sábado, 31 de maio de 2014

Pensamentos impensados

A preencher
O saber não ocupa lugar; a ignorância ainda menos.
 
Assaltos
Bode pede cabra e é acusado de arrombamento.
 
Direitos versus obrigações
Se me obrigarem a votar, irei contrafeito. Serei uma marca tão importante?
 
Cérebros
Sou um cultivador do "non sense"; os políticos também.
 
Aviação
A única certeza acerca do avião da Malásia é que foi pelos ares.
 
É de corar
A análise à urina dizia cor desconhecida: era militante da "green piss".

SdB (I)

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Rotinas sempre diferentes *



São 6.50h da manhã. Estão 17ºC e o céu ligeiramente nublado - muito ligeiramente. Dou início a mais uma rotina diária - a de caminhar durante cerca de uma hora no paredão do Estoril. O que dantes era ocasional
(apetece-me, está muito calor, há muita gente, estou cansado, bem preciso, que fim de tarde extraordinário, o iPod não tem bateria...)
tornou-se numa saudável obrigação que passa, também por um acordar com despertador.
Ao fim de meia dúzia de dias apercebo-me que as pessoas com que me cruzo são quase sempre as mesmas:
a senhora que encontro aos Domingos na Igreja e que, aqui, reza um terço em passo de marcha;
jovens novas, altas, saudáveis, que aquecem os artelhos antes de se fazerem à corrida;
um casal a rondar os 80, ambos alquebrados, silenciosos, com as articulações desconjuntadas e descompassadas;
cavalheiros idosos, fortes e obesos, de tronco nu num despudor inestético;
atletas amadores, com músculos trabalhados e camisolas que evidenciam participação na corrida de 1997 contra uma injustiça qualquer;
E outros que vou reconhecendo, porque nos cruzamos à mesma hora, nos mesmos locais, com o mesmo ritmo.
O paredão, como tantos outros locais semelhantes, dava, por si só, um livro imaginativo - o que são aquelas vidas, o que pensam, como amam, como se chamam os filhos, o que fazem quando chegarem a casa, qual a sequência com que se lavam e vestem, onde trabalham, o que os torna infelizes, de que riem perdidamente ou de que choram numa convulsão de fazer pena.
A nossa vida é uma sinusóide (ou um interruptor, como diria um humorista). O segredo não é torná-la "lisa", mas sim perceber quando e porquê surge o movimento descendente, o que fazer com ele e como o atenuar. E acreditar, também, que voltaremos para cima. Talvez um dia me sente àquela hora da manhã, e tente desenhar a curva de cada existência.
Amanhã voltarei ao paredão, pelas 6.50h. Verei as mesmas pessoas, terei a tentação de desejar uns bons-dias porque, no fundo, somos todos colegas da mesma rotina. E imaginarei uma artrose que se agravou no casal idoso, umas olheiras na rapariga que corre com pernas de gazela, uma promessa na senhora que já chega ao 3º Mistério antes de passar pela piscina do Tamariz.
Num pensamento que partilhei hoje, continuarei feliz por saber que as nossas vidas não se regem pelas leis da ciência e da técnica, e que o maior encanto pode estar na forma como procuramos uma concavidade inesperada para uma saliência igualmente inesperada.
Adeus, até ao meu regresso.

JdB 

(* publicado inicialmente no dia 23 de Julho de 2008. O estabelecimento abrira há poucos dias e o Zimbabwe estava já ao virar da esquina. Continuo a paredar amiúde e o texto mantém-se actual)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Dos abandonos

Olhar o mundo pelo lado das inexistências não é olhar o mundo pelo lado das tristezas. Observar-se o abandono pode ser a visão do que é descartável, do que já não interessa, do resíduo da vida das pessoas ou das comunidades. Pode ser a visão do riso que findou, da alegria que desapareceu, da agitação que não retorna, do fervor religioso que deu lugar à ruína, ao pó de onde viemos e para onde retornamos. 

Olhar o mundo pelo lado das inexistências pode também ser a oportunidade da reconstrução, de umas botas que voltaram a ser engraxadas, dos corredores pejados de outra gente, das cadeiras elegantes onde se senta a humanidade que ri e chora e canta com os actores, que ouve a poesia que salva o mundo. Pode ser o vapor a correr de novo nas tubagens, o ruído dos motores e das bombas e das engrenagens, o barulho ritmado e contínuo do cereal a bater no metal, como se fosse chuva a cair na calçada, polindo-o até ser espelho.

O abandono é um ponto, apenas. Não mais do que um ponto. Aonde se chega, de onde se parte, para onde se caminha, de onde se avança de flor ao peito, em direcção ao nascer do sol. 

JdB

(nota: esta série de fotografias, cujo link me foi enviado pelo meu querido amigo gi., pode ser vista aqui).   


East State Penitentiary, Pennsylvania

Theatre, Connecticut

Waterworks, New Jersey

Sanatorium, New York

Masonic Lodge, New York

Grain silo, Buffalo, New York

Cathedral, Pittsburgh, Pennsylvania

Masonic chapel, New York

Asylum bowling alley, New York

Workers' boots, coalbreaker, Pennsylvania


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Textos dos dias que correm

O Homem de Porlock
 
A história marginal da literatura regista, como curiosidade, a maneira como foi composto o escrito o Kubla Khan de Coleridge.

Esse quase-poema é dos poemas mais extraordinários da literatura inglesa – maior, salvo a grega, de todas as literaturas. E o extraordinário da contextura consubstancia-se com o extraordinário da origem.

Foi esse poema composto – narra Coleridge – em sonho. Morava ocasionalmente em uma herdade solitária, entre as aldeias de Porlock e Linton. Um dia, em virtude de um anódino que tomara, adormeceu; dormiu três horas, durante as quais, diz, compôs o poema surgindo em seu espírito, paralelamente e sem esforço, as imagens e as expressões verbais que a elas correspondiam.

Desperto, dispunha-se a escrever o que compusera; tinha escrito já trinta linhas, quando lhe foi anunciada a visita de ‘um homem de Porlock’. Coleridge sentiu-se obrigado a atendê-lo. Com ele se demorou cerca de uma hora. Ao retomar porém a transcrição do que compusera em sonho, verificou que se esquecera de quanto lhe faltava escrever; não lhe ficara lembrado senão o final do poema – vinte e quatro linhas.

E assim temos esse Kubla Kahn como fragmento ou fragmentos; - o princípio e o fim de qualquer coisa espantosa, de outro mundo, figurada em termos de mistério que a imaginação não pode humanamente representar-se, e da qual ignoramos, com horror, qual poderia ter sido o enredo.

Edgar Poe (discípulo, soubesse-o ou não, de Coleridge), nunca, em verso ou prosa, atingiu o Outro Mundo dessa maneira nativa ou com essa sinistra plenitude. No que há de Poe, com toda a sua frieza, alguma coisa resta de nosso ainda que negativamente.; no Kubla Kahn tudo é outro, tudo é Além; e o que se não sabe o que é, decorre em um Oriente impossível, mas que o poeta positivamente viu.

Não se sabe – não o disse Coleridge – quem foi aquele ‘Homem de Porlock’, que tantos, como eu, terão amaldiçoado. Seria por uma coincidência caótica que surgiu esse interruptor incógnito, a estorvar uma comunicação aparente de qualquer oculta presença real, das que parecem conscientemente entravar a revelação dos Mistérios, ainda quando intuitiva e lícita, ou a transcrição dos sonhos, quando neles durma qualquer forma de revelação?

Seja como for, creio que o caso de Coleridge representa – numa forma excessiva, destinada a formar uma alegoria vivida – o que com todos nós se passa, quando neste mundo tentamos, por meio da sensibilidade com que se faz arte, comunicar, falsos pontífices, com o Outro Mundo de nós mesmos.

É que todos nós, ainda que despertos quando compomos, compomos em sonho. E a todos nós, ainda que ninguém nos visite, chega-nos, de dentro, ‘o Homem de Porlock’, o interruptor previsto. Tudo quanto verdadeiramente somos, sofre (quando o vamos exprimir, ainda que só para nós mesmos), a interrupção fatal daquele visitante que também somos, daquela pessoa externa que cada um de nós tem em si, mais real na vida do que nós próprios: - a soma viva do que aprendemos, do que julgamos que somos, e do que desejamos ser.

Esse visitante – perenemente incógnito porque, sendo nós, ‘não é alguém’; esse interruptor – perenemente anônimo porque, sendo vivo, é ‘impessoal’ – todos nós o temos que receber, por fraqueza nossa, entre o começo e o termo do poema, inteiramente composto, que não nos damos licença que fique escrito. E o que de todos nós, artistas grandes ou pequenos, verdadeiramente sobrevive – são fragmentos do que não sabemos que seja; mas que seria, se houvesse sido, a mesma expressão da nossa alma.

Pudéssemos nós ser crianças, para não ter quem nos visitasse, nem visitantes que nos sentíssemos obrigados a atender! Mas não queremos fazer esperar quem não existe, não queremos melindrar o ‘estranho’ – que é nós. E assim, do que poderia ter sido, fica só o que é; - do poema, ou dos opera omnia, só o princípio e o fim de qualquer coisa perdida – disjecta membra que, como disse Carlyle, é o que fica de qualquer poeta, ou de qualquer homem.

Fernando Pessoa

terça-feira, 27 de maio de 2014

Duas últimas

Enchem-nos os ouvidos com o amor de mãe. Lailailailai que mãe há só uma e que com três letrinhas apenas se escreve a dita palavra. Escrevem-se textos piedosos nos boletins das paróquias, que o dia da mãe ainda está fresquinho de nem há um mês, e que tanta falta faz uma prendinha para a mamã que dinamiza o comércio local. Ai a minha mãe, ai a minha querida mãezinha, quem tem uma mãe tem tudo, que não tem mãe não tem nada. E lailailailai.

Ontem, ao ir para Lisboa almoçar com o meu querido amigo fq - num restaurante pequeno, nesse dia excessivamente barulhento, onde a Susana serve a preceito o que a Dona Carmina, sua mãe, cozinha ao fogão - ontem, dizia eu, dei por mim a ouvir este fado com que brindo o meu fiel e persistente auditório. Na circunstância era Tino Ferreira a repor a verdade do jogo, a alcandorar o amor de pai onde ele deve ser posto. Mai'nada! As três letrinhas são pró papá, o amor é do papá, que é tão bom que há gente que tem dois, porque as mães eram grandes de coração. Lailailailailai.

Armando Neves, onde quer que ele se encontre, é no panteão que está.

Façam o favor de se ser felizes - e de beijar as vossas mãezinhas que, apesar do amor que vos devotam ser menor, também merecem.

Manuel Dias, o genial criador, para vosso deleite.

JdB




AMOR DE PAI


Letra:Armando Neves
Música:José António Augusto da Silva
Repertório:Manuel Dias
Notas:Fado Bacalhau

Eu não sei porque razões
Porque indiferença ou desdém
Nesta vida que se esvai
Se escrevem tantas canções
A lembrar o amor de mãe
Esquecendo o amor de pai

Porque motivo afinal
O coração português
Não canta esse amor profundo
Ao amor de mãe, igual
O amor de pai é talvez
O maior amor do mundo

Cantando, sinto desejos
De bem alto proclamar
Todo o amor que um pai revela
A mãe, aos filhos dá beijos
Mas o pai sem os beijar
Dá-lhe mais beijos do que ela

Tanto a mulher, como o homem
Do amor de pai não se farte
Amor como esse não há
Pois o pão que os filhos comem
É a mãe quem o reparte
Mas é o pai quem o dá

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Vai um gin do Peter’s?

                 
O filme indiano «A LANCHEIRA»(1) é uma autêntica filigrana afectiva, expressiva da intensidade de comunicação que consegue perpassar através de insignificantes bilhetes de recados, telegráficos, transportados na lancheira do almoço e escondidos pela panqueca. Tudo muito oriental, no seu melhor.


Nada a ver com os musicais românticos das mega-produções de Bollywood pensadas para entreter as multidões que se acotovelam nas salas de cinema indianas. A LANCHEIRA terá, antes, sido concebida para consumo no Ocidente, mais adepto das introspecções e constantes dissecações à escolha de vida tomada, num esforço de consciencialização, que procura exercer maximamente a liberdade. Entendendo-se aqui liberdade pelo esticar ao limite a possibilidade de optar, onde o risco de resvalar para a fantasia aumenta na proporção directa do afã de procurar sempre novas alternativas, deixando de se filtrar as miragens. E são tantas.

Acumulam-se muitos aspectos interessantes neste filme de Ritesh Batra, com co-produção francesa e alemã. O tema que serve de pretexto narrativo – o culto da arte da mesa – não podia estar mais em voga no mundo ocidental, onde os Chefes de cozinha são os druidas do nosso tempo. Hoje, a capacidade de pôr no prato as matérias menos comestíveis tornou-se uma proeza merecedora de estrelas Michellin e fama a rodos. Num certo sentido, viraram os reis Midas da actualidade, bem à medida das preferências do cidadão comum. Vivemos numa época que concilia atracções tão díspares quanto as explorações espaciais e um hobby empenhado em elevar aos píncaros a mera satisfação de uma necessidade elementar. Naturalmente que envolta num ritual complexo, com acrobacias nutritivas que disfarçam toda a componente primária associada a comer para sobreviver, agora transformada num divertimento maior. E de luxo. 

Voltando a "A LANCHEIRA": nem tudo o que parece é. Claro que o talento culinário daquelas mãos mágicas (de Ila), inicialmente apostadas em reconquistar um marido fugidio, é unanimemente aclamado! Mas as intenções mais profundas de uns e de outros vêm a revelar-se bem diferentes dos propósitos declarados. Fica a dúvida se, antes de nós, são os próprios a estar equivocados sobre as suas reais intenções, que só no tempo se desvendam e clarificam. Sabemos como o autoconhecimento exige tempo. Por vezes, toda uma vida…

Um caso flagrante do desencontro de intenções – entre as afirmadas e as que despontam no coração, numa zona talvez cega para o próprio – está na difícil tarefa de seduzir o marido longínquo através da comida. O almoço passaria a atracção fatal, repartido pela correnteza de latinhas encavalitadas, a formar as célebres lancheiras onde se transportam as refeições de milhões de indianos.

Mal arranca o plano, um lapso vem perturbar tudo: os eficientíssimos estafetas desviam a lancheira de Ila, pelo que o feliz contemplado não será o marido, mas um viúvo frustrado e mal disposto.


Como estava híper segura dos seus dotes culinários, sob a batuta profissionalíssima (e divertidíssima) da tia, a falta de reacção do marido levam-na a concluir que ele não recebera as suas iguarias. Nem mesmo a surpresa da tia, incrédula por não haver memória de falhas no sistema, a fazem vacilar na sua dedução! A ponto de enviar um recado ao destinatário fantasma, confirmando o engano. Curiosamente, não quis corrigi-lo, preferindo oficializar o novo circuito para paradeiro desconhecido. Nem sabia se era um ou uma a deliciar-se com as suas especialidades. E nem as queixas posteriores do marido, condenado a um menu repetitivo e desengraçado, a fazem rectificar a morada. Desistira de usar a sua melhor arma para salvar o casamento, que fora o objectivo da investida nos tachos e panelas.



Entretanto, o desconhecido responde à primeira mensagem e começa uma troca de correspondência, através da lancheira, entre dois estranhos, ela com nome próprio, ele (Fernandes) resguardado no anonimato. Isto durou um mês, até ao dia da reforma do contabilista presenteado com comida de marajá. Nessa altura, desejosa de conhecer o novo amigo-fantasma, Ila não hesita em confrontar o transportador com o erro prolongado, obrigando-o a guiá-la até à secretária da morada errada. Mas já outro a ocupava. Chegara demasiado tarde. São de gargalhada os argumentos do transportador a defender a fiabilidade absoluta do sistema, invocando o rei de Inglaterra, Harvard e tudo o que era fonte de autoridade no universo da Commonwealth.

O que é surpreendente em toda esta sequência? Ila estar desejosa – julgava ela – de recuperar o marido, ter detectado o engano do transportador e só o repor quando quis chegar a outra conquista. Porque deixara canalizar os trunfos mais persuasivos para uma aventura onde nem o rosto do interlocutor conhecia?          


Outro pormenor curioso: tenta uma reaproximação ao marido, mas no timing e nos moldes recomendados pelo correspondente-fantasma. Claro que dá em nada e, cumprida a tentativa, abandona aquela receita clássica. Afinal, não era só o novo affair do marido que inquinava a intimidade do casal. Diferentemente do que Ila pudesse pensar, não era só ele a dar por perdida a relação… No fundo as escolhas do subconsciente dela – desde que começamos a partilhar a sua história – inspiravam um rumo oposto ao dos propósitos tradicionais, que a lançaram na cozinha. Rapidamente, provaram estar longe de a preencher e empenhar por inteiro. Até ao âmago da sua alma e da sua mente. Nada mais incontornável que a realidade.

Não há dúvida de que as nossas convicções também sugestionam a forma de olhar em redor. Por isso, tudo o que lhe acontece passa a ser lido e interiorizado segundo a nova vontade que emerge, timidamente, dentro de si: o acesso a um novo interlocutor, provocado por um engano, parece providencial. O diálogo secreto e divertido através da lancheira devolve-lhe o gosto pela vida. A relação desencantada da mãe com o pai confirma o que não quer para si. A vida sacrificada da tia, devotada a um marido incapacitado numa cama, também lhe revela uma faceta do casamento que a desentusiasma por completo. A tragédia de uma mulher que se atira de uma torre abaixo, abraçada a uma filha pequenina, adverte-a para o risco de desesperar. A vontade de mudar de vida, tocada pelo aceno de Fernandes que se propõe fugir com ela para o Botão, segundo escreve num bilhetinho, torna-se irreprimível.


É igualmente significativo que tenha desvalorizado os vários sinais que poderiam indiciar o caminho oposto, enquanto incentivos para se bater pelo pai da sua filha, continuar próxima da mãe que enviuvara e da tia vizinha e conselheira, não embarcar para um país novo sem meios de subsistência mínimos. Nem a recusa de Fernandes em dar-se a conhecer no encontro que ela combinara, num restaurante, a fazem desistir da nova amizade. Ele explicara-lhe que não considerava justo aproximar-se de uma mulher tão mais nova. Na expressão dele: seria como oferecer um bilhete de lotaria já usado. Percebemos depois, que o encontro casual com um desconhecido, bem mais velho, o faz repensar sobre a sua idade e o futuro que ainda pode ter pela frente.

No filme e na vida, as pequenas decisões de uns e de outros continuam a suceder-se em catadupa, evidenciando toda uma actividade interior bem mais agitada e decisiva do que o quotidiano, cheio de pó e rotinas.

A densidade psicológica das personagens de A LANCHEIRA tornam-no num colosso de perfis humanos, subtilmente desenhados ao modo indiano. No conjunto, sobressai a tia que, da janela do andar de cima, vai dando instruções sábias à sobrinha. Apenas lhe conhecemos a voz, firme e festiva, sem hesitações. Nada escapa àquela presença fortíssima e sem rosto, que vem de cima, personificando a autoridade da experiência acumulada e colorida por um sentido de humor acutilante. Autêntica personal trainer ou a M do 007, ideal para resolver problemas, sobretudo missões difíceis como reacender relacionamentos esfriados.
 
Outra personagem antológica, com um papel vital na evolução dos acontecimentos, sobretudo nos processos de auto-conhecimento e reviravolta na vida dos dois correspondentes via lancheira, é o novo substituto de Fernandes no trabalho – o sobrevivente Shaikh, que sabe (e ensina a) extrair o melhor de todas as circunstâncias do dia-a-dia, virando-as a seu favor: boas e adversas. Um alquimista, à sua maneira, investindo toda a sua energia na difícil gestão de tudo o que o dia a dia traz. Literalmente tudo, com enorme bravura. Aliás, audácia desmedida. Verdadeiramente um apaixonado pela vida, desperto e ávido de aproveitar quanto lhe seja dado viver. Mesmo migalhas. Claro que é um psicólogo nato e lê no ar a pequena transformação que os papelinhos tapados pela panqueca produzem em Fernandes, aliviando-lhe o semblante carregado. Sempre triste, céptico, o contabilista recusa tomar passos inovadores que perturbem a rotina. Apesar de levar uma existência cinzenta, que só poderia ganhar com alguma mudança. Como coragem era tudo o que não faltava a Shaikh, será ele o grande mestre para incutir ânimo no viúvo taciturno e descrente da vida.


Só o tom positivo com que aborda, diariamente, o viúvo empedernido, tentando persuadi-lo a ensinar-lhe o novo ofício, era tarefa hercúlea e ingrata. Nada menos do que um lutador intrépido e necessitado para não desarmar com a má vontade do funcionário à beira da reforma, furioso por ser substituído por um novato atrevido. Atrevido e pouco sério. A certa altura interrogamo-nos em qual das vezes mentira: quando conseguira quebrar o gelo dizendo que era órfão, ou quando citara os conselhos recentes da mãe? Mas no casamento com a mulher que amava, há tantos anos, e com quem tivera de fugir porque o sogro o recusara liminarmente, percebe-se que é um homem só, mas nada derrotado! Antes triunfal e confiante na sua capacidade de suplantar qualquer obstáculo.


Sem virtuosismos, nem leituras simplistas entre bons e maus, o realizador oferece-nos uma incrível possibilidade de troca de talentos e complementaridades entre uns e outros, de saldo positivo para todos. Nada há naquelas vidas que não possa ser enriquecedor, se se quiser. Exemplos de ganhos maiores: Fernandes inicia Shaikh no difícil ofício de contabilista, salvando-o do desemprego ao encobrir os erros grosseiros do principiante. Oferece-lhe também companhia como padrinho, familiar e a única testemunha no casamento do órfão. Por seu turno, Shaikh devolve a Fernandes a vontade de reinvestir no presente, animando-o com pequenas aventuras e um olhar alegre e crente nas minudências do dia-a-dia. São elas que tecem a trama da vida. Bem merecem ser agarradas com o maior fôlego e confiança possíveis, porque o futuro depende do que hoje semearmos. Uma sabedoria que vale uma vida.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA


Título original:
THE LUNCHBOX
Título traduzido em Portugal:
A LANCHEIRA
Realização:
Ritesh Batra (indiano)
Argumento:
Ritesh Batra e Rutvik Oza
Produzido por:
Arun Rangachari, Anurag Kashyap e Guneet Monga
Banda Sonora:
Max Ritcher
Duração:
105 min.
Ano:      
2013
Países:
Índia, França e Alemanha
        Elenco:

Nimrat Kaur (Ila)
Irrfan Khan as Saajan Fernandez
Nawazuddin Siddiqui (Shaikh, o órfão)
Nakul Vaid (Rajiv, o marido)
Lillete Dubey (mãe de Ila)
Local das filmagens:

Índia – Mumbai (Bombaim)


domingo, 25 de maio de 2014

VI Domingo da Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 14, 15-21)

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos.
E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito,
para estar sempre convosco:
Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber,
porque não O vê nem O conhece,
mas que vós conheceis,
porque habita convosco e está em vós.
Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós.
Daqui a pouco o mundo já não Me verá,
mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis.
Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai
e que vós estais em Mim e Eu em vós.
Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre,
esse realmente Me ama.
E quem Me ama será amado por meu Pai,
e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».


***

Reconhecer o Espírito Santo

Hoje, no Evangelho, Jesus refere-se ao Espírito que havia de enviar da parte do Pai e diz que é o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber. Quando pomos a mão na consciência, quando reconhecemos aí o Espírito de Deus, o Espírito de Jesus Cristo?... as vitórias do Espírito em nós é que nos convencem da sua presença e confirmam o que Jesus nos diz hoje no Evangelho: o mundo não pode receber o Espírito da Verdade, porque não O vê nem conhece, mas nós podemos, porque o Espírito habita connosco e está em nós. A atenção ao trabalho e à obra do Espírito nos corações de tanta gente é um acto de justiça da nossa parte e é muito importante! Consciência implica fundura, remete para aquilo que é mais íntimo, mais profundo; temos de descer ao nosso coração, para verificar como o Espírito continua a trabalhar, para descobrir o que nos diz! Então, poderemos reconhecê-l’O também nos outros e agradecer a Deus o que realiza neles ou através deles, porque porventura vai muito mais longe nos outros do que em nós”!


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no dia do Senhor. Cascais: Lucerna, 129-131

sábado, 24 de maio de 2014

Pensamentos impensados

Detenções
"Palito" está preso. Entre dentes? Entre grades?

Sem curso
O concurso Quem Quer Ser Milionário põe a nu a ignorância dos indígenas.
Um concorrente a pensar alto: Cabral chegou ao Brasil; Colombo chegou aos Estados Unidos.
Noutro concurso, alguém disse que Buenos Aires era capital da França.
 
Compras
Os árbitros que se deixam subornar não podem exercer o livre arbítrio.
 
A perder de vista
Diz-se que 2 paralelas se encontram no infinito. Chama-se paralelismo convergente.
 
Multas
Quem se atrasa nos pagamentos, paga juros da demora.
 
Nova ortografia
Na Grécia, há muito para  ver, e não "apenas", a Capital.
Brasil, é, este ano, o país da "coca".
A mulher de um futebolista que  beijou outro afirma que o marido é muito "vinil".
 
Intimidades
Leio nos jornais: Fulano será cremado em cerimónia íntima, ou seja, só o morto estará no forno.

SdB (I)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dos pequenos distúrbios



Por trás da potencial poesia deste filme há algo com que me irmano - e que nem sei, sequer, se lá está: pequenos incómodos que me revelam distúrbios internos, desalinhamentos de humores disfarçados de caturrices.

Volto atrás - ou sigo para outro lado análogo. Tenho um forte apreço - que se confunde, estou certo, com uma ligeiríssima obsessão - pelo meu espaço vital. Não falo do espaço temporal para ler ou escrever, para cozinhar ou passear no paredão meditando sobre os grandes desígnios do quotidiano. Não falo sequer do meu espaço para trabalhar ou para passar rápidos olhos pelos meus livros. Falo do meu espaço geográfico mais pequenino, o que me separa da pessoa que naquele preciso instante está ao meu lado. Exemplifico: nada há que mais me perturbe do que, ao balcão de uma repartição ou de um banco, alguém se colar ao meu lado espreitando por cima de mim ou, pior ainda, não tendo qualquer interesse no aperto a que me sujeita. É o contacto gratuito, sem finalidade nem objectivo. 

Como a maioria dos meus colegas de mestrado, sento-me sempre no mesmo lugar na sala, e os meus  motivos são prosaicos. Num dado dia era o disponível e, além disso sou canhoto, pelo que me convém estar do lado esquerdo do professor. Quinquilharias de raciocínio, diria. Um destes dias sentou-se ao meu lado um rapaz desabitual. Num instante invadia a metade que me cabe na mesa (área que não faz parte dos meus direitos formais), respirava quase em cima de mim, tocava-me ao de leve no braço interrompendo a professora para fazer valer um raciocínio. Estive a minutos de mudar de lugar, porque dizer-lhe o cavalheiro não se importa afasta-se e respeita o meu espaço poderia ser considerado rude. Ou demasiado abstruso para ele perceber.

Andar na rua ao mesmo passo que o transeunte vizinho é perturbador. O meu lado mais sinistro indigna-se que a pessoa em questão não altere o ritmo. O meu lado mais democrático sugere ser eu a fazê-lo. O meu lado mais inexistente aceita e valoriza a paridade da velocidade. É assim que eu sou. Não me orgulho, mas não ponho uma cinta de cilício para flagelar uma perturbação interna. Tenho manias, pequeninos desajustes que me afastam do convívio despreocupado dos meus mais próximos, embirro com coisas. O que me difere da multidão anónima? O à-vontade com que desnudo a alma, proporcionalmente inverso à facilidade com que aceito que me toquem para me contarem anedotas maçadoras, por exemplo. 

Mantenha-se uma distância de segurança entre as pessoas e os corpos respirarão melhor. Desculpem qualquer coisinha.

JdB   

quinta-feira, 22 de maio de 2014

dancing our sorrows away

Fotografia de ALA

cristalina palavra descendente 
é o teu nome, catedral baixa

como essa holanda em que penso,
enquanto te sonho em mim.

despeço-me de ti com beijos
de uma boca que chove

e peles que se tocam de raspão
por debaixo do sol.

cristalina palavra és tu, digo,
que me feres de luz até

ao mais íntimo bosque final,
num slow motion eterno, em que 

nos possamos enfim cumprir,
e rebentar de amor.


gi.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Diário de uma astróloga – [78] – 21 de Maio de 2014

Sê tudo o que podes ser - Be all you can be

“Sê tudo o que podes ser” é uma ideia muito atractiva. Aliás foi usada durante muitos anos como slogan de recrutamento no exército dos Estados Unidos exactamente porque faz sonhar, desejar uma vida cheia de potencialidades realizadas. Quem é que não quer ser capaz de usar ao máximo os seus talentos?


Hoje o Sol entra no signo de Gémeos, o meu signo, e com a versatilidade que ele me confere, deixei os militares e lembrei-me deste poster de Peter Max (1969), artista pop, da era dos “hippies”. Além do slogan, acrescenta “ler”. 


Ler, recolher informação, adquirir conhecimentos, estimulação mental são as necessidades arquetipais do signo de Gémeos. Por isso é que gosto muito deste poster. Ler é necessário para eu atingir o meu máximo.

Mas Gémeos é só 1/12 do zodíaco e, para sermos tudo o que podemos ser, temos de viver também os outros signos. A carta do céu é uma mandala, um círculo, um todo. Os 360° do zodíaco estão divididos em doze de forma proporcional nesta imagem mas, em termos psicológicos, os signos têm peso e importância diferentes consoante o tema de cada um. Para sermos TUDO o que podemos ser, temos de encontrar expressão na nossa vida para as necessidades e características de TODOS os signos no peso e medida de cada um.


E é aí que as dificuldades começam. As necessidades e as características do nosso signo solar, salvo raras excepções, são facilmente acessíveis. As dos outros signos, sobretudo daqueles incompatíveis com a parte mais consciente da nossa personalidade, vão requerer trabalho… E, ainda há mais um truque – todas as energias do zodíaco existem num continuum , podendo portanto ser expressas de forma positiva ou negativa. Na frase “Sê tudo o que podes ser” está implícita a forma positiva.
Aqui ficam reflexões sobre algumas zonas cinzentas de cada signo:

  • Carneiro- quando é que a assertividade, a capacidade de ser autónomo, é levada ao rubro e transforma-se em agressividade?
  • Touro - quando é que a calma, a estabilidade, a persistência se tornam em teimosia e recusa em aceitar mudanças?
  • Gémeos- quando é que a versatilidade, a capacidade para ser polivalente escorregam para diletantismo e incapacidade para ser mestre numa especialidade?
  • Caranguejo - quando é que ser carinhoso, protector, maternal se transforma  em dependência ou sentimentalismo pegajoso?
  • Leão – quando é que a confiança e auto-estima passam a ser arrogância, prepotência e narcisismo?
  • Virgem – quando é que ser útil ao próximo e analiticamente crítico se torna em meter-se onde não é chamado e ser coca-bichinhos?
  • Balança – quando é que as boas maneiras e o desejo de tomar a decisão justa se confundem com superficialidade e indecisão?
  • Escorpião – quando é que a intensidade e a paixão viram manipulação e obsessão?
  • Sagitário – quando é que a procura da verdade e o optimismo nos levam à demagogia e a ignorar riscos?
  • Capricórnio – quando é que a busca da perfeição e a capacidade para ser disciplinado se tornam em excessiva estrutura e controle ditatorial?
  • Aquário – quando é que o desejo de inovação e libertação se ficam pela inconvencionalidade e distanciamento emocional?
  • Peixes – quando é que a imaginação, a necessidade de transcender o mundo material se revelam como confusão mental e escapismo perante as realidades da vida terrena?

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Neste mês cultivem a energia geminiana. LEIAM!



Luiza Azancot

terça-feira, 20 de maio de 2014

Duas Últimas

Tenho verificado pessoalmente, sem grande surpresa face ao que vou ouvindo e observando por aí, mas mesmo assim com alguma impaciência e pouco humor, que o avanço na idade não tem tido grande correspondência na qualidade do sono, antes pelo contrário.

Acontecem, às vezes com periodicidade demasiado curta, noites agitadas e longas, em que a entrada da claridade matinal pelas frinchas da janela demora tanto tempo que começamos a descrer da chegada da madrugada seguinte. E não há um galo para nos animar….

Nessas noites intermináveis, de minutos que parecem horas e de horas eternas, lá estamos nós acordados, ou a chorar os nossos pecados, como já hoje li por aqui, ou a rebobinar filmes normalmente negros e pessimistas, ou a transformar pequenas questões em grandes problemas universais, ou (last but not least) a estragar o sono de quem tem o azar de connosco compartilhar espaços exíguos.

Será que é a cabeça que não tem juízo? Não alcanço, no que me diz respeito, mas somos maus juízes em causa própria. E com hábitos tantas vezes teimosos e pouco salutares.

Dar um bom passeio a pé depois de jantar. Nunca ver o Belenenses depois das 19h. Deixar o PC no escritório e a televisão no off. Deixar-se ir no embalo de uma boa música. Conversar, arranjar mais tempo para os outros. São alguns exemplos de panaceias que tento incrementar. A bem de uma “noite sossegada”, como diria a minha avó.


A seguir, lembro duas versões de uma boa música, de uma excelente letra de um grande autor.

fq




segunda-feira, 19 de maio de 2014

Crónicas de um mestrando tardio *

Cada ser humano é auto-suficiente, não se definindo em relação a qualquer comunidade definidora

Penso que podia modificar-me e viver com os animais,
eles são tão serenos e reservados,
Quando me detenho a contemplá-los demoradamente,
Alheios por condição a queixas e fadigas,
Não estão acordados de noite a chorar os seus pecados,
Não me incomodam a discutir os seus deveres para com Deus,
Nenhum está descontente, nenhum endoideceu com a mania de possuir bens,
Nenhum se ajoelha perante outro, nem perante antepassados que viveram milhares de anos antes dele,
Nenhum é respeitável ou infeliz para o universo inteiro.[1]

***

No século IV aC, Demócrito usaria pela primeira vez a expressão Ἀταραξία - ataraxia – que significa tranquilidade da alma, ausência de perturbação. O conceito exprimia um ideal de sabedoria, uma certa invulnerabilidade racional face aos desgostos de vária ordem, às doenças, às mortes dos mais próximos, a outras desgraças. A ataraxia, mais do que um destino, seria um percurso – o que leva à imperturbabilidade. Para Epicuro, era por aí que se alcançava a felicidade. “(...) trata-se de uma tranquilidade a que se chega por via filosófica e não outra (...)”[2]. Séneca, um dos grandes nomes do estoicismo, usaria, a este respeito, a expressão tranquilitas animis, título de um dos seus tratados.
“A filosofia não é uma habilidade para exibir em público, não se destina a servir de espectáculo; a filosofia não consiste em palavras, mas em acções. O seu fim não consiste em fazer-nos passar o tempo com alguma distracção, nem em libertar o ócio do tédio. O objectivo da filosofia consiste em dar forma e estrutura à nossa alma, em ensinar-nos um rumo na vida, em orientar os nossos actos, em apontar-nos o que devemos fazer ou pôr de lado, em sentar-se ao leme e fixar a rota de quem flutua à deriva entre escolhos.”[3]
Em A Conquista da Felicidade[4], Bertrand Russell disserta sobre nove causas para a infelicidade das pessoas: a infelicidade byroniana, o espírito de competição, o aborrecimento e a agitação, a fadiga, a inveja, o sentimento de culpa, a mania da perseguição, o medo da opinião pública. Na segunda parte do livro  - As Causas da Felicidade – Russel espraia-se sobre aquilo que nos daria felicidade: o gosto de viver, a afeição, a família, o trabalho, os interesses impessoais, o esforço e a resignação.
Em que difere o universo de Demócrito, de Séneca ou de Bertrand Russell e o nosso? Em muito. Em (quase) tudo. Do filósofo grego, ou mesmo do filósofo romano, distantes de trezentos anos, até hoje, inventou-se e descobriu-se um mundo de coisas – o carro, a máquina a vapor, a revolução industrial, o casamento por amor, a física quântica, os cristais de quartzo, a electricidade, a máquina de escrever, os cheques bancários e os cartões de crédito, as armas de fogo e o sistema de rega gota a gota, a cozinha de autor e a imprensa, os cruzeiros às Caraíbas e os serviços ao domicílio.    
Em 80 anos – o livro de Bertrand Russell foi editado pela primeira vez em 1930 - o mundo ocidental inventou a tecnologia e a aldeia global, o consumismo e o turismo de massas. Em 80 anos generalizou-se o voto, o conceito de liberdade e dos direitos humanos, enraizou-se o ideal da democracia; deu-se voz às minorias, criou-se a internet e as redes sociais, disponibilizou-se um telemóvel a cada cidadão, as vidas dos ricos e dos famosos passaram a ser escrutinadas para gáudio dos curiosos. Em 80 anos deu-se acesso generalizado às universidades, diminuiu-se a mortalidade infantil, aumentou-se a esperança de vida.  
Muito se inventou e criou em mais de dois mil anos para tornar a vida humana mais confortável, mais sadia, mais reconfortante, mais alegre; muito nos distancia da Roma ou da Grécia dos filósofos citados, ou mesmo da Inglaterra da primeira metade do século passado. Podemos alterar ligeiramente um pensamento, fazer substituições menores de palavras, actualizar a lista de factores geradores de infelicidade e da sua inversa. No fim, o resultado é este: procuramos ser felizes, apesar das diferentes expressões que damos a esse sentimento.
Nascemos, crescemos e formamo-nos em engenharia aeronáutica, em obstetrícia ou em arquitectura, quedamo-nos pela escolaridade mínima ou frequentamos cursos profissionais. Trabalhamos numa fábrica ou num escritório, entregamos a nossa vida ao próximo ou tentamos reproduzir, numa tela ou num busto, o mundo que vemos. Ensinamos, vendemos roupa por trás de um balcão, investigamos os efeitos disto naquilo, vendemos sonhos em forma de viagens ou de carros. Sentemos estes misteres numa só sala, voltados uns para os outros. Apesar de todos os códigos que identificam origens geográficas ou de berço, culturas e hábitos, há uma vontade semelhante sussurrada da boca de todos os que se sentam nesta babel: o desejo de ser feliz. A frase é comum, quer seja proferida com sotaque daqui ou dali, com uma articulação mais criativa ou mais simples. E no entanto nada mais, para além da frase, parece ser comum. A conquista da felicidade, na clausura de um convento ou na partilha de uma tribo, é uma procura única, incompreendida porque impartilhável. Nessa estrada que nos leva ao cume, cada ser é um cavaleiro andante, solitário na vastidão da pradaria.
Saiamos da sala onde se junta a diversidade e atentemos nos momentos de que se compõe a nossa vida: um jantar de amigos, uma esplanada ao fim da tarde, um concerto de música clássica, uma loja que vende retrós. Cruzamo-nos com um quadro numa exposição, um programa de televisão, uma igreja barroca ou um quarto com vista sobre a cidade. Talvez mesmo um álbum de fotografias anónimo, ainda que de paisagens conhecidas. À frente de cada observador existe uma infinidade de pormenores, de detalhes – ou de coisas óbvias. O que vemos e a que damos atenção? A resposta evidente, eivada do que se considera correcto, é a perfeição da execução, o profissionalismo do jornalista, a focagem, a vastidão da vista ou a estética da montra. Não obstante, esta espécie de camada sobrenadante comum e, por isso, forçosamente desinteressante, esconde o encanto daquilo que é próprio de cada indivíduo, e que é esmagado pela colectivização dos pensamentos de hoje.
Cada um de nós é dono de olhos, nariz, sensibilidade, cérebro, alma, dedos. E é por isso que, enquanto uns vêem entretenimento e técnica, outros vêem a assimetria dos olhos da rapariga no fundo da esplanada, a suave curvatura das costas da violinista, o anel exuberante do empregado da loja ou a aba de um chapéu n’A Ronda da Noite. Outros ainda, desatentos do linguajar do jornalista, fixam a atenção na senhora de meia idade que, na assistência, é paga para rir ou aplaudir sob instrução. A atenção de cada um assemelha-se à procura da felicidade: é única, incompreendida porque impartilhável.  Dos milhares de olhos, cérebros, bocas, almas, que vêem o mesmo quadro, ouvem o mesmo concerto, entram na mesma retrosaria, cada um busca o seu detalhe, indiferente à opinião dos outros, absorto do que se considera correcto ou lógico. É, mais uma vez, uma caminhada solitária.
Roland Barthes aborda o tema do detalhe aplicado à fotografia. Há o studium - uma espécie de interesse humano geral pela fotografia que nos remete para uma informação clássica, mais ou menos estilizada, mais ou menos conseguida em função da mestria do fotógrafo: uma paisagem, um par de velhos, um cão a dormir ao calor do verão. “... studium, que não significa, pelo menos imediatamente, o ‘estudo’ mas a aplicação a uma coisa, o gosto por alguém, uma espécie de investimento geral, empolgado, evidentemente, mas sem acuidade particular”.[5]  E há o punctum, um elemento que salta da cena e nos trespassa, que vem perturbar o studium. “O punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também me modifica, me apunhala).”[6] 
A que obedece este punctum, aplicável à fotografia de Roland Barthes, mas cujo conceito pode ser replicado para a vida, porque a nossa existência não é mais do que uma sucessão de fotogramas? Obedece ao âmago de cada um, a um caminho interior que independe do mundo, da sociedade, do grupo, das modas, do meio ambiente. O punctum, esses pontos sensíveis que salpicam as fotografias, são algo intrinsecamente individual, vagamente explicado à luz da genética e, menos ainda, das influências do meio ambiente.

***

Viajamos, recolhemos imagens dos países e das cidades, das pessoas e das paisagens; criamos redes de amigos, de conhecidos, de colegas de trabalho; vemos, ouvimos e lemos; coleccionamos livros, cachimbos, selos, fotografias anónimas, cartazes tauromáquicos; temos memória dos avós, do cheiro a verão, da lentidão das músicas, do sabor dos frutos em Setembro, dos corpos juntos e das mãos dadas no escuro do cinema; criamos linguagens próprias, vocabulários familiares, expressões que mais ninguém entende; respiramos, comemos, bebemos. Definimos o que nos é imprescindível.
A nossa vida é uma criação permanente de famílias artificiais – objectos, pessoas, lugares – com as quais queremos viver, sem as quais definharíamos. Neste mistério que é existir, tudo levaria a crer que o gregarismo seria indispensável e estabeleceria connosco uma relação biunívoca – damos e recebemos, influenciamos e somos influenciados, definimos e somos definidos. Apesar desta aparente certeza científica, o facto é que o nosso destino é absolutamente único e irrepetível e, repiso, incompreendido porque impartilhável. Naquilo que verdadeiramente interessa – a conquista da felicidade, a procura da tranquilitas animis -  somos uma unidade fechada que procura a coesão dos seus órgãos. A existência dos outros não é mais do que uma inevitabilidade física, uma espécie de excrescência que medra agarrada ao nosso corpo, que pulsa e vive a ritmos próprios – e que tem uma dimensão atempadamente descartável. No que toca ao essencial – a demanda da ataraxia - somos auto-suficientes, como uma fábrica que é, simultaneamente, fornecedora e cliente, produtora e consumidora. Por isso, ausente de necessidades externas.
Isaiah Berlin afirmou: “quanto maior a área de não interferência, maior a minha liberdade.”[7] Nascemos para ser livres, crescemos para ser felizes, morremos na esperança do céu em que cada um acredita. Ainda que rodeados de gente, de multidões estranhas, de famílias artificiais, o que somos é o que nasce e morre connosco: o desejo de uma ausência de perturbação, o pormenor que só nós vemos, o fio de luz num altar que mais ninguém descortina. Somos como nascemos e como crescemos na nossa harmonia íntima. O resto são adornos artificiais que nada acrescentam a um figurino que é nosso – exclusivamente nosso. A auto-suficiência de cada ser humano, esta espécie de estanqueidade à comunidade envolvente é um facto, uma necessidade, uma condição de sobrevivência. É a nossa liberdade, de olhos postos no sossego que perdura.

Penso que podia modificar-me e viver com os animais...

 JdB

(* trabalho final da cadeira de Famílias Artificiais)




[1] Walt Whitman, citado em A Conquista da Felicidade (Bertrand Russell, Guimarães Editores, 2006). 
[2] Dicionário de Filosofia Moral e Política (Instituto de Filosofia da Nova – FCSH / Nova). 
[3]  Cartas a Lucílio, de Lúcio Aneu Séneca (Fundação Calouste Gulbenkian, 3ªed, 2007).
[4] Bertrand Russell (Guimarães Editores, 2006).
[5] Roland Barthes, in A Câmara Clara (Edições 70, 2013).
[6] Id.
[7] No original: “the wider the area of non-interference the wider my freedom (conferência inaugural na Universidade de Oxford (1957) subordinada ao tema: “Two concepts of liberty”).

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