segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dos raciocínios patetas

Na pré-história - e não vou mais atrás por não me parecer necessário encetar especulações sociológicas para as quais não me sinto competente - o homem saía de casa para caçar. Punha-se a caminho, isto é, andava. Obviamente que não havia meios de transporte, mas o verbo "andar" é relevante para a minha dissertação. Ao homem competia prover a subsistência, à mulher competia tomar conta dos filhos, da casa (o que quer que isso fosse na pré-história), da horta e do jardim, o que quer que isso, blábláblá. A vida do homem era andar até ao mamute e, depois deste morto e esquartejado, regressar ao remanso do lar. Andar, andar, andar, enquanto a mulher tinha uma espécie de horizonte geográfico que lhe era dado pela genica das crianças e pela extensão do perímetro de segurança. O homem pousa a lança, o sílex, a marreta, o osso do animal no mesmo sítio onde a mulher (o que quer que isso queira dizer), encostada ao umbral de uma porta, fitou o infinito que não sabe o que é, pôs os olhos num horizonte de onde espera ver o jantar, mais do que suscitar uma meditação sobre o sentido da vida. Não o faz, mas tem essa possibilidade. 

Anos mais tarde - tantos que implicaria muitos zeros - aparecem, as guerras, as diásporas, os empregos. Ao homem cabe-lhe sair de casa, trazer uma cabeça de mouro, uma relíquia da terra santa, um cheque ou um voucher que premeia um ano bom. O osso de mamute é, agora, um nome inscrito num payroll. Ao homem compete-lhe sair armado de uma lança, uma marmita ou ticket restaurante (pouco mais recente que a pré-história). Ao homem compete-lhe andar, enquanto a mulher olha pelas crianças, pelo bonsai, pela panela de pressão ou pelos grandes glúteos. O homem anda, a mulher, no seu espírito feminino mais exacerbado e tradicional,  queda-se pelo perímetro que lhe é dado pelo controlo visual sobre o que interessa. 

***

Temos uma coisa pela frente: esta coisa pode ser um carro,  um coulis de framboesa ou um conjunto de saia e casaco. Mas esta coisa  pode também ser um poema, uma música que apela ao sublime, um quadro que suscita devaneios, a infância que gera recordações. Sobre esta coisa, qualquer que ela seja, podemos raciocinar, agir, ou meditar. O que é agir? É pegar-lhe com as mãos, deitar-lhe um olhar, revirá-lo, discernir-lhe o funcionamento, e o ronronar de um motor de porsche mais não é do que o ritmo de uns versos alexandrinos. Raciocinar é um exercício mecânico que suscita uma acção. Raciocinamos sobre a ligação da maionese com o bacalhau da mesma forma que raciocinamos sobre o jogo de palavras de uns versos de herberto helder onde os silêncios preenchidos são tema de conversa ao jantar.  Para este efeito, zé do pipo poderia ser uns versos de rima branca, ou uma quadra a-b-b-a. Agir é transformar o raciocínio em actos. Raciocinar e agir são a ida de um homem para o mato caçar mamutes ou para um escritório folhear o código civil anotado. Raciocinar e agir implica movimento e só o movimento permite o raciocinar e agir.

Olhar para uma codorniz no seu sarcófago, para uns versos misteriosos ou para uma buganvília por aparar é, também, a possibilidade de meditar sobre as coisas: é imaginar-lhes uma sensação, uma emoção, um frenesim, um olhar embaciado ou um sorriso que ninguém entende. Para isso temos de estar quietos, de olhos postos na coisa mas de coração posto no além onde o olhar se desfoca e a alma se concentra. Na pré-história só a mulher podia meditar sobre as coisas, porque não estava afadigada com a anatomia da besta e com o local do crânio onde assentar a pedra por lascar. Hoje, entre mulher que são provedoras e homens que se quedam sem despertador o mundo está diferente, pelo que meditar sobre as coisas é uma actividade vedada a quem, homem ou mulher, quer sair pelo mato ou pegar nuns versos e ver-lhe uma rima estranha.

JdB 

domingo, 30 de outubro de 2016

XXXI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 19,1-10

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade.
Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu,
que era chefe de publicanos.
Procurava ver quem era Jesus,
mas, devido à multidão, não podia vê-l’O,
porque era de pequena estatura.
Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro,
para ver Jesus,
que havia de passar por ali.
Quando Jesus chegou ao local,
olhou para cima e disse-lhe:
«Zaqueu, desce depressa,
que Eu hoje devo ficar em tua casa».
Ele desceu rapidamente
e recebeu Jesus com alegria.
Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo:
«Foi hospedar-Se em cada dum pecador».
Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo:
«Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens
e, se causei qualquer prejuízo a alguém,
restituirei quatro vezes mais».
Disse-lhe Jesus:
«Hoje entrou a salvação nesta casa,
porque Zaqueu também é filho de Abraão.
Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar
o que estava perdido».

sábado, 29 de outubro de 2016

Pensamentos Impensados

Sujidades
Diz o porcalhão: há males que vêm por banho.

Bejecas
Vai-se às marisqueiras por essas e por ostras.

Tamanhos
Definam-me peça de fruta. Uma cereja? Um bago de romã? Um bago de uva?

Moedas
Quem vê caras não vê coroas.

Dificuldades
Quem fala a-a-a-sim-sim é gago.

Jaquinzios
No novo orçamento das pescas os carapaus sobem 15 por cesto

Mãos para que vos quero
 Os cegos namoram às apalpadelas.

Canícula
Os cães chineses serão todos sino-técnicos?

SdB (I)


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Dos lugares-comuns

Talvez haja um filósofo, da actualidade ou já apenas junto de nós em forma de livro, ensaios, ou professores prestimosos, que tenha escrito sobre ver e compreender.  Ou talvez, se eu quisesse ser absurdamente desinteressante ou recta pronúncia, sobre ver e / ou compreender. 

Um dia, numa apresentação, ouvi uma frase / conceito que mudou parte substantiva da minha vida. Citava-se Karen Blixen, a dinamarquesa que conheceu África e o desgosto como poucos. Cito de cor: todo o sofrimento é suportável se fizermos dele uma história. Repito a frase no estabelecimento, como repito a intervenção de Viktor Frankl na minha vida ao lê-lo a discorrer, sentado num campo de concentração com vista para o morte, sobre o sentido da vida. Para efeitos da minha argumentação inédita, Blixen (que se chamava Dinesen) e Frankl (que se chamava Frankl) são a mesma pessoa pelo facto de dizerem a mesma coisa, ainda que separados (muito) na geografia e (menos) no tempo. Para o austríaco Viktor o sentido da vida encontrava-se (também) num grande sofrimento; para a nórdica Isak para o sofrimento podia encontrar-se um sentido. Este raciocínio, posto desta forma, parece a voz activa e a voz passiva da salvação das almas.

Olho para a minha vida - o passado recente, o passado mais ou menos longínquo, talvez o olhar que, no presente muito presente derramo sobre todos os passados. Para tudo olhei, porque tenho essa capacidade física. Mas nem sempre vi, nem sempre compreendi, nem sempre construí uma história que é o mesmo que dizer que nem sempre encontrei um sentido para aquilo que me aconteceu. No entanto, a minha vida não é feita apenas de hecatombes ou grandes sucessos (que são sempre os inesperados). Por vezes, na mais das vezes, é feita de coisas que são migalhas, algumas inseguranças, desejos ou hábitos. Fiquei sempre contente quando encontrei uma explicação para o que sou. Por vezes é uma genética, por vezes é perceber em que circunstâncias cresci que me levou a fazer esta opção, a ser assim, a não querer aquilo. 

Entre ver e compreender, o sentido da vida e a história que se faz dos sofrimentos não há qualquer diferença, a não ser na sintaxe ou nas palavras escolhidas. É tudo o mesmo, porque tudo se resume a perceber o que somos e o que fazemos com o que nos acontece.  No fundo, como se descobrir a causa das nossas estranhezas fosse iluminar um caminho que outros percorrem connosco - ou que nós próprios corremos connosco próprios. No fundo, como se fazer histórias ou olhar em frente não fosse mais que ver mais, ver mais além, ver mais nítido. Mesmo que nem sempre gostemos do que vemos.

JdB  

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Poemas dos dias que correm

Depus a Máscara

Depus a máscara e vi-me ao espelho. — 
Era a criança de há quantos anos. 
Não tinha mudado nada... 
É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 
É-se sempre a criança, 
O passado que foi 
A criança. 
Depus a máscara, e tornei a pô-la. 
Assim é melhor, 
Assim sem a máscara. 
E volto à personalidade como a um términus de linha. 

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Pensamento impensado

Assim vai o mundo

Julgo que foi Vasco Pulido Valente que disse: o Mundo está perigoso. Eu diria que o Mundo está ordinário. 
A briga Hillary/Trump é de uma ordinarice total; a bulha Sporting/Benfica é de um desporto que se tornou ordinário.

SdB (I)

Concertos dos dias que correm


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Duas Últimas

Nos últimos dois ou três anos tenho frequentado a Gulbenkian. Como escolho os concertos, o natural é que gosto de quase tudo o que vou ver / ouvir. Já tive desilusões, já me maravilhei, já quis dormir, já me comovi. 

Gosto de ir à Gulbenkian - a sala é confortável, o público (mais) selecto, os lugares são marcados e a vista, quando abrem o painel de fundo, é muito bonita. No entanto, há um aspecto que me irrita solenemente, e sobre o qual já falei com várias pessoas que concordam comigo: o facto de se começarem a bater as palmas logo que a música acaba. E "logo" significa no instante imediatamente a seguir. Não há um segundo de intervalo.

Uma obra clássica não é um fado, em relação ao qual se começam a bater as palmas e a gritar "ah! boca linda!" ainda a fadista não acabou de dizer "madragoa". Na música clássica é preciso - absolutamente necessário, diria - que se façam segundos de silêncio depois de a música acabar, para que fique a ressoar dentro da sala e dentro das nossa almas. Já ouvi obras que acabam de forma empolgante, com a orquestra e / ou o coro a plenos pulmões. Já ouvi obras que acabam de uma forma serenamente bonita, que nos remetem para memórias fortes, sublimes. Uns segundos de silêncio ajudariam. Talvez fossem mesmo fundamental.

Deixo-vos com os 2 Cellos. Quanto ao primeiro, dizem os comentários que há esse silêncio de que falo. Não sei, ainda não vi.

JdB



terça-feira, 25 de outubro de 2016

Pensamento Impensado

Vazios

Oiço / vejo na CMTV um entrevistador falar numa árvore oca por dentro. 
Penso como será a cabeça deste repórter: oca por dentro?

SdB (I)

Dublin visto pelo meu iPhone (e por aqui ficamos...)



Há quem defenda os seus erros como se estivesse a defender uma herança.

(Edmund Burke)




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Das palavras comuns

Dublin visto pelo meu iPhone - sábado passado, 8 da manhã

I.
Em 10 de Novembro de 2015, sob os auspícios da Fundação Maruzza (Itália), foi assinada a Religions of the World Charter for Childrens Pallative Care. Na mesma linha, mas assinado em tempo diferente (e já traduzida para português) havia sido redigida a Carta de Trieste - Carta dos Direitos da Criança em Fim de Vida. O primeiro documento referido foi prontamente assinado pelas principais religiões do mundo - e não só as monoteístas. Após a sessão de apresentação destes dois documentos, alguém indagou o que motivara religiões tão diferentes a terem-se posto prontamente de acordo. A resposta quanto ao que as unira naquele momento específico, de volta de um tema específico, foi rápida.

***

II.
Estão seguramente 200 pessoas na sala para assistir a uma sessão conjunta de pessoal de enfermagem e de associações de crianças com cancro. O tema é este: Full vs Selective Disclosure - Breaking ‘Bad’ News to Teenagers Diagnosed with Cancer. O que dizer, como dizer, a quem dizer. Revelamos tudo ou só o necessário? Que capacidade temos para - usando o título de ensaio de uma médica presente - dizer a verdade, mas deixar espaço para a esperança? Fala-se das dificuldades inerentes, da falta de treino, das famílias desarticuladas, das crianças que sabem que vão morrer mas que não dizem que sabem que vão morrer porque é preciso proteger os Pais. Comovo-me pela primeira vez a sério quando uma médica - oncologista pediátrica - fala e diz o que sente.

***

III.
Última história: Examining the effects of childhood cancer on the parental relationship. Trabalho canadiano, na zona de Calgary, duas dezenas, talvez, de famílias analisadas. Fala-se da desestruturação dos laços, do reforço dos laços, do que acaba ou começa (ainda que efemeramente) mais forte. Fala-se da intimidade do casal e citam-se duas histórias sintomáticas: 1) como podemos ter uma vida sexual reconfortante se temos um filho a sofrer? Ou esta: 2) nunca mais senti desejo. Mas uma vez por semana fazia o sacrifício em nome do "espírito de equipa". E outras histórias, como a do casal cujo momento de maior intimidade tinha sido o dos últimos momentos com um filho entre ambos. Voltei a comover-me.

***

Ao contrário do que possa pensar-se, o ponto em comum destas três histórias não são as crianças, nem sequer as que sofrem de cancro. O que une estas histórias é a vulnerabilidade. E foi esse sentimento que uniu hindus, cristãos, judeus, muçulmanos, anglicanos ou talvez mesmo budistas. A vulnerabilidade falou mais alto.

A médica sueca referida na segunda história mencionou a dificuldade e o medo de dizer a uma criança / jovem que vai morrer. É o sentimento de falha, de não ter conseguido cumprir a sua função de curar. A vulnerabilidade, de novo. Não a das crianças, mas a dos adultos treinados, experientes, com cursos que explicam quase tudo, menos a forma de dizer a um jovem que vai morrer.

Uma família reforça-se em torno de uma vulnerabilidade provocada por um membro desprotegido que sofre. Uma outra família, no prédio ao lado, desfaz-se por causa de uma vulnerabilidade semelhante. Um jovem sabe que o fim se aproxima mas não fala, por causa da vulnerabilidade dos Pais. Só essa ideia de morrer sozinho por compaixão lhe agrava uma vulnerabilidade que habita o corpo e o espírito.

***

6ª feira passada, dia de princípio de fim de semana para muitos. Almocei uma sanduíche acompanhada por uma Smithwick, uma boa cerveja ale. Junto a mim, na memória que era a minha única companhia, a vulnerabilidade - esse sentimento que desinstalou o bom samaritano e que é, de facto, aquilo que verdadeiramente une a espécie humana.

JdB

domingo, 23 de outubro de 2016

XXX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 18,9-14

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus disse a seguinte parábola
para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros:
«Dois homens subiram ao templo para orar;
um era fariseu e o outro publicano.
O fariseu, de pé, orava assim:
‘Meu Deus, dou-Vos graças
por não ser como os outros homens,
que são ladrões, injustos e adúlteros,
nem como este publicano.
Jejuo duas vezes por semana
e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’.
O publicano ficou a distância
e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu;
Mas batia no peito e dizia:
‘Meu Deus, tende compaixão de mim,
que sou pecador’.
Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa
e o outro não.
Porque todo aquele que se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».

sábado, 22 de outubro de 2016

Pensamentos Impensados

Também murcham
Vi um personagem do jet set numa revista cor de rosa.
Deve estar muito doente, nem mexia.

Tecnologias
Vasco da Gama, se tem levado o GPS, teria ido pelo caminho mais curto, que seria o Canal do Suez.

Anexins
Quem tem boca... vá e coma.

Vil mental
Qual a diferença entre a Banca e a D. Branca? Um R.

Intime-as
Para mim, o fígado, o estômago, os rins, são partes mais íntimas que as partes íntimas.

Chamar nomes
Há nomes que não deviam desaparecer; espero que Kátia não des... vanessa

Banhas
O obeso não é carne nem peixe - é gordura.

Ferramentas 
Tenho um armário cheio de inutensílios.

SdB (I)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Do Bach e das coincidências

Ouvi esta missa há poucas semanas na Gulbenkian. Está muito para além de uma obra bonita - falamos no domínio da genialidade. Ouvir estes nove minutos e meio é ouvir quase tudo. Vale a pena investir esse tempo para enriquecimento da alma. Se estivesse muito alegre ouviria este Kyrie. Se estivesse muito triste ouviria este Kyrie. Estou muito cansado, pelo que ouço este Kyrie.

***

Anteontem, no decorrer da conferência que me trouxe a Dublin, uma colega austríaca (com responsabilidades na organização a nível europeu) abordou-me com um desafio: se eu me dispunha a ocupar um lugar no board do CCI (Childhood Cancer International), uma espécie de confederação que abarca associações de pais e de crianças com cancro de todo o mundo - 180 organizações, 90 países, 5 continentes. Disse-lhe que sim, apesar de dentro de mim se fazer esta difícil pergunta: que valor acrescento eu a quem já faz um trabalho notável? Ao fim da tarde era eleito para um cargo que me obriga a saber mais, a estar mais por dentro dos assuntos da oncologia pediátrica a nível nacional e internacional, a ter contactos com os médicos da especialidade. 

Ontem, à saída de uma apresentação, dei de caras com o médico francês, Eric Bouffet, de quem já falei aqui. Oncologista pediátrico a trabalhar no Canadá, ensinou-me à distância quase tudo o que eu (não) precisava saber sobre tumores cerebrais, em 2001. Correspondemo-nos erraticamente numa dada altura, encontramo-nos nestas conferências. Informou-me que a partir de hoje será o próximo presidente do SIOP - sociedade internacional de oncologia pediátrica. Há coincidências significativas...

Cansado, folgado, triste, alegre - há sempre uma boa altura para se ouvir este Bach. Quando há estas coincidências também, porque parece que o mundo ficou micronesicamente mais alinhado dentro de mim.

JdB


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Duas Últimas

Depois de ter cá estado duas vezes numa dimensão profissional enquanto funcionário de uma multinacional, regressei a Dublin com tempo para fazer turismo. Vi tudo com mais calma, com mais companhia, com outros olhos. Gostei do que vi, pese embora as obras ferozes numa parte da cidade que é de visita imperdível, junto ao Trinity College. Não há buzinas, o trânsito é intenso mais fluido, tudo é razoavelmente limpo e há muita gente na rua, nos restaurantes, nos pubs. Arquitectonicamente é bonita, com partes mais bonitas do que outras. O custo de vida é caro, qualquer almoço ou jantar normal num restaurante ou num pub não custam menos de 20€ por pessoa. A comida é boa e a cerveja fantástica (cara, que o álcool deve ser bem taxado) - Guinness, ou qualquer ale, que para lager já me chega a portuguesa. Um café em qualquer sítio custa 2,70€. Jantei quase sempre em pubs ruidosos, com música ao vivo. Sempre bem, que um pub é sempre simpático.

Deixo-vos com música irlandesa, popular, daquela que canta qualquer banda que anime um pub - ouvi-as ambas pelos menos três vezes, em três alturas diferentes, por três artistas diferentes. Se comparamos este tipo de música, que é tradicional, com o nosso fado, que também é tradicional, ficamos com uma ideia das alegrias relativas de cada um dos povos.

JdB
    


terça-feira, 18 de outubro de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Aos 86 anos, Clint Eastwood volta a lançar um filme para dar a conhecer o melhor da humanidade: aquele cidadão anónimo capaz de feitos heroicos, que irrompem de um dia-a-dia levado na humildade mais prosaica e comum. O perfil do anónimo que é, afinal, o oposto das figuras públicas e dos ídolos que arrastam milhares de fãs nas redes sociais, pelas razões mais fúteis e irracionais. Em contracorrente, o realizador adopta outros critérios para consagrar heróis entre quem faz o bem aos seus semelhantes, simplesmente por magnanimidade intrínseca. 

Em Portugal, foi traduzido por «Milagre no rio Hudson»(1), repescando os títulos que encheram os tabloides americanos e do mundo, quando noticiaram comovidos e espantados o caso único da amaragem de um avião comercial no rio de Nova Iorque, às 15h31 de 15 de Janeiro de 2009. Zero mortos, zero feridos, apesar de as estarem turbinas destruídas e no trajecto da descida o airbus já ter sobrevoado a ponte George Washington a menos de 270m de altitude! Chamaram-lhe exactamente assim: the miracle on the Hudson e assim ficou cunhado, para sempre, aquela acrobacia aeronáutica. O realizador preferiu tomar para título o diminutivo por que o salvador das 155 pessoas a bordo é conhecido entre os familiares e amigos: «Sully».

Clint lembra um pouco o escritor Ernest Hemingway (1899-1961) ao comentar a excelente matéria-prima que tinha conseguido trazer para o livro que lhe valera o Nobel, em 1954 – «O Velho e o Mar». Encarara-o como uma espécie de dom: «A sorte foi eu ter um homem bom e um bom rapaz e o facto de ultimamente os escritores se terem esquecido de que isso ainda existe. Além do mais, o oceano é tão digno da literatura como um homem. Por isso tive sorte, nesse aspecto.» É preciso perceber que Hemingway concebia a escrita como uma missão maior, de alcance sagrado e até sacrificial: «(para escrever) o que tem a fazer é sentar-se em frente à máquina de escrever e sangrar.»(2)

Sem sangue mas com o mesmo intuito de mostrar o que vale a pena, Eastwood mantém-se fiel à sua missão de dar a conhecer os heróis improváveis. Os que suplantam as divergências mais arreigadas, conseguindo agregar as boas vontades de todos os quadrantes. Homens capazes de acordar nos seus semelhantes a boa vontade, levando à letra os versos da balada Por ti seré mejor de lo que soy

Tom Hanks encarna na perfeição a figura do piloto mais fiável da América, Sullenberger, que aparece no final do filme, revelando um olhar mais bondoso e suave do que o conseguido por Hanks. 

O argumento baseia-se no livro autobiográfico de Sully, escrito no ano do incidente sobre o Hudson. O título diz muito sobre a forma como encara a vida e o próximo – «Highest duty: My search for what really matters». Das 155 almas a bordo, segundo refere, preocupa-se até ao final em as resgatar, uma a uma. What really matters. Cumprindo à risca o que lhe competia (mas que nem todos praticam), é o ultimo a entrar no bote salva-vidas. É também expressivo o desabafo comovido da mulher, depois de o piloto lhe telefonar e de ligar a televisão para apanhar os pormenores da estrondosa notícia: «Oh my God... I just realized there were a hundred and fifty-five people on that plane and you were one of them!» Não fora possível captar a dimensão do acontecimento no tom simples e modesto do marido, só a querer poupá-la a sustos escusados.

Com arte para contar histórias, Clint prende-nos ao longo de uma hora e meia para narrar o impacto de um mini-voo de 6 minutos, desde o aeroporto nova-iorquino de La Guardia até… ao rio, logo depois de sobrevoar os arranha-céus de Manhattan. Já sem motores, o filme revê, em momentos importantes, a realidade nua e crua: os incríveis 207 segundos em que urge planear e executar uma aterragem rápida, evitando despenhar-se contra a cidade e provocar um número incalculável de mortos, entre os do ar e os da terra.

Tudo se precipitara quando um bando de gansos-canadianos colidiu com o avião, pouco depois de descolar, danificando as duas turbinas. Estava consomado o mais improvável dos acidentes numa tarde gélida de Inverno e logo num dos aeroportos do país mais tecnológico e rico do mundo. Porém, depois da parte negativa, entra em cena o lado benigno da realidade, num antídoto perfeito a tudo o que antes correra mal: aos comandos está um piloto híper competente e honesto, com 40 anos de experiência na Força Aérea norte-americana e, mais tarde, na avião comercial, coadjuvado por um co-piloto também muito capaz – Jeff Skiles, bem interpretado por Aaron Eckhardt. Estes são os factos com nomes reais a quem o filme faz jus, reconhecendo a estranheza de se cruzarem na vida, permitindo um desfecho incrível. Tão incrível, que acabou por ser interpretado pela maioria nessoutra dimensão menos visível, mas que melhor exprime o inexplicável – o milagre. Milagre a vários níveis, sendo o agente mais colaborante o fantástico «factor humano», segundo lhe chamou Sully. 

A somar ao sucesso da amaragem, seguiu-se um contínuo de novos sucessos na evacuação e no resgate, que só correm bem nas curta-metragens que passam a bordo antes da descolagem. Cientes do inusitado, a tripulação foi integralmente condecorada com a Medalha de Mestre da Guild of Air Pilots and Air Navigators, por se considerar que aquela «aterragem de emergência e evacuação, sem a perda de nenhuma vida humana, é uma conquista heroica e única na aviação». Sim, fez-se história na América e no mundo. Precisamente no coração da cidade, ferida por aviões-kamikazes no 11 de Setembro, celebrava-se agora uma epopeia aeronáutica de final feliz. Parecia uma desforra gloriosa e muito cívica. O melhor da humanidade viera ao de cima. 

Imagem real do Airbus A320 a flutuar no rio Hudson.

A somar às proezas da centena e meia a bordo, somou-se a eficiência e a rapidez de actuação das autoridades e de botes de todos os tamanhos. Os números são auto-explicativos: perante a iminência do afundamento do airbus, em apenas 24 minutos, 1200 pessoas mobilizaram-se para trazer os 155 para terra enxuta. A serenidade dos resgatados nas asas do avião é, por si só, digna de assombro, como se dessem por adquirido que, depois de rasarem a morte, a possibilidade de viver lhes tinha sido restituída.  

O testemunho dos passageiros ajuda a dar a noção do que ali esteve em causa. Um deles, Frederick Berreta, publicou um livro sobre o impacto do mini-voo na sua vida, intitulando-o de: «O voo da fé - O meu milagre no rio Hudson». Na net, há um manancial de informação com imagens e entrevistas de arquivo, algumas das melhores compiladas num artigo publicado no Observador (3).

Foi a partir desta matéria-base poderosa que Clint compôs, em filme, um hino ao heroísmo de protagonistas desconhecidos, só revelados nas situações extremas, espalhando o bem em redor. Recupera-se alguma fé no ser humano.  

É também a América dos simples que entra em acção: certeiros a reconhecer os heróis, desde que surjam no radar dos media, são generosos a colaborar e a recordá-los.  

No filme, há ainda um explícito confronto com o lado sórdido de uma corporação – a entidade reguladora – aqui no seu pior, movida pelos interesses obscuros das seguradoras. Sempre o vil metal. Terão descido tão baixo? Ou a vantagem narrativa de arranjar um conflito urdido nos bastidores e dar um rosto ao mal foge à parte factual dos acontecimentos posteriores? Para a fluidez do argumento e a força da mensagem é, ainda assim, de somenos a maior ou menor veracidade desta luta desigual, em que Sully voltou a vencer, trazendo à tona novas riquezas da sua personalidade. 

https://www.youtube.com/watch?v=ecrhK_i2YA0

Entre os muitos fãs do filme, com críticos de cinema incluídos, é comum referir que o mérito do realizador é deixar a história contar-se a si própria, sem atrapalhar. Confirma-se a sorte que Hemingway também exaltava, por um homem bom lhe ter aparecido no livro. No filme, o bom homem ainda contagia uma multidão, para cima de um milhar, que tornou possível o êxito de uma operação de alto risco. Um feito histórico que uniu toda a América. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1) FICHA TÉCNICA

Título original: «Sully»
Título traduzido em Portugal: «Milagre no rio Hudson»
Realização: Clint Eastwood
Argumento: Todd Komarnicki, baseado no livro autobiográfico no piloto Chesley Sullenberger -- «Highest Duty: Highest duty: My search for what really matters».
Produzido por: Clint Eastwood, Frank Marshall, Allyn Stewart e Tim Moore
Banda Sonora: Christian Jacob; the Tierney Sutton Band
Duração: 96 min.
Ano:       2016
País: EUA

        Elenco:
Tom Hanks (Sully)
        Aaron Eckhart (co-piloto Jeff Skiles)
        Laura LinneY (a mulher de Sully)

        Local das filmagens: Nova Iorque /EUA

(2)  Citação no original: «There is nothing to writing. All you do is sit down at a typewriter and bleed». 

 (3)  http://observador.pt/2016/09/08/milagre-no-rio-hudson-um-heroi-americano-no-ar-e-em-terra/   



segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Pensamento Impensado

Unanimidade e aclamação

Começo por declarar ter a maior admiração pelo Engº Guterres, pelo que o texto abaixo resulta de uma associação de ideias.

Há cerca de 30 anos, mais ou menos, quando havia sessões de esclarecimento por tudo e por nada, passava eu no Camões, em Lisboa, quando vi cerca de 30 pessoas sentadas nos degraus que dão para o Largo das duas Igrejas.

Em frente dessa gente, que mais tarde vim a saber serem varredores da Câmara, arengava um sujeito; a cara dos "esclarecidos" denotava que não percebiam nada. Quando acabou de falar, o "chefe" virou-se para os circunstantes e perguntou: alguém tem alguma coisa a dizer? Como ninguém disse nada, exclamou: aprovado por unanimidade e aclamação, tendo imediatamente começado a bater palmas, no que foi secundado pela assistência. 

A unanimidade e aclamação vale o que vale.

SdB (I)

Dos próximos dias

À hora a que me lerem os poucos mas fieis leitores estarei a caminho de Dublin, ou já em Dublin. Estarei lá até Domingo, numa visita que tem uma parte de turismo e uma parte de trabalho: entre 4ªf e Sábado estarei reunido com associações de pais e de crianças com cancro do mundo inteiro, reunião essa que decorre paralela ao congresso anual do SIOP - sociedade internacional de oncologia pediátrica. Durante três ou quatro dias, portanto, o tema será este - as crianças com cancro. 

A reunião serve um propósito óbvio e um menos óbvio: 

1) aprendo o que estão a fazer as associações congéneres, que dificuldades sentem, quais os temas mais importantes face ao estado da arte, como se angariam fundos ou como se influenciam os decisores políticos;  percebemos o que fazem os países mais pobres, como sobrevivem em condições de enorme pobreza e ignorância. Ouvimos os médicos, enfermeiros, psicólogos e ficamos com uma noção do que é mais importante no estado da ciência, ao que se dá ou deve dar prioridade. Conversamos, revemos caras e conversas (revejo um médico com quem travei conhecimento virtual em 2001 e que, de caminho para o Porto vindo do Canadá em 2002, passou por Lisboa 30 minutos só para me conhecer cara a cara).

2) reforço a necessidade de eu próprio fazer mais e melhor; afino o sentido que dou à minha vida no que toca à Acreditar, associação que me deu tanto; oiço, oiço, oiço; aqui e ali comovo-me com uma história de sofrimento ou de alegria; talvez me comova com as minhas próprias lembranças; penso na alegria das crianças da Acreditar por viverem ou serem tratadas no hemisfério norte, porque no sul a esperança de vida seria muito menor; penso na focagem que me falta, na competência com que devo cumprir o trabalho para que me ofereci ou para o qual me elegeram; aprendo e invejo a força destes pais que não desistem, que ficam anos a tratar dos seus filhos doentes ou que, tendo-se despedido deles, não desistem de tratar dos outros. 

Até sábado será isto. Turismo, lazer, trabalho, agitação da alma, talvez desentupimento do canal lacrimal.     

JdB 

domingo, 16 de outubro de 2016

XXIX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 18,1-8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus disse aos seus discípulos uma parábola
sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar:
«Em certa cidade vivia um juiz
que não temia a Deus nem respeitava os homens.
Havia naquela cidade uma viúva
que vinha ter com ele e lhe dizia:
‘Faz-me justiça contra o meu adversário’.
Durante muito tempo ele não quis atendê-la.
Mas depois disse consigo:
‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens;
mas, porque esta viúva me importuna,
vou fazer-lhe justiça,
para que não venha incomodar-me indefinidamente’».
E o Senhor acrescentou:
«Escutai o que diz o juiz iníquo!…
E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos,
que por Ele clamam dia e noite,
e iria fazê-los esperar muito tempo?
Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa.
Mas quando voltar o Filho do homem,
encontrará fé sobre esta terra?»

sábado, 15 de outubro de 2016

Pensamentos Impensados

Esperas
Estive num hospital para fazer vários exames; esperei numa sala duas horas; na mesma sala estavam mais quatro homens que, como eu estavam em pijama. Sempre pensei que um pijama party fosse mais divertido.

Orça...mêste
O OE 2017 só lhe faltou andar nas bocas do mudo.

Vil metal
O presidente da Bolívia já tinha a FARC e o queijo na mão, agora tem mais uns dólares.

Paga e não bufes
Quando estou a pagar impostos sinto-me um produto contrafeito.

Mutações
Que teorias teria engendrado Charles Darwin se em vez de ter observado iguanas
tivesse visto o homo lusitanus.

Cornologias
Como define daqui a pouco? Quando faltar só um bocadinho.

Guerduras
Está tudo preocupado com os obesos. O escultor Botero chama-lhes um figo.

Isto é descer, marquês
O advogado de Sócrates já teve tantas derrotas que está na zona de descida de divisão.

SdB (I)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Prémio Nobel da Literatura



Desolation Row

They're
Selling postcards
Of the hanging
They're painting
The passports brown
The beauty parlor
Is filled with sailors
The circus is in town
Here comes
The blind commissioner
They've got him in a trance
One hand is tied
To the tight-rope walker
The other is in his pants
And the riot squad
They're restless
They need somewhere to go
As Lady
And I look out tonight
From Desolation Row

Cinderella
She seems so easy
"It takes one to know one"
She smiles
And puts her hands
In her back pockets
Bette Davis style
And in comes Romeo
He's moaning
"You Belong to Me I Believe"
And someone says
"You're in the wrong place
My friend
You better leave"
And the only sound that's left
After the ambulances go
Is Cinderella sweeping up
On Desolation Row

Now the moon is almost hidden
The stars are beginning to hide
The fortunetelling lady
Has even taken
All her things inside
All except for Cain and Abel
And the hunchback of Notre Dame
Everybody is making love
Or else expecting rain
And the Good Samaritan
He's dressing
He's getting ready
For the show
He's going
To the carnival tonight
On Desolation Row

Now Ophelia
She's 'neath the window
For her I feel so afraid
On her twenty-second birthday
She already is an old maid
To her death
Is quite romantic
She wears an iron vest
Her profession's her religion
Her sin is her lifelessness
And though her eyes
Are fixed upon
Noah's great rainbow
She spends her time peeking
Into Desolation Row

Einstein
Disguised as Robin Hood
With his memories in a trunk
Passed this way an hour ago
With his friend
A jealous monk
He looked
So immaculately frightful
As he bummed a cigarette
Then he went off
Sniffing drainpipes
And reciting the alphabet
Now you
Would not think
To look at him
But he was famous long ago
For playing
The electric violin
On Desolation Row

Dr. Filth, he keeps his world
Inside of a leather cup
But all his sexless patients
They're trying to blow it up
Now his nurse, some local loser
She's in charge
Of the cyanide hole
And she also keeps
The cards that read
"Have Mercy on His Soul"
They all play
On penny whistles
You can hear them blow
If you lean
Your head out far enough
From Desolation Row

Across the street
They've nailed the curtains
They're getting ready
For the feast
The Phantom of the Opera
A perfect image of a priest
They're spoon feeding Casanova
To get him to feel more assured
Then they'll kill him
With self-confidence
After poisoning him with words
And the Phantom's
Shouting to skinny girls
"Get Outta Here
If You Don't Know
Casanova is just being
Punished for going
To Desolation Row"

Now at midnight all the agents
And the superhuman crew
Come out and round up everyone
That knows more than they do
Then they bring them to the factory
Where the heart-attack machine
Is strapped across their shoulders
And then the kerosene
Is brought down from the castles
By insurance men who go
Check to see
That nobody is escaping
To Desolation Row

Praise be to Nero's Neptune
The Titanic sails at dawn
And everybody's shouting
"Which Side Are You On?"
And Ezra Pound and T. S. Eliot
Fighting in the captain's tower
While calypso singers laugh at them
And fishermen hold flowers
Between the windows of the sea
Where lovely mermaids flow
And nobody has to think too much
About Desolation Row

Yes,
I received your letter yesterday
(About the time the door knob broke)
When you asked how I was doing
Was that some kind of joke?
All these people that you mention
Yes, I know them, they're quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can't read too good
Don't send me no more letters no
Not unless you mail them
From Desolation Row

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A maratona e o hectómetro *

Carlos achava que a sua vida corria tão ao contrário que teria achado normal o registo à nascença como Solrac. Sempre achara estranhos alguns aspectos da sua deambulação pela Terra: características em novo que eram pertença de velhos, manias quase infantis quando já entrara no último terço estatístico da sua vida. Lembrava-se exactamente desta peculiaridade quando comentava a sua inscrição na colectividade do bairro, baptizada, numa década passada, com o nome ternurento de atletismo, meu amor. Entrara na flor desportiva da idade e dirigira-se ao balcão, onde o Zé Tó, de fato de treino reluzente de poliéster, suor e tenda de ciganos o recebera escorropichando uma bebida isotónica:

Boa tarde, venho inscrever-me como maratonista.

Companheiro atleta – deixa-me que te trate assim – esse não é o percurso dos grandes campeões. Pode começar-se pelo meio fundo e depois evoluir para a mãe de todas as corridas.

Percebo, Zé Tó – deixa-me que te trate assim – mas eu sou um fundista, e correr menos de 42 km, mais metro menos metro, deixa-me agoniado, com tonturas várias e desorientações diversas. Todo eu estou preparado para ir ao fundo, passe a dualidade da frase.

Carlos envergararia a camisola do atletismo, meu amor conseguindo bons resultados perante o olhar perscrutante do Zé Tó, cujo fato de treino ganhava uma patine que amortecia uma luminosidade estranhamente própria. Depois, fruto de circunstância várias que não se compadecem com explicações científicas, começaria a sua caminhada no sentido inverso: corria cada vez menos tempo, não fruto da evolução do seu desempenho, mas consequência de distâncias menores. Quando deu por si, espantado e confuso, estavam a acenar-lhe – os companheiros e as suas entranhas - com a hipótese de especialização nos 100 metros.

100 metros, Zé Tó? Tanto treino, tanto exercício, tanta ciência, tanto sacrifício para terminar o gozo passados 10 segundos? Desculpa a repetição, mas eu estou preparado para ir ao fundo, não para conter a respiração. E como é que se corre, como se doseia o esforço, como se enrijece o músculo, como se prepara a mente, como se goza a vitória? Dez segundos?

Companheiro atleta! Pois eu penso que haverá satisfação nesta vertente. Pois é mais rápida, pois é mais curta, pois exige um empenho diferente. Mas tem o seu gozo, tu verás. Experimenta. E lembras-te daquele anúncio que dizia para não negares à partida uma ciência que desconheces? Pois é isso…

Carlos sentou-se na bancada e viu os seus companheiros de colectividade a perfilarem-se no tartan para correrem um hectómetro. Fechou os olhos e deu por si concentrado na programação da corrida: o tempo aos 5.000 metros, o cansaço mental aos vinte quilómetros, a vontade de desistir passados dez e a energia recuperada para o momento de glória, porque chegar era já em si bastante. Quando abriu os olhos, tudo se tinha consumado na primeira eliminatória, abrindo espaço para uma segunda e para uma terceira, como se fosse uma nova corrida nova viagem da família que desafiava o destino no poço da morte. Dez segundos mais dez segundos mais dez segundos…

Agarrou numa camisola e escreveu Solrac. Levantou-se a contragosto, deu uma palmada amigável nas costas puídas e húmidas do Zé Tó e disse para consigo, abrindo um sorriso que não se percebia se era de tristeza, de ironia, de malícia ou conformação:

Prepara, estar pronto, largar. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 10. Já está.


JdB

* publicado originalmente em 11.10.2008

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Poemas dos dias que correm *

"É raro um país e uma língua adquirirem quatro grandes poetas em um dia. Foi precisamente o que ocorreu em Lisboa a 8 de Março de 1914.” (George Steiner, Paris, 23.4.1928)

Põe-me as Mãos nos Ombros...

Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

Eu não sei por quê,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.

Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

***

Estou Cansado

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.


Álvaro de Campos, in "Poemas"

                                                                                ***

Colhe o Dia, porque És Ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in "Odes"

***

As frases que nunca escreverei, as paisagens que não poderei nunca descrever, com que clareza as dito à minha inércia e as descrevo na minha meditação, quando, recostado, não pertenço, senão longinquamente, à vida. Talho frases inteiras, perfeitas palavra a palavra, contexturas de dramas narram-se-me construídas no espírito, sinto o movimento métrico e verbal de grandes poemas em todas as palavras e um grande entusiasmo, como um escravo que não vejo, segue-me na penumbra. Mas se der um passo, da cadeira, onde jazo estas sensações quase cumpridas, para a mesa onde queria escrevê-las, as palavras fogem, os dramas morrem, do nexo vital que uniu o murmúrio rítmico não fica mais que uma saudade longínqua, um resto de sol sobre montes afastados, um vento que ergue as folhas ao pé do limiar deserto, um parentesco nunca revelado, a orgia dos outros, a mulher, que a nossa intuição diz que olharia pra trás, e nunca chega a existir.

Bernardo Soares, in "Livro do Desassossego"

***

Eu Queria Ter o Tempo e o Sossego Suficientes

Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes 
Para não pensar em coisa nenhuma, 
Para nem me sentir viver, 
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 


* Fotografia e legenda enviadas por mão amiga

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Duas Últimas

“Vai sem medo” é um original dos Madredeus, da autoria do compositor e baixista Pedro Ayres Magalhães.

PAM tem uma longa e profícua carreira, tendo passado pelos Heróis do Mar ou pelos Madredeus – neste último caso tendo por companheiro de jornada o grande músico Rodrigo Leão, proveniente dos Sétima Legião –, isto para apenas referir os grupos mais conhecidos de que fez parte.

Foi também um dos principais impulsionadores do magnífico projecto que dá pelo nome de “Resistência”, que tem entre os seus integrantes vozes como as de Tim, Olavo Bilac ou Miguel Ângelo. Este grupo ainda mexe, com a edição no final de 2014 do álbum “Horizonte”, após longa ausência dos estúdios, contendo uma nova e feliz versão do referido original dos Madredeus, que aqui também vos deixo.

Normalmente gosto mais das músicas originais do que das variações posteriores. Não é este o caso, mas com os Resistência prefiro quase sempre as suas interpretações e arranjos aos respectivos originais.

Espero que oiçam as duas versões, mesmo que seja para afinal discordarem do meu discutível gosto…

fq


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Textos dos dias que correm

Agustina Bessa-Luís e S. Francisco de Assis (cujo dia se celebrou no passado dia 5 de Outubro)

Eu vi os restos dos primeiros conventos franciscanos, perto de Spoleto; as celas eram feitas de vimes e de terra, como faziam as casas os camponeses. Amassavam a lama com as mãos, teciam um estafe de canas, e tinham pronto o convento, numa ravina, às vezes com tocas naturais na pedra onde iam rezar os frades, ou fazer penitência.

A vida era tão difícil que essa regra franciscana não parecia senão dar-lhe apoio, integrar-se na severa condição da Natureza. Hoje achamos mórbido e fanático todo esse curso de humilhação voluntária; mas não sabemos mais o que era ter de sobreviver com um punhado de farinha e algumas ervas.

O povo vivia assim. Os forais da época, que estipulavam às vezes meio ovo como paga ao senhor das terras, dizem quanto a escassez era uma praga difícil de debelar.

O franciscanismo apareceu como uma assistência social directa: instalou-se nos burgos, entrou no clima campesino e no lar operário; derramou-se pela fazenda burguesa, penetrou na praça comercial.

Levou uma consciência nova dos problemas, até à reitoria, até à câmara, até ao paço. Até aí havia o teólogo e o exegeta. Debatiam-se os dogmas nos concílios, atalhava-se a heresia com complicadas teses. Cuidava-se do artigo de fé e do poder do clero. Francisco trouxe o pobre para a sociedade e recuperou Cristo no pobre. E fê-lo sem revolta, com uma sinceridade que subverte a revolta; que a torna menos soberana do que a realidade sofrida. Não disse: “Pobres, uni-vos.” Mas disse a todos: “Tornai-vos pobres”. Amai o dever de ser pobre, e não a confrontação e a luta.

E também ele sabia lutar. Era um guerreiro. Francisco era um guerreiro, de génio lúcido que é o que ganha as grandes batalhas. A sua vida não foi uma renúncia, foi uma glória, uma avançada permanente, um esforço genial para entrar no tempo, na imponderabilidade do pobre. O pobre não tem atmosfera, flutua, quebra pernas e braços contra pequenos obstáculos nos quais ninguém mais choca. Mas, sabendo qual a sua condição, sente a leveza do seu mísero corpo, e nenhum fardo o pode oprimir.

A regra franciscana era tão poética que dela só podia subsistir o perfume. Era alegre, pois proibia acompanhar o jejum com a expressão mortificada; era sábia, pois se desviava das letras; era grande, porque prevenia contra o vício da vontade própria. Não foi feita para servir os homens, e por isso levantou tumulto e fez nascer as dissidências. É mais fácil á natureza humana acometer as coisas que exigem heroísmo, do que confiar naquelas que a mantêm na virtude sem penas e na modéstia sem exemplo.

Agustina Bessa-Luís
In Dicionário Imperfeito, Guimarães Editores
Tirado daqui

domingo, 9 de outubro de 2016

28º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 17,11-19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
indo Jesus a caminho de Jerusalém,
passava entre a Samaria e a Galileia.
Ao entrar numa povoação,
vieram ao seu encontro dez leprosos.
Conservando-se a distância, disseram em alta voz:
«Jesus, Mestre, tem compaixão de nós».
Ao vê-los, Jesus disse-lhes:
«Ide mostrar-vos aos sacerdotes».
E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra.
Um deles, ao ver-se curado,
voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz,
e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus
para Lhe agradecer.
Era um samaritano.
Jesus, tomando a palavra, disse:
«Não foram dez que ficaram curados?
Onde estão os outros nove?
Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus
senão este estrangeiro?»
E disse ao homem:
«Levanta-te e segue o teu caminho;
a tua fé te salvou».

sábado, 8 de outubro de 2016

Pensamentos Impensados

Ditado
Com capas e oiros se enganam os toiros.

Gelados
Carlos Santos Silva tem as contas congeladas; os esquimós também.

Tremuras
Na escola de Richter só se ensina terramotos.

Etiquetas
Devem dar-se dois beijinhos ou um azerbeijão?

Poeirada
Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris.
Cada vez que me lembro que sou pó olho para os lados, aterrado, não vá haver um aspirador.

Portas célebres
Porta de Bradenburgo, porta-voz, porta bandeira, Paulo Portas e não esquecer o porta-te bem.

Goleada
Sempre que bebo pratico auto-golo.

Esquelento
O esqueleto das cobras são ossos do ofídio.

SdB (I)

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