domingo, 17 de dezembro de 2017

3º Domingo do Advento

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.
Veio como testemunha, para dar testemunho da luz,
a fim de que todos acreditassem por meio dele.
Ele não era a luz,
mas veio para dar testemunho da luz.
Foi este o testemunho de João,
quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém,
sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem:
«Quem és tu?»
Ele confessou a verdade e não negou;
ele confessou:
«Eu não sou o Messias».
Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?»
«Não sou», respondeu ele.
«És o Profeta?». Ele respondeu: «Não».
Disseram-lhe então: «Quem és tu?
Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram,
que dizes de ti mesmo?»
Ele declarou: «Eu sou a voz do que clama no deserto:
‘Endireitai o caminho do Senhor’,
como disse o profeta Isaías».
Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram:
«Então, porque baptizas,
se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?»
João respondeu-lhes:
«Eu baptizo em água,
mas no meio de vós está Alguém que não conheceis:
Aquele que vem depois de mim,
a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias».
Tudo isto se passou em Betânia, além Jordão,
onde João estava a baptizar.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Pensamentos Impensados

Mais vale cair em graça
Nunca percebi a celebridade e a profundidade da frase penso, logo existo. Acho uma frase banal. Se o importante é pensar, lembro que Átila, Gengis Khan, Hitler, Staline e muitos outros pensaram e, como resultado, milhões e milhões de pessoas deixaram de pensar. Proponho dois pensamentos:
- tenho comichões no umbigo, logo existo.
- fui chamado às Finanças, logo existo.

Dislexia governativa
Governo anuncia certas medidas e depois sacode a água do pacote.

Portugal na vanguarda
O Instituto do Mar e da Atmosfera estuda aviso cor de burro quando foge.

Doenças
A mulher do Pato Donald é psicopata.

Poéticas
Portugal, país à beira-mar pelintrado.

Grandes cabecinhas
Um treinador de futebol terá dito é preciso os pés bem assentes na terra.
Não acredito que assim se possam marcar golos.

Teque-nologias
Para mergulhar não precisava escafandro; respirava saúde.

SdB (I)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Canção da Saudade

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

***

Trevas

De dia não se via nada, mas p'la tardinha já se apercebia gente que vinha de punhaes na mão, devagar, silenciosamente, nascendo dos pinheiros e morrendo nelles. E os punhaes não brilhavam: eram luzes distantes, eram guias de lençoes de linho escorridos de hombros franzinos. E a briza que vinha dava gestos de azas vencidas aos lençoes de linho, azas brancas de garças caídas por faunos caçadores. E o vento segredava por entre os pinheiros os mêdos que nasciam.

E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descalça com pés de surdina por môr do barulho, de braços estendidos p'ra não topar com os troncos; e vinha vindo a noite céguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao vê-la esconderam os punhaes nos peitos vazios.

A lua é uma laranja d'oiro num prato azul do Egypto com perolas desirmanadas. E as silhuetas negras dos pinheiros embaloiçados na briza eram um bailado de estatuas de sonho em vitraes azues. Mãos ladras de sombra leváram a laranja, e o prato enlutou-se.

Por entre os pinheiros esgalgados, por entre os pinheiros entristecidos, havia gemidos da briza dos tumulos, havia surdinas de gritos distantes - e distantes os ouviam os pinheiros esgalgados, os pinheiros gigantes.

A briza fez-se gritos de pavões perseguidos. E as sombras em danças macabras fugiam fumo dos pinheiraes p'lo meu respirar.

Escondidas todas por detraz de todos os pinheiros, chocam-se nos ares os punhaes acêsos. Faz-se a fogueira e as bruxas em roda rezam a gritar ladainhas da Morte. Veem mais bruxas, trazem alfanges e um caixão. Doem-me os cabellos, fecham-se-me os olhos e quatro anjos levam-me a alma... Mas a cigarra em algazarra de alêm do monte vem dizer-me que tudo dorme em silencio na escuridão.

Veiu a manha e foi como de dia: não se via nada.

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Crónicas de um doutorando tardio

Frequento, no decurso do meu ano curricular para o doutoramento, um seminário intitulado "Seminário de Investigação I" com a seguinte descrição:

Este seminário será organizado a partir da discussão de exposições orais dos participantes. As exposições ocupar-se-ão, de uma forma preliminar, de tópicos que os participantes se proponham desenvolver nas suas dissertações. As discussões visarão a modificação desses tópicos. O objectivo final do seminário é a produção, por parte dos participantes, de um resumo escrito e pormenorizado, das suas futuras dissertações.

Comigo estão 11 alunos: 3 doutorandos, 8 mestrandos. Relativamente à minha experiência semelhante aquando do mestrado, tenho uma amostra maior. Há mais alunos, mais diversidade, mais possibilidade de perceber tendências, notas comuns, semelhanças. Com alguma experiência acumulada de quatro ou cinco anos (já não sei bem...) nestas andanças académicas, já dá para perceber bem em que sou igual e diferente dos meus colegas.

Ostensivamente, sou igual em algo muito simples: somos seres humanos, somos alunos, somos educados e respeitadores; temos regras de higiene básicas, e talvez tenhamos pontos de vista culturais, religiosos ou outros semelhantes. Não dá para ver. Ostensivamente sou diferente em tudo o resto: na idade, na formação académica, na agilidade mental, nos conhecimentos humanísticos. 

Ontem discorria sobre este tema, e sobre algum impasse que vou sentindo nesta fase da tese. Leio os trabalhos dos meus colegas; leio o meu próprio trabalho. Conclusão? Todos usamos a mesma língua, todos escrevemos no computador, todos respeitamos o número de páginas que nos é imposto para um determinado trabalho. Nada mais nos liga. A linguagem deles é mais hermética, o conhecimento específico deles é mais vasto, as ligações que estabelecem são muito diferentes. Sem querer parecer superior (muito pelo contrário!) é como se o mundo deles fosse a academia e o meu mundo fosse a rua. Eles relacionam Stanley Cavell e Aristóteles; eu relaciono uma parede nua e o desejo de ver a Deus. 

Sair da zona de conforto - como eu fiz quando me transferi de uma vida de fábrica para uma vida na faculdade de Letras - é ter a possibilidade de olhar com um certo distanciamento para mim próprio, como se me afastasse e, da cadeira da aula, visse quem eu era junto a uma máquina que produz detergentes. Fazer esse movimento é perceber uma limitação prática, inegável, incontrolável e irresolúvel: com 60 anos não poderei fazer o que eles fazem; como 60 anos eles poderão fazer o que eu faço. Entre mim e eles há 35 anos de fosso. Tudo o que sabem foi aprendido na faculdade de letras; tudo o que eu sei foi aprendido noutros sítios. Isto não significa nada de especial, apenas que me apetece dizer-lhes: olhem à volta; daqui por três décadas poderão relacionar Stanley Cavell com Aristóteles mas também uma parede nua e o desejo de ver a Deus. Que inveja!

Entre mim e eles só a zoologia nos impede de haver um conjunto intersecção vazio. E no entanto, sei que alguns deles olharão para mim e invejarão uma certa clareza e limpidez de raciocínio: a utilização de palavras correntes, de imagens correntes, de metáforas correntes, de temas correntes. A (minha) ignorância pode ser uma bênção...

JdB  

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Artigos dos dias que correm

Documentário: “A ilha dos monges”

Intitulado originalmente “O regresso dos monges a Schiermonnikoog”, este documentário realizado para a televisão holandesa por Anne Christine Girardot aborda, em perspetiva testemunhal, o dinamismo de uma Igreja em saída.

A ideia do filme surgiu de um anúncio: os religiosos do mosteiro de Sion, nos Países Baixos, puseram à venda o seu mosteiro. O grande edifício, que noutros tempos tinha albergado 150 monges, estava agora ocupado por uma comunidade de oito trapenses de observância estrita.

A cineasta interessou-se pelas circunstâncias dos monges, incapazes de manter a estrutura do grande mosteiro, partindo daí para filmar a clausura monástica na sua nova peregrinação.

Em vez de esperar pela morte do último religioso, os trapistas quiseram aprofundar a sua relação com Deus desde as origens da comunidade, e nesse sentido propuseram-se voltar à “ilha dos monges cinzentos”.

Schiermonnikoog é a ilha mais pequena da Holanda. Com um comprimento de 16 km e largura de quatro, recebe o seu nome da comunidade de monges cistercienses que foi proprietária do enclave.

Esta Igreja em saída exigiu para os monges desacomodarem-se do seu velho mosteiro e regressarem à vida “normal”, ainda que transitoriamente, para preparar a construção do novo pequeno edifício.

O processo é acompanhado pela câmara, diante da qual os religiosos partilham as suas motivações profundas. Que sentido tem ser monge no século XXI? O que se faz num mosteiro?

A nova etapa requereu uma mudança importante nas suas vidas, sair do silêncio para voltar ao ruído, comprar no supermercado em vez de viver do que a terra dá, entrar no autocarro em vez de caminhar pausadamente.

Esta “transumância”, contudo, estabeleceu uma nova etapa espiritual, na qual voltar às raízes supõe uma provocação para as novas gerações.

«Aquando do seu testemunho, um dos monges diz explicitamente: “Não temos nenhuma utilidade, a nossa única razão de existir é ser presença de Deus no mundo”. Parece-me um contraste precioso com o nosso mundo de consumo, em que medimos e comparamos tudo, desde os “likes” no Facebook até quanto ganhas no trabalho», declarou Anne Christine Girardot.

Uma das metáforas mais utilizadas no documentário é a do farol: «É uma construção que está quieta e erguida, mantém-se firme com o passar dos anos a produz luz para orientar quem queira olhar para ele. É o mesmo que fazem os monges: o mundo muda, mas eles permanecem, para que quem se cruze com eles experimente algo da luz e do amor de Deus».

A realizadora recorda o encontro com a comunidade, depois de muito tempo à espera de uma resposta à sua proposta para acompanhar o processo: «Foi um processo longo, de muitos meses».

«Alguns abriram o coração antes que outros, creio que lhes agradava que alguém do exterior se interessasse pelas suas histórias pessoais. Outros tardaram mais, precisaram de mais tempo para me deixar entrar na sua intimidade, mas no final conseguimos que nos dessem a sua confiança. Essa é a base de um documentário autêntico», sublinha.

Um dos testemunhos que mais sensibilizou Anne Christine Girardot foi o do ex-“punk”, por ser alguém «à procura»: «Uma pessoa sem nada a ver com Deus nem a religião – pensava que a fé era para os fracos –, mas que se sentia incapaz de amar os outros e a si mesmo. E agora é o mais místico de todos. Ele conta que o coração do que significa ser monge é deixar-se levar por Deus, contemplá-lo, e emociona-se».

«Temos a ideia preconcebida de que os monges, pelo simples facto de o serem, já são santos e perfeitos, e não é assim. São pessoas normais, como tu e eu, que embarcaram numa aventura apaixonante com Deus, mas continuam a ter as suas quedas e falhas, dúvidas e emoções. Ver a humanidade que há em cada um deles parece-me, também, do mais bonito no filme», aponta.

Após a exibição do filme na Holanda, não foram poucos os espetadores que se dirigiram a Christine Girardot para lhe dizer: «Não sou crente e não entendo o modo de vida destes monges, mas entendo as suas emoções e a sua procura».

Formada na Colômbia e EUA, a cineasta, que tem uma tia carmelita, é detentora de um longo percurso na produção de programas televisivos e entrevistas. A par da vida familiar – tem quatro filhos – vive a fé acompanhando, voluntariamente, doentes terminais.

Com este documentário, a realizadora francesa quis revelar uma história de coragem espiritual, de desafio comunitário e de proposta alternativa num mundo que se esvazia de fé. A vida destes monges e a intenção da cineasta constituem o testemunho de uma Igreja em saída.



P. Peio Sánchez, Guillermo Altarriba
Fontes: "Periodista Digital", "Cinemanet"
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 11.12.2017

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Duas Últimas

Há em mim, com um agrado que pode ser pernicioso, uma dimensão de engenheiro de fábrica, preocupado com eficiências, produtividades, agilização de processos, ausência de paragens desnecessárias. Vou a uma repartição, a um self-service, a um serviço e tento perceber qual é o bottleneck, o que encrava o processo ou dificulta a agilização. O pensamento não serve para nada, a não ser para passar o tempo, porque ninguém quer saber da minha opinião.

Ontem fui aos Correios de Alcabideche levantar uma encomenda - no caso vertente um livro. Tirei a senha nº 66. O indicador marcava o 41, o que significava que tinha 25 pessoas à minha frente...

Os Correios, estou em crer, são o serviço mais ineficiente de Portugal. O ritmo é lento, a burocracia grande, a desmotivação deve campear, os processos não são estudados. Queremos uma carta registada com aviso de recepção e preenchemos dois papéis, penso que com muitas informações em comum - um processo que pode demorar quase dez minutos, entre pesagem, carimbo, verificação das informações, etc. 

Chegada a minha hora entreguei a senha, o aviso dos Correios e o cartão de cidadão. A funcionária levantou-se e dirigiu-se a um tabuleiro onde procurou na divisória que tinha cartas. Como estava atento, disse-lhe que era um livro. Ah, obrigada... Se eu não estivesse atento teria voltado atrás para conformar comigo o nome, o posto de correios, o remetente, etc. 

Recebi o livro: Elementos de Retórica Literária. O título é auspicioso, talvez o conteúdo seja tão ligeiro como 40 minutos de espera no posto de Correios de Alcabideche...

Deixo-vos com o tópico cartas de amor. Escrevam-nas, mas não mandem em correio registado com aviso de recepção, a menos que tenham tempo disponível...

JdB

  

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Textos dos dias que correm

Algures no Minho (Setembro de 2014)


Ódio e amor

«O ódio é um licor precioso, um veneno mais caro do que o dos Bórgia. Porque é feito com o nosso sangue, a nossa saúde, o nosso sono e dois terços do nosso amor.»

Na fantasia popular os Bórgia, família nobre espanhola estabelecida em Roma quando um dos seus membros, Afonso, se torna o papa Calisto III (1455-58), tornaram-se o emblema da crueldade desenfreada (Cesare Bórgia), da corrupção (papa Alexandre VI), do vício (Lucrécia Bórgia), possivelmente com algum excesso de fantasia.

Ao seu veneno faz referência o poeta francês do séc. XIX Chardes Baudelaire com esta definição de ódio, presente no seu escrito sobre a Arte Romântica. Nas suas palavras, deveras acesas, há uma verdade em que devemos meditar.

Quando o ódio faz caminho em nós – e devemos reconhecer que todos temos no nosso coração uma gota desse veneno –, é qualquer coisa de nós que é absorvido. É a nossa saúde, o sono, a vitalidade que não envolvidos e não se tem paz.

Mas há um aspeto que habitualmente não se considera. Baudelaire diz que o ódio é feito de «dois terços do nosso amor». E isto está demonstrado, porque muitas vezes o ódio é uma forma perversa para exprimir um amor desiludido, tanto é que se cunhou o dito que «quem odeia, ama».

O ódio pode ser uma degeneração do amor e é por isso que devemos sempre controlar as nossas paixões, sentimentos, emoções, para que não nos enlouqueçam e arrastem para um remoinho do qual é difícil emergir para rever o céu e a paz.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 09.12.2017

domingo, 10 de dezembro de 2017

2º Domingo do Advento

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. 
Está escrito no profeta Isaías:
«Vou enviar à tua frente o meu mensageiro,
que preparará o teu caminho.
Uma voz clama no deserto:
‘Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas’».
Apareceu João Baptista no deserto
a proclamar um baptismo de penitência
para remissão dos pecados.
Acorria a ele toda a gente da região da Judeia
e todos os habitantes de Jerusalém
e eram baptizados por ele no rio Jordão,
confessando os seus pecados.
João vestia-se de pêlos de camelo,
com um cinto de cabedal em volta dos rins,
e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
E, na sua pregação, dizia:
«Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu,
diante do qual eu não sou digno de me inclinar
para desatar as correias das suas sandálias.
Eu baptizo-vos na água,
mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».

sábado, 9 de dezembro de 2017

Pensamentos Impensados

Pai de filhos incógnitos
Não gosto do Pai Natal, não preciso do Pai Natal; gosto do Menino Jesus, preciso do Menino Jesus.
Se é pai, quem é a mulher e os filhos?
O Pai Natal deve ser filho duma rena e de uma garrafa de Coca-cola.
Viva o Menino Jesus, abaixo o Pai Natal.

Benesses
Tenho um bem que me irá acompanhar até à morte: a vida.

Aparências
Marcelo não aparece na televisão pelo primeiro dia consecutivo.

Ordinarices
Acidente provoca um morto; morto não rege à provocação.

Cultura
Jorge Jesus é poliglota: disse Champions, sabe inglês; disse  Olimpiakos, sabe grego; disse Barça, sabe catalão; disse Juventus, sabe latim e italiano.
Irra!, que nem na Torre de Babel...

Falhas
Antes ser absurdo que abcego.

Toponímias
Quando foi expulso do Paraíso, Adão foi viver para um terriola que mais tarde viria a chamar-se Massamá que é uma corruptela de maçã má.

Notícia da moda
Não há ninguém que não tenha assediado ou sido assediado; sinto-me humilhado por nunca ter sido assediado, se calhar não valia um tostão furado.

SdB (I)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

EVANGELHO Lc 1, 26-38 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 

Naquele tempo, 
o Anjo Gabriel foi enviado por Deus 
a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 
a uma Virgem desposada com um homem chamado José, 
que era descendente de David. 
O nome da Virgem era Maria. 
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: 
«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 
Ela ficou perturbada com estas palavras 
e pensava que saudação seria aquela. 
Disse-lhe o Anjo: 
«Não temas, Maria, 
porque encontraste graça diante de Deus. 
Conceberás e darás à luz um Filho, 
a quem porás o nome de Jesus. 
Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. 
O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; 
reinará eternamente sobre a casa de Jacob 
e o seu reinado não terá fim». 
Maria disse ao Anjo: 
«Como será isto, se eu não conheço homem?». 
O Anjo respondeu-lhe: 
«O Espírito Santo virá sobre ti 
e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. 
Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 
E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice 
e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; 
porque a Deus nada é impossível». 
Maria disse então: 
«Eis a escrava do Senhor; 
faça-se em mim segundo a tua palavra». 


Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.


E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.


Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.


Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Duas Últimas

A música que hoje aqui trago, "Não sou o único", é conhecida de sobejo e acompanha-me há muito. A autoria é dos Xutos & Pontapés, mas prefiro esta versão ao vivo, dos Resistência, contando no caso com o precioso contributo do guitarrista Pedro Jóia.

Tanto quanto sei, a letra é de Zé Pedro, guitarrista dos Xutos recentemente desaparecido.

Vi, sem espanto, as grandes manifestações de pesar pela sua morte. Desde as enormes filas nos Jerónimos, às presenças assíduas e generosas nos elogios do PR e do PM, passando pela enorme quantidade de pessoas que apareceram a "botar sentença" e pela histeria recorrente da comunicação social, tudo me pareceu mais uma vez bastante exagerado.

Sem espanto, porque é assim que os acontecimentos são tratados hoje em dia. Sejam eles sociais, políticos, religiosos ou de qualquer outra índole. O pensamento único/unanimismo e o bombardeamento da opinião pública imperam, saiba-se pouco ou muito (raramente) acerca do assunto em causa.

É o que digo aos meus filhos: leiam, instruam-se, para que possam formar opiniões próprias, tanto quanto possível livres e fundamentadas.

De Zé Pedro guardo a imagem de pessoa simpática e comunicativa, dedicada aos outros, dos seus solos de guitarra que ouvia com prazer. E não é para mim indiferente que fosse pessoa exactamente da minha idade, um entre muitos (penso que oito) irmãos, casado com uma senhora que conheci vagamente de outras guerras, digamos que "empresariais".

Relembrem e apreciem a música.

fq


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Óbito


"Un jour je m'en irai sans avoir tout dit."

Informado pelo meu querido e francófono amigo ATM, soube da morte de Jean d'Ormesson. O escritor, que tinha 92 anos, era autor de dezenas de obras, membro da Academia Francesa, e presidira ao Conselho International de Filosofia e Ciências Humanas da UNESCO. Para o Presidente francês, Emmanuel Macron, “era o melhor do espírito francês, uma mistura única de inteligência, elegância e malícia, um príncipe das letras sabendo nunca se levar a sério.

Não sou suficientemente fluente em francês para o ter lido na língua original. Na altura em que soube da sua existência, os meus interesses literários não passavam por aí. Talvez o venha a ler um dia destes, infelizmente em português, que para mais não chego... Na minha memória fica Au Plaisir de Dieu, um livro dele, de 1974 que ofereci à minha mãe.


Leio, no link que me enviou o ATM, elogios de vários quadrantes. Talvez fixe este, publicado no Libération: Jean d'Ormesson era “o rosto mais radioso da direita burguesa e culta”.

JdB

Vai um gin do Peter’s?

DESCOBERTA DE TELA MÍTICA DE LEONARDO (1452-1519)

O génio do Renascimento, considerado por muitos o maior pintor de todos os tempos, distinguiu-se igualmente noutros ofícios e engenhos. Leonardo foi também cientista, matemático, engenheiro (percursor da aviação e da balística), botânico, anatomista, arquitecto (perito em construções militares), escultor, poeta e músico. São assinaláveis os seus contributos para a anatomia humana ou para o conhecimento da óptica e da hidrodinâmica.

Auto-retrato (1510-1515) de um idoso de olhar profundo e respeitável, que lembra a figura ímpar de Gandalf da saga do «Senhor dos Anéis», transposta para o cinema através da trilogia do realizador neo-zelandês  Peter Jackson.

Atribui-se às suas experimentações arriscadas com os materiais usados, o facto de apenas dezena e meia de pinturas terem sobrevivido até aos nossos dias, onde se destacam a celebérrima «Mona Lisa» (Louvre) e o fresco da «Última Ceia» (Milão). Isto descontando os múltiplos esquisses e diagramas registados nos cadernos de anotação das considerações científicas e artísticas, a par dos descritivos sobre inventos extraordinários como s protótipos do helicóptero e do tanque de guerra, a máquina calculadora, o casco duplo nas embarcações, o recurso à energia solar, uma abordagem preliminar ao estudo das placas tectónicas, etc.

Leonardo nasceu em Anchiano na comuna toscana de Vinci, situada na província de Florença. Duas figuras marcaram a sua juventude: o mestre Andrea del Verrocchio e o nobre florentino mais poderoso e influente da cidade – Lorenzo de Medici. Conta-se – com possível exagero – que Verrocchio teria desistido de pintar depois de se deparar com a excelência do anjo feito por Leonardo no quadro composto em mano-a-mano «O Bapistmo de Cristo»: 

Da dupla Verrocchio e Leonardo (responsável pelo o anjo mais à esquerda que segura a túnica de Cristo e por retoques vários na figura de Cristo e nas rochas em redor, aplicando a nova técnica de pintura a óleo, já dominada pelo jovem prodígio), 1472–1475, Galleria degli Uffizi.

Os seus trabalhos eram assinados com o primeiro nome ou, mais enfaticamente, com: «Io Leonardo» (Eu, Leonardo), omitindo quaisquer apelidos, talvez pela condição de filho ilegítimo de um notário e de uma camponesa, embora não seja certo, pois passou a adolescência na casa paterna onde o pai lhe providenciou uma formação exemplar. Aos 17 anos, lançou-se na vida profissional como aprendiz do atelier de Verrochio. 

Outro dos seus atributos era a beleza física e a sofisticação de modos, sendo muito apreciado em tertúlias e serões sociais. Pensa-se que terá servido de modelo ao David esculpido por Verrocchio em bronze, ou à figura do Arcanjo na pintura «Tobias e o Anjo». 

Vivia-se, em Itália, uma época de ouro, fruto da junção de três génios do calibre de Leonardo, Michelangelo e Rafael, predilectos dos melhores mecenas, onde se incluía o próprio Papa e inúmeros eclesiásticos, para além dos nobres e da alta burguesia. Compreensivelmente, correspondeu também a um período glorioso da arte sacra.

É neste contexto que, em 1499-1500, Leonardo pintou um magnífico Cristo ressuscitado, envergando as vestes do azul que é apanágio do sagrado. Adoptou o melhor estilo dos ícones, em posição frontal e representado em meia figura, para imortalizar a invocação «Salvador do Mundo», identificável no gesto da bênção com a mão direita erguida e os dois dedos cruzados, além do globo terrestre em cristal sustentado pela mão do lado do coração. É impressionante o efeito portentoso da transparência da orbe que evoca, em simultâneo, a pureza da esfera celeste e a grandeza do planeta, aqui mostrado de forma muito metafórica numa limpidez cristalina capaz de reproduzir, rigorosamente, as duas principais componentes planetárias: a crosta terrestre simbolizada no tom rosa da carne do próprio Salvador, e a imensidão dos oceanos que toma a cor do manto do Senhor do Cosmos, na tonalidade também partilhada com o céu. Até o brilho iridescente das estrelas está bem presente através das ínfimas e incontáveis bolhas de ar que se concentram na zona onde transparece a mão que salva. Merece um zoom:    

O reflexo de luz nos pontículos de ar do cristal, segurado com firmeza e suavidade, parece querer trazer para a zona que simbolizaria a terra a beleza única das noites estreladas

A história atribulada da tela começa pela surpreendente reatribuição da autoria do quadro, quando foi a restaurar às oficinas da National Gallery (NG), na primeira década do século XXI. Qual não foi o baque ao revelar-se, numa segunda camada encoberta pela pintura visível, um traço incrivelmente fino e sofisticado. De tal modo exímio que o nome de Leonardo começou a impor-se. Para a prova dos nove, os restauradores foram buscar a tela de artista de Vinci pertencente à Galeria – «A Virgem dos Rochedos»  – comparando os pigmentos e demais características técnicas. Seguiram-se as consultas a inúmeros peritos de todo o mundo, até se chegar ao consenso sobre a autoria. Redescobria-se, assim, uma nova obra-prima do génio renascentista. Em 2011, a NG dedicou-lhe uma exposição, que foi a sua estreia absoluta ao grande público. 

Transcreve-se a cronologia bem condensada pelo Expresso(1) com os momentos-chave do percurso atribulado da tela, que é um mistério ter resistido a tanta aventura. Talvez o facto de ter viajado pelos séculos praticamente incógnita, tenha ajudado:  
         
«1500 - A encomenda
Luís XII de França celebra a conquista de Milão e encomenda a Leonardo Da Vinci a imagem de Cristo com a bola de cristal na mão, então muito em voga. Nasce a obra “Salvator Mundi”.
          
1625 - O dote
Henrietta Maria de França casa-se com Carlos I de Inglaterra — conhecido pelo seu amor às artes — e leva como dote, entre outras coisas, a célebre pintura.
         
1649 - A doação
Durante a guerra civil inglesa, a peça de arte é entregue ao capitão John Stone, por ordem de Oliver Cromwell, juntamente com toda a coleção de Carlos I, que se dispersa.
         
1660 - O regresso
A pintura de Leonardo Da Vinci regressa à corte inglesa, mas depressa é oferecida ao duque de Buckingham, cujos descendentes decidem vendê-la.
          
1763 - A venda
Em fevereiro, a obra, então intitulada “Head of Our Savior”, é vendida a Sir Charles Robinson, mas acaba por desaparecer entre restauros e repinturas.

1900 - A reatribuição
A obra de arte reaparece, mas é agora atribuída a um discípulo de Leonardo Da Vinci, Bernardino Luino, e vendida a Francis Cook. Em leilão na Sotheby’s, em 1958, é vendida de novo, por 45 libras, e é atribuída a outro aluno do mestre, Giovanni Antonio Boltraffio.
       
2013 - A exposição
Depois de ter sido exposta na National Gallery, em Londres, a obra “Salvator Mundi” é vendida por mais de 127 milhões de dólares ao milionário russo Dmitry Rybolovlev.
        
2017 - O leilão
Depois de passear pelo mundo durante o ano, a obra chega a Nova Iorque para ser leiloada pela Christie’s esta quarta-feira. Está avaliada em 100 milhões de dólares.»

O melhor fica para o fim, mostrando por inteiro a magna obra assinada pelo grande Mestre do Renascimento que, séculos depois, voltou a maravilhar o mundo. Claro que protagonizou o maior recorde de pintura leiloada alguma vez registado, apesar de haver peças de peso no mesmo leilão da Christie’s, como obras de Andy Warhol, entre outras. Em apenas 19 minutos, consumou-se a transacção histórica decorrida a 15 de Novembro, no Centro Rockefeller de Nova Iorque, na presença de mil participantes e de vários outros milhares em ligação directa com o coração de Manhattan, a partir de pontos distantes do planeta. Dir-se-ia que esta participação interplanetária terá cumprido o desejo do ícone de Leonardo, confirmando que num globo tão perfeito cabe toda a Humanidade:   

Medidas do quadro: 66x46 cm, comprado por fundos de pensões associados a museus e colecções de arte

Tem qualquer coisa de presente de Natal antecipado coincidir, nesta quadra, a estrondosa notícia urbi et orbi sobre a redescoberta da mítica tela e a sua aquisição por fundos ligados a museus. Numa altura em que o mundo navega por águas incertas e perigosas, um Salvador vem a calhar. E este – diferentemente do pobre Bebé nascido nas franjas do Império Romano – não é difícil de reconhecer, graças à genialidade de Leonardo. É giro provir de um artista tão talentoso e sobejamente reconhecido por esta geração, um presente que contagiou o mundo como um rastilho! Que outra boa surpresa poderia impactar por todo o planeta como o «Salvator Mundi» do final do século XV ?
    
Maria Zarco
 (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta) 
_____________
(1) Artigo assinado por Alexandra Carita e publicado na parte da revista do semanário de 11 de Novembro. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Não Trago Recordações

Não trago recordações.
Escolheria as que não interessam a ninguém.
Como se erguesse contra mim o tiro de uma arma
ou acabasse de ler as disposições da comuna
sobre as mulheres.
Precisamos um do outro
esta noite

ferido por uma bala.

Os dois os três dias que se vão seguir.
Os envelopes foram destruídos.
As coisas
as cartas

o tempo é sempre magnífico.
Terra povoada de gente
mil e uma coisas que fazem uma arma
soltar o corpo
para o corpo de outro corpo.

As frases começadas
hei-de um dia os mundos desta vida.

João Miguel Fernandes Jorge, in "Meridional"

***

Um Amor

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice, in "A Partilha dos Mitos"

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Do quotidiano

Formava-se a primeira comunidade de seres humanos na Terra. Só algum tempo depois, já esta comunidade dominava o vocabulário, a construção das frases e a técnica do neologismo, é que surgiu a palavra quotidiano. Até então as actividades eram ocasionais, avulsas, impulsivas: a caça, o cumprimento das necessidades fisiológicas ou a satisfação das pulsões sexuais, a atenção ao céu como lugar geométrico de todos os mistérios. Só algum tempo depois, repete-se, é que o avulso se tornou em quotidiano, e se definiram momentos certos e regulares para as coisas. 

Há actividades quotidianas que nos acompanham desde o homem das cavernas, ou desde os homens que começaram por dar sons identificadores às coisas, sons esses que redundaram em palavras que, alinhadas, formaram um todo inteligível que permitiu a comunicação, a troca comercial, o primórdio do afecto. Com o tempo, e com aquilo que pensamos ser a evolução da espécie, o quotidiano foi-se alterando: já não caçamos, mas mantemos o desejo sexual; temos mais hábitos de higiene, mas o céu pode ser apenas, e só, a folha de papel onde plasmamos mistérios: projecções matemáticas, tendências probabilísticas, caracterização das núvens.

***

A tecnologia relativamente barata e ao alcance de um dedo gerou milhões infindos de fotografias nos últimos 20 ou 30 anos. Fotografaram-se as crianças na praia, no banho, na primeira festa, no primeiro jogo de futebol; fotografou-se a namorada, o primo, o almoço de sardinhas assadas numa mesa gordurosa, o desafio do Sporting, a festa de Carnaval, ou ainda Chicago, esse espectáculo de amor e traição que alguns colégios fantasiaram pelo Natal; fotografou-se uma fralda cheia de cocó que se mandou à mãe de férias, a boca suja da primeira sopa de legumes, a viagem de comboio pela Europa com aromas de suor, má comida e desejos de jovem adulto; fotografou-se o grupo de amigos bêbedos, as amigas com ar provocante, as roupas práticas e ligeiras que mataram uma certa elegância feminina. Por último, cada um fotografou-se a si próprio: num grupo a rir, mascarado de fantasia, com adornos de photoshop, em frente de uma cascata tropical, de uma igreja rococó ou de um prato pejado de calorias e triglicéridos. Tudo se fotografou, ninguém deixou de ser fotografado. Milhões e milhões de fotografias sem direito ao esquecimento a circular no éter, a revelar um quotidiano moderno, semi-líquido, volátil, prático, existente.      

Por motivos que não vêm ao caso, andei de roda de fotografias relativamente antigas, com 50 ou 60 anos, talvez - muitas antes ainda de eu existir. São de uma época em que a tecnologia se revestia de uma máquina cara, usada em momentos específicos, porque o resto não interessava ser fotografado - havia o custo da fotografia, mas havia, também, uma certa sensação resguardada das coisas.

Imaginemos que o tempo passado só poderia ser decifrado por meio de escritos e de imagens da época e que, munido desses artefactos, decifrávamos um estilo de vida. Olho para aquelas fotografias que fui retirando avulsas de uma caixa e o que encontro? Elegância, cuidado, pouco improviso; mas também encontro uma certa gravitas, uma adultez precoce face aos nossos tempos. Não são fotografias do quotidiano, mas fotografias de festas, de jantares, de comemorações, de encontros. São fotografias que permitem recordar uma certa estética, mais do que uma certa realidade.  

Entre o quotidiano do homem das cavernas e o quotidiano do século XX a diferença está, essencialmente, no pudor. Mantêm-se os desejos, as pulsões, as necessidades de sustento, o céu como interrogação, o projecto de amor. Mudou a forma e, nalguns casos, o espaço desse mesmo quotidiano. O que mudou para o século XXI? A tecnologia que permite revelar tudo, a vontade humana que pretende mostrar tudo. As fotografias que eu vi não eliminavam a existência do quotidiano - o bebé de boca suja, o cocó na fralda, a sardinhada gordurosa, o desejo carnal, a informalidade de uma noite mais excessiva. As fotografias que eu vi revelavam, acima de tudo, a importância das coisas, não a existência das coisas.  

JdB  

domingo, 3 de dezembro de 2017

1º Domingo do Advento

EVANGELHO – Mc 13,33-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
“Acautelai-vos e vigiai,
porque não sabeis quando chegará o momento.
Será como um homem que partiu de viagem:
ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos,
atribuindo a cada um a sua tarefa,
e mandou ao porteiro que vigiasse.
Vigiai, portanto,
visto que não sabeis quando virá o dono da casa:
se à tarde, se à meia-noite,
se ao cantar do galo, se de manhãzinha;
não se dê o caso que, vindo inesperadamente,
vos encontre a dormir.
O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!”

sábado, 2 de dezembro de 2017

Pensamentos Impensados

Novas doenças
- Senhor doutor, parece-me que tenho um A B C...
- Engoliu um Abecedário?
- Não, senhor doutor, aquilo que é um acidente bascular não sei quê.
- Onde é que o senhor nasceu?
- Em "Biseu"
- Compreendo, confere.

Tecnologias
Os ratos paridos pelas montanhas servem para o computador?

Adeuses
Tirar a terra dos sapatos é dizer adeus aos bens terrenos.

Nudezes
Os nudistas não descendem de Adão e Eva pois não têm necessidade de usar roupa.

Pu-emas
Gosto muito do poema de Pedro Homem de Mello sobre o rapaz de camisola verde, principalmente quando diz: na minha frente estava um cão danado ou nêga, me deixa ao vento.

Festejos
Aquelas lâmpadas que enfeitam as árvores de Natal e que acendem e apagam deviam chamar-se pirilâmpadas.

Pré-greves
Polícia Marítima e varredores camarários ameaçam sair à rua.

Crematório
Tabaco mata milhares de pessoas, e a maioria são fumadores.

SdB (I)

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Símbolos para o dia de hoje

Hino (original) da Restauração * 

Lusitanos, é chegado
O dia da redempção
Caem do pulso as algemas
Ressurge livre a nação

O Deus de Affonso, em Ourique
Dos livres nos deu a lei:
Nossos braços a sustentem
Pela pátria, pelo rei

Às armas, às armas
O ferro empunhar;
A pátria nos chama
Convida a lidar.

Excelsa Casa, Bragança
Remiu captiva nação;
Pois nos trouxe a liberdade
Devemos-lhe o coração.

Bragança diz hoje ao povo:
“Sempre, sempre te amarei”
O povo diz a Bragança
“Sempre fiel te serei”

Às armas, às armas
etc, etc…

Esta c’roa portugueza
Que por Deus te foi doada
Foi por mão de valerosos
De mil jóias engastada.
Este sceptro que hoje empunhas,
É do mundo respeitado,
Porque em ambos hemisférios
Tem mil povos dominado!

Às armas, às armas
etc, etc…

Nunca pode ser subjeita
Esta nação valerosa,
Que do Tejo até ao Ganges
Tem a história tão famosa.

Ama-a pois, qual o merece;
Ama-a, sim, nosso bom rei
Dos inimigos a defende,
Escuda-a na paz, e lei.

Às armas, às armas
etc, etc…

Ai! Se houver quem já se atreva
Contra os lusos a tentar,
O valor de um povo heróico
Hade os ímpios debellar.

Viva a Pátria, a liberdade,
Viva o regime da lei,
A família real viva,
Viva, viva o nosso rei.

Às armas, às armas
etc, etc…

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Itália, Maio de 2011


Um Ofício que Fosse de Intensidade e Calma

Um ofício que fosse de intensidade e calma
e de um fulgor feliz E que durasse
com a densidade ardente e contemporâneo
de quem está no elemento aceso e é a estatura
da água num corpo de alegria E que fosse   fundo
o fervor de ser a metamorfose da matéria
que já não se separa da incessante busca
que se identifica com a concavidade originária
que nos faz andar e estar de pé
expostos sempre à única face do mundo
Que a palavra fosse sempre a travessia
de um espaço em que ela própria fosse aérea
do outro lado de nós e do outro lado de cá
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser
e já sem distância e não-distância nada a separasse
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

***

Fábrica

Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto liso e frio dos metais,
a segura confiança

do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:

é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;

como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.

Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;

as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.

Joaquim Namorado, in 'Antologia Poética'

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Encontros dos dias que correm

Pedido de divulgação encontrado aqui

Duas Últimas

Sou de uma geração em que um gin tónico era um gin tónico: copo alto, Gordon's, uma rodela de limão, gelo, água tónica até acima. O pico da evolução foi quando alguém espremeu um pouco de limão no copo. Para mim, o gin tónico, bebida corriqueira mas inacessível aos bolsos médios, havia atingido um patamar diferente - havia um toque de sofisticação, de quântica, de química do palato. 

O gin tónico tornou-se, não numa bebida, mas num ritual. Fui a um casamento em que havia bicha para um bar que só fazia essas bebidas (este tipo de bar tem um nome, mas esqueci-me). A bebida era demasiadamente evoluída para poder ser trazida por vulgares empregados de libré branco e bandeja de alumínio. Fazê-lo era pouco diferente de levar a imagem de Nossa Senhora de Fátima na mala de um Anglia Fascinante. Num casamento anterior, um amigo indignou-se de forma menos educada quando viu a água tónica que lhe vertiam sobre o gin (Schweppes): vocês só têm esta água tónica?

Beber gin é um ritual vedado a gente não iniciada. Só alguns poucos percebem a importância das bagas de junípero (Juniperus communis) ou das cascas de pepino, ou a importância, ao nível da mecânica dos fluidos, de um líquido que não cai em cachão em cima do gelo, do limão e do gin, mas rodopia numa colher com pega em espiral. Não sei para que serve a cenoura. Mas também não sei para que serve uma barba hirsuta que (não) pega com uma calvície forçada.

Não conhecia a banda sonora. O Shazam diz-me que são os Blackmale Beats, cantando Intro to the Endz. Como não conheço nada, pode acontecer que o nome da banda seja, afinal, o nome da música.

É isto, no fundo. 

JdB



terça-feira, 28 de novembro de 2017

Textos dos dias que correm

Às portas do Paraíso

«Um homem bate à porta do Paraíso. “Quem és?”, perguntaram-lhe do interior. “Sou um judeu”, responde. A porta permanece fechada. Bate de novo e diz: “Sou um cristão”. Mas a porta continua fechada. O homem bate pela terceira vez e é-lhe de novo inquirido: “Quem és?”. “Sou um muçulmano”. Mas a porta não se abre. Bate uma outra vez. “Quem és?”, perguntam-lhe. “Sou uma alma pura”, responde. E a porta escancara-se.»

Místico e poeta muçulmano, Mansur al-Hallaj (852-922) foi primeiro crucificado e depois decapitado, deixando atrás de si uma extraordinária herança de fé e amor. Dos seus escritos extraímos esta parábola sugestiva. A verdadeira pertença religiosa não se mede – como sublinhavam os profetas bíblicos – pela adesão exterior, pelos atos de culto, pela ostentação, mas pela fidelidade íntima, pela pureza da alma, pelo amor operativo. É esta escolha de vida que escancara as portas do Reino dos Céus. Mas queremos agora juntar outra testemunha muçulmana (também para mostrar um rosto diferente do islão relativamente ao fundamentalista).

O místico Rumi (1207-1273), fundador dos dervixes rodopiantes, dizia: «A verdade é um espelho que, ao cair, se parte. Cada um toma-lhe uma parte e, vendo refletida a própria imagem, acredita que possui toda a verdade». O mistério glorioso da verdade precede-nos: devemos depor toda a arrogância ideológica e espiritual e escutar também o outro com a sua bagagem de verdade por ele descoberta. É certo que isto não significa que todas as ideias e crenças sejam automaticamente fragmentos de verdade, sendo possíveis as miragens, as ilusões, as cegueiras. A autenticidade brilhará através do amor, a doação a Deus e ao irmão, a procura humilde e apaixonada.


Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 23.11.2017

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Da tecnologia enquanto carrasco

Por mais diferentes que sejam entre si, todas as gerações vão tendo pontos em comum, até que estes desaparecem na dinâmica da modernidade ou da mudança de valores, sendo substituídos por outros: o peso da palavra dada e de um aperto de mão, o cavalheirismo em relação às mulheres ou a deferência pela hierarquia, a importância do clero, dos oficiais das Forças Armadas ou dos professores primários, a consideração educada por quem era empregado ou inferior hierárquico. Muitos destes valores desapareceram, não havendo garantia que o seu desaparecimento se deva aos melhores motivos. No entanto, há um ponto em comum que permanece de geração em geração, materializado numa frase que tem o peso das frases sábias e, simultaneamente, maçadoras: no meu tempo é que... Ora, a constância desta frase ao longo das gerações deve-se ao facto muito simples de ser em muitos casos verdadeira, e a inexorabilidade do progresso constituir apenas uma ideia bonita - ainda que nefasta.

Elenquemos, neste raciocínio que não é mais do que um devaneio dominical, vários elementos do nosso quotidiano: whatsapp (como expressão genérica de algumas redes sociais), casa de jantar, papel de carta. O que une estes três itens aparentemente tão diversos? A solução do exercício não requer um esforço intelectual de rara dificuldade. Há um elemento comum: a comunicação. Nada fez tanto pela destruição da comunicação do que o surgimento do primeiro item e o desaparecimento dos dois últimos. Embora se fale muito - e com razão - no facto das pessoas viverem cada vez mais isoladas estando cada vez mais próximas, o surgimento das redes sociais afectou, entre mil e uma coisas que só o futuro determinará, a ideia de conversa como a tínhamos até ao fim das casas de jantar, ao advento dos programas de televisão a qualquer hora, à publicitação despudorada e permanente de informações pessoais e de vídeos de saloios que roubam castanhas ao vizinho. A qualquer minuto há um amigo que partilha um restaurante, uma fotografia de uma boazona que tritura cartões de crédito, um filme sobre cheias no Sri Lanka ou indígenas que não sabem dizer a palavra beginning. Numa cozinha, ou numa sala a ver televisão, as conversas são cortadas pelo telemóvel que apita para partilhar uma anedota viral e pela confusão dos tempos em que as coisas - conversar, ver telemóvel, partilhar coisas - devem ser feitas. O whatsapp (sobretudo este meio, até porque os outros não domino) deram a machadada final na estertor que já havia sido iniciado pelo fim da casa de jantar enquanto espaço de partilha, de conversa, de educação para a vida, de aprendizagem.

Perguntar-me-ão, os que aguentaram até aqui, o que lá faz o papel de carta. Pois eu explico: o papel de carta, usado como tal, foi, em grande medida, o vínculo duradouro entre as pessoas. O papel de carta é o oposto do whatsapp - e não me refiro, obviamente, ao suporte tecnológico. A tecnologia transformou a nossa comunicação em algo momentâneo, frívolo, ligeiro, sem presença no futuro nem evidência de existência. A tecnologia transformou a nossa comunicação numa sucessão entrecortada de frases, porque a tecnologia suscita eficácia, rapidez, imediatismo. A tecnologia é o pingue-pongue da evolução científica. O papel de carta requeria cuidado com a caligrafia, com a disposição estética do texto, com a legibilidade e com o pensamento. A tecla delete - ou equivalente - permitiu-nos o outsourcing dessas tarefas. As cartas, por outro lado, eram registos (quase) permanentes de comunicação entre as pessoas. Agora tudo se apaga, em nome do espaço que esse tudo ocupa. 

Nos dias de hoje não se está; nos dias de hoje faz-se. A vida moderna, e muito bem em determinadas circunstâncias, está feita para a acção, para o consumo (aparentemente) produtivo do tempo, relegando a ideia de tempos livres para aqueles que não sabem fazer nada (os defuntos da produtividade) ou para aqueles que aguardam que os progenitores os resgatem aos estabelecimentos de ensino. Dantes conversava-se, talvez porque não houvesse mais nada para fazer. Hoje não se conversa, talvez porque há tudo o resto para fazer. 

O mundo mudou. A consideração pelas professoras primárias, oficiais das forças armadas ou padres é uma consideração pelo ser humano, não pelo profissional. O cavalheirismo relativamente às senhoras caiu em desuso, porque há a igualdade e o assédio, e talvez haja menos senhoras... O trabalho em casa é mais repartido, porque há a consciência e a consideração. Etc., etc., etc. No entanto, relativamente à perda do gosto pela conversa, ao desinteresse pela conversa, à ideia de conversa como perda de tempo, direi a frase: no meu tempo é que... Mesmo que o meu tempo já tivesse morto coisas de outros tempos...

JdB

domingo, 26 de novembro de 2017

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

EVANGELHO – Mt 25,31-46

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Quando o Filho do homem vier na sua glória
com todos os seus Anjos,
sentar-Se-á no seu trono glorioso.
Todas as nações se reunirão na sua presença
e Ele separará uns dos outros,
como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;
e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:
‘Vinde, bem ditos de meu Pai;
recebei como herança o reino
que vos está preparado desde a criação do mundo.
Porque tive fome e destes-Me de comer;
tive sede e destes-me de beber;
era peregrino e Me recolhestes;
não tinha roupa e Me vestistes;
estive doente e viestes visitar-Me;
estava na prisão e fostes ver-Me’.
Então os justos Lhe dirão:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome
e Te demos de comer,
ou com sede e Te demos de beber?
Quando é que Te vimos peregrino e te recolhemos,
ou sem roupa e Te vestimos?
Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’
E o Rei lhes responderá:
‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes
a um dos meus irmãos mais pequeninos,
a Mim o fizestes’.
Dirá então aos que estiverem à sua esquerda:
‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno,
preparado para o demónio e os seus anjos.
Porque tive fome e não Me destes de comer;
tive sede e não Me destes de beber;
era peregrino e não Me recolhestes;
estava sem roupa e não Me vestistes;
estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’.
Então também eles Lhe hão-de perguntar:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede,
peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão,
e não Te prestámos assistência?’
E Ele lhes responderá:
‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer
a um dos meus irmãos mais pequeninos,
também a Mim o deixastes de fazer’.
Estes irão para o suplício eterno
e os justos para a vida eterna».

***

Que restará de nós no fim? O amor dado e recebido

O Evangelho desenha uma cena poderosa, dramática, que estamos habituados a chamar o juízo universal. Mas que seria mais exato definir como “a revelação da verdade última, sobre o ser humano e sobre a vida”. O que resta da nossa pessoa quando não permanece mais nada? Permanece o amor, dado e recebido.

Tinha fome, tinha sede, era estrangeiro, estava nu, doente, na prisão: e tu ajudaste-me. Seis passos de um percurso, onde a substância da vida tem como nome “amor”; forma do ser humano, forma de Deus, forma do viver. Seis passos para nos encaminharmos para o Reino, a Terra como Deus a sonha. E para intuir traços novos do rosto de Deus, tão belos que encantam sempre de novo.

Antes de tudo Jesus estabelece uma ligação muito estreita entre si e os homens até ao ponto de se identificar com eles: fizeste-o a mim. O pobre é como Deus! Corpo de Deus, carne de Deus são os pequeninos. Quando tocas um pobre é Ele que tocas.

Depois emerge o argumento em torno do qual se tece a última revelação: o bem, feito ou não feito. Na memória de Deus não há espaço para os nossos pecados mas só para os gestos de bondade e para as lágrimas. Porque o mal não é revelador, nunca, nem de Deus nem do ser humano. Só o bem diz a verdade de uma pessoa.

Para Deus o bom grão é mais importante e mais verdadeiro do que a cizânia, a luz vale mais do que a escuridão, o bem pesa mais do que o mal.

Deus não despreza nem a nossa história nem muito menos a sua eternidade fazendo-se o guardião dos pecados ou das sombras. Ao contrário, para Ele não se perde um só dos mais pequenos gestos bons, não é perdido nenhum generoso cansaço, nenhuma dolorosa paciência, mas tudo isto circula nas veias do mundo como uma energia de vida, agora e para a eternidade.

Depois dirá aos outros: afastai-vos de mim… tudo aquilo que não fizestes a um destes pequeninos, não o fizestes a mim.

Os que se afastaram de Deus que mal cometeram? Não o de acrescentarem mal ao mal, o seu pecado é mais grave, é a omissão: não fizeram o bem, não deram nada à vida.

Não basta justificar-se dizendo: nunca fiz mal a ninguém. Porque faz-se o mal também com o silêncio, mata-se também com o estar à janela. Não se comprometer pelo bem comum, ficando a olhar, é já fazer-se cúmplice do mal comum, da corrupção, das máfias, é a «globalização da indiferença» (papa Francisco).

O que acontece no último dia mostra que a verdadeira alternativa não é entre quem frequenta as igrejas e quem não vai lá, mas entre quem se detém junto ao homem agredido e à Terra, e quem, ao contrário, segue em frente; entre quem parte o pão e quem volta as costas e passa ao largo. Mas além do ser humano não há nada, muito menos o Reino de Deus.


Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 23.11.2017

sábado, 25 de novembro de 2017

Pensamentos Impensados

Memés
Vi uma ovelha de cabeça preta; era uma ovelha de tez malhada.

Cortesias
Marcelo vai homenagear as vítimas das guerrras púnicas.

Dieta-pateta
O sal quando nasce é para todos.

Bolas quadradas
P: Como se chama o treinador de futebol do Benfica?
R: Vitória.
Isso é alcunha...

Tempo
Portugal está com um clima igual ao do Polo Norte; não chove.

Mistérios
Se, a exemplo de Tancos, desaparecer um submarino, devem começar as buscas na Chamusca.

Cuidem do rabo
Deputado tem assento? Tem, na Assembleia da República.

Estados
É proibido tocar no Chefe de Estado do Reino Unido.
É obrigatório tocar no Chefe de Estado de Portugal.

SdB (I)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Ver diferente

Então o bom gigante fez um prodigioso esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossas gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande sol nascia, banhava toda a terra em luz. Cristóvão pousou o menino no Chão. e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus Nosso Senhor, pequenino como nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara o ia levando para o Céu.

***

Índia, Janeiro de 2017


Não me parece que vá dizer nada de novo neste post.

1) Há un anos pediram-me para escrever um texto com base em cenas da vida de Nossa Senhora, um conjunto de quadros da Paula Rego que estavam no palácio de Belém.  Não gosto de Paula Rego.

2) Durante muitos anos não gostei de Alfredo Marceneiro a cantar fado. 

3) Ler Shakespeare ou este trecho de Eça de Queiroz, sobre S. Cristovão é ler textos bem escritos, de escritores cuja mestria perdura no tempo.  

*** 

Nenhuma das frases acima é mentira. Não gosto de Paula Rego, não gostava de Marceneiro, este texto (ou outros de outros escritores consagrados) é muito bonito. No entanto, apesar da veracidade das afirmações, todas pecam pela incompletude. Não gosto de Paula Rego, repito, mas a mestria, a criatividade, o mundo interior da pintora ficaram bem patente depois do assessor cultural do presidente da altura me ter explicado o que significavam as figuras, os pormenores, o fio condutor que une tudo. A forma como olhei para aqueles quadros mudou substancialmente.

Se quisesse ser um pouco radical diria: não gosto de ouvir um fado do Marceneiro, mas gosto se ouvir todos. Porquê? Porque ouvir tudo é perceber o estilo, a escola criada. É, à semelhança do que aconteceu com a explicação dos quadros de Paula Rego, perceber o fio condutor de uma carreira. 

Por último. Ler Shakespeare pode ser, apenas, ler Shakespeare: quem matou quem, quem atraiçoou quem, que frases ficaram para a posteridade. Mas, explicada a obra, há muito mais interesse na interioridade dos personagens do que na história dos dramas. A Lady Macbeth ou Othello têm uma densidade que ultrapassa em muito os seus actos. Mas é preciso que me expliquem...

Por último, ler o texto acima não é ler um texto bonito, apenas. Há ali uma lição: a ideia de paraíso como destino de recompensa, a certeza de que no rosto do nosso próximo mais fragilizado se reflecte o rosto de Cristo, ou que os ombros que oferecemos a quem precisa, mesmo que para isso se rasguem joelhos e se sue sangue, é dar a mão à eternidade, à mão que docemente nos leva para o Céu.

Ver tudo, ver além do desfocado, ver de forma diferente. Ver mais, para perceber mais. Ou apenas ver diferente, sei lá eu.

JdB  

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

FILME ANIMADO COM TELAS DE VAN GOGH (1853-1890) – UM INÉDITO

Num projecto híper ambicioso, dois craques da animação – a polaca Dorotea Kobiela e o britânico Hugh Welchman – reuniram os apoios certos para desvendar uma parte misteriosa (mais uma!) da biografia atormentada de Vincent Van Gogh (VVG), fazendo fluir com vida as telas do pai da pintura moderna. Uma loucura visual, que espanta e encanta(1) .

Contou com o trabalho árduo de 120 pintores, seleccionados entre mais de 4000 candidatos. Durante seis anos, empenharam-se num contra-relógio para acordar os 94 originais de Vincent e reformatar mais 31 obras do grande mestre. Conferiram-lhes movimento ao replicá-los em óleos pintados à maneira de VVG, como clonos estereoscópicos. O elenco das principais telas incorporadas no filme consta no site oficial em: http://lovingvincent.com/by-vincent-painting,27,pl.html

Na abertura da animação, a famosa «NOITE ESTRELADA» surge fulgurante, cada pormenor do quadro a ondular num baile suave mas expressivo. Parecem gozar a mobilidade recém-conquistada, depois de a magia do cinema os resgatar do estaticismo.


Para se ter uma escala dos recursos alocados: esvaíram-se nos oito segundos inaugurais do filme um ano e meio de labor intenso de três pintores profissionais e 3.000 litros de tinta. A complexa produção desenrolou-se por três etapas consecutivas: filmagem dos actores sob fundo esverdeado com a técnica de chroma key; edição dos fotogramas e subsequente adaptação às telas oitocentistas; e a fase avassaladora de pintura de cada “frame” (c. 65 mil) segundo a técnica de VVG, por um escol de mais de uma centena de artistas. 

A contracenar com as obras de Vincent, os flash-backs da história são sustentados por óleos a preto-e-branco, fiéis ao estilo do holandês. Este grupo inspira-se em fotografias da época.

O título do original inglês dá o mote à narrativa, tomando a fórmula da despedida afectuosa usada pelo pintor nas cartas enviadas ao seu irmão e mentor – Theo Van Gogh: Your LOVING, VINCENT. A correspondência entre ambos ultrapassou as 900 cartas, justificando a amizade do carteiro Armand Roulin pelo artista, afinal, o seu melhor cliente! O argumento baseia-se na missão legada por Roulin ao filho, para garantir a entrega da última carta de Vincent a Theo. Honraria, assim, o último desejo do artista. A tarefa, bem mais intrincada do que se supunha, levou o aprendiz de carteiro até à aldeia francesa Auvers-sur-Oise, onde o pintor tinha sucumbido no dia 29 de Julho de 1890.

«Retrato do Carteiro Joseph Roulin», início de Agosto de 1888
«La Berceuse» (Augustine Roulin), 1889

De porta em porta, saltando de testemunha em testemunha, a história converte-se num thriller sobre as circunstâncias da morte precipitada do pintor, de interpretação menos clara do que se terá convencionado, à época. Na altura, taxou-se de suicídio. A imprevisibilidade e os excessos no comportamento do artista, que padecia de alucinações e crises psicóticas, acomodavam tal desfecho. Simplesmente, os factos clarificados posteriormente – desmancha-prazeres das conveniências sociais e de certas agendas – apontam noutro sentido, conforme sugere o filme, baseado num veredicto clínico da altura, mas ocultado, além de outras evidências.  

Embora a tese que vingou fosse subscrita pelo médico homeopata (ex-)amigo do pintor – Paul Gachet, há testemunhos comprovativos da sua feroz desavença (uma constante na vida de VVG) e da estranha reacção do clínico após o disparo, pois não removeu a bala, antes deixando o doente exaurir-se numa morte lenta e dolorosa. Seria incapacidade técnica? Refere-se ainda que Gachet teria ciúmes do talento de Vincent, além de estar furioso com a aproximação do pintor à sua filha, igualmente embevecida. Outro defensor desta tese é o filho Gachet, cuja família se apropriou sumariamente de várias telas do pintor, no rescaldo da sua morte.  

Em contracorrente, outro médico menos envolvido emotivamente detectou marcas óbvias de homicídio, desde logo por a zona atingida ser de difícil acesso ao próprio. Mesmo na hipótese acrobática de Vincent ter alvejado o seu abdómen, o impacto da proximidade teria feito estragos inexistentes na sua ferida. Além disso, a trajectória da bala indicava ter sido disparada a bons metros de distância, em direcção oblíqua debaixo para cima (uma impossibilidade para o próprio), a partir de uma posição quase rasteira, provavelmente abaixo do perímetro da tela que estaria a ser pintada e constituía um entrave natural ao atirador anónimo. Também era um contra-senso ter a intenção de se matar e desistir de disparar um segundo tiro, preferindo antes sobreviver com uma ferida mortífera a prazo, que redundou numa agonia de 29 horas! Outro facto por esclarecer está no inexplicável desaparecimento de todo o material de pintura existente no local do disparo e demasiado pesado para poder ter sido mexido pelo ferido. Mais: apesar dos kms de papel escritos por VVG, não referiu em carta alguma a possibilidade de suicídio. Ao invés, na que escrevera na véspera do tiro, entusiasmava-se com grandes projectos para o futuro. 

Ao longo dos anos, a principal testemunha em favor do suicídio foi a filha do estalajadeiro onde Vincent pernoitava, Adeline Ravoux, com apenas 13 anos na altura e relatos posteriores desencontrados uns dos outros. Ou seja: fixámo-nos numa teoria pouco sustentável, pejada de inconsistências. 

Até na morte, Van Gogh terá sofrido a sorte dos desprotegidos, preferindo-se uma “narrativa” hábil e plausível, que resguardou a identidade dos assassinos, além de ajudar a alimentar agendas romantizadas em torno do herói-marginal, como se a bizarria e a marginalidade fizessem prova de genialidade. No filme e segundo averiguações mais recentes, atribui-se o crime aos chefes de um gangue de liceais arruaceiros e violentos – os manos Gaston e René Secrétan. À hora da morte, nos anos 50 do século XX, René deixou uma mensagem alusiva àquele episódio tremendo da sua vida, sendo certo que, à data do tiro, costumava exibir-se com uma pistola carregada.  

Os outros motivos em desfavor do propalado suicídio são de natureza mais nobre, ligados ao carácter do artista. Também, por isso, menos objectivos, não podendo sustentar sozinhos a nova tese a que LOVING VINCENT dá voz, apesar de ser consensual que o pintor padecia de uma depressão grave com picos de desordem psiquiátrica, agravados pelo excesso de trabalho e por hábitos desregrados.

A existência trágica de Vincent poderia ser considerada o expoente do fracasso. Primeiro, incompreendido pelos pais, ao somar reveses e rejeições que não o recomendavam para gerir os negócios de família. E logo calhava ser o primogénito. A fim de tentar a sorte noutras paragens, deambulou por vários países, experimentou diferentes ofícios, inclusive como missionário na Bélgica, mas em lado nenhum se sentiu minimamente acolhido. Aos 27 anos, era um homem perdido e escorraçado pela maioria, com a honrosa excepção de um par de amigos artistas e do irmão mais novo – Theo – vendedor de arte, que o instigou a lançar-se na pintura. 

A vocação tardia e a falta de habilitações académicas não impediram Vincent de bater recordes como autodidacta inspirado. No espaço de uma década pintou, sofregamente, mais de 2000 óleos, alguns no verso por falta de dinheiro para novas telas. Porém, só uma ínfima minoria lhe reconheceu a genialidade, chegando o sucesso postumamente. Dir-se-ia, demasiado tarde… 



Por qualquer mistério (outro), o pós-impressionista/expressionista guardou até ao fim uma luminosidade interior e uma grandeza no olhar, que impregnou as telas de cores garridas e quentes, revelando um mundo atractivo e lindo. Até as obras lavradas no hospício são generosas a comemorar a vida. Em Van Gogh, os céus merecem pinceladas de azuis festivos salpicados por estrelas cintilantes, as nuvens entretêm-se em coreografias ondulantes, o trigo forma mantos dourados e toda a paisagem é deslumbrante, como se a Beleza fosse a face mais visível do universo. Estas telas datam do ano em que morreu: 


De algum modo, coube a um dos artistas mais sofridos – com maior ou menor grau de responsabilidade, pouco importa – devolver-nos a criação num estádio incrivelmente límpido, ainda por estrear, centésimos de segundo depois do Big Bang. VVG parece ter sempre vislumbrado aquele esplendor que, um século mais tarde a milhares de kms de distância da terra, maravilhou os astronautas que olharam para o «planeta azul». Observavam-no a partir da lua, talvez como Vincent, que terá sido o mais lunar dos homens, pelas melhores razões. Lunar, mas não lunático! Antes de enorme agudeza de espírito. Num postal enviada a Theo, Vincent explicava: «Eu posso ver um campo cercado de trigo (...) acima do qual, durante a manhã, eu vejo o Sol nascer com toda a sua glória.» Sem se deter na dor – que era imensa – VVG valorizava o Belo em tudo o que via. Uma ironia eloquente ser ele a manter esta aptidão raríssima. 


Como canta a conhecida ária dedicada por Don McLean ao híper sensível, frágil e afectuoso Vincent, repugna o bullying de que foi alvo e o isolamento a que foi condenado. Os mais penalizados acabaram por ser os que se recusaram a aceitá-lo na sua individualidade e gigantesca diferença, por óptimos motivos. Segue a versão incluída na banda sonora do filme, magistralmente interpretada por Lianne Las Havas sob a imagem do «Autorretrato» pintado no ano da morte. A letra sugere, dramatizando até ao limite: «they could not love you (…) this world was never made for someone as beautiful as you». 



No filme, possivelmente citando uma das cartas de Vincent, este conta ao irmão o que pretende exprimir com o pincel: «show the world what this nothing has in his heart» e ainda «the truth is, we cannot speak other than by our paintings.» À medida que o tempo passa, a vida aclamada pelo precursor do modernismo permite desvelar novos indícios, que obrigam a actualizar a biografia enigmática do pai do modernismo. Sobre o corte da orelha, historiadores alemães alegam ter sido cortada por Gauguin, esgrimista exímio,  assumindo Van Gogh a brutal amputação para resguardar o amigo da prisão, enquanto ele consentia em ser hospitalizado num hospício psiquiátrico.

LOVING VINCENT ajuda a fazer luz sobre o seu passado, com o mérito acrescido do estilo sóbrio e tranquilo da animação estar isenta daquele sentimentalismo febril que costuma vir associado à figura algo inacessível do mestre. Percebe-se o manancial imenso que continua por desbravar.
   
Maria Zarco
 (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA:

Título original: «LOVING VINCENT»
Título traduzido em Portugal: «A PAIXÃO DE VAN GOGH»
Realização: Dorotea Kobiela e Hugh Welchman
Argumento: Dorotea Kobiela e Hugh Welchman
Produtor: Sean M. Bobbitt e Hugh Welchamn
Banda Sonora: Clint Mansell
Duração: 94 min.
Ano:        2017
País: Polónia e Reino Unido
Elenco:
   - o actor polaco Robert Gulaczyk (VVG)
   - Chris O'Dowd (o filho do carteiro amigo)
   - Douglas Booth (o carteiro)
   - Saoirse Ronan (a jovem Gachet, por quem VVG se apaixona)
   - Aidan Turner,
   - Jerome Flynn, etc.
Local das filmagens: Londres e estúdios/ateliers de pintura – 2 na Polónia e 1 na Grécia.
Site oficial: https://www.facebook.com/lovingvincentmovie e http://lovingvincent.com/

Acerca de mim

Arquivo do blogue