domingo, 31 de outubro de 2010

Domingo …… Se Fores à Missa !

O Evangelho de hoje “bateu-me” forte. Jesus, naquele tempo, não fazia distinção entre as pessoas. A Ele não lhe interessava se se tratava de um publicano ou fariseu, se escriba ou judeu, se prostituta ou viúva, se leproso ou mendigo. Qualquer um era acolhido no seu coração, como o seria um dos apóstolos ou um dos seus amigos. Essa capacidade de aceitar e acolher o outro tal como é, é um dom. É um dom que vem de Deus, e que nós devemos praticar e desenvolver. Vivemos numa sociedade em que tudo é comparável, tudo é aferido pelo que temos ou não temos; pelo que somos ou não somos; pelo nosso bom nome; pela cor da nossa pele; pela classe social a que pertencemos, pela forma como falamos ou nos vestimos. Naquele tempo, certamente, assim o era, também. E Jesus veio cortar com essas amarras todas. Ele media as pessoas pela sua fé, pela sua força interior e não pelo exterior. Olhei para mim própria ao ler este Evangelho e realizo que estou sempre a fazer distinções entre as pessoas ( disse, no início do post, que este Evangelho me bateu forte); com que facilidade catalogo e classifico as pessoas com quem me cruzo nos diversos ambientes, em GCN e GDN (Gente Como Nós e Gente Diferente de Nós); com que leviandade decido que não quero perder tempo com esta ou aquela pessoa GDN, sem sequer abrir o meu coração? E, afinal, quem sou eu para decidir quem é GCN e GDN? E quais os critérios que utilizo? São os critérios do coração, os critérios do amor, da partilha e do acolhimento ou serão os critérios da sociedade, os critérios estúpidos e mesquinhos das classes sociais em que teimamos nos diferenciar? Porque diz moça e usa meia branca é GDN …. Porque faz férias na neve ou tem casa na Quinta da Marinha é GCN ! O exponente máximo é quando, orgulhosamente dizemos: “Sabes que a minha filha vai casar? E, graças a Deus, é com um rapaz GCN” Como se Deus tivesse alguma coisa a ver com GCN’s e GDN’s. Deus, através do seu filho Jesus, veio dizer-nos exactamente o contrário. Não olhes com os olhos, mas sim com o coração. Não julgues com a mente, mas sim com o amor do teu coração. Não deixes que as aparências te iludam, nem queiras iludir pela aparência. O Cristo que está em ti é o mesmo Cristo que está no outro.

Domingo Se Fores à Missa ………….. Olha com Coração !

Maf

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

Palavra da salvação.

sábado, 30 de outubro de 2010

Pensamentos impensados

Respostas às perguntas da semana anterior
O primeiro nudista foi o Noé: bebeu do vinho e embriagou-se (Génesis 9-21).
O primeiro bêbado foi o mesmo Noé: e Cão pai de Canaã, viu a nudez de seu pai (Génesis 9-22).

Pergunta da semana
Fenícia é país da Europa?

Carolina Salgado foi condenada a 300 horas de trabalho comunitário; não lhe deve ser difícil cumprir a pena pois esse tipo de trabalho não lhe é estranho.

A banana pode ser considerado um enchido?
Acho que sim, pois tem pele por fora e a comida dentro.

Matemática sem nexo.
Duas metades (ou meias) fazem um; logo, um par delas faz um.
Um quê?
Alguém me ajude.

Isto dos testes de ADN pode ser perigoso; podem descobrir que não descendemos dos nossos antepassados.

O ex ministro Mário Lino parece que foi indiciado por qualquer coisa pelo que deverá ser ouvido; adivinho que apenas dirá jamé.
,dito com espanto, significa que não esperava que o assunto viesse a lume tão cedo
, balido, corresponde a silêncio dos inocentes.

SdB (I)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

poema zentido

escuta,
tenho uma ideia louca, lenta, linda:
fazer-te feliz
,

por pura osmosemântica.

gi.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Deixa-me rir...

Estava tudo feito. Em cima da secretária branca, os papéis, as canetas, os clips, o agrafador, as prateleiras da correspondência registavam uma ordem completa. O relógio marcava 2:30 e já não havia mais nada para fazer. Isabel olhava para o relógio, para o écran mudo e azul do computador, para o telefone cor-de-burro-quando-foge, para a janela com vista para o jardim e amaldiçoava as horas que tinha pela frente. Não é fácil, pensava, estar sentada horas a fio fazendo nada, produzindo nada, dia após dia. O cérebro definha, a criatividade emperra, a energia estagna com esta falta de actividade!, pensava com os seus botões. Não admira o meu estado de cansaço quando daqui saio! Se a minha energia não flui…! Não raras vezes tinha pensado em deitar-se no chão e dormir uma boa soneca. Estava sozinha, porque não? Mas e se aparecia alguém de repente? Era melhor manter as aparências e parecer minimamente ocupada. Mas era duro. Sobretudo porque Isabel, não o parecendo, era dona duma intensa energia: pela calada, quase sem dar nas vistas, virava tudo do avesso, corrigia e resolvia os problemas seus e dos outros, avaliava, deitava fora, arrumava, organizava … e depois pronto! Ficava tudo feito! Acontecia-lhe sempre a mesma coisa. Era contratada pelas suas qualidades organizativas e depois de tudo organizado, o resultado era sempre o mesmo: o bom, velho tédio. Tinha pena que não compreendessem melhor o seu potencial, que não se apercebessem que podia dar muito mais à empresa. Mas como era muito tímida, feiota e algo brusca, era natural que não a quisessem pôr na linha da frente. Em contacto com os clientes, por exemplo. Para além disso, o seu breve e tórrido romance com o director financeiro tinham-na colocado nas bocas do mundo (ou melhor, da empresa) e em consequência disso tinha-se fechado sobre si própria, passando a ser crescentemente cautelosa e desconfiada. Dava-se vagamente com a recepcionista, uma mulher de 40 anos bem redondos e alegres que não primava pela inteligência. Porque Isabel era uma snob, uma snob intelectual. Para além de devoradora de livros (tinha uma preferência nítida pelos escritores russos), era sócia da Cinemateca e não lhe escapava um bom concerto na Gulbenkian. Em casa só ouvia música clássica e jazz. Os seus dois ou três amigos vinham ainda do tempo da faculdade. Tirara filosofia com notas altíssimas. Tinha sido a estrela do curso. Mas a sua aparência e falta de jeito em sociedade não lhe tinham granjeado grandes amigos nem simpatias pela vida fora. Muito menos facilidade em arranjar trabalho. Tivera de se virar para o que lhe aparecera: ser o braço direito de directores e administradores. E descobrira que para além de pensar, tinha muito jeito para simplificar, para tornar fácil o que os outros achavam difícil ou chato. Tornara-se, mais uma vez, uma estrela no que fazia. Uma estrela prática, não uma estrela teórica, intelectual, como gostaria, mas, mesmo assim, uma estrela. Com o passar dos anos e o aborrecimento causado pela repetição de tarefas, estava a ser-lhe crescentemente penoso o trabalho rotineiro, o lidar com a mediocridade e as chefias empertigadas. Sentia-se presa numa vida que não queria viver. Estava presa numa cápsula protegida, dourada, confortável, mas que pouco lhe dizia. Tirando o poder pagar-lhe as contas e a assinatura anual na Gulbenkian. Ultimamente entrara numa fase introspectiva e reavaliava-se continuamente. Mas continuava presa. Dentro e fora de si. Como se sai de dentro de nós, pensava Isabel, pela enésima vez? E desta vez, sem o esperar, olhando para o jardim de castanheiros centenários e vendo uma rapariga abraçar pelos ombros uma velhinha dobrada, depositando-lhe beijos repenicados na bochecha vincada pelos anos, Isabel acordou de um torpor prolongado. Apercebeu-se, numa fracção de segundos, numa espécie de intuição metafísica, de algo que lhe tinha vindo a escapar com os anos. Racional, intelectual, habituada a dar e a receber pouco amor, porque as suas escolhas de vida assim o tinham determinado, Isabel tinha-se alheado do âmago de si própria. Do seu coração. Do centro e fonte de todo o Bem. Como diziam os Gregos, Santo Agostinho e por aí fora, que tinha estudado há já muitos anos. Mas nessa altura tudo era diferente e esses conceitos não passavam disso mesmo, de conceitos para serem escrevinhados num teste qualquer ou em trabalhos de grupo. Mas agora, ao ver aquela ternura a derramar-se tão espontânea e verdadeira, Isabel comoveu-se. Comoveu-se até às lágrimas. E, num reflexo de auto-protecção, dobrou-se sobre si própria, qual caracol protegendo-se duma mão que o toca. Colou a testa aos joelhos e chorou, chorou desconsoladamente. Sentia que a sua alma era um tecido de fibras elásticas que estica, estica, estica, mas resiste, resiste, resiste. Ficou assim, imóvel, cabeça para baixo, durante muito tempo (dando graças a Deus, no meio do seu tumulto interior, por o escritório estar tão sossegado!). Passada a tempestade, Isabel soergueu-se. De olhos ainda piscos, limpou a cara esborratada de lágrimas e rimel castanho. E jurou, jurou para si própria, que os dias, anos que tinha pela frente, iriam ser diferentes.




Some say love it is a river
that drowns the tender reed
Some say love it is a razor
that leaves your soul to bleed
Some say love it is a hunger
an endless aching need
I say love it is a flower
and you it's only seed
It's the heart afraid of breaking
that never learns to dance
It's the dream afraid of waking that never takes the chance
It's the one who won't be taken
who cannot seem to give
and the soul afraid of dying that never learns to live
When the night has been too lonely
and the road has been too long
and you think that love is only
for the lucky and the strong
Just remember in the winter far beneath the bitter snows
lies the seed

PCP

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Moleskine

Hotel. Reunião, em representação da Acreditar, no conselho de curadores da Fundação Osório de Castro, uma IPSS que tem como missão o apoio e a protecção das crianças com cancro e a promoção do seu bem-estar físico e emocional. O encontro decorreu no Inspira Santa Marta Hotel localizado na rua com o mesmo nome. Curiosidade: a água servida no hotel é tratada internamente e a venda reverte para a Pump Aid, uma organização que ajuda à construção de poços em África. Dúvida de quem tem pouco em que pensar: devemos beber muita água porque faz bem à saúde ou devemos ser parcimoniosos, porque é um bem escasso e finito?

Snobice (I). Fulano era um homem educado, sabia como se falava com um príncipe e com um cavador. Mas Beltrano era um homem fino porque, quando falava com o cavador, este sentia-se um príncipe.

Snobice (II). Sei com quem se terá passado a história, mas para o caso é irrelevante. Conta-se que há algumas gerações terão encontrado um fidalgo num lugar menor no teatro S. Carlos. O senhor aqui, neste lugar? Mas não pode ser... Bem vê, a sua condição social, ter-lhe-á dito alguém pressuroso. O fidalgo respondeu: onde eu estou é sempre um camarote de 1ª ordem. Ou também, por outras palavras, nem sempre é o trabalho que dignifica o Homem, mas a sua inversa.

Música. No momento em que escrevo faço futurologia, mas quando os fieis visitantes me lerem já é um acontecimento passado. 3ªfeira, 22 horas, no Teatro Villaret, concerto de lançamento do primeiro disco de Teresa Lopes Alves. Já ouvi o suficiente para ter a certeza que vou gostar. Infelizmente ainda não há vídeos disponíveis para partilhar. Estarei atento, asseguro-vos. Da internet: as referências de Teresa Lopes Alves vão do fado ao jazz vocal clássico, passando pela música ligeira portuguesa e pela música popular brasileira. "Reflexo" é a definição do que se passa em palco e que reflecte a cantora como ela é. Clássicos como "Saudades do Brasil Em Portugal", "Meu Limão de Amargura" e novas canções como "Carta do Fundo do Mar" ou "A Coisa Mais Bonita do Mundo" merecem uma atenção especial.

Almoço. Foi o fim da minha vida profissional, tal como ela se desenhava no final de 2006, que permitiu esta amizade. Encontramo-nos volta e meia, conversamos volta e meia, recebi seguramente mais do que dei. Separa-nos quase meia geração, e a sua cultura do que hoje em dia se faz no campo da música e da poesia faz crescer em mim a certeza de que sou, cada vez mais, um repositório de informação inútil. É por isso que não falamos desses temas, porque ele poupa-me ao embaraço... Conversamos sobre estados de alma, sobre o encanto que pode ser viver com bastante menos do que aquilo que se tinha há uns anos, o gosto que é ambicionar pouco mais do que a serenidade, o desejo do caminho luminoso e isento de conflitos, o desinteresse por um estatuto que por vezes pouco interessa e nada revela. Questionei-me alto se este despojo seria a dimensão da sabedoria ou o prenúncio da morte. Citou-me L. M. Van der Rohe, o pai (ou um dos?) do design minimalista: less is more. Na arquitectura como na vida...

JdB

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Encerra-se com este texto a trilogia de gins(1) dedicados a grandes escritores entrevistados pela mítica revista «The Paris Review». Hoje calha a vez a Boris Pasternak (1890-1960, Rússia).

O sucesso inicial de Pasternak deve-se, em parte, à erudição literária de muitos moscovitas, que reconheceram, logo nas primeiras obras publicadas, no limiar dos anos 20, o mérito artístico do jovem poeta. Aliás, Pasternak testemunha-o na entrevista: «Impressiona-me constatar até que ponto a poesia parece fazer parte da vida quotidiana dos russos… (Embora em 1960 denuncie o facto de se ter tornado) bastante circunscrita a um grupo de intelectuais

Ironicamente (ou talvez não, atendendo ao fortíssimo pendor político da Academia sueca), o romance que lhe valeu o Nobel, em 1958 – «O Doutor Jivago»(2) – foi proibido na Rússia, conseguindo esgueirar-se, em 1957, para a Europa. Por iniciativa do magnata Giangiacomo Feltrinelli foi publicado em Itália, o que valeu ao editor a expulsão imediata do Partido Comunista Italiano. Entretanto, a difusão por todo o Ocidente não se fez esperar e no ano seguinte o laureado com o Nobel converteu-se numa estrela fora da Cortina de Ferro.

O início de vida no seio de uma família judia abastada e de artistas – o pai pintor e eminente professor de Belas-Artes, a mãe pianista – deu-lhe a oportunidade de circular no meio intelectual de Moscovo, onde pôde privar com Tolstoi, Rachmaninoff, Scriabin e ainda o poeta checo Rainer Marie Rilke. Em 1917, a Revolução Bolchevique marcou o início de grandes reviravoltas, a nível pessoal e artístico, começando logo pela separação forçada de muitos amigos, que se refugiaram no Ocidente, temendo o pior. A partir daí, a sua actividade literária converteu-se num caminho penoso, até ao fim. Com a ascensão de Estaline ao poder (1929), sofreu pressões para substituir o seu estilo colorido e fortemente simbólico pelo realismo literário imposto pela nomenklatura.

As peripécias com o Nobel, que não pôde receber, demonstram a que ponto estava quartada a liberdade individual, mais ainda para os artistas que se notabilizavam para lá das fronteiras do sovietismo. Só a título póstumo, já em 1989, a Academia pôde entregar ao filho de Pasternak o prémio que lhe fora atribuído 21 anos antes! A seguinte correspondência (citadana língua original) é muito reveladora do que se passou:

- 23.Out.1958 – razão avançada pela Academia para a escolha: «for his important achievement both in contemporary lyrical poetry and in the field of the great Russian epic tradition»

- 25 de Out. – primeiro telegrama de Pasternak a aceitar, muito lisonjeado:

«Immensely thankful, touched, proud, astonished, abashed.»

- Entre 25 e 28.Out. – carta de Pasternak às autoridades russas, a defender a sua honra, atacadíssima na imprensa, e a justificar por que receberia o prémio, apesar de instado a recusá-lo:

«I think that one could write Doctor Zhivago while remaining a Soviet citizen, (…) I agreed to correct all unacceptable passages. The possibilities of a Soviet writer seemed wider to me than they are in fact. (…)
No one can force me to refuse the honor
shown to me, a contemporary writer living in Russia and, hence, a Soviet. But I am prepared to transfer the Nobel Prize money to the Committee for the Defense of Peace.
I don't expect justice from you. You can shoot me, exile me, do whatever you like. I forgive you beforehand. But don't be in a hurry. This will garner you neither happiness nor praise. And remember, in a few years you'll have to rehabilitate me all the same
(3). It's not the first time in your experience."

- 28.Out. – segundo telegrama de Pasternak à Fundação sueca, em face das retaliações exercidas sobre pessoas que lhe eram muito próximas:

«Considering the meaning this award has been given in the society to which I belong, I must refuse it. Please do not take offense at my voluntary rejection.»

É neste ambiente hostil que Pasternak concede uma entrevista memorável à The Paris Review, onde reflecte sobre o ser humano, a história, a arte. Apenas algumas considerações, como aperitivo do testemunho que nos deixou, precisamente, no ano da sua morte, em 1960:

«A grande devoção heróica a um ponto de vista é para mim muito estranha – é uma falta de humildade

Sobre O DOUTOR JIVAGO:

«Depois de tantos anos a escrever apenas poesia lírica e a traduzir, parecia-me ser meu dever fazer uma declaração acerca da nossa época – a respeito daqueles anos, distantes e ainda assim pairando sobre nós. O tempo escoava-se. Quis registar o passado e honrar (…) os aspectos belos e sensíveis da Rússia desses anos… prevejo que os valores deles serão recuperados. Tentei descrevê-los

Sobre a escrita:

- «A vida desenvolveu-se de um modo extremamente incómodo, extremamente complicado. Adquirimos valores que se exprimem melhor em prosa

- «Acredito que a prosa é o meio dos nossos dias… A obra de hoje deve recriar uma visão abrangente da vida

- «Quero escrever algo de panorâmico… Espero que as minhas peças venham a ser tão reais, tão carregadas de vida quotidiana como (Gógol)»

- «O teatro é a arte das emoções – é também a arte do concreto

- «As mais extraordinárias descobertas são feitas quando o artista é tomado pelo que tem para dizer. Usa, então, a velha linguagem nessa sua urgência e a velha linguagem é transformada por dentro. (…) Chopin usou a velha linguagem mozarteana para dizer algo completamente novo – a forma regenerou-se por dentro

- «O que é importante não é a precisão histórica da obra mas a recriação bem-sucedida de uma época. Não é o objecto descrito que importa, mas a luz que se derrama sobre ele…»

- «A grandeza de um escritor não tem nada que ver com o tema em si, mas antes com a intensidade com que o tema toca o autor. (…) Pelo estilo de Hemingway sente-se a matéria, o ferro, a madeira

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda-feira)

_____________

(1) Os dois textos anteriores datam de 27 de Setembro e de 11 de Outubro.

(2) O termo «Jivago» significa «vida» em russo.

(3) De facto, depois de retirado da política, Nikita Khrushchev (NK) declarou-se arrependido pelo desfecho do processo, dizendo que tinha sido mal aconselhado, tanto mais que nunca lera o célebre romance. Note-se que mesmo depois de recusar o prémio, as autoridades quiseram expulsá-lo da URSS, levando Pasternak a escrever a NK : «Leaving the motherland will equal death for me. I am tied to Russia by birth, by life and work. Atribui-se à intervenção de Jawaharlal Nehru o facto de Pasternak ter sido poupado à prisão ou ao exílio forçado.

domingo, 24 de outubro de 2010

30º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

Li este evangelho várias vezes, confesso. Numa primeira leitura poderíamos ver o fariseu com direito inalienável à salvação eterna porque, de facto, era irrepreensível, levava uma vida íntegra e cumpria as regras. Nada nos diz que mentia, pelo que a sua satisfação própria era genuína e merecida. Por oposição, os publicanos eram os pecadores, que exploravam os pobres e não cumpriam as leis. O publicano da parábola não era uma excepção.

A pedra de toque deste texto é a atitude, nada mais do que isso. De um lado, um homem cheio de uma certeza de perfeição, convicto de que a Deus não resta outra solução senão salvá-lo. De facto, a sua vida é imaculada. No outro lado, outro homem, com uma vida seguramente menos perfeita. O que os distingue, para além desta diferença óbvia? A forma como ambos se aproximam de Deus: num lado, a ideia de que Deus se rege pelos nossos raciocínios contabilísticos; no outro, a ideia de que Deus não é senão amor, cheio de uma misericórdia infinita.

Deus não salva o homem pecador, desprezando, de alguma forma, o homem bom. Deus olha para para aquele que tem consciência da sua falibilidade, que se considera pecador, para aquele que, no seu íntimo, não se atrevia a erguer os olhos ao Céu. Deus olha, sobretudo, para quem não se sente melhor do que os outros - e estabelece uma barreira desumana. Deus olha para quem se humilha - algo tão impopular nos dias de hoje - não para quem se exalta.

Bom Domingo para todos.

JdB


EVANGELHO – Lc 18,9-14

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus disse a seguinte parábola
para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros:
«Dois homens subiram ao templo para orar;
um era fariseu e o outro publicano.
O fariseu, de pé, orava assim:
‘Meu Deus, dou-Vos graças
por não ser como os outros homens,
que são ladrões, injustos e adúlteros,
nem como este publicano.
Jejuo duas vezes por semana
e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’.
O publicano ficou a distância
e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu;
Mas batia no peito e dizia:
‘Meu Deus, tende compaixão de mim,
que sou pecador’.
Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa
e o outro não.
Porque todo aquele que se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».

sábado, 23 de outubro de 2010

Pensamentos impensados

PERGUNTAS DA SEMANA

Quem foi a 1ª pessoa a praticar nudismo?
Quem foi o 1º bêbedo?

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Há anos, à laia de troça, dizia-se que os americanos eram de tal maneira bons vendedores, que um tinha conseguido vender um frigorífico a um esquimó.
Ninguém pensou que talvez o vendesse como calorífero, argumentando que no exterior estavam 40 negativos e o frigorífico ficava-se pelos 6 positivos.

Há dias, eram 5 da tarde, e estava na praia, quando fui abordado por um conhecido, grande maçador; esse tipo de gente tem o condão de me provocar respostas "non sense".
Ele: estás cá na praia desde que horas?
Eu:estou cá desde o meio-dia, mas do meio-dia de ontem porque ao meio-dia de hoje estava em casa.

A nora é um engenho de tirar água dos poços; o princípio da nora... é a sogra.

MOTE

Não tenho razão de queixa.

GLOSA

Diz o japonês: não tenho razão de gueixa.
Diz o flamengo: não tenho razão de queijo.
Diz o rabequista: não tenho razão de queixo.
Diz a cozinheira: não tenho razão de canja.
Diz o actor: não tenho razão de deixa.

SdB (I)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

melancolia à hora de almoço

muita gente pergunta-me:
- porque escreves tanto?
respondo-lhes:
- por acaso alguém se lembra
de perguntar a outro alguém:
porque respiras?

muita gente pergunta-me:
- porque lês tanto?
respondo-lhes:
- por acaso alguém se lembra
de perguntar a outro alguém:
porque tens tu necessidade de afecto?

muita gente pergunta-me:
- porque vives assim, recluso?
respondo-lhes:
- por acaso alguém se lembra
de perguntar a outro alguém:
porque não praticas mais a dor?

ontem, li bukowski, outra vez.
tarde demais
para apanhar o último comboio
daqui para fora.

(calma, rapazes. é só um poema.)


gi.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this week I present one of my favourite British female singers, Annie Lennox. She and her first group The Tourists were the first pop/rock concert I ever experienced, soon after I arrived at Edinburgh University in 1979. I remember her bright orange punky hair and her bouncy energy on stage. So exciting. And I remember her telling us that her mother was in the crowd watching her daughter for the very first time. A special night for her and her mother and me. The Tourists did not last long in pop fashion but they had a few good songs including this infectious upbeat version of a Dusty Springfield classic:



Annie Lennox and Dave Stewart decided to leave behind the bright pop sensibilities of The Tourists in order to explore their own experimental synthesized music as Eurhythmics.
Their first album was quite minimalist and received only a cult following. I loved it and felt ambivalent. They deserved greater success but I didn't really want them to achieve mass appeal, preferring selfishly that they should remain a private pleasurable secret. But of course this couldn't last long. Their next album included the brilliantly obsessive Love Is A Stranger and the song which launched their global success:



Eurhythmics are probably best remebered for uptempo pop dance songs but they also composed some wonderful lush ballads such as Miracle Of Love and I Saved The World Today. And Annie Lennox continued this path in her solo career, which serves to highlight even better her expressive voice:



We don't hear so much these days from her, appearing only occasionally for charity concerts, but last year she made a great uptempo version of Ash's Shining Light. It seems the lady has complerted a circle and is starting again from where she began:



A proxima.
PO

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Moleskine

Livros. Acabei de ler, há algumas semanas, O Seminarista (Rubem Fonseca, Sextante Editora). Para aqueles que imaginam na obra uma continuação do meu beatério, cito a contracapa: Para o protagonista de O Seminarista, matar não causa remorso, mas também não causa prazer. É apenas o seu trabalho, que lhe permite dedicar-se àquilo que realmente ama: livros, filmes e mulheres. Quando decide que já é hora de abandonar a profissão, descobre que não é tão imune aos efeitos dos seus trabalhos e das suas escolhas como acredita ser. Li e gostei. A par de uma linguagem crua e gráfica há bastantes citações em latim. Para alguns, o fetiche é um fato de látex, para mim é o latim, se bem que não sejam usados nas mesmas circunstâncias.

Mineiros chilenos. All is well that ends well, diria Shakespeare, aqui citado para dar uma conotação intelectualmente estrangeira a este blogue.

Drama. Aproximo-me da televisão quando o locutor de serviço refere o estado dos gémeos siameses vindos de Angola e internados na Estefânia. Retenho o essencial (e cito de cor): à luz dos conhecimentos actuais da técnica, a separação é inviável. As crianças, que partilham o coração e o fígado, regressam proximamente a Angola, esperando que o futuro determine a sua sorte. Vejo a mãe, uma rapariga nova vencida pelo desânimo e pelo espanto, e o meu coração aperta-se num dó. Gostava de ser poeta, e imaginar que não há maior união do que a partilha de um coração único. Mas, de facto, só me ocorre a visão do drama adiado, a esperança de que nunca ninguém tenha de decidir quem parte, independentemente das probabilidades de sobrevivência. Nasceram a 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, e nada de palpável lhes parece valer.

Citação. Está-se só quando no espaço que se costuma percorrer não se corre o risco de encontrar ninguém. É a “fuga dos homens” no sentido material. Está-se só, também quando durante muito tempo não se entra em conversação verbal com ninguém. É a solidão do silêncio. Está-se só, enfim, tanto quanto o espírito no seu fundo mais íntimo não tem nenhum interlocutor, nenhuma companhia. É a solidão do coração. (...) A solidão como um sair de um lado para outro a fim de não encontrar ninguém; a solidão como um silêncio, um calar da dispersão para ouvir o essencial; e, finalmente, a solidão íntima ou profunda, na qual o espírito não possui qualquer interlocutor, que podemos chamar de solidão do coração, e corresponde ao acolhimento da experiência de Deus. [Emanuel Matos Silva, Solidão e Silêncio – Ritmos do encontro com Deus na espiritualidade cartusiana. Portefólio (Revista da Fundação Eugénio de Almeida), nº5].

Músicas. Basta fechar os olhos e imaginar o que passou pela cabeça de Grieg ao compor este segundo movimento do Concerto nº 1 para piano e orquestra. Hoje, recomendo os instantes 2'20'' e 3'11'', se bem que tudo o resto deva ser ouvido, porque obras como estas dão-nos a certeza da beleza, da bondade e do silêncio. Obras como estas restauram-nos a confiança no género humano quando tudo o resto à nossa volta o contradiz. Ingenuidade? Também por ela é que vamos.




JdB

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Outono, outra vez

A vontade anda timbrosa e o humor anda como os dias, mais ou menos húmido. O amor anda caduco, desafina com qualquer ventinho e cai todo para o chão, como as folhitas estaladiças, que morrem todos os anos só para alimentar metáforas e que ficam por aí a amarelar a cidade até que alguém as apanhe. O malabarismo é difícil e a única certeza é que, ainda que esteja sol agora, mais logo pode chover, ou ao contrário, pouco importa para o caso. Os Outonos de ser gente obedecem, ainda que não por regra firme, à ordem das estações como as conhecemos, sendo, portanto, comummente precedidos por Verões quentes, melosos e curtos. É só no fim dos Verões que o sono tira férias, para garantir que não perdemos pitada do que vai esmorecendo à nossa volta, e damos por nós a tentar encontrar desculpas esfarrapadas para amaciar o espírito, como as cores que são tão bonitas, ou o cheiro que vem do chão, ou o quente das castanhas que, ao quilo, nos custam a jorna e os sapatos, e um bocadinho da alma, se formos mais pobres. Quem esteve atento às lições de estudo do meio, saberá de antemão que um bocadinho de persistência e uns meses de galhos despidos, apontados ao céu, são suficientes para que a sorte se denuncie e o jogo recomece do início. No entanto, por enquanto, é Outono, outra vez.

ZdT

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Fórmula para o caos

Fica aqui apresentado o último texto relativo ao processo de anexação do Estado de Goa. Com este resumo fica, a meu ver, bastante nítido a total incapacidade do exército português face ao indiano.
Iniciou-se, em 1961, o desmantelamento do império português, que teve o seu final com a passagem de Macau para a administração chinesa em 1999.

Por fim…. A invasão

No final de 1960, foi conhecida finalmente a decisão do Tribunal Internacional de Haia relativa à acção interposta por Portugal. A instituição judicial deliberou que às autoridades portuguesas deveria ser concedido o direito de passagem entre Damão e os enclaves de Dadrá e Nager Aveli, com a excepção das forças de segurança, dado que as forças britânicas também nunca teriam disposto desse direito. Outra deliberação do tribunal foi a recusa de censurar a Índia pelo bloqueio. Posto isto, tanto Lisboa como Nova Delhi se sentiram vencedoras, “ agarrando-se “ somente ás decisões em que lhes foi concedida razão.

Em 1961 tem inicio a guerra em Angola, consequentemente a política colonial de Salazar é fortemente criticada pela comunidade internacional. Atento aos recentes acontecimentos, Nehru quer aproveitar o momento de fragilidade portuguesa para cumprir o desejo de anexar Goa à União Indiana, sabendo que seria o mais que provável vencedor de uma guerra com as reduzidas forças de segurança goesas. Outro factor que motivava Nehru a avançar para o Estado Português da Índia, era a constante pressão a que era sujeito por parte do seu próprio partido, que considerava que a política da não-violência não estava a servir os interesses nacionais. Também na conferência dos não-alinhados que teve lugar em Belgrado, o Primeiro-ministro indiano foi quase forçado a expulsar as forças estrangeiras presentes na península indiana.

Com a crescente descolonização do continente africano, já não havia qualquer razão para que a Índia não fosse totalmente independente.

Nehru reitera, novamente, uma posição pacífica face a Goa, depois de ser duramente criticado no Conselho indiano para África: foi acusado de ter perdido o fervor anti-colonialista.

Entretanto, a imprensa indiana denuncia uma possível cedência, por parte de Portugal, dos territórios de Damão e Diu ao Paquistão. Mais uma “ acha para a fogueira “.

Depois de uma visita de Estado a Washington, Nehru toma conhecimento que a Casa Branca não condenaria uma intervenção militar em Goa. Posição partilhada pelos principais centros de decisão europeus. Paralelamente, o governo de Lisboa mostra-se pouco disponível para levar o caso ao Conselho de Segurança, pois estava convencido que a URSS vetaria qualquer acção que beneficiasse um país colonizador.

Posteriormente à nova declaração do Foreign Office a reafirmar o não-alinhamento por nenhum dos lados do conflito, Salazar pede ajuda ao aliado, invocando de novo a Declaração de Windsor. “ O país de Sua Majestade “ considera a invocação da declaração inoportuna por achar que o ataque não é inevitável. Além disso, o representante inglês em Nova Delhi afirma que o sucesso do Reino Unido neste imbróglio passaria pela neutralidade, e que o mais que poderia fazer era levar o caso ao Conselho de Segurança (onde dispunha de assento permanente) e tomar uma atitude dissuasória junto de Nehru.

Depois de reafirmar a continua intransigência de Salazar, as forças militares indianas invadem Goa na madrugada de 18 de Dezembro de 1961, sem qualquer tipo de oposição por parte das tropas portuguesas (as diferenças de poderio militar eram gritantes), chegava ao fim a presença de Portugal na Índia, numa acção que foi baptizado de “ Operação Vijay “.

Pedro Castelo Branco

domingo, 17 de outubro de 2010

Domingo …….. Se Fores à Missa !

O evangelho de hoje fala-nos de esperança, de não desanimar, fala-nos da importância da oração. Quando li esta passagem, a tendência imediata foi a de (des)identificar-me com aquele juiz; homem austero, prepotente, desrespeitador e que, pelos vistos, não sentia qualquer tipo de compaixão pela pobre viúva. Graças a Deus não sou assim, pensei ! Adiante, este evangelho não é para mim. Outros que o oiçam e encaixem a carapuça. Mas, depois, numa análise mais atenta (é no que dá, quando aceitamos comentar evangelhos em blogues de amigos J ) e de uma forma totalmente natural e crescente foi surgindo na minha mente a importância da personagem da viúva. E percebi que a mensagem principal deste evangelho reside na atitude da viúva e não no juiz. Ora não se esqueçam que uma viúva, naqueles tempos, não valia nada. Pertencia à mais baixa das classes. E um juiz era alguém de muita importância. Além disso era um juiz que não tinha medo de nada nem de ninguém; e mesmo assim, o que fez a viúva ? Uma e outra e outra vez, sem desanimar, ia à presença do juiz e pedia-lhe justiça. Aquela mulher foi muito corajosa, demonstrou uma fé enorme e no final teve a sua recompensa.

O evangelista vai mais além e, por outras palavras, diz-nos o seguinte: se até um juiz mal encarado atende as preces duma viúva, quanto mais Deus não há-de ouvir as nossas ! A mensagem é clara: não desanimemos, não percamos a fé mesmo se acharmos que não estamos a ser ouvidos. Cristo pede-nos que oremos sem cessar e sem desanimar.

Na minha vida do dia a dia, nos meus ambientes, nos meus grupos de oração, tenho sentido muito em concreto o poder da oração. Não há dúvida de que somos ouvidos. E não tenho dúvidas de que somos atendidos. Podemos não o ser no tempo e na forma que esperávamos; mas, mais cedo ou mais tarde, acabamos por ver a resposta. Paciência é a palavra de ordem de hoje.

Domingo, Se Fores à Missa ……… Não Desanimes !

Maf


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos uma parábola sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar: «Em certa cidade vivia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’. Durante muito tempo ele não quis atendê-la. Mas depois disse consigo: ‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens; mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente’». E o Senhor acrescentou: «Escutai o que diz o juiz iníquo!... E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa. Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?».

Palavra da salvação.

sábado, 16 de outubro de 2010

Pensamentos impensados

Respostas às perguntas da semana passada

S. António aparece no Guiness por ter sido canonisado em apenas 9 meses após a sua morte; o mais normal é (era) demorar séculos.

A inicial do nome de S. António é F, pois chamava-se Fernando.

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As federações desportivas e os jornalistas desportivos têm umas ideias bizarras; já uma vez, neste blog, fiz uns comentários acerca do resumo alongado. Hoje vou debitar mais umas patetices, a propósito da mini-maratona. A maratona são 42 quilómetros e alguns amendoins; a meia maratona são 21 Km e algumas pevides. A mini-maratona o que é? Dois quilómetros e alguns tremoços? Será patrocinada pela Sagres?
Qualquer dia temos os 100 metros, os meios 100 metros (50 metros) e os mini 100 metros que podem ser só alguns centímetros.

Poesia popular

Lá em cima não sei onde
Havia não sei que santo
Fazendo-se não sei quê
Ganhava-se não sei quanto.

Uma lição de poesia

Fui à praia ver os limos
'stava bem alta a maré
Foi por isso que fugimos
Sem ficar fora de mão

A este tipo de poesia chama-se rimar contra a maré.

SdB (I)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

cadernos andaluzes

IV. alhambra, setembro de 2010

a tabuleta, foi assim que a li (ou tresli):

"ao entrares aqui, esquece as agruras do mundo,
as injustiças do tempo e as desilusões dos homens.
porque este é o verdadeiro palácio, a chave do reino,
intemporal estrela que iluminará os céus dos teus descendentes."

nesses dias largos [como os braços do meu avô],
namorando noites serenas [como o rosto da minha avó],
protegido do mundo, e de mim próprio, [como no quarto da minha tia],
olhando só o futuro risonho [como tu, outrora]

só eu e o tempo, planando neste plano espaço,
semeando luminosas palavras.

umas (as palavras)
e outro (eu ou o tempo? eu ou o espaço?)
à procura de um laço
e de um regaço.

gi.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Deixa-me rir...

Hoje inspirei-me, sem qualquer vergonha, no excelente Moleskine do dono deste estabelecimento (não se importa, não, JdB?). Só desta vez … Só que em vez de fazer humor ou observações pertinentes (tantas vezes comoventes) sobre a realidade circundante, vou ser light e pairar antes sobre temas mundanos e leves. Ei-los:

a) Conhecem o melhor restaurante do mundo? Não, já não é o El Bulli. Este está, aliás, para obras. É o Noma, votado recentemente o melhor restaurante do mundo no S. Pellegrino World’s 50 Best Restaurants. Se o quiserem conhecer e pagar aproximadamente 150 libras por pessoa, desloquem-se a Copenhague e deliciem-se com o extraordinário talento culinário do chef René Redzepi. A cozinha é assumidamente nórdica e baseia-se na qualidade e variedade de produtos naturais que os países mais setentrionais têm para oferecer: plantas, berries, peixe, trufas, cogumelos, flores selvagens. “A pact with nature”, segundo RR, é a melhor descrição para a gastronomia que faz. O sabor desconheço, mas a apresentação é fabulosa: cada prato parece um quadro vivo feito de amor, cor e equilíbrio. “Noma is now on the itinerary of that breed of traveller whose holidays are determined by the demands of their stomach”. http://www.noma.dk/

b) Se forem a Londres, não se esqueçam de ir à Tate Modern. A retrospectiva Gauguin: Maker of Myth está lá até 16 de Janeiro. Muito boa, muito vasta, repleta de informação escrita e visual. Uma noção de cor e de quietude que me encantam! Uma vida inteira para captar a transcendência animista da Natureza.
Li também, algures, que a National Gallery vai organizar uma mega exposição de quadros do Leonardo da Vinci em 2011. Aproveitem, vai ser um verdadeiro evento! Os Leonardos, para além de poucos (segundo alguns especialistas, não mais de 15, máximo 18), são de tal maneira valiosos que só muito raramente saem das suas respectivas casas: do Hermitage, do Louvre, do Museu de Cracóvia, de Milão, do Vaticano e de Washington. Em mãos privadas, há unicamente dois: um num castelo na Escócia, o outro em parte incerta (que por acaso sei onde é…).

c) Na revista Condé Nast Traveller de Outubro, Portugal é citado como o 18º país que os leitores desta revista mais gostam de visitar. O ranking não é brilhante, já que a lista inclui unicamente 20 destinos! Em nº 1 figura a Turquia (do pouco que conheço deste país, faz totalmente sentido!), e Itália, no 4º lugar, é ultrapassada pelo Egipto e Austrália (este lugar já me parece mais discutível….).

d) Architecture of transformation é umas das novas vertentes da arquitectura contemporânea. From Los Angeles to London, building design is improving the lives of the homeless. From the moment people walk in, we want them to think that life is going to get better (extraído do FT de 11 de Setembro). Este o objectivo de arquitectos e urbanistas ligados à reconversão de bairros degradados na periferia dos grandes centros urbanos mundiais. Que maravilha já não se criarem bairros a metro e haver a consciência, real e genuína, de que também os pobres são afectados pelo que os rodeia. A “minha” teoria de que a Beleza cura é capaz de estar certa! Mais: a Beleza deveria ser considerada um direito universal (e não um privilégio das classes afluentes)!

e) Conhecem o hotel mais cool e original de Portugal? http://www.aquapurahotels.com/

Uma explosão de exotismo em pleno Douro vinhateiro. Há quem não goste (poucos), há quem ache o fim do mundo. Não vá pelo que lhe dizem e tire as suas próprias conclusões: tire uns dias a dois num hotel romântico e assumidamente virado para os sentidos. Luzes suaves, aromas delicados, cambiantes de luz natural a entrarem por janelas rasgadas sobre a paisagem circundante, uma extensa escolha de vinhos e uma gastronomia de autor baseada nos produtos locais e nos sabores mediterrâneos. O spa é considerado dos melhores de Portugal. Experimente a sauna panorâmica ou uma massagem à luz de velas. No dia seguinte, faça uma prova de vinhos numa quinta da região ou descubra as gargantas do Douro a bordo dum barco vintage. O Douro, como reconhecia o Público na sua edição de 19 de Setembro último, está na moda!

f) Uma canção de que sempre gostei muito por causa do ritmo. Hoje em dia gosto porque me traz óptimas memórias. Entre outras, a serenidade do verde dos campos ingleses, os caminhos cobertos de folhas outonais, passeios a pé pelas ruas de Chelsea e Notting Hill espreitando os interiores super apetecíveis das casas (não se deve, eu sei), passeios de bicicleta até ao anoitecer, os almoços em pubs barulhentos, os jogos de futebol, Wimbledon, os vídeo-dinners, a opera assistida a partir do “galinheiro” com restricted view do palco, a "visão" do Mick Jagger numa loja exclusiva num 3º andar de Dover Street, o equilíbrio de Russell Square, a categoria de Bloomsbury, os canais do Norte de Londres, pintura mais pintura e mais pintura … tanta coisa…



pcp

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Moleskine (II)

Imprevisibilidades do destino permitiram que visse, em directo (eram 4 da manhã, pouco mais ou menos), o resgate do primeiro mineiro - Florencio Avalos, se a memória não me engana. Chegou bem, depois de uma viagem de 10 ou 15 minutos, barbeado e feliz, abraçado por muita gente. Comovi-me, como não podia deixar de ser, angustiei-me com o aperto daquela cápsula - Fénix - a subir 700 metros.

Do que ouvi, retenho duas ideias. A da mulher de um mineiro, afirmando que a mina tinha finalmente parido. A de um dos mineiros que disse mais ou menos isto: lá em baixo viveu-se uma guerra entre Deus e o diabo; Deus venceu.

Num tom mais ligeiro, fica o video de Spanish Train, de Chris de Burgh, música que fez as minhas delícias de adolescente. Vale a pena atentar na letra, porque o mineiro sabe do que fala...




JdB

Moleskine

Mineiros. Escrevo este texto quando já passa da meia noite. Ao meu lado, a BBC transmite os últimos preparativos para o salvamento dos mineiros, incluindo a divulgação dos nomes de quem sobe em primeiro lugar, em segundo, etc. Tudo se prevê para as próximas horas, pelo que imagino a ansiedade das partes envolvidas: equipa, familiares – os próprios encurralados. Chegados cá acima espera-os uns óculos escuros especiais, uma avaliação médica e a gestão difícil de um mediatismo expectável. Muitos deles estarão em idade de continuar a trabalhar. Será que quererão voltar à mina, ou terão sido possuídos por um temor claustrofóbico mais do que compreensível? O que faria eu? Talvez procurasse um lugar na marinha mercante. Os grandes espaços, sabem... À hora a que me lerem os meus fiéis leitores talvez já estejam todos cá fora. Talvez suerte - e uma pequena oração - seja o que se me oferece dizer agora.

Prémio Nobel da Literatura. Li um único livro de Mário Vargas Llosa (Os Cadernos de D. Rigoberto, Pub. D. Quixote, 1998). Não me lembro, sinceramente, o que me levou a comprar o livro: terá sido a sugestão de alguém credível ou a personagem feminina deitada displicente e desnuda em cima de uma cama? Talvez fosse o sticker laranja na direita baixa que definia a obra como um verdadeiro elogio ao erotismo. Agradeço sugestões de quem seja entendido no Nobel deste ano ou tenha apanhado, por aí, opiniões de qual o melhor livro dele. Nunca ando atrás da obra de quem foi nobelizado, mas sempre gostei de literatura sul-americana, pelo que me apetece ler mais.

5 de Outubro. De fim de semana com amigos fora de Lisboa, não acompanhei quase nada das celebrações do centenário da República. Do que fui lendo pelos blogues, pelos jornais, pelos livros, pelas opiniões, acabei por formar uma convicção forte e própria – se bem que pouco original: ninguém tem grande orgulho na 1ª República, pouca gente se interessou por estes festejos, o Rei caiu por obra e graça dos próprios monárquicos. Conversas tidas e ouvidas leva-me a entender que à monarquia se associam ainda ideias de privilégios, beija-mãos, duques e marqueses, sinal de que é importante desmistificar-se esta ideia. Faço o pouco que sei e posso, como monárquico que sou, se bem que soubesse mais e pudesse mais.

Futebol. Arrogo-me uma grande qualidade – ou uma qualidade confortável: não sou especialista em nada ou, como dizia o meu Pai quando eu era jornalista estagiário n’ O Dia, sou especialista em matéria vaga. Assim sendo, não sei – nem me interessa muito - se a selecção de futebol ganhou contra a Dinamarca e a Islândia derivado a um esquema táctico infalível e inovador gizado no remanso de um estágio tranquilo, ou se foi a atitude dos jogadores (uma expressão tão futebolística) após o desenlace decorrente das traumáticas palavras de Carlos Queiroz referindo-se à mãe do chefe da luta anti-doping. O importante é que ganharam e o Paulo Bento, por quem tenho apenas uma menor simpatia estética, saiu-se bem na fotografia. Não sou especialista, mas sou pessimista: fizemos o mais fácil, que foi ganhar estes dois jogos.

. A Luísa (e vale a pena visitarem-lhe o blogue, um primor de bom gosto) comenta-me semanalmente neste espaço (eu visito-a, mas nem sempre comento...) e, na passada 4ªfeira, não lhe respondi. Não me canso de pensar no que vou dizer como sendo uma verdade quase irrefutável: questiono-me onde estaria, em termos de fé, se a vida não me tivesse sido o que foi. Mas, como o foi, não me restou outra alternativa que não sobreviver, encontrar um sentido para as coisas, procurar incessantemente o lado luminoso da vida. Pessoas compassivas dizem que tudo isso já lá estava dentro de mim, à procura do momento certo para sair. Não sei, não sei. Foi à fé que me agarrei para tudo ter uma explicação enquanto outros, com dramas semelhantes, me disseram: zanguei-me com Deus. Zangar-me com o Ancião da Eternidade, como diria o Eça, era desacreditar no Céu como o destino dos destinos. E para onde iria quem partiu antes de mim? O que faria eu sem esta fé que me conforta?

JdB

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