sábado, 28 de fevereiro de 2009

Ai xico leva-me à igreja

tinha uma chamada não atendida, feita meia hora antes. o meu amor por este homem dita que onde quer que eu esteja, à hora que for, não o deixe sem resposta. ligo. ligaste-me. sim liguei. onde andas? estou na Praça das Flores. a voz tinha o tom pouco sereno. mas onde? na rua? sim, sim. que foi? estás aflito. tive aqui uma chatice. ó pá deixa-me, já te disse, deixa-me em paz! gritou. xico, xico, o que é? vou-te buscar. está bem. e mais gritou. não fiques parado. vai andando à rua de são bento. rua de são marçal 106. e desligou. voei ao Príncipe Real. 106, 106, lá em baixo.106. estaciono a quebrar a esquina. tudo calmo. 106, a porta é branca, fechada, campainha iluminada com autocolante azul "fumadores". toco. ao tlin-tlão de consultório médico a porta abre, um homem vestido de saloia e lenço na cabeça, beiças escandalosamente escarlates, abre um sorriso e diz-me boa noite! venho só à procura de um amigo. entre. hesito e desvia-se para eu ver. mirono a sala minúscula. pode entrar, insiste. o meu amigo sorri ao balcão. faço sinal. como é? a saloia percebe e graceja – entre, assim já não sou a única mulher.

eis-me num bar gay, com quinze tipos, se tanto. recorro ao olho do meio, que vê tudo sem olhar. controlo o movimento nas minhas costas e estabeleço uma inabalável descontracção. então pá? pregaste-me um susto do caraças. que estupidez, desculpa. um chato embicou comigo. telefonaste na hora H. e quê? e nada. safei-me. que bebes? um fino. e como é? estou bem aqui? claro. são meus amigos. vou-te apresentar. respeitosa e alegremente a saloia espetou-me dois beijos e o barman estendeu-me um risonho bacalhau. senti os quinze olhares cravados em mim aquietarem-se e a sensação de perigo dissipar-se. quando dou de caras com Napoleão Bonarparte em tamanho XXL fico fascinada. penso no tamanho, no desperdício, e realizo. qual bando de travestis má língua... é Carnaval. porra xico, se tens dito vinha de Josefina. deixa lá. voltamos segunda. levo o xico, entro. já viste o tapete novo do prédio? não é bestial? foi o advogado do 1º que mandou pôr. gosta de espionagem. sabes quem é. sei. mandou encerar as escadas, pintar a entrada. um amor. e nem queiras saber a finesse que corrupia aqui toda a semana. subimos, ceamos e leu-me um poema da Manuela de Freitas muito bonito e muito revolucionário. até amanhã xico. a missa é ao meio dia? é, vê se vens, o coro é maravilhoso. uma beleza.

DaLheGas

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

as aventuras de pedro no país da melancolia

durante a corrente semana, tive oportunidade de assistir a um "encontro literário" com o escritor / crítico / cronista / blogger / subdirector da "cinemateca nacional" pedro mexia, numa das livrarias de referência da nossa praça.

o tema era relativamente fechado, em torno do formato crónica (porquê a crónica? qual o cânone? quais as suas referências, quanto a cronistas? que lugar ocupa a crónica no seu ofício total, enquanto pessoa que escreve profissionalmente.. e um longo etecétera), mas rapidamente foram chamados à baila outros aspectos da vida literária e do acto criativo tal como pedro mexia o vê, sempre com base na sua experiência pessoal enquanto autor.

qual o motivo que me faz trazer aqui este episódio, perguntarão? porque o pedro, para além de exibir a inteligência, o "wit", a verve que são elementos matriciais da sua escrita - e concomitantemente da sua "persona" -, abordou aspectos "mais existenciais" (não sei bem como dizer de outra forma) que se mostraram extremamente lúcidos e, pelo menos para mim, operativos. por exemplo:

a) a diferença entre o privado e o íntimo. para quem escreve na blogoesfera, trata-se de um tema sempre presente. o que disse o pedro sobre isto? que, nas crónicas, fala sobre o íntimo, mas nunca sobre o privado. é como se a experiência do eu interior, desprovida de contextualização biográfica, situacional, relacional, fosse tão íntima que, a partir de certo ponto, passasse a uma espécie de "proximidade abstracta isenta de elementos biográficos objectivos". pelo contrário, a esfera privada seria aquela em que aparecem nomes, factos terceiros, locais, etc - um inaceitável atentado deontológico, nas palavras do pedro. ora, curiosamente, pouco mais tarde, produziu uma menção curiosa ao facto de na (sua) blogoesfera não existirem tais regras, tal como ele as entende e aplica nos seus exercícios "mais jornaliísticos". por acaso, não estou de acordo. nem que seja isso o que de facto acontece no blog do pedro (actualmente em hibernação, a propósito..), nem que as regras - essas regras - admitam tal diferenciação. tomei este último "statement" à laia de uma "boutade". a influência britânica é assumidamente trave-mestra da sua escrita e todos sabemos que a ironia, e mesmo a polémica, são instrumentos comuns nos melhores escribas - e são tantos - que a língua de shakespeare viu nascer;

b) partindo do título do seu mais recente livro, uma colectânea de crónicas precisamente, de sua graça "nada de melancolia", o pedro mexia referiu esse traço particular, em seu entender, da sua geração (nota importante: tenho a mesma idade do pedro): a melancolia. uma geração que, aos vinte e poucos, experimentava já uma indefinível saudade, ao mesmo tempo que professa uma apenas vaga esperança nos amanhãs que deveriam indubitavelmente cantar. ou seja, como diria o antónio variações, aquela sensação de que "só estou bem onde não estou", tanto no espaço, como no tempo. uma melancolia abstracta e que parece injectada nos genes dos actuais trintinhas e trintões, com toda a "pathos grave" que normalmente traz associada;

c) finalmente, e quanto a mim o "insight" mais magistral da noite, o pedro mexia introduziu o interessante conceito geracional de que esta - a dele, a minha, a nossa - é uma geração partida, dividida. com uma educação ainda "clássica" (por exemplo no que toca à religião, à educação cívica, até na área mais escorregadia dos costumes “tout court"), o que nos aproxima facilmente de quem tem, por exemplo, mais 10 anos, mas também apanhando já o ar do tempo próprio da geração mais nova, que pauta a sua vida por valores e, principalmente, por uma praxis que nada tem a ver com o nosso lado mais "sério, grave, trágico" (por exemplo, a forma "lúdica" como encaram as relações humanas, com cortes e costuras quase sem dor nem especial relevância existencial, afastam-na radicalmente das gerações suas antecessoras). ora, nós, os dos trintas e tais, somos obrigados a conviver com estes dois mundos e sentimo-nos terrivelmente divididos. alguém falou em dissonância cogntivo-afectiva? - pergunto eu.. o pedro fala dessas crianças dos anos setenta e oitenta, ainda sem computadores, ainda sem tanta coisa que hoje faz plenamente parte do nosso modo de vida ocidentalizado e globalizado.

muito mais poderia ser aqui referido. todos esperariam, claro está, a resposta à pergunta: "pedro, quem são para ti os cronistas de referência?". fiquemos apenas com o nome maior, no subjectivo entender do nosso mestre de cerimónias, em língua portuguesa: o mestre nélson rodrigues, esse brasileiro de elevado quilate. descubram-no, por aí, no formato crónica (o resto, a dramaturgia, é mais polémico e eventualmente menos interessante).

em suma: inteligência em movimento, temperada com um humor sofisticado e com o britânico e já atrás referido "wit" (sem tradução directa, infelizmente); uma capacidade notável de observação e de, a partir desta, construir um "insight" relevante; domínio folgado da escrita; um classicismo algo anacrónico que só lhe fica bem. iguaria fina, amigo(a)s.

termino com uma bicada cheia de graça: "não consigo perceber qualquer sentido pejorativo na palavra elitista. com sinceridade, só vejo coisas boas!".

(é agora que, finalmente, vou ter meia-dúzia de comentários ao meu "post", aqui neste mui gentil "adeus, até ao meu regresso"..?)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Uma orquestra no caos

Reúnem-se, ensaiam, cantam, cosem vestidos e fabricam instrumentos de música. Os 170 membros da Orquestra Sinfónica de Kinshasa não desistem. E uma das razões deve-se, provavelmente, ao facto de todos estes músicos pertencerem a uma igreja local – a Igreja Kimbanguista (com raízes cristãs e mais de 5 milhões de seguidores, dizem). Da música também fazem prova de fé. Uma história de paz ao som de O Fortuna, Carmina Burana, de Carl Orff.



Mónica Bello

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Largo da Boa – Hora

Passamos tempos de crise. As perdas e ruínas sucedem-se e avolumam-se, cresce a ansiedade.
Cada um teme pela sua sorte individual e espanta-se com a desdita que aflige tantos e tantos.
Pressente-se que o sistema está incontrolável, errático, em derrocada, levando na avalanche o que seja – nada já surpreende.
Há, pois, um dobrar de sinos por todos nós, que devemos ouvir, sentir e respeitar.
Nada do que sucede é novo para este meu Largo que já viu desastres colectivos de maior magnitude e consequências.
Ciclicamente, os modelos colapsam por esgotamento, exaustão, deixam de conseguir sustentar a realidade que geraram, por falência dos respectivos paradigmas. É o que vivemos.
Todavia, esta crise vai ser ultrapassada, e dela vai resultar um novo ciclo, pujante e avassalador, que vai ser pleno de sucessos e favorabilidades para os seus protagonistas.
O futuro, a médio prazo, é, assim, risonho, e não há que temer. O ser humano, quando acossado, como é o caso, tem a capacidade de encontrar o caminho que conduz a um tempo, o qual propiciará o retomar dos patamares de vida hoje comprometidos.
Infelizmente, a história da humanidade já é tão longa que não consente ilusões, não haverá uma refundação da humanidade no sentido de se criar, finalmente, um mundo definitivamente livre destes ciclos porque assente em paradigmas de valores intemporais, certos e conformes ao perpétuo bem comum. A sociedade perfeita, apesar de estar ao alcance da concepção e construção pelo Homem, nunca será erigida, porque ditames de perversidade acabam sempre por predominar e impor-se, maculando decisivamente.
Portanto, sou realista quanto ao presente, optimista quanto ao futuro, apesar de lúcido quanto à natureza do novo ciclo que vai emergir. Efectivamente, não espero senão mais um época de virtuosismo material, que não modificará definitivamente o rumo da história da humanidade.
Apesar disso, esse novo ciclo tem a probabilidade de não se esgotar nesse retomar de riqueza, podendo, para além desse reposicionamento, acontecer uma evolução positiva no sentido de a humanidade dar mais um passo no caminho da realização da sociedade universal de valores.
Tudo dependerá da forma como cada um sentir e viver este momento de crise que agora passamos, e é essa vivência que pode, efectivamente, condicionar o futuro que pretendo seja o objecto desta crónica.
Vejamos, pois, o que sinto.
Este ciclo em liquidação veio demonstrar que a riqueza material mudou de natureza, de essência.
Antes, havia um conjunto de bens, de direitos, de coisas que tinham um valor absoluto de riqueza, que eram intrinsecamente fortes, valiosos e duradouros, e cuja propriedade assegurava estatuto e dimensão de riqueza - imobiliário, matérias-primas, metais preciosos, certas moedas, acções e aplicações financeiras. Por outro lado, antes havia igualmente empresas de referência, cuja fortaleza, poder, inexpugnabilidade, eram pressupostos inquestionáveis.
Toda essa realidade se esfumou, e aprendemos que a riqueza é volátil, esteja ela assente em que valor estiver. No limite, a medida da fortuna pode variar numa noite de cem para zero, e tudo por efeito do funcionamento de mecanismos de valoração e depreciação que ninguém controla ou explica. Do mesmo modo, a sólida empresa de ontem esfuma-se num ápice.
O turbo – capitalismo, na sua derrocada, revolucionou, pois, postulados sacrossantos. A riqueza deixou de ser imune à autofagia, as empresas deixaram de ser fortalezas com empregos e estabilidade para a vida, e os sistemas de segurança social dificilmente cumprirão os respectivos compromissos, aguardando-se uma fiscalidade predadora e insaciável.
Estas constatações negativas (?), são paradoxalmente, todavia, oportunidades de libertação que podemos aproveitar para mudar as nossas vidas.
Basicamente, a minha ideia é que a cultura do ter perdeu objectivamente justificação, atenta a vulnerabilidade intrínseca dos valores detidos. Estamos, assim, libertos da forte tentação de erigir esse ter em meta de vida, favorecendo a possibilidade de abraçarmos, livres da recriminação por renunciar ao que poderia ser mais importante numa lógica de precaver o futuro – nosso e dos filhos - a cultura do ser e do viver.
Temos, assim, a possibilidade de, sem culpabilidades - por perdermos oportunidades de fortalecimento e acumulação do ter -, nos dedicarmos a uma vida mais focada e centrada na espiritualidade, no pensamento, no sentimento, no encantamento, no desfrute dos outros e da natureza, no aproveitar o que a vida a cada dia e tempo nos pode proporcionar se estivermos atentos, dispostos e aptos a vivê-la, nas suas formas e apresentações mais simples e genuínas.
Pode ter chegado o tempo de admirar e sentir a flor em vez de a colher para vender. Pode ter chegado o tempo de admirar o animal que passa sem a ganância de o abater. Pode ter chegado o tempo de conversarmos uns com os outros, partilhando mais a alma e o coração do que os feitos e conquistas; menos “Lusíadas” e mais “Cantigas de Amor”. Pode ter chegado o tempo de fazermos mais companhia uns aos outros, do que nos encontrarmos como autistas que debitam o que de sucesso fizeram. Pode ter chegado o tempo da intimidade e partilha, em vez da superficialidade em correria.
Por outro lado, esta desvalorização do ter é, igualmente, oportunidade de nos livrarmos do supérfluo que atafulha as nossas vidas, reapreciar o que temos e enquadrar esse acervo com as reais necessidades e utilidades. A hidra do consumismo, a ânsia do mais, melhor e mais moderno, o frenesim do “à la page”, podem terminar aqui e agora, pois a constatação da suficiência do que temos, aliada à indisponibilidade moral para seguir os caminhos antigos do ter, podem fazer renascer o tempo em que o tempo era medido pelo único relógio de pulso que tínhamos, e que amávamos com a força do poema: “objectos inanimados, tendes pois uma alma que se prende à nossa e nos força a amar-vos?”.
Estes tempos diferentes têm, ainda, a virtude de nos devolver ao sonho. Podemos voltar realmente a sonhar com realizações a conseguir no futuro pelo nosso esforço, empenho e perseverança. É que, na voragem em que vivíamos, o sonho estava morto, pois o que sucedia era uma catadupa de caprichos, desejos efémeros, impulsos, compulsões, tudo ao mesmo tempo, em desnorte , em urgência de ter e iminência de esquecer e desprezar.
Simplificando ideias, declaro a morte da fábula de La Fontaine: jaz a arruinada formiga pela inutilidade da sua vida, jaz a leviana cigarra pela futilidade do seu viver, nasce o ajuizado e sensível homem que do selvagem e ofuscante se liberta.

ATM

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

História de Lisboa - I

(ALFAMA)

Acima de tudo parabólica
capta cataplana a noite inteira
roufenho som transistor do relato
transbordante fervilhando da trapeira.

Lata de azeite mangerica no beiral
donde o gato sádico alpinista
empanica o canário da gaiola
mexericando a pata na alpista.

Espanta-se do pingo o pombo no estendal
salpicando regador a sardinheira
que, pingante pingo que é, vai acertar
na testa japonesa a passear.

JCN

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, 2ª feira de um qualquer Carnaval.

Ramón Peres era palhaço desde sempre. Filho e neto de palhaços, sabia que nunca mais havia de ser coisa diferente na vida – e vivia bem com esse destino. Crescera com o avô a provocar o riso em toda a gente, o que quer que fizesse e quando fizesse. Ao velho Ramón sucedera o filho Ramón, pai de Ramón, como se a genealogia da família Peres não fosse mais do que uma palhaçada hereditária por via masculina, e o nome não mudasse para manter a ilusão da perenidade das coisas. Há quem viva rodeado de riquezas, há quem tenha empregados em abundância. A família Peres era mais gargalhadas.

Ramón Peres, filho e neto de Ramón Peres, entrou na Fábrica da Ilusão numa noite fria de nevoeiro denso e pesado, que esmagava e não deixava ver nada para além de uma dezena de metros. Ao longe, a ronca, com o seu som grave e prolongado, alertava os barcos para os perigos iminentes. Dentro do estabelecimento, as raparigas suspiravam pelos cantos, vítimas de uma meteorologia que lhes provocava melancolias compreensivas, semblantes carregados de uma nostalgia que estava longe de ser a felicidade de estar triste.

Ramón Peres entrou e não pude deixar de conter um riso perfeitamente inexplicável. Olhei para o cliente, e percebi imediatamente o que tinha sido a vida daquela dinastia, a gerar regozijos como quem distribui esmolas a eito. Nada em mim revelava troça, desconsideração, apoucamento. Era uma delícia perfeita e ingénua, como se o cavalheiro ostentasse, na sua frente, um placard com as instruções que se dão nos programas televisivos: Rir! Gargalhada! Aplaudir.

Chegou-se ao balcão e olhou com atenção persistente as minhas debilidades físicas, piscando os olhos. Aproximou-se muito de mim, tocou ao de leve com a mão na minha cicatriz e manteve um ar atento. Ao fim de dois minutos irrompi numa gargalhada incontrolável, acompanhada pelas operárias que ali se encontravam Quando dei por mim toda eu soluçava, já, de riso contido, tentando desesperadamente uma pose profissional. Até a Dra. Clara, habitualmente tão circunspecta, continha dificilmente uma lágrima de gozo. Quem viesse de fora não perceberia, seguramente, a causa de tanta hilaridade. Na realidade, havia algo de irracional em todas aquela risota. Mas o facto é que as pessoas achavam muita graça a Ramón Peres – e seria impossível disfarçá-lo.

Cada vez mais acredito na extraordinária perspicácia da Dra. Clara. A escolha de cada operária para cada cliente não é um exercício ligeiro de percepções. Obedece, isso sim, a um conhecimento profundo da alma humana, dos seus fetiches e obsessões, daquilo que em cada momento nos eleva a prazeres inesperados, do que é fonte inesgotável de contentamento humano. No fundo, daquilo que transtorna o cliente, que é factor diferenciador, que o faz voltar com vigor redobrado à procura da satisfação, do gozo. À procura de mais – ou simplesmente de diferente.

A Ramón Peres foi-lhe indicada a Gervásia, uma beirã forte, licenciada em engenharia florestal, sócia falida e prematura de uma empresa de toldos para festas. Citadora amiúde de Aquilino Ribeiro, era vítima permanente de uma saudade funda da Serra da Estrela. Levou o cliente pelo braço, enquanto no ar se ouvia ainda o eco das risadas.

Gervásia entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. O palhaço encostou-se a uma parede para ser espectador daquela sequência de roupa que ia caindo com um vagar insolente: uma camisa que se desabotoa lentamente, uma saia que tomba num emudecimento erótico, um fecho que se solta para revelar um corpo despido, provocador, branco e pintalgado de sardas e sinais. O silêncio era profundo, sem ser incomodativo. Ninguém ria.

Gervásia despiu-se, enquanto Ramón Peres, impávido e sereno, assistia. Ao longe, perdido nos minutos que já passaram, persistia ainda um rumor de memórias trazido pela brisa de alegria que acompanhou aquele cliente. No gabinete, pressentia-se na Dra. Clara um sorriso que não era mais do que o riso que findara, mas que tinha deixado um rasto, como se fosse a cauda de um cometa.

No quarto nº 6, Gervásia não abriu um sorriso, porque nunca o fez. Tem uma cara beirã dura, granítica, sulcada pela falência e pela lembrança dos lobos que uivam, pela terra ingrata onde a urze a custo cresce e onde o frio da madrugada enregela todos os ossos. Integralmente desnuda, revelou a Ramón Peres umas coxas fortes mas proporcionadas, uns seios redondos e firmes, uns braços vigorosos onde corre a genética da dura vida serrana. Espojou-se na cama perante o olhar do seu parceiro – aquele olhar que tanto alegrou as raparigas – e distendeu-se, levantando os braços para compor um cabelo negro e forte. Agitou mansamente as pernas, estendendo uma e erguendo a outra. Olhou então para Ramón Peres, filho e neto de Ramón Peres, cómicos todos por carreira e convicção, e disse-lhe secamente, com uma seriedade que não oferecia margem para dúvidas:

- Então, ó palhaço, queres explicar-me de que estás á espera? Achas que tenho o dia toda para te aturar? Despacha-te lá, que não estás aqui para me divertir…

Ramón Peres dobrou-se de riso. Despiu-se num ápice, tropeçou nas calças e nos sapatos que não quis desatar para ser mais rápido, e atirou-se para cima da Gervásia, como quem quer abraçar a serra toda num beijo sensual. Antes de se entregar ao desejo que o consumia ainda teve tempo para lhe ouvir:

- Eh! Calma lá, palhaço! Não estás no circo.

Há quem ache que o drama do palhaço é ter de fazer rir quando não lhe apetece. Eu acho que é o facto de ninguém o levar a sério. Talvez só a Gervásia.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Cartas dos dias que correm

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico...

***

Não me lembro bem da primeira vez que deixei de Te ver como uma teoria que me tentavam impor, como uma quarta-feira maçadora de catequese ou como uma tentativa de salvação para almas desesperadas.

Sei que, sem perceber como nem quando, senti um calor inexplicável quando estava frio, e fui tomada de uma vontade súbita de Te conhecer melhor, de saber quem eras e que poder era esse que tinhas de me encantar. Cada vez mais...

Como li um dia, foi por Ti que fui além da praia, foi no Teu amor que descobri um mar que nem sabia haver. Quando me segredaste vem, eu fui, e agora continuo a seguir-Te. Olho para a minha vida e sei que sou feliz. Desculpa ter demorado tanto tempo a conhecer-Te. Desculpa todas as vezes que achei não precisar de Ti e todas aquelas em que tentaste entrar na minha vida e eu Te fechei a porta.

Parece-me agora impossível viver sem acreditar em alguma coisa acima de mim. Eu acredito em Ti, sinto-Te em todo o lado, nos meus pais, nos meus irmãos, nas paredes de minha casa, nos sorrisos que me rodeiam. Meu Deus, como será possível viver-se de outra forma que não contigo? Eu tentei, não consegui!

Mesmo não havendo prova irrefutável da tua existência, tenho a certeza de que existes. No meu coração, o nosso encontro já estava destinado há milhares de anos, já estava escrita a certeza de te tornares essencial na minha vida. Não tenho mais medo, pus o meu coração nas Tuas mãos e a minha confiança dentro de Ti, porque mesmo não sabendo o dia de amanhã, acredito que contigo será para sempre. Ouviste-me cantar tantas e tantas vezes as maravilhas que fizeste em mim...

Penso em Ti todos os dias, a todas as horas, porque fazes parte de mim, porque entre nós nasceu uma relação incompreensível e inexplicável que rezo para que todos possam sentir.
Ainda sou nova e, acredita, nunca usei a palavra amo-te sem ser contigo. Não o digo por dizer, digo-o porque sinto, porque tenho a certeza de que vais completar-me e vais deixar-me seguir-Te para sempre. Eu vi, um dia, as pegadas na areia, e sei que vão continuar lá até ao fim dos meus dias.

Obrigada.

Maria Teresa de Bragança

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Os Livros, o Chiado e os Franceses

Se há coisa de que nos podemos orgulhar em Portugal, à vontade e sem acanho, é da colheita literária dos séculos XIX e XX, cujos autores se fizeram ídolos, deuses da palavra e mestres para todos nós. Caídos dia-sim, dia-sim nas janotas livrarias – ohhh à pinha de novidades – os escritores da capital faziam ninho nesses rés-do-chão de puros prazeres. Nos fins de tarde, à luz fraca do petróleo ou do gás, esgueiravam-se lá para dentro, onde quase em segredo conspiravam, dissertavam e nutriam opiniões contra as mentalidades bolorentas e conservadoras. Influenciados por novos autores e filosofias, acaloravam-se, vagueavam pelos cafés e agendavam publicações com os livreiros-editores, ansiosos por deitar cá para fora o que achavam de mais premente. Imbatíveis e incorrigíveis foram Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. A censura não lhes calava o pensamento. O conjunto de textos que compõem as “Farpas”, são prova clara. Quando em 1945 se celebrou o centenário do nascimento de Eça, o jornal católico “Novidades”, a propósito de um concurso aberto a ilustrações para as obras do autor, ainda referia: “Sendo embora um extraordinário artista, não se pode absolver simplesmente da acção nefasta que tem exercido na mentalidade e nos costumes portugueses”.
Se os escritores vincaram Lisboa, no Chiado estão todos os poetas desta vida. Os vivos, os mortos, os muito mortos. E está o palco que viu toda essa gente rir e chorar, cair e levantar-se, amar-se e odiar-se. Mas a memória do Chiado não se faz só de escritores. Por trás deles havia uma avalanche de gente escorrida da grande Revolução de França, no século XVIII, cansada de tumultos, de instabilidade e de perseguições na própria Pátria. Escolheram Portugal e fizeram o que sabiam. A maioria, o que sabia, era vender, editar e encadernar livros. Eles e as suas janotas librairies et ateliers de lecture tomaram corpo e deram alma aos bastidores da trama literária que proliferou em Portugal e que se destacou em todo Mundo.
Entre os emigrantes que chegaram a Portugal nos alvores do século XIX, contava-se João Baptista José Ferin. Belga, filho de um fabricante de carruagens, tinha combatido no exército austríaco a Revolução Francesa. Anos depois, obtinha alvará para fabricar carruagens, tal como seu Pai, mas entretanto casara com Catarina Masson, francesa da Lorena, talvez parente dos Masson editores e livreiros. De um rancho de onze filhos que tiveram, sete deles acabariam por se ligar ao comércio dos livros.
Maria Teresa tinha casado, em 1837, com Pedro Langlet, belga, filho de livreiros, com loja no Cais do Sodré – a Librairie Belge-Française. Em 1840, a livraria, vocacionada ao público francófono residente em Lisboa, muda-se para a Rua Nova do Almada. Seria o princípio da Ferin que ainda existe.
Gertrudes Clara, outra dos sete, fundara um gabinete de leitura (Cabinet de Lecture de M.ell Férin) na Rua Nova do Carmo, onde se podiam alugar e consultar livros, na sua maioria franceses, versando teologia e curiosidades científicas. Esta senhora casa, em 1840, com um encadernador e livreiro francês, há muito em Lisboa, e com loja na Rua da Horta Seca. Nesse mesmo ano, o seu petit Cabinet é inserido na nova livraria da irmã Maria Teresa, e passa a apresentar-se como Cabinet de Lecture de la Librairie Belge-Française.
Em 1853, novas mudanças na Férin. Pedro Langlet e Maria Teresa trespassam-na a um cunhado que vivia com eles, Augusto Férin. Foram fiadoras três irmãs que viviam no Porto. Com a livraria era ainda vendido um depósito de livros que Langlet detinha na ilha de São Miguel, gerido pelo Férin mais novo, Benjamim.
Augusto Férin chamou o cunhado, casado com Gertrudes, encadernador, de nome Manuel Robin, e propôs-lhe sociedade. Transferido também para a Rua Nova do Almada, Robin trouxe à livraria a novidade da encadernação. O nome muda para Librairie Franco-Belge e a designação da empresa passa a ser Librairie Férin et Robin.
Porém, o negócio não correu bem aos cunhados que, no mesmo ano, cedem as posições às irmãs fiadoras. Justina, Ana e Emília receberiam a loja, pagariam o passivo e seriam a salvação. Com elas, a Ferin passa a Librairie Franco-Belge et Atelier de Reliure de Mesdames Ferin. E com elas, também a Ferin é nomeada por D. Pedro V “encadernadora das reais bibliotecas”, isto é, reservava-se-lhes o direito de usar as armas reais junto ao nome e aos símbolos da casa, no frontispício do estabelecimento.
Após quatro anos, e por mais nove contos de réis, os cunhados voltam à carga e tomam posse do negócio. Quando em 1871 morre Manuel Robin, fica Augusto sozinho na gerência da então chamada “Augusto Ferin, Livreiro e Encadernador da Caza Real”. Isto, até 1890, ano em que o seu filho Edwin Ferin, e um genro, prosseguem o negócio, comunicando a mudança de gerência por meio de carta redigida em francês! Nasce, então, a “Livraria Ferin e Companhia”.
Os melhores momentos do estabelecimento contam-se de 1871 até à implantação da República. Foi o tempo dos escritores imporem a sua presença, o tempo das iniciativas editoriais, em que são elaboradas nas oficinas de tipografia e encadernação publicações dirigidas ao público português. Para a história ficou a encadernação de “Os Lusíadas”, edição da Imprensa Nacional, em 1880, que valeu à casa uma medalha de excelência na Exposição Universal de Paris, nove anos depois. Outras preciosidades se prepararam na Ferin: um “Hamlet” traduzido e autografado pelo rei D. Luís, encadernado a verde, e, da colecção do rei D. Carlos, a vermelho, o “Memorial Biográfico de um Militar Ilustre, o General Claudino Pimentel”. Periódicas eram uma revista de Arqueologia, um Almanaque de Genealogia e “O Gafanhoto”, com textos e ilustrações de Tomás Bordalo Pinheiro, para as crianças, que saía de quinze em quinze dias, mas que não teve uma vida longa.
Com a morte de Edwin Ferin e de seu cunhado, Francisco Cunha, em 1903 e 1906, respectivamente, a livraria passa a ser gerida por dois irmãos da viúva, Carlos e Alfredo Marinho da Cruz, mais um colaborador, José Luís da Silva. Em 1910 refazem a sociedade sob o nome “Baptista, Torres e Comandita”, cujos sócios são: a viúva, Maria Amélia Ferin, um irmão seu, Alfredo, sua filha, também Maria Amélia Ferin, e ainda Joaquim Augusto Jorge Baptista, que ficaria apenas até 1913, ano em que a nova designação de empresa se obrigam. “Torres e Comandita” será então a gestora da livraria até 1943. Nesta data, o filho de Maria Amélia Ferin e neto de Edwin, José Luís Dias Pinheiro, entra para a sociedade que é dividida em quotas e renominada por Livraria Ferin, Lda..
José Luís, já licenciado em Direito, foi uma lufada de ar fresco na Ferin. O amor pelos livros, a sensibilidade à riqueza das obras e a sua dedicação e atenção aos interesses dos clientes, levaram-no a alargar o âmbito da livraria, especializando-se em temas como a Genealogia, a História, a Militária, a Heráldica, além de obras sobre Arte, Direito e Jurisprudência. Com a colaboração do seu carismático e veterano empregado, Zacarias Augusto de Carvalho Costa, cuja fisionomia lembrava Cervantes e por isso lhe chamavam “O Fidalgo Aprendiz”, o negócio seguia ligeiro, oferecendo cada vez mais livros raros, adquiridos em catálogos de leilões e fornecendo já a biblioteca do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
As tertúlias que diariamente aconteciam na reputada Ferin, tiveram a presença assídua de um grupo de ilustres senhores, de respeitosa idade, como Francisco Calheiros de Menezes, ex-Embaixador na Santa Sé, e o Visconde da Trindade, investigador de documentos antigos e manuscritos, e autor de diversos ensaios bibliográficos. José Luís nutria amizade e profunda admiração pelos seus companheiros diários, cujos interesses e paixões iam de encontro aos seus.
Quando em 1968, a Mãe, Maria Amélia, morre, resta José Luís e sua Mulher, Maria Isabel Dantas Dias Pinheiro. Em 1974, morre José Luís Ferin, que já tinha deitado ao Mundo nem mais nem menos do que onze filhos!... sete dos quais... abraçam o negócio do pai com a dedicação e o amor pelos livros que este lhes ensinara. Sem editar nada desde 1940, a livraria foi informatizada, tem encomendas para o estrangeiro e um encadernador, dispondo ainda de um departamento de assinaturas de revistas técnicas. Está nas mãos de João Paulo Dias Pinheiro e de sua irmã Margarida, a resistente, a centenária, a sempre elegante Livraria Ferin, que o incêndio de 1988 não transformou em cinzas, vá-se lá saber porquê.

DaLheGas

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

José Padilha



josé padilha, o realizador do filme-choque (reaccionariamente realista ou realisticamente reaccionário?) 'tropa de elite', apresentou, há poucos dias, em pleno festival de berlim, a sua obra mais recente.

de seu nome 'garapa' (nome dado a uma mistura de água com açúcar que algumas comunidades pobres brasileiras dão às suas crianças, como substituto de leite..), é, dizem-nos os jornais, um retrato justo e comovente daquilo que todos os dias fazemos por ignorar: a pobreza. neste caso, através de um dos seus mais brutais sinais - a fome.

'garapa' não nos fala - não nos mostra - a 'fome limite', as paisagens de morte que vemos regularmente na televisão. mostra-nos antes a fome que está um ou dois degraus antes nessa escala do horror: a fome que resulta da privação de uma alimentação minimamente equilibrada, aquelas pessoas que se alimentam, irregularmente, fazendo concessões diárias, interrompendo a ingestão de alimentos quando calha, não tendo acesso nem à quantidade nem à qualidade definida como aceitável pela organização mundial de saúde. no limiar da sobrevivência, pode dizer-se com propriedade.

este cavalheiro, que não conheço de todo, depois de ganhar um dos maiores prémios de cinema que existem, de ser objecto de toda a atenção mediática, em vez de ir para os 'estates' fazer filmes (ainda pode ir, claro está..), decidiu ir fazer uma espécie de osmose entre cinema directo e documentário. escolheu o seu país - esse tal país maravilhoso dos bilhetes postais e de tudo aquilo que, de facto, o brasil tem de maravilhoso -; escolheu um tema de que ninguém gosta de falar em abstracto, quanto mais de ver em concreto..; escolheu uma abordagem, ao que me dizem, de um respeito pelas pessoas retratadas que é incomum, dado o contexto muitíssimo delicado que a película (ou o digital) capta.

não te conheço de lado nenhum, volto a frisar. mas, caro josé padilha, és um homem que merece o H. sabes porquê? porque o gesto é tudo. e um gesto é muito, é tanto.

Deus te pague.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Dancem com ele

Matt Harding chegou à fama através do Youtube. Nada de muito novo, portanto. Talvez já tenham ouvido falar neste homem. Mas para quem não conhece, Matt deu duas voltas ao mundo e por cada sítio que passou deu-se ao trabalho de dar uns pés de dança. Na primeira volta, em 2006, Matt dançou sozinho. Na segunda, já patrocinado, pediu a quem por ali estivesse que dançasse com ele. Eis um resumo da 2ª aventura que demorou 14 meses e passou por 42 países.



Já agora, faça zoom só na produção dos passos de dança na companhia de alguns “homens de peruca Huli” (tradução literal de “Huli Wigmen”) nos confins da Papua Nova Guiné.



Uma boa maneira de percebermos que vivemos todos no mesmo mundo.

Sorriam. Tenham um bom dia.

Mónica Bello

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Largo da Boa - Hora

Sento-me neste meu banco.
O Sol incide, a calçada acolhe e reflecte a minha sombra, espectro negro que delimita o contorno de mim, preenchendo a breu o espaço que pelo chão vou assim ocupando.
Detenho-me a olhar esse preenchimento escuro que é imagem e delimitação, e que contrasta com a luz e claridade com que faz fronteira, nessa calçada que no mais permanece indiferente e alva.
E, num repente, acolho e afago essa sombra, porque descubro e sinto que esse breu é manto generoso e cúmplice que alberga e esconde, da devassa e pagode, certa essência própria, que requer a descrição de um negrume pelo chão, discreto e confundível com tantos outros que o Sol vai generosamente distribuindo.
Num gesto de apreensão de uma possível verdade e vontade, assumo que a sombra que me projecta na calçada não é apenas, e tão só, o fenómeno físico da reflexão dos raios solares incidentes sobre o meu ser, mas, mais do que isso, é um diapositivo, um diaporama de toda uma parte do meu eu, o qual, repudiado da construção sólida da minha esfinge pública, só lhe resta seguir-me, como um enjeitado de lucidez e consciência, pelo chão dos meus caminhos.
A sombra é cárcere de uma parte que, não tendo valia para estar no “eu” que se apresenta, segue rasteira, discreta e fiel, porque sabe que leva consigo uma parte real que forma e completa aquele que sombreia.
A sombra acolhe os expulsos da idealização social, da ambição de perfeição, dos paradigmas da virtude. É ela que guarda e transporta os medos, as infantilidades, as fraquezas, os descaminhos, as cobardias, os anseios, as quebras, as ambições, os desvarios, os caprichos, as fantasias. Em suma, as loucuras de cada um.
Cada um é, cumulativamente, o “eu” real e a sua sombra.
A sombra de cada “eu” pode variar, como varia a sombra de qualquer objecto com a posição do sol durante o seu iluminar. Sombra enorme, maior do que o “eu”pelo nascer ou fim do dia, ou bem pequena e filiforme pelo meio-dia.
Admito que importe para a felicidade, para a paz, para a coerência e compromisso das nossas vidas, que a sombra de cada um seja a sombra do meio-dia e não a enorme do nascer do dia.
A sombra imensa que nos domina e ultrapassa em tamanho deixa de ser um secreto esconderijo de um inevitável íntimo, para ser um fardo, um pesadelo, um adamastor.
Diz-me que hora de sombra é a tua, dir-te-ei a coerência e paz da tua vida.
Vamos, pois, restringir a nossa sombra, para que ela fique no meio-dia, no limite, portanto, da intimidade, secretismo, reserva a que todos temos o direito para o saudável exercício do individualismo, não publicável.
Para essa dimensão ajustada da sombra, é evidente que o maior contributo provirá da selecção dos valores que cada um faça, do cultivo de virtudes a que se dedique, da renúncia que consiga, ou seja, e resumindo, da eleição e vivência ética, moral, filosófica, religiosa, social que inspire cada um, e a que ele se subordine voluntária e dedicadamente.
Mas não é dessas escolhas, desses critérios, que eu queria aqui tratar. Queria partilhar duas ideias para a boa dimensão da sombra; queria meditar sobre dois particulares que tenho por importantes.
Para tanto, preciso ainda de fixar um pressuposto, precisamente que cada um já delimitou o conteúdo da sua sombra pelas tais opções éticas e demais que referi. Ou seja, a sombra está preenchida com o que resulta da natureza, formação, opções, ministérios de cada um. Agora há que reduzi-la para gerar mais felicidade, paz, coerência e verdade.
A primeira ideia é a de que podemos, e até devemos, incorporar no eu, visível e público, parte do que por pudor, hipocrisia, subserviência ao politicamente correcto relegamos para a nossa sombra.
Efectivamente, os hábitos, costumes, modos de vida, opiniões, pensamentos, sentimentos que sejam discrepantes, desconformes, até opostos aos da maioria, aos dos que nos são próximos nos vários círculos em que nos inserimos, não têm que rastejar na sombra e ser exercidos em secretismo por medo do que os outros possam pensar ou julgar.
A medida da nossa revelação aos outros não deve ser condicionada pela sua reacção, pela conformidade a um padrão pré-estabelecido e considerado conveniente, mas sim em privilégio à autenticidade, à verdade de cada um.
A diversidade numa comunidade enriquece, a particularidade soma valor ao grupo, a excentricidade revela oportunidades, o singular distingue.
Numa comunidade saudável, haverá lugar, espaço, aceitação para a diferença. Cada um deve e pode exercer-se como realmente é, em liberdade e sem pudores ou vergonhas.
O dever/querer agradar e estar alinhado com todos, com o padrão regra, transforma-nos em marionetes de peças de teatro, em embustes de pessoas, em hipócritas, sempre reprimidos e inevitavelmente maledicentes de tudo e todos, porque descontentes na nossa própria expressão.
A coragem de viver como realmente se é, de não se fazer fretes para agradar, de não se apagar num cinzentismo pardacento, em nome de uma pretensa harmonia e bem-estar, é uma atitude que “primeiro se estranha, mas depois se entranha” no colectivo, tornando-o realmente forte, coeso, dinâmico e verdadeiro.
Qualquer colectivo somente terá autenticidade e fortaleza quando um sorriso for de facto um rir, uma lágrima um chorar, um abraço um afecto sentido, um não uma recusa peremptória, e um sim um querer efectivo.
Quanto menor for a pantominice social, menor será a sombra que cada um carregará.
Se todos assumíssemos a libertação da respectiva sombra, com humildade e genuinidade, ficaríamos espantados com a revolução que se produziria nas relações, nos grupos, nos meios. Deixaríamos de ser patinadores no gelo das convenções, para sermos mergulhadores no âmago da condição humana.
O segundo pensamento vai no sentido de que o remanescente da nossa sombra, e que, como tal, deve ficar por corresponder à reserva de intimidade, é plano, território por excelência para ser revelado, partilhado e convivido com aquele ou aquela que amamos, numa cumplicidade existencial que dignifica, engrandecerá e fortalecerá, tornando única e sólida a relação, além de bem divertida…

ATM

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

História com meio elefante

O elefante ficou a meias.

Só dava despesa.

Assentou: "meio elefante" e bebericou a Macieira.

A memória é assim. Segura pedaços da vida e deixa os outros envelhecer.

Parece tarefa importante. Mas é ao calhas, não se lhe vê razão nas escolhas.

Do circo acabado e da divisão dos trastes, lembrava-se só daquele registo de metade de um elefante e do golo de brandy.

Fresco como se estivesse a acontecer.

E tinha havido tanta outra coisa...

Mas estava a ver o elefante. Enorme e velho como sempre.

Tentou ouvi-lo.

O passado foi-se aproximando já com som. O latido dos caniches primeiro, um relinchar de burro. A arca de fatos de trapezista. Cheiro de pipocas. Uma procissão de caras vagas a aparecer.

Repartiram tudo. E, no fim, o elefante.

Ficou a meias. Só dava despesa.

"- Tratas tu da palha."

Um vestido verde muito claro levemente estampado a côr-de-rosa e os olhos castanhos baixos a seguir a colher pelo café.

Ficou a vê-la devagar.

Não havia mais nada.

"- Trato eu da palha."

JCN

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália; data sem interesse, mas podia ser Dia de Ano Novo chinês

Confesso que nunca a frase popular só visto, contado não se acredita, fez tanto sentido na minha vida. Quando entrei no quarto exclusivo de Yuni Siyu e vi o trapézio fixo ao tecto, oscilando mansamente num vaivém, é que confirmei o rumor: havia actividade circense naquela assoalhada.

Yuni Siyu é uma chinesa de Dahengqin Dao, uma ilha ao largo de Macau. Sei que as negociações para a sua admissão na Fábrica da Ilusão foram difíceis, longas, exigindo uma paciência oriental. A rapariga, para além de tudo o que seria normal e comum às outras contratações, exigiu um trapézio, dada a sua passagem pelo mundo do circo. Bastava algo simples, como um baloiço de criança, colocado num local específico e definido através de cálculos precisos em função da situação da cama. A Dra. Clara ficou rendida quando ouviu do lado de lá do mundo duas frases proferidas num inglês com forte sotaque:

- Nunca viu nada assim. Não se arrependerá.

Não é fácil descrever o corpo de Yuni Siyu, porque não sei se aquilo é um corpo… No esplendor dos seus exercícios de aquecimento contorce-se de tal forma que duvido que a cabeça, o tronco e os membros não tenham mudado de sítio relativo. Tem um corpo franzino, de adolescente, elástico para além de tudo o que seria normal, e, quando caminha pelo estabelecimento, exibe uma leveza impossível, como se fosse uma brisa ligeira de fim de tarde que entra por uma janela que se abriu.

É a operária preferida do Sr. Vítor, um mestre-de-obras com uma riqueza evidenciada acintosamente, construída em serões eficazes com autarcas sem escrúpulos, multiplicada com habitações de gosto duvidoso e qualidade incerta. É um homem gordo, com manchas teimosas de suor na camisa. Limpa permanentemente o pescoço luzidio com um lenço de papel que observa posteriormente com um interesse científico. Quando entrou na Fábrica da Ilusão pela primeira vez chegou-se ao balcão, atentou com um ar desconfiado na minha cicatriz e na minha perna, como quem vislumbra uma fissura indesejada numa parede – sendo que o indesejado não está na fractura, mas na sua visibilidade - e manteve um monólogo que não abria espaço a respostas:

- Diabo desse olho! E coxa, também… Mesmo que veja, chega lá devagar. E se quiser ir depressa, também não vê por onde anda. Chiça! Olhe lá. Ouvi dizer que anda para aí uma chinesa. É essa que eu quero.

E tirou do bolso das calças descaídas um rolo de notas amachucadas, presas por um elástico, com que gosta de evidenciar o poderio económico e o direito à chinesa - depois de uma feijoada de chocos regada com um tinto da Bairrada.

Nenhuma das raparigas gosta do Sr. Vítor. É desagradável, pouco higiénico, prepotente – e não tira as meias enquanto está na cama. Yuni Siyu não se importa de receber o industrial da obra e explicou-me porquê.

Ao chegarem ao quarto o cliente despe-se rapidamente – mantendo as meias – e deita-se arfante na cama, limpando com uma frequência esfriamentosa o suor das axilas e do pescoço. A chinesa mantêm-se de pé em frente à cama e começa a despir-se com um vagar perturbante e um sorriso felino. Quando retira a segunda peça já começou o exercício de contorcionismo, pelo que o Sr. Vítor confunde a anatomia da rapariga e a nudez das partes. Aquilo que para os outros seria um número de circo, para o cavalheiro é um erotismo popular que ele evidencia, entre outros, através de um salivar crescente e de uns olhos que piscam sem frequência definida.

Yuni Siyu gatinha então para a cama ao som do seu próprio ronronar e do arfar ruidoso do parceiro. No preciso instante em que este se atira para cima dela, naquele desejo incontrolável de sentir um corpo tenro e jovem, propiciador de tantas fantasias juvenis, a chinesa agarra o baloiço e, num passe de mestria, foge-lhe das mãos. Nos 15 ou 20 minutos seguintes revela a sua experiência no circo: baloiça, dá cambalhotas, agita-se de cabeça para baixo, desvaira o cliente tocando-lhe sempre ao de leve como se fosse uma pena, levando-o a prazeres inauditos só com a visão de uma nudez contorcionista.

Quando o tempo está a chegar ao fim, o Sr. Vítor está banhado em suor. Yuni Siyu pendura-se no trapézio pelas mãos e executa uma espargata impossível de amplitude e resistência física. Desce até ao cliente como se fosse uma nave espacial pronta para acoplar e entoa uma toada da sua terra. No preciso instante em que alguém poderia gritar Houston, we have landed, o Sr. Vítor solta um urro, revira os olhos, estica os braços para os lados e pontapeia o ar com umas meias brancas de turco. A chinesa volta a elevar-se, confirmando o diferencial de sincronização: Houston, mission aborted.

No dia em que se estreou com a oriental, o mestre-de-obras passou na portaria, atentou de novo nas minhas falhas físicas, e encetou um monólogo interrogativo, porque não desejava resposta:

- Ver e correr não são para si… Sabe por acaso quem foi o pedreiro que pendurou o baloiço? E como é que se diz lenços de papel em chinês?

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Dia Internacional da Criança com Cancro

Hoje é dia 15 de Fevereiro, e eu não me esqueço da minha condição de membro da direcção da Acreditar. Mas hoje também é Domingo, e eu não me esqueço da minha condição de Católico. Escrevo, pois, nessa dupla condição, estando em crer que não haverá conflito de interesses.

Um pouco por esse mundo fora celebra-se, hoje, o Dia Internacional da Criança com Cancro. Um pouco por esse mundo fora mostra-se à sociedade, através das mais diversas iniciativas, o drama dos que são confrontados, demasiado cedo, com uma doença que o nosso imaginário associava a adultos, se não a velhos. Sabemos agora que não é assim e surgem, todos os anos, entre 250 a 300 novos casos.

Quase três centenas de miúdos dão início, anualmente, a uma penosa caminhada de sofrimento, tratamentos, hospitais, isolamento, afastamento do seu meio familiar e social. Quase três centenas de famílias vivem a descrença, a dor, a angústia. Mas, e também, quase três centenas de sorrisos de esperança se abrem na fé de um futuro risonho. Por último, quase três centenas de palavras iguais que nascem no íntimo de cada um destes protagonistas: acreditar.

A Acreditar, disse-o uma vez, subsiste pelos piores e pelos melhores motivos: porque existem crianças com cancro, mas porque existem Amigos - empresas e particulares - que não nos deixam fechar as portas por falta de condições. Aparece um donativo, um voluntário, um mecenas, uma ajuda em equipamento, uma divulgação. Surge, então, uma casa em Lisboa, a casa de Coimbra está prestes a inaugurar e o Porto já está à espreita. E há mais crianças com a hipótese de estar connosco e que à pergunta “onde moras?” poderão responder “numa casa longe de casa”.

O post de hoje é dedicado à Acreditar, como um todo e, em particular, ao S., que não conheço, mas que é filho de dois amigos, e que juntou recentemente o seu nome ao de todas as outras vítimas de cancro.

***

O Evangelho do dia de hoje começa de uma forma particularmente simbólica para este Dia Internacional da Criança com Cancro:

Naquele tempo,
veio ter com Jesus um leproso.
Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe:
«Se quiseres, podes curar-me».
Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse:
«Quero: fica limpo».

Todos nós, que passámos por este sufoco da doença nos nossos filhos, gostaríamos que eles fossem o leproso a quem Jesus, compadecido, limpa e cura. Como crente, estou certo de que Deus não está por trás do drama que me bateu à porta. Assim sendo, a minha história pessoal impele-me a rezar pelo S. (que aqui representa todas as crianças), para que não sofra e se cure, mas, e sobretudo, pelos pais, para que não percam a esperança, o ânimo e a força, e para que saibam encontrar o sentido para este sofrimento. Para que não se deixem vencer pela raiva e pelo desalento e que a fé, que sei que têm, não os abandone nunca. A lepra que tantas vezes nos consome nem sempre é uma doença do corpo, mas do espírito.

***

No dia 16 de Setembro de 2008 estava no Zimbabué, e os acasos significativos da vida levaram-me à ala das crianças com cancro de um dos maiores hospitais de Harare. Não é uma romagem ligeira para este Domingo solarengo e convidativo a pensamentos alegres, mas não resisto, no entanto, a desafiar os meus queridos e pacientes visitantes a (re)lerem este texto. http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.com/2008/09/sade-que-no-se-deseja.html. Porque hoje é o Dia Internacional da Criança com Cancro – aqui em Portugal, com tudo o que temos, mas também no Zimbabué, onde nada existe.

Que o Adeus, até ao meu regresso..., com que me despedi tantas vezes, seja a palavra de ordem das crianças que partem para uma aventura para a qual são novas demais.

JdB

sábado, 14 de fevereiro de 2009

DaMeGas

pena que não escreves. tenho saudades de como te amanhas com as palavras, de ter de voltar atrás para seguir em frente, a ver se te entendo, que nada me escape. deixas-me publicar-te? ao tempo que não me sacode os ombros a tua prosa. deixa-me por-te ao sol agora que anda aí e até os fundos dos blogs parece que foram a corar. cá vai, sobre a já alva beleza do Adeus, seguro de que os nossos bloyeurs hão-de gostar.

Tens o sorriso da tua mãe. Aquele mesmo que lhe vi quando pela primeira vez me descobri perdido por ela para sempre, perdido de mim, do mundo e da própria vida, amarrado sem esperança de fuga possível. Trouxe-lhe um gatito apanhado na eira, enjeitado e ramelento, faminto de leite e aconchegos e larguei-lho na bolsa da saia em pano riscado: é teu.

Tinha a tua idade e lançou-me o sorriso de perdição que me deixou dias em apertos e cuidados, que sabia eu até aí desta coisa que nos dá pelos filhos, que fica para vida, que nos tira o tino e o sono, que nos esquece de nós. Eu tinha avisos, tinha a história do mundo a falar-me desta força maior, mas, tonto, que nunca me dera para entender. Senão nesse dia ao fim da tarde, gato nas mãos, cheiro a campo vivo, a tua avó na pressa de nos ver à mesa, “para dentro, venham para dentro”, e eu caído como um tordo, desfeito pelo sorriso da tua mãe. Chamou-lhe Pirraças, e Pirraças ficou, durante anos atrás da rataria e do calor da lareira. Até que se foi sem deixar rasto, como sabem ir os gatos.

Teimosa que sempre foi, que também és, que também sou, que o diga a tua avó, que não lhe digas que o disse, que nunca mais se calará, não houve mais gato que aparecesse que não lhe chamasse Pirraças. Que é assim a vida, que o mundo se faz e refaz, teimava, que por aqui andamos hoje, que amanhã nos vamos, que o momento nos faz melhores ou piores para sempre, que sozinhos nada somos, que mais vale a história que se vive e que se conta, que se ensina, do que a história que se cala, que se chora às escuras. Que se tem de partilhar tudo, que esmiuçar lamentos, que largar amarguras calcadas, culpas de outros entregues a quem pertencem. E eu, ensinado a calar, a respeitar, a não apontar, a que acima não se questiona, a que os pais tudo sabem, a que tudo nos fizeram pelo bem que era para nós, a ouvi-la, a vê-la, a já não ver nela a menina da saia em pano riscado, até que ela sorria e, que sei eu, que sabe lá ela…

Que terá razão. Que estes tempos não se entendem. Eu não os entendo. Não me ensinaram a esperá-los. Não sei como os viveria se fossem meus. E o que menos entendo é que o sorriso dela tenha a força de os viver, de lhes sobreviver, de continuar em ti. Qual Pirraças. Quem lhe terá dado o sorriso? Que terá sido do Pirraças?

Para que havia ela de se pôr logo a querer tudo naquele rompante, fazer-se à vida, um dia com a saia em pano riscado, a cheirar a bolo roubado antes do lanche, no outro porta fora, mala aviada, curso a meio, o rapaz à espera, que não ma roubava, que era emprestada que a levava, que o ganhava a ele, que não a perdia. Que, perdido, estava ele, estivesse certo, ela que vertesse uma lágrima que fosse, que perdesse o meu sorriso, que viesse largar-me amarguras com culpas de outros, de outro, dele.

Que sabíamos lá nós da vida dela, que prá semana talvez viesse num pulo, que talvez desse, que não sabia, que era uma lufa-lufa, que eram outros os tempos.

Que tu vinhas aí. Que a desculpasse. Que tinha o meu sorriso a falar-lhe desta força maior, mas, tonta, que nunca lhe dera para entender. Que soubera ela até aí desta coisa que nos dá pelos filhos, que fica para vida, que nos tira o tino e o sono, que nos esquece de nós. Que tem medo. Por ti. Por este mundo. Por ti neste mundo. E a tua avó na pressa de nos ver à mesa, “venham cá para fora, venham cá para fora”. Vamos lá Pirraças. Como se fosse esta a primeira vez que o mundo sabe desta coisa que nos dá pelos filhos. Como se o mundo não se desfizesse e refizesse. Sempre.

Luisa Jacobetty

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

photomaton

nasceu nos confins do bairro, com alma de poeta e chispa de estadista.
é um senhor, dominando por igual línguas eslavas e a semântica do fado castiço. um cidadão do mundo, ansiando pelas delícias do estrangeiro, quando no bairro; e suspirando pelo bairro, quando deixa a rua que lhe calhou em sorte.
gosta de estar sempre a partir, porque aprendeu que é o caminho mais curto para chegar. de resto, gosta de caminhos longos e sinuosos - beleza óbvia não é com ele.
teve um sonho antes do tempo: fundir o bairro, fazê-lo passar pelo forno, com o tempero de cravo-bem-temperado. "slow food & slow living", talvez..sujeitinho metafórico, podia ter sido amigo do antónio variações. leu os dadaístas, os surrealistas, os modernistas, os futuristas. depois esqueceu-se do que leu, e começou a ler as páginas amarelas dos jornais herdados. descobriu cedo que as notícias de ontem serão as de amanhã e pôs de lado os jornais. ficou-se pela poesia e pela música. nunca se arrependeu.
não gosta de política, nem de trabalho, que é uma forma suja de fazer política. é um "dandy" intemporal, alguém que se passeia em traje domingueiro pelas quarta-feiras da vida.
gosta de tudo e gosta de todos, até prova em contrário. daqueles que pensam por si, gosta ainda mais. certo dia, trocou as suas gatinhas por dois sem-abrigo que ainda sabiam multiplicar de cabeça e tinham remotamente ouvido falar de kafka. achou que era um acto de elegância divina - é um esteta.
quando olha à sua volta, perde o apetite. por isso é um tipo elegante, dir-se-ia um homem de bom corte. come pouco, é frugal, guarda-se para os amanhãs que cantam - e que, alguém lhe jurou em menino, hão-de-vir.
personagem barroco - logo ele que em tempos achava-se mais do género helénico, fazendo do bairro a sua acrópole -, certa vez, mudou-se por um dia para a zona do coliseu - sempre era uma aproximação ao esplendor de roma. depois chateou-se e acendou o segundo cigarro (nunca fumou o primeiro). olhou o céu em fogo e incendiou-se por dentro. foi assim que, desde esse dia, não mais saiu do bairro. lembra-se bem do sabor a sonhos queimados. deixou de fumar nesse mesmo dia.
é um adepto radical de tudo o que é anacrónico, porque sabe que no passado não se encontram coisas, mas que só o mesmo lhe dá a pista decisiva para rumar para o outro lado.
gosta de poesia aplicada e de música abstracta. acha que os adjectivos estão bem assim, por isso considera-se um rapazola conservador - num tempo de mudança ousa a constância.

não existe, mas se existisse seria uma boa razão para se existir também. sujeitinho lúcido e de bom-gosto, irritante e irradiante,
visto de relance através de uma janela de fevereiro.

gi

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Comentário ao Largo da Boa-Hora

Um dos nossos comentaristas habituais, que assina simplesmente "t", contactou-me para indagar da possibilidade técnica de por uma fotografia num comentário. Depois de consultadas as entidades competentes e devorada a literatura sobre o assunto, reconheci a minha incompetencia para o desejo alheio. Não sei se é possível. Assim sendo, fica aqui o comentário - em versão ligeiramente diferente - ao Largo da Boa-Hora desta última 4ªfeira.



O editor e dono deste estabelecimento, JdB.

Outro dia

Revejo este anúncio de vez em quando. Quando os dias – mesmo os dias de sol – se complicam e as complicações parecem não ter saída. É nestes dias que me apetece fazer o que se pode ver em anexo. Que é como quem diz, arrumar o dia. O assunto. A máquina infernal que não se pode desligar. E faço de conta que em vez de um iPhone, dou o mesmo tratamento ao Nokia. Um minuto e trinta e sete segundos de paz e sossego. Amanhã é outro dia.

Mónica Bello

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Largo da Boa-Hora

Este meu Largo também tem horas de trânsito de veículos, precisamente os movimentos daquelas furgonetas de cor amarelada, todas fechadas, opacas, com as suas estridentes sirenes e que transportam os que saem do tribunal condenados à perda da liberdade.
Esses condenados fazem a viagem a caminho do degredo. Durante tempos por vezes bem longos estarão isolados do seu mundo, do seu habitat, dos seus amores e afectos, das suas companhias, das suas vivências, profissões e de todo o mais que forma a livre existência do ser humano.
Vão suportar uma vida definida pelo estigma de ser castigo e formatada na ambição da sociedade de ser meio de recuperação e regeneração.
Vão ser desnudados e despojados de tudo quanto não seja essencial à sobrevivência, identidade de reclusos.
Vão ficar sós, permanentemente confrontados consigo próprios, numa intimidade e introspecção inevitáveis - porque a isso condenados - em solidão imposta pelas grades e pelo abandono dos que ficaram do lado de fora e antes os preenchiam.
A cada passagem de um carro celular pelo meu banco sei que ali vai um desgraçado a quem as voltas da vida o levaram a destruir tempo da sua vida.
A sociedade, pelo braço do direito penal, é dura, cobra pelos crimes o bem mais precioso do delinquente, precisamente a existência. Cada sentença de condenação é uma acha na fogueira que queimará uma parte do viver do condenado. Encurtar a vida na proporção do mal cometido é a regra.
Entre o fechar do ferrolho no encarcerar, e o seu abrir no libertar, não sucederá mais do que irreparável desperdício de vida.
Esta introdução não é para tratar, e muito menos valorar, o tema da prisão penal ou do prisioneiro igualmente penal. Esses temas poderão um dia ser reflectidos, não hoje.
Se iniciei este escrito por essa temática, é porque pretendo abordar, com auxílio dessa imagem, repito extrema, uma outra realidade que sucede e que aqui partilho pelas suas inesperadas semelhanças.
Deste meu banco, como já disse, vejo também a Rua Nova do Almada, e a verdade é que por essa desfilam viaturas de outro tipo, cor, marca e modelo, mas que nem por isso deixam de ser, afinal, carros celulares.
Efectivamente, passam constantemente automóveis de luxo, de marcas nobres, dispendiosas, que, nalguns casos, tal como os outros carros celulares, têm por passageiros prisioneiros.
Esses são os condenados pela ambição do sucesso a todo o custo, da notoriedade convenientemente publicitada, da riqueza acumulada para ser ostentada, da concorrência, da melhor performance.
São aqueles cujos carros celulares os transportam de cela em cela, num trânsito carcerário bem demarcado e conhecido, cujo epicentro é a empresa onde dirigem, e as delegações os restaurantes e clubes onde agenciam, negoceiam e se exibem, a casa onde pernoitam e os poisos e equipamentos onde fingem lazer.
O seu delito foi erigirem o sucesso profissional, a notoriedade, a riqueza como objectivo primordial das suas vidas. Construíram-se e aperfeiçoaram-se como máquinas para essa realização, e desconstruíram tudo o que neles pudesse ser empecilho, óbice, dificuldade à plenitude desse fim.
Livraram-se de tudo o que não contribuísse, essencial e eficazmente, para o fim da “glória”; reduziram todo o seu espectro luminoso a um foco incidente sobre o “relatório e contas”, cuja excelência de resultados e retorno ao accionista decreta e proclama o êxito atingido, a meta conseguida.
A pena por tal delito é as suas vidas terem-se convertido numa escravatura ao serviço do soberano “objectivos “, vigiadas pelos carcereiros “orçamento e plano de actividades”
Não pensam, não sentem, não vivem mais do que o serviço ao soberano escolhido, com temor e subserviência aos carcereiros que os guardam.
Recebem as muitas moedas combinadas, a menção e reconhecimento da nomenclatura, o aplauso dos pares, a reverência daqueles a quem venceram e a admiração daqueles que conduzem.
Mas nem por isso deixam de ser prisioneiros, a cumprir em cada dia a respectiva pena.
São quotidianos alucinados, de imensa dureza, de enorme trabalho, de plena dedicação, de profundos estudos e análises, de muitas e difíceis decisões, de opções de risco, de apostas, de intuições, de reportes e outras sindicâncias, de comparações e medições, de empenhos e compromissos. São dias seguidos de dias, e mais dias, de altíssima pressão, sempre em carga, sempre em produção, sempre em acção, sempre contra o tempo.
O encargo do sucesso é a grilheta que os amarra e paralisa, impedindo-os sequer de ter a veleidade de viverem as outras dimensões da essência humana.
Trazem sempre uma calculadora para acertar uma conta, mas nunca um lenço para enxugar uma lágrima de quem precise, porque próprias já não têm.
Tal como os desvalidos condenados pelo tribunal, perderam a liberdade de viverem, de verem, de sentirem o tanto que a humanidade e o mundo têm para revelar e desfrutar. Perdem as vivências e experiências alternativas, complementares, acessórias que a vida tem para propiciar e que podem ser somadas e convividas, desde que haja oportunidade, disponibilidade, atitude, para tanto, ou seja, desde que haja liberdade.
Em cada materialidade conseguida esvai-se uma oportunidade de espiritualidade, porque ninguém tem o dom da ubiquidade. Não é possível estar centrado “no caixa” e “na alma” ao mesmo tempo, e se somos só caixeiros nunca podemos ser poetas.
E toda essa perda de vivência e espiritualidade, todo esse alheamento do que não é focado ao objectivo master do sucesso, endurece, desumaniza, torna empedernido.
Em suma, tal como com os sentenciados penais, encurtar a vida na proporção da gravidade e culpa do êxito alcançado é a regra.
Também para estes, entre o fechar do ferrolho no encarcerar e o seu abrir no libertar - se este chegar a acontecer - não sucederá mais do que irreparável desperdício de vida.
Por tudo isto vou passar a desejar sorte, quer quando passarem as furgonetas com os presos penais, quer os carros com os presos sociais, e, sobretudo, pedir que nenhum deles tome consciência da brevidade do seu tempo, do seu efémero, quer de obra quer de vida.
Para ambos a minha compaixão.

ATM

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

História para adiar

Aquele ventinho que anuncia o lado de lá e agita os cães encontrou-o ainda a palpitar.
A morte afinal apanha-nos vivos, descobriu.
Não lhe fixou o nome nas apresentações, mas apertou-lhe a mão estendida.
A ideia era um cumprimento rápido, mas a coisa prolongou-se.

«- Más vale que no te retrases.»

Outra descoberta: a morte, como era de esperar, falava espanhol: nem bom vento, nem bom casamento …
Sentou-se na cama escangalhada, sempre de mão dada.

«Quanto tempo temos?»

Ela remexia distraída o saco com a mão livre.

«- Já ouviu falar do Dr. José Maria? O Antunes…»

O saco continuava enorme e interessante.

«- O Dr. Antunes um dia sentiu-se mal. Estava a comer um peru e sentiu-se mal. Um peru assado.
O Dr. Antunes contou-me depois que, no momento seguinte, as pessoas estavam todas de preto e a dizer bem dele.
Diz que foi um flash só. Uma dorzita acima da barriga, as pessoas a dizer bem dele e daí a pouco já estava benzinho e de volta ao peru.
Como é? Às vezes arrependes-te? Enganas-te?»

«-Quizá. Es possible. Todo es possible.»

«- Já não lhe soube ao mesmo… Quero dizer, o peru. Disse-me o Dr. Antunes.
Certo é que, logo no dia seguinte, fez-se retratar numa estátua de tamanho natural.
Diz que ficou outro homem. Mais atento à importância relativa das coisas.
A estátua ficou muito bem no Jardim 7 de Maio. Do lado de lá do chafariz.
Que tal? Assamos um peru?»

JCN

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

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O Adeus até ao meu regresso ainda não é uma sucursal dos Centros de Emprego, não se substitui ao caderno do Expresso nem do Diário de Notícias. Mas, em momentos de crise como aqueles que vivemos hoje em dia, se pudermos fazer a ponte entre quem se oferece para contratar e quem precisa de ser contratado, já prestamos relevantes serviços à Nação.

Aqui fica, por isso, uma oferta de emprego que mão amiga me fez chegar. Pensem se querem, se conhecem alguém, se o primo do amigo da sobrinha da vizinha poderá estar interessado. Estou convencido, pela informação de que disponho, que poderá ser aliciante.

De que está à espera? Responda já!


Lanterna Vermelha

Diário de Amália. Data irrelevante, mas podia ser 1 de Dezembro.

Está, seguramente, para além dos 60 anos. É um homem elegante, que se aprimora a vestir: um casaco espinhado verde-seco e uma gravata com motivos de caça em cima de uma camisa aos quadradinhos, ou um azul-escuro assertoado, com um lenço clássico, destes que não passam de moda, a tapar um pescoço levemente enrugado.

Senti-lhe, da primeira vez que o vi, um estremecimento com a minha cicatriz e a minha perna coxa, como se fosse o espanto incomodado de um monárquico perante a surpresa de um amanhecer republicano. Foi um instante, somente. Recompôs-se, aproximou-se do balcão e conversou comigo como se fossemos conhecidos de longa data. Percebia-se que era um homem com mundo, habituado a ambientes diferentes, onde se sentiria à vontade. Mais, pondo o seu interlocutor à vontade. Por ali se demorou cinco ou dez minutos, compondo os punhos da camisa para que se mantivessem discretamente abaixo da manga do casaco.

Quando inaugurou as visitas a esta Fábrica da Ilusão (regressa agora de dois em dois meses), pediu para falar com a Dr.ª Clara, que o recebeu com naturalidade. Veio despedir-se dele à porta do escritório com uns olhos sorridentes, um aperto de mão franco e um

- Sim, senhor conde, pode ficar descansado.

Voltando-se para mim, proferiu um só nome:

- Carmelinda.

Esta operária, alentejana de Bencatel, tem uma altura média, um peito generoso e uma cara jovial e sardenta. É dona de um sorriso franco e aberto a emoldurar uns dentes encantadoramente brancos e algo incertos. Está a fazer um mestrado em História da Alimentação, desenvolvendo um tema interessante: “O comer alentejano na década de 60 - a criatividade que disfarça a miséria”.

A Carmelinda vem buscar sempre o senhor conde à entrada, seguindo os dois de braço dado para o quarto onde estarão cerca de uma hora. Lá dentro o cerimonial é único, e só a Dr.ª Clara, a alentejana e eu é que sabemos o que se passa. Sigilo que faz parte das regras e que, sendo infringido, é motivo de dispensa imediata.

O cavalheiro senta-se no sofá, ajeita os botões de punho e as calças, que o vinco não se quer prejudicado, e dá uma indicação não verbal para que tudo se inicie. Nessa altura, a Carmelinda despe-se com um vagar calculado, abrindo botões e fechos

- Não se importa dá-me uma ajuda, senhor conde?

aliviando prisões, revelando à elegância do cliente um corpo moreno e cuidado. A coreografia é toda estudada e desenrola-se num semi-silêncio confortável. Já na sua nudez plena, a rapariga dá uma volta pelo quarto, soltando pequenas gargalhadas, perante o sorriso do senhor conde que nunca regateia um elogio simpático:

- Estás cada vez mais bonita, Carmelinda.

Ela ajeita os cabelos, descaindo-os discretamente sobre a generosidade dos seios e senta-se no chão alcatifado, aos pés daquele sexagenário. Então, durante os 45 minutos seguintes, a Carmelinda fala – num alentejano cerrado – sobre a sua família, as histórias da mãe, da avó, do comer miserável dos ganhões, da vida difícil e do trabalho de sol a sol, da apanha da azeitona, do montado de sobro, das caçadas, da brancura comovente das casas da sua terra, do calor e do frio, da fome, da senhora condessa, do preço da cortiça, da sopa de beldroegas, da lentidão da vida.

O senhor conde, sentado na sua poltrona, vestido com o seu casaco espinhado, as suas calças engomadas e a sua simpatia natural fecha o olhos e deixa-se invadir por sentimentos vários, em função da conversa nunca interrompida da alentejana: um sorriso nostálgico, uma lágrima teimosa, uma gargalhada sonora, uma advertência mansa e carinhosa:

- E se um dia perdes o sotaque, Carmelinda? Como vai ser?

Ela afasta a premonição, solícita, e continua o seu monólogo saudosista e regional. Ao fidalgo resta-lhe lembrar um passado de que já não sobra nada, a não ser um pedaço de cortiça que ele afaga discretamente no bolso do casaco, como se fosse a última peça, para além de um sotaque, que o mantém vivo. Cortiça que já foi sua, e que se escoou com tudo o mais numa mesa de jogo, enquanto um croupier sorria numa gentileza semanal:

- Vai a jogo, senhor conde?

Quando terminam, ele pousa-lhe um beijo ternurento na testa e afasta-lhe os cabelos para contemplar, pela última vez naquela noite, aquele corpo moreno, sardento, esplendoroso, que se lhe oferece desnudo à visão, como um latifundíário que olha uma seara que já não é sua, mas de um poker de reis adversário tirado à última carta.

Passa sempre ao balcão para se despedir, e fá-lo com elegância, simpatia e educação. Da última vez que cá esteve beijou-me a mão, enfrentou a minha cicatriz com a simplicidade dos homens que são maiores do que as suas desgraças e inquiriu:

- Boa noite, Amália e até daqui a dois meses. Sabe se temos cá alguém de Vila Viçosa?

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A imperfeição e o esforço

Pertencer - ou ser - Igreja Católica é ter a certeza da não perfeição das coisas. É conviver com regras com as quais nem sempre concordamos e que por vezes mudam com uma lentidão exasperante; é encontrar pessoas - consagrados e leigos - minados de incoerência entre aquilo em que dizem acreditar e aquilo que praticam.
Mas, pertencer - ou ser - Igreja Católica é, também, a certeza de que há uma mensagem maior do que nós, há um modelo que nos ilumina e inspira e que o sábado se fez para o Homem, e não a inversa; é, ainda, a certeza de que, como dizia alguém, um santo é um pecador que não desiste.
A minha ligação à Igreja Católica assenta nessas duas certezas: a da imperfeição e a do esforço. E assenta, também, na convicção de que Igreja somos nós, não são os outros.
Não me alongo, e reproduzo parte de um mensagem que enviei para a divulgação de uma carta que me chegou às mãos. À hora em que publico este post não sei se chegou resposta.

***


Tomo a liberdade de lhe enviar um link (http://pingamor-xiu.blogspot.com/2009/02/uma-carta-que-deve-circular.html) para uma carta publicada no blogue de um amigo. A carta amarfanhou-me ao nível do que sou - como Homem e como Católico. Na escala do desgosto (se assim se pode chamar), não há drama maior para um ser humano do que a morte de um filho. Nessa dor maior, perdê-lo por suicídio atinge foros de crueldade máxima. Só posso imaginar.
A carta publicada neste blogue revela a revolta de uma Mãe. Não perante o suicídio, que ela não entende, mas perante a recusa de um funeral religioso. Uns pais que casaram pela Igreja e que entenderam que o baptismo dos filhos fosse uma decisão consciente dos próprios, quando chegasse a altura.
Eu continuo a acreditar – e parafraseio alguém – que o braço da misericórdia é sempre maior do que o braço da justiça. E estou certo de que o Cristo a quem rezo todos os dias se afastaria da multidão para abraçar aqueles pais destroçados. E estou certo, ainda, de que acolherá o jovem que se suicidou – independentemente da recusa de um ou vários padres em rezar uma oração simples.


A tolerância ou o encanto do segundo olhar

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição da Católico.

Acontecimentos e conversas do princípio desta semana deram-me o tema para o meu post militante. Na sua crónica – excelente como sempre – desta última 4ª feira, ATM criava uma metáfora para a vida: um rio que corre perante os acontecimentos que o vão acompanhando da nascente até à foz. Gostei tanto da metáfora que a vou roubar, dando-lhe uns retoques para se conformar ao meu raciocínio. O bloguista residente das 4ªs feiras perdoar-me-á o desplante.

A nossa vida pode, na realidade, comparar-se a um rio (o David Mourão Ferreira chamava-lhe uma escada em caracol…) que passa por várias fases: riacho, pujante, quase seco, tumultuoso, sereno. Dá-me jeito, no entanto, que as margens não sejam acontecimentos, mas, apenas, os espectadores da nossa caminhada até ao estuário. Gente - amigos, conhecidos, colegas, família - por quem nós passamos nesta andança, e que derrama um olhar próprio sobre o que somos. Ou sobre o que vamos sendo.

Ora, é neste olhar próprio que está o busílis da questão. Socorro-me da metáfora: quantas vezes é que as margens (nós) olham para o rio (a vida - principalmente a dos outros) e, com a facilidade que advém da superficialidade, criticam o tumulto, zombam do riacho, desdenham da secura, diminuem a pujança? E quantas vezes é que as mesmas margens indagam sobre os verdadeiros motivos de determinado comportamento? Estou em crer que, na maior parte dos casos, estas mesmas margens se precipitam num juízo sobre o comportamento de outrem porque, simplesmente, não se desafiaram ao segundo olhar, àquele que revela as verdadeiras motivações para o comportamento alheio.

Circunstâncias próprias da vida levaram-me a cruzar caminhos com gente que tinha opções de vida diferentes da minhas. Para além de me darem o gosto da sua amizade, ofereceram-me a possibilidade do segundo olhar, de perceber que, por detrás da diferença, estava a solidez de princípios e de honestidade, a generosidade e a disponibilidade, a fiabilidade de uma mão que se estenderá sempre que necessário. Se me tivesse quedado pela ligeireza só teria visto a discrepância que afasta, não a semelhança que aproxima.

Por todos os motivos e mais algum, vou-me confrontando diariamente com as minhas intolerâncias e as dos outros: a crítica fácil, a observação ligeira, a piada na ponta da língua para comportamentos que a convencionalidade - que é diferente da moralidade - aceita menos bem. Tudo seria mais simples se tivéssemos o tal segundo olhar, acompanhado de uma ou duas perguntas simples: o que motivará tal proceder? Será que o meu juízo não é precipitado?

Há comportamentos sociais que nos parecem menos equilibrados - e expurgo destes os que são ostensivamente errados - mas que têm por trás justificações que um segundo olhar revelará com facilidade. Menciono apenas uma, por ser um dos grandes flagelos do nosso tempo: a solidão. Não o medo daquela que há-de vir com a velhice, mas daquela que já se instalou, sem que a quisessemos: a angústia do isolamento, o esmagamento de uma casa vazia e de um telefone que não toca, o silêncio de um espaço estranho e que se tornou grande demais, a sensação de abandono. Não confundamos solidão com sossego. Esta pode desejar-se, a outra foi-nos imposta.

O exercício da tolerância devia ser diário, como a higiene matutina. Nem sempre será, tal como o perdão, uma manifestação de santidade, mas pode ser um sinal de sobrevivência - connosco próprios, com os outros, com a existência. No fundo, uma vontade de nos mantermos no lado luminoso da vida. A intolerância permanente é como uma disfunção gástrica: atalha-se a tempo senão degenera.

Ontem de manhã alguém me questionava sobre o limite da nossa tolerância com os outros. Só me lembrei da resposta a idêntica pergunta sobre o perdão: 70 x 7.

Adeus, até ao meu regresso...

JdB


sábado, 7 de fevereiro de 2009

Ando a matutar

Onde te escondes menina, que nunca te vejo, que nunca te encontro lá? Onde te metes nestas tardes quentes, de sol demorado, que só me apareces quando eu regresso, morto de cansado? Que é de ti menina? Ando a matutar. Vejo-te bonita, sinto-te contente. Quem te iluminou assim de repente?

Parece que tens o sol, na cara estampado. Que andas cheia de vento no cabelo doirado. E esses teus olhos, que olhos são esses menina, que trazem o céu todo para casa? Que paz encontraste agora, diz-me só a mim, ao menos a mim, o que te arrasta do ninho para fora?

Cheiras a baunilha, falas de veleiros e de pescadores, de viagens e descobridores. Vens com batedores, com essas gaivotas por cima de ti. Deitas pela boca maresia. Ainda és mais a mesma do primeiro dia.

Nem sei o que faça menina. Se te deixe andar, se te persiga. Se te deva espiar ou libertar, sem perguntar. Como no primeiro dia. Deito-me a pensar. Se a aragem contigo nunca sopra igual.

Menina, vou-te perseguir. P’ra mim é difícil deixar-te seguir. Tu sabes que é. Diz-me qualquer coisa, levanta o teu véu. Que tardes são essas, ando a matutar, qual é o teu céu?

Não é nenhum outro que não seja o teu. Fica descansado, estou-te sempre a ver. Mesmo que ande aí, mesmo que me embrulhe na alma vadia desta cidadela. Na sua armadilha, no monstro, na bela. Ando só com ela.

Ando só com ela, juro, fica descansado. Faz-me levitar. Consegue apagar esta minha sombra, às vezes pesada. E o sol menino… o sol que me achas, trago-o p’ra te dar. Deixa-te aquecer, pára de pensar.

Lava-te de azul, desse tal que vês. São alguns bocados deste nosso rio, às vezes salgados. E o verde das árvores, as cores de um jardim, do mar, de um miradouro. É aí que me sento, em todas as tardes de sol duradouro.

Faz o que quiseres. Faz as duas coisas. Persegue-me e deixa-me voar. Não te esqueças de mim. Sabes bem que eu quero, que vou sempre ficar. A fintar as horas desejosa de te ver chegar.

DaLheGas

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

homens que são como lugares mal situados


homens que são como lugares mal situados
homens que são como casas saqueadas
que são como sítios fora dos mapas
como pedras fora do chão
como crianças órfãs
homens sem fuso horário
homens agitados sem bússola onde repousem


homens que são como fronteiras invadidas
que são como caminhos barricados
homens que querem passar pelos atalhos sufocados
homens sulfatados por todos os destinos
desempregados das suas vidas


homens que são como a negação das estratégias
que são como os esconderijos dos contrabandistas
homens encarcerados abrindo-se com facas

homens que são como danos irreparáveis
homens que são sobreviventes vivos
homens que são como sítios desviados
do lugar

homens que são como projectos de casas
em suas varandas inclinadas para o mundo
homens nas varandas voltados para a velhice
muito danificados pelas intempéries

homens cheios de vasilhas esperando a chuva
parados à espera
de um companheiro possível para o diálogo interior

homens muito voltados para um modo de ver
um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
de si mesmo
homens tão impreparados tão desprevenidos
para se receber

homens à chuva com as mãos nos olhos
imaginando relâmpagos
homens abrindo lume
para enxaguar o rosto para fechar os olhos
tão impreparados tão desprevenidos
tão confusos à espera de um sistema solar
onde seja possível uma sombra maior.


daniel faria

in 'homens que são como lugares mal situados'
edição fundação manuel leão

gi

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A bola



Cinema de Moçambique. Do realizador Orlando Mesquita. Sem comentários.

Mónica Bello

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Largo da Boa-Hora

Imagino cada um de nós como um rio. Começamos em recôndita nascente, como um pequenino e titubeante fio de água, e vamos percorrendo o nosso curso até à foz, onde, já transformados em torrente caudalosa, nos fundiremos com o mar, com o eterno.
Ao longo da viagem acolhemos afluentes que connosco se confundem e se unificam, e geramos efluentes que seguem o seu destino de rios novos.
Todo o curso, da nascente até à foz, é movimento, passagem, caminho. Cada marco da jornada tem a expectativa da chegada, a vivência da estada e a memória da ultrapassagem.
Não há eclusa ou barragem que detenha o rio para sempre; não há planície suficiente que espraie as águas, aquietando-as e fixando-as à terra. Não. Todos os rios correm para o mar e lá chegarão, aconteça que acontecer.
Paisagem após paisagem, iremos desfilando até ao encontro com esse mar imenso, belo e poderoso que nos espera e que, ao colorir-nos de azul, nos fará confundir com o céu quando formos olhados do horizonte.
Ser rio é, pois, ser movimento e vida. É viajar, cumprir um curso, um itinerário.
Sabendo o que então sabemos, o que me parece é que de nada serve, em nada altera fazermos a viagem contrariados, desconfiados, maledicentes. A viagem é para desfrutar, toda ela, é para gozar, apreciar, ir passando com ânimo, optimismo e muita curiosidade e expectativa.
Desde incertezas em que somos regato, até à serenidade de quando formos estuário, iremos percorrer paisagens tão diversas, tão inesperadas. Umas belas, outras nem por isso, umas valiosas, outras vulgares, umas excepcionais, outras comuns, umas alegres e outras tristes, ora luminosas, ora sombrias, calmas ou agitadas, serenas e dóceis ou perigosas e violentas, sob penhascos aterradores ou correndo ao lado de planícies tranquilizadoras, terras e lugares de civilização e companhia. O desfile será variado, pleno e completo.
Nesta viagem, tudo nos vai aparecer, surgir na volta de cada curva, e de nada serve tentar adivinhar ou antever o que vai surgir, porque a natureza dita uma variedade e alternância surpreendentes.
Quando proponho, por atitude, o desfrute, é porque estou convencido de que só quando formos estuário compreenderemos a unidade, o sentido pleno, global, da viagem percorrida. Só no estuário tudo fará o seu sentido definitivo, e se fará luz sobre o desconhecimento, a angústia e o medo, esse espectro que tantas vezes nos acompanha e ensombra.
Acredito que a clarividência é atributo do estuário. Quando olharmos o mar que nos espera, surgirão, natural e tranquilamente, o conhecimento, a verdade.
Vamos, pois, como rio, percorrer o tempo e o espaço, desfrutando, e não nos consumindo a tentar compreender o que é para ser conhecido, revelado, quando formos estuário, e não antes.
Mas, além do desfrute, tenhamos presente, a cada tempo e paisagem, que eles são irrepetíveis: nunca mais voltaremos a passar por cada parcela que passámos.
Esta irrepetibilidade, este facto de o presente se converter em passado (imediata, constante e sistematicamente), do tudo durar nada, exige que não adormeçamos, perdendo nesse sono o que vai passando, deixando de viver com sofreguidão cada milha do trajecto que vai sendo o presente.
Até porque a mãe natureza, quando desenhou sabiamente o nosso leito, criou espaços e tempo que contemplam todas as variantes contidas entre os extremos de sermos águas calmas em doce e suave movimento e sermos enxurradas. Como rio, teremos troços de estada e troços de precipitação e voragem. Todos são para passar com aproveitamento e benefício.
Os de serenidade são os reflexivos, os tranquilos, de descanso, de paz – os perdulários chamam-lhe monotonia e aborrecimento. Os de enxurrada são de emoções, exaltações, paixões, arrebatamentos, coragem, desafio – os perdulários chama-lhe loucura.
Parafraseando, cada jogo tem a sua beleza. Há que jogá-los todos e consumir a beleza de cada um.
Toda esta dinâmica do rio que ficciono sermos, com o seu movimento contínuo, de seguimento para a foz, de ultrapassagem, está sujeita a leis inexoráveis, que nos cumpre interiorizar e viver em conformidade, porque são as leis da nossa ficcionada essência, da qual destaco duas na formulação popular que diz muito e que é sábia: “ águas passadas não movem moinhos”, e “a água do rio não passa duas vezes por debaixo da mesma ponte”.
Ruminar o passado, ou reeditar edições da vida que já foi consumida, são tentações e fraquezas de mau resultado, com custos e perdas várias, de que não é menor a perda da paisagem que passa durante esses exercícios, com o desvio do olhar para essa que jamais se poderá rever.
O passado, no seu bom e mau, forma o caudal do rio que em cada dia somos, é volume, é massa, que influi, acrescenta e se incorpora como a água da chuva e nos faz rios maiores e mais cheios, mas não é mais destrinçável: segue viagem com o todo, diluído, absorvido.
Por outro lado, isto de ser rio tem também as suas vantagens, cuja verificação científica nos conforta e anima nas horas de maior desânimo. Senão vejamos.
Os rios, por muitas que sejam as secas, por muitas barreiras que lhes coloquem, por muito agredidos pela poluição, por muita canga que suportem, passam sempre, sobrevivem sempre, chegam sempre à foz. A força e persistência dos rios são invencíveis. Podem quase sucumbir tornando-se regatos, ribeiros, mas resistem sempre, retomam sempre caudal e vencem sempre, passam qualquer barreira ou dificuldade e cumprem-se, chegando ao mar. Mesmo que, por vicissitudes e desgraças várias de percurso, nos tornemos em fios de água, chegará o momento em que as águas passarão as dificuldades, retomarão e engrossarão o caudal.
A outra vantagem, é que os rios não têm idade, não têm velhice, não descontinuam a vida por se sentirem chegar ao estuário, na iminência da foz. Os rios são-no sempre e orgulhosamente até ao confronto derradeiro com o mar que abraçam e para o qual correm.
Ora, sendo nós rios, que nos importa o curso vencido, as milhas percorridas ou que faltam percorrer? O que importa é, até à derradeira preia-mar que selará a fusão com o mar, correr, viver, banhar, resplandecer, sonhar e encantar.
Sim, encantamento, porque só nos rios existem as tágides que nos iluminam e inspiram, levando-nos para as dimensões poéticas que são as verdadeiras.
Sejamos rios.

ATM

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

História de Cena de Paus

O valete,
sem trunfos,
não sabe ainda hoje
como aconteceu.

Certo é que baralhou a dama
com aquela voz que deu
(qual valete ou duque...
parecia um às de lei !).
Lançada estava a sorte:
« - eu passo», disse o rei.

JCN

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, 1 de Fevereiro

A Olga é muito alta e magra. Tem uns cabelos castanhos que lhe escorrem, direitos, pelos ombros, e uns olhos esverdeados escuros. É bonita; tem pose, tem pinta, tem presença, e a sua passagem pela sala deixa um rasto de qualquer coisa. Talvez vestígios, que são mais estimulantes do que provas. Conto dela, desta operária da Fábrica da Ilusão, o pouco que sei. Não só o que me foi relatado por ela, pela Dra. Clara, pelas colegas, mas também pela minha própria intuição. Neste diário íntimo, a que só o Fábio tem acesso, é relevante a verdade exacta dos factos? Redijo um escrito íntimo, não um relatório de auditoria.

Olga vem de Moscovo e é culta, com uma formação superior em Línguas. A sua bisavó foi criada dos czares Nicolau e Alexandra até à Revolução de Outubro e, pela sua juventude, beleza e elegância, uma espécie de protegida da czarina. Acompanhou-a no Palácio de Inverno, em S. Petersburgo, assim como em Tsarkoye Selo, para onde o Czar de todas as Rússias se mudou depois do equívoco trágico do domingo sangrento.

A rapariga ainda conviveu, num modesto andar na capital russa, com a bisavó, uma senhora idosa mas lúcida, que lhe relatou acontecimentos da época, desde a presença misteriosa e controversa de Grigori Yefimovich Rasputin junto dos czares, até às noites mágicas da poesia de Pushkin e caviar ao som plangente e introspectivo da música de Tchaikovsky.

Para efeitos de caracterização desta operária, importa ressaltar-lhe alguns pormenores que a distinguem, por exemplo, das brasileiras. Olga é culta, e muitos garantem que ela tem uma sombra, uma nota dissonante, uma estranheza no seu comportamento: Olga recita em russo durante o tempo que está com o cliente, não se furtando nunca às exigências de quem lhe paga. Há cavalheiros que suplicam por esta rapariga, porque algo naquele olhar claro e aparentemente luminoso, que reflecte a estepe, a neve, o misticismo, os encanta e os eleva a prazeres pouco suspeitados.

Olga entra no quarto entoando, na sua língua original, uns versos de Bulat Okudjava. Traduziu-os para mim – unicamente para mim - nesta vontade de manter reserva da sua intimidade:

Oh, meu Deus e meu Senhor,
Meu deusinho de olhos verdes!
Enquanto a Terra ainda gira
- do que a própria se admira -,
Enquanto a terra ainda tem
Algum tempo e algum fogo,
Deus, dá a todos um pouco…
E não te esqueças de mim

Para alguns clientes, estes versos que ninguém conhece, recitados num idioma que ninguém entende, substituem os preliminares mais entusiasmantes. Olga despe-se com vagar, revirando os olhos a cada linha, torcendo as mãos a cada pausa, fitando, por vezes, um olhar fundo no seu parceiro. Só os mais atentos percebem que o olhar não se detém neles, mas os atravessa, naquela orgulhosa indiferença russa de quem se sente continente próprio, porque à Europa e à Ásia só os liga um capricho geográfico.

De quando em quando recita Pasternak. As costas voltadas para quem a acompanha, leva uma mão à garganta e soluça uma quadra dramática, enquanto solta botões que abrem portas àquele corpo esbelto - ainda que enigmático.

Ah, se eu antes soubera desta sina,
Quando me preparava para a estreia,
Que há morte nestas linhas - assassinas!,
Como um golpe de sangue na traqueia

Terminado o tempo contratuado, Olga tapa uma nudez eslava e altiva, muito clara. Compõe os cabelos longos, apanhando-os num rabo de cavalo displicente, mas com uma elegância de que poucas se podem envaidecer. Sentada na cama, segurando um lençol por cima do peito, fixa um ponto no infinito, por cima do cliente, e repete sempre o mesmo diálogo que só a mim identificou. Para muitos, aquelas palavras incompreensíveis são um hino ao amor. Para quem sabe, não são mais do que as últimas linhas d' A morte de Ivan Ilitch.

- Acabou! - disse alguém por cima dele.
Ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. «Acabou a morte - disse para si. - Já não existe.»
Sorveu o ar, deteve-se a meio da respiração, esticou-se e morreu.

Por vezes chora, por vezes sorri melancolicamente. Os mais ignorantes acham que é emoção e timidez. Mas eu sei que não é, porque imagino o que lhe vai na alma. Olga recita os russos - os da terra dela - não para alarde de erudição, não para alimentação de um fetiche, mas para poder voltar no dia seguinte a esta Fábrica da Ilusão. Para poder sobreviver.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

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