sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Poemas dos dias que correm

Quadras da Minha Vida

Os ecos nos meus sentidos
Dos meus afectos doentes
São mais longos, mais compridos
Do que rastos de serpentes.

Nasci profundo e pegado
A turbilhões de aflição:
Na cara trago estampado
O meu perfil de obsessão.

Não creio que possa amar
Nem neste mundo ter jeito
De me encostar a outro leito
Sem desatar a chorar.

Enterro os dias e os ais,
Sou uma pilheira de mortos,
Não tenho espaço pra mais!
Que se comam uns aos outros...

Mário Saa [18 Jun 1893 - 23 Jan 1971], in 'A Poesia da Presença'

***

Do Primeiro Regresso

Escuta, meu Amor, quando eu voltar
De tão longe, e avistar de novo o Tejo,
O meu Restelo que em saudades vejo
Como outra nova Índia a conquistar;

Quando a minha alma inquieta sossegar
Este voo indomável, num adejo,
E o amor e o céu e Deus, vivos num beijo,
Iluminarem todo o nosso lar;

Quando, meu Santo Amor, voltar o dia
Do primeiro regresso, e a aleluia
Madrugar tua alma anoitecida...

Hás-de embalar-me sobre o teu regaço
Arrolar, encantar o meu cansaço...
E então será o meu regresso à Vida!

Augusto Casimiro [11 Mai 1889 - 23 Set 1967], in 'Primavera de Deus'

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Pensamento Impensado

Aparição-conferência-exposição

Primeiro ministro: bla bla, bla bla bla, bla; bla bla bla. Estou à vossa disposição.
Jornalista: bla bla. bla bla bla? bla bla bla. bla bla, bla?
Primeiro ministro: bla, bla bla bla. bla bla bla bla. Um grande bla bla bla para vocês todos.
Fim de aparição

SdB (I)

Duas Últimas

Na passada 6ª feira assisti na Meo Arena a um concerto dos/da "Resistência", comemorativo dos seus 25 anos de carreira.

Perante uma casa composta mas longe de estar cheia, que isso de encher aquele gigantesco pavilhão é para poucos, o grupo passou longamente em revista os seus maiores êxitos, quase todos resultantes de interpretações de músicas de terceiros: UHF, Delfins, J Palma, J Afonso, Rádio Macau, R Reininho, Quinta do Bill.

Gostei, como sempre que ouvi este grupo integralmente tributário da música portuguesa. Bom gosto das músicas selecionadas, versões muito próprias das mesmas, destacando-se as magnificas instrumentações (Pedro Joia, Tim, etc..), o ponto forte da banda. As vozes, bastante aceitáveis, foram melhoradas pela presença (a primeira vez) de 2 convidados, Raquel Tavares e A Zambujo, excelentes cada um ao seu estilo.

Apreciei sobremaneira a interpretação de "Cantiga de Amor", dos Radio Macau.

Aqui vos deixo com duas versões da música, a primeira muito idêntica à que ouvi, a segunda a original, da banda de Algueirão e da sua incontornável Xana.

Espero que também gostem.

fq



quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Textos dos dias que correm

A Busca da Felicidade ou do Sofrimento

O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do mundo que são, exilados na sua própria pátria. Excepto nos momentos fulgurantes da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus actos escapam-lhes noutros actos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas; fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que, ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela termina. Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre. 

Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade. 

Albert Camus, in "O Homem Revoltado"

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (5) [ou também Duas Últimas]


Mais do que ilustrar onde estarei daqui a um ano se me mantiver nestas funções nacionais e internacionais, importa referir a legenda da fotografia junto ao cotovelo esquerdo do dançarino: no child should die of cancer. Para os médicos, este ano pouco menos de 2000 na conferência, a motivação é esta. Para nós, Pais (mas também voluntários, sobreviventes, profissionais) a motivação é principalmente esta, mas também nos cabe o conforto quando o herói não sai a assobiar em direcção ao por do sol, mas fica pelo caminho. 

Hoje deixo-vos com música que fui ouvindo durante a semana - num táxi, num jantar, numa conversa. Música boa, que merece ser ouvida.

JdB
  


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (4)

Washington
Enfiado quase sempre num hotel, pouco conheci da cidade, com excepção de viagens de Uber (chique a valer) entre pontos de origem e destino. Não me parece uma cidade que tenha muito para ver do ponto de vista arquitectónico. Terá, seguramente, do ponto de vista dos museus. É grande, ampla, organizada e com boas estradas - estamos, afinal, na capital dos EUA. 

É uma cidade cara, onde um café custa 2,5 USD, um pequeno-almoço básico 10 USD. Mas, como em muitos aspectos dos EUA, tem curiosidades. Ontem, por exemplo, fui convidado para jantar com um colega sul-africano e três chineses (um casal de pais e um sobrevivente). Fomos a um restaurante onde o preço médio dos pratos era de 28 a 30 USD, uma caneca de cerveja quase 7. O restaurante tinha bom aspecto, a comida era boa. Mas tinha individuais de papel...



Cosmos Club (I)
O jantar de gala do CCI (organização internacional a que pertenço) realizou-se no Cosmos Club que, segundo me dizem, é um clube de homens, selecto, restrito a pessoas que se tenham notabilizado de alguma forma: cientistas, militares de alta patente, prémios Nobel (sim, sim...), políticos, etc. Uma espécie de Turf português em que a aristocracia é do intelecto, não do sangue... O dress code era claro: casaco e gravata para os homens, vestido ou calças elegantes (há uma expressão de que não me lembro) para senhoras. Havia uma elegância generalizada, com um colorido dado pelos trajes regionais da Índia, do Bangla Desh ou da Indonésia. Um colega do Gana apresentou-se de smoking. 

Cosmos Club (II)
Este parágrafo é ingénuo, eu sei, mas de uma ingenuidade que não deixa de me comover. O jantar no Cosmos Clube foi seguido de um momento musical: um conjunto (banda, como se diz agora) Motown a tocar e a cantar músicas "antigas", mas que ainda agitam corpos. Num repente, na pista improvisada, o israelita dançava com a etíope, o egípcio com a chilena, os ganeses ou os indonésios num grupo indistinto, a rapariga elegante e quase seráfica do Bangla Desh era puxada para a pista com um sorriso discreto  Eu, cavalheiro português, dancei um slow (sim, sim, é assim que se diz) com a anfitriã, que me parecia desejosa de agitar o corpo sem ter com quem. Dancei My Girl, uma música que me pareceu particularmente adequada para dançar com uma rapariga que tem oito filhos e foi, dizem-me posteriormente, campeã (ou praticante apenas) de culturismo.

 

Dançar continua a ser, para mim, um movimento afectivo. Sou menos entusiasta de grupos, mas é gratificante pensar que pessoas que politicamente se poderiam odiar, dançam umas com as outras como se não houvesse amanhã, pessoas que riem e se agitam antes de voltar à dureza das vidas de volta das crianças com cancro. Dançar tem, de facto, uma dimensão primitiva e profundamente libertadora.

Discurso americano [ou também Cosmos Clube (III)]
A anfitriã é americana, obviamente. Tudo no discurso dela é americano. A América é um grande país, ajuda muitos países africanos (e disse isto a uma etíope, porque os EUA ajudam muito a Etiópia...); este clube é muito restrito, os lustres vieram de França e custaram não sei quantos milhares de dólares, ainda esta semana despedi quatro pessoas porque aqui felizmente é fácil despedir...

Almoço rapidamente no MacDonald's. Deixo passar uma família de afro-americanos, volumosos e cheios de crianças. Dizem-me simpaticamente: thank you. Respondo simpaticamente you're welcome. Há um momento de espanto com a minha correcção e murmuram entre si. Uma rapariga nova, que parecia ter um ananás na cabeça não resiste a desejar-me: have yourself a nice day...

JdB

domingo, 15 de outubro de 2017

28º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 22,1-14

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se de novo
aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo
e, falando em parábolas, disse-lhes:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei
que preparou um banquete nupcial para o seu filho.
Mandou os servos chamar os convidados para as bodas,
mas eles não quiseram vir.
Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes:
‘Dizei aos convidados:
Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos,
tudo está pronto. Vinde às bodas’.
Mas eles, sem fazerem caso,
foram um para o seu campo e outro para o seu negócio;
os outros apoderaram-se dos servos,
trataram-nos mal e mataram-nos.
O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos,
que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade.
Disse então aos servos:
‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos.
Ide às encruzilhadas dos caminhos
e convidai para as bodas todos os que encontrardes’.
Então os servos, saindo pelos caminhos,
reuniram todos os que encontraram, maus e bons.
E a sala do banquete encheu-se de convidados.
O rei, quando entrou para ver os convidados,
viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.
E disse-lhe:
‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’.
Mas ele ficou calado.
O rei disse então aos servos:
‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores;
aí haverá choro e ranger de dentes’.
Na verdade, muitos são os chamados,
mas poucos os escolhidos».

sábado, 14 de outubro de 2017

Pensamentos Impensados

Promoções de Outono
Chamam ao Ronaldo capitão, não sei porquê; quem comanda 10 homens é um sargento.

Lavagens
Vi Assunção Cristas a receber luvas e a branquear a capital, e era tudo legal.

Bola
Os jogadores que marcaram os golos no Portugal-Suiça chutaram de tal maneira que a bola foi parar à Rússia.

Negócios
O  que é que o Zezé Camarinha faz na época baixa? Vende camas? Novas ou usadas?

Parentescos
Auto-golo deve ser parente de auto-clismo: ambos são um balde de água fria.

Partidos-quebrados
O Partido Comunista consegue levar a dele avante? Só se for a vender o jornal.

Bok-se
Os pigmeus não jogam boxe, pois só dariam golpes baixos.

Cata vento
Foi considerado um desmancha-prazeres quando decidiu ir para o Alto de S. João.

SdB (I)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (3)

Jardim Botânico, Washington (pormenor visto por um iPhone)
4ª feira foi dia de meet and greet. Durante duas horas, normalmente, os representantes das associações, os sobreviventes, os Pais, encontram-se para confraternizar. Conhecem-se pessoas, reveem-se pessoas, conversa-se com amigos - sobre a vida, sobre as dificuldades das associações, sobre o futuro, ou sobre o que se supõe ser um ponto de viragem nesta associação global. Hoje em dia fala-se menos de casos pessoais; fala-se mais de estratégia, de caminhos a seguir, de opções funcionais ou organizativas, não porque tenhamos perdido a dimensão humana, mas porque a dimensão humana tem hoje outros requisitos. Todos queremos prestar um melhor serviço às crianças / jovens com cancro: queremos eliminar as enormes diferenças no seio da Europa, não queremos perder de vista as dificuldades de África, queremos trabalhar mais com os médicos, estabelecer boas parcerias. Mas todos temos, muito naturalmente, a nossa visão do mundo, o nosso estilo pessoal, a ideia do que é mais importante neste momento. E tudo isso, para o melhor e para o pior, assume uma dimensão maior do que há 10 anos, quando comecei nestas andanças internacionais. Há, talvez, uma necessidade maior de profissionalismo que precisa de ser temperada com uma emotividade saudável.

***

Saio do hotel em direcção ao meet and greet. Washington está sob uma chuvinha miúda, quase apenas humidade. Apanhamos um taxi, porque há uma senhora australiana entre o grupo de quatro. Vou à frente na viatura, porque sou muito grande e têm consideração por mim - ou por eles... No tablier, uma estatueta de Nossa Senhora e uma imagem de Santa Teresa de Ávila, o que não deixa de ser curioso. Pergunto por isso ao motorista de que nacionalidade é. Etíope, responde-me; ortodoxo. Faz sentido.

O motorista é simpático, reservado, com uma pronúncia difícil e um tom de voz muito baixo. Segue calado e põe música com um volume suficiente para se ouvir com conforto. Durante 20 minutos ouvimos Carlos Santana (oye como va e samba pa ti, entre outras), depois Temptations (papa was a rolling stone) e, por fim, Ben E King (stand by me). Falamos de música, da boa música daquele tempo, da música que perdura. Acabo por perguntar-lhe a idade: nasceu em 1958, um ano fantástico. Dei por mim a cantarolar tudo, a entusiasmar--me com memórias musicais. Entre o Carlos Santana (de quem me tinha já esquecido) e o que me traz aqui a Washington não há um vazio, apenas um taxista etíope da minha idade - e com muito bom gosto musical.

JdB

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (2)

Ontem cumpriu-se o segundo dia de reuniões da direcção da Childhood Cancer International, a organização que agrega mais de 180 associação de Pais de crianças / jovens com cancro em mais de 90 países.

Estar com estas pessoas é estar, também, com o melhor e o menos bom destas pessoas. Gente que perdeu filhos, que lutou pelas sobrevivência dos filhos num tempo de menos informação, de menos técnica, de menos internet e de menos apoio. Gente que, podendo largar tudo quando os filhos partiram para o céu ou para as suas vidas felizes ou mais limitadas, decidiu ficar e olhar para os outros e pelos outros. Gente que investe dinheiro, tempo, horas de voo e dos seus tempos de lazer numa tentativa de deixar o mundo um lugar melhor. Foi isto que encontrei de volta de uma mesa quando aceitei o desafio de fazer parte da Direcção, depois de já ver tudo isto nas cadeiras anónimas das palestras anuais.

Por trás desta dedicação totalmente louvável, que nalguns casos vem de muito fundo da alma, há a fragilidade humana: a desorganização das reuniões, as necessidades de atenção, as susceptibilidades, os estilos próprios, os desejos de ficar, porque a saída deste ambiente de solidariedade é o confronto com um certo vazio ou um sentido de desemprego. Talvez achasse, na minha ingenuidade, que o facto de trabalharmos para uma causa tão nobre suscitasse desejos de eliminação de vontades ou fraquezas individuais e nos concentrássemos no que nos une. Mas de facto não é assim, e talvez este ano tenha sentido isso com maior acuidade. Sinto-me, pela minha juventude no cargo ou por alguma característica pessoal que não descortino, como um recipiente de queixas alheias: A queixa-se-me de B, que por sua vez se queixa de A mas também de C e talvez de D, que só se queixa de B...

Estou numa organização humana; talvez, num certo sentido, de seres humanos mais fragilizados. Continuo a ser ex-funcionário de uma multinacional que privilegiava a eficiência das reuniões e a disciplina da agenda. Talvez isso, ao contrário da ignorância que é uma benção, seja uma maldição. O resto é simples: nas fraquezas dos outros vejo as minhas, mesmo que sejam diferentes.

JdB

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Música e sentido para o dia de hoje

Foi hoje, mas há 28 anos.

Para a minha filha Teresa, porque todos estes anos foram, para já, inesquecíveis.

J

Vai um gin do Peter’s? 

O MILAGRE DO SOL CELEBRADO PELA GULBENKIAN, COM MÚSICA

No centenário das Aparições, o Santuário de Fátima encomendou a dois compositores – Carrapatoso e McMillan – obras de inspiração mariana, que terão estreia absoluta, no dia 13 de Outubro, em Fátima (18h30 na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima) e no dia 15, Domingo, na Gulbenkian (17h00, na zona dos Congressos da sede da Fundação, com entrada livre). 

Nos dois eventos, a orquestra e o coro Gulbenkian actuarão sob a batuta da maestrina Joana Carneiro, coadjuvados pela soprano portuguesa consagrada nos principais palcos do mundo – Elisabete Matos. 

O programa abrange as seguintes peças musicais: «Salve Regina» de Eurico Carrapatoso; «The Sun Danced» da autoria do escocês James MacMillan a evocar o milagre testemunhado por crentes e não-crentes, a 13 de Outubro de 1917; e a Sinfonia n.º 3, op.36, do polaco Henryk Górecki também designada de «Sinfonia das lamentações». Esta obra é a única audível via youtube, porque data de 1976. Com três andamentos, começa pelo canto da solista, a dar voz a um lamento atribuído a Nossa Senhora e escrito no séc.XV. O segundo andamento respeita à mensagem grafitada por uma rapariga de 18 anos na parede de uma prisão da Gestapo, durante a Segunda Guerra Mundial. Compreensivelmente, a primeira palavra é «Mãe», replicando o clamor mais profundo do ser humano, que pede para ser amado! É a essa necessidade prioritária da Humanidade que a Senhora de Fátima se propõe atender, maternalmente, incansavelmente. Por isso, multidões sem fim continuam a acorrer ao Santuário do pequeno povoado português. O terceiro andamento inspira-se na tradição folclórica e narra a busca incessante de uma mãe pelo filho que fora assassinado, numa denúncia directa ao genocídio perpetrada em 1919, durante a insurreição na Silésia. Uma sinfonia de homenagem aos milhões de filhos mortos e de pietás, que resultaram das inúmeras matanças do século mais sangrento da História: 



Na temporada da Gulbenkian, este concerto insere-se numa série que a Fundação intitulou «Entre o Céu e a Terra», visando «criar pontes entre várias obras que exploram a qualidade transcendente daquilo que se encontra para além da razão e da palavra».  A série estende-se a oito concertos, que incidem sobre «crenças e valores presentes na cultura de distintas geografias, das Suites para Violoncelo de Bach à música síria ou ao canto sacro argelino».

Cem anos depois da Mensagem do Céu transmitida a Três Pastorinhos de Aljustrel, é extraordinário a música também querer contribuir para recordar e celebrar uma história feita de imprevistos e improbabilidades, que suplantou as fronteiras de Portugal, chegando aos recantos mais recônditos o planeta. Tudo ao contrário do marketing e da lógica do deve&haver. Um mistério que só no silêncio daquele recinto tocado pelo sagrado, se pode intuir.  


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (1)

Cheguei ontem a Washington. Entre sair de casa e entrar no hotel de destino passaram-se 20 horas. Quase 50% passaram-se dentro de um avião apertado, cheio, com gente que dá encontrões, com tripulação que dá encontrões. Em bom resumo, achei o avião indigno de uma viagem de 8 horas. Das viagens longas que fiz este ano, talvez este avião tenha sido o pior. Registo o desconforto na Air France. 

Da minha ingenuidade derivada dos livros e dos filmes de espionagem ou com isso parecidos, não há palavra que inspire mais terror, mais sensação de estado policial e de esbirros ao serviço do ditador comunista do que securitate. Não sei bem porquê, mas sei que segurança ou security ou securité não traduzem uma espécie de cacofonia temível. Penso que a palavra será romena, ou coisa parecida - e eu nunca estive na Roménia, mas entrei na Hungria e na Checoslováquia quando a cortina de ferro não era um adereço da Zara Home.

Estação de Woodley Park, Washington

Vem isto a propósito da entrada no aeroporto em Washington. Seria uma coisa temível, do tipo securitate, se não tivesse estado este ano na Índia, pelo que me habituei aos procedimentos que são iguais lá e cá: longas filas de gente, leitura digital do passaporte e dos quatro dedos dedos de uma mão, fotografia (derivado ao facto da câmara estar fixa, a fotografia foi-me tirada de baixo, o que me deu um ar absolutamente facínora), seguido de uma inspecção visual muito apurada por parte da gente do SEF local, mais leitura digital dos cinco dedos de cada mão (primeiro quatro, depois um, depois mais quatro, depois mais um) com uma conversa do tipo: de onde vem, quanto tempo fica, em que hotel, o que vem cá fazer. Respondi que vinha para uma série de reuniões com associações de pais e médicos ligados à oncologia pediátrica. Talvez o meu inglês não seja muito bom e haja uma outra tradução para a palavra, ou a menina que me interrogou não ouviu nada do que eu disse, porque se despediu com um sorridente enjoy

Enfim, é isto.  Durante os próximos dias é tempo de falar sobre oncologia pediátrica, de ouvir falar de oncologia pediátrica, de ouvir histórias de drama, sofrimento e esperança, e de descobrir o que me comove agora, nesta fase da vida, porque as minhas comoções já não são iguais às de 2006, quando comecei nestas reuniões.  E é tempo de rever amigos que se vão fazendo. Talvez não seja tempo de turismo, porque o tempo é pouco.

JdB

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Duas Últimas

Tomei contacto com os letristas de fado com mais atenção e pormenor aquando da preparação da minha tese de mestrado. Li o que se escrevia até ao advento da censura, em 1925, li o que passou a escrever-se quando Amália Rodrigues lançou o álbum Busto, em 1967. Entre uma data e outra aquilo que Daniel Gouveia e Francisco Mendes chamaram a idade de ouro dos letristas. Em três sextilhas ou numa quadra glosada em décimas há uma história que se conta, um destino que se canta. Quem compunha tudo isto era gente pouco letrada, marinheiros, motoristas de praça, presidiários, empregados de escritório.

Deixo-vos com a Casa da Mariquinhas, do novo álbum de Camané que canta Marceneiro. Independentemente de se gostar do fadista, tomem atenção à letra, a alguns pormenores, a algumas preciosidades, como a expressão "quadros de gosto magano". Eram grandes poetas, digam lá o que disserem...

JdB

domingo, 8 de outubro de 2017

27º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 21,33-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
«Ouvi outra parábola:
Havia um proprietário que plantou uma vinha,
cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar
e levantou uma torre;
depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
Quando chegou a época das colheitas,
mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
Tornou ele a mandar outros servos,
em maior número que
os primeiros.
E eles trataram-nos do mesmo modo.
Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
‘Respeitarão o meu filho’.
Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
‘Este é o herdeiro;
matemo-lo e ficaremos com a sua herança’.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».
Eles responderam:
«Mandará matar sem piedade esses malvados
e arrendará a vinha a outros vinhateiros,
que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
‘A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular;
tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’?
Por isso vos digo:
Ser-vos-á tirado o reino de Deus
e dado a um povo que produza os seus frutos».

sábado, 7 de outubro de 2017

Pensamentos Impensados

Mãozinha
Em Oeiras já não é o primeiro que rouba mas faz.

Festas
Os partidos pequenos não fazem manifestações, fazem minifestações.

Velocidades
O campeão dos 100 metros planos é um best célere.

Mudanças de estado
Só consigo adormecer quando estou acordado.

Lembranças
Uma das vantgens de se ser amnésico é que não se tem saudades do futuro.

Igualdades
Eram gémeos mas não eram verdadeiros nem falsos, eram apenas músculos das pernas.

Vistas
Camões olhava para os inimigos olho nos olhos.

Baralhar
Jogar às cartas é mais fácil do que dirigir uma orquestra sinfónica; o baralho só tem quatro naipes.

SdB (I)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Pensamento Impensado

Justiça

Ricardo Salgado é um dos lesados de BES. Agora até lhe arrestaram a pensão. Qualquer dia tem fome. Sede de justiça é que não me parece.

SdB (I)

Ousadias dos dias que correm

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Pensamento Impensado

Outros tempos

Há uns 70 ou 80 anos, os brasileiros compunham sambas com letras divertidas. Aqui vai uma:

Eu conheci uma espanhola
Natural da Catalunha
Queria que eu tocasse castanhola
E pegasse um boi à unha.

SdB (I)

Posts (parece que em português é "postas", no feminino) dos dias que correm

O texto abaixo foi publicado a 3 de Agosto de 2015. Repesco-o, não só porque gosto deste final, mas porque ultimamente tenho pensado nesta ideia do I want to hear...

JdB

***



O excerto de filme acima é o final do África Minha. Apesar da cena do clube exclusivamente masculino aberto para uma mulher, retratando com elegância britânica uma certa rendição àquela dinamarquesa tão cheia de coragem e infortúnio, o que me captou a atenção foi uma cena um pouco mais tarde, aos 1'52", quando a protagonista diz ao criado: I want to hear you say my name. Farah, o criado, sabe o nome de Karen, a patroa, e di-lo de forma pausada, como um sentimento que se quer vivido em câmara lenta, para que seja mais claro e fique a ressoar no tempo. Ela sabe que ele sabe - e, não obstante, quer ouvi-lo.

Todos nós, cada um à sua maneira, somos baronesas Blixen, pedindo aos nossos mais próximos que profiram o nosso nome. Karen representa uma variedade imensa de frases que desejamos ouvir de forma pausada e lenta: sou teu amigo, amo-te, fazes-me falta, ajuda-me, tenho saudades, não sei o que fazer, vem comigo senão perco-me, diz-me como farias, fica, quero ficar, ajuda-me, sei que sabes, nem sempre é fácil, havemos de chegar, sou feliz, sonho-te feliz, quero que digas o meu nome. Todos sabemos que eles sabem e, não obstante, queremos ouvi-lo, nem sempre realizando que por vezes as baronesas Blixen são os outros, remetendo para nós o papel de Farah.

Karen nunca mais viu Farah. Farah nunca mais viu Karen. O que os uniu para sempre não foi a casa que se encheu de refinamento europeu, a escola que ensinou o bê-á-bá às crianças, o gramofone que rompeu de beleza musical um silêncio já de si belo. O que os uniu para sempre foi a cheia que tudo levou, o fogo que tudo consumiu, a avioneta que se despenhou sobre um sonho. O que os uniu para sempre, por mais irónico que possa parecer, foi o fim de uma vida quimérica construída no sopé de uma montanha. O que os uniu para sempre foi um diálogo composto de duas frases:

- I want to hear you say may name.
- You are Karen, m'sabu.

JdB 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Duas Últimas

Tenho tiques de conservador. Tenho tiques de velho. E tenho tiques de pessoa que se imobilizou no tempo e que, por questões tão válidas como o seu oposto, não quer adaptar-se àquilo que uns chamam evolução, enquanto outro lhes chamam, depreciativamente, modernices

Vem este intróito a propósito de gastronomia e de uma conversa de há alguns dias com uma rapaziada que dobrou há pouco os 40 anos. 

No meu tempo - e não há conversa mais de velho do que dizer no meu tempo - um hambúrguer (é assim que se escreve em português) era um hambúrguer: um bife de carne picada, geralmente redondo, que se come frito ou grelhado, servido no pão ou em prato (fonte Infopédia); por outro lado, um gaspacho era um gaspacho: sopa servida fria, preparada com pão, tomate, pimento, cebola e alho, e temperada com azeite, sal e vinagre (mesma fonte, para economia de meios). Por isso, quando se pedia um hambúrguer ou um gaspacho sabíamos o que estávamos a pedir, e tínhamos uma legítima expectativa do que nos poriam à frente. Hoje é tudo diferente. Há hambúrgeres que não têm um grama de carne e gaspachos que são feitos de morangos, ou de cereja em cama de e com redução de. 

Evoluímos? Não, apenas mudámos a nomenclatura das coisas - e isto sem qualquer valor acrescentado, a não ser um exercício de criatividade linguística. É imobilismo querermos que um hambúrguer seja aquilo e que um gaspacho seja aquilo? Não, porque também não é imobilismo querer que uma cadeira se chame uma cadeira e um casamento seja um casamento. As palavras não valem todas o mesmo e, do ponto de vista da simplificação educativa, não podemos querer  que seja inócuo convidar um vegetariano a comer um hambúrguer: ah, não te preocupes, não leva carne, tem apenas pão me mafra e queijo philadelphia...

Deixo-vos com um gaspacho que não leva tomate e um gaspacho feito comme il faut.  La violetera, cantada por Nana Caymmi, brasileira, e por Sara Montiel, que imortalizou a música, num ano particularmente relevante.

JdB



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Pensamento Impensado

Pós de eleições

Segundo leio na internet, Marcelo terá dito que, se não querem escolher, depois não se podem queixar. A ser verdade esta citação, daqui digo ao Senhor Presidente: ERA O QUE MAIS FALTAVA.

Sou abstencionista porque a lei me permite, pelo que não cometo nenhum crime, pago todos os imposto com que as Finanças me sugam. Marcelo também vem com umas arengadas sobre o dever cívico. Quanto a isto, acho que dever cívico é não cuspir para o chão, não deitar lixo pela janela e pagar os impostos. O Sr. Presidente também fala em problemas de consciência, o que é coisa que não tenho, pois não sou político. 

Concluindo, direi a Marcelo que tenho direito a queixar-me, pois sou um bom cidadão.

SdB (I)

Poemas dos dias que correm

Entre o Bater Rasgado dos Pendões

Entre o bater rasgado dos pendões
E o cessar dos clarins na tarde alheia,
A derrota ficou: como uma cheia
Do mal cobriu os vagos batalhões.

Foi em vão que o Rei louco os seus varões
Trouxe ao prolixo prélio, sem idéia.
Água que mão infiel verteu na areia —
Tudo morreu, sem rastro e sem razões.

A noite cobre o campo, que o Destino
Com a morte tornou abandonado.
Cessou, com cessar tudo, o desatino.

Só no luar que nasce os pendões rotos
’Strelam no absurdo campo desolado
Uma derrota heráldica de ignotos.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

***

Aos Vencidos

Quando é que emfim virá o claro dia,
- O dia glorioso e suspirado! -
Que não corra mais sangue, esperdiçado
Á luz do Sol que os mundos alumia?! -

Que os vencidos não vejam a agonia
Do seu tecto de colmo incendiado,
E se ouça retumbar o monte e o prado,
Ao tropel da velloz cavallaria?!

Quando é que isto será? - Quando na vida,
Virá ella, a doce hora promettida,
Hora cheia d'amor, e desejada!...

Em que fataes Cains, fartos da guerra,
Nosso sangue não beba mais a terra...
- E nem mesmo a Justiça use d'Espada?!

António Gomes Leal, in 'Claridades do Sul'

domingo, 1 de outubro de 2017

26º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 21,28-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes
e aos anciãos do povo:
«Que vos parece?
Um homem tinha dois filhos.
Foi ter com o primeiro e disse-lhe:
‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’.
Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’.
Depois, porém, arrependeu-se e foi.
O homem dirigiu-se ao segundo filho
e falou-lhe do mesmo modo.
Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’.
Mas de facto não foi.
Qual dos dois fez a vontade ao pai?»
Eles responderam-Lhe: «O primeiro».
Jesus disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Os publicanos e as mulheres de má vida
irão diante de vós para o reino de Deus.
João Baptista veio até vós,
ensinando-vos o caminho da justiça,
e não acreditastes nele;
mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram.
E vós, que bem o vistes,
não vos arrependestes, acreditando nele».


***

Quando pecadores e prostitutas passam à frente a caminho de Deus

Jesus terminou a sua viagem para Jerusalém, a cidade santa em que entrou aclamado como Messias, filho de David, pelos discípulos que o acompanhava, e pelas multidões; expulsou do templo quantos impediam que fosse uma casa de oração e secou simbolicamente a figueira que não dava frutos. Estas ações causam uma profunda indignação da parte das autoridades religiosas legítimas mas perversas, «sacerdotes e anciãos», que intervêm publicamente perguntando a Jesus com que autoridade realiza esses gestos provocadores. Mas Jesus não responde, antes põe-lhes uma pergunta relativa à missão de João Batista: missão querida por Deus ou missão que João tinha inventado por si?

Este questionamento não recebe, todavia, uma resposta, e então Jesus dirige-lhes três parábolas: a dos dois filhos, a dos vinhateiros assassinos e a dos enviados ao banquete nupcial. De facto, são três parábolas com as quais Ele procura causar um arrependimento naqueles adversários que pouco tempo depois serão os seus acusadores e os seus condenadores. As parábolas são para Jesus precisamente um instrumento para fazer mudar o pensamento e a atitude àqueles a quem são dirigidas. Mas aqui acontecerá exatamente o oposto. Em vez de se interrogarem e converter, sacerdotes e anciãos indignar-se-ão ainda mais e, compreendendo que tais narrativas se dirigem precisamente a eles, endurecem ainda mais o seu coração, acrescendo a sua oposição e o seu ódio para Jesus.

Escutemos então a primeira parábola, em obediência ao ordenamento litúrgico que a prevê para o próximo domingo (Mateus 21, 28-32, 26.º Domingo do Tempo Comum). «Que vos parece?», introdução que é um convite a pensar e a discernir, para que no fim haja uma outra pergunta da parte de Jesus, que requererá uma resposta clara e decisiva. A resposta inicial do primeiro filho interrogado pelo pai para ir trabalhar na vinha é irreverente, uma desobediência consciente. Mas este filho que ousa resistir ao pedido do pai e lhe nega a obediência, de seguida muda de opinião e vai trabalhar na vinha. Assim mostra que se arrependeu; pensando, mudou de opinião e a não vontade transformou-se para ele em obediência possível.

Entra depois em cena o segundo filho. O pai dirige-se a ele do mesmo modo que o anterior, e a resposta que obtém é positiva: «Sim, Senhor!», mas depois não vai. Estamos perante um filho respeitoso do pai, que até o chama “Senhor”. É respeitoso talvez por medo, porque incapaz de dizer um “não” ao seu pai. Ou é respeitoso porque nutrido de formalismo: diz sim ao pai, como é requerido pela lei e pela prática, mas depois não faz a vontade. Talvez pense que o pai não se recorde que ele não colocou em prática o que ele lhe disse… Não conhecemos as motivações da não execução do convite: resta o facto de que a vontade do pai não é cumprida. Este segundo filho contenta-se em fazer uma declaração verbal segundo o desejo do pai e não perceciona a própria incoerência: como um cego não vê, não se lê a si próprio…

É evidente que o que sucede nesta parábola sucedia aos tempos de Jesus, entre os crentes judeus, mas sucede ainda hoje nas comunidades de discípulos, na Igreja. Houve sempre, há e haverá quantos dizem «Senhor!, Senhor!», invocam-no e têm muitas vezes o seu nome na sua boca, mas depois não fazem a a vontade do seu Pai que está nos céus. As palavras de Jesus querem desmascarar estes crentes que confiam no seu frequentar assembleias onde ressoa a palavra do Senhor, que participam nas refeições com o Senhor, comendo e bebendo à sua mesa, mas que na verdade sem serem concretamente discípulos no seguimento de Jesus, na tentativa de conformar a sua vida à sua. Militantes, certo, sem serem discípulos!

Graças a esta parábola somos convidados a discernir no nosso hoje aqueles que de facto, sem o saber, são representados pelo primeiro ou pelo segundo filho: homem religiosos orgulhosos da sua pertença confessional e falam, falam…; dizem sim à vontade de Deus, mas diariamente não a realizam, porque para eles é mais importante aparecer do que ser e fazer. Do outro lado, aqueles que parecem dizer constantemente não a Deus porque não se mostram religiosos, porque não proclamam a sua pertença religiosa, e depois, ao contrário, vivem-na no anonimato, no dia a dia, realizando a vontade do Senhor sem o nomear e por vezes sem o conhecer. Perfeitos anónimos para nós, mas que simplesmente «praticam a justiça, amam a misericórdia e caminham humildemente com Deus». Eis então, pontual, no fim da parábola, a pergunta de Jesus: «Qual dos dois filhos cumpriu a vontade do pai?», a que se segue a esperada resposta dos sacerdotes e dos anciãos: «O primeiro!».

E então Jesus convida-os a extrair as consequências, comentando: «Em verdade vos digo: “Os pecadores manifestos e as prostitutas passarão à vossa frente no Reino de Deus”». Palavras de Jesus duras como pedras, porque constituem o juízo pronunciado sobre aqueles ouvintes. Mas porquê? Não será talvez isto paradoxal? E todavia acontece assim, porque aqueles que publicamente aparecem como pecadores e por todos são tidos como tal, são presas da vergonha e sentem neles o desejo, mais ou menos escutado, de mudar de vida: desejam sair da sua vida de pecado, que os outros desprezam e condenam. Os homens religiosos, ao invés (aqui os sacerdotes e os anciãos, interlocutores de Jesus), que aparecem como observantes mas têm pecados ocultos, dado que todos os veneram e vêem segundo o seu estatuto, não querem absolutamente mudar de vida. Uns estão por isso abertos a um convite à conversão, enquanto os outros pensam que não têm necessidade de qualquer conversão: daqui nasce a sua hipocrisia, a sua rigidez, o seu julgar e espiar os outros, sem nunca se interrogarem sobre si; estão sempre prontos a absolverem-se porque aos olhos das pessoas são justos e até exemplares…

Repito-o, para que seja bem claro. Quem peca às ocultas nunca é impelido à conversão por uma reprovação que lhe venha dos outros, porque continua a ser venerado e estimado por aquilo que da sua pessoa aparece exteriormente: esta é a doença da maior parte das pessoas, entre as quais se destacam precisamente as religiosas e devotas, que acreditam ser exemplo para os outros. Quem, ao contrário, é um pecador público, encontra-se constantemente ao juízo e à condenação de outros, e de por isso é um induzido a um desejo de mudança. Só animado por tal desejo, só no arrependimento que nasce de um coração esmagado – isto significa etimologicamente “contrito” -, o ser humano pode tornar-se sensível à presença de Deus.

E assim Jesus anota que, quando veio João Batista a pedir a conversão, os pecadores públicos responderam enfaticamente ao convite e converteram-se, enquanto os sacerdotes e as autoridades religiosas, apesar de terem visto isso, nada mudaram do seu comportamento para aderir à sua mensagem. Com esta parábola Jesus interroga por isso cada um de nós, se quisermos escutá-lo. E cada um de nós, quanto mais é reconhecido pela sua profissão de fé, mais deve interrogar-se: digo sim a Deus só por palavras, ou realizo sem clamor e sem ostentação, humildemente, a sua palavra? Em síntese, «no último dia, no dia do juízo» - como recita uma afirmação tradicionalmente atribuída a Agostinho, que deveríamos ter bem mais presente -, «muitos dos que se pensavam dentro serão encontrados fora, enquanto muitos que pensavam estar fora serão encontrados dentro do Reino dos Céus».


Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose", Itália
Trad.: SNPC
Publicado em 29.09.2017

sábado, 30 de setembro de 2017

Pensamentos Impensados

Civilização
Nem tudo o que vem à rede é peixe, às vezes  é plástico.

Petiscos
O Mar Cáspio quase não tem esturjão, foi chão que deu ovas.

Aldrabice
As fotografias dos reis e príncipes só serão consideradas fotos reais se não tiverem photoshop.

Lembranças
Como não gosto  nem sei de política, tenho uma maneira bizarra de me lembrar dos Presidentes da República.
- Cavaco Silva, lembro-me que subiu a um coqueiro, saltou por cima de um automóvel e até tirou o casaco (casaco Silva).
- Mário Soares cavalgou uma tartaruga e comia de boca aberta.
- Ramalho Eanes aprendeu a pronunciar algumas palavras.

Mezinhas
Body shop será corpos à venda? No Intendente ou Martim Moniz?

Pinturas
O quadro O GRITO foi pintado por um mudo e apresentado a uma plateia de surdos.

Assinar o ponto?
Marcelo foi visto no Palácio de Belém mas não quer que se saiba.

Parlapié
Governo promete baixar impostos de forma fraseada.

SdB (I)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Pensamento Impensado

Opiniões
Alguns "distraídos" acham que Marcelo, em Luanda, foi vaiado.
Marcelo acha que foi uma vaya con Diós.

SdB (I)

Moleskine

João Ferreira Rosa

Inexplicavelmente, passei ao lado da morte de João Ferreira Rosa. Não que tivesse de fazer alguma coisa por alguém - ou mesmo por ele - mas não encontrei nada nos jornais ou nos blogues que fizesse referência ao desaparecimento do fadista militantemente monárquico. Nada soube, até terem passado alguns dias.

Em conversa com amigos falámos dele e, sobretudo, do Embuçado, fado tão do agrado de todos os que, da minha idade e com 18 ou 20 anos, se atiravam a cantar, tantas vezes acompanhados por uma viola a descompasso e / ou vagamente desafinada. Não importava - importante era uma cabeça para trás, uns olhos fechados, e a ideia de que cantar o fado (mesmo que mal, ou muito mal) era uma espécie de rito iniciático. E éramos todos monárquicos, pelo que o beija-mão real fazia sentido e dava-nos pertença. 

Do repertório de João Ferreira Rosa sempre preferi o fado Arraial, aqui sofrivelmente cantado e filmado. Fica a intenção.  



Fernando Quintela

O meu querido amigo fq foi tendo a amabilidade de me mandar um ou outro texto sobre o sobrinho que morreu no decurso de uma pega, e sobre o qual já aqui se escreveu. Textos bonitos, sentidos, de pessoas que eram amigas do Fernando ou, num caso, de uma senhora, mãe de um forcado. Não encontrei, em texto nenhum, heroísmos patetas ou apelos a uma vida máscula, de enfrentamento do perigo, porque só os homens é que... Foram sempre textos elevados a referir o que era importante: a vida plena, a vida com sentido, as qualidades humanas do Fernando, a fé forte e militada. No fundo, o que interessa, o que em cada um de nós é imortal. E a parte espiritual dele foi muito bem descrita pelo Pe. Quintela numa das missas. 

Senti o impulso de escrever para os Pais / sobre os Pais do Fernando, porque é desse drama que sei falar. E tudo se tornou mais nítido quando vi uma fotografia muito actual do rapaz, de perfil e de jaqueta. À minha frente (metaforicamente falando) estava o pai dele, o João, mas há trinta e muitos anos, tal eram as parecenças que detectei. Outros escreveram para o Fernando, porque era dele que se lembravam e era com ele que queriam "conversar". Resta-me a certeza de que os Pais, no seu desgosto, ficam com um acervo (passe a presunção) de textos que foram dirigidos, tanto a eles, como ao Fernando. Textos que, não mitigando as saudades, os confortarão: afinal, tinham muita gente a pensar neles...

Vidas

Ontem alguém me dizia: apesar de tudo a vida foi minha amiga. Sim, concordei, apesar da dose de desgostos que cada um de nós inscreve no seu CV. E reforcei: a vida também foi minha amiga, porque apesar de todos os tropeços ou armadilhas, nunca estive sozinho. Talvez seja isso que mais agradeço à vida: o nunca me ter deixado sozinho. Estou certo de que também colaborei para isso mas, não obstante, agradeço. Talvez agradeça à vida (seguramente a Deus) nunca ter feito nada suficientemente grave para ter ficado sozinho. 

JdB

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Duas últimas

Sou o mais velho de sete irmãos.

João, o segundo na escala etária, sempre foi arrojado e intrépido, usando a preceito a destreza física que Deus lhe deu. Jogou rugby, foi forcado em Alcochete, fez o curso dos "Comandos" como voluntário. Não provocava mas também não se temia. Lembro-me por exemplo de certa vez, na Figueira da Foz, em que me safou com grande valentia e decisão de uma situação que, do outro modo, podia ter acabado bem mal.

Os seus dois filhos homens seguiram-lhe as pisadas, nos feitios, nas pegas de caras, na rectidão dos caracteres.

Fernando, o mais novo, morreu no passado dia 16, na sequência de lesões sofridas a pegar um touro nas festas da Moita. Aqui lhe presto a minha sentida homenagem.

Teve uma vida breve mas muito enriquecedora. Para a sua família, para os seus amigos, para os que o conheceram, para si próprio. Agradeço o tempo que tive com ele, relembro com nitidez a ocasião em que jantou sozinho em nossa casa para uma conversa aberta e descontraída, registo o jeito e paciência que tinha para com as crianças e a forma entusiástica como era retribuído, tento resistir à tentação da tristeza que o seu desaparecimento inevitavelmente em todos provoca.

Era homem de fé profunda, vivificada na confissão frequente e na comunhão diária. Que Deus o tenha bem perto de Si.

Falando com o seu irmão Joaquim Pedro sobre as preferências musicais do Fernando, referiu-me os Abba, e particularmente a música deles com o seu nome. Aqui pois a trago.

fq

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Vai um gin do Peter’s? 

TOP-TWELVE DAS TAPEÇARIAS PORTUGUESAS 
Na continuação do “gin” anterior (13 de Setembro), com as 10 tapeçarias mais bonitas da arte ocidental numa selecção inspirada na do crítico de arte nova-iorquino Jason Farago, é chegada a hora do património têxtil nacional.

Felizmente, Portugal possui tal quantidade de obras lindas, que a amostragem esticou até às 12 peças. Entre as fabricadas no país e as adquiridas às melhores oficinas estrangeiras, resultaria redutor ficarmo-nos pela dezena. Esta síntese começa por homenagear as tapeçarias de Pastrana, que já tinham inaugurado o elenco postado no “gin” anterior. 

Excepções à parte (Pastrana, gobelins), a escolha privilegia o fabrico nacional e os desenhos dos pintores portugueses: 

A quarta do magnífico quarteto de tapeçarias de Pastrana, intitulada «Tomada de Tânger». Subtraídas à coroa portuguesa no reinado de D.Afonso V, foram encomendadas aos ateliers flamengos pelo rei de cognome Africano, para registo e celebração das conquistas no Magrebe. Actualmente em posse espanhola, foram tema do gin de 11 de Agosto de 2010.

«Portugueses na Índia», a exibir o cortejo de girafas, zebras e músicos. No Museu do Caramulo, possuidor do maior número de tapeçarias da série «À maneira de Portugal e da Índia». 

Da colecção encomendada pela descendência do 4º Vice-Rei da Índia (1500-1548), para comemorar os «Feitos e Triunfos de  D.João de Castro». De fabrico francês (1550-1557), não chegaram ao destino por alegada por falha no pagamento de todas as prestações. 

Tapeçaria do BNU, em Zurique, alusiva à chegada de Vasco da Gama à Índia. Camões imortalizou a viagem, nos Lusíadas: «Os Portugueses somos do Ocidente, / Imos buscando as terras do Oriente.». Cantou também a entrada em Calecute, no Sul do subcontinente, a 18 de Maio de 1498, quando os marinheiros anunciaram do alto dos mastros “terra à vista”: «Disse alegre o piloto Melindano: / Terra é de Calecu, se não me engano». 

Tapeçaria do acervo da CGD.

Debuxo do pintor Jean Restout, 1739. Palácio Nacional de Sintra, desde 1939. Gobelin manufacturado na oficina francesa de Cozette, em lã e seda (420cmx560 cm). 

Os espantosos «Arraiolos». 

Tapeçaria com desenho de Jaime Martins Barata (1962), no Domus Iustitiae do Funchal.



«João das Regras e a revivescência do Direito», de Amândio Silva (1971). Exposta no Palácio da Justiça de Lisboa, na antiga sala de audiências da 4.ª Vara Cível.


Nenhuma selecção seria concebível sem os arraiolos nos desenhos de Grão Vasco; ou as peças confeccionadas nos ateliers de Portalegre, por exemplo; ou as encomendas portuguesas ao Extremo Oriente beneficiando das parcerias comerciais privilegiadas; ou as aquisições às melhores oficinas flamengas; ou a profusão de colchas lindas (de Viana, etc.) depois elevadas à decoração mural; ou … De facto, um rol mais rigoroso obrigaria a maior extensão, tal a variedade do património artístico português, neste capítulo. 

Sem fugir ao esforço e ao risco da súmula: se o exercício fosse reduzido à expressão mais simples com exemplar único, bastaria evocar a colecção de Pastrana, fabricada na Flandres para o rei descendente da Ínclita Geração. Daí o seu lugar de honra no elenco dos dois “gins”. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Artigos dos dias que correm

Retirado deste blogue, junto segue uma análise, da autoria de Filipe de Avillez, à célebre proposta legislativa do BE sobre mudança de género (ou de sexo?).

JdB

***  

Ainda nem o cadáver da discussão da eutanásia arrefeceu e já a esquerda progressista está em campo para nos impor outro ponto da sua agenda. Desta vez é a chamada “autodeterminação de género”. O nome diz muito. Faz tanto sentido como “autodeterminação de idade”, mas é o ponto a que chegámos.

Há três diplomas que, ao que parece, serão agora concentrados num só para depois ser votado. Não analisei os três, mas acabo de ler o do Bloco de Esquerda, que imagino ser o mais radical e quero agora comentar alguns dos pontos que me chamaram mais atenção.

Esclareço que não tenho formação em direito, mas tenho acompanhado estes debates noutros países há longos anos e é nessa qualidade que escrevo.

Artigo 2.º Entende-se por identidade de género a vivência interna e individual do género, tal como cada pessoa o sente, a qual pode ou não corresponder ao género atribuído à nascença

Duas coisas aqui a sublinhar. Primeiro o fantástico “tal como cada pessoa o sente” que diz tudo sobre o admirável homem novo que os progressistas querem criar. Nós somos o que sentimos. Que se lixe a ciência, que se lixe a biologia. Se eu me sinto cavalo, cavalo sou. Se me sinto preto, sou preto – estão-se a rir? Façam pesquisa por Rachel Dolezal. Se sinto que tenho 2,10 de altura, que seja!

Em segundo lugar, talvez seja o termo técnico usado, mas o meu “género” não me foi atribuído à nascença… Já era meu antes de nascer. O meu número de BI foi-me atribuído, o meu número de Segurança Social também, tal como o número de sócio do Benfica. Mas o meu sexo foi determinado por aquela coisa maçadora que são os genes e a biologia. É algo que é meu mas que – cruel tirania – não depende da minha vontade.

Artigo 3.º 1- Todas as pessoas têm direito: (…)  c) A serem tratadas de acordo com a sua identidade e/ou expressão de género

É nestes pequenos detalhes que se encontram os maiores perigos. Pergunto: A serem tratadas por quem? Pelo Estado? Por toda a gente? O Bloco de Esquerda quer obrigar-me a tratar o meu amigo Zé por “ela” apesar de ele ser, biologicamente, um homem? Não basta alimentarem na mente do Zé a fantasia de que com um processo burocrático e uma mutilação médica ele pode “mudar de sexo”, querem-me obrigar a alinhar na brincadeira? Obrigado. Dispenso.

Artigo 4.º - 1 C Pode requerer a alteração do registo civil a pessoa que (…) c) Não se mostre interdita ou inabilitada por anomalia psíquica.

Esta é excelente por duas razões. Primeiro, porque um homem sentir que é mulher quando a biologia indica o contrário deve ser dos casos mais claros de anomalia psíquica que existe. Tem um nome: Disforia de género. Não fui eu que inventei.

A segunda razão está no ponto 3 deste mesmo artigo: Para aceder ao disposto no número 1, nenhuma pessoa poderá ser obrigada a submeter-se a qualquer tratamento farmacológico, procedimento médico ou exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género.

Portanto reparem… Qualquer pessoa pode pedir alteração de sexo, desde que não se mostre inabilitada por anomalia psíquica, mas ao mesmo tempo é proibido submeter os requerentes a qualquer exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género… Preciso mesmo de escrever mais alguma coisa sobre isto?

Artigo 5.º - Menores de dezasseis anos

Muito se tem falado sobre a situação de os menores de 16 anos poderem intentar judicialmente para ultrapassar a oposição dos pais. Mas o que mais me espanta neste artigo é que fala apenas de “menores de 16 anos”, não temos um limite inferior. Aplica-se a crianças com 5 ou 6 anos? Não há mesmo limite? Vale tudo?

Artigo 6.º - 2 - O requerimento é apresentado na Conservatória do Registo Civil e, nos casos previstos na alínea b), do n.º 1, do artigo 4.º, nos consulados respectivos, podendo, desde logo, ser solicitada a realização de novo assento (…) 5 - No novo assento de nascimento não poderá ser feita qualquer menção à alteração do registo

Ora aí está. Este ponto resume toda a mentalidade dos defensores destas medidas. A consagração desavergonhada da mentira! O que é um assento de nascimento? Um assento de nascimento diz, entre outras coisas, que nasceu um indivíduo de sexo masculino ou feminino. Mas o projecto do Bloco prevê a elaboração de um novo assento. Ou seja, não basta que a pessoa queira passar a ser conhecida como sendo do sexo oposto, não. É preciso falsear a história. Porque é disso que se trata. É um facto que naquele dia, naquele hospital, nasceu um indivíduo de um determinado sexo. Se hospital tivesse escrito na altura que tinha nascido um indivíduo do sexo oposto, isso seria mentira.

Mesmo que acreditássemos que uma cirurgia, tratamento hormonal, maquilhagem, um vestido e um processo burocrático pudessem transformar um homem numa mulher, isso não faria com que essa pessoa tivesse nascido mulher. Se tivesse nascido mulher, aliás, não seria preciso a cirurgia, as hormonas e o vestido. Mudar o assento de nascimento é, pura e simplesmente, uma mentira.

Artigo 9.º - 2 - As instituições públicas e privadas a quem estas notificações sejam apresentadas têm a obrigação de, a pedido do/a requerente e sem custos adicionais, emitir novos documentos e diplomas com o novo nome e sexo.

Que o BE queira envolver o Estado nesta fantasia, compreendemos. Mas não basta. As instituições privadas também têm de ser cooptadas. E de que documentos e diplomas estamos a falar? O Zé pode ir à sua paróquia pedir que lhe emitam uma certidão de baptismo a dizer que afinal quem foi baptizado ali, naquele dia, foi a Carolina? E se a instituição privada, ou o funcionário público já agora, recusar alinhar numa mentira? Qual é a pena?

Artigo 11.º - 4 - Ninguém pode ser discriminado, penalizado ou ver rejeitado o acesso a qualquer bem ou serviço em razão da identidade e/ou expressão de género 5 - Serão adotadas as medidas necessárias que permitam, em qualquer situação que implique o alojamento ou a utilização de instalações públicas destinadas a um determinado género, o acesso ao equipamento que corresponda ao género autodeterminado da pessoa.

Novamente o mesmo problema. De que é que estamos a falar? Se eu aparecer no ginásio com uma peruca a dizer que me chamo Tina são obrigados a deixar-me usar o balneário feminino? Mas evitemos a ridicularização… Se eu acreditar verdadeiramente que sou uma mulher, apesar de biologicamente ser um homem e o ginásio me deixar usar o balneário feminino, isso é tudo muito bonito, porque está a respeitar a minha dignidade, segundo o Bloco – este artigo chama-se mesmo “Tratamento digno” – mas… E o direito à privacidade das mulheres que de facto são mulheres e que estão no balneário ao mesmo tempo? Não conta?

Estou a ser rebuscado? Nos outros países onde este comboio já partiu a discussão é precisamente sobre casas de banho e balneários, incluindo em escolas. As escolas que forneceram casas de banho “neutras” para crianças “transgénero” são processadas. Não basta. É preciso deixar o Carlinhos usar a casa de banho das meninas e, no centro comercial, deixar o Zé usar a casa de banho das mulheres independentemente de lá estar a sua filha de seis anos.

Artigo 12.º - 2 - O Serviço Nacional de Saúde garante o acesso a intervenções cirúrgicas e/ou a tratamentos farmacológicos destinados a fazer corresponder o corpo com a identidade de género com o qual a pessoa se identifica, garantindo sempre o consentimento informado.

Portanto não basta usar dinheiro público para pagar abortos, agora os nossos hospitais servirão para financiar operações para mutilar corpos saudáveis e administrar fármacos para impedir o desenvolvimento natural dos sistemas reprodutores de pessoas saudáveis, entre outros.

Artigo 13.º Medidas contra o Generismo e a Transofobia

Todo este artigo é uma maravilha. Campanhas de sensibilização para funcionários públicos e para o público em geral para “desconstruir preconceitos” tão nocivos como a noção de que um homem é um homem e uma mulher é uma mulher. Vá lá que não falam em campos de reeducação…

É isto que nós temos amigos. Vai passar? Não sei. Mas ao menos não se deixem apanhar na curva. Muito mais há para escrever sobre este assunto, mas terá de ficar para artigos futuros.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Da leveza

Durante 20 anos trabalhei em fábricas, espaços que são mais, muito mais, do que zonas onde se transformam matérias-primas e se manufacturam produtos acabados, e onde se alinham maquinarias diversas segundo uma lógica qualquer. Uma fábrica, como já o disse aqui por várias vezes, é um micro-cosmos de vidas, uma sociedade em pequena escala com regras próprias e existências específicas. 

Na minha actividade de empregado fabril travei inúmeros contactos com pessoas ligadas ao marketing e às vendas. Detectava-lhes no olhar e nas conversas uma certa estranheza quanto aos nossos processos, à nossa forma de pensar, aos nosso ritmos e à nossa noção de tempos, prazos, gestão e eficácia. Presumi-lhes a diferença pelo facto de sermos engenheiros quase todos, com um jargão próprio e uma desatenção atávica às necessidades dos consumidores. 

O que nos diferenciava não era essa aparente ignorância do que a dona de casa queria no remanso do seu lar, ou uma certo jargão próprio, já que todos os misteres os têm, independentemente de serem multinacionais ou agremiações profissionais. O que nos separava era uma palavra simples: leveza

O mundo está todo feito para a leveza - não só dos equipamentos, cada vez mais pequenos e em materiais menos pesados, mas das vidas. A comida de fusão tem uma leveza semelhante à volatilidade das relações conjugais, porque uma conjugalidade duradoura tem a densidade de um regionalismo gastronómico. A felicidade dos tempos modernos é um desejo de leveza: descartável, utilitária, frívola, sem critério de compromisso nem desejo de perenidade. Os corpos são leves, não porque haja nisso saúde, mas porque queremos saltitar entre nenúfares. O futuro é pesado, só o presente é leve. 

Uma fábrica é, toda ela, pesada, por oposição ao seu contrário. Planeamentos, ordenação de maquinaria volumosa, cálculos de eficiências e encadeamento de acções para definição de caminhos críticos, gestão e classificação de  pessoal especializado ou indiferenciado, folhas de cálculo são o oposto da leveza com que o mundo quer viver hoje em dia. A deslocalização não é, portanto, a procura da redução de custos de mão de obra, mas o desejo de estar actualizado, estar à moda, ser ligeiro, efémero, sorridente. 

A diferença entre um engenheiro de fábrica e um profissional de marketing reside numa palavra apenas: leveza.

JdB     

domingo, 24 de setembro de 2017

25º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».

sábado, 23 de setembro de 2017

Pensamentos Impensados

Banca rompida
Falando com um amigo, disse-lhe: Ricardo Salgado é um lesado do BES mas ainda pode ter o banco dos suplentes.
Resposta rápida: e o banco dos réus.

Odores
Os desodorizantes terem cheiro é um contrassenso.

Desacordos
Pergunta: agora que a letra K faz parte do alfabeto português, conheces alguma palavra começada por K?
Resposta: conheço - capa.

Técnicas
As múmias não tinham corantes mas tinham conservantes.

Pronúncias
Inquérito de rua no Porto: sabe como se chama o presidente francês?
Resposta: Murcom.

Classificações
Madona é a rainha da pop e Trump o rei da popa.

Desporto
O atlo é uma espécie de triatlo mas só com uma disciplina.

Mitos
Segundos recentes investigações, Branca de Neve era preta, albina.
Os anões sabiam disso mas calaram-se, para não serem considerados racistas.

SdB (I)

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Admirável mundo novo

Ao contrário do que dizia o título do livro de Aldous Huxley, o mundo novo tem pouco de admirável: leio que na Islândia já quase não nascem crianças com síndrome de Down, porque as mães grávidas abortam logo que sabem o diagnóstico; a mudança de sexo para jovens com 16 anos está ao virar da esquina; um dia não se deixarão viver (é para isso que serve o aborto) as crianças que degenerem em gordos, ou os que tenham propensão para diabetes ou outras doenças crónicas. Depois não quereremos os muito altos, ou os muito baixos. Os gordos serão os primeiros a serem abatidos, porque há a estética, os custos para a saúde, etc. Depois havemos de poder escolher os loiros, ou morenos, ou uma família de gente de Angola, porque tem acesso ao dinheiro, só terá filhos ruivos, porque foram invadidos por um fetiche qualquer. 

O mundo novo não é admirável, de facto. Mas há bolsas, pequenas aldeias de gauleses que lutam contra os romanos que querem que rapazes e raparigas sejam iguais mesmo não sendo; que querem promover o aborto, mais do que já está, porque as mulheres são donas do seu corpo. Porque não gostam da obesidade que é prejudicial ao SNS... Os videos abaixo foram-me "apresentados" pela crónica da Laurinda Alves esta semana no Observador. Fala de duas raparigas que, filhas de outros pais e vivendo noutro país, não existiriam, porque não nasceriam. Mas tornaram-se naquilo que mostra o video.

Em cima, o original. em baixo, a adaptação para uma realidade portuguesa. O admirável mundo novo é isto.

JdB




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Quem Somos

Quem somos, senão o que imperfeitamente
sabemos de um passado de vultos
mal recortados na neblina opaca,
imprecisos rostos mentidos nas páginas
antigas de tomos cujas palavras

não são, de certo, as proferidas,
ou reproduzem sequer actos e gestos
cometidos. Ergue-se a lâmina:
metal e terra conhecem o sangue
em fronteiras e destinos pouco

a pouco corrigidos na memória
indecifrável das areias.
A lápide, que nomeia, não descreve
e a história que o historia,
eco vário e distorcido, é já

diversa e a si própria se entretece
na mortalha de conjecturados perfis.
Amanhã seremos outros. Por ora
nada somos senão o imperfeito
limbo da legenda que seremos.

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

***

O Livro Fechado

Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

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