sábado, 30 de setembro de 2017

Pensamentos Impensados

Civilização
Nem tudo o que vem à rede é peixe, às vezes  é plástico.

Petiscos
O Mar Cáspio quase não tem esturjão, foi chão que deu ovas.

Aldrabice
As fotografias dos reis e príncipes só serão consideradas fotos reais se não tiverem photoshop.

Lembranças
Como não gosto  nem sei de política, tenho uma maneira bizarra de me lembrar dos Presidentes da República.
- Cavaco Silva, lembro-me que subiu a um coqueiro, saltou por cima de um automóvel e até tirou o casaco (casaco Silva).
- Mário Soares cavalgou uma tartaruga e comia de boca aberta.
- Ramalho Eanes aprendeu a pronunciar algumas palavras.

Mezinhas
Body shop será corpos à venda? No Intendente ou Martim Moniz?

Pinturas
O quadro O GRITO foi pintado por um mudo e apresentado a uma plateia de surdos.

Assinar o ponto?
Marcelo foi visto no Palácio de Belém mas não quer que se saiba.

Parlapié
Governo promete baixar impostos de forma fraseada.

SdB (I)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Pensamento Impensado

Opiniões
Alguns "distraídos" acham que Marcelo, em Luanda, foi vaiado.
Marcelo acha que foi uma vaya con Diós.

SdB (I)

Moleskine

João Ferreira Rosa

Inexplicavelmente, passei ao lado da morte de João Ferreira Rosa. Não que tivesse de fazer alguma coisa por alguém - ou mesmo por ele - mas não encontrei nada nos jornais ou nos blogues que fizesse referência ao desaparecimento do fadista militantemente monárquico. Nada soube, até terem passado alguns dias.

Em conversa com amigos falámos dele e, sobretudo, do Embuçado, fado tão do agrado de todos os que, da minha idade e com 18 ou 20 anos, se atiravam a cantar, tantas vezes acompanhados por uma viola a descompasso e / ou vagamente desafinada. Não importava - importante era uma cabeça para trás, uns olhos fechados, e a ideia de que cantar o fado (mesmo que mal, ou muito mal) era uma espécie de rito iniciático. E éramos todos monárquicos, pelo que o beija-mão real fazia sentido e dava-nos pertença. 

Do repertório de João Ferreira Rosa sempre preferi o fado Arraial, aqui sofrivelmente cantado e filmado. Fica a intenção.  



Fernando Quintela

O meu querido amigo fq foi tendo a amabilidade de me mandar um ou outro texto sobre o sobrinho que morreu no decurso de uma pega, e sobre o qual já aqui se escreveu. Textos bonitos, sentidos, de pessoas que eram amigas do Fernando ou, num caso, de uma senhora, mãe de um forcado. Não encontrei, em texto nenhum, heroísmos patetas ou apelos a uma vida máscula, de enfrentamento do perigo, porque só os homens é que... Foram sempre textos elevados a referir o que era importante: a vida plena, a vida com sentido, as qualidades humanas do Fernando, a fé forte e militada. No fundo, o que interessa, o que em cada um de nós é imortal. E a parte espiritual dele foi muito bem descrita pelo Pe. Quintela numa das missas. 

Senti o impulso de escrever para os Pais / sobre os Pais do Fernando, porque é desse drama que sei falar. E tudo se tornou mais nítido quando vi uma fotografia muito actual do rapaz, de perfil e de jaqueta. À minha frente (metaforicamente falando) estava o pai dele, o João, mas há trinta e muitos anos, tal eram as parecenças que detectei. Outros escreveram para o Fernando, porque era dele que se lembravam e era com ele que queriam "conversar". Resta-me a certeza de que os Pais, no seu desgosto, ficam com um acervo (passe a presunção) de textos que foram dirigidos, tanto a eles, como ao Fernando. Textos que, não mitigando as saudades, os confortarão: afinal, tinham muita gente a pensar neles...

Vidas

Ontem alguém me dizia: apesar de tudo a vida foi minha amiga. Sim, concordei, apesar da dose de desgostos que cada um de nós inscreve no seu CV. E reforcei: a vida também foi minha amiga, porque apesar de todos os tropeços ou armadilhas, nunca estive sozinho. Talvez seja isso que mais agradeço à vida: o nunca me ter deixado sozinho. Estou certo de que também colaborei para isso mas, não obstante, agradeço. Talvez agradeça à vida (seguramente a Deus) nunca ter feito nada suficientemente grave para ter ficado sozinho. 

JdB

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Duas últimas

Sou o mais velho de sete irmãos.

João, o segundo na escala etária, sempre foi arrojado e intrépido, usando a preceito a destreza física que Deus lhe deu. Jogou rugby, foi forcado em Alcochete, fez o curso dos "Comandos" como voluntário. Não provocava mas também não se temia. Lembro-me por exemplo de certa vez, na Figueira da Foz, em que me safou com grande valentia e decisão de uma situação que, do outro modo, podia ter acabado bem mal.

Os seus dois filhos homens seguiram-lhe as pisadas, nos feitios, nas pegas de caras, na rectidão dos caracteres.

Fernando, o mais novo, morreu no passado dia 16, na sequência de lesões sofridas a pegar um touro nas festas da Moita. Aqui lhe presto a minha sentida homenagem.

Teve uma vida breve mas muito enriquecedora. Para a sua família, para os seus amigos, para os que o conheceram, para si próprio. Agradeço o tempo que tive com ele, relembro com nitidez a ocasião em que jantou sozinho em nossa casa para uma conversa aberta e descontraída, registo o jeito e paciência que tinha para com as crianças e a forma entusiástica como era retribuído, tento resistir à tentação da tristeza que o seu desaparecimento inevitavelmente em todos provoca.

Era homem de fé profunda, vivificada na confissão frequente e na comunhão diária. Que Deus o tenha bem perto de Si.

Falando com o seu irmão Joaquim Pedro sobre as preferências musicais do Fernando, referiu-me os Abba, e particularmente a música deles com o seu nome. Aqui pois a trago.

fq

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Vai um gin do Peter’s? 

TOP-TWELVE DAS TAPEÇARIAS PORTUGUESAS 
Na continuação do “gin” anterior (13 de Setembro), com as 10 tapeçarias mais bonitas da arte ocidental numa selecção inspirada na do crítico de arte nova-iorquino Jason Farago, é chegada a hora do património têxtil nacional.

Felizmente, Portugal possui tal quantidade de obras lindas, que a amostragem esticou até às 12 peças. Entre as fabricadas no país e as adquiridas às melhores oficinas estrangeiras, resultaria redutor ficarmo-nos pela dezena. Esta síntese começa por homenagear as tapeçarias de Pastrana, que já tinham inaugurado o elenco postado no “gin” anterior. 

Excepções à parte (Pastrana, gobelins), a escolha privilegia o fabrico nacional e os desenhos dos pintores portugueses: 

A quarta do magnífico quarteto de tapeçarias de Pastrana, intitulada «Tomada de Tânger». Subtraídas à coroa portuguesa no reinado de D.Afonso V, foram encomendadas aos ateliers flamengos pelo rei de cognome Africano, para registo e celebração das conquistas no Magrebe. Actualmente em posse espanhola, foram tema do gin de 11 de Agosto de 2010.

«Portugueses na Índia», a exibir o cortejo de girafas, zebras e músicos. No Museu do Caramulo, possuidor do maior número de tapeçarias da série «À maneira de Portugal e da Índia». 

Da colecção encomendada pela descendência do 4º Vice-Rei da Índia (1500-1548), para comemorar os «Feitos e Triunfos de  D.João de Castro». De fabrico francês (1550-1557), não chegaram ao destino por alegada por falha no pagamento de todas as prestações. 

Tapeçaria do BNU, em Zurique, alusiva à chegada de Vasco da Gama à Índia. Camões imortalizou a viagem, nos Lusíadas: «Os Portugueses somos do Ocidente, / Imos buscando as terras do Oriente.». Cantou também a entrada em Calecute, no Sul do subcontinente, a 18 de Maio de 1498, quando os marinheiros anunciaram do alto dos mastros “terra à vista”: «Disse alegre o piloto Melindano: / Terra é de Calecu, se não me engano». 

Tapeçaria do acervo da CGD.

Debuxo do pintor Jean Restout, 1739. Palácio Nacional de Sintra, desde 1939. Gobelin manufacturado na oficina francesa de Cozette, em lã e seda (420cmx560 cm). 

Os espantosos «Arraiolos». 

Tapeçaria com desenho de Jaime Martins Barata (1962), no Domus Iustitiae do Funchal.



«João das Regras e a revivescência do Direito», de Amândio Silva (1971). Exposta no Palácio da Justiça de Lisboa, na antiga sala de audiências da 4.ª Vara Cível.


Nenhuma selecção seria concebível sem os arraiolos nos desenhos de Grão Vasco; ou as peças confeccionadas nos ateliers de Portalegre, por exemplo; ou as encomendas portuguesas ao Extremo Oriente beneficiando das parcerias comerciais privilegiadas; ou as aquisições às melhores oficinas flamengas; ou a profusão de colchas lindas (de Viana, etc.) depois elevadas à decoração mural; ou … De facto, um rol mais rigoroso obrigaria a maior extensão, tal a variedade do património artístico português, neste capítulo. 

Sem fugir ao esforço e ao risco da súmula: se o exercício fosse reduzido à expressão mais simples com exemplar único, bastaria evocar a colecção de Pastrana, fabricada na Flandres para o rei descendente da Ínclita Geração. Daí o seu lugar de honra no elenco dos dois “gins”. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Artigos dos dias que correm

Retirado deste blogue, junto segue uma análise, da autoria de Filipe de Avillez, à célebre proposta legislativa do BE sobre mudança de género (ou de sexo?).

JdB

***  

Ainda nem o cadáver da discussão da eutanásia arrefeceu e já a esquerda progressista está em campo para nos impor outro ponto da sua agenda. Desta vez é a chamada “autodeterminação de género”. O nome diz muito. Faz tanto sentido como “autodeterminação de idade”, mas é o ponto a que chegámos.

Há três diplomas que, ao que parece, serão agora concentrados num só para depois ser votado. Não analisei os três, mas acabo de ler o do Bloco de Esquerda, que imagino ser o mais radical e quero agora comentar alguns dos pontos que me chamaram mais atenção.

Esclareço que não tenho formação em direito, mas tenho acompanhado estes debates noutros países há longos anos e é nessa qualidade que escrevo.

Artigo 2.º Entende-se por identidade de género a vivência interna e individual do género, tal como cada pessoa o sente, a qual pode ou não corresponder ao género atribuído à nascença

Duas coisas aqui a sublinhar. Primeiro o fantástico “tal como cada pessoa o sente” que diz tudo sobre o admirável homem novo que os progressistas querem criar. Nós somos o que sentimos. Que se lixe a ciência, que se lixe a biologia. Se eu me sinto cavalo, cavalo sou. Se me sinto preto, sou preto – estão-se a rir? Façam pesquisa por Rachel Dolezal. Se sinto que tenho 2,10 de altura, que seja!

Em segundo lugar, talvez seja o termo técnico usado, mas o meu “género” não me foi atribuído à nascença… Já era meu antes de nascer. O meu número de BI foi-me atribuído, o meu número de Segurança Social também, tal como o número de sócio do Benfica. Mas o meu sexo foi determinado por aquela coisa maçadora que são os genes e a biologia. É algo que é meu mas que – cruel tirania – não depende da minha vontade.

Artigo 3.º 1- Todas as pessoas têm direito: (…)  c) A serem tratadas de acordo com a sua identidade e/ou expressão de género

É nestes pequenos detalhes que se encontram os maiores perigos. Pergunto: A serem tratadas por quem? Pelo Estado? Por toda a gente? O Bloco de Esquerda quer obrigar-me a tratar o meu amigo Zé por “ela” apesar de ele ser, biologicamente, um homem? Não basta alimentarem na mente do Zé a fantasia de que com um processo burocrático e uma mutilação médica ele pode “mudar de sexo”, querem-me obrigar a alinhar na brincadeira? Obrigado. Dispenso.

Artigo 4.º - 1 C Pode requerer a alteração do registo civil a pessoa que (…) c) Não se mostre interdita ou inabilitada por anomalia psíquica.

Esta é excelente por duas razões. Primeiro, porque um homem sentir que é mulher quando a biologia indica o contrário deve ser dos casos mais claros de anomalia psíquica que existe. Tem um nome: Disforia de género. Não fui eu que inventei.

A segunda razão está no ponto 3 deste mesmo artigo: Para aceder ao disposto no número 1, nenhuma pessoa poderá ser obrigada a submeter-se a qualquer tratamento farmacológico, procedimento médico ou exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género.

Portanto reparem… Qualquer pessoa pode pedir alteração de sexo, desde que não se mostre inabilitada por anomalia psíquica, mas ao mesmo tempo é proibido submeter os requerentes a qualquer exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género… Preciso mesmo de escrever mais alguma coisa sobre isto?

Artigo 5.º - Menores de dezasseis anos

Muito se tem falado sobre a situação de os menores de 16 anos poderem intentar judicialmente para ultrapassar a oposição dos pais. Mas o que mais me espanta neste artigo é que fala apenas de “menores de 16 anos”, não temos um limite inferior. Aplica-se a crianças com 5 ou 6 anos? Não há mesmo limite? Vale tudo?

Artigo 6.º - 2 - O requerimento é apresentado na Conservatória do Registo Civil e, nos casos previstos na alínea b), do n.º 1, do artigo 4.º, nos consulados respectivos, podendo, desde logo, ser solicitada a realização de novo assento (…) 5 - No novo assento de nascimento não poderá ser feita qualquer menção à alteração do registo

Ora aí está. Este ponto resume toda a mentalidade dos defensores destas medidas. A consagração desavergonhada da mentira! O que é um assento de nascimento? Um assento de nascimento diz, entre outras coisas, que nasceu um indivíduo de sexo masculino ou feminino. Mas o projecto do Bloco prevê a elaboração de um novo assento. Ou seja, não basta que a pessoa queira passar a ser conhecida como sendo do sexo oposto, não. É preciso falsear a história. Porque é disso que se trata. É um facto que naquele dia, naquele hospital, nasceu um indivíduo de um determinado sexo. Se hospital tivesse escrito na altura que tinha nascido um indivíduo do sexo oposto, isso seria mentira.

Mesmo que acreditássemos que uma cirurgia, tratamento hormonal, maquilhagem, um vestido e um processo burocrático pudessem transformar um homem numa mulher, isso não faria com que essa pessoa tivesse nascido mulher. Se tivesse nascido mulher, aliás, não seria preciso a cirurgia, as hormonas e o vestido. Mudar o assento de nascimento é, pura e simplesmente, uma mentira.

Artigo 9.º - 2 - As instituições públicas e privadas a quem estas notificações sejam apresentadas têm a obrigação de, a pedido do/a requerente e sem custos adicionais, emitir novos documentos e diplomas com o novo nome e sexo.

Que o BE queira envolver o Estado nesta fantasia, compreendemos. Mas não basta. As instituições privadas também têm de ser cooptadas. E de que documentos e diplomas estamos a falar? O Zé pode ir à sua paróquia pedir que lhe emitam uma certidão de baptismo a dizer que afinal quem foi baptizado ali, naquele dia, foi a Carolina? E se a instituição privada, ou o funcionário público já agora, recusar alinhar numa mentira? Qual é a pena?

Artigo 11.º - 4 - Ninguém pode ser discriminado, penalizado ou ver rejeitado o acesso a qualquer bem ou serviço em razão da identidade e/ou expressão de género 5 - Serão adotadas as medidas necessárias que permitam, em qualquer situação que implique o alojamento ou a utilização de instalações públicas destinadas a um determinado género, o acesso ao equipamento que corresponda ao género autodeterminado da pessoa.

Novamente o mesmo problema. De que é que estamos a falar? Se eu aparecer no ginásio com uma peruca a dizer que me chamo Tina são obrigados a deixar-me usar o balneário feminino? Mas evitemos a ridicularização… Se eu acreditar verdadeiramente que sou uma mulher, apesar de biologicamente ser um homem e o ginásio me deixar usar o balneário feminino, isso é tudo muito bonito, porque está a respeitar a minha dignidade, segundo o Bloco – este artigo chama-se mesmo “Tratamento digno” – mas… E o direito à privacidade das mulheres que de facto são mulheres e que estão no balneário ao mesmo tempo? Não conta?

Estou a ser rebuscado? Nos outros países onde este comboio já partiu a discussão é precisamente sobre casas de banho e balneários, incluindo em escolas. As escolas que forneceram casas de banho “neutras” para crianças “transgénero” são processadas. Não basta. É preciso deixar o Carlinhos usar a casa de banho das meninas e, no centro comercial, deixar o Zé usar a casa de banho das mulheres independentemente de lá estar a sua filha de seis anos.

Artigo 12.º - 2 - O Serviço Nacional de Saúde garante o acesso a intervenções cirúrgicas e/ou a tratamentos farmacológicos destinados a fazer corresponder o corpo com a identidade de género com o qual a pessoa se identifica, garantindo sempre o consentimento informado.

Portanto não basta usar dinheiro público para pagar abortos, agora os nossos hospitais servirão para financiar operações para mutilar corpos saudáveis e administrar fármacos para impedir o desenvolvimento natural dos sistemas reprodutores de pessoas saudáveis, entre outros.

Artigo 13.º Medidas contra o Generismo e a Transofobia

Todo este artigo é uma maravilha. Campanhas de sensibilização para funcionários públicos e para o público em geral para “desconstruir preconceitos” tão nocivos como a noção de que um homem é um homem e uma mulher é uma mulher. Vá lá que não falam em campos de reeducação…

É isto que nós temos amigos. Vai passar? Não sei. Mas ao menos não se deixem apanhar na curva. Muito mais há para escrever sobre este assunto, mas terá de ficar para artigos futuros.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Da leveza

Durante 20 anos trabalhei em fábricas, espaços que são mais, muito mais, do que zonas onde se transformam matérias-primas e se manufacturam produtos acabados, e onde se alinham maquinarias diversas segundo uma lógica qualquer. Uma fábrica, como já o disse aqui por várias vezes, é um micro-cosmos de vidas, uma sociedade em pequena escala com regras próprias e existências específicas. 

Na minha actividade de empregado fabril travei inúmeros contactos com pessoas ligadas ao marketing e às vendas. Detectava-lhes no olhar e nas conversas uma certa estranheza quanto aos nossos processos, à nossa forma de pensar, aos nosso ritmos e à nossa noção de tempos, prazos, gestão e eficácia. Presumi-lhes a diferença pelo facto de sermos engenheiros quase todos, com um jargão próprio e uma desatenção atávica às necessidades dos consumidores. 

O que nos diferenciava não era essa aparente ignorância do que a dona de casa queria no remanso do seu lar, ou uma certo jargão próprio, já que todos os misteres os têm, independentemente de serem multinacionais ou agremiações profissionais. O que nos separava era uma palavra simples: leveza

O mundo está todo feito para a leveza - não só dos equipamentos, cada vez mais pequenos e em materiais menos pesados, mas das vidas. A comida de fusão tem uma leveza semelhante à volatilidade das relações conjugais, porque uma conjugalidade duradoura tem a densidade de um regionalismo gastronómico. A felicidade dos tempos modernos é um desejo de leveza: descartável, utilitária, frívola, sem critério de compromisso nem desejo de perenidade. Os corpos são leves, não porque haja nisso saúde, mas porque queremos saltitar entre nenúfares. O futuro é pesado, só o presente é leve. 

Uma fábrica é, toda ela, pesada, por oposição ao seu contrário. Planeamentos, ordenação de maquinaria volumosa, cálculos de eficiências e encadeamento de acções para definição de caminhos críticos, gestão e classificação de  pessoal especializado ou indiferenciado, folhas de cálculo são o oposto da leveza com que o mundo quer viver hoje em dia. A deslocalização não é, portanto, a procura da redução de custos de mão de obra, mas o desejo de estar actualizado, estar à moda, ser ligeiro, efémero, sorridente. 

A diferença entre um engenheiro de fábrica e um profissional de marketing reside numa palavra apenas: leveza.

JdB     

domingo, 24 de setembro de 2017

25º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».

sábado, 23 de setembro de 2017

Pensamentos Impensados

Banca rompida
Falando com um amigo, disse-lhe: Ricardo Salgado é um lesado do BES mas ainda pode ter o banco dos suplentes.
Resposta rápida: e o banco dos réus.

Odores
Os desodorizantes terem cheiro é um contrassenso.

Desacordos
Pergunta: agora que a letra K faz parte do alfabeto português, conheces alguma palavra começada por K?
Resposta: conheço - capa.

Técnicas
As múmias não tinham corantes mas tinham conservantes.

Pronúncias
Inquérito de rua no Porto: sabe como se chama o presidente francês?
Resposta: Murcom.

Classificações
Madona é a rainha da pop e Trump o rei da popa.

Desporto
O atlo é uma espécie de triatlo mas só com uma disciplina.

Mitos
Segundos recentes investigações, Branca de Neve era preta, albina.
Os anões sabiam disso mas calaram-se, para não serem considerados racistas.

SdB (I)

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Admirável mundo novo

Ao contrário do que dizia o título do livro de Aldous Huxley, o mundo novo tem pouco de admirável: leio que na Islândia já quase não nascem crianças com síndrome de Down, porque as mães grávidas abortam logo que sabem o diagnóstico; a mudança de sexo para jovens com 16 anos está ao virar da esquina; um dia não se deixarão viver (é para isso que serve o aborto) as crianças que degenerem em gordos, ou os que tenham propensão para diabetes ou outras doenças crónicas. Depois não quereremos os muito altos, ou os muito baixos. Os gordos serão os primeiros a serem abatidos, porque há a estética, os custos para a saúde, etc. Depois havemos de poder escolher os loiros, ou morenos, ou uma família de gente de Angola, porque tem acesso ao dinheiro, só terá filhos ruivos, porque foram invadidos por um fetiche qualquer. 

O mundo novo não é admirável, de facto. Mas há bolsas, pequenas aldeias de gauleses que lutam contra os romanos que querem que rapazes e raparigas sejam iguais mesmo não sendo; que querem promover o aborto, mais do que já está, porque as mulheres são donas do seu corpo. Porque não gostam da obesidade que é prejudicial ao SNS... Os videos abaixo foram-me "apresentados" pela crónica da Laurinda Alves esta semana no Observador. Fala de duas raparigas que, filhas de outros pais e vivendo noutro país, não existiriam, porque não nasceriam. Mas tornaram-se naquilo que mostra o video.

Em cima, o original. em baixo, a adaptação para uma realidade portuguesa. O admirável mundo novo é isto.

JdB




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Quem Somos

Quem somos, senão o que imperfeitamente
sabemos de um passado de vultos
mal recortados na neblina opaca,
imprecisos rostos mentidos nas páginas
antigas de tomos cujas palavras

não são, de certo, as proferidas,
ou reproduzem sequer actos e gestos
cometidos. Ergue-se a lâmina:
metal e terra conhecem o sangue
em fronteiras e destinos pouco

a pouco corrigidos na memória
indecifrável das areias.
A lápide, que nomeia, não descreve
e a história que o historia,
eco vário e distorcido, é já

diversa e a si própria se entretece
na mortalha de conjecturados perfis.
Amanhã seremos outros. Por ora
nada somos senão o imperfeito
limbo da legenda que seremos.

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

***

O Livro Fechado

Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Pensamento Impensado

Enologia
Os melhores vinhos no mercado são o Conde da Ervideira, branco e o Jonas Savimbi, preto.

SdB (I)

Moleskine

Ontem, na sequência do Setembro Dourado que, como já aqui referi, é o mês dedicado mundialmente à sensibilização para a oncologia pediátrica, a Acreditar foi à Assembleia da República, para uma sessão aberta a funcionários, deputados, comunicação social. Estavam três deputados do PSD e três deputados de CDS. Não havia nenhum do PS, do BE e do PCP. O cavalheiro do PAN deveria estar a pensar no sofrimento das vacas em tempo de sequeiro. 

No mesmo dia em que sensibilizámos os deputados para o drama das famílias afectadas pela oncologia pediátrica - perda de rendimento, aumento das despesas, dificuldades de baixa, dias de nojo claramente curtos, ausência de apoio escolar especial ou de consultas de psicologia - o BE achava que um jovem, confrontado com a discordância dos Pais no que se refere ao desejo de mudança de sexo, os pode por em tribunal. 

A oncologia pediátrica afecta 400 novos casos por ano, sensivelmente, com uma taxa de crescimento de 1% ao ano. Uma minoria, seguramente, muito mais minoria do que o número de jovens que, por ano, desejam mudar de sexo. Só assim se justifica a iniciativa legislativa que me parece totalmente aberrante.

Pelas escadas que desaguam no átrio de entrada onde nos encontrávamos na AR, vi descerem três deputados: um do CDS, cujo nome não me ocorre, a Mariana Mortágua e a Isabel Moreira.  Não desejo mal a ninguém, mas a ideia de um tropeção num degrau que degenera numa queda que humilha passou-me pela cabeça. 

***

Fui ontem à missa de corpo presente do Fernando Quintela. Igreja do Monte da Caparica cheia de amigos, familiares, paroquianos desconhecidos, que o rapaz era sobrinho do Pe. Pedro, prior da paróquia. Cada um sabe de si, das suas angústias, inquietudes, dúvidas ou convicções. Mas estes momentos de dor e consternação são, estou certo, momentos de reforço da fé, por mais paradoxal que possa parecer. A imperfeição não é incompatível com nada, a não ser com a recusa da procura de um caminho luminoso.

Olhei à volta, vi caras que fazem parte de uma época feliz da minha vida. Gente que vejo nos enterros, nas missas, mas que me trazem à memória tempos em que as dúvidas nem sequer eram o que fazer à noite. A dúvida talvez fosse, apenas, o destino certo da paixão daquele momento. Para pessoas como eu, as memórias são preciosidades.

JdB   

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Pensamentos Impensados

Sobe e desce
Portugal saiu do lixo; o Benfica lixou-se.

Promoções
Sempre considerei o Ministro da Defesa uma figura secundária, mas, com as declarações a propósito do desaparecimento das armas, acho que é uma figura primária.

SdB (I)

Textos dos dias que correm

Olhar e Chorar

Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. São os olhos duas víboras, metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e a contrição a triaga. São duas setas com que o Demónio se arma para nos ferir e perder; e são dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.

Padre António Vieira, in "Sermões"

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

De um forcado

Fernando Quintela, forcado dos Amadores de Alcochete, morreu no final da semana passado, no decorrer de uma pega de touros. Tinha 26 anos, e à família dele ligavam-me laços de proximidade e de amizade com mais de 40 anos. 

Nada se diz a uns pais que perdem um filho, seja desta ou daquela forma. Nenhuma frase é consoladora, porque nenhuma frase tem o poder mágico de parar o mundo e levá-lo a rodar em sentido inverso até nos quedarmos no momento imediatamente antes do drama maior na vida de uns pais, naquele tempo de felicidade possível em que estão todos de volta de uma mesa a conversar sobre as banalidades da vida. Ou, no caso do Fernando, para chegarmos de novo ao momento em que o cornetim chama o grupo para a pega, ao momento em que todos saltam para a arena, ao momento em que, inundado de adrenalina e gozo, ele cita um animal com uma voz que foi feita para aquilo, e o agarra com uns braços que foram feitos para aquilo. 

Nenhuma frase é suficiente para permitir que a visão do passado, das memórias fagueiras, das primeiras frases e dos sonhos paternais de futuro não seja interrompida de forma brutal, como um música que se suspende inesperadamente no ar, uma oração que ficou por completar por esquecimento da fórmula ou por descrença na sua dimensão benéfica. Como se entre uns pais e o campo que é o futuro sem limite se interpusesse uma parede brutal, alta e, num certo sentido, intransponível.

Muito pouco se pode dizer a uns pais que perdem um filho, e eu nada lhes direi quando os vir, nada de muito sério ou reconfortante lhes diria se me encomendassem um escrito para os pais do Fernando. Podemos falar da fé que não pode abandonar-nos, na certeza de que o rapaz está bem, na mão inexistente de Deus neste acontecimento, porque essa convicção nos permite que continuemos a rezar e a pedir e a agradecer e a interrogar Aquele que não é senão Amor.  A uns pais que perdem um filho dá-se um abraço e confia-se que não lhes falte nada nos tempos que virão: os amigos e a família, um sorriso, a alegria possível, o luto bem feito, a necessidade de encontrar um sentido para tudo isto, a fé que sempre existiu naquela família alargada. 

Ser-se forcado - digo eu, que nunca fui - não é uma opção de herói ou de louco. É gostar do risco, seguramente herdar esse gosto, no caso do Fernando, ter consciência de que tudo pode acontecer: as mazelas e o corpo dorido, o ramo de flores atirado da bancada com um sorriso ou um beijo, as noites maniversas sem glória, o espírito de grupo a não quebrar-se nunca, o respeito por um confronto de desenlace incerto. Ou ainda o fim de tudo, como aconteceu a nove rapazes nos últimos trinta anos. Como aconteceu ao Fernando, que se dedicou àquilo que lhe dava gozo, ciente de que podia haver um preço a pagar. E essa certeza do gozo e da satisfação podem ser um vislumbre de consolo para quem se confronta com o vazio de uma pergunta sem resposta, para quem questiona o destino, a mão divina, a justeza da vida.

Muito pouco ou nada se diz a uns pais que perdem um filho, seja desta ou daquela forma. Talvez rezar, pelo que farei o melhor possível.

JdB         

domingo, 17 de setembro de 2017

24º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 18,21-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:
«Se meu irmão me ofender,
quantas vezes deverei perdoar-lhe?
Até sete vezes?»
Jesus respondeu:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei
que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo,
apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar,
o senhor mandou que fosse vendido,
com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía,
para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo:
‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’.
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo
deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros
que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo:
‘Paga o que me deves’.
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’.
Ele, porém, não conseguiu e mandou-o prender,
até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena,
os seus companheiros ficaram muito tristes
e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse:
‘Servo mau, perdoei-te, porque me pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro,
como eu tive compaixão de ti?’
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos,
até que pagasse tudo o que lhe devia.
Assim procederá convosco meu Pai celeste,
se cada um de vós não perdoar a seu irmão
de todo o coração».

sábado, 16 de setembro de 2017

Pensamentos Impensados

Adágio
Vozes de burro nem chegam aos seus.

Coisas comuns
Adão quis armar-se em Chico Esperto e disse que tinha uma licenciatura.
Deus disse-lhe: deixa de armar-te aos cucos! Já chegamos a Portugal, ou quê?

Chiquezas
Coco Chanel tinha um cão que fazia cocó chanel.

IGI - N
Limpeza étnica será dar banho aos beduínos?

Mudança de estado
O homem precisa de morrer para se tornar imortal.

Eleições à vista
Conselhos e copos de água só se dão a quem os pede.
Concelhos e copos de água só se dão a quem os pede.

Bandas
Há várias espécies de bandas, sendo as mais comuns a banda sonora e a bandalheira.

Futebóis
Muitos jogos de futebol se resolvem no tempo de compensação, pelo que se propõe só haver tempo de compensação.

SdB (I)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Os Homens Gloriosos

Sentei-me sem perguntas à beira da terra, 
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam. 
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos: 
deixai-me esquecer o tempo, 
inclinar nas mãos a testa desencantada, 
e de mim mesma desaparecer, 
— que o clamor dos homens gloriosos 
cortou-me o coração de lado a lado. 

Pois era um clamor de espadas bravias, 
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos, 
ah, sem relâmpagos... 
pegajosas de lodo e sangue denso. 

Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava! 
Nuvens brandas, construindo mundos, 
como se apagaram de repente! 

Ah, o clamor dos homens gloriosos 
atravessando ebriamente os mapas! 

Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples 
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna. 

Senhor da Vida, leva-me para longe! 
Quero retroceder aos aléns de mim mesma! 
Converter-me em animal tranquilo, 
em planta incomunicável, 
em pedra sem respiração. 

Quebra-me no giro dos ventos e das águas! 
Reduze-me ao pó que fui! 
Reduze a pó minha memória! 

Reduze a pó 
a memória dos homens, escutada e vivida... 

Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto'

***

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 

Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 

E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 

Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...). 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu... 

Cecília Meireles, in 'Vaga Música'

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Duas Últimas

Passo dois dias fantásticos de férias em casa do meu querido amigo fq e mulher, em Soltroia. A casa tem, numa apreciação muito genérica, muito do que quero enquanto beneficiário de férias: saio de casa a pé por um carreiro de areia e, ao fim de 5 minutos de caminhada, estou na praia; uma praia grande, sem ninguém, desanuviada e sem toldos, com uma temperatura ambiente agradável, um mar simpático e uma água moderadamente fria (como eu gosto). Hoje em dia guio pouco, porque já não tenho de me deslocar para um posto de trabalho longe. Mas, mesmo assim, privilegio não ter de usar o carro para ir para a praia. Em cima de tudo, Setembro sempre foi um mês bom para férias: há menos gente, menos calor, menos carros em circulação. 

Porque o fq não pedia postar, decidi desafiar o filho dele, João, de 17 anos, a escolher as músicas para hoje. Dei-lhe liberdade total, mesmo que as músicas escolhidas me parecessem inaudíveis. Eis o que ele decidiu, sendo que a segunda é escolhida por causa do pai.

Sejam felizes, que hoje ainda é dia de praia para mim.

JdB



quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

No núcleo cultural do media digital da BBC (de ano anterior), o crítico de arte nova-iorquino, Jason Farago, elaborou um artigo sobre as 10 tapeçarias mais bonitas da arte ocidental. Uma selecção arriscada e muito subjectiva, mas prática para o ritmo acelerado da nossa época, já viciada na simplificação do “top-ten”.

Nove das dez eleitas são lindas, pelo que seguem abaixo, saltando apenas a décima escolha de Farago, que recaiu sobre uma tapeçaria de Kiki Smith, de gosto mais discutível (creio), intitulada «Congregation» e datada de 2014. Assim, o elenco aqui postado coloca em primeiro uma escolha nova, de origem portuguesa, que faz jus à qualidade e beleza das tapeçarias de Pastrana. 

O esplendor de qualquer conjunto de arte têxtil ficaria incompleto sem o contributo português, também interessante e repleto de peças deslumbrantes, que estão já a ser coleccionadas para o próximo gin. Esse novo grupo cruzará os critérios de fabrico luso e/ou de pertença ao nosso património artístico. Como é expectável, percorre um arco temporal menos lato que o podium sugerido por Farago.  

Curiosamente ou, melhor dito, significativamente, a escolha do norte-americano inclui uma obra feita na China e destinada ao mercado português, muito provavelmente de encomenda lusa, pois trata-se de uma tapeçaria ao melhor estilo ocidental, exemplarmente tecida no Extremo Oriente. Farago sublinha esse facto para demonstrar o dinamismo do primeiro movimento de globalização comercial inaugurado pelos portugueses. Sabe bem ver a nossa História honrada além-fronteiras.    




Pormenor de uma das quatro magníficas tapeçarias de Pastranas, subtraídas à coroa portuguesa no reinado do próprio D.Afonso V, que as encomendara aos ateliers flamengos para comemorar as conquistas no Norte de África. Actualmente, em posse espanhola, foi tema do gin de 11 de Agosto de 2010. 

«Tapeçaria do Apocalipse», 1377–1382 (a mais antiga), com episódios do último livro da Bíblia. É-lhe ainda atribuído alcance político por aludir à devastação provocada pela Guerra dos Cem Anos. Qual BD colossal, estende-se por 100m, guardados no museu francês albergado no Château d’Angers. 

«Tapeçaria de caça, de Devonshire», c. 1440–50, tecida na Flandres e exibida no Victoria & Albert Museum de Londres. À época, esta arte têxtil cumpria a dupla função de decorar e preservar da humidade actuando como isolante. O tema da caça era popular, pois juntava divertimento com uma via de socialização relevante.  

Última da série de 6 tapeçarias francesas: «A Senhora com o Unicórnio»,  de finais do séc. XV. Constitui um exemplar perfeito do estilo millefleur («mil flores»), exposto no Museu de arte medieval, em Cluny. Esta peça tem como sub-título: «Mon seul désir» e está impregnada de conotações religiosas por se associar a Senhora do unicórnio à Mãe de Cristo.


Da colecção das 7 «Tapeçarias do Unicórnio», de 1495-1505. Título específico desta obra: «Unicórnio no cativeiro». Em 1937, o grupo foi doado ao Estado pelo magnata John Rockfeller. Tecido em lã e seda, terá sido fabricado em Liège ou Bruxelas, sendo dos mais ricos exemplares medievos. É digna de nota a alegria do unicórnio dentro da pequena cerca, de fácil transposição para a sua estatura e agilidade. 

«O rapto de Helena», do primeiro quartel do séc. XVII, pertence ao Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. Tecida em trama de algodão, está sumptuosamente bordada a fio de seda e ouro. A célebre cena da mitologia grega tem fabrico chinês mas gosto ocidental, destinando-se ao mercado português, que já detinha ligações comerciais privilegiadas com o Império do Meio.  

«A pesca milagrosa» – gobelin manufacturado em Paris, no início do séc.XVIII, baseado numa tela do Louvre assinada por Jean Jouvenet. Após o desaparecimento do carismático coordenador dos gobelins, Charles le Brun – pintor oficial de Luís XIV, estes reinventaram-se com uma palete cromática ampliada, a permitir maior realismo pictórico. Porém, o uso frequente do emblema da família real – a flor-de-lys – na moldura, levou à destruição de muitos exemplares durante a Revolução Francesa. 

Peça da série de 10 tapeçarias «Holy Grail», 1898–99, da autoria de Edward Burne Jones. Além de liderar o movimento pré-rafaelista, Jones destacou-se como designer e político socialista. O conjunto, guardado em Birmingham, percorre a história dos Cavaleiros da Távola Redonda. 

«We Are Living on a Star», 1958, da artista norueguesa Hannah Ryggen, muito ligada a esta tradição têxtil, que remonta à era viking. Nesta composição, ressalta um casal nu, a pairar entre o mundo natural e a sociedade, sobre um fundo pontuado por símbolos enigmáticos. Pertença do Estado, tem sido peça decorativa do gabinete do Primeiro-Ministro da Noruega.  

Série «Musa», de 2009, tem autoria do artista hoje considerado a maior sumidade viva na pintura – o alemão Gerhard Richter. O conjunto replica em têxtil as simetrias abstractas características das telas do pintor, lembrando vagamente os padrões repetidos da arte oriental de cariz muçulmano. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dos comboios e das camionetas

Tenho fases na minha vida: vão, vêm, ficam mais tempo, saem de repente, inquietam-me ou suscitam-me a nostalgia, a tal felicidade de estar triste. A fase que mais permanece, que teima em não ir embora, não obstante eu a não desejar, é o excesso ponderal. Tal como o anúncio do toyota (parece-me) veio para ficar. 

Desenvolvo dentro de mim uma fase diferente, quase a roçar a obsessão: a de ir à América do Sul e fazer lá uma parte da viagem de comboio ou de camioneta. A esse propósito, até já tenho prevista uma conversa com uma jovem rapariga que, acompanhada de uma amiga, de uma mochila e de muita aventura, andou dois meses por esse continente. Obviamente que tomarei em consideração algum conforto, alguma segurança, alguma higiene. Mas a ideia desta aventura (que não é mais do que a procura de um tempo perdido) vai crescendo dentro de mim com alguma perigosidade. 2019, se a vida me der estabilidade nas suas várias vertentes, porque para 2018 já tenho outros planos.

Um dia destes, falho de imaginação e saudoso daquele tempo, fui ver onde estava naquele momento, mas em 2008, no Zimbabwe. Não só onde estava, mas o que escrevia, o que pensava, qual o meu estado de espírito. Durante 15 minutos entreguei-me a um exercício de rememoração, saudoso de um tempo em que escrevia com uma ligeireza que até a mim me espantava, mas saudoso, também, de uma viagem duradouramente marcante. Nesse mesmo dia, no dia anterior ou no dia seguinte, já não me lembro, alguém me manda um sms: está a dar um programa sobre comboios no Zimbabwe; talvez gostes de ver. Não vi naquela altura, vi depois. Mas vi com os olhos do coração e das lembranças - as pessoas, as cataratas, os apertos de mão prolongados, o silêncio de um comboio a atravessar o silêncio da noite num campo com pouco mais do que palhotas e miséria, a simpatia indígena, o tempo cronológico pela frente que se esgota em poucos entretenimentos, a não ser a atenção aos outros.

Não viajei no comboio que atravessa o Zimbabwe e que chega às cataratas; visitei-as burguesmente de avião, o que não me impediu de fixar o ar húmido e minado de gotículas, a beleza estonteante daquele local que põe as cataratas do Niagara na segunda divisão. 

Entre aquela viagem e a ideia de uma camioneta na América do Sul o conjunto intersecção não é vazio. Não há, para esse efeito, diferença entre Harare e Bogotá, entre o campo zimbabueano ou uma feira em Lima - tudo se resume à lentidão com que se observa o mundo em redor, e o que isso nos diz das pessoas, do mundo, de nós próprios.

JdB 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Moleskine

Transcendência em três actos
1) Almoço 6ªfeira, entre outros, com um amigo que esteve de férias em Bali. Fala maravilhado dos dias que lá passou, do que viu e, acima de tudo, do que sentiu: um povo (maioritariamente hindus) que aproveita todas as ocasiões para demonstrar a sua espiritualidade, a sua pequenez perante a natureza, o universo, o transcendente.

2) Dias antes falara com alguém que conhece bem a Índia, até porque lá vive. Falámos da minha não devoção aos santos - tema sobre o qual já aqui escrevi. Disse-me (e espero reproduzir bem o raciocínio) que a nossa devoção aos santos lhe parecia semelhante à devoção dos hindus pela enorme diversidade de deuses - um deus para isto, outro para aquilo...

3) No ano de todos os anos, pessoa de uma geração acima da minha, e que eu muito estimava (a estima era recíproca) perguntou-me se eu não queria organizar uma novena (ou uma corrente de oração) a S. Judas Tadeu pela recuperação de uma determinada pessoa. Crente que sou, acredito no poder da oração, que fará mais pela saúde da alma do que pela saúde do corpo, pois me parece que os milagres se manifestam mais no intangível. Se eu quisesse ser desagradável talvez perguntasse: quem é S. Judas Tadeu? E porquê a ele e não a S. Higino, ou a S. Francisco de Assis, ou a S. Vito?    

"Guichet de reclamação"
Há uma semana escrevi, de forma algo irónica, sobre o que fazer face à loucura do norte-coreano, à tontaria de Trump ou à audácia de Putin, mais aos nacionalismos exacerbados de alguns países do leste. O post pretendia ter um ar ligeiro, mas, dados os comentários que foram e não foram publicados, dei por mim a pensar: o que podemos fazer, de facto, relativamente a estes comportamentos? De que forma é que o alerta por whatsapp para os perigos que potencialmente se avizinham tem alguma relevância? E o que vemos nós, numa cadeira de esplanada com vista para a praia da Poça, que os outros não vêem? Na realidade, internacionalmente nada podemos fazer. Individualmente, cada um de nós não é nada e, mesmo votando para o governo de Portugal, nenhuma influência teremos nestes domínios. Não nos é dado encontrar, e cito ATM, o "guichet de reclamação". O que podemos então fazer pela paz mundial? Lutar pela paz no nosso círculo, estar atento ao nosso próximo mais próximo. Conseguiremos com isso destituir o Trump? Não, mas deixaremos o mundo um pouco melhor.

Trânsito
Em 1975 quando comecei a viajar de avião, não se embarcava com uma farpela qualquer. Lembro-me de ter ido a Nova Iorque em 1980 (81?) com dois amigos. A fotografia icónica dessa viagem foi tirada à porta do YMCA, onde nos albergámos remediadamente durante os dias da estadia. Três jovens, com 20 ou 22 anos, de calças de fazenda e blazer, como se tivéssemos viajado num paquete cheio de nobreza europeia. Naquela altura, um aeroporto e uma gare de comboios eram muito diferentes - o comboio não solicitava indumentária especial. Hoje muda só o meio de transporte, que a frequência já não é tão diferenciável, a não ser, talvez, pelas mochilas.

As ideias acima são uma visão muito curta, a análise sociologicamente mais básica de ambas as realidades. De facto, uma estação de comboio ou um aeroporto poderão ser, tal como uma fábrica, um microcosmos de gente que circula, que tem vidas, segredos, que se organiza de forma própria, que parte e regressa. Ver isto é ver mais além.

A este propósito vale a pena ler o texto de Rentes de Carvalho no seu blogue. Um texto interessante, para quem gosta de encontrar uma dinâmica diferente nas coisas aparentemente corriqueiras.

Efemérides
O chamado 11 de Setembro faz hoje 16 anos. O mundo nunca mais foi o mesmo.

JdB   

domingo, 10 de setembro de 2017

23º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 18,15-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Se o teu irmão te ofender,
vai ter com ele e repreende-o a sós.
Se te escutar, terás ganho o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas,
para que toda a questão fique resolvida
pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja;
e se também não der ouvidos à Igreja,
considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo:
Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu;
e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu.
Digo-vos ainda:
Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa,
ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome,
Eu estou no meio deles».

***

O perdão não consiste numa emoção, mas numa decisão. Não nasce como acontecimento imprevisto, mas como um percurso.

O alcance escandaloso do perdão, que vai contra todos os nossos instintos, está no facto de que é a vítima que se deve converter, não aquele que ofendeu, mas aquele que sofreu a ofensa.

É difícil, e todavia o Evangelho assegura que há uma possibilidade oferecida ao homem para um futuro restaurado. «O perdão é a "des-criação" do mal» (R. Panikkar). Porque repara incessantemente o tecido continuamente ferido das nossas relações.

Jesus indica um percurso em cinco passos. O primeiro é o mais exigente: tu podes intervir na vida de um outro e tocar-lhe no íntimo, não em nome de um papel ou de uma suposta verdade, mas apenas se tomou carne e sangue dentro de ti a palavra irmão, como afirma Jesus: se o teu irmão peca...

Só a fraternidade real legitima o diálogo. O verdadeiro; não o político, no qual se medem as forças, mas no evangélico, em que se mede a sinceridade.

O segundo momento: depois de teres interrogado o coração, vai e fala, dá tu o primeiro passo, não te feches num silêncio hostil, não cometas ofensas, mas sê tu a relançar a relação. No coração da vida, tudo começa do tijolo elementar de toda a realidade, a relação eu-tu.

Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Verbo sublime: ganhar um irmão. O irmão é um ganho, um tesouro para ti e para o mundo. Investir em fraternidade é a única política económica que produz verdadeiro crescimento.

Depois os outros passos: toma contigo uma ou duas pessoas, a seguir fala à comunidade. E se não te escuta, seja para ti como o pagão e o publicano. Um excluído, um descartado? Não. Com ele comportar-te-ás como fez Jesus, que se senta à mesa com os publicanos para anunciar a bela notícia da ternura de um Deus que se inclina sobre cada um dos seus filhos.

Tudo aquilo que ligares ou desligares na Terra, o será também no Céu. Jesus não fala como um jurista, nunca o faz. O poder de perdoar o mal (...) é o poder conferido a todos os irmãos de se tornarem presença que "des-cria" o mal, com gestos que vêm de Deus: perdoar os inimigos, transfigurar a dor, identificar-se no próximo: é a eternidade que se insinua no instante.


Ermes Ronchi
In "Avvenire"

Publicado em 08.09.2017

sábado, 9 de setembro de 2017

Pensamentos Impensados

Modas
Clark Gable usava bigode à Clark Gable.

Distrações
Einstein era meio aéreo mas não consta que se tivesse oferecido para apagar fogos.

Marinhagem de quinhentos
Bartolomeu Dias, quando dobrou o Cabo das Tormentas, só disse caravela e o monstro.

Registo Civil
Adão foi registado como Adão de Deus Júnior.

Opções
Quem me dera ser animal, só teria direitos e não obrigções; não pagava impostos.

Futebóis
Fora de jogo - Diz-se dos jogadores que estão no banco dos suplentes.

Meias palavras
Se uma semifusa é metade de uma fusa, cemitério é metade de um tério.

Altas matemáticas
Meia, é metade de um par de meias;  já peúga não sei o que seja.

SdB (I)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Dos diários

Um diário tem (quase) sempre uma natureza íntima, pois é ali que falamos de desilusões, esperanças, relações afectivas, acontecimentos do dia a dia. De facto, é tão íntimo que não conheci ninguém que mostrasse de bom grado os seus diários, sendo que, numa certa juventude, até havia alguns que incluíam um cadeado. 

Há escritores que, por diversas razões, utilizam um registo diarístico na sua obra. Foi o caso, por exemplo, de Rita Ferro e (não estando bem certo do que digo, porque me parece que só li um volume) Marcello Duarte Mathias, para falarmos apenas nos actuais. Outras pessoas há que transformam um diário em Diários. Isto é, por uma razão ou outra, transformam aquilo que foram escrevendo ao longo dos anos num livro, dando ao público acesso a uma parte (ou à totalidade) do que escreveram. 

Acabei esta semana um livro de que fiz referência há algumas semanas: Acta esta Fabula, Memórias V - Regresso a Portugal (1995 - 2015) de Eugénio Lisboa. Trata-se de um diário ao qual o autor junta considerações actuais. Esta diário é um diário no sentido mais intimista que se possa falar. O que lá está é o que vai na alma do autor que, talvez ao início, não supusesse os seus diários publicados: há referências à vida social (com nomes), às filhas e netos, à doença e morte da mãe, do sogro, de amigos e dos dois gatos. Há considerações de ordem afectiva, quanto ao estado anímico (seu e dos outros), aos seus desejos e frustrações. Tem essa dimensão de registo pessoal.

Concomitantemente ao desgosto pelo dois gatos que morrem em idades diferentes, Eugénio Lisboa revela abundantemente o seu ateísmo mais aguerrido, com frases agressivas e desproporcionadas que não revelam decoro nem respeito. Menciona a sua embirração de estimação a Vergílio Ferreira, a Saramago, a Eduardo Prado Coelho, aos escritores actuais portugueses, à promoção das figuras públicas, aos políticos, aos ordenados pagos a Miguel Sousa Tavares e não sei quem, aos erros de sintaxe de Maria Filomena Mónica, à academia, aos pensadores que são isto mais aquilo. Concomitantemente ainda a tudo isto, há uma lista exaustiva de autores comprados, numa voragem que, a revelar igual capacidade de leitura, me provoca inveja. Mais de metade dos autores citados não os conheço - o que não (me) é abonatório... Ou talvez não seja isso. Concomitantemente ainda (e termino a utilização da palavra) há páginas imensas de auto-elogio, de auto-vitimização, de visão sobranceira sobre o mundo em redor, como se só da casa de Eugénio Lisboa, em S. Pedro do Estoril, se derramasse uma luz salvífica sobre o mundo.

Eugénio Lisboa escreveu para si próprio quando escreveu o diário, porque só depois escreveu para os outros. E o que lhe saiu intimamente foi este livro (e só li um dos cinco volumes...). Ou talvez tenha sido isto que ele quis ver publicado. Nunca escrevi diários, mas questiono-me se seria isto que eu poria - veneno, desprezo, embirrações, desrespeito, listas infindáveis de livros fantásticos adquiridos, superioridade que pode ser um disfarce da inveja. Na realidade, o que poria eu num diário?

JdB

PS: numa troca de sms com o meu querido amigo ATM, que me emprestou o livro, dou-lhe nota muito resumida do que tiro como ar do livro. Responde-me provocadoramente, nesta incessante graça que ele faz com o meu regresso à faculdade e ao mundo da literatura aos 50 e muitos anos: "é a tua tribo". Sorrio com gosto, mas, se assim for, "destribo-me". 

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Textos dos dias que correm

Todo o Passado é um Erro para cada um de Nós

No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca: — Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei! 

Miguel Torga, in "Diário (1943)"

***

As Únicas Verdades que se Demonstram São as do Passado

Aqueles que se apoiam em razões coerentes e não na riqueza do coração, que discutem para agir segundo a razão, nem sequer chegarão a agir porque aos silogismos deles alguém mais hábil oporá argumentos melhores, aos quais eles, depois de terem reflectido, oporão argumentos ainda melhores. E assim, de advogado hábil em advogado mais hábil, por toda a eternidade. 
As únicas verdades que se demonstram são as do passado, evidentes em primeiro lugar porque são. Se quiseres explicar pela razão o motivo por que determinada obra é grande, consegui-lo-ás sem dúvida. Porque conheces de antemão o que desejas demonstrar. Mas a criação não pertence a esse domínio. Experimenta dar pedras ao teu contabilista e ele não construirá templo algum. 

Antoine de Saint-Exupéry, in 'Cidadela'

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Todo o Presente Espera pelo Passado para nos Comover

Há vária gente que não gosta de evocar o passado. Uns por energia, disciplina prática e arremesso. Outros por ideologia progressista, visto que todo o passado é reaccionário. Outros por superficialidade ou secura de pau. Outros por falta de tempo, que todo ele é preciso para acudir ao presente e o que sobra, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado é a ternura e a legenda, o absoluto e a música, a irrealidade sem nada a acotovelar-nos. E um aceno doce de melancolia a fazer-nos sinais por sobre tudo. Tanta hora tenho gasto na simples evocação. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. Há a filtragem do tempo para purificar esse presente até à fluidez impossível, à sublimação do encantamento, à incorruptível verdade que nele se oculta e é a sua única razão de ser. O presente é cheio de urgências mas ele que espere. Ha tanto que ser feliz na impossibilidade de ser feliz. Sobretudo quando ao futuro já se lhe toca com a mão. Há tanto que ter vida ainda, quando já se a não tem... 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 5'

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Duas Últimas

Mão amiga divulgou os Quatro e Meia. Não faço ideia de quem são, não ouvi as músicas todas, não sei em que género se inscrevem. Por junto não sei nada, a não ser que estou falho de inspiração, já escrevi dois posts esta semana e não quero maçar ninguém. 

Descansem da minha prosa e deliciem-se com os Quatro e Meia. Se atentarmos nos comentários, a banda é um sucesso que provoca frenesim por aí.

E agradeço à mão amiga...

JdB 




terça-feira, 5 de setembro de 2017

Dos jornalistas

E vós também, pindéricos jornalistas
que fazeis cócegas e outras coisas
à opinião pública! (...)

Almada Negreiros

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Na minha qualidade de Presidente, ou de simples membro da Direcção, representei a Acreditar inúmeras vezes nos últimos anos: recebi cheques, prémios; falei, conversei, discursei; estive em farmacêuticas, bancos, escolas, empresas, torneios de golfe, etc. Nalguns eventos fui sozinho ou acompanhado social ou profissionalmente; nalguns eventos estavam figuras públicas - presidentes de bancos, administradores, directores, jornalistas, actores de telenovela. Nalguns eventos havia comunicação social - televisões ou jornais.

Em grande parte do mundo, Setembro é dedicado ao cancro pediátrico. A Acreditar associou-se à campanha Setembro Dourado, que pretende sensibilizar a opinião pública para a doença que, excluindo os acidentes, mata mais crianças a partir do primeiro ano de vida. Teremos vários eventos durante o mês, e ontem conseguimos a visita de Marcelo Rebelo de Sousa. Durante a hora que esteve connosco mostrámos-lhe a casa, conversou longamente com crianças, jovens e Pais, beijou e deixou-se fotografar, interessou-se genuinamente por tudo, dando sempre a sensação que estava lá, sem pressas nem agendas. Sempre de mão dada com ele, três ou quatro crianças a que se juntou uma jovem. Se uma ou outra poderiam não suscitar a atenção, numa adolescente e numa criança os sinais de doença eram evidentes.   






Na qualidade de presidente da Acreditar falei do nosso próximo e grande projecto: a ampliação (duplicação, no fundo) da casa de Lisboa para dar resposta a uma permanente e dolorosa lista de espera, já que não conseguimos albergar todos aqueles que nos procuram. Um desafio que orçará 1.700.000€, talvez, que terá de ser suportado principalmente por mecenato. Um pai, cabo-verdeano, falou a seguir a mim, mencionando a importância que a Acreditar e a casa têm no processo de doença e recuperação. Falou então Marcelo Rebelo de Sousa, demorando-se na campanha, na importância da Acreditar, na luta das crianças. 

Depois os jornalistas quiseram fazer perguntas. Penso que estaria tudo organizado, porque só a RTP 1 se dedicou a essa tarefa por três vezes: a primeira para falar de Tancos, a segunda para falar de Tancos, a terceira para falar da Coreia do Norte. Nenhum jornalista me fez perguntas, nenhum jornalista fez perguntas a qualquer elemento da estrutura profissional ou voluntária da Acreditar, nem sequer a um Pai. Diz-me quem sabe que só vieram porque o presidente não fez declarações no quartel, pelo que no jardim da Acreditar, rodeados de Pais e crianças e profissionais e voluntários, os jornalistas quiseram saber dos morteiros roubados e do louco norte-coreano.

Estive várias vezes com actores de telenovelas em eventos onde a Acreditar se fez representar, fosse por mim, ou por outra pessoa. Fomos sempre ignorados pela comunicação social, porque entre uma associação que trabalha com crianças com cancro (e que é protagonista de um evento) e uma carinha laroca que fala do seu último e grande amor não há dúvida sobre o que prevalece.

JdB

Actualização hoje, às 09.00h: não tiro uma palavra ao que escrevi ontem; mas, em abono da verdade, diga-se que o Observador deu uma notícia correcta e simpática, o jornal das 20.00h da TVI idem. Dos outros não sei. Talvez não precisassem de perguntas, que as imagens falariam por si.

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