perpassam no filme, com instantes poéticos bem ousados, além das muitas ridicularizações não o excluírem. A declaração mais pesada atinge-o, em cheio e a frio, quando a miúda que se esconde da mãe, num subterrâneo de um templo imperial – lindíssimo, como são todos – o olha descaradamente declarando que ele não é ninguém! Elegantemente, o jornalista não lhe dá confiança, até porque reconhece que poderá ter alguma verdade.  


Para o fim fica a imagem mais bizarra e poética do filme, antevisão da beleza que vem de dentro: ao raiar do dia, no terraço delicioso de Jep, onde a Irmã vem tomar a sua tisana de raízes, um bando de pássaros esguios vem pousar junto à missionária, enchendo mansamente todo o espaço. Surreal! Enquanto a sábia velhinha, que dormira no chão da casa, faz gosto em explicar porque toma aquele caldo desengraçado pois as raízes (em plena acepção) são importantes, sopra em seguida sobre as aves que, em acto contínuo, levantam voo rumo a paragens mais quentes e luminosas. Uma clara alusão bíblica ao sopro do Espírito Santo e a uma paz dos primórdios da criação, quando todas as criaturas conviviam harmoniosamente. O céu ainda rosado da alvorada cobre-se, então, de asas brancas que, num movimento sincronizado, se esvaem na linha do horizonte.  

Sem ilusões nem atenuantes, «A GRANDE BELEZA» convida-nos a uma reflexão e auto-avaliação enquanto ainda é tempo... mas não os tempos de fuga: no passado ou num futuro esfumado. Hoje é o dia. Felizmente, o presente existe para nós, inteiro.   


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
LA GRANDE BELLEZA
Título traduzido em Portugal:
A GRANDE BELEZA
Realização:
Paolo Sorrentino
Argumento:
Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Produzido por:
Nicola Giuliano, Francesca Cima e Fabio Conversi
Fotografia:
Luca Bigazzi
Banda Sonora:
Lele Marchitelli
Duração:
142 min.
Ano:      
2013
Países:
Itália e França
        Elenco:

Toni Servillo  (Jep Gambardella, o protagonista)
Carlo Verdone (Romano)
Sabrina Ferilli (Ramona, que vive os 40 e tais como se fosse eterna teenager)
Carlo Buccirosso  (Lello Cava)
Laia Forte  (Trumeau)
Palema Villoresi   (Viola)
Local das filmagens:

Itália: Roma: Fonte dell’Acqua Paola (abertura), fonte de Trevi, Lazio; Ilha del Giglio na Toscânia, etc.

Óscar do Melhor Filme Estrangeiro, entre outros galardões do cinema.



domingo, 30 de março de 2014

4º Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Jo 9,1-41

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.
Os discípulos perguntaram-Lhe:
«Mestre, quem é que pecou para ele nasceu cego?
Ele ou os seus pais?
Jesus respondeu-lhes:
«Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais;
mas aconteceu assim
para se manifestarem nele as obras de Deus.
É preciso trabalhar, enquanto é dia,
nas obras d’Aquele que Me enviou.
Vai cegar a noite, em que ninguém pode trabalhar.
Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
Dito isto, cuspiu em terra,
fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.
Depois disse-lhe:
«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado».
Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
Entretanto, perguntavam os vizinhos
e os que antes o viam a mendigar:
«Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?»
Uns diziam: «É ele».
Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele».
Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
Perguntaram-lhe então:
«Como foi que se abriram os teus olhos?»
Ele respondeu:
«Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo,
ungiu-me os olhos e disse-me:
‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’.
Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?»
O homem respondeu: «Não sei».
Levaram aos fariseus o que tinha sido cego.
Era sábado esse dia em que Jesus fizeram lodo
e lhe tinha aberto os olhos.
Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
como tinha recuperado a vista.
Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
depois fui lavar-me e agora vejo».
Diziam alguns dos fariseus:
«Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».
Outros observavam:
«Como pode um pecador fazer tais milagres?»
E havia desacordo entre eles.
Perguntaram então novamente ao cego:
«Tu que dizias d’Aquele que te deu a vista?»
O homem respondeu: «É um profeta».
Os judeus não quiseram acreditar
que ele tinha sido cego e começara a ver.
Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes:
«É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego?
Como é que agora vê?»
Os pais responderam:
«Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego;
mas não sabemos como é que ele agora vê,
nem sabemos quem lhe abriu os olhos.
Ele já tem idade para responder: perguntai-lho vós».
Foi por medo que eles deram esta resposta,
porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga
quem reconhecesse que Jesus era o Messias.
Por isso é que disseram:
«Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».
Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado
e disseram-lhe: «Dá glória a Deus.
Nós sabemos que esse homem é pecador».
Ele respondeu: «Se é pecador, não sei.
O que sei é que eu era cego e agora vejo».
Perguntaram-lhe então:
«Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?»
O homem replicou:
«Já vos disse e não destes ouvidos.
Porque desejais ouvi-lo novamente?
Também quereis fazer-vos seus discípulos?»
Então insultaram-no e disseram-lhe:
«Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés;
mas este, nem sabemos de onde é».
O homem respondeu-lhes:
«Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é,
mas a verdade é que Ele me deu a vista.
Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade.
Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos
a um cego de nascença.
Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
Replicaram-lhe então eles:
«Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?»
E expulsaram-no.
Jesus soube que o tinham expulsado
e, encontrando-o, disse-lhe:
«Tu acreditas no Filho do homem?»
Ele respondeu-Lhe:
«Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?»
Disse-lhe Jesus;
«Já O viste: é Quem está a falar contigo».
O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou:
«Eu creio, Senhor».
Então Jesus disse-lhe:
«Eu vim para exercer um juízo:
os que não vêem ficarão a ver;
os que vêem ficarão cegos».
Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto,
perguntaram-Lhe:
«Nós também somos cegos?»
Respondeu-lhes Jesus:
«Se fôsseis cegos, não teríeis pecado.
Mas como agora dizeis: ‘Não vemos’,
o vosso pecado permanece».


***

Ver como baptizado

Por ser cristão, eu vejo as coisas de outra maneira, interpreto-as de outro modo? A cegueira referida neste Evangelho não é só nem sobretudo oftalmológica. À luz deste Evangelho nós podemos e devemos fazer este exame de consciência: será que nos abrimos à cura que Jesus quer realizar com a sua palavra, com os seus sacramentos, com a sua presença, com o seu toque que nos chega de muitas maneiras? Será que, no contacto com Ele, nós vamos vendo as coisas de outro modo, a outra luz? É significativo que os primeiros cristãos chamassem ao Baptismo uma iluminação…O Baptismo abre-nos à graça, à luz de Deus. Mas será que nós somos fiéis a esta graça, a esta luz? Será que apreciamos a vida e os acontecimentos pelos olhos de Cristo, à luz do Evangelho? Nem sempre será assim, infelizmente; nem sempre onde nós estamos (nas nossas famílias, até nas nossas comunidades cristãs, nas nossas profissões, com os nossos colegas), vemos a realidade a partir desta iluminação de Cristo. Ora a vida cristã é uma iluminação e o Espírito de Jesus Cristo em nós, que já somos baptizados, continua esse trabalho de cura interior, para nos fazer realmente, não apenas teoricamente, ver as coisas de outra maneira.
Este Evangelho ensina-nos que a vida cristã se manifesta por uma maneira de ver, de conviver, de examinar, de discernir a partir da iluminação de Cristo. É connosco. É absolutamente connosco!


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no dia do Senhor. Cascais: Lucerna, 71-72.

sábado, 29 de março de 2014

Pensamentos impensados

Frases feitas
Como se sabe, Frei Luis de Sousa foi mordido por um cão;
daí a expressão tomar o frei nos dentes
 
Linguística
É mandado ou mandato de captura? Ai sim?
É pau mandado ou pau mandato?
 
Acabou-se a mama
Parece que o euro deputado Capoulas Santos vai saltar de Bruxelas sabe-se lá para onde. Sugere-se ida para o Benfica cantar capoulas saltitantes.
 
Bola
Ouço na TV: prova rainha do futebol português.
Sendo Portugal um república, seria mais correcto dizer: 1ª dama do futebol português.
 
TV
Luis Goucha vai entrar numa série televisiva a chamar-se Anatomia de Gay.
 
Pontos de vista
Woody Allen tem mais óculos que barriga.
 
Gramática
Assumir - Verbo transitivo, 3ª conjugação, usado preferencialmente pelos homossexuais.

SdB (I)

sexta-feira, 28 de março de 2014

Colar de pérolas (15)



O "cabriolet" rola rente à praia, serpenteando sob o sol descendente. Se tivesses agora 19 anos, farias o quê? Mas tens 17 anos, roubaste o carro emprestado, malandrim!, ao mano mais velho. Apanhaste-lhe as chaves, com a tua velhaca mão ligeira e és agora senhor da pradaria, mestre de ti próprio, comandante em chefe. Mais logo, vais levar poucas do mano mais velho (e, talvez, do vosso pai, apostas, ligeiramente agoniado). Mas, que diabo, 17 anos só se tem uma vez! E, na verdade, a vida pode ser levada assim, "easy, easy".. pode, não pode? 

gi. 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Da simplicidade


Há um bom par de anos, alguém monologava em voz alta para mim: quem me dera ir para um sítio onde eu própria não estivesse. Há bem menos tempo, outro alguém monologava em voz alta para mim: quem me dera ser mais simples

Dou por mim a pensar nestas duas histórias e em tudo o que vejo e oiço e penso e sinto. E dou por mim a pensar no que é a simplicidade - de vida, de raciocínio, de temperamento, de hábitos. A Bíblia refere-se-lhe abundantemente, começando pelo sermão da montanha. Afinal, os puros de coração ou os pobres de espírito são atravessados por esta ideia de simplicidade, assim como as crianças a quem Jesus Cristo se refere amiúde. 

Não sei se somos educados e se educamos para a simplicidade. Um feitio complexo tem, no arranque da apreciação, uma cotação superior à de um feitio simples, porque se lhe associa gente mais interessante, talvez mesmo mais inteligente, com um fascínio que veda o caminho ao enfado. Num mundo tão judaico-cristão (por vezes só o nosso pequeno mundo), esta aparente contradição acresce a um rol inesgotável. Não queremos ser simples, porque uma mente simples é entediante, pouco desafiante, oferece um diálogo inexistente de profundidade. E no entanto, é dos feitios complexos que tantas vezes nos queixamos, porque há os humores, as manias, as imprevisibilidades, o inferno que são os outros, as esquisitices, as implicações, os demónios.  

A sociedade não nos atira seguramente para a simplicidade da vida. Acumulamos bens, actividades, obsolescências, auto-imagens projectadas. Queremos ser chefes, ter isto e aquilo, carreiras invejáveis feitas de regressos tardios e ambições desmedidas; viciamo-nos no ter, no fazer, no comprar, no mostrar. Um dia paramos à porta do fim da carreira - a progressão acabou porque o lugar era para outro ou porque atingimos o limite ou porque já não interessamos; uns confrontam-se com a falência, outros com o despedimento, muitos com a crise. Tem-se menos, faz-se menos, mostra-se menos, compra-se menos. E todos nós - aqueles que foram tocados pelos zeros que minguam na conta bancária - percebem o encanto de uma vida que se tornou simples pela força da circunstância: um chá ao fim da tarde numa esplanada, o pôr do sol que se vê no regresso, a liberdade com que dizemos que não, porque o tempo não está para isso.      

O que é a simplicidade? O que é ser-se simples, um adjectivo invariável para o qual o dicionário tem mais de 15 entradas? Não sei, e talvez por isso cite Santo Agostinho quando este discorre sobre o tempo: se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei [...]. Talvez só dentro de nós saibamos encontrar a resposta, porque talvez só dentro de nós tenhamos percebido o que a simplicidade, nossa e a dos outros, fez por nós. Ou contra nós, que também há a inversa. 

No seu livro A Pesca à Linha - Algumas Memórias, António Alçada Baptista diz ter tido um extraordinário abalo quando soube, por um livro de António Ferro, que Salazar tinha no seu escritório o soneto de Plotin intitulado Le bonheur de ce monde:

Avoir une maison commode, propre et belle,
Un jardin tapissé d'espaliers odorants,
Des fruits, d'excellent vin, peu de train, peu d'enfants,
Posséder seule, sans bruit, une femme fidèle.

N'avoir dettes, amour, ni procès ni querelle,
Ni de partages à faire avec ses parents,
Régir tous ses desseins sur une juste modèle,
Se contenter de peu, n'espérer rien des gens.

Vivre avec franchise et sans ambition,
S'adonner sans scrupule à la devotion,
Dompter ses passions, les rendre obéissantes.

Conserver l'esprit libre et le jugement fort,
Dire son chapelet en cultivant ses entes,
C'est attendre chez-soi bien doucement la mort.


O que é a simplicidade? Não sei, e talvez nunca venha a saber o suficiente para dizer aos outros. Apenas lhe adivinho uma dimensão fascinante. Talvez seja uma busca, mais do que um destino. E este caminho não se ensina; pratica-se apenas, com um bordão de peregrino e um mapa onde está desenhado o nosso destino.

JdB   

quarta-feira, 26 de março de 2014

Diário de uma astróloga – [74] – 26 de Março de 2014

MH 370 – A Astrologia do avião desaparecido

Este post foi escrito no dia 24 de Março, horas antes da confirmação oficial de que os destroços encontrados na zona assinalada pertencem ao voo MH 370.

Já passaram mais de duas semanas do desaparecimento do avião da Malaysian Airlines MH 370. O mistério continua! Estranhamente, os mais modernos meios técnicos que conseguem ouvir comunicações telefónicas de chefes de estado e espiar os emails pessoais revelam uma total incapacidade para descobrir um Boeing 777 com 239 passageiros a bordo! 

O que dizem os meios astrológicos?


A carta astral deste voo é calculada para o momento em que o voo nasce, isto é, o momento em que descola: 8 de Março de 2014, 00:41 em Kuala Lumpur. É um tema cheio de tensões nos planetas e casas que simbolizam os elementos desta tragédia:


  •       A personificação do voo é o Ascendente que se encontra em Sagitário e cujo regente, Júpiter, está na casa 8 das crises, das transformações, da morte. Esta ligação está assinalada a vermelho.  
  •       A preto vê-se a oposição de Júpiter a Plutão e quadratura a Úrano, o que pode indicar acções terroristas ou situações de emergência inesperadas. 
  •       Não vale a pena especular sobre a origem deste acontecimento porque ficará sempre envolto num mistério, como indica Neptuno, o planeta mais ligado ao conceito de desaparecimento e mistério, exactamente conjunto ao fundo do céu (origens) assinalado por um oval azul. 
  •       A Lua representa os passageiros e está em quadratura (linha amarela) com Neptuno, rege a casa 8 e está também ligada por disposição a Júpiter. Todos estes elementos falam de mar, de queda no mar.
  •        A casa 9 das longas viagens é regida pelo Sol que se encontra conjunto a Chiron que simboliza feridas e dor (oval e linha verde).
  •       Há astrólogos que consideram a casa 3 como a mais válida para todas as deslocações, mas esta também apresenta dificuldades. Aí entra Mercúrio a ser impedido de se deslocar livremente por Saturno (linha castanha).
  •       Esta análise podia ainda ser mais exaustiva e, para os estudantes de astrologia e astrólogos, aconselho a que olhem para os meios pontos, sobretudo Neptuno em quadratura ao meio ponto Marte / Plutão, configuração descrita por Ebertin como “irreconciliável ou implacável, astuto e enganador, tendência a causar dano a outrem secreta e discretamente (um desastre ou catástrofe causada por água)”.


A astrologia tem estado muito virada para os aspectos temporais, e responde muito bem ao QUANDO. Se a carta do início do voo for movimentada para as horas subsequentes, podemos ver a que horas foram os momentos mais dramáticos. Mas também não responde PORQUÊ.

Agora, o que se pretende descobrir é AONDE caiu, e para isso tenho de me valer de técnicas que permitem responder a perguntas de carácter espacial: a astrocartografia. O local mais plausível astrologicamente seria ao longo da linha espacial local de Neptuno que indica desaparecimento (linha azul numa direcção vagamente Norte Sul). Estende-se por uma vasta área que inclui para Norte as florestas do Laos e, para o Sul, o Oceano Índico.  O local que representa com mais força este drama é a área onde a linha de Neptuno se cruza com a linha de Júpiter (a personificação do avião) no Descendente, isto é, quando passa para baixo do horizonte, quando Júpiter deixa de estar visível, quando afunda. Assinalei a área com um rectângulo azul.


Não liguei nenhuma a esta ideia e achei que estava a interpretar os símbolos de uma forma errada. Tão longe, tão a sul… impossível!

Eis senão quando, ao preparar este post, vejo o seguinte mapa publicado por um jornal americano, USA Today…


Passageiros e tripulação do voo MH370, descansem em paz, talvez nas águas geladas do Oceano Índico.


Luiza Azancot

terça-feira, 25 de março de 2014

Fórmula para o caos

A maioria das vozes que, nos dias que se seguiram à divulgação do manifesto que apela a uma restruturação da dívida pública, tem alegado – e muito bem – que uma possível restruturação da dívida acarretaria, de forma irreversível, graves consequências económicas para Portugal. O Estado enfrentaria, durante décadas, um problema de financiamento nos mercados, como, de resto, se tem passado na Argentina desde que cessou os pagamentos ao exterior em 2002. No entanto, muito mais grave do que o inferno financeiro que daí adviria, prende-se com a questão moral. Por mais eloquentes que sejam as palavras esplanadas no documento, o Manifesto em questão, declaradamente, emerge a vontade dos subscritores em darem o calote. Lendo o texto, não deixa de chamar a atenção que, por mais que uma vez, é empregue o termo dignidade. Pois bem. Que dignidade tem um Estado, e, por arrasto, o povo por aquele representado, que não honra as suas dívidas? Será que os autores do Manifesto se apercebem que o dinheiro que nos foi emprestado é originado pelas poupanças de outros, sejam eles alemães ou portugueses? Ao contrário do que é muitas vezes apregoado, o mercado não é mais do que uma consequência das acções livres dos indivíduos. Neste caso, tratam-se  de sujeitos que, inversamente ao Estado que nos (des)governa, são capazes de gerar saldos positivos e, com isso, financiam quem apenas cria défices e dívidas em catadupa.
Segundo consta, o principal mentor e autor do conteúdo do Manifesto dá pelo nome de João Cravinho. Não obstante qualquer personalidade estar no legítimo direito de lançar as ideias que achar apropriadas, quando e como entender, convém recordar que João Cravinho, antes da autoria do Manifesto, já tinha sido autor de dois dos maiores males que a economia portuguesa já sofreu. Em 1975, durante a malfadada experiência marxista que Portugal vivenciou, Cravinho desempenhou o cargo de ministro nos governos gonçalvistas, sendo o ideólogo das nacionalizações selvagens que arruinaram e descapitalizaram o que restava do sector produtivo português. Mais tarde, um pouco mais moderado mas não menos irresponsável e incompetente, enquanto ministro do Equipamento de António Guterres, resolveu construir dezenas de auto-estradas sem custo para o utilizador (SCUT) que, pelo suposto impacto económico, se pagariam a elas mesmas. Sem surpresa, a economia não cresceu e o país não se desenvolveu. E, claro está, que o que se seguiu a esta invenção corresponde ao período em que o Estado acumulou maior stock de divida. A tal que agora é para ser estruturada.

Pedro Castelo Branco

segunda-feira, 24 de março de 2014

Crónicas de um mestrando tardio

[...] De facto, embora quisesse trocá-la, todavia não queria perder mais do que a ele, e não sei se queria fazê-lo mesmo por ele, como se diz de Orestes e Pílades, se não é ficção, que queriam morrer um pelo outro, ou ambos ao mesmo tempo, porque para eles pior do que a morte era não viverem o mesmo tempo. Mas em mim não sei que sentimento tinha nascido absolutamente oposto a esse, e havia em mim um gravíssimo tédio da vida e medo de morrer. Creio que quanto mais o amava, tanto mais odiava e temia a morte, que mo tirara, como atrocíssima inimiga, e julgava que ela de repente havia de consumir todos os homens, já que pôde consumi-lo a ele. Era eu exactamente assim, lembro-me. Eis o meu coração, ó meu Deus, ei-lo por dentro; vê porque me lembro, tu, minha esperança que me purificas da impureza de tais afeições, dirigindo para ti os meus olhos e libertando da armadilha os meus pés. Admirava-me de que os restantes mortais vivessem, visto que aquele, que eu amava como se não houvera de morrer, tinha morrido e mais me admirava que eu continuasse a viver depois de ele morrer, visto que eu era o outro ele. [...][1]

Lamento profundamente o falecimento do teu amigo Flaco, no entanto entendo que a tua dor não deve ultrapassar os limites do razoável. Não ousaria exigir de ti que não sentisses o mínimo abalo perante o facto, embora isso fosse o ideal. Uma tal firmeza de ânimo, contudo, apenas está ao alcance de quem já se alçou muito acima das contingências da fortuna. [...] A homens como nós pode perdoar-se que deixemos correr as lágrimas, desde que não em excesso, e desde que nós mesmos as saibamos estancar. [...][2]


***

Venho enviar-te uma cópia da carta que escrevi a Marulo aquando da morte de um filho de tenra idade – morte que, dizia-se, ele suportou com quase nula coragem. [...]
“Estavas à espera de consolo? Pois vais apanhar uma descompostura! Tanta cobardia tu mostras pela morte do teu filho? Que farias se tivesses perdido um amigo? Faleceu-te um filho, de futuro incerto, de pouca idade; perdeu-se apenas um breve espaço de tempo! Nós próprios buscamos motivos de sofrimento, ansiosos por nos queixarmos da fortuna mesmo sem razão, como se não fosse seu papel dar-nos motivos de queixa;[...][3]




[1]  Confissões, de Santo Agostinho, IV, VI, 11 (INCM, 2001).
[2]  Cartas a Lucílio, de Lúcio Aneu Séneca, Livro VII, Carta 63 (Fundação Calouste Gulbenkian, 2007).
[3] Cartas a Lucílio, de Lúcio Aneu Séneca, Livro XVI, Carta 99 (Fundação Calouste Gulbenkian, 2007).


***

Agostinho de Hipona viveu entre 354 e 430 d.C.
Lúcio Aneu Séneca viveu entre 4 a.C e 65 d.C.
Estes dois textos (o de Séneca desdobrado em duas cartas) foram redigidos com trezentos anos de intervalo. Ambos se referem à morte - mais propriamente à reacção perante a morte – de um amigo ou de um filho de tenra idade.
As confissões de Santo Agostinho são o desnudamento da sua alma perante Deus. As cartas de Séneca são o desnudamento do seu pensamento perante o interlocutor. São ambos escritos intimistas, que revelam. É lícito compará-los, ou o exercício não é mais do que colocar, lado a lado, alhos e bugalhos, sem saber o que fazer com a observação?
A expressão Ἀταραξία - ataraxia – que significa tranquilidade da alma, ausência de perturbação, surgiria pela primeira vez no século IV aC. O conceito exprimia um ideal de sabedoria, uma certa invulnerabilidade racional face aos desgostos de vária ordem, às doenças, às mortes dos mais próximos, a outras desgraças. Séneca usaria a este respeito a expressão tranquilitas animi, título de um dos seus tratados. Para os estóicos a ataraxia seria a apatia, isto é, a serenidade intelectual, o domínio de si, uma alma que se tornou insensível à dor.  
Agostinho, por seu lado, chora a perda do amigo. Não é fácil depreender que este chorar a morte de alguém é, não só uma metáfora para o desgosto da alma, mas a realidade de uns olhos que vertem lágrimas. O desgosto de Agostinho está bem reflectido na última expressão transcrita da carta: e mais me admirava que eu continuasse a viver depois de ele morrer, visto que eu era o outro ele.
Face à mesma realidade – a morte de alguém próximo - o que separa, aparentemente, um estóico de um cristão? Como é vivido o desgosto, como se cumpre o luto que nos conduz à superação da perda? A resposta poderia ser dada de uma forma quase paradoxal: dentro de certos limites, o estóico não chora; dentro de certos limites, o cristão chora.  Quais são os limites? Para uns e para outros, os limites do razoável.
Para um estóico, a alma tem de atingir um estado em que se torna impassível perante a dor. É isso que Séneca diz a Lucílio ou escreve ao amigo que acaba de perder um filho de tenra idade. Para um cristão, o desgosto não tem de ser algo a que a alma é de certa forma indiferente. O desafio não está em conseguir a apatia, mas em interiorizar a dor. Falamos do mesmo? A procura da tranquilitas animi é comum a uns e a outros. Sendo o objectivo comum, talvez a diferença esteja no percurso: ganhar uma certa distância aos desgostos da vida versus agarrar nesses mesmos desgostos e dar-lhes um sentido. A pergunta mantém-se pertinente: falamos do mesmo?
A morte é a única certeza que temos na vida. Acreditar na vida eterna, como acreditaria Agostinho de Hipona, ou acreditar no fim de tudo, como acreditaria Lúcio Aneu Séneca, pode marcar a diferença. Acreditar na força individual para ganhar distância, ou acreditar em Deus como fonte de consolo pode marcar a diferença. Acreditar na terra ou acreditar no céu pode marcar a diferença.

JdB
***
Nota: este trabalho, entregue há uma semana, ficou inacabado, e disso dei conta à professora. Faltou-me o tempo  - mas também o engenho e a arte - para redigir sobre a reacção dos estóicos e dos cristãos à morte. As diferenças são grandes. Acima de tudo, estou em crer, divide-os a existência do Céu, no que isso engloba a vida eterna, o abraço de um Deus que não é senão amor.  

domingo, 23 de março de 2014

3º Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Jo 4,5-42

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,
junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,
onde estava a fonte de Jacob.
Jesus, cansado da caminhada, sentou Se à beira do poço.
Era por volta do meio dia.
Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
Disse lhe Jesus: «Dá Me de beber».
Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.
Respondeu Lhe a samaritana:
«Como é que Tu, sendo judeu,
me pedes de beber, sendo eu samaritana?»
De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.
Disse lhe Jesus:
«Se conhecesses o dom de Deus
e quem é Aquele que te diz: ‘Dá Me de beber’,
tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva».
Respondeu Lhe a mulher:
«Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:
donde Te vem a água viva?
Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,
que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
com os seus filhos a os seus rebanhos?»
Disse Lhe Jesus:
«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.
Mas aquele que beber da água que Eu lhe der
nunca mais terá sede:
a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente
que jorra para a vida eterna».
«Senhor, suplicou a mulher dá me dessa água,
para que eu não sinta mais sede
e não tenha de vir aqui buscá la».
Vejo que és profeta.
Os nossos pais adoraram neste monte
e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».
Disse lhe Jesus:
«Mulher, podes acreditar em Mim:
Vai chegar a hora em que nem neste monte
nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Vós adorais o que não conheceis;
nós adoramos o que conhecemos,
porque a salvação vem dos judeus.
Mas vai chegar a hora – e já chegou –
em que os verdadeiros adoradores
hão de adorar o Pai em espírito a verdade,
pois são esses os adoradores que o Pai deseja.
Deus é espírito
e os seus adoradores devem adorá l’O em espírito e verdade».
Disse Lhe a mulher:
«Eu sei que há de vir o Messias,
isto é, Aquele que chamam Cristo.
Quando vier há de anunciar nos todas as coisas».
Respondeu lhe Jesus:
«Sou Eu, que estou a falar contigo».
Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,
por causa da palavra da mulher.
Quando os samaritanos vieram ao encontro de Jesus,
pediram Lhe que ficasse com eles.
E ficou lá dois dias.
Ao ouvi l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:
«Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos.
Nós próprios ouvimos
e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».


***

Dá-me de beber

“Dá-me de beber”, diz Jesus à samaritana que somos todos nós. Com estas palavras, pede a nossa atenção, a nossa disponibilidade. Somos estranhos de quem Ele se aproxima, sem ficar à espera de que se aproximem d’Ele, porque o que Jesus tem para oferecer é a sua própria vida! A água viva que Jesus oferece à samaritana é a água do Espírito que Ele reparte com Deus e distribui por nós. Meditar este Evangelho, ter presente Jesus, sentado à beira do poço, o diálogo com a samaritana, o encontro com ela, ajuda a perceber a história da nossa vida…Deus abeira-se de nós de muitas maneiras! Nem sempre ou exactamente para nos dar o que queremos e logo, mas para nos dar aquilo que Ele quer e não deixa de querer para nós, porque somos criaturas suas, que Ele quer salvar, aproximar de Si! No apelo que nos faz para ir à Missa ao domingo, para sair de casa, levar toda a família e participar na celebração, é Jesus que nos está a dizer “dá-me de beber” – “dá-me um pouco da tua atenção para que recebas o meu próprio Espírito, esta água viva que Eu tenho para te oferecer e que é a convivência comigo, desde que tu a aceites”!


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no dia do Senhor. Cascais: Lucerna, 67-68.

sábado, 22 de março de 2014

Pensamentos impensados

Volta D. Pedro I
Passos Coelho reconheceu que a justiça não é igual para todos.
Promete alterar e passa a ser desigual para todos.
 
Cabeleira postiça
 A cabelo dado não se olha o pente.
 
Estados
O gelo tem problemas de liquidez.
 
Caloteiro
Falta cumprir-se Portugal.
Só isso, Fernando Pessoa? E a dívida, não se cumpre?
 
Telemóveis
Uma operadora vai criar um linha para os sem-abrigo.
Chama-se Vodafome.
 
Visão
 Apesar de ser cego, tinha pontos de vista.

SdB (I)

sexta-feira, 21 de março de 2014

quinta-feira, 20 de março de 2014

Colar de pérolas (14)




Lembras-te? Naquele Verão em que era Inverno. Lembras-te? Os carros passavam por nós e os seus condutores ora zombavam, ora viravam a cara, ora faziam esgares de mal-escondida inveja. Lembras-te? Os vidros embaciados, denunciando-nos. Lembras-te? O medo de sermos apanhados. Lembras-te? O Verão florescendo em pleno Inverno. Lembras-te? Os dias longos, os relógios suspensos, as mãos desassossegadas, os corpos em colapso. Lembras-te? Hoje, lembro-te. És talvez a flor que cresce imperial em frente ao banco de jardim onde sózinho me sento. Desse Verão, não tardará, já só ela, a flor, se lembrará. Eu e tu, finalmente grãos de poeira, fundidos num abraço cósmico, rumo ao sol que em tempos nos prometêramos.

gi.  

Acerca de mim

Arquivo do blogue