sexta-feira, 30 de abril de 2010

cidade cinza

uma coisa cortante entra no poema pelo início,
a semântica recorrente dissolve-se, está gasta,
é enxofre o que entra pela janela-precipício,
é fraca a moeda que o ácido tempo arrasta.

chumbo é a cor deste dia, inundação inteligente
mas não inteligível, saudades e pedra - basta -,
quando o que procuras é um sonho-que-é-gente,
nem mais, nem menos que
a tua cidade dilacerada

reerguida, insurgente, ladina, uma mulher-cidade
restituindo ao tempo traços roubados ao fúnebre nada.
uma coisa louca - insone, insana - linda de verdade
(arrancar a máscara negra, ousar o salto na passada.)


gi.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this week I am inspired by two friends, one who recently has travelled in Morocco and the other who has just returned from living in Egypt, to choose songs by two North African/Middle Eastern artists.

Amr Diab is Egypt's most successful singer in terms of popularity and sales. Born into a privileged and educated family, he is considered to have developed a "pan-Mediterranean" sound, a blend of traditional Arabic rai and western pop rhythms. I did not know of Amr until by chance recently I heard this song Tamally Maak, which means simply I Am Always With You, apparently one of the most popular Arabic songs ever:



Souad Massi was born in Algeria within a poor family. She began her career singing political songs about her country's difficult civil problems and consequently was severely disapproved by powerful people in government. More than this, Souad was a young woman who liked modern western dress and so challenged her male-dominated society. After death threats and being shot at, she moved to Paris where she continues to write songs about her home country. A few years ago I saw her fantastic debut UK concert at London's Queen Elizabeth Hall and have been a fan ever since. Like Amr Diab, she incorporates traditional Algerian arabic instruments and rhythms with western styles.

This song is called Raoui (The Storyteller); it speaks that, although everyone has a story in their heart about today's socio-political troubles, they should forget their problems for a moment and listen to the storyteller recounting tales of "once upon a time" of more innocent times:



I hope you enjoy.

A proxima.
PO

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sei que estás aí

Para ti, C R S

Eu sei que estás aí.

Não me respondas que não é preciso. Achas que enganas quem? Se quiseres passar despercebido não faças tanto barulho para a próxima vez.

Chamaram-me maluca a última vez mas, eu não ouço quem não me entende, sei que estás aí e que ainda tens coisas para me dizer.

Não, não é o vento.

És mesmo tu!

Pus a tua música preferida no outro dia, fechei os olhos e até te senti a dançar que nem uma pessoa maluca.

Também foi o vento?

Tenho tantas coisas para te contar... mas vou falar baixo para as pessoas à minha volta não acharem que falo com o ar. Se acharem? Azar o delas. Tu sabes que eu não estou louca. Tu sabes que estás ao pé de mim.

Quem é que me acordou no outro dia quando não ouvi o apito do relógio?

Gosto que me julgues e que me chames à atenção quando não faço o que devo, sempre foste assim, sempre tiveste jeito para grilo falante mas agora, fazes-me sentir à tua maneira que estou a fazer disparates.

Sinto-te ao meu lado todos os dias, sinto que me observas, que te ris do meu jeito desajeitado, de quando os meus bolos saem queimados do forno ou quando me esqueço de tudo em todo o lado. Mas aí já não me ajudas, olha que tu também...

Sinto-te ao meu lado,

Sinto-te em todo o lado,

Podes-te esconder melhor na minha sombra, podes tentar fazer menos barulho,

Podes dizer-me ao ouvido que é o vento,

Mas eu sei, eu sei sempre que estás aí.

TdB


terça-feira, 27 de abril de 2010

As paixões da alma

Realizaram-se neste fim-de-semana que passou, como já é hábito há alguns anos, os dias da música no CCB. Quem olha para o que é proposto acha que esta é a forma encontrada pelo CCB para conseguir entrar para o livro do Guinness. São dois dias (não conto com o primeiro, que tem só o de abertura) ‘apinhados’ de concertos. O programa não tem um único furo. Não há cá pausas para o café. É tudo seguido, desde as onze da manhã até à meia-noite, com muitas sobreposições pelo meio.

É o segundo ano que vou. E, pelas duas experiências, parece-me que é o segundo de muitos. O ano passado os dias tiveram como tema Bach. Tive o prazer de assistir (juntamente com o dono deste estaminé) a um excelente concerto.

Este ano o tema foi ‘As Paixões da Alma’. Quem espreitou o programa percebia que as paixões da alma englobam de tudo. Desde recitais de piano a peças para coro e orquestra passando por tango, acabando num homem que fazia música com copos de cristal. Agradava a gregos e a troianos.

Depois de analisar o programa escolhi três concertos. Uma maratona entre as seis da tarde e a meia noite. O primeiro era o de um pianista turco conhecido principalmente pelas suas interpretações características de peças clássicas e não só. Mas, como se sabe, os turcos são pessoas que adoecem com muita facilidade. Deve ser da brisa fria que sopra ali à beira-mar. E por motivo de doença do pianista o concerto ficou sem efeito.

O CCB tratou de arranjar um substituo. Tenho o maior respeito pelo Sr. Jorge Moyano (que tem enormes parecenças físicas com o Avô Cantigas) mas, sinceramente, não era quem eu queria ver tocar. Ainda assim assisti ao concerto, porque sempre se ouve qualquer coisa nova. As peças eram todas de Schumann. Não conhecia nada dele e, no fim, acabei com pouca vontade de conhecer mais. Não tenho uma dúvida de que é por falta de cultura musical minha, mas tudo o que ouvi me disse pouco.

Deixo abaixo uma amostra do que estava inicialmente previsto.

O segundo concerto foi de um cantor norte-americano chamado Corey Harris. Blues puros. Guitarra, voz e um pé a bater no chão para marcar o passo. Foi um excelente concerto. Não lhe dou 10/10 porque houve ali três ou quatro músicas a puxar para o reggae, que não beneficiaram ninguém. Nem a mim, porque acho que é sempre a mesma coisa, nem a ele, que não conseguia explorar todo o potencial voz / guitarra.

O cenário do concerto não podia ser melhor: uma sala pequena, as luzes a menos de meio-gás e uma parede toda em vidro de frente para o Mosteiro dos Jerónimos.

Acabado este, foi correr para o grande auditório para o último concerto da maratona. E este sim, foi uma verdadeira paixão da alma. Um coro Gospel, com a ajuda de um piano, de um baixo e de uma bateria. É um cliché dizer que transmitem uma alegria contagiante a cantar, mas acho que essa é a única justificação para, em algumas músicas do concerto, o grande auditório - à pinha - estar de pé a cantar, a dançar e a bater palmas.

Ainda mais espantoso é perceber que este público não é propriamente do género de acompanhar o que se passa em palco com dança e cantoria. Mas a verdade é que vi pessoas de oitenta anos a abanar as ancas como se não houvesse amanhã. Fica abaixo um cheirinho do que se passou, e recomendo que não percam o espectáculo quando eles cá voltarem.




SdB (III)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Gula

Levantava-se sempre pelas seis horas, qualquer que fosse a estação do ano. Era rápido no banho, no café e na torrada e saía a correr, porque havia que dar o pequeno-almoço à comunidade de idosos que vivia perto de si numa moradia que o tempo, a humidade e as desavenças familiares tinham arruinado parcialmente.

Pela hora de almoço sentava-se frente a uma sanduíche e a um sumo natural e redigia cartas, preparava balancetes, desenvolvia projectos e planos de negócio, gizava cronogramas com um rigor relojoeiro. Era o seu voluntariado em prol de uma associação de deficientes à qual se ligara por via do filho de um colega de faculdade.

Ao fim da tarde, quando o bulício da cidade anunciava o regresso a casa, Henrique ia distribuir jantares aos sem-abrigo a quem conhecia os nomes, as doenças e os passados – porque os futuros eram um exercício difícil de adivinhação. Quando o relógio da igreja onde dava catequese aos domingos assinalava a meia-noite, o jovem economista ainda arranjava tempo para navegar na internet – não nas redes sociais como fazia meio mundo, mas nos sites oficiais, procurando um programa comunitário, um prémio, um fundo, uma ajuda financeira. De facto, as crianças em risco mereciam-lhe toda a atenção.

Foi numa dessas noites frias e chuvosas, quando distribuía uma sopa de legumes fumegante a quem vivia na rua embrulhado em cartão canelado, que conheceu a Carolina. Trocaram um olhar breve, carregado daquela cumplicidade que une quem se dedica à caridade. As mãos tocaram-se fugazmente quando se organizaram para entregar tabuleiros, recolher canecas vazias, distribuir um par de meias quentes.

Três semanas depois Henrique dirigia-se às avenidas novas onde, num terceiro esquerdo elegante e discreto, vivia a Carolina, uma licenciada em Direito e especialista em fiscalidade num escritório de renome. Já se conheciam minimamente, tinham trocado experiências e opiniões sobre a solidariedade, a vacuidade das vidas, o egoísmo das opções, o serviço ao próximo, a importância do combate à pobreza e à exclusão.

Mas o jantar de hoje tinha um outro fim, mais carnal, mais afectivo, mais erótico. Afinal, eram dois adultos livres, solteiros, independentes, que se juntavam para gozar da companhia mútua e de uma noite previsível de amor.

Carolina estava deslumbrante, vestida com uma roupa que assentava tentadoramente num corpo que, não sendo perfeito, provocava a inveja de muitas colegas e o desejo de inúmeros clientes. Após o jantar sentaram-se num sofá e, pouco tempo depois, enroscavam-se num beijo longo, sensual, húmido, carregado de erotismo. Henrique correra-lhe o corpo com as mãos e ela entregara-se sem restrições, ambicionando também uma noite que se prolongasse sem fim.

- Espera, dissera ela com a roupa semi-desabotoada, deixa-me por música e acender umas velas. Levantou-se mas deixou-lhe outro beijo ardente, sentindo-lhe as mãos sem recuo.

Baixou as luzes, acendeu uma velas e colocou um disco na aparelhagem. Tinha-lhe dado as costas e lentamente – muito lentamente – tirara todas as peças de roupa enquanto Joe Cocker cantava, na sua voz característica, you can leave your hat on... A fiscalista estava integralmente nua e rodou lentamente, antevendo a emoção que provocaria no seu namorado ao revelar-se por inteiro – e pela primeira vez.

Henrique, o homem que servia os pequenos-almoços aos idosos, que construía business plans para associações de deficientes, dava catequese, distribuía sopas aos sem-abrigo e investigava fundos comunitários para crianças em risco dormia profundamente, com a boca ligeiramente aberta e uma mão solta de onde se penduravam uns óculos periclitantes.

Sabes qual é o teu mal, Henrique? - afirmou Carolina num monólogo frustrado, enquanto calava o Joe Cocker, apagava as velas e cobria uma nudez que só ela via – é que tu não fazes caridade. Tu sofres é de gula. E isso não é um pecado?

JdB


domingo, 25 de abril de 2010

Domingo .... Se fores à Missa!

Evangelho segundo S. João 10,27-30.
«As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço-as e elas seguem-me.
Dou-lhes a vida eterna, e nem elas hão-de perecer jamais, nem ninguém as arrancará da minha mão.
O que o meu Pai me deu vale mais que tudo e ninguém o pode arrancar da mão do Pai.
Eu e o Pai somos Um.
»


O Evangelho de hoje, parco em palavras, é rico em conteúdo. Toca-me especialmente a primeira frase: "As minhas ovelhas escutam a minha voz; eu conheço-as e elas seguem-me". É esta a mensagem do bom pastor.

Trazendo esta ideia para a n/ realidade, é bem verdade que qualquer pastor conhece as suas ovelhas uma a uma, apesar de nós, leigos em matéria ovina, acharmos que são todas iguaizinhas. O pastor (o Pai) leva as ovelhas (nós) para um grande campo (o palco da n/ vida) às vezes verdejantes (horas de alegria), às vezes seco e árido (horas de tristeza) e deixa-as pastar livremente (n/ livre arbítrio); tem como auxiliar um cão pastor (o n/ director espiritual), mas acima de tudo tem todo o empenho e toda a dedicação (o amor do Pai por cada um de nós) naquelas ovelhas que são, afinal, o sustento da sua vida.

Não sei se se passa o mesmo convosco, mas para mim é importante saber que o Pai me conhece como ninguém. Ele conhece cada um de nós de ginjeira, não tenho dúvidas. Com Ele não tenho de fingir, não tento ser aquilo que não sou, não tenho de sorrir quando choro por dentro, não tento sequer aparentar virtudes que não tenho, nem valeria a pena ! Ele que tudo sabe. Posso ir direita ao assunto, expôr os factos, descrever o que sinto, em determinada situação e sei que Ele entende exactamente aquilo que estou a tentar dizer .... não há mal-entendidos, não há más interpretações. É como se fosse assim, a cara-metade, a alma gémea, aquela pessoa com quem não é preciso trocar palavras, sequer. E, nesse diálogo, que parece mudo sem o ser, encontro a minha segurança como pessoa, como mulher e como católica.

Domingo se fores à Missa .... deixa-te embalar pela voz do Pai.

MAF

sábado, 24 de abril de 2010

Pensamentos impensados

Hoje, o assunto vai ser sobre ditados (provérbios, sentenças, rifões, anexins, aforismos, máximas, etc.).

Diz-se que voz do povo é voz de Deus; a ser assim, Deus não é coerente como vou passar a demonstrar, citando a tal voz do povo.

Gordura é formosura; por outro lado magreza é beleza.

Nunca é tarede para aprender,, no entanto, burro velho não aprende línguas.

Quem vai para a cama sem ceia toda a noite rabeia; mas surge a contradição que afirma... de grandes ceias estão as sepulturas cheias.

Quem espera sempre alcança; mas... quem espera desespera..

Quem é incoerente, quem é?

Dois rifões impensados:

Diz-me com quem andas, dir-te-ei com quem não andas.

A divagar não se vai longe.

SdB (I)

Músicas dos dias que correm...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

todos os nomes

certos jogos semânticos
lembram-me os fogos fátuos
da infância, portas de cemitérios,
o anúncio inclemente aos vivos
de que a sua hora
chegará.

por exemplo, um homem.
um homem ao sol, segurando
um jornal - de ontem e de amanhã -,
enquanto dóceis cãezinhos coloridos
dão cor e vida -
e um patusco sorriso -
ao quadro.

não sei se é desta teimosa neblina,
ou só desespero como diz alguém,
ali à esquina,
mas também a mim às vezes
mete nojo o que fazemos do amor
que fazemos.

as palavras são então
como catedrais esculpidas na pele
estátuas retalhadas a coração
e lápis de cor
um'outra forma de amor
- que sei eu?

repara no homem e nos cãezinhos
que lhe embalam a velhice.
diz-me: como posso sentir-me
mais perto do homem que dos amigos?
mais perto dos cãezinhos que do homem?
mais perto de ti do que de mim?

talvez sim, talvez não.
entretanto mergulho fundo no dia,
e finjo ser o que é possível
- como o meu nome:
que sabemos tão bem ser gi,
mas fingimos ser joão.


gi.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Deixa-me rir...

Há músicas que acordam sensações físicas, quase tácteis. Foi o que Isabel sentiu ao sentar-se ao lado de Luís nessa noite fresca de Junho. Cadeiras gémeas, um computador e uma pequena janela a abrir para o casario e para os barcos num Tejo de breu. Um pequeno apartamento cheio de livros, cd’s e tapetes velhos. Tecto baixo e esconso, paredes com salitre e posters de filmes antigos. Cinzeiros cheios de beatas e um saco do lixo à porta.

Luís era DJ e tinha sido convidado para pôr música numa mega festa da sociedade lisboeta. Como para além da música era um entendido em engenhocas e electrónica, tinha pensado em projectar imagens ou vídeos que ilustrassem as canções seleccionadas. A festa era dada por um grupo de amigos que celebravam em conjunto os seus 55 anos, pelo que as escolhas tinham sido maioritariamente revivalistas, ritmadas, alegres, com alguns bons slows pelo meio. A festa teria lugar no Museu da Electricidade pelo que as enormes paredes brancas seriam o cenário perfeito para a projecção de slides e filmes sobre os aniversariantes e dos vídeos escolhidos.

Vem, dissera-lhe Luís, puxando-a alegremente por um braço, deixa-me mostrar-te os vídeos que seleccionei. Sentou-se ao lado dele, encostada a ele. Isabel adorava estes momentos em que as palavras partiam para parte incerta e só a música “falava”. Isabel gostava de ouvir o Luís “falar” através da “sua” música.

E assim se passaram trinta minutos de brincadeira, de risos e de uma cumplicidade construída ao longo de muitos meses. E no trigésimo primeiro minuto, algo aconteceu. Passava o vídeo do Tony Bennett entoando “For once in my life”. Isabel sentiu um arrepio percorre-la aos primeiros acordes da música. E toda a sua atenção se prendeu, instantaneamente, ao movimento da câmara avançando lentamente pela grande sala de espectáculos, aos acordes da orquestra e à voz aveludada do TB. De repente, sem mais nem porquê, sentiu que um imenso véu, setim puro, a envolvia numa súbita onda de frescura e bem-estar. Parecia-lhe que um imenso tecido, sem peso nem substância, mas estranhamente táctil, descera sobre si, envolvendo-a a ela e a mais ninguém. E nesses segundos inexplicáveis, sentiu a confluência da Razão e do Espírito. E percebeu que nada mais seria como dantes.

Isabel apertou a mão do Luís, desviou o olhar para as luzes reflectidas no Tejo e deu graças a Deus.


Nota: pessoalmente não sou grande apreciadora do Stevie Wonder – mas o Tony Bennett tem uma presença e uma voz tão marcantes, que suplanta qualquer eventual acompanhante.

pcp

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

No actual cartaz de cinema, entre os melhores, há as grandes realizações, as grandes interpretações, as grandes narrativas e o retrato das grandes figuras históricas.

O SONHO É POSSÍVEL acumula vários méritos: o Óscar da Melhor Actriz Principal, juntamente com o Globo de Ouro de Melhor Actriz de 2010 (Sandra Bullock); um elenco bem caracterizado onde cada actor encarna com uma naturalidade notável a sua personagem; uma trama poderosa, cheia de humanidade; uma família comum onde os gestos cruciais nascem em pequenos momentos, daqueles verdadeiros, que todos reconhecemos no nosso dia-a-dia; mas, acima de tudo, o facto de se basear na realidade, em que o ponto de partida adverso se converte em bem, num efeito dominó, quase irreal! E isso é o mais inacreditável, tendo inspirado a tradução livre do título português, a sublinhar a improbabilidade do sonho realizado.

Uma história maior e factual, que aguenta alguns estereótipos a que o argumento não se conseguiu esquivar. E percebe-se a gigantesca tentação de Hollywood, quando todos os ingredientes se juntaram: em pano de fundo, o desporto favorito dos americanos e o menino pobre, com imenso potencial, que nasce no país das oportunidades, onde se tenta praticar o lema: the sky is the limit! Nas personagens, de um lado, uma família branca, abastada, republicana, do outro, um adolescente negro, indigente, traumatizado pela marginalidade típica de quem nasce na zona proscrita da cidade (Memphis), significativamente conhecida por Hurt Village, submergida na típica espiral de degradação: droga, violação, ditadura dos gangs, orfandade e desenraizamento absoluto. Ali tudo é disfuncional, violento e viciante! Sobreviver é, por si só, uma aventura… Autêntica roleta russa! Michael Oher é o produto real do lado errado do burgo. O lado que todos (com um mínimo de sucesso ou sorte) evitam conhecer. Excepto se houver uma boa razão…
Precisamente, o filme é sobre uma óptima razão!

As melhores razões têm, naturalmente, o nome de pessoas e os factos aqui narrados reúnem várias, em crescendo. Antes de mais, o abandonado Oher, sem a agressividade expectável, face ao seu passado, e uma característica linda, taxada à americana, em percentil: 98% de instinto de guardião! Um dom invulgaríssimo numa criança que fora maximamente desprotegida. Talvez corresponda ao primeiro recorde de Oher, que os foi somando ao longo da vida.

A seguir – cronologicamente – uma professora que se compadece e lhe aplica um método de avaliação, a título excepcional (sendo penalizada pelos colegas), através de prova oral, permitindo-lhe não ser expulso da escola, aos primeiros e previsíveis desaires, quando a maioria o achava um caso perdido, puro desperdício de recursos. Aparece ainda o miúdo confiante e alegre, ruivíssimo, que não se intimida com a enorme estatura de Oher, antes se mete com ele, encontrando-lhe graça onde a maioria apenas via motivos para se afastar… Finalmente, uma noite invernosa, com tudo para ser horrível e, surpreendentemente, o ar enregelado de Oher, mal abrigado numa T-shirt disforme, derrete o coração bondoso de uma mãe, de um pai, de duas crianças a quem nada faltava, enquanto a maioria virava a cara para não se impressionar!

Depois, as felizes e insólitas coincidências, que sabemos serem possíveis, apesar de muitíssimo improváveis: um treinador que faz um diagnóstico precipitado de prodígio atlético, influenciando a admissão de Michael O. numa escola privada, de luxo, onde é o único negro entre brancos. Aliás, este facto merecerá um comentário bem apanhado, por parte da sua mãe adoptiva, que o quer enquadrar etnicamente para evitar o desconforto de se sentir «uma mosca num copo de leite»! O argumento avançado pelo treinador, no magno encontro do Conselho Directivo, é muito bonito mas soa a manobra persuasiva, habilmente esgrimida: a escola cristã não poder deixar de honrar os seus compromissos com a virtude maior – a caridade! Mal sabia ele a caixa de pandora, verdadeiramente caridosa, que tinha aberto… Mas talvez o facto mais inexplicável, à luz da teoria das probabilidades, ainda seja a enigmática sobrevivência de Oher, nado e criado em condições de máxima exposição ao perigo! Até Leigh Anne, expoente da combatividade e do optimismo, estranhava essa circunstância prodigiosa, que só se atreveu a tentar esclarecer com o próprio, bastantes anos depois, com tudo já estabilizado.

Claro que para o profundo da pergunta, a mergulhar no abismo da vida, a resposta racional, lógica, irrefutável, ficaria por dar. O que o teria protegido, até encontrar abrigo numa mansão a transbordar de calor humano, rodeada de um jardim verdejante, no seio de uma família que o sente seu e o acolhe na véspera do Dia de Acção de Graças, uma das festas mais familiares dos EUA?
E será que há mesmo coincidências?

O título original, de tom hiper prosaico, a evocar as entranhas tecnicistas do jogo – The Blind Side: Evolution of a Game – será o melhor retrato, quer do próprio Oher, quer da família Tuohy, onde tudo tem uma aparência demasiado comum, a ocultar um substrato magnânimo, invulgarmente despojado (no meio da abundância em que vivem), animado por uma pedagogia muito disciplinada e lutadora, uma atenção grande aos outros pagando o tributo das escolhas difíceis (na adolescente, o repúdio das amigas pelo novo irmão, de outra raça). Também no relvado, o lado cego é assumido pelo jogador que protege o avançado, viabilizando assim os golos. Menos vedeta, mas não menos campeão! Sobretudo, não há que temer o lado cego, quando este esconde, justamente, o lado melhor da realidade:

- Afinal, a matriarca mandona, que Sandra Bullock personifica na perfeição, é a verdadeira Mãe Coragem, hiper empreendedora, movida por uma energia inesgotável ao serviço do bem! O pudor, de não querer partilhar as lágrimas com uma criança que carrega tanta dor, é bem a marca d’água da sua bondade arrojada.

- Afinal, o falhado Oher é um diamante por burilar, que a ternura de uma família irá lapidar e revelar aos mais incrédulos, simplesmente por o fazer partilhar da sua felicidade e união!

Iniciação de Michael na fábula preferida dos Tuohy, em que o protagonista da estória tem o seu retrato…

- Afinal, a inscrição no arco de pedra, à entrada da escola – «With men this is possible. With God everything is possible» – ganha vida, quando encontra eco no coração de quem não se esquiva às circunstâncias desagradáveis e problemáticas. E isso desafiará sempre as probabilidades mais remotas!

- Afinal, o primeiro gesto generoso – de acolhimento de Oher – é apenas o começo de uma avalanche de novidades, simbolicamente referida no desabafo cómico dos pais (republicanos), a propósito das convicções democráticas da nova explicadora, contratada para tentar o
milagre da sua admissão à universidade. De facto, quantas vezes, a vida nos arrasta num tsunami de surpresas, incontível e até divertido. E nisso (ou será em quase tudo?) supera, em muito, a ficção!

- Afinal, o sonho acontece, sempre que o círculo de pobreza é quebrado por uma mão, ou melhor, uma mãe e toda uma família salvadora!

The Blind Side é, afinal, aquela mão direita, que dispensa saber o que faz a outra… Não conheço muitos assim, embora esteja tanto ao nosso alcance!

Vale a pena ver e ouvir as personagens reais, em discurso directo:

Os pais adoptivos, numa entrevista televisiva: «Michael was there, he had a need. We had the ability to fill it. We all fell madly in love with him, probably within 48 hours. He was an instant part of this family. We just got a great kid, a wonderful addition to our family. (…) Michael wanted to receive help, and he wanted to change his life and better himself
A mãe: «I just felt like I was unstoppable. I felt like no matter what, I was going to win the battle



Michael Oher: «I'm not going to feel sorry for myself because I didn't have a place to stay a lot of time. It is what it is. We've got to go through some things in life. Take it and run with it. (…) Anything Is Possible»

Aposto que o mundo seria mais festivo se o nosso
blind side melhorasse um bocadinho o percentil em favor dos que se cruzam connosco, enregelados…


Uma cumplicidade que foi crescendo, dia após dia.



Abraço a cada um,

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

_______________________
FICHA TÉCNICA:
Título original: The Blind Side, evolution of a game
Tradução: O Sonho é Possível
Realizador: John Lee Hancock
Elenco: Sandra Bullock » Leigh Anne Touhy
Quinton Aaron » Michael Oher
Kathy Bates » Miss Sue
Tim McGraw » Sean Tuohy
Lily Collins » Collins Tuohy
Jae Head
Ray McKinnon
Ashley LeConte Campbell
IronE Singleton
Produção: Broderick Johnson, Andrew A. Kosove, Gil Netter
Argumento: John Lee Hancock, baseado em livro de Michael Lewis
Fotografia: Alar Kivilo
Duração: 128 min. Ano: 2009
País: EUA Distribuidora: Warner Bros.
Estúdio: Alcon Entertainment / Warner Bros. / Zucker/Netter Productions

terça-feira, 20 de abril de 2010

Balão

Vieram antes do tempo, os mosquitos peganhentos, ou então é a chuva, que se demorou demais e engana a gente. Entram pela janela, que já se vai deixando aberta, e tropeçam em tudo antes de chegar à luz do tecto. Consigo ouvi-los ralhar, bêbados com o cheiro a gente, embrulham-se neles próprios e nos cabelos dos corpos, numa aflição que me desperta mais o nojo que a compaixão. Enxotam-se com paciência, não incomodam tanto como o retesar involuntário dos músculos do pescoço, o esternocleidomastoideu e os seus primos direitos, que reclamam dias mais curtos e menos marrecos. Os livros vão-nos esticando as ideias quase na mesma medida com que nos vão encurvando as costas. Estou cansado.

A rua não tem ninguém. Parece que as pessoas se escondem da noite e, com a pressa, abandonam metade das coisas do dia. Juntam-se dentro das casas, onde há mais luz, como os mosquitos, e vão enjoando, tropeçando, bebendo e ralhando, até o sono os enxotar para a cama. Vejo um balão abandonado, preso ao mundo por um fio, e decido levá-lo comigo.

À espera do metro está um miúdo louco, com umas sapatilhas brilhantes e uma camisola pequena demais. Bate furiosamente com os pés, como que a espantar-se a si mesmo, e a mãe dele suspira, sentada mais abaixo, Guilherme, então?. O desconforto de ambos é evidente, não porque o comportamento do pequeno seja inoportuno ou incomodativo, afinal, a noite está praticamente vazia, mas porque uma qualquer mudança nas rotinas de ambos os trouxe até aqui. A caminho de casa.

O passeio cola debaixo das solas os restos de um jantar que se revoltou à saída do restaurante, faço um contra-ritmo com o chiar dos passos. Finjo que ninguém está a ver e aproveito para animar o serão das viúvas que dormitam tristezas atrás dos vidros, dou dois pulos e duas voltas ao candeeiro, pulo outra vez e bato os calcanhares. Contrariam-se com o mesmo fôlego a corcunda do dia e as mágoas de quem se refugia à janela. Toco à campainha.

Sabe bem ter quem nos espere, ou pelo menos quem nos faça acreditar que somos esperados. Seis ou sete lanços de escadas são seis ou sete saltos. Trago-te uma prenda, recebes-me com um sorriso e pegas no balão, que se estica em direcção à luz do tecto, para junto do único mosquito que deixaste entrar, É dos que sobem!

ZdT


domingo, 18 de abril de 2010

Músicas dos dias que correm...

Poemas dos dias que correm...

A Prisão do Orgulho

Choro, metido na masmorra
do meu nome.
Dia após dia, levanto, sem descanso,
este muro à minha volta;
e à medida que se ergue no céu,
esconde-se em negra sombra
o meu ser verdadeiro.

Este belo muro
é o meu orgulho,
que eu retoco com cal e areia
para evitar a mais leve fenda.

E com este cuidado todo,
perco de vista
o meu ser verdadeiro.


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
(Tradução de Manuel Simões)


3º Domingo do Tempo Pascal

EVANGELHO – Jo 21,1-19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus manifestou-Se outra vez aos seus discípulos,
junto do mar de Tiberíades.
Manifestou-Se deste modo:
Estavam juntos Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo,
Natanael, que era de Caná da Galileia,
os filhos de Zebedeu e mais dois discípulos de Jesus.
Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar».
Eles responderam-lhe: «Nós vamos contigo».
Saíram de casa e subiram para o barco,
mas naquela noite não apanharam nada.
Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem,
mas os discípulos não sabiam que era Ele.
Disse-lhes Jesus:
«Rapazes, tendes alguma coisa de comer?»
Eles responderam: «Não».
Disse-lhes Jesus:
«Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis».
Eles lançaram a rede
e já mal a podiam arrastar por causa da abundância de peixes.
O discípulo predilecto de Jesus disse a Pedro:
«É o Senhor».
Simão Pedro, quando ouviu dizer que era o Senhor,
vestiu a túnica que tinha tirado e lançou-se ao mar.
Os outros discípulos,
que estavam apenas a uns duzentos côvados da margem,
vieram no barco, puxando a rede com os peixes.
Quando saltaram em terra,
viram brasas acesas com peixe em cima, e pão.
Disse-lhes Jesus:
«Trazei alguns dos peixes que apanhastes agora».
Simão Pedro subiu ao barco
e puxou a rede para terra,
cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes;
e, apesar de serem tantos, não se rompeu a rede.
Disse-lhes Jesus: «Vinde comer».
Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-Lhe:
«Quem és Tu?»,
porque bem sabiam que era o Senhor.
Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho,
fazendo o mesmo com os peixes.
Esta foi a terceira vez
que Jesus Se manifestou aos seus discípulos,
depois de ter ressuscitado dos mortos.
Depois de comerem,
Jesus perguntou a Simão Pedro:
«Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?»
Ele respondeu-Lhe:
«Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus: «Apascenta os meus cordeiros».
Voltou a perguntar-lhe segunda vez:
«Simão, filho de João, tu amas-Me?»
Ele respondeu-Lhe:
«Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas».
Perguntou-lhe pela terceira vez:
«Simão, filho de João, tu amas-Me?»
Pedro entristeceu-se
por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez se O amava
e respondeu-Lhe:
«Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus:
«Apascenta as minhas ovelhas.
Em verdade, em verdade te digo:
Quando eras mais novo,
tu mesmo te cingias e andavas por onde querias;
mas quando fores mais velho,
estenderás a mão e outro te cingirá
e te levará para onde não queres».
Jesus disse isto para indicar o género de morte
com que Pedro havia de dar glória a Deus.
Dito isto, acrescentou: «Segue-Me».

sábado, 17 de abril de 2010

Convite

Recebi este texto via correio electrónico, e presumo que tenha sido publicado na net. É com gosto que o reproduzo também aqui, não só pela concordância, mas pela amizade antiga que me liga à família do Pe. Quintela.

Já lhe conhecia a voz dos seus tempos da TSF. Agora, sempre que oiço no carro a Antena2, com o desejo, sem mais, de ouvir música clássica, sai-me sempre ao caminho essa mesma voz, facilmente reconhecível pela contínua ambição de debitar opinião sobre tudo. E se lhe falta o génio dos mestres transborda-lhe na voz o sentido doutrinário/sanguinário própria dos reaccionários de esquerda: propaganda dos seus, obnubilamento dos outros (para quando musica de Arvo Part, Penderecki, Gorecki?, porquê o apagamento da biografia dos compositores das suas convicções religiosas, dos antigos a Stravinsky e Falla?), referências continuamente venenosas e ácidas no que se refere à Igreja Católica.
Hoje excedeu-se. Sobre um cónego do Porto, músico afamado neste país pequeno, tratou de dizer logo, com todas as letras, que é suspeito de pedofilia. E pronto, está lançado o anátema. Sem sequer o caso estar a ser julgado em tribunal, eis que o juiz da Antena2 lançou o seu veredicto.
Daí o meu convite. Não a que se eleve à altura das coisas do espírito, que só são belas, perduravelmente belas, se o são no espírito de verdade. Não apenas a que refira, ou convide os seus correligionários a referir, com igual gosto e languidez os nomes de toda a rapaziada envolvida no processo da Casa Pia, oficiais do estado e outros. Mas parece-me que seria saudável, no entanto, para sabermos com que linhas nos cosemos, que se referi-se às dificuldades de Eugénio de Andrade, nome maior da sensibilidade pederasta da nossa terra, ou de Lagoa Henriques – esse da estátua do Pessoa no Chiado - que se divertia com os seus modelos meninos, ou ainda uma palavrinha sobre o João César Monteiro e o seu documentário sobre a Sophia, e o modo obcecado como filma a criança sua filha (à venda na FNAC!) ou à literatura pedófila do Partido Radical Italiano, inspirador dos rapazes do Bloco. Que cite, ainda, Daniel Cohn-Bendit, avatar da cultura libertária de 68, inimigo vencedor do perigoso católico Rocco Buttiglionne na primeira equipa de Barroso (lembram-se?), dinossauro do actual parlamento europeu, e os seus elogios das suas próprias praticas pedófilas. Ou então, se quiser ser mais cosmopolita, ele que nos fale dos passeios de Roland Barthes, esse do Estruturalismo e da Semiótica pela Africa sariana em turismo sexual avant la lettre, ou das aventuras de Paul Bowles na Tanger da sua depravação, mais a Beat Generation sua convidada para o calor marroquino. Que desenvolva os tópicos do Michel Foucault justificando a libertação de todas as censuras sexuais burguesas, e que nos fale ainda do Gide mentor de toda a cultura pedófila e, indo um pouquinho mais atrás, que nos refira o barão von Gloeden e as suas celebres fotografias dos garotos da Itália pobre e, de novo, do Norte Africa apaixonante para essa gente obcecada por meninos. Gostaria também de ouvir duas palavras sobre o Presidente pedófilo Teixeira Gomes, nos 150 anos do seu nascimento, esse que também escolheu para terminar os seus dias a Argélia. E que não se julgue que são coisas perdidas no tempo. O poeta candidato a Belém escolheu para anunciar a sua candidatura a cidade de Portimão, num misto de homenagem ao Presidente escritor e à ética republicana. E pronto, se quiser ser generoso agradeceria, ainda, que nos descobrisse um pouco do mundo das artes nos dias que correm, e basta ficar por Lisboa. Ele que nos fale da gente da musica, do teatro, do cinema, e por aí fora, desses que são livres dos preconceitos cristãos.
E já agora, se quer falar dos padres pedófilos, que não se esqueça de referir que o estudo americano sobre estas misérias, o único até agora de natureza científica, aponta que 90% desses famigerados é homossexual. Sim, desse género de gente que não se deve discriminar, segundo as mais recentes conquistas da legislação portuguesa.
Poderá soar-lhe a ‘chinês’ mas, ainda assim, seria bom que ele dissesse que esses padres são gente muito longe do hábito de ir regular e fielmente ao confessionário, que não são devotos do terço, que desprezam a via sacra e a vida dos santos, que detestam e levantam a voz contra o Papa, contra o Papa do dia, e que embora um Papa suceda ao outro não sucede eles amarem o magistério e a sua doutrina. Que é gente, ainda, sem devoção à Virgem Maria e que sofrem muito por causa da proibição da ordenação das mulheres. Que tendem a considerar o celibato uma imposição antiquada e que são muito tolerantes no que se refere ao aborto. E que, se por vezes, essa gente perversa e perdida vive na Igreja, em versão reaccionária, também lhe são reconhecíveis os tiques: ritualismo extremo (=narcisismo pedante), falta de compromisso com os pobres e a missão, acusação contínua à hierarquia de ceder, eles cuja rigidez exterior revela um mundo pulsional febril. Finalmente, seria curioso que se pronunciasse sobre o facto de a pedofilia ser escandalosa ‘apenas’ no mundo cristão, na tradição cristã. Que se arrisque a fazer um prognostico sobre o que irá suceder daqui a cinquenta anos, nesta estrada estonteante que caminha de causa fracturante em causa fracturante…
E pronto, por aqui ficam estas ideias soltas, sugestões escritas apressadamente, ao correr da pena, com um lamurio final: pobre de Cristo, como sempre e uma vez mais humilhado e ofendido nas traições/perversões dos seus. Gente ‘velha’ esta, tão velha como o golpe nocturno do primeiro discípulo sacerdote perverso. Pobre do vigário de Cristo, cujo coração tem de ser do tamanho católico da misericórdia de Cristo, ou o Senhor não lhe pediria tanto! Pobres de Cristo, os humilhados e ofendidos que só o poder do mesmo Senhor poderá ressuscitar de tamanha ferida. Pobres, ainda, esses pobres de Cristo – os cristãos simplesmente cristãos - que levam sobre o seu coração a dor atroz de tudo isto mas que não puderam jamais ceder aos gritos da multidão, como habitualmente aviltada e acovardada.

Padre Pedro Quintela

sexta-feira, 16 de abril de 2010

to catch a thief

apetece-me escrever um poema todo em vertigem, souplesse e estilo,
como se ao volante de um esvoaçante bólide super-desportivo,

beijando ao de leve o asfalto das esbeltas estradas do mónaco,
ao lado de uma morena de estalo e vestido mais do que negro.

mas a vida não é um filme de hitchcock, nem um livro strawberry light,
- antes o mesmo exacto bólide, fundindo-se agora contra um rochedo.


gi.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, a fascinating exhibition 'The Real Van Gogh: The Artist & His Letters' is currently showing in London's Royal Academy.
Alongside 65 famous paintings and 30 drawings, are displayed 35 of his letters, to his devoted brother Theo and to other friends and fellow painters.
The popular conception of Vincent Van Gogh (1853-1890) is that he was a mad crazy artist, these days considered manic depressive, who cut off his ear and later killed himself.
But the letters show that he was also a highly educated intelligent thoughtful man, who could speak several languages and who read much literature. Artistically, he taught himself to paint and composed his paintings with much reflection and planning.
'The duty of the painter is to study nature in depth and to use all his intelligence, to put his feelings into his work so that it becomes comprehensible to others,' van Gogh wrote in 1882.
'All my work is based to some extent on Japanese art,' van Gogh wrote to Theo. In a letter to his sister Willemien, he says that his passion for portrait painting surpassed his love of all other genres. Commenting on his famous 1888 self-portrait, van Gogh writes: 'A pink-grey face with green eyes, ash-coloured hair, wrinkles in forehead and around the mouth...And you see - this is what Impressionism has above the rest, it is not banal and one seeks a deeper likeness than that of the photographer.'
'Books and reality and art all have the same meaning for me. There is the art of lines and colours but there is also the art of words that will endure just the same,' he wrote.
When he died, a blood-stained letter to Theo found on him read: 'I risk my life for my own work and my reason has half foundered in it.'
['founder' is to be destroyed like a ship on rocks].
One further fact that I did not know: he began to paint, self-taught, only at the age of 27, after failing to become a church pastor.
In just ten short years he painted around 900 works and created, eventually because he was not recognised in his lifetime, a legend.
And so now to a famous song inspired by Vincent van Gogh: Vincent (Starry Starry Night) by Don McLean. I have chosen a video subtitled with Portuguese lyrics but there are many others which also exhibit Vincent's many wonderful paintings.


Don McLean himself believed that his lyrics 'painted' too much detail and did not leave enough space for the listener's imagination. I, and many many other people evidently, disagree.
In fact Don McLean was himself the inspiration for another classic song, after the writer heard him perform in concert.
Here is the incomparable Roberta Flack and
Killing Me Softly With His Song:


Strumming my pain with his fingers
Singing my life with his words
Killing me softly with his song
Killing me softly with his song
Telling my whole life with his words
Killing me softly with his song

I heard he sang a good song
I heard he had a style
And so I came to see him
To listen for a while
And there he was this young boy
A stranger to my eyes

I felt all flushed with fever
Embarrassed by the crowd
I felt he found my letters
And read each one out loud
I prayed that he would finish
But he just kept right on

He sang as if he knew me
In all my dark despair
And then he looked right through me
As if I wasn't there
And he just kept on singing
Singing clear and strong

He was strumming my pain
Yeah, he was singing my life
Killing me softly with his song
Killing me softly with his song
Telling my whole life with his words
Killing me softly
With his song

A proxima,
PO

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Good morning sunshine

4th must have:
A clutch.
(Note-se que esta é um exemplo de uma para lá de feia. Quem gostaria dela? Um estilo EMO, aquelas que gostam muito dos Toquio Hotel)

MUST SEE:http://www.youtube.com/watch?v=ufdplVhAVUY

terça-feira, 13 de abril de 2010

John. Paul. George. Ringo.

Passou no outro dia por mim um miúdo que não teria mais de dez anos. Vinha a cantar o ‘Yellow Submarine’, dos Beatles. É por isso que digo cada vez com mais convicção:

Os Beatles são a maior banda de sempre.

Para mim são também a melhor, mas alguns não concordam porque gostos não se discutem, e o que eu gosto é diferente do que tu gostas, e não me podes obrigar a ouvir o mesmo que tu ouves, e blá blá blá, todas as frases com pretensões a politicamente correcto que muitas pessoas dizem com um ar arreliado e indignado, porque não se podem questionar gostos alheios, dizem elas.

Voltando ao miúdo. É espantoso ver alguém cantar uma música de um CD que é trinta anos mais velho do que ele, de uma banda que provavelmente não conhece, mas que ouviu em algum lado e cuja música ficou no ouvido.

E isto só acontece com os Beatles, porque nenhuma criança cantarola o ‘Satisfaction’ dos Rolling Stones, ou assobia o solo de guitarra do ‘Shine On You Crazy Diamond’ dos Pink Floyd. E são também grandes bandas e grandes músicas. Mas só os Beatles conseguem pôr músicas na cabeça de alguém, sem essa pessoa saber quem canta ou onde a ouviu. E isto torna-os a maior banda de sempre. Não é por serem dos artistas mais ricos e famosos de sempre, por terem vendido uma enormidade de CD’s, por terem feito história em termos de tempo de permanência nas tabelas. É só por isto.

E esta minha opinião é bastante recente. Porque, até me ter começado a interessar realmente por todos os CD’s que editaram, era só mais um miúdo a assobiar o ‘Yellow Submarine’.

É sempre difícil escolher poucas músicas dos Beatles para sugerir às pessoas; é conforme os dias que escolho as músicas deles de que mais gosto. Abaixo estão duas que, à hora a que escrevia este texto, eram as que me apetecia ouvir.

PS: Só mais uma coisa: há músicas e álbuns que são feitos à frente do seu tempo. O ‘Helter Skelter’ e o ‘Tomorrow Never Knows’ são claros exemplos disso. Foram feitas na década de 60, mas podiam perfeitamente ser um single editado na semana passada por uma banda recente. Não pus essas músicas na lista porque não são as mais imediatas deles, mas aconselho vivamente a que se oiçam.


SdB (III)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Luxúria

António Maria passava férias no Mónaco, hóspede frequente e requisitado de amigos ricos, para quem a palavra tristeza (como outras) tinha uma conotação muito própria, porque algumas pessoas usam as palavras dando-lhes sentidos específicos:
Estou triste, sabes? O Dow Jones fechou em queda e o Euronext não está a ajudar. Não achas uma tristeza?
Mas a tristeza bolsista era secundarizada pelos barcos, manobrados por mãos hábeis que aproveitavam o vento brando e a rotina mansa das marés, pelas tripulações vastas, almoços surpresa, camas abertas, gin and tonic ao fim da tarde, roupas bonitas e corpos bem tratados.
Em Portugal era conhecido em S. Carlos, onde era frequentador assíduo, assim como na Gulbenkian, nos leilões de arte, nos melhores restaurantes, nas festas mais deslumbrantes, nas famílias mais finas, nas revistas mais cor-de-rosa, nos casamentos mais luxuosos.
Tinha uma casa com uma vista deslumbrante sobre o Tejo, cuja decoração tinha sido facilitada por uma imensidão de quadros herdados e mobílias compradas, tapeçarias adquiridas após negociações criteriosas onde a dureza e a educação caracterizavam por igual o seu estilo.
Dizia, quem tinha passado pela sua cama de solteirão inveterado, que o sexo era magnífico. Atento aos ritmos de quem estava consigo, era virtuoso, criativo, ágil, aberto a novas experiências, demorado quando necessário, rápido quando exigido. Acendia velas, punha uma música suave e que se ouvia o bastante para não incomodar, e a noite acabava com o raiar do sol, com um pequeno-almoço de hotel de luxo e uma olhar burguês sobre os cacilheiros.
Porque o destino nos faz trilhar caminhos que se suporiam vedados ao estilo de vida que cada um escolhe, António Maria veio a apaixonar-se. Não por uma baronesa, mas pela Adélia, uma estudante de Engenharia do Ambiente e monitora do curso de boleros que o gestor decidira frequentar, para satisfazer o capricho de uma advogada, rapariga da baixa nobreza do Liechtenstein, por quem se apaixonara ao assistir ao Anel dos Nibelungos. Adélia tinha uns olhos escuros, um corpo esquivo e um nariz ligeiramente levantado. O artista cantava

Reloj deten tu camino
Porque me vida se apaga
Ella es la estrela
Que alumbra mi ser
Yo sin su amor no soy nada

e Adélia encostava-se, colava-se num requebro permanente, e o aluno sentia o peitinho dela a estremecer por baixo de um vestido de lycra que revelava formas escaldantes. Acabou por levar a dançarina a sua casa. A professora fascinou-se com as velas, os quadros, as tapeçarias, a temperatura ambiente, a cozinha, a organização dos armários, a vista sobre a outra banda onde vivia desde que nascera.
Sabe, doutor António
diria ela, estirada numa cama com duzentos anos, revelando uma nudez juvenil, firme, sem pudores nem receios. E ele, o gestor herdado que desenvolvera a fortuna e semeara contactos nos vários cantos do mundo, beijava-a ao de leve pelo corpo todo, como quem descobre, reconhece, regressa e descansa.
Diz, Adelita
Aprecio esta luxúria em que vive.
Luxúria? Eu acho que é luxo, não é luxúria...
E não é a mesma coisa? Olha, achei que era... A sério que não é?

JdB

domingo, 11 de abril de 2010

Poemas dos dias que correm...

Teoria da Presença de Deus

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço
a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida


Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

Músicas dos dias que correm

2º Domingo do Tempo Pascal

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram-lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu-lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão na seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou-Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete-a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu-Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse-lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto
».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.


sábado, 10 de abril de 2010

Fotografias dos dias que correm (2ª parte)



Fotógrafa de alma e profissão, Rita Burmester foi co-autora do livro “Splendid Garage” a que pertence o conto “A Esperança de Margarida”, publicado ao longo dos últimos 6 sábados neste blogue. Amiga do coração do autor deste conto, com ele viveu momentos inesquecíveis e mutuamente enriquecedores. Um era o “anjo”, o outro a “rocha”, na poesia das palavras de Bernardo Pinto de Almeida, que escreveu o prefácio do livro.

Apresentamos hoje (e no sábado passado) parte das fotografias que fazem parte, também, deste livro. Fotografias fortíssimas, riquíssimas nos seus contrastes de luz e sombra, cor e nitidez. Fotografias desoladas que nos remetem para um universo de despojos, de um consumismo rápido, esbanjado e esquecido. São carcaças de carros… mas poderiam ser frigoríficos, micro-ondas, máquinas de lavar, sofás esventrados, armários de cozinha …

E para quem quiser ficar a saber mais sobre a Rita e o seu trabalho: http://www.ritaburmester.com/

sexta-feira, 9 de abril de 2010

íntima cicatriz

(ao sr. joaquim manuel magalhães)

lembrava-se,
como se à brutal oficina do tempo
correspondesse
a infinitude delicada da memória.

tomava por seus os céus da catalunha,
emprestadas testemunhas
da sua história trágico-marítima
mais íntima.

a noite caía na temperatura, gelada agora.
trombetas emudecidas
que ninguém esperava, que ninguém escutava,
um som-silêncio-cimento universal.

'a arte de perder não é difícil de dominar',
tudo isto lhe passava agora à frente, rente aos olhos,
uma visão futura indesejada
fazendo-se passar por outra coisa.

obscenidades.
como este poema terrível:
escrito a partir do tempo futuro,
mas vívido, vivo, no presente mais doloroso,
que é sempre o tempo-mal-passado.

como as
legiões romanas de outrora,
e as senhoras de meia idade agora,
as palavras são enviadas para a morte,

estrelas nos céus de amanhã,
indiferentes à triste sina
ou só má-sorte
dos que ficaram para trás.

dói o céu que ontem foi derrotado,
esse último céu sobre a batalha mais sangrenta,
a da metafísica cruel.

palavras, outra vez:
assassinos a soldo do monstro
a que chamam devir.

tudo o resto:
um rosto amachucado,
um homem de rastos,
o cadáver esquisito do futuro decomposto,
amargo travo de açúcar que é já fel.

resta-nos rir.

nós, os que vamos morrer
despedaçados pela ponta das palavras,
saudamos-te, césar.

gi.

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