quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Textos dos dias que correm *

Os Grandes Forjam-se na Adversidade

Todo o ambiente é favorável ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a missão que se impôs e a conseguir ir porventura mais além das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se à invalidez do impulso interior do que aos obstáculos que lhe ponham diante, mais à alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que às resistências, às invejas e às dificuldades que o mundo possa levantar perante Hércules que luta. 
O mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a visão do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamento e a mansa quietude são estufa para homens; por aí se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos corações que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam. 
Mais custa quebrar rochas do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar, à indiferença que cerra os ouvidos do povo, e aos mil braços que logo se levantam para deter o arquitecto. Se cai em batalha, pobre dele, podemos lamentá-lo; não o chamara o Senhor para as grandes empresas; mas se pelo menos a voz se lhe erguer clara, firme, heróica no meio do turbilhão, não foram inúteis as dores e os esforços: algum dia um novo mundo se erguerá das brumas e o terá como profeta. 
Quem ia a perturbar ficará perturbado, quem ia a matar ficará morto. Não é com os mesquinhos artifícios, nem com o desprezo, nem com a mentira, nem pelo cansaço, nem pela opressão, nem pela miséria que se vencem os que pensaram num futuro e, amorosamente, com cuidados de artista, continuamente, com firmeza de atleta, o vão erguendo pedra a pedra. É necessário que se resista enquanto houver um fôlego de vida, mas que essa resistência seja sobretudo o contacto com a realidade da força criadora; é esta que afinal tudo leva de vencida e reduz oposições a pó inútil e ligeiro. 

* Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

QUANDO O CULPADO JÁ SÓ AGUENTA A VERDADE

A película dinamarquesa «O CULPADO»(1) é uma sólida candidata ao Óscar do Melhor Filme Estrangeiro. A extrema simplicidade dos cenários, o número mínimo de personagens e a menorização da imagem em favor do som, pareceria um trabalho ao alcance de um estudante. Mas o magnífico argumento, o exímio desempenho do protagonista e da voz feminina principal ou a mestria da realização não deixam dúvidas sobre a qualidade maior deste thriller, em simultâneo, original e profundo. Só por equívoco confundível com uma obra modesta. 

O thriller que está a conquistar a Europa e os EUA. 

A ousada subalternização da imagem resulta na pedra de toque da realização, que arrisca oferecer apenas o essencial. Daí a aposta no órgão sensorial mais fiável, menos permeável a distracções e miragens – o ouvido. De facto, zero de blagues ou de beautiful people, à parte de tiradas ásperas, que só dão vontade de rir por serem inconcebíveis na assistência do 112.  Gustav Möller teve a coragem de se despojar de todos os artifícios que animam os filmes da actualidade, viciados em truques de entretenimento, para contar uma história crua e a cru, levando ao  limite o «efeito de distanciamento» recomendado por Brecht, glosando a tradição literária russa.  

A menção honrosa atribuída a Möller no Festival internacional de Turim – com um título significativo «Gandhi's Glasses Award - Special Mention» – explica bem o patamar elevado a que se guindou o trabalho do realizador, ao conseguir a crueza que melhor serve a liberdade do público, mostrando sem véus enganadores. De certo modo, com mais verdade. Foi justificada nestes termos a tal menção honrosa italiana: «For the delicacy that the director had towards the viewer, avoiding any ostension of physical violence. For the awareness and gesture of courage of the protagonist who, by recognizing his faults, can empathize with the other aggressor. For having used the dialogue as the only cathartic instrument in the resolution of a conflict.»

É nesse ambiente a roçar o desconfortável – tal o seu despojamento – que Möller soma uma segunda proeza: agarrar o espectador do princípio ao fim. É verdade que o argumento se desenrola em contínuo suspense. Mas não é menos verdade que a vida na perspectiva de quem a agarra com ânimo (sem implicar alegria, como era o caso do polícia protagonista) costuma acabar por se revelar surpreendente e imprevisível, mostrando um gigantismo misterioso e incontrolável à semelhança dos ciclos do mar: ora flat na gíria surfista, ora ondulado, ora em maré-viva e tsunamis. Shakespeare também assumiu esse mistério que impregna subtilmente o dia-a-dia, numa cena do Hamlet(2): «There are  more  things  in  heaven  and  earth, Horatio, /  Than are dreamt of in your philosophy». 

Os 85 minutos de «O CULPADO» situam-se entre o open-space acanhado do call-center da polícia, que assegura o interface com o 112, e um gabinete contíguo de grandes vidraças, que só deixa de fazer efeito aquário quando se correm as gelosias. 

Um espaço exíguo é cenário de uma trama profunda,  onde cabem os gestos heróicos dos anónimos, “invisíveis” aos olhos da maioria.

Paredes e mobiliário monocromáticos impõem um branco asséptico e impessoal, que é o cenário perfeito das caras híper controladas dos funcionários fardados. Correctos e contidos como autómatos, entregam-se a comportamentos padronizados, ordeiros mas trancados em scripts pré-definidos. Tudo dentro do previsto. Mas nada mais do que o previsto, como se fosse possível conter a realidade humana, que se espraia à solta, para lá dos muros da super-esquadra telefónica. Talvez pudessem ser facilmente substituíveis por máquinas. Excepto um – o protagonista, que ali passa e ultrapassa (bastante) o turno da noite, retirado do serviço de rua, depois de ser acusado de homicídio. Atrás das linhas telefónicas, está de castigo a aguardar julgamento. E é já no dia seguinte, mas nada que o impeça de mergulhar nas dificuldades que lhe chegam pelo auscultador, às quais reage em modo voluntarista, sem acatar regras que lhe parecem curtas para responder às circunstâncias reais. Por um bem que considera maior, não hesita em atropelá-las, como se estivesse no Sul da Europa, diríamos… No fundo, propunha-se dar primazia a uma justiça aperfeiçoada pela equidade. 

No 112, irrompe a história dramática de uma família disfuncional da Dinamarca profunda, quando um ex-presidiário reaparece para raptar a mulher, deixando a filha de uns 4 anos a tomar conta do bebé da casa, mas proibida de entrar no quarto do irmão de berço.  Vamos conhecendo os factos de forma entrecortada e algo redutora, ao ritmo dos pedidos de ajuda em sucessivas chamadas lancinantes e telegráficas, que vão abaixo. Portanto, acabamos reduzidos a um contacto telefónico intermitente e ao ângulo de visão daquele polícia, cuja boa vontade o faz incorrer no risco de avaliações e "adivinhações" precipitadas, para inverter um rumo de acontecimentos assustador e em alta velocidade. Começa a luta contra o tempo e contra uma realidade desfocada, que mal se deixa conhecer.    

Uma câmara intransigente, quase impiedosa, aponta ao rosto sofrido do polícia em contra-relógio, disposto a tudo para salvar vítimas, que se lhe afiguravam inimputáveis. A ponto de ganhar coragem para confessar, em alta voz, a sua pior transgressão – a mais grave num ser humano e especialmente imprópria num polícia – um assassinato sem atenuantes. Confessou-o em frente aos colegas para aliviar o desespero de uma agressora incapaz de responder pelos seus actos. Afinal, ali estava um que carregava maior culpa! Fora a solução encontrada para tentar salvar a sua pobre interlocutora, que ameaçava soçobrar. 



Sabia muito bem que a confissão testemunhada pelos seus pares poderia nem servir para evitar o pior desfecho, do outro lado da linha! Mas não hesitou em fazê-la, por lealdade perante todos os impotentes e inimputáveis da vida, com menos estatuto do que ele para lidarem e contornarem a justiça dos homens. Percebe-se que fora assaltado por uma sede de Verdade. Uma sede que o levou a dar o melhor de si, por compaixão por uma desconhecida, em carência de toda a ordem (desde logo, anímica), completamente dependente dele. Mesmo só lhe conhecendo o nome, visível no ecrã do potente aparelho, não quis falhar a Iben. Menos ainda à filha de Iben, Mathilde, a quem prometera trazer a mãe de volta. Recebeu, por fim, a melhor gratificação, embora já não fosse esperada… Acabara por se dar, sem contrapartidas. Cumprida a missão, aceitou voltar a casa, horas depois do seu turno terminar. Estava esgotado e sabia-se culpado. Mas a golfada de generosidade que o dispusera a surfar tamanha onda, tinha feito dele um gigante… logo que preferiu a verdade, nada mais do que a verdade. Afinal, o maior desafio do ser humano.   


Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)
 ______________________________
(1) FICHA TÉCNICA:

Título original: Den skyldige  (candidato a Óscar)
Título traduzido em Portugal:  O CULPADO
Realização: Gustav Möller
Argumento: Gustav Möller e Emil Nygaard Albersten 

Duração: 125 min.
Ano: 2018
País: Dinamarca

Elenco:
Jakob Cedergren (o polícia protagonista – Asger Holm)
Jessica Dinnage (voz de Iben, a mulher raptada)
Omar Shargawi (voz do ex-marido e raptor)
Katinka Evers-Jahnsen(voz da filha de Iben – a Mathilde)

Local das filmagens: Interior de call-center da política.

Prémios:
Prémio de Melhor Filme pelo Sundance; TIFF - prémio canadiano de cinema; National Board of Review nos EUA ; 4 prémios no Festival de Cinema de Turim para melhor realizador, actor e ainda o galardão «Gandhi's Glasses Award - Special Mention» atribuído a G.Mölle; 2 prémios no “International Film Festival & Awards Macao” para o realizador e actor principal); prémio de Melhor Realizador nas edições de 2018 dos festivais de Cinema de Washington, Zurique, “Philadelphia Film Festival”, “Rotterdam International Film Festival”, “Seattle International Film Festival”, “Camerimage” e  “Baltic Debuts Film Festival”; candidato ao Óscar do Melhor F. Estrangeiro.  

OBSERVAÇÕES: n.a.

Trailer: 

 

(2) "Hamlet", Acto 1, Cena 5.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Duas Últimas

O que é fado? 

Alerto para a construção da frase na qual omiti propositadamente o artigo definido "o", com o qual se transformaria a pergunta numa sugestão de História do fado. Não sou competente para isso nem pretendo fazê-lo. Interessa-me apenas divagar, em meia dúzia de parágrafos, sobre o que podemos considerar fado, ou apenas genericamente música portuguesa. Até que ponto as alterações - introdução do acordeão, do contrabaixo, da bateria, etc. - são apenas alterações menores ou, pelo contrário, desvirtuam o que é a essência do fado. Pode sempre alegar-se a Amália a cantar Camões ao som do piano de Alain Oulman que, por acaso, já tinha feito a música... Pois é, será por tudo isto que a discussão não tem fim.

Mão amiga - que por acaso está hoje de parabéns - sugeriu-me a música abaixo:



Falamos de fado? O facto de ter um cheiro de Amália e a voz de Camané permite classificar-se esta música como fado? E se ouvirmos Talvez, de Carminho?

 

É um facto que Talvez tem (parece-me) música de autoria de Mário Pacheco, reconhecido compositor e tocador deste género de música. Imaginemos agora que ouvíamos esta mesma música cantada pelo Fausto ou pela Maria de Lurdes Resende, dois músicos que não se celebrizaram por serem fadistas? A classificação como fado seria tão imediata como depois de ouvirmos a interpretação de Carminho, uma reconhecida fadista?

O que é fado? Não sei, e talvez não queira saber, porque assim posso alimentar estas dúvidas inofensivas e que permitem conversar-se. Como lia um destes dias num livro, às vezes, uma pessoa tem de falar para descobrir o que pensa.   

JdB

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Do minimalismo e dos gurus do minimalismo

Como recém-aderentes à Netflix, andamos a navegar, a pesquisar o que existe para além da série que seguimos agora - Crown. Seleccionei um documentário que se intitulava Minimalismo, e que tinha um subtítulo de que não me lembro bem, mas que remetia para a importância de algumas coisas, ou de ter poucas coisas. Em condições normais talvez não visse o documentário, mas o interesse foi-me suscitado pela minha tese de doutoramento, que aborda este tema.

Devo confessar que vi 15 minutos - talvez nem isso. Ao minimalismo referido no título correspondia o minimalismo do conteúdo, que se limitava a dois colegas de trabalho que, após uma dedicação excessiva à carreira viam-se livres de lastro: até onde vi, roupas e mobílias. Aparentemente fazem palestras pelo país, abraçam as pessoas (não têm de ser minimalistas ao nível do cumprimento) e, dizem-me fazem dinheiro com isso. Talvez esteja a ser injusto na minha apreciação pelo facto de ter visto apenas uma parte. Estou convicto, no entanto, que o resto seria mais do mesmo: menos camisas, menos cadeiras, menos sofás, mais felicidade.

Marie Kondo, a guru da arrumação, de que já aqui falei, ajuda a dobrar camisas - as tais de que os outros se querem libertar. A japonesa fala com a casa e com a roupa, os minimalistas (não me lembro dos nomes) acabam a falar sozinhos, porque querem livrar-se de tudo. Tudo isto passa na Netflix, arrasta multidões, é mencionado nas redes sociais ou em conversas de amigos. Por mim está visto. Achei o programa (ou o que vi do programa) de uma pobreza muito americana: entusiasmo, oh my god, vidas que se expandem com o encolhimento do guarda-fato, muita alegria e satisfação por uma luz que se viu: no caso da japonesa ao dobrar-se um par de cuecas; no caso dos outros, ao alienar-se uma mobília de casa de jantar.

Na verdade, não é preciso muito para se inundar uma casa e uma vida de satisfação. O erro é meu, que não tenho T-shirts dobradas em três e dou valor às minhas gravuras...

JdB     

domingo, 27 de janeiro de 2019

III Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 1,1-4;4,14-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Já que muitos empreenderam narrar os factos
que se realizaram entre nós,
como no-los transmitiram os que, desde o início,
foram testemunhas oculares e ministros da palavra,
também eu resolvi,
depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens,
escrevê-las para ti, ilustre Teófilo,
para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado.
Naquele tempo,
Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito,
e a sua fama propagou-se por toda a região.
Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos.
Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado.
Segundo o seu costume,
entrou na sinagoga a um sábado
e levantou-Se para fazer a leitura.
Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías
e, ao abrir o livro,
encontrou a passagem em que estava escrito:
«O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque Ele me ungiu
para anunciar a boa nova aos pobres.
Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos
e a vista aos cegos,
a restituir a liberdade aos oprimidos
e a proclamar o ano da graça do Senhor».
Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se.
Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga.
Começou então a dizer-lhes:
«Cumpriu-se hoje mesmo
esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».

sábado, 26 de janeiro de 2019

Pensamentos Impensados

Natureza
A deglutição é uma relação cuspo / benefício.

Libações
Há bar e bar há ir e embebedar.

Arabescos
As palavras árabes começam por al. Égua em árabe diz-se alcavala.

Agremiações
Para quando o sindicato dos vândalos? Eram bem-vindas umas greves.

Novo acordo
Se há descobrimento e descoberta também devia haver achamento e achamerta.

Doenças
Marcelo é bi-polar? Não, é pi-pular.

SdB (I)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Duas Últimas



Verdes Anos

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

Pedro Tamen (in Retábulo das Matérias (1956-2001))

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Das arrumações e dos gurus das arrumações

Seiri        Separar o necessário do desnecessário
Seiton        Colocar cada coisa no seu devido lugar
Seisō        Limpar e cuidar do ambiente de trabalho
Seiketsu        Criar normas
Shitsuke        Todos ajudam

***

O mundo é, definitivamente, um lugar estranho. Eu explico: as cinco palavras acima compõem uma técnica japonesa de arrumação de locais de trabalho (eventualmente de outros) chamada 5S. O motivo para o nome parece-me bastante auto-explicativo... Usei-a muito na minha vida de empregado fabril. E usei-a com grande satisfação porque, bem aplicada, deixava oficinas - locais que não primam habitualmente pela higiene - prontas a servir de refeitório. Seguindo uma ideia-chave - um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar -, a técnica permitia deitar fora muito lixo, criar padrões de arrumação, questionar o que se arquivava e como se arquivava, definir tempos máximos para fornecer respostas ou dar informações. A técnica, repito, é muito boa e, bem aplicada, gera resultados fantásticos. Não irei alongar-me mais sobre o tema, para não arriscar a debandada geral.

Aderi finalmente ao Netflix. Um destes dias sentámo-nos a ver a Marie Kondo, de quem já me tinham falado. Japonesa franzina, como são todas, tem uma cara simpática e sorridente e é, supostamente, uma espécie de guru sobre arrumação de casas. No primeiro episódio que vi (e parece-me ser o primeiro da primeira temporada) Marie Kondo visita uma casa onde vive um casal com dois filhos pequenos, casal esse que vive momentos conjugais difíceis devido ao caos doméstico: loiça suja, roupa suja, desarrumação, falta de tempo e de paciência. Ao longo de 25 visitas, parece-me, ensina-os a arrumar, a limpar, a organizar coisinhas em caixinhas, a distribuir as facas e colheres de pau pelas gavetas. O resultado é fantástico: o casal ama-se de novo, há tempo para tudo, a casa está um brinco, as crianças mais felizes. Marie Kondo, o guru da arrumação, faz, metaforicamente falando, mais um risco na coronha. 

Falamos de um casal com dois filhos, e não de uma família numerosa com 7 ou 8. Falamos de gente desarrumada e com níveis de higiene abaixo do mínimo civilizado. Aprenderam alguma coisa? Não faço ideia, nem é por isso que não verei mais o programa. O que mais impressão me fez foi o facto das regras de arrumação serem todas do mais elementar bom senso - ou apenas inúteis. E impressionou-me que metade do tempo a dona da casa diz Oh My God, a outra metade abraça a japonesa (hábito pouco nipónico) e a outra metade (como se houvesse três metades) chora de emoção. Há ainda uma outra metade (como se houvesse quatro metades) em que Mary agradece à casa, fala com a roupa, medita de joelhos sobre a carpete (um risco de saúde). 

Num certo tempo, os gurus de qualquer coisa eram visionários, arrojados, a romperem com normas e hábitos vigentes, a deitarem um olhar mais além. Eram gente que tocava no destino do próximo ou produzia ideias fantásticas. Agora há um guru da arrumação: Marie Kondo, japonesa, que fala com a roupa, com a casa, que agradece ao algodão com a mesma alegria com que agradece ao terylene, que é uma espécie de S. Francisco dos objectos. 

Antes de me certificar que as colheres de pau estão arrumadas por tamanho (recomendação importante) deixem-me dizer que mão amiga me mandou o link para se poder ouvir a Mixórdia de Temáticas do Ricardo Araújo Pereira. Ele viu o que eu vi - mas conta-o com mais graça... 

JdB       

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Duas Últimas

Curiosamente os Queen nunca passaram por este este estabelecimento. Em bom rigor, tenho a ideia de terem passado uma vez, mas não fui pesquisar. E não há nenhuma etiqueta deles... Enfim, no passado fim de semana fui ver o Bohemian Rhapsody, filme que recomendo muito vivamente, mesmo para quem não é grande fã de música pop, o que é o meu caso. Gostei de saber mais do Freddie Mercury e da banda, como agora se diz.

Deixo-vos com duas das melhores músicas dos Queen. Estupidamente, entre as duas músicas há um anúncio. Passem por cima logo que puderem.

JdB

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Textos dos dias que correm *

Interroga o nevoeiro, não a clareza

«Interroga a graça, não a ciência; o desejo, não o intelecto; o suspiro da oração, não o anseio de ler; o esposo, não o mestre; Deus, não o homem; o nevoeiro, não a clareza. Interroga não a luz, mas o fogo que inflama todo o ser e o mergulha em Deus.»

Extraio este belíssimo final do “Itinerário da mente para Deus”, de S. Boaventura, o filósofo franciscano do século XIII, amado também por Dante, que o colocará no Paraíso.

A opção que o santo propõe é a de depor os despojos da arrogância intelectual, da soberba da alma, da busca apenas curiosa, para aportar ao abandono entre os braços da graça, à intimidade da oração e da contemplação, à chama do amor.

Um itinerário espiritual que, ainda que não rejeitando a inteligência, distende-se pela via da adesão, da intuição, da pureza de espírito. É, portanto, a proposta de um percurso mais radical e menos “calculado”, mais generoso e espontâneo que envolva toda a pessoa, e não uma só dimensão.

Há um passo que me atrai, até porque resulta algo provocatório: «Interroga o nevoeiro, não a clareza». À primeira vista, com efeito, devemos expor-nos para a luz. Boaventura, ao contrário, recorda-nos que – quando se entra no mistério de Deus –, movemo-nos às apalpadelas, no meio de uma espécie de obscuridade rasgada por lampejos.

É necessário, por isso, reconhecer o nosso limite e a cegueira que gera o infinito divino, contra toda a orgulhosa ilusão de possuir e “explicar” Deus, como pode acontecer ao fiel que modela a divindade à sua imagem e semelhança.

Acreditar é, em consequência, um ato de humildade que se manifesta precisamente na travessia através da névoa, intuindo o relampejar do rosto de Deus.


* P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 21.01.2019

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Das viagens

“Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. ” (Marcel Proust)

***

A frase acima suscita-me lembranças de uma ideia que já aqui aflorei, não sei quando, nem a que propósito, nem com que interesse: a da forma como olhamos para uma cidade em função do estado de espírito que vivemos no momento. Nesse sentido, num período particularmente feliz, Badajoz pode ter uma beleza inesperada, enquanto no extremo oposto desse contínuo Roma pode ser apenas barulhenta e enganadora. Ora, a frase acima não se limita às viagens de turismo, esse sucedâneo do grand tour que, num dada fase da história da Europa, estava vedada aos pobres e que servia para enriquecimento da pessoa, mais do que para exibição da selfie. A viagem de descoberta de que fala Proust aplica-se aos países, aos livros, aos museus - e às pessoas. Um olhar diferente - um olhar novo - permite descobrir coisas novas num poema, na luz de uma aldeia de província, na beleza triste de um stabat mater, no olhar aparentemente feliz de uma rapariga de olhos verdes.    

No entanto, e de certa forma, a frase de Proust colide com o diálogo que Ilsa mantém com Rick em Casablanca, o filme de todos os filmes:

- what about us?
- we'll always have Paris. 

O Paris que eles sempre terão não está aberto a novas descobertas, não é visível desta ou daquela forma em função dos olhos que cada um tem na altura. Dez anos depois, se pudéssemos supor dez anos depois para o casal que se juntou em nome do romance e se separou em nome da liberdade, os olhos de Ilsa são diferentes e os olhos de Rick são diferentes. A guerra acabou, ganharam os bons, algumas lutas não param porque isso significa o desemprego dos heróis. Regressarão ambos a Paris, ao café onde estiveram juntos, à estação de caminho de ferro onde nunca mais se viram, à imagem da cidade luz povoada de tanques pelos nazis. Paris não mudou. Melhor dizendo, mudou para todos, menos para eles. Há viagens que se devem fazer com os olhos de sempre.

JdB 

domingo, 20 de janeiro de 2019

2º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 2,1-11

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
realizou-se um casamento em Caná da Galileia
e estava lá a Mãe de Jesus.
Jesus e os seus discípulos
foram também convidados para o casamento.
A certa altura faltou o vinho.
Então a Mãe de Jesus disse-Lhe:
«Não têm vinho».
Jesus respondeu-Lhe:
«Mulher, que temos nós com isso?
Ainda não chegou a minha hora».
Sua Mãe disse aos serventes:
«Fazei tudo o que Ele vos disser».
Havia ali seis talhas de pedra,
destinadas à purificação dos judeus,
levando cada uma de duas a três medidas.
Disse-lhes Jesus:
«Enchei essas talhas de água».
Eles encheram-nas até acima.
Depois disse-lhes:
«Tirai agora e levai ao chefe de mesa».
E eles levaram.
Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho,
– ele não sabia de onde viera,
pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam –
chamou o noivo e disse-lhe:
«Toda a gente serve primeiro o vinho bom
e, depois de os convidados terem bebido bem,
serve o inferior.
Mas tu guardaste o vinho bom até agora».
Foi assim que, em Caná da Galileia,
Jesus deu início aos seus milagres.
Manifestou a sua glória
e os discípulos acreditaram n’Ele.

***

Os nossos corações são ânforas a encher *

Há festa grande, numa casa de Caná da Galileia: as portas estão abertas, como é costume, o átrio está cheio de gente, os convidados parece nunca serem suficientes para a vontade do jovem casal de partilhar a festa, naquela noite de tochas acesas, de canções e de danças.

Ao longo da festa das bodas, que no Antigo Testamento duravam em média sete dias, há um acolhimento cordial até mesmo para a caravana colorida que se pôs a seguir Jesus, subindo desde as aldeias do lago.

O Evangelho de Caná (João 2, 1-11) colhe Jesus nas tramas festivas de um banquete nupcial, no meio das pessoas, enquanto canta, ri, dança, come e bebe, longe dos nossos falsos ascetismos.

Não no deserto, não no Sinai, não no monte Sião, Deus fez-se encontrar à mesa. A bela notícia é que Deus se alia à alegria das suas criaturas, com o vital e simples prazer de existir e amar: Cana é o seu ato de fé no amor humano.

Com efeito, Ele acredita no amor, abençoa-o, sustém-no. Acredita ao ponto de fazer dele a pedra angular, o lugar originário e privilegiado da sua evangelização. Jesus começa a narrar a fé como se narraria uma história de amor, uma história que tem sempre fome de eternidade e de absoluto. O coração, segundo um antigo dito, é a porta dos deuses.

Também Maria participa na festa, conversa, come, ri, aprecia o vinho, dança, mas ao mesmo tempo observa o que acontece à sua volta. O seu olhar atento e discreto permite-lhe ver aquilo que ninguém vê, isto é, que acabou o vinho, ponto de reviravolta da narrativa.

Não é o pão que faltou, não é o necessário à vida, mas o vinho, que não é indispensável, um extra inútil para tudo, exceto à festa ou à qualidade da vida. O vinho é, em toda a Bíblia, o símbolo do amor feliz entre homem e mulher, entre homem e Deus. Feliz e sempre ameaçado.

Não têm mais vinho, experiência que todos fizemos, quando mil dúvidas nos assaltam e os amores são sem alegria, as casas sem festa, a fé sem entusiasmo.

Maria indica o caminho: o que quer que Ele vos diga, fazei-a. Fazei o que diz, fazei o seu Evangelho, tornai-o gesto e corpo, carne e sangue. E então encher-se-ão as ânforas vazias do coração. E a vida transformar-se-á, de vazia a plena, de extinguida a feliz.

Mais Evangelho é igual a mais vida. Mais Deus equivale a mais eu. O Deus em que acredito é o Deus das bodas de Caná, o Deus da festa, do rejubilante amor dançante; um Deus feliz que está do lado do vinho melhor, do perfume de nardo precioso, que está do lado da alegria, que socorre os pobres de pão e os pobres de amor.

Um Deus feliz, que assume o cuidado pelo humilde e poderoso prazer de viver. Também o acreditar em Deus é uma festa, também o encontro com Deus gera vida, traz florescimento de coragem, primavera repetida.


* Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 17.01.2019

sábado, 19 de janeiro de 2019

Pensamentos Impensados

Futebóis
O futebol é um jogo de ar livre; no entanto, há equipas que jogam em casa.

Música
Não percebo porque é que o Schubert não acabou a sinfonia chamada Incompleta quando, ainda por cima, estava em adiantado estado de composição.

Votações
Sou adepto do braço no ar, desde que não seja a Rosa Mota.

Quedas
Espera-se que a Torre de Pisa não caia; já tempos a Torre do Tombo.

Linguajares
A frase de Mário Soares mon ami Miteran foi equiparada a Despacho de Pronúncia.

Datas
O sal e o açúcar não têm prazo de validade, mas convém comê-los antes que morra.

SdB (I)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Texto dos dias que correm

NO SERVIÇO (voz interior)

O que eu faço é servicinho à toa. Sem nome nem dente. Como passarinho à toa. O mesmo que ir puxando uma lata vazia o dia inteiro até de noite por cima da terra. Mesmo que um caranguejo se arrastando pelo barranco à procura de água vem um boi e afasta o rio dele com as patas para sempre. O que eu ajo é tarefa desnobre. Coisa de nove noves fora: teriscos, nhamenhame, de-réis, niilidades, oco, borra, bosta de pato que não serve nem pra esterco. Essas descoisas: moscas de conas redondas, casulos de cabelo. Servicinho de pessoa Quarta-feira que sai carregando uma perninha de formiga dia de festa. De modo que existe um cerco de insignificâncias em torno de mim: atonal e invisível. Afora pastorear borboletas, ajeito éguas pra jumento, ensino papagaio fumar, assobio com o subaco. Serviço sem volume nem olho: ovo de vespa no arame. Tudo coisinhas sem veia nem laia. Sem substantivo próprio. Perna de inseto, osso de morcego, tripa de lambari. Serviço com natureza vil de ranho. Tudo sem pé nem cunhado. Tem hora eu ajunto ciscos debaixo das portas onde encontro escamas de pessoas que morreram de lado. Meu trabalho é cheio de nó pelas costas. Tenho de transfazer natureza. À força de nudez o ser inventa. Água recolhendo-se de um peixe. Ou, quando estrelas relvam nos brejos. No meu serviço eu cuido de tudo quanto é mais desnecessário nessa fazenda. Cada ovo de formiga que alimenta a ferrugem dos pregos eu tenho de recolher com cuidado. Arrumo paredes esverdeadas pros caramujos foderem. Separo os lagartos com indícios de água dos lagartos com indícios de pedra. Cuido das larvas tortas. Tenho de ter em conta o limo e o ermo. Dou comida pra porco. Desencalho harpa dos brejos. Barro meu terreiro. Sou objeto de roseiras. Cuido dos súcubos e dos narcisos. E quando cessa o rumor das violetas desabro. Derrubo folhas de tarde. E de noite empedreço. Amo desse trabalho. Todos os seres daqui têm fundo eterno.

Manoel de Barros, Livro de pré-coisas. Roteiro para uma excursão poética no Pantanal

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Texto tirado daqui

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

NÁUTILO - PROEZA MATEMÁTICA NA NATUREZA E COQUELUCHE NA ARTE

Os avanços extraordinários decorrentes dos Descobrimentos, lançados no século XV por portugueses e espanhóis, trouxeram enorme progresso às ciências naturais e humanas, a partir da descoberta de novas civilizações com outros conhecimentos e novas paisagens, habitadas por fauna e flora desconhecidas.

As novidades oriundas dessas latitudes longínquas impregnaram também a arte e os hábitos dos europeus, surgindo as colecções/gabinetes de curiosidades e maravilhas ou, por exemplo, a moda das pérolas e o gosto pelos jardins povoados de espécies exóticas. Daí foi um instante para os exemplares mais bizarros e fotogénicos começarem a posar para as telas dos pintores, elevados a protagonistas das naturezas-mortas, como que embalsamados pela pintura.  

Quando se aguçou a busca pelos seres mais sublimes, a concha do náutilo impôs-se. Marcada pela configuração em espiral logarítmica, começou por ser baptizada de «espiral maravilhosa» (spira mirabilis) pelo seu primeiro estudioso – Jacob Bernoulli (1654-1705). Mais tarde, ganhou o estatuto de «espiral dourada», reveladora do número de ouro ou número perfeito e integrada no capítulo da «geometria sagrada» (sacred geometry). A multiplicação de designações superlativas denuncia o fascínio que tem exercido sobre estudiosos e artistas. A sua curva envolve uma coreografia matemática sofisticada, formada por todas as rectas desse plano curvo, que se organizam num ângulo constante passando por um ponto fixo do mesmo plano:

Na natureza, a «spira mirabilis» é visível no interior seccionado da concha do náutilo em aragonite nacarada [madrepérola], nos ciclones tropicais e na Via Láctea. Estudos matemáticos mais recentes assinalam serem raras as «golden ratio» perfeitas na casca do náutilo.   

Exercício exploratório da «Sacred Geometry of the Nautilus».

Willem Kalf, exímio na execução de naturezas-mortas, assinou uma das representações mais prodigiosas dessa geometria perfeita gravada na carapaça de um molusco sub-aquático do Pacífico:

«Natureza-morta com taça de náutilo», Willem Kalf, 1662, Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid.
A profusão de peças permitia ao pintor exibir os seus dotes artísticos.  

Outra exibição linda chegou-nos pelo pincel do espanhol frei Juan Baptista Maíno, num óleo barroco à maneira de Caravaggio que foi pioneiro a imortalizar gente comum na tela. O painel dedicado à «Adoração dos Magos» (1612-14) pelo artista da corte de Felipe IV é uma obra-prima de detalhes. Ali brilham panejamentos em texturas sumptuosas, a subtileza de uma luz que anima um hábil jogo de claros-escuros, a mímica poderosa de personagens com um movimento de mãos invulgarmente expressivo e as peças que transportam as dádivas dos Magos. É nessa função que o náutilo contracena, depositário da mirra oferecida pelo Rei de etnia africana. A sua concha resplandece com incrustações do mundo natural implantadas a ouro, confirmando a beleza da interacção entre o melhor da natureza e o ápice do labor humano. Um labor que assim presta homenagem ao esplendor da criação, enquanto os Magos se inclinam perante o Criador:

Pormenor do painel de Maíno com o náutilo à esquerda e o pequeno Salvator Mundi à direita.

No desfile dos Reis: o mais velho, ajoelhado, leva um cálice dourado. O segundo, com um incensário mais esguio, mas não menos rico, debruça-se sobre o Bebé de caracóis ruivos ainda por domar, que parece brincar como todos os pequeninos tocando em tudo com o indicador; porém, não prescinde do gesto próprio do Salvator Mundi (cuja representação mais espantosa será a de Leonardo, leiloada o ano passado e devolvida às Galerias Uffizi, de Florença – ref. no gin de 6 de Dezembro de 2017), com dois dedos da mão direita levantados para abençoar a humanidade. O terceiro segura o náutilo como uma jóia. 

Na tela total assoma uma cena muito concentrada da Natividade, onde cabem os pais e o Filho, os Magos, alguns pajens, um pastor e a tal profusão de símbolos. Vale a pena explorar o painel de Maíno, ao pormenor, através do link disponível no portal do Prado –  https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/the-adoration-of-the-magi/3f1f4d63-0476-4ac0-904f-776713defe78.

Painel do quadríptico original do altar-mor da Igreja do Convento Dominicano de S.Pedro Mártir, em Toledo.
A sua execução foi retardada pela entrada de Maíno na Ordem Dominicana, a meio dos trabalhos (1613).
Anos depois, mudou-se para Madrid como tutor do futuro rei Felipe IV.
Na corte, ficou conhecido pelos retratos-miniatura e pelo papel decisivo a lançar novos artistas,
onde se distinguiu Diego Velázquez, cujo acesso à família real teve o respaldo de frei Maíno.

Naquele recanto aconchegado de uma gruta sem tecto e abaixo do nível do solo, o céu marca presença da forma mais festiva através da luz quente da estrela que ilumina todo aquele espaço subterrâneo como o foco da câmara de filmar, pondo em evidência a estranheza da homenagem de VIP’s a um simples bebé. Um mistério que está muito para lá do alcance das palavras e ganha sentido de cada vez que o rumo da história se inclina em favor de um Bem, que parecia inalcançável. É o caso da boa notícia chegada do Paquistão, sobre os avanços no intrincado processo de Asia Bibi (1), condenada por ser cristã. Há dias, veio a lume o abaixo-assinado de mais de 500 clérigos muçulmanos paquistaneses a defender a libertação de Bibi, para honrar o sentido mais profundo do Islão. A designada «Declaração de Islamabad» foi publicada no Domingo de Reis – numa feliz coincidência de calendário – e pede uma resolução rápida e justa para o processo de Bibi, em risco de vida, apesar de ter sido ilibada pelo Supremo, por continuar impedida de sair do país. Aquele texto lança uma esperança que vai além do caso da pobre camponesa, exigindo respeito pelas minorias de outros credos religiosos, em especial pelos cristãos, que são o alvo preferido dos fundamentalistas maometanos. Declara-se, com frontalidade: «matar sob o pretexto da religião é contrário aos preceitos do Islão»!

A corajosa «Declaração de Islamabad» visa pôr termo às perseguições religiosas perpetradas em nome da «lei da blasfémia», que vitimou Asia Bibi e cristãos menos conhecidos. [portal da AIS] 

Concluindo com a simbologia dos presentes de Melchior, Gaspar e Baltasar, recordo as palavras lúcidas de Bento XVI, a devolver actualidade à desproporção e aparente inadequação das ofertas valiosíssimas doadas a uma pobre família da Judeia. Talvez o significado da visita, em si, se descortine, como porta-vozes das gentes de boa-vontade em busca do Deus que vem ao encontro do ser humano e quer ampliar infinitamente o perímetro do pequeno mundo judaico. Mas, à parte desse salto qualitativo, que sentido fez – e faz – doar ouro, incenso e mirra (2) ? «Sem dúvida, não são dons que correspondem às necessidades primárias ou quotidianas. Naquele momento, a Sagrada Família certamente teria tido mais necessidade de algo diferente do incenso e da mirra, e nem sequer o ouro podia ser-lhe imediatamente útil. Mas estes dons têm um profundo significado: são um acto de justiça. Com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, representam o reconhecimento de uma pessoa como Deus e Rei: ou seja, são um acto de submissão. Querem dizer que a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem a sua autoridade.»

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1)   Na continuação do gin postado a 7 de Novembro de 2018.
(2)   Na tradição cristã, é comum associar-se o ouro à realeza e sabedoria de Jesus; o incenso, à sua divindade e ao poder da oração; a mirra, à sua humanidade e ao valor de todo o sacrifício/entrega em favor do próximo. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Avareza *

Pouco havia em Celeste que se diferenciasse da generalidade das mulheres. Tinha uma altura média, um beleza corrente, umas mãos equilibradas e de uma elegância quase corriqueira, um cabelo castanho muito claro que não se destacava por nada. No entanto, era dona de uns olhos azuis claros – claríssimos, mais precisamente – quase como se Deus quisesse que se assemelhassem ao Céu ou se a natureza tivesse olvidado um pouco mais de cor naquela transparência. Eram de uma estranha beleza – talvez pela sua raridade.

Num dia de Março, a tarde punha-se num calor manso enquanto o sol se escondia por trás dos prédios ao longe. Celeste cruzou-se no escritório com Ricardo Pires, o novo director financeiro, um profissional alto e esguio com umas mãos nervosas e um olhar irrequieto por trás de uns óculos sem história. Era o primeiro encontro

boa tarde, como tem passado
bem muito obrigada, senhor doutor

e o homem dos números não disfarçou o fascínio por aqueles olhos que eram de uma transparência tal que se poderia ver a alma através deles. A fixação era quase incomodativa, não fosse a Celeste ter sentido um ligeiríssimo aumento do batimento cardíaco, fruto daquelas coisas que a ciência não explica e a experiência chama nomes diferentes.

Alguns meses depois cruzaram-se num centro comercial, ela com um conjunto novo de atoalhados adquiridos em oportunidades imperdíveis, e ele com o Eurico o Presbítero debaixo do braço, numa edição anotada e antiga. Já se conheciam bem e o convite

Posso convidar-te para jantar, Celeste?
Claro, gosto muito

surgiu natural e esperado, como quem não se espanta com o pôr-do-sol ainda que se deixe fascinar por ele.

O Dr. Ricardo Pires revelou-se um conversador nato, culto, com um mundo extenso vivido fora das paredes de um escritório e da secura desinteressante dos gráficos, e citou Herculano

10 anos... Sabes tu, Hermengarda, o que é passar 10 anos amarrado ao próprio cadáver? Sabes tu o que são mil e mil noites consumidas a espreitar em horizonte ilimitado a estrela polar da esperança e, quando no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrela reluzir um instante e depois desfechar do céu nas profundezas do nada?

antes de a brindar com um fetuccine de mexilhões que perfumou com um xerez superior e com umas ervas aromáticas numa precisão de alquimista.

Entre adultos pode haver um momento, um instante, um ponto – talvez se possa chamar de não retorno – que separa o afastamento físico e a proximidade. Transposta essa porta - que é um levíssimo roçar de mãos, o contacto dos corpos numa passagem estreita, dois olhares que se fixam na embriaguez de um desejo – não há regresso possível e a expressão

há-de ser o que Deus quiser

é uma frase não descartável no domínio das possibilidades audíveis.

No dia seguinte, Celeste bebericava uma tisana com os olhos postos num folha diferente das oportunidades imperdíveis. Sabes Adília,

e a Adília a abanar a cabeça a garantir que sim, que sabia

há mais para além do sentido vulgar que damos às coisas, das definições a que fomos habituadas ao longo de séculos sem fim. Agarramo-nos a conceitos,

e a Adília num constante vaivém de cabeça, que sim, que sabia

mas nem tudo é assim. O que achei do Dr. Ricardo Pires? Um homem culto, que cozinha como ninguém, que tem um olhar irrequieto e viajante. Um homem à sua maneira sedutor. Mas, na escuridão de uma cama larga e à luz de uma vela ténue, revelou-se. E sabes o que achei?

e a Adília a responder que sim, que continuava a saber

Naquele quarto rico e bem decorado achei-o um homem avaro. Avareza, foi a palavra que me ocorreu. Não a do dinheiro ou dos bens materiais, como aprendemos. A ausência da generosidade física, da retribuição da carícia, do altruísmo sensual. Avareza, Adília. Avareza. Isso também é pecado?

JdB

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* publicado originalmente em 15.03.2010

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Duas Últimas

Mão amiga mandou-me o vídeo e a descrição abaixo. Conhecia a música - que acho muito bonita - não sabia nada do instrumento. Em bom rigor, parece-me que o instrumento se chama theremin, e não teremim, mas isso é irrelevante. Importante é a "mecânica" do instrumento e a sonoridade, que é fantástica. Espero que gostem.

JdB

***

Nesta orquestra há uma senhora que toca um instrumento musical que se chama TEREMIM. Trata-se de um instrumento Quântico e é tocado apenas com a energia das mãos. Somente 3 países no mundo têm escolas de música que ensinam a tocar TEREMIM: Rússia, Japão e Irlanda.

O som é Belíssimo! Imperdível!!!

domingo, 13 de janeiro de 2019

Festa do Baptismo do Senhor

EVANGELHO – Lc 3,15-16.21-22
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
o povo estava na expectativa
e todos pensavam em seus corações
se João não seria o Messias.
João tomou a palavra e disse-lhes:
«Eu baptizo-vos com água,
mas vai chegar quem é mais forte do que eu,
do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias.
Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo».
Quando todo o povo recebeu o baptismo,
Jesus também foi baptizado;
e, enquanto orava, o céu abriu-se
e o Espírito Santo desceu sobre Ele
em forma corporal, como uma pomba.
E do céu fez-se ouvir uma voz:
«Tu és o meu Filho muito amado:
em Ti pus toda a minha complacência».

sábado, 12 de janeiro de 2019

Pensamentos Impensados

Cuidados
S. José gritava: Oh Emanuel! Vem para dentro que ainda te constipas.

Incêndios
Elias subiu aos céus num carro de fogo; Elias seria bombeiro?

Trajes
A vestimenta que se usa durante o apagar de incêndios chama-se fogos-fatos.

Cruzes canhoto
Alvaro Cunhal instalou no seu automóvel um GPS, mas pouco tempo o usou: dizia-lhe para voltar à direita e ele embirrava.

Navegações
Vasco da Gama, quando saiu a barra, escreveu no GPS caminho marítimo para a Índia e o aparelho informou: siga por aí abaixo durante seis meses depois vire à esquerda e siga por aí acima.

Nova contagem
As pessoas da minha idade já não fazem anos, fazem séculos. Por exemplo: que idade tens? Tenho 93% do século.

SdB (I)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Poema para o dia que corre

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Duas Últimas

Provavelmente já o referi neste estabelecimento: a minha relação com o ballet moderno é fantástica desde que saiba que música vão tocar. Isto é, não me importo - até posso gostar - da modernidade da dança, mas não consigo gostar da coreografia, por mais fascinante que possa ser, se a música me desagradar. 

Um destes dias vi na televisão uma coreografia de Maurice Béjart sobre (será assim que se diz) a  9ª Sinfonia de Beethoven. Achei fascinante. O primeiro fascínio é este: como é que os dançarinos se lembram da complexidade da coreografia? Fica gravada em imagem e copiam? Se não há partitura nem registo escrito sobre o que devem fazer e quando... E depois, imagino que os dançarinos contam uma história: e que história é essa? O que leu Béjart da última sinfonia de Beethoven?

Deixo-vos com o 2º andamento, porque não consegui encontrar o 3º. Espero que gostem, como eu gostei.

JdB

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Poemas dos dias que correm

Kyoto, Novembro de 2018

Hino à Solidão

Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca
Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo
                                                                [aberto
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existências povoam:
Imagens, concepções, formas do sentimento,
— Sonhos puros que nele em beleza revoam
E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo chão onde se esconde e medra
A semente que vai germinar na Palavra,
Cantar no Som, flores na Cor, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador,
Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que ele se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou,
E em cuja criação o seu sangue palpita,
Que não há deus estranho aos orbes que formou.

Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades
Em que o Tempo se esvai sob o encanto da Hora...
O passado e o porvir são ânsias e saudades:
Só no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite não atinge,
Nem a Aurora desfaz: rosicler e luar,
Meia tinta em que a Alma abre os lábios de Esfinge,
E o seu mistério ensina a quem sabe escutar.

Mas então, inundando essa penumbra doce,
De não sei que sublime esplendor sideral,
Como se a emanação dum ser divino fosse,
Deixa no nosso olhar um reflexo imortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
Pára alguém para ouvir um coração que bate
No seio mais formoso, o olhar que se extasia
Vê o mundo que nele em ânsias se debate?

É só na solidão que a alma se revela,
Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,
A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela,
Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo...

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura,
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,
Como das mãos do artista, animando a escultura,
O mármore recebe a sua alma — a Beleza.

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento,
Como dum cálix cheio o líquido extravasa,
A Dor, que a Alma empolgou, transborda em
                                                          [pensamento,
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se
                                                                   [abrasa.

Como a montanha de oiro, a Alma, em seu
                                                             [mistério,
À superfície nunca o seu teor revela;
Só depois de sondado e fundido o minério
Se conhece a riqueza acumulada nela.

Corações que a Existência em tumulto arrebata!
Esse oiro só se extrai do minério candente,
No silêncio, na paz, na quietação abstracta,
Das estrelas do céu sob o olhar indulgente...

António Feijó, in 'Sol de Inverno'

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Textos dos dias que correm

O meu nome é paciência

«Há quem diga que no Paraíso, Deus chama cada eleito com o nome de uma virtude. Não poderá chamar-me Esperança: não esperei nenhuma alegria nem na Terra nem no Céu. Nem Fé: não estive certa. Nem Caridade: amei Deus e o próximo com parcimónia. Nem Generosidade: contei, pesei e medi tudo.

Nem Zelo: não tentei conquistar. Nem Pobreza: comprazo-me no meu bem-estar. Nem Humildade: comprazo-me dos meus pensamentos. Nem Sinceridade: não sou verdadeira. Nem Ciência: não tenho memória. Nem Piedade: não tenho ardor. O nome será o do burro: Deus chamar-me-á Paciência.»

A citação é hoje um pouco longa, mas as palavras da poetisa espiritual francesa Marie Nöel (1883-1967) no seu “Diário” secreto são tão límpidas, que não exigem longos comentários.

Ter a virtude do animal mais desprezado, mas também mais útil e simples, é na verdade uma qualidade importante que arrasta consigo outras virtudes de maneira implícita.

Numa sociedade como a nossa, que vive com frenesim, que não sabe esperar, que quer tudo “em tempo real”, que pragueja se está numa fila e o outro não se despacha, que “não tem tempo”, o convite à paciência pode parecer uma extravagância “de chinês” que não tem nada que fazer, como costuma dizer-se.

Em vez disso, todavia, seria preciso mais pensar naquilo que um escritor francês mais célebre, Honoré de Balzac, afirmou num dos três contos das “Ilusões perdidas” (1837-43): «A paciência é aquilo que no homem mais se assemelha ao procedimento que a natureza usa nas suas criações».

Para fazer um bebé são precisos nove meses e para escrever uma obra-prima talvez décadas. Não entremos neste ano novo querendo tudo e agora, mas entreguemo-nos à paciência que conhece os ritmos e os tempos da vida, e por isso gera serenidade e confiança.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins 
Publicado em 07.01.2019

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Dos feitios e do que não pode dizer-se

Num certo raciocínio menos óbvio, há certamente um equivalente masculino para a expressão instinto maternal, algo que esteja no outro extremo do mesmo contínuo verbal - e de género, como se diz agora. Talvez seja desejo sexual, à falta de uma ideia melhor e mais ajuizada. O instinto para as mulheres, o desejo para os homens. 

O mundo moderno instituiu a magreza como uma espécie de verdade absoluta, uma quase religião, um modo de vida. Para uma categoria de gente mais aguerrida, os gordos - que vão do excesso ponderal à obesidade mórbida - deveriam pertencer ao grupo dos cidadãos sobre os quais recairia um agravamento fiscal. A outro nível, a gordura, para além daquela que o corpo requer para uma subsistência saudável, é um afastamento da ordem saudável das coisas e o emagrecimento, mais do que uma opção estética, é o arrependimento dos laicos, uma (re)entrada na comunidade dos bons. 

O parágrafo sobre a gordura, a esbeltez e o emagrecimento não é despiciendo. Falamos de ditaduras de opinião, de imagem, de comportamento. Num certo plano da discussão, as pessoas querem-se magras porque isso é saudável, tanto na mente como no corpo. Num outro plano da discussão, as mulheres querem-se com instinto maternal, os homens com desejo sexual. Os planos são diferentes, a ditadura é a mesma: não passa pela cabeça de uma mulher dizer que não tem instinto maternal - embora muitas mulheres não o tenham - como não passa pela cabeça de um homem dizer que não tem desejo sexual, muito embora muitos possam não senti-lo. Por motivos que têm a ver com uma ancestralidade que não consigo discernir, pode reconhecer-se tudo, mas não a ausência de um ou de outro. O combate contra a ditadura do que parece bem tem um desfecho estatisticamente tendencioso.

Não gostamos de reconhecer falhas em nós próprios. Justificamos o que fazemos de menos bem com leituras erradas dos próximos, com erros de análise ou de percepção, com linguagens que os outros não entendem. Mas o facto é que somos o que somos, muitas vezes independentemente de quem está à nossa frente. E o facto, também, é que não realizamos que é verdadeiramente libertador dizermos que somos isto ou aquilo - egoístas, preguiçosos, orgulhosos - e como isso encetarmos um caminho qualquer. Afinal, foi para isto que se fez, não o 25 de Abril, mas o livre arbítrio: nada está escrito sem remissão no nosso cadastro, temos sempre hipóteses de melhorar ou, quem sabe, dizer que não temos instinto maternal ou desejo sexual - e nem por isso sermos menos santos nem amados. 

JdB   

       

domingo, 6 de janeiro de 2019

Solenidade da Epifania do Senhor

EVANGELHO – Mt 2,1-12

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. «Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-I’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam: «Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo Profeta:
‘Tu, Belém, terra de Judá,
não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-I’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.

***

Epifania, festa dos buscadores de Deus a caminho *

Epifania, festa dos buscadores de Deus, dos que estão longe, que se puseram a caminho atrás de um seu profeta interior, atrás de palavras como as de Isaías: ergue a cabeça e vê. Dois verbos belíssimos, ergue, eleva os olhos, olha para o alto e à tua volta, abre as janelas de casa ao grande respiro do mundo. E olha, procura uma fissura, um espaço de céu, uma estrela polar, e de lá interpreta a vida, a partir de uma perspetiva elevada.

O Evangelho (Mateus 2, 1-12) narra a procura de Deus como uma viagem, ao ritmo da caravana, nos passos de uma pequena comunidade: caminham juntos, atentos às estrelas e atentos uns aos outros. Fixando o céu e os olhos de quem caminho ao lado, abrandando o passo segundo a medida do outro, de quem está mais fatigado.

Depois, o momento mais surpreendente: o caminho dos magos está cheio de erros: perdem a estrela, encontram a grande cidade em vez da pequena povoação; perguntam pelo menino a um assassino de meninos; procuram um palácio e encontram um casebre. Mas têm a infinita paciência de recomeçar. O nosso drama não é cair, mas rendermo-nos às quedas.

E eis que vêem o Menino nos braços da mãe, prostram-se e oferecem-lhe presentes. O presente mais precioso que os magos levam não é o ouro, mas a sua própria viagem. O presente impagável são os meses passados à procura, andar e andar atrás de um desejo mais forte que desertos e fadigas. Deus deseja que tenhamos desejo dele. Deus tem sede da nossa sede: o nosso presente maior.

Entraram, viram o Menino e a sua Mãe e adoraram-no. Adoram um menino. Lição misteriosa: não o homem da cruz nem o ressuscitado glorioso, não um homem sábio de palavras de luz nem um jovem na plenitude do vigor, simplesmente um menino. Não é só no Natal que Deus é como nós, não só é o Deus connosco, mas é um Deus pequeno entre nós. E dele não se pode ter medo, e de um menino que se ama não pode haver distância.

Informai-vos com cuidado sobre o Menino, e depois transmiti-mo, para que também eu vá adorá-lo. Herodes é o homicida de sonhos ainda embrulhados em faixas, está dentro de nós, é o cinismo, o desprezo que destroem sonhos e esperanças. Gostaria de resgatar aquelas palavras da profecia de morte com que foram proferidas e repeti-las ao amigo, ao teólogo, ao artista, ao poeta, ao cientista, ao homem de rua, a cada um: encontraste o Menino?

Peço-te, continua à procura, cuidadosamente, na história, nos livros, no coração das coisas, no Evangelho e nas pessoas; continua a procurar atentamente, fixando os abismos do céu e os abismos do coração, e depois conta-mo como se conta uma história de amor, para que também eu vá adorá-lo, com os meus sonhos resgatados de todos os Herodes da história e do coração.


* Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 03.01.2019

sábado, 5 de janeiro de 2019

Pensamentos Impensados

Gramáticas
Miúdo é masculino e miúda é feminino. Amiúde deve ser  assexuado.

Futebóis
Um autogolo não é corriqueiro; dois é obra, e só à custa de muito treino. O Benfica não brinca em serviço.

Acordos
No Novo Acordo Ortográfico pretendeu-se incluir a palavra ssussesso sem ssussesso. Disseram que eram S a mais, e não foi para isso que se fez o 25 de Abril.

Carros
Os automóveis praticam auto-critica

Meteo
A previsão indica que a temperatura mínima ultrapassará a máxima.

Manipulações
Na posse do Presidente do Brasil houve linguagem gestual. Não percebi se era com pronúncia brasileira.

SdB (I)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Textos dos dias que correm *

Patrício, amo-te

«Um dia da minha vida, ao passar por uma estrada de Buenos Aires, vi uma frase numa parede. Tinta colorida numa superfície sem alma. Três palavras: "Patrício, amo-te. Papá". Nunca me tinha acontecido, em quase 50 anos, ter visto um grafito dedicado por um pai a um filho.»

Também gosto, quando caminho pelas ruas da minha cidade, de capturar um fragmento dos diálogos de pessoas, e das frases suspensas imaginar uma história que a elas seja subentendida.

Foi o que fez Walter Veltroni com o seu livro “Senza Patricio”, que partiu daquele curioso escrito mural. O político, escritor, jornalista, realizador e antigo presidente da Câmara Municipal de Roma imaginou cinco histórias que poderiam explicar aquela declaração.

Não querendo falar dessas histórias, mesmo se a sugestão que aquelas páginas oferecem é muito forte, gostaria, no entanto, de sublinhar um aspeto que vale para todas as relações humanas, ou seja, a necessidade de superar mais vezes o implícito.

Quantas vezes deixamos no coração sentimentos que não expressamos, quantas vezes detemos um gesto de ternura e bloqueamos na garganta uma palavra doce e sincera.

Talvez o pudor, ou a suspeita de nos excedermos e de sermos mal compreendidos, ou ainda a promessa de o fazermos ou dizermos noutra ocasião façam com que se extingam em nós muitos dons que poderiam tornar mais viva, fresca e jubilosa a nossa ligação com quem está junto de nós.

E assim pode acontecer que, após a morte da pessoa que nos é querida ou quando se consuma o afastamento, se lamente o ter ficado calado, o ter negado aquela pequena alegria ao outro, o não lhe ter confessado quanto era importante para nós.


* P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 03.01.2019

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Das metáforas numa Missa do Galo

Sou pessoa muito dada a metáforas: uso-as em conversas ou em discussões, amiúde para desespero velado ou acintoso de quem me ouve. Houve filósofos contemporâneos que escreveram abundantemente sobre o tema, mas estou demasiado preguiçoso para ir ver quem, quando e o quê. Por outro lado, sei que as festas, no seu sentido mais restrito, já terminaram. Não obstante, é da missa da noite de Natal que vou falar. 

Por motivos que não vêm ao caso, este ano não fui à Missa do Galo com as pessoas que me acompanham desde há muito, mas com alguém que, embora próximo, talvez nunca tenha ido a essa missa, ou tenha ido muito pouco. Talvez por isso, ou apenas porque sim, dei por mim a pensar noutras coisas, ou a fazer metáforas daquilo que, noutras circunstâncias, seria apenas acontecimentos vulgares. 

Cheguei à Igreja da Boa Novas, no Estoril, por volta das 23.45h, mais tarde do que é meu costume. Talvez por isso tenha visto tanta gente a aproximar-se de vários ângulos. Sentado no meu banco, e enquanto não começava a missa, fui vendo pessoas a chegar e a sentar-se; talvez tenha mesmo voltado a cabeça para trás para ver quem estava fora do meu ângulo normal de visão. Durante a missa olhei para o coro, que anima aquela missa, as dominicais e da Páscoa, há 40 anos talvez. 

Vi algo diferente? Não, não vi. As pessoas chegam, sentam-se, o coro canta. Ano após ano é isto. Só que, pela primeira vez, criei metáforas que só me encanta a mim, seguramente: se imaginarmos a Igreja da Boa Nova como o lugar geométrico de todas as igrejas do mundo, as pessoas que chegam de vários ângulos podem ser representativas das pessoas que se aproximam da Igreja Católica vinda de vários enquadramentos geográficos, sociais, económicos; gente que caminha na mesma direcção - naquele dia específico, da manjedoura onde estava o Menino Jesus. 

Olhar para as pessoas que entram na Igreja não é um exercício de mexeriquice social, não é uma curiosidade banal. Ver as pessoas  - ver aquelas pessoas - é tomar contacto com a comunidade, é cruzar-me com gente que vejo uma vez por ano, ou uma vez por semana, que faz parte da mesma paróquia do que eu, ou que eu cumprimento na rua porque os vejo nas celebrações pascais ou de Natal. Aquelas pessoas são a comunidade que, no mundo inteiro, se junta ao redor daquilo em que acredita.

Por último, ver o coro não é só ver o coro. A ideia de ver, nalguns casos, a terceira geração a cantar, não é apenas uma curiosidade familiar ou estatística. Dá-me uma noção de continuidade, de perenidade e renovação. Naquele coro já morreu gente, já nasceu gente, já saiu gente e já entrou gente. Muitos são membros da mesma família - da minha família, também. No seu conjunto, o coro não é mais do que uma fotografia da igreja de sempre: a continuidade no essencial, apesar de outras caras, outras vozes, outros timbres, outros estilos.

JdB

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

AREIA CONVERTE-SE EM PRESÉPIO, NO VATICANO 

Este ano, a presença da Gruta de Belém na Praça de S. Pedro é surpreendente, composta pela areia das praias e dos desertos. Neste caso, vem de um povoado marítimo da província de Veneza – Jesolo. 

Imagem de REUTERS/Alessandro Bianchi, de 6.Dez.2018. 

A extrema pobreza e fragilidade do material contrasta com a escultura magistral, que se submeteu a uma beleza de duração breve, como os fósforos que aqueceram um pouco a noite gélida da menina do célebre conto de Hans Christian Andersen.

Explica Richard Varano: «It’s an ephemeral art in the sense that it is not intended to last forever, (…) even though we could make it last indefinitely if we wanted to.»  Imagem da REUTERS/Alessandro Bianchi [https://www.newsbook.com.mt/artikli/2018/12/06/photos-vaticans-st-peters-square-gets-720-ton-sand-nativity-scene/?lang=en8]. 

A Natividade instalada no exterior da Basílica de S.Pedro partiu da iniciativa de um americano premiado na arte efémera da moldagem na areia. A envergadura da obra levou-o a formar equipa com outros craques, redundando numa parceria entre os EUA, a Rússia, a Holanda e a República Checa. Qual jogo sem-fronteiras entre ocidentais imbuídos de Boa-Vontade e talento, a internacionalidade do quarteto confirmou os méritos da entreajuda.  

A holandesa, o russo, o norte-americano e o checo. 

Numa explosão artística que guardou o melhor das brincadeiras da infância, o Presépio do Vaticano acabou por ter origem na ousadia do mais velho dos 4 escultores – o americano nascido junto a uma das praias da Flórida, que arriscou especializar-se no jogo da mais tenra idade. Colocar uma das suas obras-primas no coração da Cidade Eterna tocou-lhe fundo, sentindo a vizinhança da Arte de génios como Leonardo, Michelangelo, Rafael, Bernini, etc. Assumiu sentir-se um anão, por múltiplas razões: «It is an incredibly humbling experience to be here (…) To be surrounded by such history, and art, and beauty, and magnificence, is quite humbling. (…) In the big picture, the largest difference probably between this and any other show I’ve done is it’s all about the sand sculpture, but we’re like the smallest part of the whole [operation] (…) kind of dwarfs what us sculptors are doing. We’re here for 15 days doing the sculpture, but I was also here for a week before doing the preparation.»

Sobre a escolha do Presépio diz Varano: «The theme and the motif of the nativity is just such a graceful and joyful experience, whether you’re working to create something that reflects it or just experiencing it by seeing it. (…) For me that’s been such a spiritual fulfillment.» Imagem da BBC [www.bbc.com/news/world-europe-46591761].

Resguardado numa estrutura de vidro construída para o efeito,  o Presépio estará patente até 13 de Janeiro. 

Os números deste Presépio são impressionantes e a mensagem que o Papa Francisco retirou de uma obra tão invulgar também, reavivando o sentido ulterior do nascimento de Jesus(1):   

«Este ano, o presépio da praça de S. Pedro é uma escultura de areia com 16 m de comprimento, 5 m de altura e 6 m de profundidade. Foram precisos 20 camiões grandes para transportar 700 toneladas de areia oriunda de Jesolo, no Norte de Itália, para a praça de S. Pedro. 10 operários realizaram a operação de compactar a areia, para a tornar mais consistente, e depois montaram a cobertura que protege o conjunto da intempérie. Nas duas semanas seguintes, 4 escultores internacionais com experiência neste tipo de material juntaram esforços para esculpir as figuras: Richard Varano (dos Estados Unidos), Ilya Filimontsev (da Rússia), Susanne Ruseler (da Holanda) e Rodovan Ziuny (da República Checa). Richard Varano conquistou 11 vezes o título mundial de escultura na areia e os outros são também escultores de topo na especialidade.

O relevo divide-se em três grandes painéis: a Sagrada Família no centro, do lado esquerdo a adoração dos pastores e à direita os reis magos. Além disso, vários Anjos povoam o cenário. Todas as figuras convergem para o Menino Jesus, em grande destaque.

O município de Jesolo organiza presépios de areia há bastantes anos, mas desta vez o desafio era maior. Os 4 escultores escolhidos pelo município não queriam apenas surpreender turistas, queriam levar os peregrinos a rezar. (…) (O) momento culminante das duas semanas de trabalho foi o dia 7 de Dezembro, quando Francisco desceu à praça de S.Pedro, para ver o presépio e a árvore de Natal que o acompanha. Entusiasmado com a expressividade e beleza do conjunto, o Papa alongou-se numa meditação profunda sobre o Natal, transmitida na televisão de vários países.

A árvore e o presépio são «dois sinais que nunca perdem a força do seu fascínio e nos ajudam a contemplar o mistério de Deus feito Homem para estar próximo de cada um de nós» – disse Francisco. «Este abeto vermelho, com uma altura de mais de 20 m, simboliza Deus que, com o nascimento do seu Filho Jesus, Se abaixa até aos homens para os levantar dos nevoeiros do egoísmo e do pecado. O Filho de Deus assume a condição humana para a atrair a Si e a tornar participante da sua natureza divina e incorruptível».

A areia daquele presépio, «material pobre, simboliza a simplicidade, a pequenez com que Deus Se mostrou no nascimento de Jesus, na acomodação precária de Belém. Poderíamos pensar que esta pequenez esteja em contradição com a divindade, a tal ponto que alguns consideraram [a humanidade de Cristo] como se fosse uma aparência, um revestimento. Pelo contrário. A pequenez é liberdade. Quem é pequeno, no sentido evangélico, não só anda ligeiro, mas livre de toda a mania de aparecer e de toda a pretensão de sucesso; como as crianças que se expressam e vivem com espontaneidade. Todos somos chamados a ser livres diante de Deus, a ter a liberdade de uma criança diante do seu Pai. O Menino Jesus, Filho de Deus e nosso Salvador, aqui no presépio, é Santo na pobreza, na pequenez, na simplicidade, na humildade». (…)

Para aqueles escultores e para toda a equipa, o presente de Natal tinha chegado mais cedo (…) (ao) ouvir a sua obra interpretada ao vivo pelo próprio Papa!….» 

Artigo gentilmente cedido pelo autor
José Maria C.S. André, publicado a 17 de Dez.2018, em media e blogs 

Aos que embarcaram na aventura de trazer um areal para o Vaticano e transfigurá-lo em Natividade aplica-se a máxima do grande Mestre da língua portuguesa:

«PARA ENSINAR É PRECISO AMAR E SABER,  PORQUE
     QUEM NÃO AMA NÃO QUER, E QUEM NÃO SABE NÃO PODE.»
                          _________________________
             P.António Vieira (1608-1697) in «Sermão do Espírito Santo», Parte II.

No fundo, amar, saber e dar-se têm o expoente num Nome que, no Natal, nos é oferecido por inteiro, para re-insuflar de vida o Novo Ano. Os verbos fortes escolhidos por Vieira evocam o essencial sobre o Menino de Nazaré: na génese do Amor a gratuitidade; no expoente da Omnisciência a Caridade. O primeiro doa-se livremente. O segundo oferece quanto é ao partilhar quanto tem, quanto pode, quanto sabe. Só por si, conhecer muito, dá em pouco para falar à humanidade e fazer eco até ao fundo da alma… pelo que o conselho de Vieira nos interpela a uma sabedoria bondosa, ideal para entrar em 2019.

Continuação de B O A S – F E S T A S  a todos,

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)

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