domingo, 31 de dezembro de 2017

Festa da Sagrada Família

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés,
Maria e José levaram Jesus a Jerusalém,
para O apresentarem ao Senhor,
como está escrito na Lei do Senhor:
«Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor»,
e para oferecerem em sacrifício
um par de rolas ou duas pombinhas,
como se diz na Lei do Senhor.
Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão,
homem justo e piedoso,
que esperava a consolação de Israel;
e o Espírito Santo estava nele.
O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria
antes de ver o Messias do Senhor;
e veio ao templo, movido pelo Espírito.
Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino
para cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito,
Simeão recebeu-O em seus braços
e bendisse a Deus, exclamando:
«Agora, Senhor, segundo a vossa palavra,
deixareis ir em paz o vosso servo,
porque os meus olhos viram a vossa salvação,
que pusestes ao alcance de todos os povos:
luz para se revelar às nações
e glória de Israel, vosso povo».
O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados
com o que d’Ele se dizia.
Simeão abençoou-os
e disse a Maria, sua Mãe:
«Este Menino foi estabelecido
para que muitos caiam ou se levantem em Israel
e para ser sinal de contradição;
– e uma espada trespassará a tua alma –
assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».
Havia também uma profetiza,
Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser.
Era de idade muito avançada
e tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela
e viúva até aos oitenta e quatro.
Não se afastava do templo,
servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações.
Estando presente na mesma ocasião,
começou também a louvar a Deus
e a falar acerca do Menino
a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.
Cumpridas todas as prescrições da Lei do Senhor,
voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré.
Entretanto, o Menino crescia
e tornava-Se robusto, enchendo-Se de sabedoria.
E a graça de Deus estava com Ele.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Pensamentos Impensados

Drogaria
Hoje em dia tudo é droga: é o sal, o açúcar, é o álcool, o o tabaco e não sei que mais.
Para quando a bola e a política?

Pinturezas
Com um doce e uma cabana a Nina ri-se.

Condicionantes
Os jornalistas desportivos são férteis em patetices; agora deu-lhes para escrever que o Sporting é líder à condição. Ponhamos dois cenários: 
- o Sporting perde o primeiro jogo do Campeonato e logo passam a dizer que o Clube está na zona de despromoção;
- é ponto assente que o último gémeo a nascer é o mais velho; assim sendo, o que nasce primeiro é o mais velho, à condição.

Quase espectadores
Os jogadores que mais assistem aos jogos de futebol são os guarda-redes.

Figuras
Oiço na TV que a Bárbara Guimarães é uma figura pública; assim sendo, os varredores de ruas e os polícias de giro também são figuras públicas - e mais úteis

Repos du guerrier
Depois de cada batalha, D. Afonso Henriques chegava a casa, dobrava a armadura muito dobradinha, sentava-se numa cadeira-aviador, acendia um charuto Havano acompanhado de um cálice da Madeira.

Novas actividades
Leio que que está um incêndio a lavrar. Serão novos agricultores?

SdB (I)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Das doenças

Do dicionário:

Caturra

adjectivo de 2 géneros
1. teimoso
2. pouco receptivo a inovações

nome de 2 géneros
1. pessoa teimosa
2. pessoa apegada a pontos de vista ultrapassados

nome feminino
ORNITOLOGIA (Nymphicus hollandicus) ave australiana, da família dos Psitacídeos, apresenta geralmente plumagem cinzenta no corpo e face amarelada com mancha laranja e penacho na cabeça, sendo muito apreciada como animal de estimação; calopsita.

***

Todas as famílias têm os seus códigos linguísticos. Na minha, como na de outras com quem privei, usava-se muito as palavras caturra / caturrice, aplicadas, normalmente, para caracterizar pessoas que tinham feitios especiais, com algumas manias ou peculiaridades. As pessoas riam-se de fulano porque era caturra, riam-se das caturrices de fulano. Ser-se caturra era bom! Num certo extremo oposto desta categoria estava o calisto, que definia gente maçadora. Mas era mais do que isto: gente maçadora mas com pretensões, dizendo frases banais com uma roupagem de pompa, gente a querer ser saliente sem nada que os salientasse, gente a explicar trocadilhos ou a perorar anedotas com esquecimentos pelo meio, a contar histórias com excesso de discurso directo. 

Ora, caturra, como pode ver-se pela definição do dicionário, está muito longe de ser aquilo que algumas famílias entendem ser. E calisto não é mais, ainda segundo o dicionário, do que indivíduo cuja presença, no jogo, é de mau agouro. No entanto, apesar das definições correctas, algumas famílias continuarão a usar calisto e caturra como uma espécie de opostos, ainda que nada tenham a ver um com o outro.

À medida que o tempo passa, olhamos com outros olhos para os caturras (e vamos deixar os calistos de parte). Maçador como consigo ser, há muito que deixei de entender como caturrice o que algumas pessoas faziam, e cujas histórias me eram contadas por gente que ria delas. Partir com um machado uma mobília que se fez com as próprias mãos, só porque o destinatário pediu que fosse pintada de roxinho, não é caturrice. Deixar mulher e filhos e debandar para o Brasil à procura de aventura, de solidão ou de sei lá o quê, não é caturrice. Lembro-me ainda, era eu detentor de uma enorme ignorância (ainda assim menor do que aquela de que sou detentor hoje) de dizer que estas pessoas não eram caturras, mas apenas gente que infernizou a vida do próximo. Achamos graça só porque não vivemos com eles, não sofremos na pele ou no coração os seus aparentes disparates.

Ontem almocei com um amigo. No meio de conversas sobre perturbações do nosso sistema neuronal tomei conhecimento com uma doença, mais especificamente com o nome de uma doença, reconhecida como estado patológico desde 1990: misofonia, de miso (aversão, ódio)  e fonia (som), o que significa que é uma reação forte a determinados sons. Sons que podem ser de alguém que clica insistentemente numa caneta, alguém que tamborila com os dedos no tampo de uma mesa, alguém que assobia baixinho uma toada qualquer. Sons esses, como me foi contado, que provocam alterações graves e perturbadoras em pessoas que sofrem desta patologia.

Olho para trás, para derramar um olhar mais lúcido sobre uma ideia que já tinha: estas famílias de que falo não tinham caturras, não tinham gente com graça ou com hábitos curiosos ou peculiares. E, mais grave ainda, aquilo que eu entendia, ignorantemente, como um processo de infernização das vidas alheias, tem um nome: chama-se síndrome de Asperger, bipolaridade, misofonia, esquizofrenia ou cólera. A ciência e o conhecimento psiquiátrico ou psicológico da mente humana desqualificaram algumas pessoas: de divertidos passaram a doentes, de caturras passaram a doentes. 

Olhar para trás com este conhecimento técnico é perceber que o humor pode só ser interessante se divertir o nosso mais próximo. Caso contrário pode ser uma doença, com um nome já existente ou a existir, que a catalogará. O assustador são os padrões que descortinamos numa família...

JdB     

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Duas Últimas *

Já aqui postei Charles Aznavour, talvez mesmo esta interpretação, com um início de 2'08" menos conhecido. Vale a pena estar em silêncio e escutar a transição nesse momento exacto.

Permitam-me um discurso de uma nostalgia fabril falsa, ao qual quis associar o título e espírito desta letra. Aprendi uma expressão em tecnologia de manutenção / produtividade que não mais esqueci: repor as condições iniciais. O que significava isto? Muito simplesmente, tratar o equipamento de forma a pô-lo, dentro das limitações da técnica, como ele era inicialmente. Não o estragar para além do desgaste normal, não o adulterar, manuseá-lo como se fosse algo de valioso que queremos deixar às gerações vindouras.

Poderemos ver uma máquina com 50 anos, ou por aí, de formas diferentes: quem é que queria aquilo com um design tão triste, naquele tempo é que se faziam máquinas boas, quando a compraram ela tinha um encanto próprio, os nossos olhos é que mudaram e não a máquina, já nada volta para trás, etc.. Olhares contraditórios e, no entanto, todos legítimos.

Repor as condições iniciais é uma impossibilidade mecânica no sentido mais restrito do termo. A uma máquina usada não conseguimos retirar o desgaste próprio da utilização. Mas uma máquina usada pode tratar-se bem, para se evitarem avarias desnecessárias, custos incomportáveis, obsolescência prematura. Há uma ética de responsabilidade subjacente a esta atitude.

Hier encore é uma música que fala da época desaproveitada de quem tinha vinte anos, ontem. É uma música que reflecte o desencanto das certezas ocas num tempo que se malbaratou. Repor as condições iniciais é um convite a uma espécie de sonho contrário: olhar para um equipamento e encontrar-lhe o encanto de uma origem sadia, tratá-lo como se fosse o nosso próprio corpo, acrescido, não da destruição ou da vacuidade das ilusões, mas do desgaste próprio das coisas.

Há quem lhe chame equipamento, há quem lhe chame vida. Afinal, cada um de nós vive os seus vingt ans em épocas diversas.

JdB




* publicado originalmente a 17 de Janeiro de 2012

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Confissão

Meus lábios, meus olhos (a flor e o veludo...)
Minha ideia turva, minha voz sonora,
Meu corpo vestido, meu sonho desnudo...
Senhor confessor! Sabeis tudo — tudo!
Quanto o vulgo, ingénuo, ao saudar-me, ignora!

Sabeis que em meus beijos a fome dormira
Antes que da orgia a fé despertasse...
Sabeis que sem oiro o mundo é mentira
E, como do fruto que Deus proibira,
Um luar tombou, manchando-me a face.

Pássaro, cativo da noite infinita!
Águia de asa inútil, pela noite presa!
Ó cruz dos poetas! ó noite infinita!
Ó palavra eterna! minha única escrita!
Beleza! Beleza! Beleza! Beleza!

Eis as minhas mãos! Quem pode prendê-las?
São frágeis, mas nelas há dedos inteiros.
Senhor confessor! Quem não conta estrelas?
Meus dedos, um dia, contaram estrelas...
Quem conta as estrelas não conta dinheiros!

Pedro Homem de Mello, in "Adeus"

***

Fonte

Meu amor diz-me o teu nome
— Nome que desaprendi...
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti!
Depois, calaram-se os versos
— Versos que desaprendi...
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido!

Pedro Homem de Mello, in "Grande, Grande Era a Cidade..."

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Duas Últimas

Sento-me a ver televisão entre um obsceno almoço e o que virá a ser um obsceno jantar. Faço horas para mais uma visita a gente próxima, que me oferecerá peru, doces, vinho, amizade. Rejeito tudo, excepto o que não provoca triglicéridos, porque ainda falta um evento... Faço zapping e cruzo-me com a Música no Coração, um filme que marcou mais do que uma geração e muito mais do que um Natal. A baronesa elegante e rica percebe que, como diria o fado, amar e não ser amado / é cruel desilusão, e dá lugar à ex-noviça de cabelo curto e voz cristalina que enfeitiçou o capitão Von Trapp, militar de carreira e de atitude. O casal inesperado casa, e quando regressam de lua de mel já o Anschluss vergou o povo austríaco ao peso do 3º Reich. 

No festival de Salzburgo o Capitão Von Trapp sobe ao palco para se despedir. Aparentemente segue para Bremerhaven, onde a marinha nazi o espera para funções importantes. No segredo dele, do empresário e de Maria, a ex-noviça de voz clara e cabelo curto, fugirão para a Suiça, para que aquele orgulho não seja manchado pelo opróbrio do serviço ao horror alemão. Entoa Edelweiss, uma música bonita, tocante, transformada em metáfora da resistência ao opressor, uma espécie de hino do verdadeiro austríaco, aquele que não se deixa subjugar.

De voz comovida e titubeante, Von Ttapp canta: Edelweiss, Edelweiss / every morning you great me / small and white / clean and bright / you look happy to see me... O público canta, como se daquela voz saísse um clamor de liberdade e de revolta, como se aquelas vozes fossem mais fortes que todos os exércitos do mundo. Em rodapé, ao ritmo da libertação, as legendas matam toda a poética resistente, mancham de horror todo um coro de liberdade: pé-de-leão, pé-de-leão / todas as manhãs me saúdas / pequeno e brilhante / limpo e branco / pareces estar feliz por me ver ...  

Sou tradutor, mas por vezes uma tradução é um assassinato... Deixo-vos, por isso, com Edelweiss - sem tradução, nem pé-de-leão...

JdB

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Natal do Senhor

Adoración (Murillo)

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No princípio era o Verbo
e o Verbo estava com Deus
e o Verbo era Deus.
No princípio, Ele estava com Deus.
Tudo se fez por meio d’Ele
e sem Ele nada foi feito.
N’Ele estava a vida
e a vida era a luz dos homens.
A luz brilha nas trevas
e as trevas não a receberam.
Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.
Veio como testemunha,
para dar testemunho da luz,
a fim de que todos acreditassem por meio dele.
Ele não era a luz,
mas veio para dar testemunho da luz.
O Verbo era a luz verdadeira,
que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem.
Estava no mundo
e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu.
Veio para o que era seu
e os seus não O receberam.
Mas, àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome,
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram do sangue,
nem da vontade da carne, nem da vontade do homem,
mas de Deus.
E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.
Nós vimos a sua glória,
glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito,
cheio de graça e de verdade.
João dá testemunho d’Ele, exclamando:
«Era deste que eu dizia:
‘O que vem depois de mim passou à minha frente,
porque existia antes de mim’».
Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos
graça sobre graça.
Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés,
a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.
A Deus, nunca ninguém O viu.
O Filho Unigénito, que está no seio do Pai,
é que O deu a conhecer.

domingo, 24 de dezembro de 2017

4º Domingo do Advento

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
o Anjo Gabriel foi enviado por Deus
a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,
a uma Virgem desposada com um homem chamado José.
O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo:
«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo;
bendita és tu entre as mulheres».
Ela ficou perturbada com estas palavras
e pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria,
porque encontraste graça diante de Deus.
Conceberás e darás à luz um Filho,
a quem porás o nome de Jesus.
Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo.
O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David;
e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo:
«Como será isto, se eu não conheço homem?»
O Anjo respondeu-lhe:
«O Espírito Santo virá sobre ti
e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.
Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.
E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice
porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então:
«Eis a escrava do Senhor;
faça-se em mim segundo a tua palavra».

sábado, 23 de dezembro de 2017

Pensamentos Impensados

Tratamentos caros
Não se deve tomar uma uma caixa de aspirinas de uma vez, pois torna o tratamento oneroso.

Miniaturas
Os animais pequenos são sempre engraçados, excepto os os micróbios.

Ventos
Trump evita locais de tufões, não vá de vento em popa.

Drogas
Foi apanhado com um litro de droga por cada grama de sangue.

Futebóis
Os jogadores de futebol que mais assistem... são os guarda-redes

Dislexia tauromáquica
Domingo, grandiosa corrida de rotos.

Ouvida por aí
Trump  visita a muralha a muralha da China e pergunta: vocês também têm problemas com o México?


PENSAMENTOS DESEJA UM SANTO NATAL AOS SEUS (E)LEITORES

SdB (I)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Duas Últimas

Igreja do Santo Salvador em Chora, Istambul, Turquia (imagem tirada daqui)

4ªfeira almocei na Acreditar, uma tradição que já tem vários anos. Cada um leva qualquer coisa e sentamo-nos onde calha, na sala de jantar da Casa. São voluntários, Pais, crianças, profissionais, membros da direcção. Há bacalhau, arroz de pato, croquetes, rolo de carne ou lombo de porco, bolo rei, doces vários. Há queijo e vinho, conversa e boa disposição. 

Este ano (quase, quase) a meu pedido, uma mãe cabo-verdeana fez cachupa, algo que não comia há muitos anos. Outra mãe, moçambicana, com quem tirei fotografias no palácio de Belém, fez um prato do norte, com banana verde e coco. A cachupa estava deslumbrante, para o meu gosto. Fiz tantos elogios à Eugénia que ela, amável, me mandou uma caixa para casa, com uma recomendação: ponha um ovo estrelado; ou então uma posta bem fresca de peixe...  Não fiz nem uma coisa nem outra, mas comi tudo com pequenos grunhidos de prazer.

Fui agradecer à Eugénia, mãe de um miúda em tratamento. E disse-lhe: espero não a ver cá em casa para o ano, mas se por acaso cá estiver espero que faça cachupa outra vez.  Ela sorriu, simpática e respondeu: espero não estar; se tudo correr bem vou para casa não tarda. Perguntei-lhe quando, achando que era para a semana, ou coisa parecida... É em Junho, já tenho saudades da minha casa...

Junho são mais seis meses afastada do que lhe é mais familiar e querido: o crioulo, o vento local, o mar, talvez uns pés descalços, uma filha a correr. Para ela, no entanto (e não sei há quanto tempo está na Casa) Junho é já já a seguir.  

Aos meus fiéis leitores, mas também a todos os que colaboram com o estabelecimento através de posts regulares, desejo um Santo Natal. Que o Menino Jesus, acolhedor e humilde, seja o destino certo e fiel do olhar de cada um de nós nesta época. E que os Pais da Acreditar, em particular os que permanecem na Casa carregados de esperança, tenham um Merry Little Christmas...

Obrigado,

JdB

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Natal Divino

Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar...
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar...

Miguel Torga, in 'Antologia Poética'

***

Não Digo do Natal

Não digo do Natal – digo da nata 
do tempo que se coalha com o frio 
e nos fica branquíssima e exacta 
nas mãos que não sabem de que cio 

nasceu esta semente; mas que invade 
esses tempos relíquidos e pardos 
e faz assim que o coração se agrade 
de terrenos de pedras e de cardos 

por dezembros cobertos. Só então 
é que descobre dias de brancura 
esta nova pupila, outra visão, 

e as cores da terra são feroz loucura 
moídas numa só, e feitas pão 
com que a vida resiste, e anda, e dura. 

Pedro Tamen, in 'Antologia Poética' 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

PRESÉPIO REVOLUCIONÁRIO DE LEONARDO, ABERTO À HISTÓRIA

Já conhecido dos grandes mecenas da arte que pululavam por Itália, aos 29 anos, Leonardo recebeu a encomenda dos monges agostinhos do mosteiro de San Donato a Scopeto (região de Florença) para pintar uma peça de altar de grandes dimensões: 246 cm x 243 cm.

A pintura do retábulo, mais tarde transferido para a Galeria Uffizi (1670), é tida por alguns como incompleta, justificando-se pela mudança do artista para Milão, onde o esperava o prestigiado cargo de pintor da corte ducal. Porém, há especialistas que vaticinam ser exactamente esse o efeito pretendido, reconhecendo que Leonardo levou ao extremo esta estética do non finito. O resultado «inachevé», segundo a expressão francesa aplicada às artes, vem do uso intenso de um tracejado «abosquejado», qual esquisse que não se perde em detalhes para melhor sublinhar o essencial e, sobretudo, não se deixar petrificar na ilusão (talvez pretensiosa) da completude. 

O facto é que a beleza incomensurável deste Presépio, tornou-o no caso mais emblemático e feliz da aplicação do non finito à pintura.  Ao fazer sobressair a mensagem principal, a obra terá cumprido na perfeição uma das máximas mais pedagógicas do próprio Leonardo: «O prazer mais nobre reside na alegria do entendimento [da realidade]». É também eloquente a obra ser elogiada por uma vitalidade e um poder de concentração excepcionais. Nem o toque afectuoso e espontâneo do pequenino faltou, maravilhado com a sumptuosidade dos presentes dos Magos. Leonardo no seu melhor, inexcedível mesmo: 

«ADORAÇÃO DOS MAGOS» - Leonardo Da Vinci, 1481-1482, óleo sobre madeira. Na Galeria Uffizi de Florença. 

Há ainda uma teoria arrojada (mas com falta de adeptos nos peritos de arte credíveis, ficando-se pelas intrigas alarmistas que sustentam alguma literatura de cordel) que admite incluir traços de outros pintores, nomeadamente de Filippino Lippi, a quem os monges teriam incumbido de completar a obra (1496), tornando ainda mais inexplicável e ilógico o aspecto inacabado que, felizmente, mantém. No entanto, confirma uma constante associada ao legado de Leonardo, que não pára de inspirar teorias quase sempre conspirativas e até isotéricas, talvez sugestionadas pela biografia (1452-1519) pouco linear e repleta de hiatos de um artista tão genial quanto multifacetado, que usou abundantemente criptogramas para resguardar inventos prodigiosos. Os próprios semblantes enigmáticos de algumas das suas figuras – nomeadamente, a Mona Lisa – também favorecem estas estórias imaginativas, para além da tentação (e gozo) de lançar dúvidas sobre a sustentabilidade do valor avultadíssimo de qualquer peça assinada por Leonardo. 

Nesta ADORAÇÃO DOS MAGOS, a criatividade fervilhante do pintor rompe com as convenções artísticas, facilitando a coabitação de inúmeros cenários, bem diferenciados pela ordenação em perspectiva, que era ainda um expediente invulgar. Este domínio exímio da profundidade permitiu hierarquizar as várias cenas e criar graus distintos de distância. O recurso a novos sombreados e claridades ajudaram também a acentuar esse efeito de perspectiva, remetendo os objectos para lonjuras até então inimagináveis. Acresce ainda a superabundância do sfumato para multiplicar os gradientes entre tons e gerar uma textura enriquecida cromaticamente pelos degradés. Isto sem contar com a aplicação exponenciada do non finito. Para lá de tudo, o pintor encontrou uma nova posição para Mãe e Filho ao centrá-los no primeiro plano, em vez da localização tradicional numa das laterais para desenrolar a cena bíblica em linha contínua, a fluir de um extremo ao outro da composição. 

Em Leonardo, o presépio passa para o epicentro de uma narrativa que tem a ousadia de se desenvolver na profundidade (em vez de ser transversal), englobando episódios muito díspares que introduzem a temporalidade na pintura! Dizem os críticos de arte que esta obra do génio de Vinci, especialmente engenhosa e densa, conquistou a dimensão histórica, ao agregar épocas e civilizações distintas e distantes do Nascimento de há dois milénios. Ao suplantar a clássica representação unívoca e sincrónica do presépio, assumiu uma vertente escatológica, diacrónica, capaz de mergulhar aquele momentum na História da humanidade e colocar as duas Figuras no vértice da salvação de todos os tempos. Para todas as gerações. 

Sob o traço híper subtil do renascentista, a harmonia do retábulo aparenta uma simplicidade e sobriedade que escondem um emaranhado geométrico muito intrincado. É nele que assenta a complexa arquitectura do conjunto, conferindo-lhe uma unidade inigualável. Também nisto Leonardo foi pioneiro, pois aquele tipo de sketchwork antecipou em séculos uma prática que só na arte moderna se tornou corrente.

«PERSPECTIVAL STUDY OF THE ADORATION OF THE MAGI» - de Leonardo Da Vinci.

Os Magos em adoração formam um triângulo perfeito com Maria e Jesus. Por sua vez, o triângulo está enquadrado por um semi-círculo, que congrega um segundo grupo de acompanhantes. O jovem na extrema-direita seria o próprio Leonardo. Num nível mais recuado, sobre a esquerda, assomam as ruínas de um templo romano pagão, atribuído à basílica de Maxentius que, segundo uma lenda medieval, teria sido derrubada quando uma virgem deu à luz. Nessa latitude, sobre a direita, um par de cavaleiros digladia-se ferozmente. Ao fundo, surge uma paisagem rochosa e desértica, alheia à riqueza afectiva que rodeia o Bebé, apresentado ao mundo pela Mãe. De facto, todo o espaço cénico está orientado para Maria, que se oferece como sustentáculo do Filho numa prefiguração do Ecce Homo, realçado pelas aguadas de tinta em tons térreos. 

Em pontos significativos, árvores carregadas de simbolismo marcam presença. A palmeira é símbolo de vitória, além de simbolizar a Virgem referida no versículo do livro-poema atribuído ao rei Salomão – o Cântico dos Cânticos: «A tua estatura é semelhante à palmeira» (Ct. 7:7). Esta árvore personifica também o triunfo da cristandade e, especificamente, do martírio cristão sobre a morte e a violência da Roma imperial. A dupla representação dessa violência sanguinária e do esboroamento da sociedade pagã vem condensada nas cenas do fundo, onde ruínas e combates são subalternizados pelo episódio nuclear do retábulo (enquanto metáfora da própria História): o nascimento de Cristo. 

A segunda árvore ao meio é uma alfarrobeira característica dos climas mediterrânicos solarengos, cujas sementes eram utilizadas na pesagem de pedras e metais preciosos. Daí personificar Cristo Rei do Universo ou Maria rainha dos Céus e da Terra. 

Tal como a obra de Leonardo, se há música que respira Natal é a «NOITE FELIZ», declarada pela UNESCO Património Cultural Imaterial da Humanidade (Março de 2011). A ária foi composta para a Missa do Galo da pequena cidade austríaca de Oberndorf, junto a Salzburg, em 1818, por um austríaco pouco conhecido – Franz Gruber (1787-1863), a partir da letra do padre e poeta também pouco conhecido – Joseph Mohr (1792-1848). A beleza quase corpórea do original alemão «Stille Nacht, Heilige Nacht» internacionalizou-se em tempo recorde, fazendo jus a outra das máximas de Leonardo: «Pintura é poesia que é mais vista do que sentida, enquanto a poesia é pintura mais sentida do que vista». Mas não restem dúvidas de que o artista privilegiava a pintura, considerando-a superior à poesia por se basear no órgão sensorial que tem a primazia: o olho (1).  

Desejo a todos BOAS-FESTAS com a Paz profunda que transborda da ADORAÇÃO de Leonardo e da música que se deixou impregnar pelo carisma único daquela Noite, aqui interpretada por um elenco de luxo: Pavarotti, Sarah Brightman, Placido, Carreras, Diana Ross, Tony Bennet, Charles Aznavour, Michael Bolton, etc., cantando num par de línguas variadas para oferecer a paz urbi et orbi


Maria Zarco
 (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta) 
_____________
(1)  Definia o olho como o espelho da alma e relegava a audição para segundo sentido (apontamentos do artista disponíveis em:  http://people.virginia.edu/~jdk3t/LeonardosParagone.htm).

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Dos cães nos restaurantes

Sei que o PAN, esse gigante da democracia pós-25 de Abril, propôs uma lei que permitiria a entrada de animais nos restaurantes. Não sei se está estipulado o animal em questão, mas lembro-me de há muitos anos, na praia de Cascais, um veraneante se passear por aquela elegante areal com um pinguim pela trela - enfim, a bem dizer, uma simples corda. Posso eu entrar num dos restaurantes do consagrado Avillez com uma vicunha ao lado? Saberá o PAN o que é uma vicunha? Não li a lei em apreço, mas tinha alguma curiosidade em saber pormenores. Se alguém quiser fazer-me a caridade de explicar, agradecia. Até porque encontrei um ouriço à porta de casa e afeiçoei-me a ele. Posso levá-lo à cervejaria Portugália enquanto me delicio com um bife da vazia mal passado?

Vivi a história que agora relato no passado domingo, num restaurante da marina de Cascais. Pensei referir o nome do estabelecimento mas não sei se o facto de não terem multibanco (algo assaz incomodativo nestes tempos modernos e tecnológicos) configura uma qualquer ilegalidade. Acima de tudo, a massa com salmão e molho de cebolinho, não estando deslumbrante, estava catita, pelo que só tenho a agradecer este repasto dominical na companhia de bons amigos. 

Deixem-me enquadrar a história. Numa mesa atrás da nossa, um grupo de quatro pessoas deglutia a sua refeição de fim de semana. Eram acompanhadas por um cão cuja raça não consigo discernir, preto, de porte médio-baixo, com uma carantonha feia. Numa dada altura começámos a ser invadidos (ou pelo menos eu, que terei uma narina mais sensível para algumas coisas) pelos eflúvios produzidos pelo aparelho digestivo do canito. A uma dada altura já não distinguia odores bons e maus e, obcecado como sou, comecei a indispor-me ao nível da irritação, não do enjoo. Num repente, contra tudo o que seria diplomático e útil no domingo da alegria, voltei-me para trás, tendo travado, muito ipsis verbis, o seguinte diálogo:

Eu: a senhora não me leve a mal, mas o seu cão está a exalar um cheiro desagradável;
A senhora: o meu cão não cheira mal...
Eu: não é o seu cão que cheira mal, mas o que brota do ânus do seu cão...
A senhora: e como sabe que é do cão?
Eu: minha senhora... prefiro pensar que este cheiro é do cão, e não da sua mesa...
A senhora: e como é que sabe que não é das pessoas que estão à sua mesa?   
Eu: parece-me que ficamos por aqui... 

Se repararem, fui educado: usei expressões como brota e ânus, que é infinitamente mais correcto do que dizer traque e rabo, para já não falar de peido e cu. A senhora não gostou, admito que não tenha percebido a expressão brotar do ânus de... e se tenha enervado, não com a minha impertinência, mas com a sua própria ignorância, ou com o facto de ter sido eleita, dizem-me, a mulher mais elegante de Portugal há uns anos, e já ter perdido a sensibilidade olfactiva. Os eflúvios caninos e o chanel nº 5 só seriam distinguidos pelo resto da roupa: o primeiro quando está de fato de treino, o segundo quando vai a um cocktail do jet set.

Termino. Gostava que esta crónica fosse do conhecimento do deputado do PAN, para que ele a fizesse chegar ao seu grupo parlamentar - que são a mesma pessoa, o que impede falhas de comunicação. Talvez ele repensasse a lei e permitisse a entrada apenas a aves canoras, ou animais em fase de hibernação, ou outros cujo aparelho digestivo produzisse uma flatulência mais consentânea com um fettuccine al pomodoro. Pode exigir-se a um cavalheiro que não fume porque incomoda a mesa do lado. O que não pode é impedir-se que um animal brote coisas do ânus durante um almoço, porque isso configura uma crueldade inaceitável.

Despeço-me. Assim como assim, vou ali trocar a ração do meu cão, não vá ele ter de soltar gasearia acumulada. 

JdB
     

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Moleskine

Homenagens
Nem sempre sou fã dos textos do Pe. Portocarrero de Almada, mas este artigo, publicado no jornal Observador deste sábado, vale a pena ler. Fala, entre outras coisas, da homenagem que a Assembleia da República fez ao Zé Pedro, músico dos Xutos e Pontapés, que morreu há pouco tempo.

Embora lhes reconhecendo valor e popularidade, nunca fui fã dos Xutos e Pontapés. No entanto, mesmo que o fosse, far-me-ia alguma confusão esta espécie de histeria nacional colectiva com a morte do músico, materializada em capas de revistas que falam no luto do País, na necessidade da Assembleia da República fazer qualquer coisa, no velório no antigo museu dos Coches. De facto, como diz o Pe. P. de Almada, não se lhe conhece intervenção a nível nacional. Apenas música - e presumo que boa.

Nada me move contra o músico, com quem nunca me cruzei. Move-me, isso sim, esta espécie de saloiice nacional de promover a notáveis do país pessoas que se salientaram pela sua profissão digna, seguramente, mas do ramo do entretenimento nacional: músicos ou actores de telenovela, que são capa de revista e habitam uma espécie de Olimpo para onde olham, embasbacados, os que vivem num beco sem dimensão crítica.

Há, em mim, uma certa desconfiança pelo mundo da distribuição. Curiosamente, duas das pessoas mais ricas de Portugal são / eram dessa área. Nesse sentido, e não querendo aprofundar outras histórias que não domino nem sei se são verdade, não tenho um enorme apreço pelo Eng. Belmiro de Azevedo. Não obstante, penso que é mais merecedor da homenagem que uma parte do Parlamento negou. 

Festa da Acreditar
Realizou-se sábado a festa de Natal da Acreditar. Muitas crianças e jovens, Pais e amigos desta comunidade. Gente que luta mas que se diverte, que dança em pé num auditório, que ri, que vem do Porto ou de Coimbra ou de Lisboa para a festa, que vive cá vindo de Moçambique ou de Cabo Verde para tratar um filho. Gente que apesar de tudo não perde o sentido de humor

(e a propósito tenho de contar esta história: ao meu lado, alguém se cruza com um grupo de Barnabés, aqueles que são os "sobreviventes" da doença que tiveram enquanto crianças ou jovens. Simpaticamente, e do fundo da alma, diz-lhes: vocês estão cada vez mais bonitos.  Resposta imediata de um deles, com acentuado sotaque nortenho: é da quimioterapia...

Já no fim da festa, uma surpresa: o Ricardo Araújo Pereira aparece para contar uma graças e pôr o auditório a rir. E conta uma história: que há alguns anos (talvez oito ou nove) ia ao IPO fazer voluntariado, talvez com os Gatos Fedorentos, e passou num quarto onde uma miúda de nove anos estava isolada, como se estivesse num aquário. E ela, que raramente sorria, riu à gargalhada porque o Ricardo A. P. lhe perguntou: quem é que achas que é o mais palhaço de todos nós? E que ela terá dito que era ele...

Depois, porque o apresentador tlhe disse que havia duas pessoas que queriam falar com ele (uma era eu, porque tinha sido aluno dele) o Ricardo A. P. perguntou: a Marinela (o nome da rapariga) está cá? E a Marienela estava e subiu ao palco, e pôs um comediante a chorar, visivelmente comovido com este encontro inesperado.

Talvez a história diga mais a quem, como eu, se sensibiliza com estas coincidências significativas. Ou que vai sabendo o que representa o 7º piso do IPO de Lisboa.

JdB

domingo, 17 de dezembro de 2017

3º Domingo do Advento

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.
Veio como testemunha, para dar testemunho da luz,
a fim de que todos acreditassem por meio dele.
Ele não era a luz,
mas veio para dar testemunho da luz.
Foi este o testemunho de João,
quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém,
sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem:
«Quem és tu?»
Ele confessou a verdade e não negou;
ele confessou:
«Eu não sou o Messias».
Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?»
«Não sou», respondeu ele.
«És o Profeta?». Ele respondeu: «Não».
Disseram-lhe então: «Quem és tu?
Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram,
que dizes de ti mesmo?»
Ele declarou: «Eu sou a voz do que clama no deserto:
‘Endireitai o caminho do Senhor’,
como disse o profeta Isaías».
Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram:
«Então, porque baptizas,
se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?»
João respondeu-lhes:
«Eu baptizo em água,
mas no meio de vós está Alguém que não conheceis:
Aquele que vem depois de mim,
a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias».
Tudo isto se passou em Betânia, além Jordão,
onde João estava a baptizar.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Pensamentos Impensados

Mais vale cair em graça
Nunca percebi a celebridade e a profundidade da frase penso, logo existo. Acho uma frase banal. Se o importante é pensar, lembro que Átila, Gengis Khan, Hitler, Staline e muitos outros pensaram e, como resultado, milhões e milhões de pessoas deixaram de pensar. Proponho dois pensamentos:
- tenho comichões no umbigo, logo existo.
- fui chamado às Finanças, logo existo.

Dislexia governativa
Governo anuncia certas medidas e depois sacode a água do pacote.

Portugal na vanguarda
O Instituto do Mar e da Atmosfera estuda aviso cor de burro quando foge.

Doenças
A mulher do Pato Donald é psicopata.

Poéticas
Portugal, país à beira-mar pelintrado.

Grandes cabecinhas
Um treinador de futebol terá dito é preciso os pés bem assentes na terra.
Não acredito que assim se possam marcar golos.

Teque-nologias
Para mergulhar não precisava escafandro; respirava saúde.

SdB (I)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Canção da Saudade

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

***

Trevas

De dia não se via nada, mas p'la tardinha já se apercebia gente que vinha de punhaes na mão, devagar, silenciosamente, nascendo dos pinheiros e morrendo nelles. E os punhaes não brilhavam: eram luzes distantes, eram guias de lençoes de linho escorridos de hombros franzinos. E a briza que vinha dava gestos de azas vencidas aos lençoes de linho, azas brancas de garças caídas por faunos caçadores. E o vento segredava por entre os pinheiros os mêdos que nasciam.

E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descalça com pés de surdina por môr do barulho, de braços estendidos p'ra não topar com os troncos; e vinha vindo a noite céguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao vê-la esconderam os punhaes nos peitos vazios.

A lua é uma laranja d'oiro num prato azul do Egypto com perolas desirmanadas. E as silhuetas negras dos pinheiros embaloiçados na briza eram um bailado de estatuas de sonho em vitraes azues. Mãos ladras de sombra leváram a laranja, e o prato enlutou-se.

Por entre os pinheiros esgalgados, por entre os pinheiros entristecidos, havia gemidos da briza dos tumulos, havia surdinas de gritos distantes - e distantes os ouviam os pinheiros esgalgados, os pinheiros gigantes.

A briza fez-se gritos de pavões perseguidos. E as sombras em danças macabras fugiam fumo dos pinheiraes p'lo meu respirar.

Escondidas todas por detraz de todos os pinheiros, chocam-se nos ares os punhaes acêsos. Faz-se a fogueira e as bruxas em roda rezam a gritar ladainhas da Morte. Veem mais bruxas, trazem alfanges e um caixão. Doem-me os cabellos, fecham-se-me os olhos e quatro anjos levam-me a alma... Mas a cigarra em algazarra de alêm do monte vem dizer-me que tudo dorme em silencio na escuridão.

Veiu a manha e foi como de dia: não se via nada.

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Crónicas de um doutorando tardio

Frequento, no decurso do meu ano curricular para o doutoramento, um seminário intitulado "Seminário de Investigação I" com a seguinte descrição:

Este seminário será organizado a partir da discussão de exposições orais dos participantes. As exposições ocupar-se-ão, de uma forma preliminar, de tópicos que os participantes se proponham desenvolver nas suas dissertações. As discussões visarão a modificação desses tópicos. O objectivo final do seminário é a produção, por parte dos participantes, de um resumo escrito e pormenorizado, das suas futuras dissertações.

Comigo estão 11 alunos: 3 doutorandos, 8 mestrandos. Relativamente à minha experiência semelhante aquando do mestrado, tenho uma amostra maior. Há mais alunos, mais diversidade, mais possibilidade de perceber tendências, notas comuns, semelhanças. Com alguma experiência acumulada de quatro ou cinco anos (já não sei bem...) nestas andanças académicas, já dá para perceber bem em que sou igual e diferente dos meus colegas.

Ostensivamente, sou igual em algo muito simples: somos seres humanos, somos alunos, somos educados e respeitadores; temos regras de higiene básicas, e talvez tenhamos pontos de vista culturais, religiosos ou outros semelhantes. Não dá para ver. Ostensivamente sou diferente em tudo o resto: na idade, na formação académica, na agilidade mental, nos conhecimentos humanísticos. 

Ontem discorria sobre este tema, e sobre algum impasse que vou sentindo nesta fase da tese. Leio os trabalhos dos meus colegas; leio o meu próprio trabalho. Conclusão? Todos usamos a mesma língua, todos escrevemos no computador, todos respeitamos o número de páginas que nos é imposto para um determinado trabalho. Nada mais nos liga. A linguagem deles é mais hermética, o conhecimento específico deles é mais vasto, as ligações que estabelecem são muito diferentes. Sem querer parecer superior (muito pelo contrário!) é como se o mundo deles fosse a academia e o meu mundo fosse a rua. Eles relacionam Stanley Cavell e Aristóteles; eu relaciono uma parede nua e o desejo de ver a Deus. 

Sair da zona de conforto - como eu fiz quando me transferi de uma vida de fábrica para uma vida na faculdade de Letras - é ter a possibilidade de olhar com um certo distanciamento para mim próprio, como se me afastasse e, da cadeira da aula, visse quem eu era junto a uma máquina que produz detergentes. Fazer esse movimento é perceber uma limitação prática, inegável, incontrolável e irresolúvel: com 60 anos não poderei fazer o que eles fazem; como 60 anos eles poderão fazer o que eu faço. Entre mim e eles há 35 anos de fosso. Tudo o que sabem foi aprendido na faculdade de letras; tudo o que eu sei foi aprendido noutros sítios. Isto não significa nada de especial, apenas que me apetece dizer-lhes: olhem à volta; daqui por três décadas poderão relacionar Stanley Cavell com Aristóteles mas também uma parede nua e o desejo de ver a Deus. Que inveja!

Entre mim e eles só a zoologia nos impede de haver um conjunto intersecção vazio. E no entanto, sei que alguns deles olharão para mim e invejarão uma certa clareza e limpidez de raciocínio: a utilização de palavras correntes, de imagens correntes, de metáforas correntes, de temas correntes. A (minha) ignorância pode ser uma bênção...

JdB  

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Artigos dos dias que correm

Documentário: “A ilha dos monges”

Intitulado originalmente “O regresso dos monges a Schiermonnikoog”, este documentário realizado para a televisão holandesa por Anne Christine Girardot aborda, em perspetiva testemunhal, o dinamismo de uma Igreja em saída.

A ideia do filme surgiu de um anúncio: os religiosos do mosteiro de Sion, nos Países Baixos, puseram à venda o seu mosteiro. O grande edifício, que noutros tempos tinha albergado 150 monges, estava agora ocupado por uma comunidade de oito trapenses de observância estrita.

A cineasta interessou-se pelas circunstâncias dos monges, incapazes de manter a estrutura do grande mosteiro, partindo daí para filmar a clausura monástica na sua nova peregrinação.

Em vez de esperar pela morte do último religioso, os trapistas quiseram aprofundar a sua relação com Deus desde as origens da comunidade, e nesse sentido propuseram-se voltar à “ilha dos monges cinzentos”.

Schiermonnikoog é a ilha mais pequena da Holanda. Com um comprimento de 16 km e largura de quatro, recebe o seu nome da comunidade de monges cistercienses que foi proprietária do enclave.

Esta Igreja em saída exigiu para os monges desacomodarem-se do seu velho mosteiro e regressarem à vida “normal”, ainda que transitoriamente, para preparar a construção do novo pequeno edifício.

O processo é acompanhado pela câmara, diante da qual os religiosos partilham as suas motivações profundas. Que sentido tem ser monge no século XXI? O que se faz num mosteiro?

A nova etapa requereu uma mudança importante nas suas vidas, sair do silêncio para voltar ao ruído, comprar no supermercado em vez de viver do que a terra dá, entrar no autocarro em vez de caminhar pausadamente.

Esta “transumância”, contudo, estabeleceu uma nova etapa espiritual, na qual voltar às raízes supõe uma provocação para as novas gerações.

«Aquando do seu testemunho, um dos monges diz explicitamente: “Não temos nenhuma utilidade, a nossa única razão de existir é ser presença de Deus no mundo”. Parece-me um contraste precioso com o nosso mundo de consumo, em que medimos e comparamos tudo, desde os “likes” no Facebook até quanto ganhas no trabalho», declarou Anne Christine Girardot.

Uma das metáforas mais utilizadas no documentário é a do farol: «É uma construção que está quieta e erguida, mantém-se firme com o passar dos anos a produz luz para orientar quem queira olhar para ele. É o mesmo que fazem os monges: o mundo muda, mas eles permanecem, para que quem se cruze com eles experimente algo da luz e do amor de Deus».

A realizadora recorda o encontro com a comunidade, depois de muito tempo à espera de uma resposta à sua proposta para acompanhar o processo: «Foi um processo longo, de muitos meses».

«Alguns abriram o coração antes que outros, creio que lhes agradava que alguém do exterior se interessasse pelas suas histórias pessoais. Outros tardaram mais, precisaram de mais tempo para me deixar entrar na sua intimidade, mas no final conseguimos que nos dessem a sua confiança. Essa é a base de um documentário autêntico», sublinha.

Um dos testemunhos que mais sensibilizou Anne Christine Girardot foi o do ex-“punk”, por ser alguém «à procura»: «Uma pessoa sem nada a ver com Deus nem a religião – pensava que a fé era para os fracos –, mas que se sentia incapaz de amar os outros e a si mesmo. E agora é o mais místico de todos. Ele conta que o coração do que significa ser monge é deixar-se levar por Deus, contemplá-lo, e emociona-se».

«Temos a ideia preconcebida de que os monges, pelo simples facto de o serem, já são santos e perfeitos, e não é assim. São pessoas normais, como tu e eu, que embarcaram numa aventura apaixonante com Deus, mas continuam a ter as suas quedas e falhas, dúvidas e emoções. Ver a humanidade que há em cada um deles parece-me, também, do mais bonito no filme», aponta.

Após a exibição do filme na Holanda, não foram poucos os espetadores que se dirigiram a Christine Girardot para lhe dizer: «Não sou crente e não entendo o modo de vida destes monges, mas entendo as suas emoções e a sua procura».

Formada na Colômbia e EUA, a cineasta, que tem uma tia carmelita, é detentora de um longo percurso na produção de programas televisivos e entrevistas. A par da vida familiar – tem quatro filhos – vive a fé acompanhando, voluntariamente, doentes terminais.

Com este documentário, a realizadora francesa quis revelar uma história de coragem espiritual, de desafio comunitário e de proposta alternativa num mundo que se esvazia de fé. A vida destes monges e a intenção da cineasta constituem o testemunho de uma Igreja em saída.



P. Peio Sánchez, Guillermo Altarriba
Fontes: "Periodista Digital", "Cinemanet"
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 11.12.2017

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Duas Últimas

Há em mim, com um agrado que pode ser pernicioso, uma dimensão de engenheiro de fábrica, preocupado com eficiências, produtividades, agilização de processos, ausência de paragens desnecessárias. Vou a uma repartição, a um self-service, a um serviço e tento perceber qual é o bottleneck, o que encrava o processo ou dificulta a agilização. O pensamento não serve para nada, a não ser para passar o tempo, porque ninguém quer saber da minha opinião.

Ontem fui aos Correios de Alcabideche levantar uma encomenda - no caso vertente um livro. Tirei a senha nº 66. O indicador marcava o 41, o que significava que tinha 25 pessoas à minha frente...

Os Correios, estou em crer, são o serviço mais ineficiente de Portugal. O ritmo é lento, a burocracia grande, a desmotivação deve campear, os processos não são estudados. Queremos uma carta registada com aviso de recepção e preenchemos dois papéis, penso que com muitas informações em comum - um processo que pode demorar quase dez minutos, entre pesagem, carimbo, verificação das informações, etc. 

Chegada a minha hora entreguei a senha, o aviso dos Correios e o cartão de cidadão. A funcionária levantou-se e dirigiu-se a um tabuleiro onde procurou na divisória que tinha cartas. Como estava atento, disse-lhe que era um livro. Ah, obrigada... Se eu não estivesse atento teria voltado atrás para conformar comigo o nome, o posto de correios, o remetente, etc. 

Recebi o livro: Elementos de Retórica Literária. O título é auspicioso, talvez o conteúdo seja tão ligeiro como 40 minutos de espera no posto de Correios de Alcabideche...

Deixo-vos com o tópico cartas de amor. Escrevam-nas, mas não mandem em correio registado com aviso de recepção, a menos que tenham tempo disponível...

JdB

  

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Textos dos dias que correm

Algures no Minho (Setembro de 2014)


Ódio e amor

«O ódio é um licor precioso, um veneno mais caro do que o dos Bórgia. Porque é feito com o nosso sangue, a nossa saúde, o nosso sono e dois terços do nosso amor.»

Na fantasia popular os Bórgia, família nobre espanhola estabelecida em Roma quando um dos seus membros, Afonso, se torna o papa Calisto III (1455-58), tornaram-se o emblema da crueldade desenfreada (Cesare Bórgia), da corrupção (papa Alexandre VI), do vício (Lucrécia Bórgia), possivelmente com algum excesso de fantasia.

Ao seu veneno faz referência o poeta francês do séc. XIX Chardes Baudelaire com esta definição de ódio, presente no seu escrito sobre a Arte Romântica. Nas suas palavras, deveras acesas, há uma verdade em que devemos meditar.

Quando o ódio faz caminho em nós – e devemos reconhecer que todos temos no nosso coração uma gota desse veneno –, é qualquer coisa de nós que é absorvido. É a nossa saúde, o sono, a vitalidade que não envolvidos e não se tem paz.

Mas há um aspeto que habitualmente não se considera. Baudelaire diz que o ódio é feito de «dois terços do nosso amor». E isto está demonstrado, porque muitas vezes o ódio é uma forma perversa para exprimir um amor desiludido, tanto é que se cunhou o dito que «quem odeia, ama».

O ódio pode ser uma degeneração do amor e é por isso que devemos sempre controlar as nossas paixões, sentimentos, emoções, para que não nos enlouqueçam e arrastem para um remoinho do qual é difícil emergir para rever o céu e a paz.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 09.12.2017

domingo, 10 de dezembro de 2017

2º Domingo do Advento

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. 
Está escrito no profeta Isaías:
«Vou enviar à tua frente o meu mensageiro,
que preparará o teu caminho.
Uma voz clama no deserto:
‘Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas’».
Apareceu João Baptista no deserto
a proclamar um baptismo de penitência
para remissão dos pecados.
Acorria a ele toda a gente da região da Judeia
e todos os habitantes de Jerusalém
e eram baptizados por ele no rio Jordão,
confessando os seus pecados.
João vestia-se de pêlos de camelo,
com um cinto de cabedal em volta dos rins,
e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
E, na sua pregação, dizia:
«Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu,
diante do qual eu não sou digno de me inclinar
para desatar as correias das suas sandálias.
Eu baptizo-vos na água,
mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».

sábado, 9 de dezembro de 2017

Pensamentos Impensados

Pai de filhos incógnitos
Não gosto do Pai Natal, não preciso do Pai Natal; gosto do Menino Jesus, preciso do Menino Jesus.
Se é pai, quem é a mulher e os filhos?
O Pai Natal deve ser filho duma rena e de uma garrafa de Coca-cola.
Viva o Menino Jesus, abaixo o Pai Natal.

Benesses
Tenho um bem que me irá acompanhar até à morte: a vida.

Aparências
Marcelo não aparece na televisão pelo primeiro dia consecutivo.

Ordinarices
Acidente provoca um morto; morto não rege à provocação.

Cultura
Jorge Jesus é poliglota: disse Champions, sabe inglês; disse  Olimpiakos, sabe grego; disse Barça, sabe catalão; disse Juventus, sabe latim e italiano.
Irra!, que nem na Torre de Babel...

Falhas
Antes ser absurdo que abcego.

Toponímias
Quando foi expulso do Paraíso, Adão foi viver para um terriola que mais tarde viria a chamar-se Massamá que é uma corruptela de maçã má.

Notícia da moda
Não há ninguém que não tenha assediado ou sido assediado; sinto-me humilhado por nunca ter sido assediado, se calhar não valia um tostão furado.

SdB (I)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

EVANGELHO Lc 1, 26-38 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 

Naquele tempo, 
o Anjo Gabriel foi enviado por Deus 
a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 
a uma Virgem desposada com um homem chamado José, 
que era descendente de David. 
O nome da Virgem era Maria. 
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: 
«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 
Ela ficou perturbada com estas palavras 
e pensava que saudação seria aquela. 
Disse-lhe o Anjo: 
«Não temas, Maria, 
porque encontraste graça diante de Deus. 
Conceberás e darás à luz um Filho, 
a quem porás o nome de Jesus. 
Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. 
O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; 
reinará eternamente sobre a casa de Jacob 
e o seu reinado não terá fim». 
Maria disse ao Anjo: 
«Como será isto, se eu não conheço homem?». 
O Anjo respondeu-lhe: 
«O Espírito Santo virá sobre ti 
e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. 
Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 
E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice 
e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; 
porque a Deus nada é impossível». 
Maria disse então: 
«Eis a escrava do Senhor; 
faça-se em mim segundo a tua palavra». 


Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.


E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.


Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.


Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Duas Últimas

A música que hoje aqui trago, "Não sou o único", é conhecida de sobejo e acompanha-me há muito. A autoria é dos Xutos & Pontapés, mas prefiro esta versão ao vivo, dos Resistência, contando no caso com o precioso contributo do guitarrista Pedro Jóia.

Tanto quanto sei, a letra é de Zé Pedro, guitarrista dos Xutos recentemente desaparecido.

Vi, sem espanto, as grandes manifestações de pesar pela sua morte. Desde as enormes filas nos Jerónimos, às presenças assíduas e generosas nos elogios do PR e do PM, passando pela enorme quantidade de pessoas que apareceram a "botar sentença" e pela histeria recorrente da comunicação social, tudo me pareceu mais uma vez bastante exagerado.

Sem espanto, porque é assim que os acontecimentos são tratados hoje em dia. Sejam eles sociais, políticos, religiosos ou de qualquer outra índole. O pensamento único/unanimismo e o bombardeamento da opinião pública imperam, saiba-se pouco ou muito (raramente) acerca do assunto em causa.

É o que digo aos meus filhos: leiam, instruam-se, para que possam formar opiniões próprias, tanto quanto possível livres e fundamentadas.

De Zé Pedro guardo a imagem de pessoa simpática e comunicativa, dedicada aos outros, dos seus solos de guitarra que ouvia com prazer. E não é para mim indiferente que fosse pessoa exactamente da minha idade, um entre muitos (penso que oito) irmãos, casado com uma senhora que conheci vagamente de outras guerras, digamos que "empresariais".

Relembrem e apreciem a música.

fq


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Óbito


"Un jour je m'en irai sans avoir tout dit."

Informado pelo meu querido e francófono amigo ATM, soube da morte de Jean d'Ormesson. O escritor, que tinha 92 anos, era autor de dezenas de obras, membro da Academia Francesa, e presidira ao Conselho International de Filosofia e Ciências Humanas da UNESCO. Para o Presidente francês, Emmanuel Macron, “era o melhor do espírito francês, uma mistura única de inteligência, elegância e malícia, um príncipe das letras sabendo nunca se levar a sério.

Não sou suficientemente fluente em francês para o ter lido na língua original. Na altura em que soube da sua existência, os meus interesses literários não passavam por aí. Talvez o venha a ler um dia destes, infelizmente em português, que para mais não chego... Na minha memória fica Au Plaisir de Dieu, um livro dele, de 1974 que ofereci à minha mãe.


Leio, no link que me enviou o ATM, elogios de vários quadrantes. Talvez fixe este, publicado no Libération: Jean d'Ormesson era “o rosto mais radioso da direita burguesa e culta”.

JdB

Vai um gin do Peter’s?

DESCOBERTA DE TELA MÍTICA DE LEONARDO (1452-1519)

O génio do Renascimento, considerado por muitos o maior pintor de todos os tempos, distinguiu-se igualmente noutros ofícios e engenhos. Leonardo foi também cientista, matemático, engenheiro (percursor da aviação e da balística), botânico, anatomista, arquitecto (perito em construções militares), escultor, poeta e músico. São assinaláveis os seus contributos para a anatomia humana ou para o conhecimento da óptica e da hidrodinâmica.

Auto-retrato (1510-1515) de um idoso de olhar profundo e respeitável, que lembra a figura ímpar de Gandalf da saga do «Senhor dos Anéis», transposta para o cinema através da trilogia do realizador neo-zelandês  Peter Jackson.

Atribui-se às suas experimentações arriscadas com os materiais usados, o facto de apenas dezena e meia de pinturas terem sobrevivido até aos nossos dias, onde se destacam a celebérrima «Mona Lisa» (Louvre) e o fresco da «Última Ceia» (Milão). Isto descontando os múltiplos esquisses e diagramas registados nos cadernos de anotação das considerações científicas e artísticas, a par dos descritivos sobre inventos extraordinários como s protótipos do helicóptero e do tanque de guerra, a máquina calculadora, o casco duplo nas embarcações, o recurso à energia solar, uma abordagem preliminar ao estudo das placas tectónicas, etc.

Leonardo nasceu em Anchiano na comuna toscana de Vinci, situada na província de Florença. Duas figuras marcaram a sua juventude: o mestre Andrea del Verrocchio e o nobre florentino mais poderoso e influente da cidade – Lorenzo de Medici. Conta-se – com possível exagero – que Verrocchio teria desistido de pintar depois de se deparar com a excelência do anjo feito por Leonardo no quadro composto em mano-a-mano «O Bapistmo de Cristo»: 

Da dupla Verrocchio e Leonardo (responsável pelo o anjo mais à esquerda que segura a túnica de Cristo e por retoques vários na figura de Cristo e nas rochas em redor, aplicando a nova técnica de pintura a óleo, já dominada pelo jovem prodígio), 1472–1475, Galleria degli Uffizi.

Os seus trabalhos eram assinados com o primeiro nome ou, mais enfaticamente, com: «Io Leonardo» (Eu, Leonardo), omitindo quaisquer apelidos, talvez pela condição de filho ilegítimo de um notário e de uma camponesa, embora não seja certo, pois passou a adolescência na casa paterna onde o pai lhe providenciou uma formação exemplar. Aos 17 anos, lançou-se na vida profissional como aprendiz do atelier de Verrochio. 

Outro dos seus atributos era a beleza física e a sofisticação de modos, sendo muito apreciado em tertúlias e serões sociais. Pensa-se que terá servido de modelo ao David esculpido por Verrocchio em bronze, ou à figura do Arcanjo na pintura «Tobias e o Anjo». 

Vivia-se, em Itália, uma época de ouro, fruto da junção de três génios do calibre de Leonardo, Michelangelo e Rafael, predilectos dos melhores mecenas, onde se incluía o próprio Papa e inúmeros eclesiásticos, para além dos nobres e da alta burguesia. Compreensivelmente, correspondeu também a um período glorioso da arte sacra.

É neste contexto que, em 1499-1500, Leonardo pintou um magnífico Cristo ressuscitado, envergando as vestes do azul que é apanágio do sagrado. Adoptou o melhor estilo dos ícones, em posição frontal e representado em meia figura, para imortalizar a invocação «Salvador do Mundo», identificável no gesto da bênção com a mão direita erguida e os dois dedos cruzados, além do globo terrestre em cristal sustentado pela mão do lado do coração. É impressionante o efeito portentoso da transparência da orbe que evoca, em simultâneo, a pureza da esfera celeste e a grandeza do planeta, aqui mostrado de forma muito metafórica numa limpidez cristalina capaz de reproduzir, rigorosamente, as duas principais componentes planetárias: a crosta terrestre simbolizada no tom rosa da carne do próprio Salvador, e a imensidão dos oceanos que toma a cor do manto do Senhor do Cosmos, na tonalidade também partilhada com o céu. Até o brilho iridescente das estrelas está bem presente através das ínfimas e incontáveis bolhas de ar que se concentram na zona onde transparece a mão que salva. Merece um zoom:    

O reflexo de luz nos pontículos de ar do cristal, segurado com firmeza e suavidade, parece querer trazer para a zona que simbolizaria a terra a beleza única das noites estreladas

A história atribulada da tela começa pela surpreendente reatribuição da autoria do quadro, quando foi a restaurar às oficinas da National Gallery (NG), na primeira década do século XXI. Qual não foi o baque ao revelar-se, numa segunda camada encoberta pela pintura visível, um traço incrivelmente fino e sofisticado. De tal modo exímio que o nome de Leonardo começou a impor-se. Para a prova dos nove, os restauradores foram buscar a tela de artista de Vinci pertencente à Galeria – «A Virgem dos Rochedos»  – comparando os pigmentos e demais características técnicas. Seguiram-se as consultas a inúmeros peritos de todo o mundo, até se chegar ao consenso sobre a autoria. Redescobria-se, assim, uma nova obra-prima do génio renascentista. Em 2011, a NG dedicou-lhe uma exposição, que foi a sua estreia absoluta ao grande público. 

Transcreve-se a cronologia bem condensada pelo Expresso(1) com os momentos-chave do percurso atribulado da tela, que é um mistério ter resistido a tanta aventura. Talvez o facto de ter viajado pelos séculos praticamente incógnita, tenha ajudado:  
         
«1500 - A encomenda
Luís XII de França celebra a conquista de Milão e encomenda a Leonardo Da Vinci a imagem de Cristo com a bola de cristal na mão, então muito em voga. Nasce a obra “Salvator Mundi”.
          
1625 - O dote
Henrietta Maria de França casa-se com Carlos I de Inglaterra — conhecido pelo seu amor às artes — e leva como dote, entre outras coisas, a célebre pintura.
         
1649 - A doação
Durante a guerra civil inglesa, a peça de arte é entregue ao capitão John Stone, por ordem de Oliver Cromwell, juntamente com toda a coleção de Carlos I, que se dispersa.
         
1660 - O regresso
A pintura de Leonardo Da Vinci regressa à corte inglesa, mas depressa é oferecida ao duque de Buckingham, cujos descendentes decidem vendê-la.
          
1763 - A venda
Em fevereiro, a obra, então intitulada “Head of Our Savior”, é vendida a Sir Charles Robinson, mas acaba por desaparecer entre restauros e repinturas.

1900 - A reatribuição
A obra de arte reaparece, mas é agora atribuída a um discípulo de Leonardo Da Vinci, Bernardino Luino, e vendida a Francis Cook. Em leilão na Sotheby’s, em 1958, é vendida de novo, por 45 libras, e é atribuída a outro aluno do mestre, Giovanni Antonio Boltraffio.
       
2013 - A exposição
Depois de ter sido exposta na National Gallery, em Londres, a obra “Salvator Mundi” é vendida por mais de 127 milhões de dólares ao milionário russo Dmitry Rybolovlev.
        
2017 - O leilão
Depois de passear pelo mundo durante o ano, a obra chega a Nova Iorque para ser leiloada pela Christie’s esta quarta-feira. Está avaliada em 100 milhões de dólares.»

O melhor fica para o fim, mostrando por inteiro a magna obra assinada pelo grande Mestre do Renascimento que, séculos depois, voltou a maravilhar o mundo. Claro que protagonizou o maior recorde de pintura leiloada alguma vez registado, apesar de haver peças de peso no mesmo leilão da Christie’s, como obras de Andy Warhol, entre outras. Em apenas 19 minutos, consumou-se a transacção histórica decorrida a 15 de Novembro, no Centro Rockefeller de Nova Iorque, na presença de mil participantes e de vários outros milhares em ligação directa com o coração de Manhattan, a partir de pontos distantes do planeta. Dir-se-ia que esta participação interplanetária terá cumprido o desejo do ícone de Leonardo, confirmando que num globo tão perfeito cabe toda a Humanidade:   

Medidas do quadro: 66x46 cm, comprado por fundos de pensões associados a museus e colecções de arte

Tem qualquer coisa de presente de Natal antecipado coincidir, nesta quadra, a estrondosa notícia urbi et orbi sobre a redescoberta da mítica tela e a sua aquisição por fundos ligados a museus. Numa altura em que o mundo navega por águas incertas e perigosas, um Salvador vem a calhar. E este – diferentemente do pobre Bebé nascido nas franjas do Império Romano – não é difícil de reconhecer, graças à genialidade de Leonardo. É giro provir de um artista tão talentoso e sobejamente reconhecido por esta geração, um presente que contagiou o mundo como um rastilho! Que outra boa surpresa poderia impactar por todo o planeta como o «Salvator Mundi» do final do século XV ?
    
Maria Zarco
 (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta) 
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(1) Artigo assinado por Alexandra Carita e publicado na parte da revista do semanário de 11 de Novembro. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Não Trago Recordações

Não trago recordações.
Escolheria as que não interessam a ninguém.
Como se erguesse contra mim o tiro de uma arma
ou acabasse de ler as disposições da comuna
sobre as mulheres.
Precisamos um do outro
esta noite

ferido por uma bala.

Os dois os três dias que se vão seguir.
Os envelopes foram destruídos.
As coisas
as cartas

o tempo é sempre magnífico.
Terra povoada de gente
mil e uma coisas que fazem uma arma
soltar o corpo
para o corpo de outro corpo.

As frases começadas
hei-de um dia os mundos desta vida.

João Miguel Fernandes Jorge, in "Meridional"

***

Um Amor

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice, in "A Partilha dos Mitos"

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Do quotidiano

Formava-se a primeira comunidade de seres humanos na Terra. Só algum tempo depois, já esta comunidade dominava o vocabulário, a construção das frases e a técnica do neologismo, é que surgiu a palavra quotidiano. Até então as actividades eram ocasionais, avulsas, impulsivas: a caça, o cumprimento das necessidades fisiológicas ou a satisfação das pulsões sexuais, a atenção ao céu como lugar geométrico de todos os mistérios. Só algum tempo depois, repete-se, é que o avulso se tornou em quotidiano, e se definiram momentos certos e regulares para as coisas. 

Há actividades quotidianas que nos acompanham desde o homem das cavernas, ou desde os homens que começaram por dar sons identificadores às coisas, sons esses que redundaram em palavras que, alinhadas, formaram um todo inteligível que permitiu a comunicação, a troca comercial, o primórdio do afecto. Com o tempo, e com aquilo que pensamos ser a evolução da espécie, o quotidiano foi-se alterando: já não caçamos, mas mantemos o desejo sexual; temos mais hábitos de higiene, mas o céu pode ser apenas, e só, a folha de papel onde plasmamos mistérios: projecções matemáticas, tendências probabilísticas, caracterização das núvens.

***

A tecnologia relativamente barata e ao alcance de um dedo gerou milhões infindos de fotografias nos últimos 20 ou 30 anos. Fotografaram-se as crianças na praia, no banho, na primeira festa, no primeiro jogo de futebol; fotografou-se a namorada, o primo, o almoço de sardinhas assadas numa mesa gordurosa, o desafio do Sporting, a festa de Carnaval, ou ainda Chicago, esse espectáculo de amor e traição que alguns colégios fantasiaram pelo Natal; fotografou-se uma fralda cheia de cocó que se mandou à mãe de férias, a boca suja da primeira sopa de legumes, a viagem de comboio pela Europa com aromas de suor, má comida e desejos de jovem adulto; fotografou-se o grupo de amigos bêbedos, as amigas com ar provocante, as roupas práticas e ligeiras que mataram uma certa elegância feminina. Por último, cada um fotografou-se a si próprio: num grupo a rir, mascarado de fantasia, com adornos de photoshop, em frente de uma cascata tropical, de uma igreja rococó ou de um prato pejado de calorias e triglicéridos. Tudo se fotografou, ninguém deixou de ser fotografado. Milhões e milhões de fotografias sem direito ao esquecimento a circular no éter, a revelar um quotidiano moderno, semi-líquido, volátil, prático, existente.      

Por motivos que não vêm ao caso, andei de roda de fotografias relativamente antigas, com 50 ou 60 anos, talvez - muitas antes ainda de eu existir. São de uma época em que a tecnologia se revestia de uma máquina cara, usada em momentos específicos, porque o resto não interessava ser fotografado - havia o custo da fotografia, mas havia, também, uma certa sensação resguardada das coisas.

Imaginemos que o tempo passado só poderia ser decifrado por meio de escritos e de imagens da época e que, munido desses artefactos, decifrávamos um estilo de vida. Olho para aquelas fotografias que fui retirando avulsas de uma caixa e o que encontro? Elegância, cuidado, pouco improviso; mas também encontro uma certa gravitas, uma adultez precoce face aos nossos tempos. Não são fotografias do quotidiano, mas fotografias de festas, de jantares, de comemorações, de encontros. São fotografias que permitem recordar uma certa estética, mais do que uma certa realidade.  

Entre o quotidiano do homem das cavernas e o quotidiano do século XX a diferença está, essencialmente, no pudor. Mantêm-se os desejos, as pulsões, as necessidades de sustento, o céu como interrogação, o projecto de amor. Mudou a forma e, nalguns casos, o espaço desse mesmo quotidiano. O que mudou para o século XXI? A tecnologia que permite revelar tudo, a vontade humana que pretende mostrar tudo. As fotografias que eu vi não eliminavam a existência do quotidiano - o bebé de boca suja, o cocó na fralda, a sardinhada gordurosa, o desejo carnal, a informalidade de uma noite mais excessiva. As fotografias que eu vi revelavam, acima de tudo, a importância das coisas, não a existência das coisas.  

JdB  

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