sábado, 31 de janeiro de 2015

Pensamentos Impensados

Plurais
Qual é o plural de maricas?
1 maricas, 2 maricass, 3 maricasss, 4 maricassss......

Geografias
Ria de Aveiro - não é fazer troça da mãe de Ronaldo.

Acrescento a uma piada de Dalai Lima
Numa votação, se dois terços não derem conta certa, acrescente-se uma Avé-Maria.

Panem et circensis
Há dias mundiais por tudo e por nada.
Os dias mundiais são um universo.

Festejos
No Ártico fizeram o Dia da Couve Galega.
Durou 6 meses e os resultados foram nulos.

Preferível lenços de papel
Pelo andar da carruagem, qualquer dia Zeinal chora bava e ranho.

Gratidão
Não trate com desprezo a sua médica que tão bem o tratou; venere-a.

SdB (I)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Das frases importantes

Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras.
Reinhold Niebuhr
***
Estou certo de que alguns dos meus fiéis leitores (nem que seja um...) conhecerá a frase acima, também conhecida como a oração da serenidade.  Cruzei-me com ela enquanto coleccionador de frases alheias, mesmo sabendo que uma boa citação pode não ser mais do que a defesa do ignorante. Mas fixei-a, e voltei mais tarde a ouvi-la em conversas que sempre me acrescentam valor. Não pretendo espantar ninguém com a originalidade da citação, apenas reproduzi-la para eventuais fins de memória futura.
Os escaparates das livrarias estão cheios de livros de auto-ajuda: a fé que salva, a esperança que determina, o deus que nos atende os telefonemas, as dietas do espírito, os alimentos que repõem as energias perdidas.  E no entanto, estou em crer que bastava esta frase para salvar os destroços em que nos tornamos ou, melhor ainda, para prevenir os naufrágios que provocamos ou de que somos vítimas. Alguém disse, não sei quem nem onde nem quando, que a felicidade não era mais do que a gestão das expectativas. Sim, sim, é verdade. E parece-me que este pensamento de autoria desconhecida e a frase de Reihold Niebuhr casam bem – como o pastel de nata e a canela, ou mesmo como o salmão e o endro.
Se alguém acha que dominar os pontos de açúcar é uma actividade complexa, que requer competências menos corriqueiras, é porque nunca manteve relações afectivas, quaisquer que sejam elas. É por isso que gostaria que alguém fizesse chegar aos ouvidos do ministro de educação este meu post. Esqueçam a divisão de orações d’ Os Lusíadas, actividade que, não só não tem interesse, como mata a diminuta ligeireza da obra; esqueçam a alteração da ideia de complemento directo para outra coisa qualquer; esqueçam a educação sexual, porque um cidadão educado não fala de sexo. Esqueçam tudo e ensinem, à custa de violência psicológica, subornos na forma de chocolates ou promessas incumpríveis, que quase tudo o que interessa saber sobre relações afectivas se resume àquela frase, toda assente em discernimento e força.
Há quem diga para telefonarmos que ele (Ele?) atende. Eu já tentei e consegui – a resposta que me veio lá de cima foi a frase do Niebuhr.
JdB

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

As escolhas de gi

Manuel de Freitas, "Ubi Sunt", Averno


MF continua a sua singular trajectória, em pista própria, no contexto histórico e artístico da poesia portuguesa contemporânea. Poeta "sem qualidades" (é elogio, atenção!) e de uma consistência inabalável, é um dos autores de alguns dos poemas recentes mais tristes - desalentados - da ars poética portuguesa, dos últimos 10 a 20 anos, ao mesmo tempo que mais perfeitos na difícil arte de rematar poemas com brilhantismo semântico (formal) e superlativo efeito emocional.

gi



Chão antigo *
(para o António Manuel Couto Viana)

É pena que já não existam
esses lugares imundos – puros, quero eu
dizer – onde a morte entrava
sem ter de pedir licença.
Lugares onde eram por igual sinceros
o sono, o vómito ou a sombra de um abraço
(Mayakovsky e Céline tinham a mesma importância
e a sorte de não serem futebolistas).

É pena que já não possamos
comemorar no chão a derrota
do corpo pela manhã. Ao lavarem
os copos, da última vez, houve duas
ou três gerações que se partiram.
Talvez eu pertencesse a uma delas – mas
isso, ao poema, importa muito pouco.

Há um lugar que escreve sobre
a ausência de todos os lugares.
Tonéis de vários tamanhos
onde inscrevi, por distracção,
o único nome verdadeiro.
Estou a falar, naturalmente,
de tabernas.
Mas talvez não seja apenas isso.


* in A Flor dos Terramotos 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Diário de uma astróloga – [96] – 28 de Janeiro de 2015

Temporariamente ausente … para acabar o meu livro

Depois de 96 posts quinzenais, hoje despeço-me dos leitores e do dono deste estabelecimento. Se me permitirem, voltarei no Outono.

Serendipity (palavra que não sei traduzir) da vida: O meu marido muda de emprego e vamos para Roma – visita do dono do estabelecimento à cidade eterna ficando no nosso apartamento – conversas astrológicas ao jantar e convite para participar no blog – convite aceite e descubro o prazer de escrever - persisto mesmo em semanas em que me foi difícil ter tempo para escrever – blog fica com seguidores – editora portuguesa aceita publicar um livro que tem o nome desta crónica Diário de uma astróloga baseado em alguns dos temas que aqui abordei.

A astróloga reconhecida agradece do fundo do coração a oportunidade de ter acesso a este estabelecimento e os comentários amáveis que recebi durante estes anos.

No post anterior http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.pt/2015/01/diario-de-uma-astrologa-95-14-de.html escrevi sobre Saturno em Sagitário e os seus possíveis efeitos em acontecimentos políticos e mundiais.

Saturno está presente nas cartas do céu de todos nós e de dois em dois anos e meio muda de signo. 1/12 da população tem Saturno em Sagitário. Saturno representa, entre outras coisas, a capacidade de ser organizado, metódico, de gerir, de dar estrutura.  Entre as possíveis áreas de intervenção de Sagitário temos a religião, a moral, viagens físicas e intelectuais e a difusão de conhecimentos. Não será uma surpresa para os seguidores de “Adeus, até ao meu regresso” saberem que JdB tem na sua carta natal Saturno em Sagitário.  

Cada vez que abro o blog, a astróloga sorri com a manifestação do Saturno em Sagitário, ao ver o nome do blog relacionado com viagens físicas e agora a palavra “tardio” ligada ao mestrado que o seu fundador, gestor, organizador, frequenta. Uma vez que as manifestações de Saturno não acontecem num flash, pelo contrário, são maturadas, aboboradas, muitas vezes verificam-se tarde na vida. Desejo o maior sucesso a JdB nas suas actividades literárias.

Citando o Capítulo 3.1 do Eclesiastes “Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”

Para mim chegou o momento da despedida como participante activa mas não como leitora.

Bem hajam e até ao meu regresso!


Luiza Azancot

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Duas últimas

Confrontado, como fico sempre, com uma espécie de falta de inspiração para estes posts de 3ªfeira, entendi que a ideia de sugerir música grega vinha a propósito. Afinal, as eleições tinham sido no domingo e a perspectiva de um certo "não pagamos" está em cima da mesa.

Ora, a sugestão da música grega suscitava um problema: não percebo nada de música grega, não conheço cantores gregos, a não ser, talvez, o Demis Roussos e a Nana Mouskouri. Depois lembrei-me que, em bom rigor, também ninguém faz uma ideia muito clara do que será o futuro grego. Uns dizem que a vitória do Syriza é boa para nós, outros que é má para nós. Pessimista como sou, inclino-me para a certeza - não será bom para eles.

Deixo-vos então com música grega. O quê? Não sei de todo. Mikis Theodorakis era outro nome familiar e a música pareceu-me bonita. Talvez triste, como será a vida de muita gente naquele país. A outra música não sei de quem é, nem quem canta, nem se é o esplendor do kitsch. Também é de aventuras que se vive...

Apreciem - ou apareçam amanhã, que é tudo mais sério.

JdB
   



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Vai um gin do Peter’s?

Um amigo com um longo historial de organização de exposições na Biblioteca Nacional (B.N.), para dar a conhecer os tesouros antiquíssimos que só saem dos cofres para as vitrinas das mostras temporárias, costumava dividir o público da B.N. por dois grupos, simplificando intencionalmente: há os apaixonados incondicionais pelos calhamaços antigos, e os outros. Ponto. O tema do livro é secundário! Quem não se emociona com a obra-prima que é uma monografia editada antes da tipografia industrial (a partir do séc.XIX), dificilmente tem pachorra para se maravilhar com aquelas páginas amarelecidas e enrugadas, cobertas de iluminuras e floreados.

Desta vez, a exposição proposta pode ir um pouco além dos amantes de livros antigos, pela forte carga histórica que tem para Portugal, recuando a uma época onde a nossa presença se estendia além-fronteiras. Na Índia, deixámos vestígios espantosos da nossa civilização, com a marca de universalidade e de abertura cultural e humana, características da lusitanidade. 

Até ao conhecido Dia de S.Valentim, estará patente, na Biblioteca Nacional (B.N.), uma mostra sobre o luso-indiano P.José Vaz (1651-1711), evangelizador do Ceilão (actual Sri Lanka), nascido em Goa, em meados do século XVII, de família brâmane. O que impressiona é o facto de a sua vida ter tocado, a tal ponto, os seus contemporâneos, que se multiplicaram logo as biografias sobre as suas aventuras na Ásia, onde se inclui o episódio tão especial de se ter oferecido para escravo, para conseguir entrar no inacessível reino de Ceilão. Naquela época, publicar um livro era um empreendimento notável, pelo que só um motivo de força maior justificaria tal esforço. A apresentação da B.N. ajuda a explicar o fascínio em volta da sua personalidade cativante e generosa, a ponto de a sua memória ter percorrido inúmeras gerações, ao longo de 3 séculos, sem falhas.

A recente viagem do Papa Francisco ao Sri Lanka voltou a colocar o nome do P.José Vaz – agora, São José Vaz – no foco dos media, aproximando-o da nossa época, ao canonizar o padre “mendigo” nascido na casta mais privilegiada, na Índia portuguesa:
  
MOSTRA até 14 fev. '15 | Sala de Referência | Entrada livre (1)


O Papa presidiu, a 14 de janeiro de 2015, no Sri Lanka, à cerimónia de canonização do padre português José Vaz, nascido em Goa em 1651. O padre José Vaz foi beatificado, em 1995, por João Paulo II, aquando de uma visita do Papa ao Sri Lanka. É o primeiro santo de origem goesa.
A Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) assinala o evento com uma pequena mostra bibliográfica composta por diversas biografias do padre José Vaz e por uma cópia da Chronologia da Congregação do Oratório de Goa, do padre Sebastião do Rego – autor da mais completa biografia do novo santo português –, um manuscrito do século XVIII, da Biblioteca Pública de Évora.
Nascido em Benaulim (Goa), de pais com ascendência brâmane, aprende as primeiras letras e Latim em Benaulim, frequentando primeiro Humanidades na Universidade de Goa e depois Filosofia e Teologia no Colégio Académico de S. Tomás. Em 1676, em Goa, é ordenado sacerdote, aí começando a exercer o seu ministério. Dada a notoriedade que desde cedo granjeou, era frequentemente escolhido como diretor espiritual, chegando a ser confessor do governador de Goa, D. Rodrigo da Costa.



Em 1681, é nomeado vigário da Vara e superior das Missões de Canará, onde, até 1685, desenvolve intensa atividade apostólica, construindo igrejas e instituindo eremitérios. É então que tem conhecimento da difícil situação da Igreja em Ceilão, onde os padres católicos eram perseguidos pelos holandeses. Começa aí a germinar a ideia de evangelizar Ceilão e chega mesmo, dada a dificuldade de entrar na ilha, a propor ser vendido como escravo.
Em 1684, retorna a Goa onde retoma o seu apostolado. Funda, então, a Congregação do Oratório de S. Filipe Néri, da qual é eleito Prepósito. Não  abandonara a ideia de rumar a Ceilão e em 1686 resigna ao cargo de Prepósito da Congregação que fundara e parte para aquela ilha, levando apenas um breviário e o indispensável para a celebração dos ritos católicos. Veste-se como escravo e mendiga o que comia. Foi, aliás, sob o pretexto de ter de mendigar para viver que consegue embarcar. Já em Ceilão, devido ao seu aspecto andrajoso, é alvo de escárnio e maus tratos, mas nunca desiste de procurar os católicos remanescentes, aos quais ministrava os sacramentos nas suas próprias casas.
Vem a falecer em 1711, pedindo, nos seus últimos momentos, que o deixassem morrer sobre a terra nua.


Deixou em Ceilão igrejas, hospitais e uma importante comunidade católica que nas décadas seguintes continuou o seu trabalho evangelizador. Deixa também trabalhos escritos em tâmil, publicados sob pseudónimo. Sabe-se que compôs um vocabulário da língua cingalesa, que serviu aos missionários que lhe sucederam, e que traduziu o Evangelho para as línguas tâmil e cingalesa.
Em vida e depois da sua morte, são atribuídos à sua intercessão numerosos milagres, sendo ainda hoje nos locais do seu apostolado recordada a sua aura de santidade.
Conhecido como o Apóstolo do Sri Lanka, está para Goa, Canará e Ceilão como S.Francisco Xavier para o Oriente, sendo alvo de particular devoção dos católicos goeses. À data da sua morte estima-se que existissem 55 mil católicos em Ceilão. O Sri Lanka tem atualmente cerca de um milhão e meio de católicos, correspondentes a cerca de 7% da população do país.

Em Lisboa, houve mais exposições a merecer visita, como a da Gulbenkian com peças da colecção da coroa espanhola: «Tesouros dos Palácios Reais de Espanha» (terminada ontem), onde se destacavam as tapeçarias flamengas, Caravaggio sempre no seu melhor e um par de Goyas e Velasquez (diria) menores, para além de incontáveis retratos de gente de aspecto espartano e desinteressante; ou …

Pormenor da tapeçaria flamenga, do 1ª quartel do séc. XVI, «Queda a caminho do Calvário».


1609, «Salomé com a cabeça de João Baptista», no Palácio Real de Madrid.
Caravaggio pintou, pelo menos, mais uma tela sobre o mesmo tema.
Nesta, é impressionante o realismo das personagens, entre uma Salomé a querer
distanciar-se do crime horrendo em que se viu envolvida, meia envergonhada,
meia amedrontada com o resultado, e os olhares típicos da curiosidade mórbida.
Não será demais dizer que era a tela da exposição! 

… no Museu nacional de Arte Antiga, a pintura vinda também de Espanha, assinada por Francisco de Goya: «Retratos de Carlos IV, Rei de Espanha, e de Maria Luísa de Parma, Rainha de Espanha», que tinha sido encomendada pelos artífices de Sevilha para a recepção aos soberanos, aquando da sua visita à capital andaluza.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1) Extraído do site da Biblioteca Nacional, situada no Campo Grande, nº 83 (a 5 min. a pé do metro de Entrecampos):

domingo, 25 de janeiro de 2015

3º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos


Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
Caminhando junto ao mar da Galileia,
viu Simão e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.
Disse-lhes Jesus:
«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante,
viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco a consertar as redes;
e chamou-os.
Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados
e seguiram Jesus.


***

“Cumpriu-se o tempo”

Esta expressão “cumpriu-se o tempo” – quer dizer que tudo o que era expectativa, tudo aquilo que se foi somando no coração da humanidade (e que se continua a somar ainda hoje, quando não se conhece Jesus Cristo nem o seu Evangelho), tudo aquilo que em nós é abertura a mais, a melhor, a diferente, a completo, tudo quanto cá está e faz o nosso tempo antigo agora está cumprido, porque vai ser respondido e correspondido da parte de Deus. O cumprimento do tempo é o preenchimento do nosso desejo mais profundo, mais íntimo e mais verdadeiro pela resposta de Deus que acontece em Jesus Cristo. Isso é que é o cumprimento do tempo! Qualquer pessoa que tenha algum conhecimento de Jesus Cristo sabe que, para si, o tempo está cumprido. Depois, continuará a crescer, porque se inscreve na vida eterna, mas é um crescimento dentro da mesma realidade. O tempo está cumprido, porque nós encontrámos o próprio Senhor da vida, da nossa vida! Esta companhia, esta presença de Jesus Cristo como Senhor da nossa vida, é o cumprimento do tempo.


D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 159-160.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Pensamentos impensados

Aborto ortográfico
A Assembleia da República anda a discutir algo a que chamam adoção.
Deve ser aquela coisa de os adoçantes com ciclamatos serem perigosos.

Mais aborto
O acordo ortográfico merecia uma izecussão na praça pública.

Para sempre e mais um dia
Adão e Eva cometeram um pecado imortal.

Fruta bichosa
Com que então comer uma maçã é pecado? Isso é muito original.

Lua velha
Na Lua ainda não morreu ninguém; lá, os acidentes têm menos gravidade.

What's in a name
Bórgia, nome predestinado a acabar em orgia.

Passar a palavra
Nunca ouvi falar em evangelizar os Esquimós; na realidade, alguns episódios dos Evangelhos seriam como chinês para essa gente. O que achariam de "atirar a primeira pedra", a "fonte" de Jacob, o jejum no "deserto", 3 "tendas", sendo uma para Elias, etc.

SdB (I)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

d-e-c-a-n-t-a-ç-ã-o (*)

um poeta chamado nave escreveu
que 'vão cães acesos pela noite'
- um verso terrível.
mas a culpa, sabes tão bem quanto eu,
não é dos cães, fiéis amigos do seu fiel amigo.
a culpa é nossa (repete comigo: n-o-s-s-a).
n-o-s-s-a e dos nossos olhos (repete: n-o-s-s-o-s)
tingidos por imperfeição, medo, usura.
quando restar só açúcar e cinza,
talvez os teus olhos (repete: m-e-u-s)
tenham recuperado o H de umanidade.
o mesmo equivale para o t-e-u coração
- sideral constelação que homem algum
dia algum compreenderá (não eu, seguramente).
até lá, os dias são pequenos ciclos de vida e de morte,
peles que nos nascem e que deixamos para trás
numa reinvenção permanente
feita do instinto mais puro.
quando nada restar senão poeira cósmica,
haverá ainda assim estrelas para alguns de nós
e o t-e-u nome para sempre gravado no m-e-u céu,
como esse amor inteiro que t-r-a-z-e-m-o-s ao peito.
o resto é uma espécie de paisagem lunar,
abstracção que nunca alcançará a essência do sol.
esse sol - ou uma ideia de sol -
que Deus - ou uma ideia de Deus - 
bordou na t-u-a cartografia mais íntima.

gi.

(*) publicado inicialmente em 10.09.2010)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

As escolhas de gi - o cinema

O Lobo de Wall Street, Martin Scorcese, EUA

Her, Spike Jonze, EUA

A Grande Beleza, Paolo Sorrentino, Itália

Um Quente Agosto, John Wells, EUA

O Congresso, Ari Folman, EUA e outros

O Sonho de Wadjda, Haifa Al-Mansour, Arábia Saudita

Grande Budapeste Hotel, Wes Anderson, EUA

Debaixo da Pele, Jonathan Glazer, Inglaterra

Capital Humano, Paolo Virzì, Itália

Locke, Steven Knight, Inglaterra

A Emigrante, James Gray, EUA

A Vida Invisível, Vitor Gonçalves, Portugal

A Flor do Equinócio, Yasujiro Ozu, Japão

Bom Dia, Yasujiro Ozu, Japão

O Fim do Outono, Yasujiro Ozu, Japão

Ciúme, Philippe Garrel, França

Que Mal Fiz Eu a Deus?, Philippe de Chauveron, França

Magia Ao Luar, Woody Allen, EUA, França

Num Outro Tom, John Carney, EUA

Em Parte Incerta, David Fincher, EUA

Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei, Manuel Mozos (documentário), Portugal

Nightcrawler - Repórter Na Noite, Dan Gilroy, EUA

Viva A Liberdade, Roberto Andò, Itália

Cavalo Dinheiro, Pedro Costa, Portugal


Eis um possível percurso pelos filmes estreados em sala, neste Portugal de 2014. Neles, é possível descortinar um bocadinho de todas as tendências (do "mainstream" às margens; da máquina de Hollywood ao puro e radical cinema de autor; da comédia leve (mas não tonta) a autênticos "jogos de massacre"; de cinematografias clássicas a países quase sem tradição). Ou seja: apesar de tudo, um bom sinal que tenhamos a possibilidade, mesmo que com o som ruminante de pipocas, de ver estes filmes, filmes tão diversos, em verdadeiras salas de cinema (como deve ser, arrisco dizer).

Seria possível destacar alguns eixos, tendências, entre este leque de títulos? Seguramente. Fiquemos, contudo, por três ou quatro notas, quanto a nós especialmente significativas:

a) há um cinema novo a surgir, sob o signo da "ovnilogia", no sentido em que alguns destes objectos artísticos nos trocam as coordenadas adquiridas, nos interpelam de forma aguda, nos fazem interrogar sobre o que estamos a ver. São disto exemplo filmes como "Debaixo da Pele" (ficção científica "meets" david lynch meets stanley kubrick "meets" realismo britânico "meets" cinema noir, sob os céus da Escócia), "Locke" (incrível "tour de force", filmado integralmente dentro de um carro em andamento, sem deixar de ser cinema do melhor que temos visto), "Cavalo Dinheiro" (inclassicável, como quase tudo assinado por Pedro Costa) ou ainda os não vistos por nós "E Agora? Conta-me", de Joaquim Pinto e Leonel Pontes e o celebrado "Boyhood", de Richard Linklater.

b) a persistência de cinema popular de qualidade em Itália, nomeadamente através de filmes que misturam, de forma hábil e sedutora, os registos comédia e drama, tendo aquela rara capacidade de nos fazerem rir e reflectir - e, não raro, ao mesmo tempo. Exemplos como "A Grande Beleza", "Capital Humano" e "Viva A Liberdade" têm ainda o mérito de nos fazer sair da sala com a convicção de que saímos melhores pessoas, quase sem darmos por isso. Ou, se calhar, pessoas com uma melhor relação com a sua pessoal circunstância. Ou de como nem sempre a leveza é o pior caminho para se fazerem perguntas importantes.

c) o facto de os melhores filmes absolutos vistos em 2014 terem sido produzidos há muitas décadas atrás, num Japão que se procurava reinventar, após o cataclismo bélico recente. Ozu é sinónimo de cinema maravilhoso e, como dizia alguém, falar sobre certos filmes, falar destes filmes, é como dançar sobre arquitectura. Vejam-no. Vejam-nos.

d) o cinema é ainda e sempre um espaço de ternura. Neste particular, é impossível não destacar "O Sonho de Wadjda", primeiro - repito, primeiro - filme assinado por uma mulher na Arábia Saudita e "Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei", carta de amor do discípulo Manuel Mozos ao mestre João Bénard da Costa e carta de amor de João Bénard da Costa ao mundo.. e a nós, espectadores. Visionar estes filmes com os olhos sempre enxutos é tarefa virtualmente impossível. E que bom é ser assim, nestes "tempos detergentes" (Ruy Belo).

Foi assim 2014. E foi também de muitas outras maneiras, sendo esta apenas uma das possíveis formas de para ele olhar, no caso através das subjectivas, porque minhas, lentes da arte dita "a sétima".

gi.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Do confessionalismo

Contam-me que o responsável dos serviços secretos de um país particularmente feroz foi em Lisboa aos fados. Não falava uma palavra de português e, mesmo assim, comoveu-se. A história repetiu-se com duas raparigas canadianas (não afianço a nacionalidade) que, numa casa de fados, choraram, não entendendo porém a letra. 

Que o fado é confessional já o sabemos, porque fala do que existe em cada um de nós, de tudo o que povoa a história da nossa vida: a alegria, a traição, o ciúme, a desgraça, o engano, a festa. O confessionalismo vem-lhe da transmissão de um estado emocional. É por isso que o homem que mandou matar inimigos do estado - ou que os matou sem um módico de remorso, nos tempos em que sujava as mãos - se comoveu, não percebendo o que significam duas lágrimas de orvalho / caíram nas minhas mãos / quando te afaguei o rosto / pobre de mim pouco valho / p'ra te acudir na desgraça / p'ra te valer no desgosto.

Anteontem postei neste estabelecimento Sílvia Pérez. Ontem ouvi-a durante o dia, nos intervalos do que exigia concentração. Voltei a ouvi-la, voltei a ouvi-la. E voltei a ouvi-la. Quando dei por mim percebi que ela cantava para eu a ouvir, e que a música que posto abaixo, toda cantada em catalão - que não domino - não só tinha sido escrita para mim, como contava a história toda da minha vida: as alegrias vividas, as tristezas, os ciúmes malditos, as festas, as gargalhadas sonoras, as lágrimas partilhadas. Quando ela canta eu sou o chefe dos serviços secretos e também as duas amigas canadianas e todos os outros que por esse mundo fora se comovem com o que não entendem, mas que lhes entra directamente no coração. 

Dois pormenores de enorme importância: quando Sílvia solta o cabelo, ao 1'36", e quando Sílvia chora, comovida, porque acabara de nos contar a história da sua vida. Mesmo que não o tivesse feito.

JdB


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Duas Últimas

O que há, dentro de cada um de nós, que nos atira para um certo estilo musical que para outros, da mesma idade, hábitos, educação, vida, proximidade geográfica ou familiar não atira?  Que química, nos diversos aparelhos que nos constituem, é responsável por gostarmos disto e não gostarmos daquilo? Onde se forma o gosto por esta toada que não se formou por aquela toada? Quando e em que circunstâncias definimos a repugnância por uma corrente que nos é contemporânea quando apreciamos, até à comoção, outra corrente com que não convivemos em momento algum?

Tudo em mim, num certo sentido, me atira à música sul-americana: tangos, milongas, boleros. Rebolo os olhos, aumento o volume, perla-se-me a testa, franze-se-me o sobrolho, agita-se-me o lábio num frenesi. Não sei porquê, mas é assim. Não danço ou, atirando-me à pista para um cha-cha-cha, arisco-me ao elogio trocista: vocelência valsa divinamente tudo o que a banda tocar. E no entanto, entre o tango e a saúde dos meus mais próximos passa um frémito de dúvida. 

Deixo-vos com Silvia Perez, uma rapariga que conheci nas minhas voltas bloguistas. Aprecio sobretudo o bolero (Veinte años), que ouvi mais do que uma vez. Apreciem-na e, um dia em que se cruzem comigo, não se esqueçam de elogiar o meu gosto musical. Quem não agita o lábio num frenesi não sabe o que é bom.

JdB


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Ver além do desfocado

Há umas semanas fui ver "Invencível", filme de Angelina Jolie baseado na história verídica de Louis "Louie" Zamperini. Um dia destes, no meu zapping habitual, tomei conhecimento que a mulher negra mais rica do mundo (mas que raio de classificação...) já não é Oprah Winfrey, mas uma nigeriana. Em que se assemelham os dois casos? Na ideia de que a existência de Deus é determinante, seja como fonte de inspiração, seja como motivo de agradecimento. 

Zamperini, náufrago no mar, pede a Deus que o salve. Folorunsho Alakinja reza todos os dias - depois de beijar o marido, esclarece. O filme de Zamperini é sobre a aceitação e o perdão, mais do que sobre a violência desumana. A nigeriana é católica e filantropa, financiando uma associação que trabalha com viúvas e com crianças desamparadas. O que une as duas histórias separadas por tantos anos e tantos quilómetros? A existência de Deus, repito.

Na vastidão da história e da geografia humana, milhares de seres humanos subiram a um patamar de excelência na atenção ao outro. Uns eram crentes, outros ateus, outros qualquer coisa de diferente. Uns tornaram-se heróis referidos nas revistas e nas enciclopédias, nos altares ou nas orações; outros foram santos do quotidiano (que é uma forma de heroísmo), tendo-se realçado anonimamente nas vidas corriqueiras e domésticas, nas actividades profissionais ou de voluntariado, percebendo que não é a competência nem a inteligência que nos salvam, mas a ética, a correcção, o modo como tocamos a vida do próximo.

O que une todas as histórias? A ideia de algo ou alguém superior a nós: Deus, uma criança doente, um idoso acamado, um homem embrulhado em cartão no frio urbano da madrugada, uma relação afectiva, todos aqueles que tornámos transparentes porque não calcorreiam os mesmos corredores universitários que nós, não se sentam nas mesmas salas quentes e acolhedoras dos nossos amigos, não têm os mesmos códigos linguísticos que nos diferenciam quando nada mais visível o fizer. A ideia - talvez mesmo a certeza - de que perante uma realidade maior, há uma infinidade de ninharias que deveriam ser postas de lado: o nosso orgulho, a nossa razão, a nossa aparente dignidade, o nosso conforto, as nossas certezas.

(olho para o início do parágrafo anterior e sim, Deus está lá ao princípio, como podia estar no fim, porque Deus é igual, neste sentido, à criança, ao sem-abrigo, ao emigrante, à relação...)

Há muitos muitos anos, um colega de liceu dizia que era preciso olhar além do desfocado. Uso e abuso da expressão. O desfocado é o dia a dia. Olhar além é ver o fio do horizonte, ver Deus a alargar-nos os espaços, atentar em algo que sobressai da rasteirice das questiúnculas, dos jogos de poder, dos exercícios da autoridade ou dos argumentos que se vincam como quem espeta uma cavilha em chão pedregoso.

JdB 

domingo, 18 de janeiro de 2015

II Domingo do tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

 Naquele tempo, estava João Baptista com dois dos seus discípulos e, vendo Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus». Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras e seguiram Jesus. Entretanto, Jesus voltou-Se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: «Que procurais?». Eles responderam: «Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?». Disse-lhes Jesus: «Vinde ver». Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era por volta das quatro horas da tarde. André, irmão de Simão Pedro, foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus. Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe: «Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ –; e levou-o a Jesus. Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’.

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Onde moras?

A primeira coisa que Jesus nos pergunta no Evangelho é: “que procurais? Que buscais? O que quereis?”. O que Jesus tem para nos oferecer não são coisas; o que Jesus tem para nos oferecer é a sua companhia, a sua presença, a sua Vida! Por isso, hoje, era bom que entrasse cada um dentro de si próprio, e respondesse a esta pergunta que Jesus lhe faz: “o que é que tu queres de Mim? Queres-Me a Mim ou queres coisas?”. Jesus nasceu num presépio e tem as mãos muito vazias de coisas, mas tem a sua vida cheia disto mesmo: de Vida!
São João Crisóstomo, numa meditação conhecida, afirma que Jesus não veio para possuir aquilo que nós possuímos; veio para nos ter a nós, a cada um de nós! O que implica, da nossa parte, comunhão de vida com Ele!
Há um convite a conhecermos a morada de Jesus, porque a morada é a definição da pessoa. Jesus responde-nos com um desafio: “vinde ver”. Só indo com Jesus Cristo é que nós O veremos! Se nós não aceitarmos caminhar com Ele, não chegamos a conhecê-l'O!
Este texto, tão breve, é um tratado extraordinário de evangelização! Em meia dúzia de linhas, está aqui tudo quanto a Igreja é e faz, na comunhão com Jesus Cristo e na sua transmissão aos outros.



D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 155-157.

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