sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Poema dos dias que correm

Toronto, Outubro de 2014


O Album

Minha Júlia, um conselho de amigo;
Deixa em branco este livro gentil:
Uma só das memórias da vida
Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada
Pelas mãos do mistério há-de ser;
Que não tem língua humana palavras,
Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja
De uma vida o tecido matiz ,
Um só fio da tela bordada,
Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,
Brilho falso que um tempo seduz,
Que se apaga, que morre, que é nada
Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos
Dos enganos que a esp’rança forjou?
Vãos reflexos de um sol que tardava
Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida
Eu coa minha ventura sonhei;
E uma só, dentre tantas, o juro,
Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,
Tão segura por dentro a fechou,
Que o passado fugiu da memória,
Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:
Deixa em branco este livro gentil,
Que as memórias da vida são nada,
E uma só se conserva entre mil.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Pensamentos dos dias que correm

A Coragem da Resignação

A palavra «resignação» não tem boa reputação. Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. E todavia, não é isso. Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibili­dade? A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. Mas é uma imagem ridícula. Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem. A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação. Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. Mas o espec­táculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer. Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige. 

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2"

***

A Culpa é Sempre Nossa


Sempre admirei aqueles que nos fazem sentir culpados do que dantes nos julgáramos inocentes. A culpa é uma riqueza, à qual se vai acrescentando. O resultado oscila entre a lista telefónica e as Obras Completas mas pesa sempre. 

Os grandes mestres são os nossos pais e os nossos filhos - ambos mostram de onde veio a inspiração para o pecado original. Ora se é culpado por ter nascido e interrompido, ora se é culpado por ter dado a nascer e não se ter interrompido tanto quanto precisariam os nascidos. A culpa não é uma coisa que se tenha, como um pescoço. É uma coisa que se transmite, como uma gripe. Tanto faz ser-se inocente ou culpado «à partida», que tem aspas porque não existe. Os malvados constipam-se tanto como os bonzinhos. Mas ambos são vulneráveis à ideia que até fizeram por isso e merecem pagar. Até com as lâmpadas de casa de banho acontece. Não há domínio de banalidade que a culpa não contamine. Tenho passado, nos últimos anos, várias semanas, dispersas no tempo, sem luz na casa de banho. Uso pilhas e a luz da lua, quando é oferecida. Depois aparece o electricista que é afoito e resolve tudo num segundo. Não desaparece, contudo, sem bafejar-me primeiro com o ónus da culpa. «Usa muito a casa de banho de noite?», pergunta, como se fosse uma perversão ou uma coisa má. Eu caio na asneira de responder que não. Ele dá-me o olhar culpabilizante: «Andas a cagar muito e a más horas, a ler o Proust...» Santa culpa, que é sempre nossa. 


Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (19 Jan 2012)'

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Vai um gin do Peter’s? 

Há gente nova fantástica! Falar em “geração rasca” é das maiores heresias, além de rematado mau gosto. Claro que serve de atenuante, o facto de estar tão desfasada da realidade.

Quantos universitários e recém-licenciados têm aproveitado as férias para ajudar outros da sua idade a sair da espiral de carência em que nasceram. Oferecem, assim, boa parte do tempo de descanso (alguns, um ano sabático) para ser úteis a quem passa fome, dispondo-se a inventar oportunidades capazes de conferir rumo a vidas aparentemente perdidas. 

É neste espírito que a organização «Leigos para o Desenvolvimento» lança, há décadas, programas de voluntariado para a antiga África portuguesa. No início foram os pais. Agora, parte a geração dos filhos. 


Santomeneses e «Leigos» formam equipa para desenvolver S.Tomé, começando pelos mais novos.


Um dos primeiros destinos foi S.Tomé, onde as jazidas de petróleo não conseguiram reverter o estado de subdesenvolvimento extremo em que o país se arrasta. Forrados de imaginação, este ano, um grupo de «Leigos» desencantou uma alternativa para proporcionar à juventude santomense um hobby saudável e exequível, pois mar não lhes falta: o surf. 


Pranchas alinhadas para dar esperança à geração mais nova. A alegria serena da criança de feições redondas e meigas, é o melhor argumento em favor do projecto.


Como tudo o mais escasseia na ilha, a começar por pranchas e equipamento náutico adequado, iniciaram um crowfunding (https://novobancocrowdfunding.ppl.pt/surf-alegre) para aquisição do material necessário à prática daquele desporto. O custo exorbitante do transporte tem inviabilizado os donativos em género, motivo por que são preferidos os contributos financeiros, através do tal crowdfunding, activo até 11 de Setembro. Se, até lá, não forem atingidos os dois mil euros, a campanha fica sem efeito e o dinheiro recolhido será devolvido aos doadores. 


É visível o entusiasmo com o novo brinquedo, que pode ser o motor
de desenvolvimento da economia local. 


Com humor, chamaram à iniciativa «Surf Alegre», jogando com o nome do povoado marítimo que serve de sede ao programa – Porto Alegre – a replicar a toponímia brasileira, talvez por virem desta margem os navios de escravos que povoaram o outro lado do Atlântico… Perguntamo-nos, sem encontrar resposta à altura: porque se acumulou tanto sofrimento naquela pequena ilha africana, fadada para ser um paraíso, pois até a comida nasce nas árvores, pejadas de fruta suculenta? 

De facto, há sítios e vidas que descaem para o torto com demasiada facilidade. Mas, felizmente, que os «Leigos» persistem em tentar quebrar o ciclo da marginalidade. Desta vez, pretendem ajudar os santomenses a apanhar a onda certa, na mais pura acepção, sonhando-a ainda como embrião de uma oferta turística extensível a toda a região. O facto é que não se têm poupado a trabalhos, chegando a montar o primeiro torneio de surf, que querem internacionalizar para atrair campeões de todo o mundo. Depois, uns chamarão outros, convertendo a ilha num chamariz náutico imparável. 


Os efeitos da iniciativa já se fazem sentir, com miúdos a levar
 a sério um desporto recém-descoberto


Se o crowdfunding “borregar”, todo este projecto de realização
pessoal e profissional fica comprometido. 


Tudo planeado ao milímetro, os «Leigos» estão já a desdobrar-se numa multiplicidade de workshops, desde os surfistas, aos logísticos para reparação e reciclagem de pranchas, ginástica preparatória e todo o conjunto de actividades lúdicas em torno do surf, onde a disciplina e o entusiasmo se aprendem com subtileza e muito divertimento. 

Depois da generosidade infinda destes pequenos missionários da actualidade, resta-nos a parte mais fácil: viabilizar um crowdfunding que poderá resgatar a geração mais promissora da ilha de S.Tomé. Compensará inclusive parte do que, ao longo da História, correu mal por aquelas paragens tropicais. Já é um privilégio podermos também apanhar tão boa onda, graças a estudantes «Leigos» inspirados!... 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

Hoje, mas há 23 anos, baptizava-se na Igreja de Santo António do Estoril uma criança que, estou certo, já nascera consagrada a Nossa Senhora.

JdB

***

Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.
Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa.


***

EVANGELHO – Lc 1,39-56


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Livros dos dias que correm

A crer como certo o que consta da badana, li o livro com 40 anos de atraso. De facto, se "[n]unca perdendo a actualidade, continua a fascinar o público jovem sendo livro de cabeceira há já várias gerações", está correcto, Siddharta, de Hermann Hesse, chegou às minhas mãos quatro décadas depois do que devia. Não decidi perseguir tardiamente a juventude - isso seria ridículo em mim, muito em particular, que nunca fui jovem e que vive relativamente bem com a sua idade.  Na realidade, o livro foi-me sugerido por via da minha tese de doutoramento. 



Não sei se Siddartha é um livro para o "público jovem". Não sei, sequer, a que faixa etária pertence este público: 16? 18? 25? E são os jovens em 1978 (quando eu tinha vinte anos), ou são os jovens de agora, com todas as diferenças de uma geração para outra? Siddartha fala de despojamento, da pobreza que, por ser opção, não implica dificuldades, da felicidade de viver sem nada a não ser de uma banana por dia e de um rio que diz coisas sábias. 

- Muito bem, E o que tens tu para dar? O que aprendeste, o que sabes fazer?
- Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar.
- Isso é tudo?
- Penso que é tudo.  

Talvez, como no filme e, penso, numa música, a vida esteja ao contrário, e os rios devessem correr do mar, não para ele. Talvez fosse mais proveitoso ler Siddartha aos 20 anos - mas com o entendimento dos 60. Não estou certo do impacto perene da leitura deste livro numa juventude que, muito naturalmente, não sabe o que é despojamento, não sabe o que é querer viver com pouco, porque com muito pouco se pode viver muito bem; uma juventude que não quer prescindir da tecnologia, dos carros, da carreira ou das roupas ou das viagens de puro lazer.

Pensar, esperar, jejuar. Um bom programa, mas um programa difícil, qualquer que seja a idade. 

JdB


domingo, 13 de agosto de 2017

19º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 14,22-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Depois de ter saciado a fome à multidão,
Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco
e a esperá-l’O na outra margem,
enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu,
subiu a um monte, para orar a sós.
Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar,
açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite,
Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma.
E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!» – disse Jesus.
Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas,
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se,
gritou: «Salva-me, Senhor!»
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.
Depois disse-lhe:
«Homem de pouca fé, porque duvidaste?»
Logo que saíram para o barco, o ventou amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus,
e disseram-Lhe:
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

sábado, 12 de agosto de 2017

Pensamentos Impensados

No restaurante 
Cliente: Sugira-me uma boa entrada.
Empregado: As portas do Céu, mas aqui não temos.

Desportos
Há um desporto que altera o filismo; não sei o que é, mas pelo sim pelo não não vou praticar.

Pratos tradicionais
Parece-me que o Governo pede dinheiro emprestado para pagar os juros da dívida.
Assim sendo, é como uma pescadinha de rabo na boca; e já sinto a boca no meu rabo.

Anexim
Quem não défice não trémice.

Espertezas
Adão, para pressionar Deus a dar-lhe uma companheira, fez greve de sexo.

Estatísticas
Nos tempos de Adão e Eva o desemprego chegou aos cem por cento.

Nulidades
Os clubes de futebol que empatam é porque têm grande empatia.

Casinhas
Era um apartamento tão pequeno que tinha a classificação de T abaixo de zero.

SdB (I)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Duas últimas

Conheci a música "No rancho fundo" quando fui ao Brasil pela primeira vez, penso que em 1975, pese embora a música ser mais antiga. Naquela viagem trouxe uma cassette (ainda alguém se lembra do tempo das cassettes?) com músicas de Ary Barroso, um brasileiro responsável por inúmeros sucessos, nomeadamente Aquarela do Brasil.  Desta cassette que me acompanhou durante algum tempo fixei este "No rancho fundo", integrado num medley interpretado pelo Quarteto em Cy. 

Ontem, em casa da minha filha, ela perguntou-me se eu conhecia a música, e apresentou-ma cantada pelo António Zambujo e Miguel Araújo. Gostei muito da versão, mas na minha memória estava a do quarteto brasileiro. Ontem ainda, ao pesquisar os youtubes para aqui postar, encontrei a versão que, dizem alguns internautas, é a melhor: Chitãozinho e Xororó - e só o nome é um tratado a merecer atenção. 

Deixo-vos com as três versões, embora a do Quarteto em Cy - que recomendo muito - integre apenas umas quadras, seguindo para outras músicas que vale a pena ouvir também. 

JdB  

Nota: nunca tinha ouvido a música toda, porque a versão do Quarteto em Cy tem apenas, como referi, uma pequena parte. Há quem ache que a letra fala de uma relação gay. Não sei, acho audacioso dizê-lo só pela escuta dos versos. Talvez haja pela net uma interpretação oficial. Não me interessou.






  

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Textos dos dias que correm

A Idade da Derrota Aceite

Tenho sessenta anos. Não te iludas: não estou ainda bastante fraco para ceder às imaginações do medo, quase tão absurdas como as da esperança e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confiança; não perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim tão próximo não é necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperança de chegar à manhã seguinte. Adentro dos limites intransponíveis de que te falei há pouco, posso defender a minha posição passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. Não deixo por isso de ter chegado à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avançamos sem cessar, diminui para mim à medida que a minha doença mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos já não será vivo. 

A minha margem de hesitação já não se alonga em anos, mas em meses. As minhas probabilidades de acabar com uma punhalada no coração ou por uma queda de cavalo tornam-se cada vez menores; a peste parece improvável, a lepra ou o cancro afiguram-se definitivamente afastados. Já não corro o risco de cair nas fronteiras, atingido por um machado helénico ou trespassado por uma flecha parta; as tempestades não souberam aproveitar as ocasiões que se lhes ofereceram, e o feiticeiro que me predisse que eu não me afogaria parece ter acertado. Morrerei em Tíbure, em Roma ou em Nápoles quando muito, e uma crise de sufocação encarregar-se-á da tarefa. Serei levado pela décima ou pela centésima crise? É essa a única questão. Assim como o viajante que navega entre as ilhas do Arquipélago vê despontar, ao entardecer, uma espécie de névoa luminosa e descobre pouco a pouco a linha da costa, eu começo a avistar o perfil da minha morte. 

Certas fracções da minha vida assemelham-se já a salas desguarnecidas de um palácio demasiadamente vasto que um proprietário empobrecido renuncia a ocupar todo. 

Marguerite Yourcenar, in 'Memórias de Adriano'

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Duas Últimas

Devido a sortilégios informáticos muito além do meu entendimento, consigo perceber, numa determinada aplicação relacionada com música (Spotify para os mais ignorantes da tecnologia moderna) o que uma determinada pessoa, significativamente mais nova do que eu, está a ouvir no momento. Volta e meia, de visita a esta aplicação que ainda não uso com regularidade, percebo o que essa pessoa está a ouvir. Por vezes conheço a música, por vezes conheço a banda ou o cantor, por vezes, como é o caso agora, não conheço nada. Não faço, por isso, a mais pálida ideia de que género de música se trata. A decisão de postar foi, portanto, um enorme tiro no escuro, embora pareça ter identificado alguma coisa pelas imagens estáticas no youtube

Deixo-vos com os Tinariwen em Toumast Tincha. Se quiserem insultar alguém façam-no aqui, que eu reencaminho a indignação para quem de direito.

JdB


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Recordações do dia que passa

O post de hoje é todo feito sob o signo da lembrança: hoje, mas há exactamente nove anos, estava a chegar ao Zimbabwe. E hoje, mas há exactamente nove anos, escrevi dois posts: um subordinado ao título a minha mala é um queijo da serra (que copio mais abaixo) e outro subordinado ao título aniversário, no qual, lá de longe no espaço e no tempo, dava um beijo de parabéns à ETM, uma amiga que nunca me faltou quando precisei e a quem telefonarei ainda hoje. 

Hoje é isto, amanhã não sei...

JdB

***

Na generalidade, penso que todos temos um potencial racismo interior, pronto a eclodir ao menor sinal. Estou em África, pelo que falo em relação aos que cá vivem e aos que de cá são naturais. Um nativo simpático e educado ganha o estatuto de encantador. Ao lado dele, um jovem que comete um erro transforma-se num incompetente que vive num país que não funciona, porque senão tê-lo-ia despedido antes de o contratar. Entre a cristandade que deseja abraçar o seu irmão de côr e a superioridade que pretende defenestrar o mesmo cavalheiro há um nada que mal se vê. Eu conto:

Fui buscar ontem a minha mala ao aeroporto de Harare, 24 horas depois de eu próprio ter chegado. Mantive a higiene mínima graças ao pronto-a-vestir do JdC. Somos amigos há tantos anos que já temos o mesmo tamanho, pouco mais ou menos. Pela manhã afiançaram que a mala já repousava no Zimbabué, o que não se confirmou, após busca aturada. O sr. Simba, verdadeiro leão africano, sugeriu-me que esperasse pelo voo da SAA das 12.20h. O sistema, segundo ele, não falha, e afiançara que a mala saíra de Joanesburgo ainda na 3ª feira. Talvez neste aviãozinho, sugeriu ele. Aguardei, pois. Chegou enfim, passados largos minutos de espera ansiosa, enquanto os meus olhos corropiavam pelo tapete que suporta bagagem de todo o tipo e feitio - desde equipamento para o jogo do polo ao saco de comida para cães.


Estou certo de que em Joanesburgo a minha mala levantou suspeitas. Presumo o farejar de cães, o telefonema enervado para as minas e armadilhas, o contacto com o supervisor de serviço, a dúvida sobre o despoletar da emergência interna. Activou-se o plano B, que consistiu em cortar uma face inteira da minha mala, deixando a descoberto um forro alvo, feito do algodão mais macio. Felizmente não roubaram nada - das meias à máquina fotográfica, passando por um teclado de má qualidade e roupa interior do M&S.

Quando olhei para os despojos da mala que albergava os meus pertences, vi o desinteresse em tempo inútil. Senti-me como um presidente de um clube de futebol que, pagando milhões por um craque, o vê chegar no dia seguinte ao prazo legal com uma rótula flexível como basalto. Acabei por ter uma visão mais gastronómica: a minha mala é um queijo da serra ao qual cortaram uma calote, revelando um amanteigado de salivar.

JdB

PS: li algures, no espaço blogosférico de alguém, que as mulheres almejam sentido de humor nos homens. É isso que querem. Eu, apesar de tudo, tento manter o meu - para os fins mais nobres.

domingo, 6 de agosto de 2017

Transfiguração do Senhor

Evangelho segundo S. Mateus 17, 1-9.

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol,
e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito.
Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse:
«Levantai-vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

sábado, 5 de agosto de 2017

Pensamentos Impensados

Frases bombásticas
Sofia Loren foi uma bomba anatómica.

Classificações
O s mosquitos são insecto-contagiosos.

Só com motor de busca
É mais fácil encontrar o Pokemon que os sítios onde o Marcelo não esteve.

Lembranças
Omar Shariff foi assim baptizado depois da sua mãe ter lido Oh Mar Salgado.

Anexim
Cesteiro que faz um sexto é porque fez um quinto.

Protesto
Caracóis indignados com morticínio propõem-se fazer protesto em marcha lenta.

Justiças
Caim, como bom lavrador, lavrou a sentença de morte do irmão Abel.

A caixinha que mudou o falar
Oiço, na TV, um advogado dizer troca de palavras verbais e físicas.

SdB (I)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Poemas dos dias que correm

princípio do prazer

à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

***

Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.

Bertold Brecht, in 'Do Pobre B.B.'

***

Sítio Exacto

Sei que não acaba
o teu prazer,
nem o meu.

Alguém
ama connosco
e nos leva
ao sítio exacto
das estações.

Nem o sono
depois nos pertence,
quinhão de outros
herdado após amarem.

António Osório, in 'O Lugar do Amor'

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Vai um gin do Peter’s? 

É, sobretudo, na arte que a lenda da Bela Adormecida se mostra certeira, quase à letra.

Uma das Belas, acordada há um par de anos, foi a obra milenar encoberta por um reboco espesso, a esconder (e preservar, num certo sentido) os mosaicos deslumbrantes da Basílica da Natividade, no povoado remoto de Belém, em Israel. Remoto para os peregrinos, turistas e gente bem intencionada, mas exposto aos projécteis perdidos das intermináveis guerras israelo-árabes. No célebre conflito de 1967, um morteiro fez estragos no tecto. Em 2002, as tensões com palestinianos deixou marcas de balas cravejadas por todo o lado. Em 2014, nos confrontos bélicos na Faixa de Gaza, a vítima de um foguete seria um membro da equipa italiana de restauro – Giorgia Zurla. Com humor e desportivismo, observava que lhe valera a «proteção de Deus», uma vez que não era abrangida pelo sistema anti-míssil israelita, conhecido por Cúpula de Ferro.

A história da Basílica carrega as cicatrizes do percurso atribulado de Jerusalém e imediações. Começou por ser erigida no séc. IV, sobre a concavidade onde teria nascido Jesus, por iniciativa do imperador romano Constantino. Dois séculos depois, rebeldes samaritanos arrasaram-na. Mais tarde, foi reerguida a mando de outro imperador de Roma – Justiniano. Seguiram-se mais razias por abalos sísmicos e uma sucessão perniciosa de conquistas militares. O arco da sua porta altiva acabou por ficar reduzido a 1,2m de altura, para impedir a entrada de cavaleiros, lembrando o tempo dos cruzados. Isso valeu-lhe o nome de «Porta da Humildade».


Inspirado na reportagem da NATIONAL GEOGRAPHIC de Maio de 2016, assinada por Anne-Marie O’Connor, 
autora do livro «The Lady in Gold», dedicado ao famoso retrato que Klimt pintou da milionária judia de Viena – Adele Bloch-Bauer. 

A trama de mosaicos formada por vidro, madrepérola, pedras semi-preciosas da zona e folhas de ouro e prata, data do séc. XII e foi patrocinada pelo rei cruzado Amalrico I e pelo imperador bizantino Manuel Commeno I. Aquelas composições, de acentuado cariz bizantino, lembram Sicília, Florença e Ravena, além dos característicos padrões florais simétricos da arte muçulmana, em concreto os da mesquita Al Aqsa de Jerusalém, que calha a ser a terceira mais sagrada do Islão.

Uma jóia em fundo de ouro luminoso

O artista terá sido Basilius, que assinou as peças em latim e siríaco. É-lhe também atribuída a autoria das ilustrações do «Saltério» concebido para a  rainha Melisende de Jerusalém (séc. XII).

As figuras gigantescas dos murais estão estrategicamente inclinadas para maximizar o seu impacto visual, a partir do chão.

A primeira figura do anjo de 2,5m de altura, que deu alento à caça ao tesouro


Foi emocionante para a jovem especialista da equipa italiana – Silvia Starinieri, de apenas 28 anos – vislumbrar um contorno imprevisto, ao passar a máquina termográfica sobre o reboco das paredes. Mal conseguiram remover essa cobertura, com mil cuidados, surgiu uma face cintilante de madrepérola:

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Nas palavras do líder da equipa, Piacenti: «Finalmente o belo anjo, após séculos de escuridão, pode olhar para baixo, sobre a multidão de peregrinos».


Em 2013, a pressão do presidente da Autoridade Palestiniana, M.Abbas, foi crucial para as comunidades cristãs se entenderem e a equipa de restauro poder iniciar os trabalhos. Já o primeiro alerta para o risco de colapso das vigas viera dos palestinianos, depois secundados pelas Nações Unidas que, em 2012, declararam em perigo iminente a Igreja classificada como Património Mundial.

Nos murais restaurados, visualizam-se cenas bíblicas com Jesus e sua Mãe, os apóstolos e ainda santos posteriores, patriarcas, animais da época, incluindo um camelo bebé, que faz as delícias da equipa, pelo sentido de humor do artista de eras tão recuadas.

Com desvelo, os restauradores não se pouparam a esforços para desencantar madeira semelhante às vigas originais, feitas de cedro do Líbano, da era de Justiniano. Encomendaram também toros dos Alpes, de onde provinham os originais do séc. XV, já parcialmente danificados.

Até no chão, a trama pictórica se entrelaça artisticamente. Por falta de verbas, não houve ainda possibilidade de cobrir todo o original com uma placa de vidro que deixasse ver a obra, protegendo-a em simultâneo. Dos cerca de 10 milhões de dólares já gasto no restauro, um décimo proveio de doações privadas, onde se contam cristãos e palestinianos-muçulmanos, de nacionalidades muito variadas.



Pouco a pouco, o trabalho de formiga dos especialistas tem operado milagres, reconhecidos internacionalmente. Cada figura inteira que reaparece é olhada com pasmo, por ter saído ilesa de tantas vagas destrutivas. Sem ilusões, a equipa celebra os 20% de área de mosaicos, literalmente, renascida das cinzas, ciente de que a maior porção é irrecuperável. Como irrecuperável se tornou o valioso património de arte sacra e laica, acintosamente, erradicado pelo Daesh, no Iraque, na Síria e demais sítios onde pôde hastear a sua bandeira negra.

Se arrepia o rasto de vandalismo hoje perpetrado, também arrepia – mas em sentido inverso, por comover – a réplica construtiva que nunca desiste, embora a tentação fosse (seja!) abissal: «No Iraque estamos a testemunhar a destruição de lugares santos», diz o Ministro palestiniano Ziad Al-Bandak, conselheiro presidencial para as questões com a Cristandade, explicando que «Estamos a tentar proteger o berço do cristianismo. Como eu disse ao papa Bento, sou de uma família que estava aqui ao tempo do nascimento de Cristo».

Respeitar o ser humano exige e pressupõe respeitar a História. Ainda bem que a nossa época conhece guardiãs à altura das dificuldades, quantas vezes de proveniências imprevistas.


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para uma Quarta daqui a 2 semanas)


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Duas Últimas

A bem da minha consciência, não posso deixar de escrever umas linhas sobre o alarido que uma entrevista recente do cirurgião A. Gentil Martins ao Expresso, em que abordou temas como a homossexualidade e os filhos sem mãe assumida de CR, provocou por aí. E sabemos como o "por aí" pode massacrar e virar a cabeça aos mais incautos....

Não pretendo discorrer sobre as razões, científicas ou outras, que suportam as ideias de GM, aliás já dissecadas ad nauseam: leia-se, defendidas por alguns corajosos, atacadas (elas e o autor) pela grande maioria. Direi apenas que lhe dou absoluta razão na questão de CR. Na outra, que engloba situações as mais diversas, parece-me que não se deve generalizar de forma mais ou menos simplista. Mas isto sou eu a falar, que não sou nem médico nem sequer um curioso na matéria.

O meu ponto tem sobretudo a ver com o espirito marcadamente anti-democrático que vigora na sociedade portuguesa e que sobretudo a esquerda não se cansa de fomentar. Ai de quem se atreva a ir contra as opiniões dominantes dos "donos disto tudo" (em termos ideológicos e não só...), verdadeiros paladinos da verdade e da justiça. E da má criação e falta de carácter. Como se viu no caso presente, para além dos enxovalhos pessoais por que GM teve de passar, uma queixa na Ordem respectiva é garantida. E vivam a democracia, a igualdade, o debate de ideias, o respeito pelo outro.

Quanto a mim, agarro-me quase em desespero de causa a 3 ou 4 personalidades que continuam por aí enquanto os deixarem e que ainda ousam pensar pela própria cabeça: Pulido Valente, Barreto, Ramos, JM Fernandes, Raposo, M Carreira até há bem pouco, mais dois ou três.

Não desisto, procuro não ceder ao unanimismo de opinião que nos impõem, penso nas pessoas tantas vezes exemplares que a vida me deu. Mas na feira mediática com que nos brindam, nesta tirania diária constante, sinto que o estatuto de "minoritário" que sempre possuí se vai reforçando. Sem drama, que não é caso para isso. Pelo contrário, a favor da minha sanidade mental.

Boas férias, quando for a circunstância.

fq

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Textos dos dias que correm

Ser Feliz é uma Responsabilidade Muito Grande

Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz é quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma angústia amordaçante: assusto-me. Sou tão medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. Os instintos exigentes, a alma cruel, a crueza dos que não têm pudor, as leis a obedecer, o assassinato — tudo isso me dá vertigem como há pessoas que desmaiam ao ver sangue: o estudante de medicina com o rosto pálido e os lábios brancos diante do primeiro cadáver a dissecar. Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do espírito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo interminável da eternidade, abismo através do qual me comunico fantasmagórica com Deus. 

Clarice Lispector, in 'Um Sopro de Vida'

***

O Que me Mata é o Quotidiano

Dor? Alegria? Só é simplesmente questão de opinião. Eu adivinho coisas que não têm nome e que talvez nunca terão. É. Eu sinto o que me será sempre inacessível. É. Mas eu sei tudo. Tudo o que sei sem propriamente saber não tem sinónimo no mundo da fala mas enriquece e me justifica. Embora a palavra eu a perdi porque tentei falá-la. E saber-tudo-sem saber é um perpétuo esquecimento que vem e vai como as ondas do mar que avançam e recuam na areia da praia. Civilizar minha vida é expulsar-me de mim. Civilizar minha existência a mais profunda seria tentar expulsar a minha natureza e a supernatureza. Tudo isso no entanto não fala de meu possível significado. 

O que me mata é o quotidiano. Eu queria só excepções. Estou perdida: eu não tenho hábitos. 

Clarice Lispector, in 'Um Sopro de Vida'

domingo, 30 de julho de 2017

17º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 13,44-52

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus às multidões:
“O reino dos Céus é semelhante
a um tesouro escondido num campo.
O homem que o encontrou tornou a escondê-lo
e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía
e comprou aquele campo.
O reino dos Céus é semelhante
a um negociante que procura pérolas preciosas.
Ao encontrar uma de grande valor,
foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola.
O reino dos Céus é semelhante
a uma rede que, lançada ao mar,
apanha toda a espécie de peixes.
Logo que se enche, puxam-na para a praia
e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos
e o que não presta deitam-no fora.
Assim será no fim do mundo:
os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos
e a lançá-los na fornalha ardente.
Aí haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes tudo isto?”
Eles responderam-Lhe: “Entendemos”.
Disse-lhes então Jesus:
“Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus
é semelhante a um pai de família
que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas”.

sábado, 29 de julho de 2017

Pensamentos Impensados

Saneamentos
Jornalista despedido por alegadamente ter inventado a palavra alegadamente.

Pregões
Governo apregoa transparência e eu pratico-a: lavei os vidros das janelas da minha casa.

Ovos moles
Assunção Cristas diz que Governo não tem postura; não sabia que o Governo punha ovos.

Contas de cabeça
Toiro nega-se a investir alegando que juros são baixos.

E tudo o vento levou
A palavra acontecimento foi por ares e eventos.

What's in a name
A deputada brasileira Domicília Costa deve ser uma pessoa muito caseira.

Sarrafada
O boxe pratica-se com assaltos à mão armada... de luvas.

Desencontros
Stanley cruzou-se com Livingstone mas não há notícia de descendência.

SdB (I)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ontem e hoje

Estou de férias no litoral alentejano. Ontem transportei de carro para a praia duas crianças de 5 e 6 anos que a dada altura pediram para se ligar a telefonia - ou rádio, como se diz agora. Naquele instante tocava uma música em inglês, presumo que moderna, que eles cantaram a plenos pulmões. Presumo, igualmente, que não faziam a mais pálida ideia do que estavam a cantar. Mas, durante uns poucos minutos, dois miúdos pequenos acompanharam uma música sem se enganarem.



Depreendo, sem necessidade de um enorme exercício de discernimento ou de adivinhação, que estas músicas que eles cantam - como cantaram outra a seguir, durante a qual discutiram se era os D.A.M.A. ou o AGIR - as ouvem na rádio, para manter o vocabulário ao nível da modernidade. Ouvem com os pais quando vão de viagem, de e para a escola, porque os Pais são gente saudável, que não ouve Mozart ou António dos Santos com um sorriso no rosto.

Recuo à idade deles. Recuo, portanto, a 1963, 1964. Imagino-me no Morris do meu pai (CE-33-83, parece-me) a ouvir rádio que, em bom rigor, não sei se tinha. Mas suponhamos que tinha, em benefício do raciocínio. E suponhamos que eu cantava a plenos pulmões as músicas famosas da época, que passavam na telefonia (para manter o vocabulário ao nível da História). O que ouviria eu? O que cantaria eu, com a mesma alegria que dois miúdos ontem, a caminho da praia do Malhão?





Talvez o Morris não tivesse rádio, pelo que tudo isto cai por terra. Ou talvez não tivéssemos a liberdade canora dos miúdos de agora, e tudo caia também por terra...

JdB

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Das direcções *

Durante muito tempo foi apenas o Miguel, sendo que a palavra a itálico se refere a uma dimensão a ser explicada não tarda um instante. Era um homem reconhecidamente bonito, com um cabelo forte, negro, ondulado e abundante a encimar uns olhos muito verdes, quase transparentes. Além de tudo era alto e bem constituído fisicamente, o que reforçava a certeza da injustiça terrena: uns são quase tudo, outros são pouco mais do que nada.

Por volta dos 30 anos, o advérbio apenas viria a ser substituído pelo substantivo padre – ambas as expressões a itálico, revelando, porém, realidades profundamente diferentes. Poupemos na caracterização da melena negra e do inegável corpore sano, porque a mudança de estatuto não implica alterações obrigatórias de carácter físico. Percebeu-se então o que já se suspeitava: tudo lhe assentava bem, fosse um polo coçado e umas calças de ganga velhas, um casaco de bom corte, uma camisa azul riscada com um cabeção – ou mesmo uns paramentos antigos debruados a ouro fino.

Num dia de Maio, com um sol intenso bafejado por uma brisa suave, Matilde entrou na igreja onde o Padre Miguel era prior, solicitando a resolução de um assunto que de momento não se considera relevante. Tinha uma elegância fina, um conhecimento profundo do que era e do que vestia, e uns óculos escuros de marca. Havia naquele corpo, esguio sem ser magro, alto sem ser desconforme, uma consciência clara que podia traduzir-se (digo eu, que não lhe perguntei) numa frase simples: sou respeitadora da igreja, mas sou mulher. A generosidade do decote e o tamanho da saia estavam na fronteira certa, porque a elegância e o respeito não circulam no espaço shengen.

Quem observou o diálogo entre o prior e a dama revela factos: um aperto de mão forte, uns dedos femininamente esguios assentes num antebraço musculado, sorrisos e silêncios, o olhar dela que não se fixou no dele, as frases educadas que revelam uma despedida amistosa. Há depois o que a pretensa virtude qualificou no domínio do subjectivo - ou da maledicência: a desadequação da roupa e do contacto físico, umas gargalhadas demasiadas, uns óculos escuros inapropriados, uma desconfiança materializada em o que vai sair daqui? 

Durante algumas semanas as conversas entre Matilde e o Padre Miguel continuaram com uma regularidade, feita não só de dias e horas marcadas, como também de adereços: o cabeção e a camisa riscada, os óculos escuros e a elegância feminina, o riso e a conversa prolongada. Uma mudança, para alguns nada despicienda, provocou uma alteração ao nível da sintaxe. A partir de um dado momento já não se perguntava o que iria sair dali (interrogação) mas sabia-se que algo iria sair dali (exclamação). De facto, ambos os interlocutores se despediram com um beijo, o que configurava uma qualquer intimidade.

Em Setembro, a paróquia do Padre Miguel organizou uma conferência cujo título (tal como o assunto de Matilde) não se considera relevante, até por ser na linha de tantas outras. Cadeiras dispostas em semicírculo, a da elegância feminina e dos óculos escuros no lado oposto da do cabeção e da cabeleira negra e abundante - frente a frente portanto, como se fossem dois toldos nas extremas de uma enseada. Naquele momento ninguém quis arriscar se as posições mútuas se deviam a acaso, se a estratégia. A sala em redor foi-se compondo com paroquianos numa ocupação gradual – e nem sempre pontual – dos espaços vazios. No curtíssimo intervalo assistiu-se, então, ao inimaginável: frente ao prior, Matilde atirava beijos, abria sorrisinhos marotos, estirava os lábios em boquinhas sensuais, acenava adeuses cúmplices. Pela assembleia perpassou uma guerra interior na qual se digladiavam os bons costumes da santa madre igreja e o erotismo mais descabido e público. 

No fim da palestra, no preciso instante em que algumas pessoas mais acaloradas se enchiam de furor virtuoso e avançavam para uma flagrante indignação, Matilde levantou-se, abriu os braços e, olhando para o prior, caminhou numa direcção ligeiramente desviada. Vítima de um tropeção, agarrou-se a custo a uma cadeira de madeira com estofos de napa preta. Os óculos escuros misteriosos, imagem de marca da sua elegância feminina, voaram pela sala, indiferentes ao recinto, ao público, à dona, ao decoro. O espanto foi total: Matilde tinha um olho violentamente assimétrico e que a forçava a olhar para a direita quando queria ir em frente, ou a olhar em frente se queria ir para a esquerda. Passou a dois metros do prior mas ainda teve tempo para lhe dizer:

- Quer conhecer o meu noivo que está aqui atrás de si? É o oftalmologista de que lhe falei.

JdB    

* publicado inicialmente em 12.04.12

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